{"id":18536,"date":"2018-01-28T18:06:27","date_gmt":"2018-01-28T21:06:27","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=18536"},"modified":"2018-01-28T11:10:05","modified_gmt":"2018-01-28T14:10:05","slug":"as-fantasiosas-virtudes-do-agronegocio-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18536","title":{"rendered":"As Fantasiosas Virtudes do Agroneg\u00f3cio Brasileiro"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/criticadaeconomia.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/agro-mais-governo-federal.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Jos\u00e9 Martins<\/p>\n<p>Publica originalmente em <a href=\"http:\/\/criticadaeconomia.com.br\/as-fantasiosas-virtudes-do-agronegocio-brasileiro-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Cr\u00edtica da Economia<\/a><\/p>\n<p>As classes dominantes brasileiras s\u00e3o notoriamente conhecidas por ser uma das mais mentirosas em todo o mundo. Todo o mundo sabe disso. Mas qual \u00e9 a sua principal mentira? Disparadamente, imbativelmente, a fantasiosa ideia que o Brasil \u00e9 um grande produtor de cereais. Uma grande pot\u00eancia agr\u00edcola mundial. Pouca gente discorda disso.<\/p>\n<p>Como a burguesia agr\u00e1ria brasileira explica esse grande feito? Simples: alta produtividade! O festejado agroneg\u00f3cio brasileiro seria uma atividade econ\u00f4mica que registra elevad\u00edssima produtividade frente aos principais produtores mundiais de alimentos. Pouca gente consegue discordar dessa mentira ampliada (depois da grande produ\u00e7\u00e3o, a elevad\u00edssima produtividade).<\/p>\n<p>Querem mais? Al\u00e9m de produzir mais e melhor que os outros concorrentes mundiais, o agroneg\u00f3cio brasileiro conseguiria ser, por isso mesmo, um grande preservador do meio ambiente e das matas brasileiras. \u00c9 o que eles dizem. Algu\u00e9m discorda?<\/p>\n<p>Por quest\u00e3o de m\u00e9todo, comecemos por essa surpreendente revela\u00e7\u00e3o que o agroneg\u00f3cio brasileiro \u00e9 um grande agente de preserva\u00e7\u00e3o da natureza.<\/p>\n<p>Veja, por exemplo, o que disse a respeito, a pouco menos de uma semana, um prestigioso e tradicional ide\u00f3logo da parasit\u00e1ria propriedade fundi\u00e1ria agr\u00edcola nacional.<\/p>\n<p>Em uma mat\u00e9ria denominada\u00a0<a href=\"http:\/\/opiniao.estadao.com.br\/noticias\/geral,brasil-pais-poupador-de-terras,70002143515\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Brasil, pa\u00eds poupador de terras<\/a>, o jornal \u201cO Estado de S\u00e3o Paulo\u201d procura demonstrar que, ao contr\u00e1rio de ser uma indica\u00e7\u00e3o de grande impot\u00eancia produtiva, a elevad\u00edssima ociosidade das terras agricultur\u00e1veis para a produ\u00e7\u00e3o de alimentos no Brasil se deve unicamente a uma bondade muito grande dos latifundi\u00e1rios do agroneg\u00f3cio, preocupad\u00edssimos, segundo o jornal, com a preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente e das matas nativas nacionais.<\/p>\n<p>A sua forma direta e did\u00e1tica substitui com vantagem dezenas de teses acad\u00eamicas que procuram de forma rebuscada e mistificadora demonstrar o mesmo argumento e defender os mesmos interesses de classe expostos neste ensaio jornal\u00edstico.<\/p>\n<p>O jornal considera um argumento irrefut\u00e1vel dessa bondade natural da burguesia agr\u00e1ria brasileira reunida na Confedera\u00e7\u00e3o da Agricultura e Pecu\u00e1ria do Brasil (CNA) o fato que no pa\u00eds a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola de gr\u00e3os ocupe apenas 65,91 milh\u00f5es de hectares, aproximadamente 7,6% do territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>A \u201cpoupan\u00e7a de terras\u201d a que se refere o jornal se formaliza em milhares de latif\u00fandios desocupados, improdutivos, espalhados por todas as regi\u00f5es do pa\u00eds. Existe alguma outra forma de destrui\u00e7\u00e3o ambiental mais eficiente do que a eterniza\u00e7\u00e3o desses latif\u00fandios improdutivos e grandes poupadores de terra?<\/p>\n<p>H\u00e1 que se distorcer o sentido dessa realidade parasit\u00e1ria facilmente observ\u00e1vel na paisagem rural brasileira. O jornal faz essa distor\u00e7\u00e3o.\u00a0 Informa\u00e7\u00f5es da ag\u00eancia espacial estadunidense (Nasa) \u00e0 m\u00e3o, este zeloso defensor da moral e dos bons costumes da burguesia agr\u00e1ria brasileira conclui imediatamente que \u201cesses n\u00fameros s\u00e3o muito mais compat\u00edveis com os objetivos de conserva\u00e7\u00e3o ambiental do que os encontrados na maior parte do mundo, inclu\u00eddos os pa\u00edses mais desenvolvidos e apontados, costumeiramente, como os menos devastadores\u201d.<\/p>\n<p>Mas quem s\u00e3o esses irrespons\u00e1veis e grandes \u201cgastadores de terras\u201d no mundo? O pr\u00f3prio jornal nos informa: \u201cA informa\u00e7\u00e3o da Nasa, divulgada no fim de dezembro, foi pouco difundida e escassamente comentada no Brasil. Nenhuma pessoa honestamente interessada no assunto deveria, no entanto, desconhecer os dados e negligenciar as compara\u00e7\u00f5es. A agricultura ocupa entre 20% e 30% da \u00e1rea na maior parte dos pa\u00edses, de acordo com o relat\u00f3rio, e em algumas economias importantes a parcela usada na produ\u00e7\u00e3o rural \u00e9 muito maior. A propor\u00e7\u00e3o fica entre 45% e 65% na maior parte da Uni\u00e3o Europeia, em 18,3% nos Estados Unidos, em 17,7% na China e em 60,5% na \u00cdndia. Na Dinamarca a \u00e1rea cultivada corresponde a 76,8% do territ\u00f3rio. No Reino Unido, a 63,9%. Na Alemanha, a 56,9%.\u201d<\/p>\n<p>Resumo da \u00f3pera: o que indica objetivamente uma grande pregui\u00e7a hist\u00f3rica da burguesia brasileira para trabalhar a terra e produzir alimentos suficientes para alimentar sua popula\u00e7\u00e3o transforma-se, por um passe de m\u00e1gica ideol\u00f3gica, em uma grande virtude. Como? Confundindo a danosa ociosidade e n\u00e3o utiliza\u00e7\u00e3o da terra agricultur\u00e1vel para fins produtivos, alimento para o mercado interno, como uma forma virtuosa de preserva\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>A flagrante comprova\u00e7\u00e3o de elevad\u00edssima capacidade ociosa de centenas de milh\u00f5es de hectares ociosos de latif\u00fandios improdutivos (pecu\u00e1ria extensiva, etc.), acompanhada de uma gigantesca destrui\u00e7\u00e3o dos rios e florestas do imenso territ\u00f3rio brasileiro \u2013 transforma-se de repente em li\u00e7\u00e3o moral de responsabilidade social e de preserva\u00e7\u00e3o ambiente para pa\u00edses \u201catrasados\u201d como a Dinamarca, o Reino Unido, Alemanha e outros \u201cdelinquentes\u201d da ordem agr\u00edcola e ambiental mundial.<\/p>\n<p>O jornal condena esses \u201cirrespons\u00e1veis\u201d s\u00f3 porque eles consideraram historicamente \u2013 com muitas guilhotinas e revolu\u00e7\u00f5es sociais \u2013 que a verdadeira preserva\u00e7\u00e3o ambiental come\u00e7a necessariamente pela melhor e mais inteligente utiliza\u00e7\u00e3o de toda a terra dispon\u00edvel para se produzir cereais em grande abund\u00e2ncia para o mercado interno, quer dizer, para o consumo e reprodu\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora (produtiva). Vide Smith, Ricardo, etc., cujas li\u00e7\u00f5es foram fielmente seguidas por esses \u201cgastadores de terras\u201d.<\/p>\n<p>Na famosa periodiza\u00e7\u00e3o do desenvolvimento econ\u00f4mico de Smith, o com\u00e9rcio exterior deve ser a \u00faltima (e n\u00e3o muito importante) etapa do desenvolvimento econ\u00f4mico nacional. Por seu lado, em seus \u00faltimos escritos, Ricardo pregava a nacionaliza\u00e7\u00e3o (estatiza\u00e7\u00e3o) da terra para neutralizar a renda fundi\u00e1ria e destravar o pleno desenvolvimento econ\u00f4mico. Tudo em nome do aumento da produtividade sist\u00eamica e diminui\u00e7\u00e3o do custo de reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho.<\/p>\n<p>Esses ensinamentos foram mais ou menos seguidos por algumas burguesias nacionais, exatamente aquelas que correspondem historicamente \u00e0s atuais pot\u00eancias econ\u00f4micas e dominantes na ordem imperialista mundial. N\u00e3o com tanta radicalidade, por raz\u00f5es evidentes da pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia da burguesia como classe dominante e monopolista do poder estatal.<\/p>\n<p>Nas revolu\u00e7\u00f5es burguesas a nega\u00e7\u00e3o se interrompe nela mesma. Revolu\u00e7\u00e3o inglesa, revolu\u00e7\u00e3o francesa, restaura\u00e7\u00e3o Meiji no Jap\u00e3o, guerras camponesas na Alemanha, unifica\u00e7\u00f5es nacionais na It\u00e1lia, Escandin\u00e1via, e outros poucos pontos geogr\u00e1ficos de intelig\u00eancia para defender os pr\u00f3prios interesses nacionais.<\/p>\n<p>A chamada \u201cguerra civil americana\u201d (leia-se, dos EUA) foi uma das mais importantes e mais radicais aplica\u00e7\u00f5es daqueles ensinamentos de Smith e Ricardo. A burguesia yankee do Norte trabalhou historicamente. Ganhou a guerra do Sul escravagista e agroexportador de tabaco, algod\u00e3o, etc. Referindo-se a essa guerra civil, Darcy Ribeiro dizia que o Brasil \u00e9 os Estados Unidos em que o Sul que ganhou a guerra. Bingo.<\/p>\n<p>Para concluir esse assunto devemos voltar ao ponto inicial e mais importante, mais de fundo no problema agr\u00e1rio brasileiro. Afinal, como os ide\u00f3logos do agroneg\u00f3cio brasileiro explicam o fato que o pa\u00eds ocupe produtivamente uma parcela t\u00e3o pequena da superf\u00edcie agricultur\u00e1vel nacional para a produ\u00e7\u00e3o de alimentos e ao mesmo tempo consegue ser \u201cuma pot\u00eancia agr\u00edcola mundial\u201d ?<\/p>\n<p>A mat\u00e9ria do jornal O Estado de S\u00e3o Paulo tem a resposta na ponta da l\u00edngua: \u201cEmbora as lavouras ocupem uma pequena porcentagem do territ\u00f3rio brasileiro, o Pa\u00eds \u00e9 uma pot\u00eancia agr\u00edcola e um dos l\u00edderes no com\u00e9rcio global de v\u00e1rios produtos. Quem acompanhou a evolu\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio desde as d\u00e9cadas finais do s\u00e9culo passado entende facilmente como esse quadro se tornou poss\u00edvel. A explica\u00e7\u00e3o principal est\u00e1 nos ganhos de produtividade, centrados, no caso brasileiro, no volume produzido por hectare. Isso depende da fertiliza\u00e7\u00e3o e da preserva\u00e7\u00e3o da fertilidade do solo, assim como das t\u00e9cnicas de manejo da terra e tamb\u00e9m do melhoramento e da sele\u00e7\u00e3o das plantas. Gra\u00e7as a esses avan\u00e7os, durante um longo per\u00edodo foi poss\u00edvel aumentar muito mais a produ\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios grupos de lavouras do que a superf\u00edcie cultivada. Em outras palavras, a agricultura brasileira tornou-se uma atividade poupadora de terra. A produ\u00e7\u00e3o de gr\u00e3os \u00e9 o exemplo mais vis\u00edvel dos ganhos de produtividade\u201d.<\/p>\n<p>Nada melhor para verificar a veracidade de um discurso do que confront\u00e1-lo com a dura realidade dos fatos. E de n\u00fameros confi\u00e1veis. \u00c9 o que faremos em nosso pr\u00f3ximo boletim a ser postado ainda nesta semana. Aguardem.<\/p>\n<p>Estamos voltando com muito entusiasmo para a continuidade de nosso trabalho neste novo ano em que completaremos trinta e um anos de vida. Se o ano passado j\u00e1 foi bastante favor\u00e1vel \u00e0 aproxima\u00e7\u00e3o de importantes acontecimentos para a luta de classes internacional, este ano de 2018 promete muito mais. Nossa reda\u00e7\u00e3o est\u00e1 lotada de temas e boletins a serem publicados. Pretendemos faz\u00ea-lo com toda nossa energia dispon\u00edvel. Abra\u00e7os.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"S3CEwMXm1f\"><p><a href=\"http:\/\/criticadaeconomia.com.br\/as-fantasiosas-virtudes-do-agronegocio-brasileiro-2\/\">As Fantasiosas Virtudes do Agroneg\u00f3cio Brasileiro<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"http:\/\/criticadaeconomia.com.br\/as-fantasiosas-virtudes-do-agronegocio-brasileiro-2\/embed\/#?secret=S3CEwMXm1f\" data-secret=\"S3CEwMXm1f\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;As Fantasiosas Virtudes do Agroneg\u00f3cio Brasileiro&#8221; &#8212; Cr\u00edtica da Economia\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18536\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[225],"class_list":["post-18536","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4OY","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18536","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18536"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18536\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18536"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18536"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18536"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}