{"id":18292,"date":"2018-01-10T14:19:13","date_gmt":"2018-01-10T17:19:13","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=18292"},"modified":"2018-01-14T08:54:12","modified_gmt":"2018-01-14T11:54:12","slug":"um-raio-x-na-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18292","title":{"rendered":"Um raio-x na democracia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"Um raio-x na democracia\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/PYsiuK7RQ1-Kp2lE6n5tfxSxEuXqg1g8vfNQvre1zOGCsMNZnfajceWUocAaOnpHqfz4a_d8-0TG442rzCdK30X4q4myUhbIu5sRGZVjFFXQ0UdQ1t01NGzf4_O10VQZd6Xg5yw1fwyOE5CicXXrjCQu1WmDGzK868yQsaduF7dQbR_JmO6u09YYIdQrYiyPphUeCmyLp4RAb69bso7gMQrC74hvN6NPrJlY1c3-VabrD5dFb1E3aqjR9XNYntg4rc6GDrEdCbmVJ8YaqWCbC1fzCM32XTSptP2AAp1BY1GI068p9SxbibW3Bm-Ekn47ZCxwOO0O-496gPJH2yY3_eAuz0sJvd9mxQSdhkEOhseyQET3K1P_ZqwzzTbb9_S3R7HhPGSMe9sLemPpVupZVCh623AQt-sPaftSR4HbC7Fz5mzpk2dkKQlFDq106cqIokY5yzh1_tBUyoXbJsZ5vd7-9pFV2HBsB6UpOvEKcdmLMwmQAIeiH-QWADYcWY5q8wnH9saCcSueP0K_-d-DUXOinYm33jF5OlH8FnVfc98nQsaFec0COKISgJ7qrDISG9turKKFw9vmZGjVcJz7FK1BJOGQGv8cgGEyk84p3KAyAhgbg829JagdUtn7XqF4Znk1U5OEnuDKTWe_2oh0XeBX_s-QHkNs=w480-h368-no\" alt=\"Um raio-x na democracia\" \/><!--more-->Por Thales Emmanuel**<\/p>\n<p><strong>Um raio-x na democracia*<\/strong><\/p>\n<p><em>&#8220;Tudo se discute nesse mundo, menos uma \u00fanica coisa: a democracia. Ela est\u00e1 a\u00ed, como se fosse uma esp\u00e9cie de santa no altar, de quem j\u00e1 n\u00e3o se espera milagres, mas est\u00e1 a\u00ed como refer\u00eancia.&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Jos\u00e9 Saramago<\/p>\n<p>O imperialismo <em>made in USA<\/em> invade constantemente pa\u00edses em seu nome. A exporta\u00e7\u00e3o armada e midi\u00e1tica da democracia coincide com a expans\u00e3o da fome a \u00edndices nunca antes sentidos. Na manh\u00e3 de 1\u00b0 de abril de 1964, o golpe empresarial e militar no Brasil alvoreceu com o jornal O Globo noticiando: &#8220;Ressurge a Democracia!&#8221; Atualmente, um presidente usurpador imp\u00f5e uma s\u00e9rie de medidas contr\u00e1rias ao povo e \u00e0 opini\u00e3o da maioria, povo e maioria que diz representar evocando respeito \u00e0s regras democr\u00e1ticas. Como se a tivessem perdido e quisessem resgat\u00e1-la, vozes reagem gritando &#8220;Diretas J\u00e1!&#8221; e, civilizadamente, aguardam por 2018. Alguns a confundem com o voto. Ser\u00e1 proposital? Outros a dissimulam de modo diverso, identificando-a com a altern\u00e2ncia de siglas em c\u00fapulas de governos. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o que reproduzem repetidamente essas ideias pertencem a oito fam\u00edlias apenas, num pa\u00eds com mais de 200 milh\u00f5es de habitantes. Liberdade de imprensa? Liberdade para quem? As pessoas que n\u00e3o aceitam a imposi\u00e7\u00e3o do modelo \u00fanico de democracia s\u00e3o taxadas de v\u00e2ndalos e baderneiros na televis\u00e3o. Nas periferias das cidades e do campo, Amarildos e Cl\u00e1udias s\u00e3o chacinados cotidianamente sem jamais terem sido apresentados a ela. Afinal de contas, quem \u00e9s tu, democracia?<\/p>\n<p>A historiografia oficial registra que a democracia nasceu na Gr\u00e9cia antiga, por volta de 500 anos a.C. Numa sociedade j\u00e1 fraturada pela desigualdade social da estrutura de classes, intensas lutas populares fizeram eclodir o governo do povo, tradu\u00e7\u00e3o literal para \u201cdemo\u201d e \u201ccracia\u201d. Uma importante conquista para setores empobrecidos, mas tamb\u00e9m uma maneira dos ricos restabelecerem a ordem sem deixar de serem os ricos. Na democracia Ateniense se decidia diretamente os assuntos de interesse social; n\u00e3o era uma democracia representativa, como \u00e9 hoje o sistema burgu\u00eas de comando em alguns pa\u00edses. Por\u00e9m, mesmo l\u00e1, o direito de decidir n\u00e3o era exercido por todas as pessoas. Mulheres, estrangeiros e escravizados n\u00e3o eram considerados cidad\u00e3os da polis. Ainda que se configure como um marco na hist\u00f3ria, a democracia direta era democr\u00e1tica para apenas 10% da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00e9culos se passaram sem que a palavra \u201cdemocracia\u201d fosse evocada, at\u00e9 o sistema capitalista, que se hegemoniza politicamente na transi\u00e7\u00e3o dos s\u00e9culos 18 e 19, e traz na bagagem sua pr\u00f3pria forma de operar a domina\u00e7\u00e3o, reintroduzi-la no imagin\u00e1rio social. Mesmo assim, n\u00e3o foi de imediato que democracia e capitalismo se misturaram ideologicamente como subst\u00e2ncias insepar\u00e1veis. Os primeiros dirigentes da nova ordem entendiam, sem ainda disfar\u00e7ar esse entendimento, que o modelo parlamentar-constitucional se configurava t\u00e3o somente numa forma atualizada de oligarquia, ou seja, que o governo, por excel\u00eancia, continuaria como patrim\u00f4nio de poucos. Nessa Europa em ebuli\u00e7\u00e3o, at\u00e9 a metade de 1800, democracia era uma ideia que assombrava os donos do poder. Os lutadores e lutadoras do povo, que combatiam por uma democracia social, porque compreendiam que sem transforma\u00e7\u00f5es radicais na estrutura da sociedade, transforma\u00e7\u00f5es de raiz, nada mudaria, foram perseguidos, difamados e condenados \u00e0 guilhotina. \u00c9 do meio para o fim do s\u00e9culo que o conceito \u00e9 sequestrado e ressignificado para servir \u00e0 domina\u00e7\u00e3o. Com o passar dos anos, das d\u00e9cadas, democracia foi sendo identificada cada vez mais com o direito de escolher representantes, ou seja, com o direito de decidir quem decidir\u00e1 pelo povo. Tal fato n\u00e3o aconteceu sem que as institui\u00e7\u00f5es burguesas estivessem minimamente consolidadas. \u00c9 s\u00f3 recordar que por um per\u00edodo o direito a voto s\u00f3 podia ser exercido por homens que, comprovadamente, possu\u00edssem t\u00edtulos de propriedade. No Brasil, at\u00e9 1934, empobrecidos, negros, mulheres e analfabetizados sequer podiam decidir quem decidiria por eles.<\/p>\n<p>A classe oprimida e explorada percebe ent\u00e3o que a democracia propagada pela classe capitalista representava, para a maioria, uma ditadura e que a ideia de \u201cunificar\u201d interesses inconcili\u00e1veis se constitu\u00eda uma maneira extremamente eficaz de garantir a \u201cdomina\u00e7\u00e3o do dinheiro sobre as pessoas\u201d. O sangue popular que escorreu pelas ruas de v\u00e1rias cidades europeias entre 1848 e 1850, n\u00e3o s\u00f3 tingiu de vermelho a bandeira que simbolizaria dali em diante a luta de trabalhadores e trabalhadoras, como comprovou que a \u201cliberdade, igualdade e fraternidade\u201d da revolu\u00e7\u00e3o burguesa na Fran\u00e7a de 1789 significavam adornos novos para um novo tipo de escravid\u00e3o: o trabalho assalariado. Foi a partir da\u00ed, da luta pr\u00e1tica e te\u00f3rica, que a classe trabalhadora come\u00e7ou a formular seu pr\u00f3prio conceito de democracia, por ess\u00eancia, incompat\u00edvel com a democracia de uns poucos da burguesia.<\/p>\n<p>Explorados e exploradas, oprimidos e oprimidas, reconheceram, enfim, os estigmas do massacre hist\u00f3rico e da humilha\u00e7\u00e3o que estavam condenados a sofrer eternamente, caso n\u00e3o revolucionassem a ordem das coisas. Se a maioria fora barrada do baile democr\u00e1tico desde sempre, assaltar o poder deixava de ser op\u00e7\u00e3o e passava a condi\u00e7\u00e3o de mandamento. A revolu\u00e7\u00e3o socialista, a revolu\u00e7\u00e3o dos de baixo, \u00fanica maneira poss\u00edvel de democratizar a democracia, entra assim na cena hist\u00f3rica. Nasceu da\u00ed a Comuna de Paris, massacrada ap\u00f3s 72 dias de heroica resist\u00eancia contra o \u00f3dio implac\u00e1vel das classes opressoras unificadas. Vieram os sovietes e a Revolu\u00e7\u00e3o Russa, os Comit\u00eas de Defesa da Revolu\u00e7\u00e3o em Cuba, as comunidades zapatistas no M\u00e9xico e tantas outras experi\u00eancias de Poder Popular; algumas derrotadas, outras ainda em curso e um sem n\u00famero brotando teimosamente do ch\u00e3o da luta de classes.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria n\u00e3o deixa d\u00favidas. N\u00e3o existe regime pol\u00edtico capaz de pairar no v\u00e1cuo. N\u00e3o existe sequer v\u00e1cuo na pol\u00edtica. Todo espa\u00e7o \u00e9 ocupado por interesses advindos da luta de classes. Com a democracia n\u00e3o \u00e9 diferente. Manda e dela se serve a classe que det\u00e9m o poder econ\u00f4mico. Por isso que os golpistas de ontem s\u00e3o os mesmos golpistas de hoje, s\u00f3 que fortalecidos por medidas \u201cconciliat\u00f3rias\u201d que propagandeiam que \u00e9 preciso crescer o bolo para depois reparti-lo. \u201cNossa fr\u00e1gil democracia foi violada\u201d, como se costuma ouvir por a\u00ed, porque a raposa continuou sendo promovida a gerente do galinheiro. O problema da democracia da burguesia \u00e9 que a democracia de fato sempre foi e sempre ser\u00e1 um problema para a burguesia. E todas as vezes que os anseios populares se converterem em for\u00e7a pol\u00edtica, no sistema capitalista, a classe dominante, apavorada em sua mesquinhez estrutural, recorrer\u00e1 a golpes de Estado para reestabelecer seu mando e reduzir os entraves \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de seus interesses. Basta recordar o in\u00edcio da d\u00e9cada de 60 no Brasil, quando o povo se levanta em torno das Reformas de Base e o imperialismo reage lan\u00e7ando tanques \u00e0s ruas, guerreando contra a classe trabalhadora e suas organiza\u00e7\u00f5es. Basta olhar para a Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana na Venezuela de agora, seguidamente golpeada. Enquanto existirem ricos enriquecidos e pobres empobrecidos, a democracia ser\u00e1 sempre a arma dos primeiros apontada e disparada na dire\u00e7\u00e3o dos segundos. \u201cA burguesia n\u00e3o manda porque \u00e9 maioria, ela \u00e9 maioria porque manda\u201d.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa dizer que devemos pensar e agir somente em termos absolutos, como se n\u00e3o houvesse diferen\u00e7as entre o regime instaurado com o golpe de 64 e o inaugurado com a Constitui\u00e7\u00e3o de 88, por exemplo. Reconhecer que esta democracia que est\u00e1 a\u00ed n\u00e3o \u00e9 nossa, n\u00e3o \u00e9 o mesmo que desdenhar as conquistas da luta que p\u00f4s fim a ditadura militar-empresarial de outrora e assegurou alguns direitos ao povo brasileiro. Ao contr\u00e1rio, trata-se de n\u00e3o rendi\u00e7\u00e3o, de n\u00e3o coopta\u00e7\u00e3o, de n\u00e3o ignorar a verdadeira autoria das conquistas, de compreender que uma escravid\u00e3o \u201cbem vestida\u201d n\u00e3o significa a aboli\u00e7\u00e3o do regime escravocrata.<\/p>\n<p>Passando um raio-X na democracia, ou melhor, nas democracias, \u00e9 f\u00e1cil detectar que a subst\u00e2ncia que preenche a democracia da classe trabalhadora tem gosto amargo para os que vivem da explora\u00e7\u00e3o e da opress\u00e3o, isso porque revoga contundente e definitivamente o direito de explorar e de oprimir, princ\u00edpio sagrado da democracia capitalista, que s\u00f3 \u00e9 democr\u00e1tica at\u00e9 o ponto em que o significado lingu\u00edstico da palavra, poder exercido pelo povo, n\u00e3o passar de letra morta. \u201cQue o verbo se fa\u00e7a carne\u201d, ent\u00e3o! Para dissabor dos que ora dominam e para o bem de toda humanidade.<\/p>\n<p>*Originalmente publicado em Informativo Redentorista, edi\u00e7\u00e3o VIII.<\/p>\n<p>**Thales Emmanuel \u00e9 militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e da Organiza\u00e7\u00e3o Popular (OPA).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18292\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[222],"class_list":["post-18292","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4L2","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18292","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18292"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18292\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18292"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18292"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18292"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}