{"id":18531,"date":"2018-01-28T12:47:36","date_gmt":"2018-01-28T15:47:36","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=18531"},"modified":"2018-01-28T10:54:26","modified_gmt":"2018-01-28T13:54:26","slug":"mariana-mg-comunidades-sofrem-com-seca-e-ameacas-de-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18531","title":{"rendered":"Mariana, MG: comunidades sofrem com seca e amea\u00e7as de morte"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" height=\"467\" width=\"747\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"Mariana, MG: comunidades sofrem com seca e amea\u00e7as de morte\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/apublica.org\/wp-content\/uploads\/2018\/01\/foto-1-1-1920x1200.jpg?resize=747%2C467&#038;ssl=1\" alt=\"Mariana, MG: comunidades sofrem com seca e amea\u00e7as de morte\" \/><!--more--><strong>Amplia\u00e7\u00e3o de projeto de minera\u00e7\u00e3o no interior de Minas prev\u00ea barragem quatro vezes maior do que a do Fund\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Lucas Ferraz<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/apublica.org\/2018\/01\/a-sombra-da-tragedia-de-mariana\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ag\u00eancia P\u00fablica<\/a><\/p>\n<p>O agricultor Jos\u00e9 Matozinhos dos Santos, 66 anos, pertence \u00e0 terceira gera\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia a nascer em \u00c1gua Quente, uma comunidade espalhada nos morros da zona rural de Concei\u00e7\u00e3o do Mato Dentro, no centro de Minas Gerais. Sua m\u00e3e, Rosa Jesus, nascida e criada naquelas terras, completou 106 anos em 2017 vivendo no mesmo lugar. Matozinhos conta que seu bisav\u00f4 foi o primeiro descendente a se assentar em \u00c1gua Quente, h\u00e1 quase dois s\u00e9culos \u2014 o munic\u00edpio, um dos tantos criados no ciclo do ouro mineiro, tem 315 anos.<\/p>\n<p>A vida de Matozinhos, de sua m\u00e3e e das dezenas de fam\u00edlias da comunidade \u2014 assim como a de centenas de moradores de outros distritos da regi\u00e3o \u2014 foi profundamente alterada desde o in\u00edcio de um dos mais emblem\u00e1ticos e pol\u00eamicos projetos de minera\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, o Minas-Rio, h\u00e1 dez anos.<\/p>\n<p>Idealizado pelo empres\u00e1rio Eike Batista, que n\u00e3o demorou a pass\u00e1-lo para a frente, o empreendimento tornou-se um dos principais na carta mundial da Anglo American, mineradora de origem sul-africana que, sediada em Londres, \u00e9 respons\u00e1vel por toda a opera\u00e7\u00e3o \u2014 as minas em Concei\u00e7\u00e3o do Mato Dentro, o mineroduto de mais de 500 quil\u00f4metros que transporta o min\u00e9rio de ferro at\u00e9 o porto de A\u00e7u, no Rio de Janeiro, e o terminal de onde ele \u00e9 exportado.<\/p>\n<p>Tr\u00eas anos depois de come\u00e7ar a extra\u00e7\u00e3o, e ainda sem dar o retorno esperado, ser\u00e1 aprovado provavelmente ainda neste m\u00eas o licenciamento que permitir\u00e1 ampliar a produ\u00e7\u00e3o das minas em uns 60% \u2014 um salto para estim\u00e1veis 26,5 milh\u00f5es de toneladas de min\u00e9rio por ano, ante uma capacidade m\u00e1xima que hoje varia entre 16 e 18 milh\u00f5es de toneladas. Para isso, est\u00e3o previstos o alargamento das cavas de explora\u00e7\u00e3o e o alteamento da barragem de rejeitos, que ganhar\u00e1 20 metros para cima \u2014 ter\u00e1 capacidade para armazenar quatro barragens de Fund\u00e3o, da mineradora Samarco, em Mariana, protagonista do maior acidente ambiental do Brasil. Como o min\u00e9rio de ferro de Concei\u00e7\u00e3o do Mato Dentro n\u00e3o \u00e9 dos mais puros, ele \u00e9 submetido a um processamento, o que demanda mais \u00e1gua e, consequentemente, gera mais rejeitos.<\/p>\n<p>Batizado de \u201cstep 3\u201d e envolto em pol\u00eamicas desde a sua apresenta\u00e7\u00e3o em 2015, o que inclui den\u00fancias que v\u00e3o de crimes ambientais a amea\u00e7as de morte contra parte da comunidade atingida, o projeto tem o apoio do governo mineiro, que o classificou com o selo de \u201cempreendimento priorit\u00e1rio\u201d, mesma classifica\u00e7\u00e3o dada \u00e0 volta das atividades da Samarco, suspensas desde a trag\u00e9dia de novembro de 2015.<\/p>\n<p>Um dos principais n\u00f3s em Concei\u00e7\u00e3o do Mato Dentro \u00e9 o que fazer com fam\u00edlias como a de Jos\u00e9 Matozinhos, que vivem logo abaixo da barragem de rejeitos. Al\u00e9m de \u00c1gua Quente, ainda est\u00e3o nessa rota Passa Sete (nome do c\u00f3rrego hom\u00f4nimo onde a barragem foi erguida) e o tamb\u00e9m bicenten\u00e1rio distrito de S\u00e3o Jos\u00e9 do Jass\u00e9m. No total, s\u00e3o cerca de 400 moradores, quase todos negros e dependentes da vida da ro\u00e7a, que nos \u00faltimos tr\u00eas anos viram desaparecer a \u00e1gua antes limpa e abundante.<\/p>\n<p>A barragem foi erguida sobre o c\u00f3rrego Passa Sete, que corta e abastecia as tr\u00eas comunidades. Hoje a \u00e1gua \u00e9 turva, fedida e escassa, sem os peixes de outrora \u2013 a mortandade foi detectada em estudos de bi\u00f3logos, mas o governo mineiro os considera inconclusivos. Uma pequena cachoeira em \u00c1gua Quente desapareceu. A popula\u00e7\u00e3o vizinha ao c\u00f3rrego relata que sempre h\u00e1 alguma subst\u00e2ncia \u201cestranha\u201d descendo da barragem. (As \u00e1guas do Passa Sete est\u00e3o indiretamente ligadas ao rio Doce: o c\u00f3rrego desagua no rio Santo Ant\u00f4nio, que por sua vez \u00e9 um dos afluentes do Doce, ainda contaminado em toda a sua extens\u00e3o pela lama da Samarco.)<\/p>\n<p>J\u00e1 disse para a empresa que \u00e9 imposs\u00edvel comunidades como Passa Sete e \u00c1gua Quente ficarem onde est\u00e3o. Isto \u00e9 real: os caras tinham um rio e hoje n\u00e3o t\u00eam mais\u201d, afirma o prefeito de Concei\u00e7\u00e3o do Mato Dentro, Jos\u00e9 Fernando Aparecido de Oliveira (PMDB).<\/p>\n<p>Atualmente a \u00e1gua chega nas comunidades em caminh\u00f5es providenciados pela empresa \u2013 a Anglo American n\u00e3o respondeu aos questionamentos sobre a escassez h\u00eddrica.<\/p>\n<p>\u201cAntes faz\u00edamos tudo com a \u00e1gua daqui, trat\u00e1vamos os animais, lav\u00e1vamos roupa, pesc\u00e1vamos. Mas acabou\u201d, lamenta-se Matozinhos. Da ch\u00e1cara onde ele vive com a m\u00e3e centen\u00e1ria se veem algumas das caixas-d\u2019\u00e1gua instaladas no alto de um morro.<\/p>\n<p>O medo, contudo, aflige as tr\u00eas comunidades: elas est\u00e3o na chamada zona de autossalvamento da barragem, como era o caso do distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (que ficava a 5 km de Fund\u00e3o, enquanto Passa Sete, a mais pr\u00f3xima, est\u00e1 a 1,5 km da barragem da Anglo American). A maioria dos moradores, atemorizados, quer ir embora. Caso haja um rompimento, eles ter\u00e3o poucos minutos para se salvarem, por sua conta e risco, sendo alertados somente por uma sirene \u2013 j\u00e1 instalada pela empresa.<\/p>\n<p>Desde que come\u00e7ou a ser implementado numa das regi\u00f5es mais preservadas de Minas Gerais, o projeto de minera\u00e7\u00e3o \u00e9 marcado por pol\u00eamicas e den\u00fancias de viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos \u2013 quatro pessoas que t\u00eam propriedades em disputa com a empresa est\u00e3o atualmente num programa de prote\u00e7\u00e3o do governo estadual por amea\u00e7as de morte.<\/p>\n<p>O projeto detonou um conflito na regi\u00e3o de Concei\u00e7\u00e3o do Mato Dentro (munic\u00edpio com 18 mil moradores, a 160 km de Belo Horizonte) que parece longe do fim. A mineradora e outras tr\u00eas empresas terceirizadas j\u00e1 foram autuadas at\u00e9 por manter trabalhadores em situa\u00e7\u00e3o an\u00e1loga \u00e0 escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Passada a primeira fase de reassentamentos, quando 52 fam\u00edlias foram obrigadas a sair da \u00e1rea onde hoje se desenvolve a minera\u00e7\u00e3o, restaram centenas de pessoas que est\u00e3o ao redor do empreendimento. Como esses \u201cvizinhos\u201d est\u00e3o fora da \u00e1rea de opera\u00e7\u00e3o, a lei desobriga a mineradora de realoc\u00e1-los. Nessa situa\u00e7\u00e3o, al\u00e9m das comunidades localizadas abaixo da barragem, est\u00e3o v\u00e1rias outras, de nomes como Gond\u00f3, Sapo e Cabeceira do Turco (na zona rural de Concei\u00e7\u00e3o), que passaram a conviver com os barulhos das m\u00e1quinas e explos\u00f5es, p\u00f3, poeira e mau cheiro.<\/p>\n<p>O assunto vem sendo discutido pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Estadual, que tenta um acordo entre a empresa e o governo mineiro para evitar a judicializa\u00e7\u00e3o do caso, o que provavelmente arrastaria as remo\u00e7\u00f5es na Justi\u00e7a por anos.<\/p>\n<p>A Anglo American n\u00e3o se manifestou. A mineradora disse ter aberto conversas individuais com os moradores, disponibilizando-se as remo\u00e7\u00f5es opcionais. O governo de Fernando Pimentel (PT) corrobora a decis\u00e3o: as realoca\u00e7\u00f5es devem ser opcionais. At\u00e9 porque a obrigatoriedade criaria um precedente perigoso num estado que tem a minera\u00e7\u00e3o como raz\u00e3o de ser: n\u00e3o s\u00e3o poucas as cidades cujas barragens (e at\u00e9 mesmo minas) est\u00e3o dentro das \u00e1reas urbanas.<\/p>\n<p>\u201cNingu\u00e9m aprendeu nada com o maior desastre ambiental do pa\u00eds. O estado comete os mesmos erros vistos em Mariana\u201d, afirma Marcelo Mata Machado, promotor da comarca de Concei\u00e7\u00e3o do Mato Dentro.<\/p>\n<p>A trag\u00e9dia da Samarco n\u00e3o alterou a velha simbiose entre mineradoras e o poder p\u00fablico. Al\u00e9m da fragmenta\u00e7\u00e3o das licen\u00e7as ambientais, aspecto criticado pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, a postura da Anglo American \u2013 acusada de manter a trucul\u00eancia dos anos iniciais da MMX de Eike Batista e at\u00e9 de sonegar informa\u00e7\u00f5es p\u00fablicas sobre o empreendimento \u2013 continua a ser questionada pelos moradores e institui\u00e7\u00f5es que atuam no munic\u00edpio.<\/p>\n<p>A mineradora, passados mais de dez anos, ainda n\u00e3o teve o lucro esperado \u2013 ao contr\u00e1rio, os gastos para a implementa\u00e7\u00e3o s\u00e3o considerados elevad\u00edssimos, US$ 8,4 bilh\u00f5es, segundo informou a Anglo American em nota. A aposta da empresa \u2013 e, por tabela, do endividado governo mineiro \u2013 \u00e9 que a amplia\u00e7\u00e3o do complexo ajude a melhorar as cifras em breve. Para isso, a mineradora promete novos investimentos da ordem de R$ 1 bilh\u00e3o.<br \/>\nN\u00e3o eram cavalos<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do projeto Minas-Rio come\u00e7a com o sonho grande de Eike Batista e sua MMX, a mineradora do Grupo X que deu o pontap\u00e9 inicial na opera\u00e7\u00e3o, em 2006. As minas seriam conectadas ao porto de A\u00e7u, no Rio Janeiro, por um mineroduto que corta 33 munic\u00edpios mineiros e fluminenses, um total de 529 quil\u00f4metros.<\/p>\n<p>A empreitada, por\u00e9m, come\u00e7ou maculada. As aquisi\u00e7\u00f5es eram feitas por uma empresa que chegou \u00e0 regi\u00e3o dizendo estar interessada na cria\u00e7\u00e3o de um haras, mas as terras, soube-se depois, eram ricas em min\u00e9rio de ferro. Valiam muito mais. A Pol\u00edcia Federal investigou o caso, mas o inqu\u00e9rito foi arquivado sem conclus\u00e3o.<\/p>\n<p>A Anglo American tornou-se parceira de Eike Batista em 2007, adquirindo primeiro 49% das a\u00e7\u00f5es, at\u00e9 que no ano seguinte a empresa comprou todo o Minas-Rio. O centen\u00e1rio grupo africano herdou tamb\u00e9m os problemas deixados pela MMX: o atropelo no trato com a comunidade e as estimativas infladas de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A crise financeira de 2008 e a abrupta queda do pre\u00e7o do min\u00e9rio agravaram a situa\u00e7\u00e3o. A esses problemas se somaram os excessos de custos e os atrasos na implementa\u00e7\u00e3o do projeto, que desde aqueles anos conta com o apoio dos governos de Minas e do Rio de Janeiro (\u00e0 \u00e9poca, respectivamente, as gest\u00f5es de A\u00e9cio Neves e S\u00e9rgio Cabral). Defensora da negocia\u00e7\u00e3o com Eike Batista, a norte-americana Cynthia Carroll, ent\u00e3o da CEO da Anglo American, acabou demitida diante dos maus resultados.<\/p>\n<p>A amplia\u00e7\u00e3o em curso \u00e9 tamb\u00e9m mais uma tentativa da mineradora de tentar resgatar um projeto que, por algum tempo, fora visto como promissor, mas cujos resultados se mostraram insatisfat\u00f3rios. Em f\u00f3runs da atividade mineral mundo afora, j\u00e1 se especulou que a Anglo American poderia vender o Minas-Rio, ou ao menos contar com um parceiro para amenizar os custos.<\/p>\n<p>Sobre a rela\u00e7\u00e3o da empresa com a comunidade, ponto cr\u00edtico de sua atua\u00e7\u00e3o em Minas, a mineradora n\u00e3o quis se manifestar.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 v\u00e1rias formas de viola\u00e7\u00f5es, da informa\u00e7\u00e3o sonegada \u00e0 comunidade, com a empresa fazendo apenas marketing, ao plano de seguran\u00e7a apresentado, cuja rota de fuga das comunidades foi cercada com arame farpado pela pr\u00f3pria empresa. Ningu\u00e9m se importa com a popula\u00e7\u00e3o\u201d, disse o procurador Helder Magno da Silva, que responde pela Procuradoria Regional dos Direitos do Cidad\u00e3o em Minas Gerais.<\/p>\n<p>Uma de suas a\u00e7\u00f5es foi pedir investiga\u00e7\u00e3o por improbidade administrativa contra servidores da Secretaria de Meio Ambiente do governo estadual pela forma \u201ca\u00e7odada\u201d com que o Executivo atuou no processo de licenciamento. \u201c\u00c9 muito estranha a postura\u201d, resume.<\/p>\n<p>O governo mineiro n\u00e3o se manifestou.<\/p>\n<p>Territ\u00f3rio onde est\u00e1 a maior parte da mina, Concei\u00e7\u00e3o do Mato Dentro era \u2013 n\u00e3o faz muito tempo \u2013 mais conhecida no estado como um atraente polo do ecoturismo, uma \u00e1rea de transi\u00e7\u00e3o da mata atl\u00e2ntica para o cerrado, com serras como a do Espinha\u00e7o e dezenas de cachoeiras, entre elas a do Tabuleiro, com seus 273 metros de queda livre, a mais alta de Minas e a terceira do Brasil.<\/p>\n<p>Cidade que preservou parte consider\u00e1vel de seu patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e representante leg\u00edtima da chamada \u201cMinas profunda\u201d, na rota de outras cidades hist\u00f3ricas como Serro (a 50 km) e Diamantina (a 100 km), ela come\u00e7a a enfrentar agora as transforma\u00e7\u00f5es vividas no s\u00e9culo passado por dezenas de munic\u00edpios mineradores.<\/p>\n<p>Os efeitos colaterais tornaram-se conhecidos: aumento dos crimes, crescimento desordenado, aumento da demanda do prec\u00e1rio servi\u00e7o de sa\u00fade, al\u00e9m dos impactos ambientais. O prefeito Jos\u00e9 Fernando de Oliveira, no terceiro mandato, diz que a cidade precisa tirar proveito da nova situa\u00e7\u00e3o: \u201cMin\u00e9rio n\u00e3o d\u00e1 duas safras\u201d. A minera\u00e7\u00e3o responde atualmente por 40% do or\u00e7amento de Concei\u00e7\u00e3o \u2013 cerca de R$ 40 milh\u00f5es por ano, valor que oscila de acordo com o pre\u00e7o do mineral no mercado internacional.<\/p>\n<p>O pol\u00edtico, contudo, adverte que o munic\u00edpio deve procurar outros exemplos no estado (como Mariana, em colapso desde o acidente de novembro de 2015) para evitar justamente a \u201cmin\u00e9rio-depend\u00eancia\u201d. Ele afirma que \u00e9 preciso refor\u00e7ar a voca\u00e7\u00e3o local para o ecoturismo, atividade que ele admite renegada nos \u00faltimos anos, mas que ser\u00e1 refor\u00e7ada com os milh\u00f5es provenientes da Compensa\u00e7\u00e3o Financeira pela Explora\u00e7\u00e3o de Recursos Minerais (CFEM), cuja divis\u00e3o \u00e9 a seguinte: 65% ficam com os munic\u00edpios, 23% com o estado e 12% com a Uni\u00e3o).<\/p>\n<p>Filho de Jos\u00e9 Aparecido de Oliveira (1929-2007), que nasceu na cidade e foi embaixador e ministro da Cultura, Jos\u00e9 Fernando afirma que a empresa gastou \u201cmuito e mal\u201d no in\u00edcio de sua opera\u00e7\u00e3o, mas que a postura agora \u00e9 outra. \u201cO problema \u00e9 que n\u00e3o se pode obrigar uma pessoa a sair da \u00e1rea. Quem quiser sair vai ter que negociar.\u201d<\/p>\n<p>No \u00e1pice da constru\u00e7\u00e3o do empreendimento, entre 2012 e 2014, mais de 10 mil pessoas chegaram \u00e0 regi\u00e3o de Concei\u00e7\u00e3o do Mato Dentro para trabalhar no projeto. Cerca de 400 s\u00e3o nativos que continuaram empregados, a maioria nas empresas terceirizadas.<\/p>\n<p>A chegada em massa de trabalhadores (a palavra \u201cpe\u00e3o\u201d, em alguns c\u00edrculos, ganhou conota\u00e7\u00e3o maldita) tamb\u00e9m foi sentida nos munic\u00edpios vizinhos como Dom Joaquim (onde a empresa capta \u00e1gua para o mineroduto, al\u00e9m de ser morada de alguns dos funcion\u00e1rios terceirizados) e Alvorada de Minas (que abriga parte da mina).<\/p>\n<p>Cidade de 4 mil habitantes que est\u00e1 a 30 km de Concei\u00e7\u00e3o do Mato Dentro, Dom Joaquim ganhou uma \u201ccasa de toler\u00e2ncia\u201d (prost\u00edbulo), frequentada sobretudo pelos forasteiros. O intenso tr\u00e1fego de caminh\u00f5es na pequena cidade tamb\u00e9m criou inconvenientes como rachaduras nas paredes das casas.<\/p>\n<p>\u201cA cidade perdeu a identidade e est\u00e1 de pernas para o ar, acabou a tranquilidade\u201d, afirma Juliana da Silva Alexandre, 34 anos, uma dom-joaquinense casada e m\u00e3e de tr\u00eas filhos que \u00e9 servidora da prefeitura municipal. No rio de Peixe, que passa em seu quintal, foi erguida uma adutora de \u00e1gua da Anglo American.<\/p>\n<p>Os moradores reclamam que opera\u00e7\u00e3o diminui o n\u00edvel do rio, que abastece a cidade e os munic\u00edpios vizinhos de Serro e Alvorada de Minas. A empresa nega. Ela afirma que a capta\u00e7\u00e3o ocorre fora da \u00e1rea urbana, n\u00e3o prejudicando o abastecimento.<\/p>\n<p>Num parecer anexado ao processo de licenciamento em curso, o governo mineiro reconhece que \u201ca quest\u00e3o da qualidade das \u00e1guas \u00e9, com certeza, um dos principais problemas a serem enfrentados\u201d na expans\u00e3o do empreendimento.<br \/>\nDesintegra\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>O tempo da multinacional n\u00e3o \u00e9 o mesmo das comunidades rurais. O modelo de minera\u00e7\u00e3o vigente, desenvolvido em Minas a partir da d\u00e9cada de 1940, acaba por impactar de forma abrupta a vida local.<\/p>\n<p>Uma das transforma\u00e7\u00f5es est\u00e1 relacionada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de queijos e cacha\u00e7as artesanais, uma tradi\u00e7\u00e3o em Concei\u00e7\u00e3o do Mato Dentro que diminuiu com a chegada da minera\u00e7\u00e3o. O mesmo ocorre com a redu\u00e7\u00e3o das chamadas \u201cterras de bolo\u201d, pr\u00e1tica comum na regi\u00e3o em que os terrenos (de um ou mais donos) eram compartilhados pelos roceiros e agricultores. Os produtos eram depois trocados entre eles como forma de pagamento ou recompensa pelo uso da terra alheia.<\/p>\n<p>Como grandes \u00e1reas j\u00e1 foram adquiridas, as \u201cterras de bolo\u201d escassearam, assim como as oportunidades de trabalho nas fazendas.<\/p>\n<p>A n\u00e3o observ\u00e2ncia dessas quest\u00f5es pela empresa e pelo poder p\u00fablico tende a fragmentar as comunidades, algumas delas com caracter\u00edsticas quilombolas e tradicionais, conforme alerta o Minist\u00e9rio P\u00fablico. A solu\u00e7\u00e3o seria realoc\u00e1-las inteiramente, o que parece fora de discuss\u00e3o para a Anglo American \u2013 a empresa se recusou a tratar do assunto, restringindo-se a dizer que, nos assentamentos j\u00e1 realizados, as \u201caquisi\u00e7\u00f5es de terras foram feitas individualmente porque as fam\u00edlias preferiram assim, mas a empresa sempre ofereceu a op\u00e7\u00e3o de negocia\u00e7\u00e3o coletiva\u201d.<\/p>\n<p>Quem resistiu aos acordos de desapropria\u00e7\u00e3o foi, inevitavelmente, atropelado \u2013 e com base no artigo 20 da Constitui\u00e7\u00e3o, que diz serem da Uni\u00e3o \u201cos recursos minerais, inclusive do subsolo\u201d. Foi o caso do agricultor L\u00facio da Silva Pimenta, 52 anos, que s\u00f3 deixou o terreno onde vivia \u2013 no in\u00edcio de 2017 \u2013 \u00e0 for\u00e7a, numa a\u00e7\u00e3o de reintegra\u00e7\u00e3o de posse. Ele acabou improvisando a moradia \u2013 num ato de resist\u00eancia \u2013 num pequeno terreno de sua propriedade, fora da \u00e1rea da Anglo American na serra da Ferrugem, onde ocorre a extra\u00e7\u00e3o mineral. L\u00e1 viviam cerca de dez fam\u00edlias, mas agora s\u00f3 sobrou ele.<\/p>\n<p>L\u00facio \u00e9 um dos quatro moradores da regi\u00e3o inclu\u00eddos no Programa de Prote\u00e7\u00e3o aos Direitos Humanos do governo do estado \u2013 conta que foi amea\u00e7ado na internet e no WhatsApp, servi\u00e7os a que ele n\u00e3o t\u00eam acesso. A origem das amea\u00e7as \u00e9 difusa e ainda est\u00e1 sob investiga\u00e7\u00e3o \u2013 alguns dos envolvidos seriam funcion\u00e1rios da Anglo American contrariados com a postura cr\u00edtica desses moradores.<\/p>\n<p>\u201cAmea\u00e7a n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 colocar uma arma na cabe\u00e7a de algu\u00e9m. \u00c9 tirar o modo de sobreviver, \u00e9 tirar a \u00e1gua, o lugar de viver\u201d, resume.<\/p>\n<p>No galp\u00e3o onde dorme, L\u00facio armou a cama dentro de um caixote (para se proteger de insetos e animais). Ele n\u00e3o tem energia el\u00e9trica. O agricultor se recusou a negociar uma indeniza\u00e7\u00e3o no plano fundi\u00e1rio da empresa e at\u00e9 o sal\u00e1rio m\u00ednimo que poderia receber no programa de prote\u00e7\u00e3o do governo. A justificativa: \u201cN\u00e3o sou o \u00fanico, o estado deveria fazer o mesmo por todos os atingidos\u201d. Ele atualmente recebe R$ 85 por m\u00eas do programa Bolsa Fam\u00edlia (no qual foi inclu\u00eddo) e cultiva mandioca, cana e milho em outras \u00e1reas de Concei\u00e7\u00e3o do Mato Dentro.<\/p>\n<p>Segundo Rodrigo Ribas, superintendente de projetos priorit\u00e1rios da Secretaria de Meio Ambiente do governo mineiro, os estudos ambientais apresentados pela empresa para a amplia\u00e7\u00e3o do empreendimento s\u00e3o satisfat\u00f3rios, mas ele reconhece que a Anglo American ainda tem \u201cd\u00edvidas\u201d com a comunidade. \u201cO hist\u00f3rico da rela\u00e7\u00e3o \u00e9 ruim, mas est\u00e1 sendo resolvido\u201d, afirma. Um dos aspectos do licenciamento considerado inadequado pelo estado, segundo Ribas, \u00e9 exatamente o plano de solu\u00e7\u00e3o de conflitos.<\/p>\n<p>Apesar disso, o plano de expans\u00e3o que ser\u00e1 aprovado em breve vai definir a explora\u00e7\u00e3o de min\u00e9rio de ferro na regi\u00e3o pelos pr\u00f3ximos 28 anos. As pol\u00eamicas e conflitos n\u00e3o devem arrefecer t\u00e3o cedo.<\/p>\n<p>Uma das possibilidades aventadas pelo procurador Helder Magno da Silva \u00e9 federalizar as a\u00e7\u00f5es sobre o caso, o que ele acredita poss\u00edvel pelo fato de o mineroduto passar por 33 munic\u00edpios de dois estados.<\/p>\n<p>Na fase de expans\u00e3o, a empresa afirma que vai criar 800 novas vagas, menos de 10% do total de trabalhadores utilizados na fase de instala\u00e7\u00e3o do Minas-Rio. Como antes, muitos v\u00e3o embora assim que as obras s\u00e3o conclu\u00eddas. A chegada do empreendimento quase que dobrou o n\u00famero de empresas atuantes em Concei\u00e7\u00e3o, mas depois da euforia inicial restou o t\u00e9dio dos com\u00e9rcios vazios.<\/p>\n<p>Novas institui\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m acompanham o desenrolar do processo. Uma delas \u00e9 o Polos de Cidadania, ligada \u00e0 Universidade Federal de Minas Gerais, que desde 2015 acompanha a pedido do Minist\u00e9rio P\u00fablico Estadual a situa\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o, seguindo as den\u00fancias de viola\u00e7\u00f5es e as eventuais contrapartidas sociais que a mineradora \u00e9 obrigada a cumprir.<\/p>\n<p>\u201cSe o min\u00e9rio \u00e9 importante para o Brasil e outros pa\u00edses, que minere, mas principalmente respeitando as pessoas, as nascentes, a fauna, a flora. E isso eu n\u00e3o vejo acontecer. N\u00e3o sou contra minera\u00e7\u00e3o, sou contra covardia e hipocrisia. Mas quem pode enfrentar uma elite dessa junta?\u201d, pergunta-se L\u00facio.<\/p>\n<p>Edi\u00e7\u00e3o: Ag\u00eancia P\u00fablica<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"nlZ5b17CXw\"><p><a href=\"https:\/\/apublica.org\/2018\/01\/a-sombra-da-tragedia-de-mariana\/\">\u00c0 sombra da trag\u00e9dia de Mariana<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"https:\/\/apublica.org\/2018\/01\/a-sombra-da-tragedia-de-mariana\/embed\/#?secret=nlZ5b17CXw\" data-secret=\"nlZ5b17CXw\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;\u00c0 sombra da trag\u00e9dia de Mariana&#8221; &#8212; Ag\u00eancia P\u00fablica\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18531\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[239],"tags":[227],"class_list":["post-18531","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiental","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4OT","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18531","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18531"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18531\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18531"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18531"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18531"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}