{"id":18534,"date":"2018-01-28T14:57:26","date_gmt":"2018-01-28T17:57:26","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=18534"},"modified":"2018-01-28T11:06:05","modified_gmt":"2018-01-28T14:06:05","slug":"miseria-do-agronegocio-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18534","title":{"rendered":"A mis\u00e9ria do agroneg\u00f3cio brasileiro"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/brasil\/imagens\/agro_fome.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por Jos\u00e9 Martins *<\/p>\n<p><em>Originalmente publicado em <a href=\"http:\/\/criticadaeconomia.com.br\/a-miseria-do-agronegocio-brasileiro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cr\u00edtica da Economia<\/a><\/em><\/p>\n<p>O que os ide\u00f3logos da burguesia agr\u00e1ria brasileira estavam mesmo dizendo em nosso \u00faltimo boletim? Dentre outras bobagens, uma fort\u00edssima e solene afirma\u00e7\u00e3o: &#8220;Embora as lavouras ocupem uma pequena porcentagem do territ\u00f3rio brasileiro, o Pa\u00eds \u00e9 uma pot\u00eancia agr\u00edcola e um dos l\u00edderes no com\u00e9rcio global de v\u00e1rios produtos&#8221;.<\/p>\n<p>Nosso trabalho \u00e9 verificar o que eles querem esconder com esse tipo de propaganda. Um bom come\u00e7o \u00e9 observar alguns n\u00fameros que medem o ranking mundial dos produtores de cereais. A fonte destes dados da produ\u00e7\u00e3o \u00e9 o mais recente <a href=\"http:\/\/usda.mannlib.cornell.edu\/usda\/current\/worldag-production\/worldag-production-01-12-2018.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">relat\u00f3rio do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos<\/a> sobre a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola mundial, janeiro 2018. \u00c9 a mais completa e segura fonte de estat\u00edstica agr\u00e1ria internacional existente.<\/p>\n<p><strong>OS DEZ MAIORES PRODUTORES MUNDIAIS DE GR\u00c3OS <\/strong><\/p>\n<table border=\"1\" width=\"100%\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><\/td>\n<td><center><center>I. PRODU\u00c7\u00c3O<br \/>\n(milh\u00f5es t)<\/center><\/center><\/td>\n<td><center>II. PARTICIPA\u00c7\u00c3O NO TOTAL MUNDIAL<br \/>\n(%)<\/center><\/td>\n<td><center>III. PRODU\u00c7\u00c3O PER CAPITA<br \/>\n(t\/habitante)<\/center><\/td>\n<td><center>IV. SUPERF\u00cdCIE DO PA\u00cdS<br \/>\n(x1000 km2)<\/center><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Mundo<\/td>\n<td>2.606,0<\/td>\n<td>100,00<\/td>\n<td>0,342<\/td>\n<td><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>China<\/td>\n<td>501,0<\/td>\n<td>19,92<\/td>\n<td>0,360<\/td>\n<td>9.600<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>EUA<\/td>\n<td>472,0<\/td>\n<td>18,11<\/td>\n<td>1,417<\/td>\n<td>9.400<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>U. Europeia<\/td>\n<td>298,0<\/td>\n<td>11,40<\/td>\n<td>0,585<\/td>\n<td>4.324<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>\u00cdndia<\/td>\n<td>241,0<\/td>\n<td>9,24<\/td>\n<td>0,188<\/td>\n<td>3.287<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>R\u00fassia<\/td>\n<td>127,0<\/td>\n<td>4,80<\/td>\n<td>0,869<\/td>\n<td>17.098<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Brasil<\/td>\n<td>116,0<\/td>\n<td>4,45<\/td>\n<td>0,557<\/td>\n<td>8.514<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Argentina<\/td>\n<td>69,0<\/td>\n<td>2,64<\/td>\n<td>1,604<\/td>\n<td>2.792<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Ucr\u00e2nia<\/td>\n<td>66,0<\/td>\n<td>2,50<\/td>\n<td>1,534<\/td>\n<td>576<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Canad\u00e1<\/td>\n<td>57,0<\/td>\n<td>2,18<\/td>\n<td>1,727<\/td>\n<td>9.984<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Austr\u00e1lia<\/td>\n<td>51,0<\/td>\n<td>1,95<\/td>\n<td>2,125<\/td>\n<td>7.692<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>G-10<\/td>\n<td>1.997,0<\/td>\n<td>76,60<\/td>\n<td>0,502<\/td>\n<td>73.267<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Importante observa\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica: a norma do USDA (sigla em ingl\u00eas para Departamento de Agricultura dos EUA) e demais cong\u00eaneres internacionais, assim como no mercado agr\u00edcola internacional cotidiano, bolsas de mercadorias, etc, \u00e9 considerar como gr\u00e3os (ou cereais) apenas os tr\u00eas alimentos de base do mundo: trigo, milho e arroz. N\u00e3o existe nenhum outro alimento de base no mercado mundial al\u00e9m destes tr\u00eas cereais.<\/p>\n<p>Essa classifica\u00e7\u00e3o tem fundamentos te\u00f3ricos e pr\u00e1ticos. N\u00e3o se trata da natureza do valor de uso (utilidade) destes tr\u00eas alimentos agr\u00edcolas. Trata-se do fato de eles serem os mais produzidos, mais transacionados, mais consumidos (direta ou indiretamente) e ocuparem a maior \u00e1rea plantada no globo terrestre.<\/p>\n<p>Trata-se, finalmente, de um problema de valor e de pre\u00e7os, al\u00e9m da renda fundi\u00e1ria (absoluta e relativa). Seus pre\u00e7os de atacado nacionais s\u00e3o, portanto, regulados pela estrutura (composi\u00e7\u00e3o org\u00e2nica da terra-capital) dos seus ramos produtores em dimens\u00e3o global.<\/p>\n<p>S\u00e3o, portanto, esses tr\u00eas produtos que s\u00e3o considerados no relat\u00f3rio do USDA e na tabela acima. Veremos mais abaixo (nas &#8220;anota\u00e7\u00f5es \u00e0 margem do tema&#8221;) outras considera\u00e7\u00f5es acerca de outros g\u00eaneros agr\u00edcolas que n\u00e3o entram na categoria de gr\u00e3os ou cereais propriamente ditos, como as oleaginosas soja, amendoim, feij\u00e3o, etc.<\/p>\n<p>Primeira observa\u00e7\u00e3o substancial sobre os n\u00fameros da tabela acima: a produ\u00e7\u00e3o mundial dos tr\u00eas principais alimentos de base no mundo \u2013 2.606 milh\u00f5es de toneladas m\u00e9tricas anuais \u2013 \u00e9 largamente insuficiente para se eliminar ou mesmo diminuir a fome da popula\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>Como descrito em <a href=\"http:\/\/criticadaeconomia.com.br\/observacoes-acerca-da-producao-mundial-de-alimentos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">recente boletim da Cr\u00edtica<\/a> para alimentar em quantidade e qualidade a popula\u00e7\u00e3o mundial \u2013 aproximadamente 7,5 mil milh\u00f5es de pessoas, em 2016 \u2013 seria necess\u00e1ria a produ\u00e7\u00e3o anual de aproximadamente 13 mil milh\u00f5es de toneladas dos tr\u00eas alimentos de base listados na tabela acima, cinco vezes mais do que foi produzido na safra 2016\/2017.<\/p>\n<p>Nesta j\u00e1 insuficiente oferta mundial o Brasil se destaca negativamente: \u00e9 um dos pa\u00edses onde se produz menos alimentos de base no mundo \u2013 apenas 4,45% do total mundial.<\/p>\n<p>Mesmo que a superf\u00edcie do pa\u00eds (8,514 milh\u00f5es de km\u00b2) seja aproximadamente a mesma de EUA e China, aqui se produz pouco mais de um quinto do que se produz em cada um destes outros dois pa\u00edses lideres da produ\u00e7\u00e3o mundial.<\/p>\n<p>Enquanto no Brasil se produzem m\u00edseros 116 milh\u00f5es de toneladas anuais de gr\u00e3os, na China s\u00e3o produzidos 501 milh\u00f5es e nos EUA 472 milh\u00f5es. As \u00e1reas ocupadas nestes dois pa\u00edses com essas estrat\u00e9gicas culturas, como vimos no boletim anterior, s\u00e3o muitas vezes superiores \u00e0 ocupada no Brasil.<\/p>\n<p>EUA e China s\u00e3o &#8220;gastadores de terras&#8221;. O agroneg\u00f3cio brasileiro, nas palavras dos seus pr\u00f3prios ide\u00f3logos, \u00e9 um virtuoso &#8220;poupador de terras&#8221;.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que essa m\u00edsera produ\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o do Brasil no total mundial de gr\u00e3os j\u00e1 \u00e9 um primeiro de forte desmentido daquele ufan\u00edssimo &#8220;grande pot\u00eancia agr\u00edcola mundial&#8221; da propaganda.<\/p>\n<p>Logo nos primeiros minutos de jogo j\u00e1 se revela em n\u00fameros redondos a realidade daquela fantasiosa virtude da burguesia agraria brasileira de grande &#8220;poupadora de terras&#8221;.<\/p>\n<p>Infort\u00fanios das virtudes? Em nome de uma fantasiosa bondade de preservar as florestas, os rios e a natureza em geral, a burguesia agr\u00e1ria brasileira produz uma miser\u00e1vel quantidade de alimentos para alimentar sua popula\u00e7\u00e3o. Alguma coisa est\u00e1 errada nesta estranha equa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Continuemos nossa investiga\u00e7\u00e3o dos fatos. A realidade agr\u00edcola brasileira se revela ainda mais impiedosa quando se mede a produ\u00e7\u00e3o per capita, quer dizer, a produ\u00e7\u00e3o de alimento de cada pa\u00eds por habitante (Coluna III da tabela).<\/p>\n<p>Por que essa medida \u00e9 importante? Porque \u00e9 o primeiro indicador dispon\u00edvel da produtividade da agricultura de gr\u00e3os em cada pa\u00eds. E o que ele nos revela? Que no Brasil a produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os por habitante \u00e9 uma das mais miser\u00e1veis do mundo. Isso j\u00e1 est\u00e1 prenunciando uma goleada.<\/p>\n<p>Dentre os dez maiores produtores de gr\u00e3os registrado na tabela acima, s\u00f3 a China e a \u00cdndia, os dois pa\u00edses mais populosos do mundo, apresentam uma produ\u00e7\u00e3o por habitante inferior \u00e0 do Brasil.<\/p>\n<p>Essa criminosa base fundi\u00e1ria capitalista nas economias dominadas do sistema imperialista mundial \u00e9 o fator mais determinante da imensa mis\u00e9ria e fome das popula\u00e7\u00f5es destes proeminentes integrantes dos BRICS, sigla para os cinco grandes &#8220;emergentes&#8221; do mundo \u2013 Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia, China e South \u00c1frica.<\/p>\n<p>Baixa produtividade na produ\u00e7\u00e3o do alimento de base \u00e9 um dos fatores econ\u00f4micos mais importantes para a predomin\u00e2ncia da mais-valia absoluta (baixa produtividade) nestas economias dominadas e, ao mesmo tempo, do desenvolvimento desigual e combinado na ordem imperialista global.<\/p>\n<p>A calamitosa realidade agr\u00e1ria brasileira fica ainda mais evidente quando comparada com a da Argentina, que tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 nenhum para\u00edso de desenvolvimento econ\u00f4mico e social. Ao contr\u00e1rio, est\u00e1 cada vez mais pr\u00f3ximo do inferno social brasileiro.<\/p>\n<p>Mesmo assim, como se pode verificar na mesma coluna II da tabela, a produtividade no pa\u00eds vizinho, mesmo sofrendo sua ingloriosa decad\u00eancia, \u00e9 tr\u00eas vezes superior \u00e0 do maravilhoso agroneg\u00f3cio &#8220;poupador de terras&#8221; brasileiro.<\/p>\n<p>Antes de procurar outras formas de medir a produtividade na produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os, lembremos mais uma solene afirma\u00e7\u00e3o dos ide\u00f3logos do agroneg\u00f3cio no Brasil, j\u00e1 registrada no boletim anterior, quando eles tentam explicar como foi constru\u00edda isso que eles chamam de &#8220;grande pot\u00eancia agr\u00edcola&#8221;.<\/p>\n<p>Vale a pena repetir: &#8221; A explica\u00e7\u00e3o principal est\u00e1 nos ganhos de produtividade, centrados, no caso brasileiro, no volume produzido por hectare\u2026 Em outras palavras, a agricultura brasileira tornou-se uma atividade poupadora de terra. A produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os \u00e9 o exemplo mais vis\u00edvel dos ganhos de produtividade&#8221;.<\/p>\n<p>Uma afirma\u00e7\u00e3o dessa vale mais que uma dela\u00e7\u00e3o premiada. Para comprovar se essa parte fundamental do discurso \u00e9 verdadeira, nada mais saud\u00e1vel do que continuar investigando outros dados presentes no mesmo relat\u00f3rio do USDA em refer\u00eancia.<\/p>\n<p>Relembrando alguns dados: o milho \u00e9 o alimento de base das Am\u00e9ricas. E sua produ\u00e7\u00e3o no continente se aproxima de 600 milh\u00f5es de toneladas. Isso \u00e9 o equivalente a 56% do total mundial.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas dos governos, a produ\u00e7\u00e3o e os pre\u00e7os de atacado dos tr\u00eas alimentos de base em cada economia nacional isolada \u2013 como para qualquer mercadoria capitalista amplamente comercializada internacionalmente \u2013 s\u00e3o regulados pelos pre\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o desses alimentos na economia l\u00edder do ramo. Essa \u00e9 uma regra econ\u00f4mica muito importante para se analisar as possibilidades e limites da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola nacional. A produ\u00e7\u00e3o de milho nos EUA determina a din\u00e2mica das demais produ\u00e7\u00f5es nacionais deste cereal.<\/p>\n<p>A China \u00e9 o \u00fanico pais fora das Am\u00e9ricas que tem uma quantidade produzida significativa de milho: 220 milh\u00f5es de ton. Cerca de 20% do total mundial. \u00c9 surpreendente que a produ\u00e7\u00e3o de milho na China \u00e9 maior que a de arroz (145 milh\u00f5es de ton.) e a de trigo (130 milh\u00f5es de ton.).<\/p>\n<p>Chama a aten\u00e7\u00e3o essa grande produ\u00e7\u00e3o de milho na China porque o arroz \u00e9 o principal alimento de base na \u00e1rea asi\u00e1tica. Isso foi definido j\u00e1 por Adam Smith, que desenvolveu a mais completa teoria do alimento de base \u2013 depois amplamente aproveitada e ampliada por Marx.<\/p>\n<p>Esse tipo de fundamento t\u00e3o importante para a teoria econ\u00f4mica n\u00e3o \u00e9 ensinado em nenhuma escola de Economia do mundo. A teoria do alimento de base n\u00e3o \u00e9 mencionada nem pelo menos nos manuais de Hist\u00f3ria do Pensamento Econ\u00f4mico. Ignor\u00e2ncia e vulgariza\u00e7\u00e3o total. Venha para o mundo do capital!<\/p>\n<p>Not\u00e1vel tamb\u00e9m aquela equilibrada reparti\u00e7\u00e3o entre os tr\u00eas alimentos de base na mais populosa economia do mundo. Isso merece um estudo a parte. Do mesmo modo o Brasil, onde, pelo motivo oposto ao da China, o que se verifica \u00e9 uma reparti\u00e7\u00e3o absolutamente desequilibrada entre os tr\u00eas alimentos mundiais de base. O maravilhoso e altamente produtivo agroneg\u00f3cio brasileiro apresenta uma desprez\u00edvel produ\u00e7\u00e3o de trigo (6,73 milh\u00f5es de ton.) e de arroz (7,82 milh\u00f5es de ton.).<\/p>\n<p>Deve ser para poupar terras que o agroneg\u00f3cio brasileiro n\u00e3o produz cereais. Mas a fiel torcida (mais faminta do que fiel) de mais de 200 milh\u00f5es de habitantes da maior economia do mundo ao sul do Equador bem que agradeceria a esses benem\u00e9ritos senhores &#8220;poupadores de terras&#8221; um pouquinho mais de arroz e macarr\u00e3o no seu prato.<\/p>\n<p>A gravidade do problema aumenta quando se revela que esse agroneg\u00f3cio preservador da natureza, dos rios e das matas virgens (vide o C\u00f3digo Florestal recentemente aprovado pelo ilustre Congresso Nacional e alegremente sancionado pela ex-presidente Dilma Rousseff) \u00e9 que ele \u00e9 um p\u00e9ssimo produtor tamb\u00e9m de milho, o seu verdadeiro alimento de base. Veja a radiografia dos maiores produtores mundiais deste estrat\u00e9gico cereal.<\/p>\n<p><strong>PRODU\u00c7\u00c3O MUNDIAL DE MILHO (milh\u00f5es de toneladas) <\/strong><\/p>\n<table width=\"100%\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><\/td>\n<td><center>Produ\u00e7\u00e3o<br \/>\n(milh\u00f5es t)<\/center><\/td>\n<td><center>\u00c1rea<br \/>\n(milh\u00f5es ha)<\/center><\/td>\n<td><center>Produtividade<br \/>\n(t\/ha)<\/center><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Mundo<\/td>\n<td>1 075<\/td>\n<td>185,57<\/td>\n<td>5,80<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Estados Unidos<\/td>\n<td>385<\/td>\n<td>35,11<\/td>\n<td>10,96<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>China<\/td>\n<td>219<\/td>\n<td>36,76<\/td>\n<td>5,97<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Brasil<\/td>\n<td>98<\/td>\n<td>17,60<\/td>\n<td>5,60<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Argentina<\/td>\n<td>41<\/td>\n<td>4,90<\/td>\n<td>8,37<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>M\u00e9xico<\/td>\n<td>27<\/td>\n<td>7,45<\/td>\n<td>3,70<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td>Canad\u00e1<\/td>\n<td>13<\/td>\n<td>1,33<\/td>\n<td>9,96<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><em>Fonte: Departamento da Agricultura dos EUA (USDA), Janeiro\/2018<\/em><\/p>\n<p>O agroneg\u00f3cio brasileiro \u00e9 um grande irrespons\u00e1vel at\u00e9 no seu alimento de base. E muito incompetente. O que seus ide\u00f3logos deveriam responder nesta altura do jogo \u00e9 o seguinte: por que o Brasil produz 98 milh\u00f5es de toneladas de milho e os EUA, com aproximadamente o mesmo territ\u00f3rio e popula\u00e7\u00e3o que disp\u00f5e a burguesia brasileira, produz 385 milh\u00f5es de toneladas?<\/p>\n<p>Eles n\u00e3o s\u00e3o capazes de responder a essa pergunta. Procuremos ent\u00e3o n\u00f3s mesmos a resposta. Observe na tabela que a &#8220;grande pot\u00eancia agr\u00edcola mundial&#8221; de dona K\u00e1tia Abreu (NR) et caterva n\u00e3o \u00e9 apenas uma catastr\u00f3fica &#8220;poupadora de terras&#8221; \u2013 utiliza exatamente a metade das terras que nos EUA s\u00e3o destinadas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o do milho. No Brasil 17,60 milh\u00f5es de hectares. Nos &#8220;gastadores&#8221; EUA 35,11 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Eles tinham um \u00e1libi aparentemente muito s\u00f3lido. O que eles diziam na sua propaganda? Vamos repetir. Uma propaganda \u00e9 para ser repetida milh\u00f5es de vezes: &#8220;Embora as lavouras ocupem uma pequena porcentagem do territ\u00f3rio brasileiro, o Pa\u00eds \u00e9 uma pot\u00eancia agr\u00edcola e um dos l\u00edderes no com\u00e9rcio global de v\u00e1rios produtos&#8221;.<\/p>\n<p>E como se d\u00e1 exatamente esse milagre? Simples, dizem eles: &#8220;A explica\u00e7\u00e3o principal est\u00e1 nos ganhos de produtividade, centrados, no caso brasileiro, no volume produzido por hectare\u2026 Em outras palavras, a agricultura brasileira tornou-se uma atividade poupadora de terra. A produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os \u00e9 o exemplo mais vis\u00edvel dos ganhos de produtividade&#8221;.<\/p>\n<p>Produtividade? Volume produzido por hectare? Fomos conferir essas coisas complexas na tabela do USDA acima. E o que verificamos? Verificamos que o maravilhoso agroneg\u00f3cio brasileiro produz 5,60 ton\/ha. E o irrespons\u00e1vel e gastador EUA? Exatamente 10,96 ton\/ha. Exatamente o dobro.<\/p>\n<p>Isso quer dizer o qu\u00ea? Simples como marcar mais um gol na sele\u00e7\u00e3o do Felip\u00e3o: utilizando a metade de terras utilizadas pelos EUA e, ao mesmo tempo, alcan\u00e7ando apenas a metade da produtividade do seu &#8220;grande irm\u00e3o&#8221; do norte \u2013 o maravilhoso agroneg\u00f3cio brasileiro n\u00e3o passa de uma miser\u00e1vel e totalmente improdutiva agricultura.<\/p>\n<p>Encontramos ent\u00e3o a resposta \u00e0quela pergunta acima de por que os EUA produzem anualmente 385 milh\u00f5es de toneladas de milho e o Brasil apenas 98 milh\u00f5es. A resposta \u00e9 simples: porque o agroneg\u00f3cio brasileiro n\u00e3o apenas produz uma quantidade miser\u00e1vel de alimentos para o mercado interno, mas faz isso com a pior qualidade do mundo, quer dizer, com a menor produ\u00e7\u00e3o por hectare dos produtores com grandes territ\u00f3rios nacionais. A parasit\u00e1ria burguesia brasileira produz pouqu\u00edssimo alimento para a popula\u00e7\u00e3o trabalhadora do pa\u00eds e mesmo assim produz muito mal.<\/p>\n<p>Propaganda enganosa! A propaganda dos ide\u00f3logos do agroneg\u00f3cio brasileiro, que estamos repetindo desde o boletim da semana passada, revela-se ent\u00e3o totalmente enganosa. Inventaram um falso \u00e1libi para esconder sua gen\u00e9tica impot\u00eancia produtiva. O propagandeado maravilhoso agroneg\u00f3cio brasileiro na verdade ostenta a pior produ\u00e7\u00e3o por hectare dentre as principais economias mundiais produtoras de gr\u00e3os.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, o glorioso &#8220;poupador de terras&#8221; s\u00f3 n\u00e3o fica na lanterna vermelha absoluta deste desastroso campeonato por causa do malfadado M\u00e9xico \u2013 como os pr\u00f3prios mexicanos dizem, t\u00e3o perto dos EUA e t\u00e3o longe de Deus. O que ainda existia da tradicional cultura de milho no M\u00e9xico foi totalmente destru\u00edda com a assinatura do acordo de livre com\u00e9rcio da Am\u00e9rica do Norte (NAFTA). Todo o milho para suas cada vez mais escassas tortilhas vem dos EUA e do Canad\u00e1.<\/p>\n<p>ANOTA\u00c7\u00d5ES \u00c0 MARGEM DO TEMA \u2013 Como j\u00e1 anotado anteriormente, a contabiliza\u00e7\u00e3o de culturas de oleaginosas \u2013 soja, feij\u00e3o, amendoim, girassol, mamona, etc. \u2013 n\u00e3o se confunde com a de gr\u00e3os ou cereais contabilizados pelo USDA na tabela e nos c\u00e1lculos acima.<\/p>\n<p>Mas o governo brasileiro (Conab), os economistas do agroneg\u00f3cio e a m\u00eddia do pa\u00eds misturam irresponsavelmente a cultura da soja na contabiliza\u00e7\u00e3o dos cereais. Isso \u00e9 totalmente incorreto. Esses senhores s\u00e3o incapazes de tratar com m\u00e9todo e com seriedade importantes assuntos econ\u00f4micos do pa\u00eds. Uma forma de esconder sua incapacidade produtiva.<\/p>\n<p>\u00c9 como se fossem contabilizados como gr\u00e3os tamb\u00e9m o caf\u00e9, a cana de a\u00e7\u00facar, a laranja, etc.<\/p>\n<p>Curiosamente, s\u00f3 tr\u00eas pa\u00edses produzem soja de maneira sistem\u00e1tica em todo o globo terrestre: EUA (120 milh\u00f5es de toneladas anuais), Brasil (108 milh\u00f5es) e Argentina (57 milh\u00f5es) centralizam mais de 82% da produ\u00e7\u00e3o mundial desta commoditie agr\u00edcola. O resto \u00e9 residual.<\/p>\n<p>Mas s\u00f3 no Brasil a cultura dessa oleaginosa \u00e9 tratada como uma coisa muito importante \u2013 exatamente para a burguesia agr\u00e1ria compensar na ideia a sua incapacidade pr\u00e1tica de produzir eficientemente gr\u00e3os e cereais, como j\u00e1 verificamos nos n\u00fameros apresentados acima.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o de soja no Brasil \u00e9 um mero caso particular de enclave agroexportador totalmente inorg\u00e2nico e independente da din\u00e2mica das culturas nacionais de gr\u00e3os ou cereais. Para se entender por que isso acontece tem que come\u00e7ar primeiro a estudar aquela teoria do alimento de base de Smith e de outros economistas s\u00e9rios que o sucederam.<\/p>\n<p>Mais de dois ter\u00e7os da produ\u00e7\u00e3o brasileira de soja \u00e9 exportado. \u00c9 uma forma adequada e rigidamente localizada do moderno imperialismo agr\u00e1rio exportador no Brasil, Argentina e outros mini enclaves no Paraguai e Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>A Am\u00e9rica do Sul \u00e9 a \u00fanica \u00e1rea geoecon\u00f4mica dominada em todo o mundo em que as empresas globais estadunidenses do agroneg\u00f3cio instalaram e administram esses enclaves agroexportadores de soja.<\/p>\n<p>Monitoram toda a din\u00e2mica e organiza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, comercial, financeira, armazenamento, e pre\u00e7os destes enclaves agroexportadores localizados no cone sul da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>\u00c9 not\u00e1vel, tamb\u00e9m, que o Brasil seja o maior produtor e grande exportador de frutas do mundo. E o segundo maior de soja, atr\u00e1s de EUA. As coisas est\u00e3o ligadas. Mas produzir frutas, para exporta\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o, tamb\u00e9m n\u00e3o transforma o pa\u00eds em uma &#8220;pot\u00eancia agr\u00edcola&#8221;. Problema hist\u00f3rico das especializa\u00e7\u00f5es e vantagens comparativas de Ricardo que travam a periferia do sistema.<\/p>\n<p>O que se verifica \u00e9 que, contraditoriamente, o fato de este infeliz pa\u00eds aumentar cada vez mais sua posi\u00e7\u00e3o de grande agroexportador de frutas e o segundo de soja aumenta na verdade sua impot\u00eancia na produ\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica dos alimentos de base e, consequentemente, tamb\u00e9m a mis\u00e9ria da sua popula\u00e7\u00e3o trabalhadora. Isso transforma a totalidade da economia em uma desclassificada e dominada no cen\u00e1rio internacional.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por acaso que a paup\u00e9rrima regi\u00e3o nordeste do pa\u00eds, que historicamente era a maior produtora de cana-de-a\u00e7\u00facar do pa\u00eds, nas \u00faltimas d\u00e9cadas passou a ser tamb\u00e9m a maior produtora nacional de frutas, em geral e, mais recentemente, de soja. Muita soja na Bahia, no Maranh\u00e3o, no Piau\u00ed\u2026<\/p>\n<p>Recentemente, a soja passou a ocupar e superar, finalmente, o corrosivo papel de subdesenvolvimento nacional que at\u00e9 poucas d\u00e9cadas atr\u00e1s era liderado pela cana-de-a\u00e7\u00facar e \u00e1lcool. A funesta fun\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da cana-de-a\u00e7\u00facar para o subdesenvolvimento econ\u00f4mico brasileiro \u00e9 exatamente a mesma que agora \u00e9 travestida pela produ\u00e7\u00e3o de soja e de frutas.<\/p>\n<p>Finalmente, para concluir esse quase intermin\u00e1vel boletim, mais um pouco de realidade e teoria. Essa determina\u00e7\u00e3o imperialista do pa\u00eds ser um grande agroexportador de frutas e de soja n\u00e3o oferece nenhuma influ\u00eancia positiva para aumentar a produtividade do trabalho na totalidade do sistema econ\u00f4mico nacional, na natureza e din\u00e2mica da ind\u00fastria de manufaturas, etc. Esse efeito ben\u00e9fico s\u00f3 poderia ocorrer com uma potente produ\u00e7\u00e3o e produtividade dos tr\u00eas alimentos de base mundiais.<\/p>\n<p>O que acontece na realidade agr\u00e1ria nacional \u00e9 que, gra\u00e7as ao efeito nefasto do parasit\u00e1rio agroneg\u00f3cio brasileiro e sua natureza particular de renda fundi\u00e1ria na produ\u00e7\u00e3o de alimentos, o valor da for\u00e7a de trabalho na totalidade da economia brasileira ser\u00e1 sempre muito elevado, em termos absolutos, e muito superior ao valor da for\u00e7a de trabalho em economias dominantes como EUA, Alemanha, Jap\u00e3o, etc. O pa\u00eds estar\u00e1 sempre em desvantagem, pois a for\u00e7a competitiva no mercado mundial \u00e9 determinada pelo alto ou baixo custo unit\u00e1rio (determinado a produtividade) da for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n<p>O n\u00edvel absoluto e relativo da for\u00e7a de trabalho nacional determina o valor da moeda e os diferentes sal\u00e1rios reais e relativos entre as na\u00e7\u00f5es dominadas, onde predomina a mais-valia absoluta, de um lado, e, de outro, as na\u00e7\u00f5es dominantes, onde predomina a mais-valia relativa. Determina fundamentalmente a for\u00e7a ou a fragilidade das diversas economias no pesad\u00edssimo jogo comercial e financeiro mundial.<\/p>\n<p>23\/Janeiro\/2018<\/p>\n<p>[NR] K\u00e1tia Abreu: Latifundi\u00e1ria brasileira escolhida pela ex-presidente Dilma Russeff como sua ministra da Agricultura.<\/p>\n<p>*Economista.<\/p>\n<p>O original encontra-se em <a href=\"http:\/\/criticadaeconomia.com.br\/a-miseria-do-agronegocio-brasileiro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">criticadaeconomia.com.br\/a-miseria-do-agronegocio-brasileiro\/<\/a><\/p>\n<p>Extra\u00eddo de\u00a0 http:\/\/resistir.info\/brasil\/agronegocio_23jan18.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18534\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[226],"class_list":["post-18534","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4OW","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18534","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18534"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18534\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18534"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18534"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18534"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}