{"id":185,"date":"2008-08-28T08:13:50","date_gmt":"2008-08-28T08:13:50","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=185"},"modified":"2008-08-28T08:13:50","modified_gmt":"2008-08-28T08:13:50","slug":"bolivia-a-esquerda-nao-basta-ganhar-eleicoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/185","title":{"rendered":"BOL\u00cdVIA: \u00c0 ESQUERDA, N\u00c3O BASTA GANHAR ELEI\u00c7\u00d5ES!"},"content":{"rendered":"\n<p>Dois prefeitos (governadores) de Departamento tiveram seus mandatos revogados (La Paz e Cochabamba), ambos da direita. Os dois \u00fanicos prefeitos do MAS (partido de Evo) foram confirmados (Oruro e Potosi). Por outro lado, foram tamb\u00e9m confirmados os quatro prefeitos de direita da &#8220;Meia Lua&#8221; (Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija), que implantam o &#8220;autonomismo&#8221;, eufemismo para disfar\u00e7ar o movimento separatista, dirigido e financiado pelo imperialismo.<\/p>\n<p>O nono Departamento (Chuquisaca, que tem Sucre como capital) s\u00f3 votou com rela\u00e7\u00e3o ao mandato presidencial, pois a Prefeita (oposi\u00e7\u00e3o moderada) havia sido empossada pouco antes do referendo de 10 de agosto, em fun\u00e7\u00e3o da cassa\u00e7\u00e3o do titular. Mesmo com a insatisfa\u00e7\u00e3o em Sucre, que se reivindica capital do pa\u00eds, Morales ganhou em Chuquisaca com 54%.<\/p>\n<p>O resultado do referendo \u00e9 mais uma prova da manipula\u00e7\u00e3o da m\u00eddia burguesa mundial. Quem imaginaria que o Presidente boliviano teria mais de dois ter\u00e7os de confian\u00e7a popular? Que em Santa Cruz (que hegemoniza o separatismo), Evo teria 44% de votos favor\u00e1veis? Lembram-se do inconstitucional &#8220;referendo auton\u00f4mico&#8221; (n\u00e3o reconhecido pelo \u00f3rg\u00e3o eleitoral nacional da Bol\u00edvia), em que o prefeito de l\u00e1 anunciou 80% de votos pela autonomia, num processo de vota\u00e7\u00e3o e apura\u00e7\u00e3o que n\u00e3o contou com fiscaliza\u00e7\u00e3o do lado contr\u00e1rio nem com observadores internacionais?<\/p>\n<p>A manipula\u00e7\u00e3o foi escandalosa como sempre. A impress\u00e3o era de que o Presidente estava isolado, espremido entre a esquerda e a direita. Ali\u00e1s, a direita se aproveitou bem do erro t\u00e1tico da hist\u00f3rica, unit\u00e1ria e combativa COB (Central Obrera Boliviana), que puxou uma greve justa por uma reivindica\u00e7\u00e3o justa, s\u00f3 que na hora errada (\u00e0s v\u00e9speras do referendo), abrindo espa\u00e7o para que setores sect\u00e1rios minorit\u00e1rios recorressem a formas de luta inadequadas para a ocasi\u00e3o (destrui\u00e7\u00e3o de pontes com dinamite, para bloqueio da rodovia que cruza o pa\u00eds). Conseguiram dois cad\u00e1veres para agitar &#8220;Fora Evo assassino&#8221;, com ampla cobertura da m\u00eddia burguesa.<\/p>\n<p>Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, esses setores, supostamente ultra-esquerdistas, pregavam o &#8220;voto castigo&#8221; em Evo, sob a bandeira &#8220;Nem Evo nem oligarquia&#8221;. Oportunistas, votaram para revogar o mandato do Presidente, para se apresentarem como alternativa em uma nova elei\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>As oligarquias fizeram um show midi\u00e1tico em torno da &#8220;greve de fome c\u00edvica&#8221; na Meia Lua, em que saud\u00e1veis jovens pequeno-burgueses se deitavam teatralmente em tendas durante o dia &#8211; assistindo as Olimp\u00edadas na televis\u00e3o \u2013 descansando da farra da madrugada, em que se alimentavam, bebiam, namoravam e se divertiam.<\/p>\n<p>A Uni\u00f3n Juvenil Cruce\u00f1a (de Santa Cruz), vanguarda violenta da direita racista e separatista, n\u00e3o permitiu que Evo e Alvaro Lineira (Vice-Presidente) fizessem campanha pessoalmente na Meia Lua, bloqueando rodovias e pistas de aeroportos. Todas essas a\u00e7\u00f5es, divulgadas como manifesta\u00e7\u00f5es populares, foram promovidas pelos mesmos jovens fascistas cruce\u00f1os, financiados pela embaixada norte-americana, prefeituras locais e mesadas de papais e vov\u00f4s. Profissionalizados, movimentam-se por toda a Meia Lua. N\u00e3o foi \u00e0 toa que os ilegais &#8220;referendos auton\u00f4micos&#8221; promovidos na regi\u00e3o se deram em dias diferentes, para que esses arruaceiros pudessem estar em todos, agredindo e intimidando a popula\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria, especialmente ind\u00edgena, para n\u00e3o votar.<\/p>\n<p>A revoga\u00e7\u00e3o do mandato dos dois prefeitos de direita, em departamentos importantes (La Paz e Cochabamba), onde Evo venceu esmagadoramente, ser\u00e1 um ganho para o governo, que em breve dever\u00e1 eleger seus candidatos \u00e0 elei\u00e7\u00e3o complementar. Como foi eleito Presidente, em 2005, mais pelos povos origin\u00e1rios e movimentos sociais do que por estrutura partid\u00e1ria, at\u00e9 agora Morales s\u00f3 tinha dois Prefeitos aliados (Potosi e Oruro).<\/p>\n<p>Com a vit\u00f3ria no referendo de 10 de agosto, desmontou-se um prov\u00e1vel golpe de direita que estava em curso e que poderia ter sido retomado logo ap\u00f3s o an\u00fancio dos primeiros resultados, se negativos para o governo. O Presidente saiu fortalecido. Melhorou seu posicionamento para enfrentar o imperialismo e a oligarquia. Desmoralizou-se a manipula\u00e7\u00e3o da m\u00eddia burguesa, que o vinha caracterizando como isolado, f\u00edsica e politicamente, espremido entre a esquerda e a direita. A partir de agora, o Presidente fala mais grosso.<\/p>\n<p>Mas, na luta de classes, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para ilus\u00f5es. A direita manteve suas cidadelas na Meia Lua, o que n\u00e3o retira o separatismo da ordem do dia. A confirma\u00e7\u00e3o dos seus prefeitos \u2013 mesmo que com vota\u00e7\u00e3o bem abaixo do esperado por eles \u2013 permite a difus\u00e3o de uma vers\u00e3o do resultado, com um discurso de que houve um empate. N\u00e3o deixam de ter alguma base para isso. Afinal, a Meia Lua oriental, de maioria branca, onde est\u00e3o a pecu\u00e1ria e os hidrocarbonetos (petr\u00f3leo e g\u00e1s), representa 45% do PIB boliviano e mais de um ter\u00e7o do territ\u00f3rio e da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Manipulando o resultado das urnas, a oligarquia medialunense radicaliza ap\u00f3s o referendo. Convoca lockout, com nome de &#8220;greve c\u00edvica&#8221;. Em Santa Cruz, aplicam os &#8220;estatutos auton\u00f4micos&#8221;, inspirados na Constitui\u00e7\u00e3o do Kosovo, enclave que virou pa\u00eds, artificialmente criado sob o comando do atual embaixador norte-americano na Bol\u00edvia. Ao arrepio da Constitui\u00e7\u00e3o Federal, legislam sobre elei\u00e7\u00f5es, organiza\u00e7\u00e3o de poderes, economia (incluindo exporta\u00e7\u00e3o e tributos), cria\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es locais (at\u00e9 pol\u00edcia pr\u00f3pria); arvoram-se em nomear unilateralmente autoridades para as reparti\u00e7\u00f5es federais no Departamento.<\/p>\n<p>O Presidente tem agora mais f\u00f4lego e peso pol\u00edtico para enfrentar em melhores condi\u00e7\u00f5es os temas da conjuntura, como a Lei de Pens\u00f5es, o IDH (Imposto Direto sobre Hidrocarbonetos), a nova Constitui\u00e7\u00e3o, o separatismo, o tema da capital do pa\u00eds. Tem o direito e o dever de se locomover para qualquer parte do pa\u00eds, enfrentando, com a seguran\u00e7a necess\u00e1ria, as agress\u00f5es e obstru\u00e7\u00f5es que a direita continuar\u00e1 a praticar. Tem mais legitimidade e autoridade at\u00e9 para negociar com Departamentos, o que n\u00e3o for quest\u00e3o de princ\u00edpio, a partir de uma posi\u00e7\u00e3o mais forte.<\/p>\n<p>A agenda boliviana nos pr\u00f3ximos meses vai ser marcada por dois temas que se imbricam: as autonomias departamentais e o referendo sobre a nova Constitui\u00e7\u00e3o, j\u00e1 redigida e aprovada pela Assembl\u00e9ia Constituinte espec\u00edfica h\u00e1 um ano. A direita far\u00e1 de tudo para evitar este referendo, pois a nova Constitui\u00e7\u00e3o vem para consolidar e avan\u00e7ar mudan\u00e7as progressistas.<\/p>\n<p>A continuidade e o avan\u00e7o do atual processo de mudan\u00e7as \u2013 bem definido como uma revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e cultural \u2013 e a possibilidade de ele vir a assumir um car\u00e1ter socialista v\u00e3o depender principalmente da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, do n\u00edvel de consci\u00eancia, organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o das massas populares, sobretudo da unidade oper\u00e1rio-camponesa. Mas vai depender tamb\u00e9m da vontade pol\u00edtica de Evo Morales, de seu governo e de seu partido (MAS), ou seja, vai depender do que o dirigente do Partido Comunista Boliviano (sigla hom\u00f4nima do nosso PCB), Marcos Domich, chama de &#8220;golpe do poder&#8221;, ou seja, da determina\u00e7\u00e3o do governo de n\u00e3o conciliar mais com a viol\u00eancia dos grupos de direita e com o separatismo, de retomar o exerc\u00edcio do governo, de avan\u00e7ar em medidas para mitigar as injusti\u00e7as sociais, assegurando terra aos camponeses e direitos aos trabalhadores. E, sobretudo, de convocar imediatamente o referendo popular para a aprova\u00e7\u00e3o da nova Constitui\u00e7\u00e3o. O momento \u00e9 este: a tend\u00eancia \u00e9 de nova vit\u00f3ria, por expressiva maioria.<\/p>\n<p>Pelo que senti pessoalmente na Bol\u00edvia, isso \u00e9 o que as massas populares esperam de Evo Morales: um governo para chamar de seu. Se o Presidente conciliar, ficar\u00e1 sem respaldo algum, nem dos oprimidos nem dos opressores. Ou renuncia ou cai, como um castelo de cartas. E se optar por avan\u00e7ar, como se espera, n\u00e3o nos iludamos. A radicaliza\u00e7\u00e3o vai aumentar at\u00e9 uma inevit\u00e1vel ruptura violenta, em que \u2013 mais do que a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as no terreno estritamente militar &#8211; os oper\u00e1rios, camponeses e trabalhadores em geral podem fazer a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Na Bol\u00edvia de hoje, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para a concilia\u00e7\u00e3o de classe.<\/p>\n<p>(*) Ivan Pinheiro, Secret\u00e1rio Geral do Partido Comunista Brasileiro (PCB), esteve em La Paz e Santa Cruz, antes, durante e depois do 10 de agosto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"A dif\u00edcil situa\u00e7\u00e3o da Bol\u00edvia depois do referendo de 10 de Agosto analisada por Ivan Pinheiro tem, entre outros m\u00e9ritos, o de de ser feito por quem conhece directamente a situa\u00e7\u00e3o, pois esteve na Bol\u00edvia antes, durante e depois do referendo.\nIvan Pinheiro (*) &#8211; 25.08.08\nEvo Morales foi consagrado em meio ao seu mandato, em referendo convocado por ele pr\u00f3prio, com 67% dos votos, ou seja, 14% a mais do que quando foi eleito Presidente, em 2005 (53%).\nAt\u00e9 na Meia Lua, onde viceja o separatismo, Evo dividiu o eleitorado: ganhou em Pando, empatou em Tarija e perdeu de pouco em Beni e Santa Cruz de la Sierra. Do total de nove Departamentos (Estados) da Bol\u00edvia, ganhou em sete. Mesmo nos dois em que perdeu, teve mais votos que em 2005. Em La Paz que, junto com El Alto, tem um ter\u00e7o do eleitorado nacional, Evo Morales teve 83% dos votos.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/185\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[44],"tags":[],"class_list":["post-185","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c55-bolivia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-2Z","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/185","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=185"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/185\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=185"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=185"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=185"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}