{"id":18420,"date":"2018-01-18T19:19:55","date_gmt":"2018-01-18T22:19:55","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=18420"},"modified":"2018-01-18T13:25:18","modified_gmt":"2018-01-18T16:25:18","slug":"mtst-uma-historia-das-mulheres-na-periferia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18420","title":{"rendered":"MTST: uma hist\u00f3ria das mulheres na periferia"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"MTST: uma hist\u00f3ria das mulheres na periferia\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/22089815_987568184734660_4083337256367117514_n-485x323.jpg\" alt=\"MTST: uma hist\u00f3ria das mulheres na periferia\" \/><!--more--><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/brasil\/a-origem-do-mtst-uma-historia-das-mulheres-na-periferia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Outras Palavras<\/a><\/p>\n<p>Livro rec\u00e9m lan\u00e7ado detalha como movimento articula os conceitos de feminismo popular para enfrentar as adversidades do pa\u00eds com maior n\u00famero de empregadas dom\u00e9sticas do mundo e 6,8 milh\u00f5es de pessoas sem moradia<\/p>\n<p>Um texto das Mulheres da Coordena\u00e7\u00e3o Nacional do MTST<\/p>\n<hr \/>\n<p><strong>Pref\u00e1cio do livro MTST 20 anos de hist\u00f3ria \u2013 Luta, organiza\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a nas periferias do Brasil lan\u00e7ado pela editora Autonomia Liter\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do MTST \u00e9 a hist\u00f3ria de mulheres e homens, rebeldes e radicais, que sobrevivem pela sua coragem, rompendo os tradicionais protocolos da pol\u00edtica sustentada pelos podres poderes e reinventando, assim, suas hist\u00f3rias. Quem se arriscar a ler o livro \u201cMTST 20 anos de hist\u00f3ria \u2013 Luta, organiza\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a nas periferias do Brasil\u201d ir\u00e1 mergulhar nas hist\u00f3rias dos despossu\u00eddos de direitos e de bens e, ao mesmo tempo, possuidores de uma infinita f\u00e9 que move corpos e mentes em busca da dignidade e da felicidade comum: a f\u00e9 na luta.<\/p>\n<p>O livro, escrito por um conjunto de militantes do movimento, retrata um pouco da imensa desigualdade que assola o pa\u00eds, da hist\u00f3rica e injusta concentra\u00e7\u00e3o de riquezas que joga milh\u00f5es de trabalhadores \u00e0s margens da dignidade humana. A nega\u00e7\u00e3o de um direito b\u00e1sico beira o absurdo: no Brasil, s\u00e3o aproximadamente 7,2 milh\u00f5es de im\u00f3veis vazios e ociosos, e uma popula\u00e7\u00e3o de quase 6,8 milh\u00f5es sem moradia, o que quer dizer que os sem-teto poderiam n\u00e3o existir se esses im\u00f3veis se transformassem em habita\u00e7\u00e3o. A sociedade brasileira \u00e9 uma f\u00e1brica de fazer sem-tetos: eis a principal raz\u00e3o da exist\u00eancia do MTST.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do MTST tamb\u00e9m \u00e9 a hist\u00f3ria de milh\u00f5es de mulheres espalhadas pelo Brasil-periferia. Mulheres negras, pardas, brancas, jovens, mais velhas, m\u00e3es, av\u00f3s, tias, irm\u00e3s, filhas, esposas, amantes, amadas, companheiras e trabalhadoras pobres, oprimidas, violentadas, violadas, exploradas. Ali\u00e1s, excessiva e continuamente exploradas. Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho, o Brasil \u00e9 o pa\u00eds com maior n\u00famero de trabalhadoras dom\u00e9sticas: s\u00e3o cerca de 6,7 milh\u00f5es. Trata-se de uma das ocupa\u00e7\u00f5es que as sem-teto mais exercem. Seria uma profiss\u00e3o como outra qualquer n\u00e3o fossem os abusos que elas enfrentam nas casas alheias, tais como a obriga\u00e7\u00e3o de trabalhar fora do per\u00edodo combinado, o exerc\u00edcio de outras tarefas \u2013 bab\u00e1s ou cuidadoras de idosos \u2013 , tudo encarado pelo patr\u00e3o ou patroa como favores. Enfim, heran\u00e7as do per\u00edodo escravocrata.<\/p>\n<p>Mulheres violentadas! O ciclo de viol\u00eancia \u00e9 sistem\u00e1tico, perverso, dif\u00edcil de sair, e s\u00e3o poucos os caminhos de acolhimento que o Estado oferece para nos libertarmos. Sofremos todo tipo de viol\u00eancia, muitas vezes dentro de nossas pr\u00f3prias casas. No ano de 2016, os dados da viol\u00eancia contra a mulher foram aterradores: a cada hora, 503 mulheres foram agredidas de alguma maneira, segundo estudo do Datafolha.<\/p>\n<p>Para se chegar a esse n\u00famero, foram realizadas entrevistas presenciais em 130 munic\u00edpios brasileiros com 4,4 milh\u00f5es de mulheres, o que corresponde a 9% da popula\u00e7\u00e3o feminina acima de 16 anos. Do total de agressores, 61% eram conhecidos das v\u00edtimas, 19% eram namorados, companheiros ou c\u00f4njuges e 16% eram ex-companheiros. Em 43% dos casos, a viol\u00eancia foi cometida dentro da resid\u00eancia da v\u00edtima.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dessa viol\u00eancia que nos oprime, nos diminui, nos dilacera em todos os aspectos, ainda temos que encarar a falta de direitos. Quem n\u00e3o conhece uma mulher que n\u00e3o consegue trabalhar por falta de creche para os filhos? Diversos estudos demonstram que os sal\u00e1rios das mulheres s\u00e3o menores e, muitas vezes, questiona-se a capacidade intelectual da mulher de cumprir as mesmas tarefas que os homens. Na pol\u00edtica institucional, os dados tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o animadores: em um pa\u00eds onde as mulheres s\u00e3o 53% do eleitorado, o n\u00famero de mulheres eleitas como prefeitas e vereadoras diminuiu entre 2012 e 2016. Mas n\u00e3o para por a\u00ed. Quem n\u00e3o conhece uma mulher que sofreu um abuso dentro de um \u00f4nibus, sem que nada acontecesse ao agressor? Quantos dos ass\u00e9dios que sofremos na rua s\u00e3o naturalizados?<\/p>\n<p>Para mudar esse cen\u00e1rio, as mulheres ganham mais espa\u00e7o na pol\u00edtica, especialmente na pol\u00edtica popular. No MTST, somos mulheres comuns, com alegrias e tristezas, encantos e desencantos, m\u00e3os calejadas, unhas feitas, batom vermelho e barro no p\u00e9. Tamb\u00e9m somos v\u00edtimas da sociedade machista, autorit\u00e1ria, patriarcal. V\u00edtimas do fetichismo e do sexismo. E por isso lutamos! Somos Marias, Joanas, Luizas, somos todas que decidiram mudar seus destinos.<\/p>\n<p>Quantas barreiras uma mulher perif\u00e9rica precisa ultrapassar para estar na luta? Al\u00e9m das dificuldades em ser m\u00e3e, trabalhadora e marginalizada, o que a mulher enfrenta para entrar na pol\u00edtica, lugar tradicionalmente ocupado por homens? N\u00e3o fossem as mulheres sujeitas, queimadas na f\u00e1brica, donas do ventre, queimando suti\u00e3s, comandantes revolucion\u00e1rias, duras e doces, com fuzil e flores, bravura e delicadeza\u2026 N\u00e3o fossem as Dandaras do quilombo, as Marias do sert\u00e3o, as Rosas da revolu\u00e7\u00e3o, as Dorothys da Miss\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o fossem as guerreiras que sustentam o dia a dia das ocupa\u00e7\u00f5es e tantas outras esquecidas, estar\u00edamos ainda saindo das costelas dos nossos amados.<\/p>\n<p>No MTST, nossa pr\u00e1tica pol\u00edtica pretende apontar n\u00e3o para o \u201cempoderamento\u201d, que tende a ser uma descoberta individual para aumentar a autoestima, mas para a liberta\u00e7\u00e3o, que \u00e9 um descobrimento coletivo, a percep\u00e7\u00e3o de si no outro e na outra, com a compreens\u00e3o de que mudan\u00e7as s\u00f3 se perpetuam no tempo se forem estruturais, a partir dos nossos interesses enquanto classe, e tendo clareza de quem s\u00e3o realmente nossos inimigos. A pr\u00e1tica pol\u00edtica libertadora requer aten\u00e7\u00e3o \u00e0 constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, mas tamb\u00e9m \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es no cotidiano. Ademais, a liberta\u00e7\u00e3o das mulheres s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel com luta social e envolvimento de mulheres e homens.<\/p>\n<p>Por tudo isso, a luta por moradia tem um imenso potencial libertador para as mulheres. Somos a maioria: n\u00e3o temos direitos iguais, mas temos os mesmo deveres legais e, al\u00e9m disso, os deveres socialmente constru\u00eddos.<\/p>\n<p>Dados do IBGE revelam que, em 2016, as mulheres eram refer\u00eancia familiar para 39,8% dos lares brasileiros. Esse n\u00famero fala de mulheres que sustentam sozinhas todo um aparato para que suas fam\u00edlias funcionem. Muitas vezes abandonadas por seus \u201ccompanheiros\u201d, essas mulheres trabalham em jornada dupla ou tripla, fora e dentro do lar, e ainda cuidam dos filhos e de parentes idosos. No caso das sem- teto, depois de tudo isso, elas ainda v\u00e3o para o acampamento, onde assumem tarefas e responsabilidades dentro do projeto coletivo que \u00e9 a ocupa\u00e7\u00e3o: reuni\u00f5es de coordena\u00e7\u00e3o e grupos, cozinhas coletivas, mutir\u00f5es, entre outras atividades.<\/p>\n<p>A luta por moradia \u00e9 mobilizadora para as mulheres, pois \u00e9 a luta pela sobreviv\u00eancia e pela autonomia afetiva. Para n\u00f3s mulheres, o lar n\u00e3o \u00e9 um teto, uma renda, uma propriedade; o lar \u00e9 a possibilidade de uma vida mais feliz. Felicidade n\u00e3o \u00e9 luxo, n\u00e3o \u00e9 uma compra de altas cifras. Para n\u00f3s, trabalhadoras sem teto, a felicidade \u00e9 prover e usufruir de um espa\u00e7o agrad\u00e1vel, digno, com a fam\u00edlia que estabelecemos na vida, que pode ser com homem ou com mulher, com filhos ou com cachorros e gatos, ou simplesmente com nossa alma.<\/p>\n<p>Enquanto a vida cotidiana na cidade \u00e9 de sofrimento, a luta \u00e9 a busca por essa felicidade. E mesmo quando a vida pol\u00edtica destr\u00f3i afetividades, a presen\u00e7a da mulher as reinventa. N\u00f3s, mulheres sem teto, encontramos em nossas ocupa\u00e7\u00f5es significados maiores para nossas vidas, conseguimos compatibilizar o compromisso afetivo com o pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Assim, a luta para n\u00f3s no MTST \u00e9 incrivelmente m\u00e1gica e desafiadora. O feminismo popular que praticamos dialoga com os nossos camaradas, homens, companheiros de luta. Esse feminismo popular n\u00e3o \u00e9 o que rotula, mas o que tenta quebrar r\u00f3tulos. N\u00e3o busca conceitos academicistas para explicar os efeitos das pr\u00e1ticas machistas, mas solu\u00e7\u00f5es coletivas e reais. Constr\u00f3i espa\u00e7os e busca refletir sobre nossas pr\u00e1ticas, por vezes machistas, tentando romper com a disputa feminina e alcan\u00e7ar espa\u00e7o para todas. O feminismo que praticamos n\u00e3o \u00e9 o que anula nossas qualidades femininas, mas o que reconhece nossas diferen\u00e7as para com os homens e carrega para o mundo da pol\u00edtica qualidades, instintos e aprendizagens femininas. Ser mulher, militante do MTST e ajudar a construir essa hist\u00f3ria \u00e9 um desafio e um prazer imenso, pois atrav\u00e9s da inser\u00e7\u00e3o na luta, entendemos o quanto \u00e9 maravilhoso e \u00fanico ser mulher e o quanto as mulheres ajudam, mesmo em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de vida, a construir um mundo novo.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"lMcBCSU30n\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/brasil\/a-origem-do-mtst-uma-historia-das-mulheres-na-periferia\/\">MTST: uma hist\u00f3ria das mulheres na periferia<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/brasil\/a-origem-do-mtst-uma-historia-das-mulheres-na-periferia\/embed\/#?secret=lMcBCSU30n\" data-secret=\"lMcBCSU30n\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;MTST: uma hist\u00f3ria das mulheres na periferia&#8221; &#8212; OUTRAS PALAVRAS\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18420\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[200],"tags":[224],"class_list":["post-18420","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-moradia","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4N6","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18420","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18420"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18420\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18420"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18420"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18420"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}