{"id":18267,"date":"2018-01-09T11:55:54","date_gmt":"2018-01-09T14:55:54","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=18267"},"modified":"2018-01-24T17:35:27","modified_gmt":"2018-01-24T20:35:27","slug":"sim-ainda-ha-tempo-para-uma-verdadeira-alternativa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18267","title":{"rendered":"Sim, ainda h\u00e1 tempo para uma verdadeira alternativa"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"Sim, ainda h\u00e1 tempo para uma verdadeira alternativa\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.revistaforum.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/fhc-dilma-aecio.jpg\" alt=\"Sim, ainda h\u00e1 tempo para uma verdadeira alternativa\" \/><!--more--><strong>Uma an\u00e1lise do texto \u201cAinda h\u00e1 Tempos?\u201d de FHC.<\/strong><\/p>\n<p>Gabriel Magalh\u00e3es*<\/p>\n<p>Em artigo publicado no \u00faltimo domingo, 07 de janeiro, no Estado de S\u00e3o Paulo, o ex-Presidente e soci\u00f3logo Fernando Henrique Cardoso (FHC) pintou um quadro sombrio para o mundo e, em especial, para o Brasil.<\/p>\n<p>Segundo ele, o \u201cmundo parece percorrer um longo ciclo de deszar\u00e3o\u201d, o qual pode conduzi-lo a mais uma Guerra Mundial. A despeito do bom senso e da raz\u00e3o, que buscariam \u2013 sem sucesso &#8211; instaurar uma ordem social equilibrada e previs\u00edvel, tem prevalecido \u201cas f\u00farias pol\u00edticas e religiosas dos fan\u00e1ticos\u201d (Boko Haram, Al-Qaeda, Estado Isl\u00e2mico), o crime organizado de fuzil nas m\u00e3os nas cidades brasileiras e a \u201ccorrup\u00e7\u00e3o praticada por criminosos de colarinho branco, em escala e despudor sem precedentes\u201d (essa \u00faltima afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00edpica do imagin\u00e1rio da direita contra os governos por ela considerados de esquerda: \u201croubam mais\u201d).<\/p>\n<p>\u201c[Qual] tem sido a resposta dos povos\u201d diante desse ciclo da desraz\u00e3o? Para o tucano, as respostas t\u00eam sido, digamos, pr\u00f3-c\u00edclicas: os povos est\u00e3o caminhando para \u201cnovas tempestades\u201d, o que ficaria patente nas elei\u00e7\u00f5es de Trump nos EUA, no avan\u00e7o da extrema-direita na Hungria, Pol\u00f4nia e \u00c1ustria e, por fim, com o risco real de que for\u00e7as \u201cextremadas\u201d sejam eleitas nas elei\u00e7\u00f5es de outubro no Brasil. Clama-se, por fim, para que as \u201cfor\u00e7as n\u00e3o extremadas\u201d, razo\u00e1veis, de bom senso, ajam com responsabilidade a fim de criarem alternativas, afinal, \u201co pior sempre pode acontecer\u201d.<\/p>\n<p>Feita essa breve exposi\u00e7\u00e3o das ideias do autor, te\u00e7amos algumas considera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, cabe a reflex\u00e3o a respeito de que \u201craz\u00e3o\u201d FHC se refere e defende. Ora, para o soci\u00f3logo a \u201craz\u00e3o\u201d que produziria o bom senso \u00e9 sin\u00f4nimo de imp\u00e9rio das for\u00e7as do mercado, a subsun\u00e7\u00e3o das sociedades ao capital financeiro, o qual seria o demiurgo da democracia liberal, \u00fanica forma pol\u00edtica poss\u00edvel \u00e0 humanidade. Fora dela o que h\u00e1 \u00e9 desraz\u00e3o, os universos totalit\u00e1rios da extrema direita ou do \u201csocialismo\u201d. N\u00e3o \u00e0 toa, o desarrazoado Trump venceu \u201ccontrariando o establishment, os partidos [da ordem], boa parte da m\u00eddia e de Wall Street\u201d. Fica evidente que o limiar que separa a raz\u00e3o da desraz\u00e3o \u00e9 o Deus ex machina, o capital. O que FHC chama de \u201craz\u00e3o\u201d o fil\u00f3sofo h\u00fangaro Georgy Luk\u00e1cs chamaria de \u201cmis\u00e9ria da raz\u00e3o\u201d, sua escraviza\u00e7\u00e3o aos des\u00edgnios do capital, que progressivamente se distancia das efetivas necessidades humanas, o que fica expresso na deslegitima\u00e7\u00e3o galopante que a democracia liberal-burguesa goza entre os trabalhadores de todo o mundo.<\/p>\n<p>FHC sintomaticamente esquece que foi justamente o capital monopolista que erigiu os regimes pol\u00edticos mais b\u00e1rbaros da hist\u00f3ria. O nazifascismo n\u00e3o foi produto da derrota pol\u00edtica e ideol\u00f3gica do capital financeiro, mas sim consequ\u00eancia das suas necessidades e vit\u00f3ria. O mesmo poder\u00edamos falar do colonialismo dos pa\u00edses centrais \u201cliberais\u201d.<\/p>\n<p>No capitalismo dependente latino-americano n\u00e3o \u00e9 de hoje que FHC endeusa o papel progressista, qui\u00e7\u00e1 civilizat\u00f3rio, do capital monopolista internacional. Sua teoriza\u00e7\u00e3o liberal reconhece a depend\u00eancia da regi\u00e3o frente ao capitalismo dos pa\u00edses centrais, entretanto, esta depend\u00eancia n\u00e3o necessariamente produziria fen\u00f4menos inerentes a tal condi\u00e7\u00e3o, como superexplora\u00e7\u00e3o, subemprego, marginaliza\u00e7\u00e3o e exclus\u00e3o social. Ao contr\u00e1rio, a depend\u00eancia poderia ser ben\u00e9fica ao Brasil caso os inimigos do desenvolvimento, o populismo e o corporativismo, fossem banidos, sen\u00e3o da sociedade civil, ao menos do Estado. A compatibilidade da democracia liberal no capitalismo dependente permitiria um futuro promissor, desde que tais democracias n\u00e3o fossem novamente acometidas com o populismo, desde que a reg\u00eancia da \u201craz\u00e3o\u201d do capital monopolista se efetivasse sem desvios de rota.<\/p>\n<p>O Brasil corre o risco de recrudescer a \u201cdesraz\u00e3o\u201d caso venha eleger em outubro o \u201ccapit\u00e3o irado de cujas propostas pouco se sabe\u201d (Bolsonaro) ou o \u201cl\u00edder populista\u201d acusado ou mesmo condenado de corrup\u00e7\u00e3o. O receio do segundo \u00e9 muito maior do que do primeiro, posto que o \u201clulopetismo\u201d \u201cproduziu\u201d o \u201cdescalabro econ\u00f4mico-financeiro\u201d ao patrocinar o \u201ccapitalismo de la\u00e7os\u201d.<\/p>\n<p>Trata-se da reafirma\u00e7\u00e3o da j\u00e1 surrada tese liberal produzida na USP segundo a qual o que desvia o Brasil da rota do desenvolvimento \u00e9 o patrimonialismo, levado a cabo n\u00e3o somente pelas velhas oligarquias agr\u00e1rias, mas tamb\u00e9m p\u00f3s-1930 pelas corpora\u00e7\u00f5es de interesse como os trabalhadores e seus organismos de representa\u00e7\u00e3o. A abertura ao capital monopolista nos anos 90 veio, segundo sua tese, para dissolver esses \u201cla\u00e7os\u201d esp\u00farios entre o p\u00fablico e o privado, instaurando um capitalismo \u201cpuro\u201d, depurado de interven\u00e7\u00f5es pol\u00edticas nacionalistas e populistas. A avers\u00e3o dos tucanos pelos direitos sociais e pelas pol\u00edticas nacional-desenvolvimentistas significaria a marcha da \u201craz\u00e3o\u201d contra a \u201cdesraz\u00e3o\u201d, a afirma\u00e7\u00e3o da democracia liberal contra o populismo cujo desdobramento necess\u00e1rio \u00e9 o Estado autorit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Segunda a l\u00f3gica do tucano, essas chagas brasileiras, ou dos pa\u00edses dependentes, come\u00e7aram a ser extirpadas em seu governo, contudo, regressaram com for\u00e7a durante os governos \u201clulopetistas\u201d. FHC em seu texto aponta o sujeito social que as trouxeram de volta em 2002 e ocorre o risco de traz\u00ea-las novamente: os benefici\u00e1rios do Bolsa Fam\u00edlia. Ironicamente, FHC ao expressar o elitismo preconceituoso para com os trabalhadores pobres, essa massa ignara que custa ao pa\u00eds o regresso ao populismo, ao capitalismo de la\u00e7os e \u00e0 desraz\u00e3o, acaba por reconhecer \u2013 queira ou n\u00e3o &#8211; que a \u201craz\u00e3o\u201d do Deus ex machina do capital monopolista n\u00e3o superou a depend\u00eancia e seus efeitos. O efeito colateral inelimin\u00e1vel da depend\u00eancia &#8211; mis\u00e9ria, exclus\u00e3o \u2013 \u00e9 al\u00e7ado \u00e0 causa dos nossos males, os quais supostamente seriam solapados com a democracia liberal.<\/p>\n<p>Como fez com sua an\u00e1lise da ditadura empresarial-militar, mais uma vez FHC isenta de culpa o capital monopolista pelos \u201cdescalabros\u201d no pa\u00eds. A culpa s\u00e3o dos pobres \u00e1vidos por populismo.<\/p>\n<p>\u00c0s v\u00e9speras do julgamento de Lula (PT), que pode resultar no seu banimento pol\u00edtico, o texto de FHC busca arregimentar a direita \u2013 e tamb\u00e9m os \u201csetores ponderados da esquerda\u201d, sabe l\u00e1 o que seja isso \u2013 a fim de firmarem uma unidade contra o \u201cpior\u201d. Pelo esp\u00edrito do texto e do autor, n\u00e3o \u00e9 exagerado afirmar que para ele o plano A seja o banimento do ex-Presidente, que a \u201craz\u00e3o\u201d se expresse pelo Judici\u00e1rio como tem ocorrido at\u00e9 aqui ao chancelar o golpe de 2015 e o desmonte dos direitos sociais e do patrim\u00f4nio p\u00fablico. Mas na hip\u00f3tese da \u201craz\u00e3o\u201d n\u00e3o se consubstanciar de toga, FHC se adianta e alerta \u00e0 direita &#8211; dividida por disputas internas &#8211; que a sua unidade \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o para vencer a \u201cdesraz\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A ast\u00facia do soci\u00f3logo em se colocar como ide\u00f3logo dos interesses estrat\u00e9gicos do grande capital \u00e9 inequ\u00edvoca, isso ficou claro no per\u00edodo de \u201ctransi\u00e7\u00e3o transada\u201d \u00e0 democracia liberal. Por interm\u00e9dio dele pode-se afirmar que, hoje, a candidatura de Lula e o PT s\u00e3o considerados \u201cdesraz\u00f5es\u201d para o capital, um verdadeiro desvio de rota populista que ele n\u00e3o est\u00e1 interessado a tolerar. Ainda que Lula e o PT tentem reatar os la\u00e7os com o capital, este n\u00e3o os veem \u00e0 altura da tarefa hist\u00f3rica demandada pela classe dominante em cen\u00e1rio de forte crise.<\/p>\n<p>Sim, ainda h\u00e1 tempo para uma verdadeira alternativa \u00e0 miser\u00e1vel raz\u00e3o do capital em tempos de crise sist\u00eamica. A \u201cdesraz\u00e3o\u201d para FHC \u00e9, na verdade, a liberta\u00e7\u00e3o da \u201cRaz\u00e3o\u201d da escravid\u00e3o \u00e0 qual foi submetida pelo grande capital; essa Raz\u00e3o liberta deve ser capaz de operar a cr\u00edtica radical ao capitalismo dependente e \u00e0 democracia liberal na depend\u00eancia, passando inevitavelmente pela cr\u00edtica da direita e da esquerda da ordem, posto que mesmo essa segunda n\u00e3o ofereceu uma efetiva alternativa para a classe trabalhadora, sen\u00e3o o desenvolvimento da depend\u00eancia com anest\u00e9sicos tempor\u00e1rios \u00e0 mis\u00e9ria absoluta. A sa\u00edda vem, portanto, da Raz\u00e3o, a qual s\u00f3 pode ser liberta pelo radicalismo das classes subalternas, produzindo-se o resgate das transforma\u00e7\u00f5es estruturais da nossa sociedade e a edifica\u00e7\u00e3o de formas de poder estranhas ao paradigma liberal.<\/p>\n<p>*Soci\u00f3logo, professor e militante do PCB de Alalgoas<\/p>\n<p>REFER\u00caNCIAS<\/p>\n<p>CARDOSO, Fernando Henrique. Ainda h\u00e1 Tempo? Acesso: <a href=\"http:\/\/opiniao.estadao.com.br\/noticias\/geral,ainda-ha-tempo,70002140809\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">http:\/\/opiniao.<wbr \/>estadao.com.br\/\u2026\/geral,ainda-<wbr \/>ha-tempo,700021\u2026<\/a><br \/>\nDOS SANTOS, Theotonio. Teoria da Depend\u00eancia: balan\u00e7os e perspectivas. Editora Insular, 2015.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18267\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[],"class_list":["post-18267","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4KD","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18267","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18267"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18267\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18267"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18267"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18267"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}