{"id":18248,"date":"2018-01-08T09:53:15","date_gmt":"2018-01-08T12:53:15","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=18248"},"modified":"2018-01-07T17:01:22","modified_gmt":"2018-01-07T20:01:22","slug":"coluna-prestes-e-historia-oficial-falsificacao-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18248","title":{"rendered":"A Coluna Prestes e a hist\u00f3ria oficial: a falsifica\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.gazetadopovo.com.br\/ra\/media\/Pub\/GP\/p3\/2011\/11\/26\/VidaCidadania\/Imagens\/Anita_Leocadia_261111.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por Anita Leocadia Prestes<\/p>\n<p>Ao considerarmos que vivemos numa sociedade dividida em classes antag\u00f4nicas, na qual a burguesia det\u00e9m o poder de Estado e controla os principais meios de comunica\u00e7\u00e3o, somos obrigados a reconhecer que a <i>hist\u00f3ria oficial<\/i> \u2013 aquela que \u00e9 ensinada nas escolas e difundida pelos principais ve\u00edculos de divulga\u00e7\u00e3o \u2013 expressa os interesses dos setores dominantes nesse Estado burgu\u00eas.<\/p>\n<p>Dessa forma, os \u201cintelectuais org\u00e2nicos\u201d (express\u00e3o cunhada por Ant\u00f4nio Gramsci) da burguesia, ou seja, os intelectuais que consciente ou inconscientemente servem aos interesses dessa classe s\u00e3o sempre levados a elaborar a <i>hist\u00f3ria oficial<\/i>. Abdicam, portanto, de qualquer compromisso com a \u201csupremacia da evid\u00eancia\u201d, que, para o historiador, segundo Eric Hobsbawm, deve ser o \u201cfundamento de sua disciplina\u201d.<sup>1<\/sup><\/p>\n<p>A <i>hist\u00f3ria oficial<\/i> da Coluna Prestes \u2013 a epopeia brasileira da Marcha que percorreu 25 mil quil\u00f4metros pelo Brasil, durante mais de dois anos na d\u00e9cada de vinte do s\u00e9culo passado, sem sofrer nenhuma derrota, vencedora de dezoito generais do Ex\u00e9rcito brasileiro, lutando objetivamente contra o dom\u00ednio do poder de Estado pelas oligarquias agr\u00e1rias \u2013 \u00e9 mais um exemplo dessa falta de compromisso com a \u201csupremacia da evid\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Na minha tese de doutoramento, publicada posteriormente em livro, reeditado em quatro edi\u00e7\u00f5es<sup>2<\/sup>, pude demonstrar, atrav\u00e9s de pesquisa realizada em numerosas fontes documentais, que a forma\u00e7\u00e3o da Coluna Prestes teve lugar no Noroeste do estado do Rio Grande do Sul, no final de 1924. Em manobra que inaugurou a original estrat\u00e9gia da chamada <i>guerra de movimento<\/i>, os 1.500 combatentes sob o comando de Luiz Carlos Prestes, ent\u00e3o jovem capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito, romperam o cerco da cidade de S\u00e3o Luiz Gonzaga, constitu\u00eddo por 14 mil homens das tropas governistas, considerado ent\u00e3o intranspon\u00edvel. Tinha in\u00edcio a Marcha da Coluna Invicta, \u00e0 qual, por escolha dos seus participantes, Prestes emprestaria seu nome.<sup>3<\/sup><\/p>\n<p>Vencendo toda sorte de dificuldades e sob o fogo constante das for\u00e7as militares mobilizadas pelo governo de Artur Bernardes, a Coluna Prestes atravessou os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, chegando vitoriosa, em abril de 1925, \u00e0 regi\u00e3o de Foz do Igua\u00e7u no estado do Paran\u00e1. Enquanto isso, acossados pelas tropas federais comandadas pelo general C\u00e2ndido Mariano Rondon, os rebeldes paulistas que haviam se levantado na capital de S\u00e3o Paulo em julho de 1924, sob o comando do general Isidoro Dias Lopes e do major da For\u00e7a P\u00fablica desse estado Miguel Costa, encontravam-se nessa regi\u00e3o desde agosto daquele ano. Em contraste com a estrat\u00e9gia que fora inaugurada pela Coluna Prestes, era adotada por eles a chamada <i>guerra de posi\u00e7\u00e3o<\/i>, tradicionalmente empregada pelo Ex\u00e9rcito brasileiro<i>,<\/i> o que resultara em repetidas derrotas frente ao poderoso inimigo, a mais grave na cidade de Catanduvas.<sup>4<\/sup><\/p>\n<p>Durante reuni\u00e3o realizada com a participa\u00e7\u00e3o de Prestes e dos chefes militares paulistas, ficaria evidente que estes se consideravam derrotados e, na sua maioria, pretendiam optar pelo ex\u00edlio. Era uma solu\u00e7\u00e3o inaceit\u00e1vel pelos combatentes da Coluna Prestes que, vitoriosa, pretendia dar continuidade ao p\u00e9riplo pelo Brasil. O major Miguel Costa e alguns poucos chefes paulistas aceitaram os argumentos de Prestes e decidiram incorporar as tropas rebeldes paulistas \u00e0 Coluna Prestes, ent\u00e3o reorganizada com a participa\u00e7\u00e3o de ga\u00fachos e paulistas. Foi criada a 1\u00aa Divis\u00e3o Revolucion\u00e1ria, constitu\u00edda pelas brigadas \u201cS\u00e3o Paulo\u201d e \u201cRio Grande\u201d. Por ser o oficial mais velho entre os que permaneceram na Marcha, Miguel Costa foi nomeado seu comandante. Prestes seria o chefe do Estado Maior. Devido \u00e0 lideran\u00e7a por ele exercida, Miguel Costa na pr\u00e1tica lhe viria a entregar o comando da Coluna. No Paran\u00e1, na realidade, houve a incorpora\u00e7\u00e3o das tropas paulistas \u00e0 Coluna Prestes.<sup>5<\/sup><\/p>\n<p>Embora as conclus\u00f5es apresentadas em minha tese de doutoramento sejam de conhecimento p\u00fablico h\u00e1 quase trinta anos, a <i>hist\u00f3ria oficial<\/i> insiste em ignorar os acontecimentos relacionados com o rompimento do cerco de S\u00e3o Luiz Gonzaga, a forma\u00e7\u00e3o da Coluna Prestes no Rio Grande do Sul, sua marcha vitoriosa at\u00e9 o Paran\u00e1, as derrotas sofridas pelos rebeldes de S\u00e3o Paulo e a incorpora\u00e7\u00e3o das tropas paulistas \u00e0 coluna comandada por Luiz Carlos Prestes.<\/p>\n<p>Na medida em que Prestes aderiu ao comunismo e, a partir dos anos trinta, tornou-se a lideran\u00e7a comunista mais destacada no Brasil, as classes dominantes do pa\u00eds e seus <i>intelectuais org\u00e2nicos <\/i>desenvolveram \u2013 e continuam a desenvolver \u2013 esfor\u00e7os para apagar seu protagonismo na hist\u00f3ria do s\u00e9culo XX e produzir uma <i>hist\u00f3ria oficial<\/i> em que tanto a Coluna Invicta quanto outros epis\u00f3dios desse per\u00edodo s\u00e3o deliberadamente distorcidos e falsificados.<\/p>\n<p>Em texto recentemente publicado pelo Instituto Moreira Salles<sup>6<\/sup>, mais uma vez se afirma que \u201cas colunas, unidas, resolveram iniciar uma nova marcha, que se torna o ponto de partida da chamada Coluna Miguel Costa-Prestes\u201d<sup>7<\/sup>, reiterando a vers\u00e3o consagrada pela <i>hist\u00f3ria oficial<\/i>, segundo a qual n\u00e3o s\u00e3o reconhecidos os sucessos da Coluna Prestes formada no Rio Grande do Sul, as derrotas dos paulistas no Paran\u00e1 e a incorpora\u00e7\u00e3o destes \u00e0s tropas chegadas do Sul. \u00c9 a forma encontrada de minimizar o protagonismo de Luiz Carlos Prestes n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 frente da Marcha da Coluna, mas tamb\u00e9m sua atua\u00e7\u00e3o destacada durante os anos que se seguiram, privando as novas gera\u00e7\u00f5es do conhecimento de suas propostas e do seu legado revolucion\u00e1rio voltado para a solu\u00e7\u00e3o dos graves problemas enfrentados pelo povo brasileiro.<\/p>\n<p>Outro exemplo retirado do mesmo texto diz respeito ao epis\u00f3dio protagonizado por Lampi\u00e3o e pelo Padre C\u00edcero, quando o sacerdote atraiu o chefe cangaceiro a Juazeiro do Norte para oferecer-lhe, em nome do presidente Artur Bernardes, a patente de capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito, assim como dinheiro, armamento, muni\u00e7\u00e3o e fardamento ao seu bando, com o objetivo de que participasse da persegui\u00e7\u00e3o \u00e0 Coluna Prestes. Segundo o relato de Prestes<sup>8<\/sup>, Lampi\u00e3o optou por n\u00e3o combater os rebeldes da Marcha, afirma\u00e7\u00e3o que, contudo, \u00e9 posta em d\u00favida no referido texto. Mais um exemplo do empenho da <i>hist\u00f3ria oficial <\/i>em promover o descr\u00e9dito do comandante da Coluna.<sup>9<\/sup><\/p>\n<p>Numerosos exemplos de falsifica\u00e7\u00e3o pela <i>hist\u00f3ria oficial<\/i> de acontecimentos hist\u00f3ricos que contaram com a participa\u00e7\u00e3o de Luiz Carlos Prestes e dos comunistas poderiam ser citados. No texto publicado pelo Instituto Moreira Salles, volta-se a repetir o chav\u00e3o de que Prestes teria apoiado o movimento \u201cqueremista\u201d<sup>10<\/sup>, que durante o ano de 1945 demandava uma \u201cConstituinte com Get\u00falio\u201d, quando pesquisas realizadas em documentos desse per\u00edodo revelam que isso n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade, pois a posi\u00e7\u00e3o dos comunistas e de Prestes \u00e0 \u00e9poca era de luta por uma Constituinte livremente eleita e democr\u00e1tica.<sup>11<\/sup><\/p>\n<p>Diante do exposto, cabe aos historiadores e aos cientistas sociais, alinhados com a perspectiva de que a produ\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica deva contribuir para o avan\u00e7o dos setores sociais que se batem por um futuro de justi\u00e7a social e liberdade para toda a humanidade, n\u00e3o poupar esfor\u00e7os no combate \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es resultantes de narrativas marcadas pela falsifica\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria de acordo com os interesses antipopulares e esp\u00farios dos donos do poder.<\/p>\n<p>Defendamos uma hist\u00f3ria comprometida com a \u201csupremacia da evid\u00eancia\u201d, conforme postulava Eric Hobsbawm.<\/p>\n<p>Em janeiro de 2018.<\/p>\n<p>1. Eric Hobsbawm, Sobre a hist\u00f3ria (S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras, 1998), p.286.<\/p>\n<p>2. Anita Leocadia Prestes, A Coluna Prestes (S\u00e3o Paulo, Paz e Terra, 1997), 4\u00aa edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>3. Ibidem, cap\u00edtulo III.<\/p>\n<p>4. Ibidem, cap\u00edtulo IV.<\/p>\n<p>5. Idem.<\/p>\n<p>6. Angela de Castro Gomes, \u201cA Rep\u00fablica dos bombardeios\u201d, em Angela Alonso e Heloisa Espada (org.), Conflitos: fotografia e viol\u00eancia pol\u00edtica no Brasil, 1889-1964 (S\u00e3o Paulo, IMS, 2017), p.149 a175.<\/p>\n<p>7. Ibidem, p.158.<\/p>\n<p>8. Anita Leocadia Prestes, A Coluna Prestes, cit., p.245-246, 252.<\/p>\n<p>9. Angela de Castro Gomes, \u201cA Rep\u00fablica dos bombardeiros\u201d, cit., p.159-160.<\/p>\n<p>10. Ibidem, p.172.<\/p>\n<p>11. Ver Anita Leocadia Prestes, Os comunistas brasileiros (1945-1956\/58): Luiz Carlos Prestes e a pol\u00edtica do PCB (S\u00e3o Paulo, Brasiliense, 2010), p. 73-74.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18248\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50,46],"tags":[222],"class_list":["post-18248","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","category-c56-memoria","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4Kk","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18248","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18248"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18248\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18248"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18248"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18248"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}