{"id":1846,"date":"2011-09-09T19:38:41","date_gmt":"2011-09-09T19:38:41","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1846"},"modified":"2011-09-09T19:38:41","modified_gmt":"2011-09-09T19:38:41","slug":"o-romance-historico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1846","title":{"rendered":"O romance hist\u00f3rico"},"content":{"rendered":"\n<p>Escrito em 1936-37, O romance hist\u00f3rico de Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs \u00e9 considerado o trabalho mais significativo do fil\u00f3sofo nos anos de ex\u00edlio na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Publicado pela Boitempo Editorial, in\u00e9dito em portugu\u00eas, o livro traz textos preparat\u00f3rios para uma \u201cest\u00e9tica marxista\u201d. Nele o fil\u00f3sofo h\u00fangaro amadurece os fundamentos da sua teoria dos g\u00eaneros liter\u00e1rios com uma abordagem materialista da hist\u00f3ria da literatura moderna e investiga a natureza da intera\u00e7\u00e3o entre o esp\u00edrito hist\u00f3rico e a grande literatura: correntes, ramifica\u00e7\u00f5es e pontos de conflu\u00eancia que, do ponto de vista da teoria, s\u00e3o caracter\u00edsticos e imprescind\u00edveis. \u201cE isso apenas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura burguesa; a mudan\u00e7a provocada pelo realismo socialista ultrapassa os limites de meu estudo\u201d, delimita o autor.<\/p>\n<p>O livro, que conta com apresenta\u00e7\u00e3o de Arlenice Almeida da Silva e orelha de Carlos Eduardo Ornelas Berriel, mostra como a g\u00eanese e o desenvolvimento, a ascens\u00e3o e o decl\u00ednio do romance hist\u00f3rico s\u00e3o consequ\u00eancias necess\u00e1rias das grandes convuls\u00f5es sociais dos tempos modernos. \u201cEstamos diante de um ensaio feito de deslocamentos e aproxima\u00e7\u00f5es que entrela\u00e7am literatura, experi\u00eancia e figura\u00e7\u00e3o do tempo. Ele [&#8230;], sobretudo, enuncia de lugar improv\u00e1vel uma cr\u00edtica corajosa contra o pensamento socialista ortodoxo, dito vulgar\u201d, afirma Arlenice.<\/p>\n<p>Com esses estudos Luk\u00e1cs tamb\u00e9m p\u00f4de amadurecer sua teoria sobre o realismo, que para ele n\u00e3o corresponde a uma escola liter\u00e1ria, mas sim a uma forma liter\u00e1ria que reconstitui o homem na sua totalidade \u2013 o que seria particularmente percept\u00edvel na obra de Walter Scott, o \u201cgrande poeta da Hist\u00f3ria\u201d, que introduziu na literatura \u00e9pica o retrato dos costumes e das circunst\u00e2ncias dos acontecimentos, o car\u00e1ter dram\u00e1tico da a\u00e7\u00e3o e, em estreita rela\u00e7\u00e3o com isso, o novo e importante papel do di\u00e1logo no romance, como assinala o fil\u00f3sofo.<\/p>\n<p>Em um cap\u00edtulo especialmente dedicado \u00e0 obra scottiana, Luk\u00e1cs sublinha o surgimento do romance hist\u00f3rico na Inglaterra como resultado do despertar da sensibilidade para a hist\u00f3ria, a consci\u00eancia do desenvolvimento hist\u00f3rico, em meio \u00e0s enormes convuls\u00f5es pol\u00edticas e sociais das d\u00e9cadas anteriores \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o burguesa. Nesse contexto, afirma ele, Walter Scott permanece muito fortemente ligado \u00e0s camadas da sociedade arruinadas pelo r\u00e1pido desenvolvimento do capitalismo, mas sempre procurando um \u201ccaminho do meio\u201d entre os extremos em luta: n\u00e3o fazia parte nem dos entusiastas do desenvolvimento nem de seus apaixonados contestadores. Paradoxalmente, como refor\u00e7a o fil\u00f3sofo, a grandeza de Scott reside em seu conservadorismo, ao esfor\u00e7ar-se para demonstrar sua realidade hist\u00f3rica pela figura\u00e7\u00e3o ficcional das grandes crises da hist\u00f3ria inglesa. Seus personagens n\u00e3o possuem a profundidade psicol\u00f3gica das figuras humanas individuais, mas o autor \u00e9 capaz de dar vida humana a tipos sociais hist\u00f3ricos com concis\u00e3o e univocidade, o que se aplica a seus \u201cher\u00f3is medianos\u201d insuper\u00e1veis no modo realista da \u201cclasse m\u00e9dia\u201d inglesa. Luk\u00e1cs cita o coment\u00e1rio do cr\u00edtico russo Vissarion Belinski sobre o car\u00e1ter \u00e9pico do romance de Scott, a totalidade hist\u00f3rica presente na figura\u00e7\u00e3o e nas personagens coadjuvantes, que em sua maioria \u00e9 mais interessante e importante que o her\u00f3i mediano principal. Diz Belinski:<\/p>\n<p><em>\u00c9 assim que deve ser em uma obra de car\u00e1ter puramente \u00e9pico, em que a personagem principal serve somente de centro em torno do qual os acontecimentos se desdobram e no qual ela se deixa descrever apenas por tra\u00e7os gerais que merecem nossa simpatia humana, pois o her\u00f3i da epopeia \u00e9 a pr\u00f3pria vida, e n\u00e3o o homem. Na epopeia, o homem \u00e9, por assim dizer, submetido ao acontecimento; este, com sua grandeza e import\u00e2ncia, encobre a personalidade humana, desvia nossa aten\u00e7\u00e3o do homem pela pr\u00f3pria diversidade e quantidade de suas imagens, bem como pelo interesse que despertam.<\/em><\/p>\n<p>Na obra, al\u00e9m de elucidar aspectos essenciais da obra de Walter Scott \u2013 para Luk\u00e1cs, jamais alcan\u00e7ados em sua grandeza por outro escritor \u2013, o fil\u00f3sofo analisa o papel de outros grandes nomes do romance hist\u00f3rico, como Balzac, Stendhal, Goethe, P\u00fachkin, G\u00f3gol, G\u00f3rki e Tolst\u00f3i.<\/p>\n<p><strong>Trechos do livro<\/strong><\/p>\n<p>\u201cO \u2018her\u00f3i\u2019 do romance scottiano \u00e9 sempre um gentleman ingl\u00eas mediano, mais ou menos med\u00edocre. Em geral, este possui certa intelig\u00eancia pr\u00e1tica, por\u00e9m n\u00e3o excepcional, certa firmeza moral e honestidade que beiram o sacrif\u00edcio, mas jamais alcan\u00e7am o n\u00edvel de uma paix\u00e3o humana arrebatadora, de uma devo\u00e7\u00e3o entusiasmada a uma causa grandiosa. [&#8230;] Essa escolha do her\u00f3i foi muito atacada pela cr\u00edtica posterior, por Taine, por exemplo; ela detectou a\u00ed um sintoma da mediocridade do pr\u00f3prio Walter Scott como ficcionista. A verdade \u00e9 o exato contr\u00e1rio. Na constru\u00e7\u00e3o desses her\u00f3is \u201cmedianos\u201d, apenas corretos e nunca heroicos, expressa-se o extraordin\u00e1rio talento \u00e9pico de Walter Scott, talento que marcou toda uma \u00e9poca, ainda que, do ponto de vista psicol\u00f3gico e biogr\u00e1fico, \u00e9 muito prov\u00e1vel que seus preconceitos pessoais, presos \u00e0 pequena nobreza e ao conservadorismo, tenham desempenhado um grande papel na escolha desses her\u00f3is. O que se expressa aqui \u00e9 sobretudo uma recusa e uma supera\u00e7\u00e3o do romantismo, assim como um desenvolvimento oportuno das tradi\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias do realismo do per\u00edodo iluminista. [&#8230;] Ele se esfor\u00e7a para figurar as lutas e as oposi\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria por meio de homens que, em sua psicologia e em seu destino, permanecem sempre como representantes de correntes sociais e pot\u00eancias hist\u00f3ricas. Scott estende esse modo de conceber aos processos de marginaliza\u00e7\u00e3o; considera-a sempre em sentido social, e n\u00e3o individual. Seu entendimento do problema do presente n\u00e3o \u00e9 profundo o suficiente para resolver essa quest\u00e3o dos processos de marginaliza\u00e7\u00e3o. Por isso, ele se desvia da tem\u00e1tica e conserva, em sua figura\u00e7\u00e3o, a grande objetividade hist\u00f3rica do \u00e9pico leg\u00edtimo.\u201d<\/p>\n<p>[&#8230;]<\/p>\n<p>\u201cDe fato, Scott tornou-se um dos escritores mais populares e mais lidos de seu tempo, em escala mundial. A influ\u00eancia que exerceu sobre toda a literatura da Europa \u00e9 incomensur\u00e1vel. Os escritores mais significativos desse per\u00edodo, de P\u00fachkin a Balzac, encontraram novos caminhos em sua produ\u00e7\u00e3o por meio desse novo tipo de figura\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. Contudo, seria um erro acreditar que a grande onda de romances hist\u00f3ricos na primeira metade do s\u00e9culo XIX tenha evolu\u00eddo de fato sobre os princ\u00edpios scottianos. J\u00e1 vimos que a concep\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do romantismo era diametralmente oposta \u00e0 de Walter Scott. E \u00e9 claro que, com isso, a caracteriza\u00e7\u00e3o das outras correntes do romance hist\u00f3rico est\u00e1 longe de se esgotar. Indicamos apenas duas correntes importantes: por um lado, o romantismo liberal, que em termos de vis\u00e3o de mundo e modo de figura\u00e7\u00e3o tem muito em comum com o solo original do romantismo, com a luta ideol\u00f3gica contra a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, mas representa, sobre essa base contradit\u00f3ria e oscilante, a ideologia de um progresso moderado; por outro, escritores importantes \u2013 como Goethe e Stendhal \u2013 que conservaram muito da vis\u00e3o de mundo do s\u00e9culo XVIII e cujo humanismo cont\u00e9m fortes elementos do Iluminismo.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Sobre o autor<\/strong><\/p>\n<p>Nascido em 13 de abril de 1885 em Budapeste, Hungria, Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs \u00e9 um dos mais influentes fil\u00f3sofos marxistas do s\u00e9culo XX. Doutorou-se\u00a0em Ci\u00eancias Jur\u00eddicas\u00a0e depois em Filosofia pela Universidade de Budapeste. No final de 1918, influenciado por B\u00e9la Kun, aderiu ao Partido Comunista e no ano seguinte foi designado Vice-Comiss\u00e1rio do Povo para a Cultura e a Educa\u00e7\u00e3o. Em 1930 mudou-se para Moscou, onde desenvolveu intensa atividade intelectual. O ano de 1945 foi marcado pelo retorno \u00e0 Hungria, quando assumiu a c\u00e1tedra de Est\u00e9tica e Filosofia da Cultura na Universidade de Budapeste.\u00a0Est\u00e9tica, considerada sua obra mais completa, foi publicada em 1963 pela editora Luchterhand. J\u00e1 seus estudos sobre a no\u00e7\u00e3o de ontologia em Marx, que resultariam oito anos depois na\u00a0<em><em>Ontologia do ser social<\/em><\/em>, iniciaram-se em 1960. Faleceu em sua cidade natal, em 4 de junho de 1971. Do autor, a Boitempo j\u00e1 publicou<em><em>Proleg\u00f4menos para uma ontologia do ser social: quest\u00f5es de princ\u00edpios para uma ontologia hoje tornada poss\u00edvel<\/em><\/em> (2010) e\u00a0<em><em>O romance hist\u00f3rico<\/em><\/em> (2011).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Boitempo\n\n\n\n\n\n\n\n\nGy\u00f6rgy Luk\u00e1cs\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1846\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[33],"tags":[],"class_list":["post-1846","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c34-marxismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-tM","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1846","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1846"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1846\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1846"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1846"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1846"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}