{"id":18462,"date":"2018-01-22T18:51:45","date_gmt":"2018-01-22T21:51:45","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=18462"},"modified":"2018-01-22T18:51:45","modified_gmt":"2018-01-22T21:51:45","slug":"capitalismo-dizima-cerrados-e-acirra-conflitos-agrarios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18462","title":{"rendered":"Capitalismo dizima cerrados e acirra conflitos agr\u00e1rios"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"Capitalismo dizima cerrados e acirra conflitos agr\u00e1rios\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2017\/04\/03_04_seca_cerrado_foto_jose_bezerra_seapac.jpg\" alt=\"Capitalismo dizima cerrados e acirra conflitos agr\u00e1rios\" \/><!--more--><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/575307-capitalismo-no-campo-dizima-os-cerrados-e-atica-os-conflitos-agrarios\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">IHU &#8211; UNISINOS<\/a><\/p>\n<p>&#8220;Esse modelo de uso abusivo da m\u00e3e terra e da irm\u00e3 \u00e1gua j\u00e1 mostrou a que veio, e tem que ser questionado e combatido at\u00e9 \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias. O campo \u00e9 extenso e pode ser cen\u00e1rio de vida com qualidade e fartura para todas e todos, desde que as terras e as \u00e1guas sejam utilizadas com justi\u00e7a agr\u00e1ria e h\u00eddrica, al\u00e9m de responsabilidade socioambiental&#8221;, escreve frei Gilvander Moreira[1], padre da Ordem dos carmelitas, professor de \u201cDireitos Humanos e Movimentos Populares\u201d em curso de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o do IDH, em Belo Horizonte (MG), e assessor da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra \u2013 CPT, do Centro Ecum\u00eanico de Estudos B\u00edblicos \u2013 CEBI, do Servi\u00e7o de Anima\u00e7\u00e3o B\u00edblica \u2013 SAB e da Via Campesina em Minas Gerais, 18-01-2018.<\/p>\n<p>Eis o artigo.<\/p>\n<p>No Brasil, os agronegociantes seguem invadindo de forma obsessiva os Cerrados com \u201cuma pr\u00e1tica agr\u00e1ria\/agr\u00edcola energ\u00edvora, ou seja, voraz consumidora de energia, que v\u00ea a planura das imensas chapadas como uma b\u00ean\u00e7\u00e3o da natureza, pois seus tratores, n\u00e3o tendo que subir e descer, poupam energia, um dos insumos mais importantes que, para eles, significa menor custo em dinheiro e, logo, maiores lucros acumulados\u201d (PORTO GON\u00c7ALVES, 2014, p. 93).<\/p>\n<p>Da monocultura da cana-de-a\u00e7\u00facar e do caf\u00e9, no regime do colonato e depois da parceria, surge o boia-fria, que se submete a longas jornadas de trabalho, sem carteira assinada e sem seguran\u00e7a no seu transporte at\u00e9 \u00e0s \u00e1reas de trabalho. As extensas planta\u00e7\u00f5es de soja contaminam com agrot\u00f3xicos as nascentes dos c\u00f3rregos e dos rios, al\u00e9m de serem tamb\u00e9m respons\u00e1veis pelo confinamento dos pequenos agricultores nos grot\u00f5es das encostas dos gerais \u2013 o que era de todos -, os \u201cencurralados\u201d pelas monoculturas \u2013 cultura do UM[2] \u2013 da soja ou do eucalipto. \u201cOs piv\u00f4s, \u201cpiv\u00f4s da Disc\u00f3rdia\u201d, como os chamaram os camponeses do Riach\u00e3o, na regi\u00e3o de Montes Claros, norte de Minas Gerais, secam rios, lagos, lagoas, p\u00e2ntanos, varj\u00f5es e v\u00e1rzeas pelo uso intensivo e pelo enorme desperd\u00edcio por evapora\u00e7\u00e3o da \u00e1gua que \u00e9 captada para plantar grandes monoculturas de soja, de eucalipto, de milho, de girassol, de algod\u00e3o\u201d (PORTO GON\u00c7ALVES, 2014, p. 94).<\/p>\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o \u00e9 tamanha que hoje n\u00e3o existe mais nenhuma faixa cont\u00ednua de cerrados. Por exemplo, em Minas Gerais, de Sete Lagoas \u00e0 Chapada do Norte, por 486,4 km, o que existe \u00e9 monocultura do eucalipto, um deserto verde sem fim. Por agroneg\u00f3cio, entende-se a produ\u00e7\u00e3o em larga escala, feita em grandes extens\u00f5es de terra \u2013 latif\u00fandio -, com sofisticada tecnologia em quase monop\u00f3lio de empresas transnacionais, uso indiscriminado de agrot\u00f3xico e, muitas vezes, com m\u00e3o de obra em condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0 escravid\u00e3o. Ap\u00f3s o desmatamento da maior parte dos cerrados, implantada onde existiam os cerrados, a monocultura de eucalipto resseca a terra, seca nascentes, escorra\u00e7a os p\u00e1ssaros, expulsa os camponeses para as periferias das cidades, pois s\u00e3o obrigados a vender suas pequenas propriedades por falta d\u2019\u00e1gua. Na regi\u00e3o noroeste de Minas Gerais, no munic\u00edpio de Una\u00ed, onde \u00e9 forte a monocultura do feij\u00e3o, do milho e da soja, ap\u00f3s a pulveriza\u00e7\u00e3o de herbicidas, inseticidas e praguicidas, feita por avi\u00f5es em voos rasantes, balaios e mais balaios de p\u00e1ssaros mortos podem ser recolhidos, v\u00edtimas dos venenos altamente t\u00f3xicos, tais como o Roud up. \u201cNo munic\u00edpio de Una\u00ed, nas estradas no meio das lavouras, \u00e9 preciso andar com os vidros do carro fechados, porque \u00e9 insuport\u00e1vel o mau cheiro dos venenos aplicados\u201d, nos informa Helba Soares da Silva, vi\u00fava do fiscal Nelson Jos\u00e9 da Silva, assassinado na Chacina de Una\u00ed em 28\/01\/2004. H\u00e1 muitos munic\u00edpios, em Minas Gerais, onde a monocultura do eucalipto j\u00e1 invadiu e devastou mais de 70% do seu territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Dia 22 de fevereiro de 2002, em Andrequic\u00e9, no munic\u00edpio de Tr\u00eas Marias, MG, visitamos Manuel Nardi, conhecido como Manuelz\u00e3o, o grande inspirador e personagem de Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa, homem dos cerrados. Perguntamos ao Manuelz\u00e3o se o mundo estava melhorando. Como resposta, obtivemos: \u201cCinquenta anos atr\u00e1s n\u00e3o tinha asfalto rasgando os cerrados. As estradas eram de ch\u00e3o batido. A gente via fileiras de caminh\u00f5es carregados de feij\u00e3o, milho, arroz e mandioca indo para a capital para matar a fome do povo l\u00e1 de Belo Horizonte. Hoje, cinquenta anos depois, a estrada est\u00e1 asfaltada e o que a gente v\u00ea? Um caminh\u00e3o atr\u00e1s do outro, carretas e mais carretas cheias de carv\u00e3o indo para a regi\u00e3o de Belo Horizonte para matar a fome das caldeiras das sider\u00fargicas. Queimaram quase todos os cerrados. Pensam que eucalipto \u00e9 salva\u00e7\u00e3o pra tudo. Quem ganha com a devasta\u00e7\u00e3o dos cerrados? Desrespeitar os cerrados \u00e9 desrespeitar o pr\u00f3ximo, a Deus e a si mesmo\u201d.<\/p>\n<p>Mais do que omisso ou conivente, o Estado brasileiro tem sido c\u00famplice, sustentador e fomentador da in\u00edqua estrutura fundi\u00e1ria reinante no Brasil. Grande parte dos conflitos de terra em Minas Gerais acontece nos mais de 14 milh\u00f5es de hectares de terras devolutas do estado (OLIVEIRA, 2010, p. 299). Al\u00e9m das demandas das fam\u00edlias sem-terra, existem no estado de Minas Gerais cerca de 800 \u00e1reas de remanescentes de quilombos que est\u00e3o em processo de autorreconhecimento, reivindicando titula\u00e7\u00e3o e demarca\u00e7\u00e3o de suas terras. Apenas entre 2004 e 2007 foram reconhecidas pela Funda\u00e7\u00e3o Palmares, em Minas Gerais, 81 comunidades quilombolas[3]. Os conflitos envolvendo comunidades quilombolas \u2013 do movimento quilombola, outro movimento socioterritorial &#8211; na luta pela terra est\u00e3o crescendo.<\/p>\n<p>O estado de Minas Gerais poderia ser tamb\u00e9m chamado de \u00c1guas Gerais, porque minas de \u00e1gua, ou de min\u00e9rio \u2013 que est\u00e3o sempre juntos -, \u00e9 o que tinha em abund\u00e2ncia nas minas e nos gerais. Ainda tem, mas milhares de nascentes t\u00eam sido dizimadas pelo agroneg\u00f3cio com hidroneg\u00f3cio e pelas mineradoras nas \u00faltimas d\u00e9cadas em uma progress\u00e3o geom\u00e9trica.<\/p>\n<p>Em 2015, existiam no Brasil apenas 9290 assentamentos, em uma \u00e1rea de 88.269.706,92 de hectares, com 969.640 fam\u00edlias assentadas (Dados do INCRA\/2015)[4]. As regi\u00f5es Norte e Nordeste concentravam 73,6% do total das fam\u00edlias assentadas (41,0% e 32,6%, respectivamente). Mas, enquanto o Norte conformava 76,4% da \u00e1rea total dos projetos de assentamento, o Nordeste, apenas 12%. Nas demais regi\u00f5es do pa\u00eds estavam os restantes 24,6% de fam\u00edlias assentadas, em menos de 11,6% da \u00e1rea reformada.<\/p>\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o crescente do bioma cerrado \u00e9 grav\u00edssima e coloca em xeque o futuro das pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es. \u00c9 preciso, urgentemente, conter o capitalismo, sistema sat\u00e2nico que ganha forma e velocidade no agroneg\u00f3cio e no hidroneg\u00f3cio e segue desrespeitando e dizimando vidas. Esse modelo de uso abusivo da m\u00e3e terra e da irm\u00e3 \u00e1gua j\u00e1 mostrou a que veio, e tem que ser questionado e combatido at\u00e9 \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias. O campo \u00e9 extenso e pode ser cen\u00e1rio de vida com qualidade e fartura para todas e todos, desde que as terras e as \u00e1guas sejam utilizadas com justi\u00e7a agr\u00e1ria e h\u00eddrica, al\u00e9m de responsabilidade socioambiental.<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>1. Padre da Ordem dos carmelitas; doutor em Educa\u00e7\u00e3o pela FAE\/UFMG; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP\/SP; mestre em Exegese B\u00edblica pelo Pontif\u00edcio Instituto B\u00edblico de Roma, It\u00e1lia; assessor da CPT, CEBI, SAB e Ocupa\u00e7\u00f5es Urbanas; prof. de \u201cMovimentos Sociais Populares e Direitos Humanos\u201d no IDH, em Belo Horizonte, MG. E-mail: gilvanderlm@gmail.com \u2013 www.freigilvander.blogspot.com.br \u2013 www.gilvander.org.br \u2013 www.twitter.com\/gilvanderluis \u2013 Facebook: Gilvander Moreira III<\/p>\n<p>2. Express\u00e3o de Carlos Walter Porto-Gon\u00e7alves (PORTO-GON\u00c7ALVES, 2014: 93).<\/p>\n<p>3. Sobre hist\u00f3ria e resist\u00eancia dos quilombolas em Minas Gerais, cf. CEDEFES (Org.). Comunidades quilombolas de Minas Gerais no s\u00e9culo XXI: hist\u00f3ria e resist\u00eancia. Belo Horizonte: Aut\u00eantica\/CEDEFES, 2008.<\/p>\n<p>4. Dados dispon\u00edveis aqui.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias:<\/p>\n<p>OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de. Os anos Lula: contribui\u00e7\u00f5es para um balan\u00e7o cr\u00edtico 2003-2010. Rio de janeiro: Garamond, p. 287-328, 2010.<\/p>\n<p>PORTO GON\u00c7ALVES, Carlos Walter; CUIN, Danilo Pereira; LEAL, Leandro Teixeira; NUNES SILVA, Marlon. Dos Cerrados e de suas riquezas. In: Conflitos no Campo Brasil 2014. Goi\u00e2nia: CPT Nacional, p. 88-95, 2014.<\/p>\n<p>Belo Horizonte, MG, 16\/01\/2018.<\/p>\n<p>Obs. 1: O v\u00eddeo, abaixo, ilustra o texto, acima.<\/p>\n<p>Palavra \u00c9tica na TVC\/BH: Pr\u00e9-romarias da 20\u00aa Romaria das \u00e1guas\/terra de MG de 2017. Desertifica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/575307-capitalismo-no-campo-dizima-os-cerrados-e-atica-os-conflitos-agrarios<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18462\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[239,7],"tags":[],"class_list":["post-18462","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiental","category-s8-brasil"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4NM","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18462","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18462"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18462\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18462"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18462"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18462"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}