{"id":1862,"date":"2011-09-14T01:09:40","date_gmt":"2011-09-14T01:09:40","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1862"},"modified":"2011-09-14T01:09:40","modified_gmt":"2011-09-14T01:09:40","slug":"por-que-razao-a-islandia-deveria-estar-nas-noticias-mas-nao-esta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1862","title":{"rendered":"Por que raz\u00e3o a Isl\u00e2ndia deveria estar nas not\u00edcias, mas n\u00e3o est\u00e1"},"content":{"rendered":"\n<p><a href=\"http:\/\/www.odiario.info\/index.php?autman=Deena%20Stryker&amp;submit=Buscar\"><\/a><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria que um programa de r\u00e1dio italiano conta acerca da revolu\u00e7\u00e3o que decorre na Isl\u00e2ndia \u00e9 um exemplo impressionante de qu\u00e3o pouco os media nos dizem sobre o que se passa no resto do mundo. Os norte-americanos lembrar-se-\u00e3o de que no in\u00edcio da crise financeira de 2008, a Isl\u00e2ndia caiu literalmente na bancarrota. As raz\u00f5es foram mencionadas apenas de passagem e, desde ent\u00e3o, este membro pouco conhecido da Uni\u00e3o Europeia caiu de novo no esquecimento.<\/p>\n<p>H\u00e1 medida que um pa\u00eds europeu atr\u00e1s do outro atinge ou fica pr\u00f3ximo de atingir a bancarrota, pondo em perigo o Euro e com repercuss\u00f5es para o mundo inteiro, a \u00faltima coisa que os poderes em quest\u00e3o querem \u00e9 que a Isl\u00e2ndia se torne um exemplo. Eis a raz\u00e3o:<\/p>\n<p>Cinco anos de um regime puramente neo-liberal fizeram da Isl\u00e2ndia (popula\u00e7\u00e3o de 320 000 habitantes, sem ex\u00e9rcito) um dos mais ricos pa\u00edses do mundo. Em 2003 todos os bancos do pa\u00eds foram privatizados e, num esfor\u00e7o para atrair o investimento estrangeiro, passaram a oferecer servi\u00e7os on-line, cujos custos reduzidos lhes permitiram oferecer taxas internas de rendibilidade relativamente elevadas. Estas contas, designadas \u201cIceSave\u201d, atra\u00edram muitos pequenos investidores ingleses e holandeses. Mas, \u00e0 medida que os investimentos cresciam, tamb\u00e9m a d\u00edvida externa dos bancos aumentava. Em 2003, a d\u00edvida islandesa equivalia a 200 vezes o seu PIB e, em 2007, era de 900%. A crise financeira de 2008 foi o golpe de miseric\u00f3rdia. Os tr\u00eas principais bancos islandeses, o Landbanki, o Kapthing e o Glitnir ca\u00edram e foram nacionalizados, enquanto o Kroner perdeu 85% do seu valor em rela\u00e7\u00e3o ao Euro. No final do ano, a Isl\u00e2ndia declarou a bancarrota.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que se poderia esperar, da crise resultou que os islandeses recuperaram os seus direitos soberanos, atrav\u00e9s de um processo de democracia participativa directa, que acabou por conduzir a uma nova Constitui\u00e7\u00e3o. Mas s\u00f3 depois de muito sofrimento.<\/p>\n<p>Geir Haarde, primeiro-ministro de um governo de coliga\u00e7\u00e3o social-democrata, negociou um empr\u00e9stimo de dois milh\u00f5es e cem mil d\u00f3lares, ao qual os pa\u00edses n\u00f3rdicos acrescentaram mais dois milh\u00f5es e meio. Mas a comunidade financeira internacional pressionou a Isl\u00e2ndia a impor medidas dr\u00e1sticas. O FMI e a Uni\u00e3o Europeia quiseram apoderar-se da sua d\u00edvida, alegando que este era o \u00fanico caminho para que o pa\u00eds pudesse pagar \u00e0 Holanda e ao Reino Unido, que haviam prometido reembolsar os seus cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Os protestos e as revoltas continuaram, acabando por for\u00e7ar o governo a demitir-se. As elei\u00e7\u00f5es foram antecipadas para Abril de 2009, resultando numa coliga\u00e7\u00e3o de esquerda, que condenou o sistema econ\u00f3mico neoliberal, mas logo cedeu \u00e0s exig\u00eancias daquele, de acordo com as quais a Isl\u00e2ndia deveria pagar um total de tr\u00eas milh\u00f5es e meio de Euros. Isto exigia que cada cidad\u00e3o island\u00eas pagasse 100 euros por m\u00eas (cerca de US $ 130) por quinze anos, a juros de 5,5%, para pagar uma d\u00edvida contra\u00edda por particulares perante particulares. Foi a gota de \u00e1gua que fez transbordar o copo.<\/p>\n<p>O que aconteceu depois foi extraordin\u00e1rio. A cren\u00e7a de que os cidad\u00e3os tinham que pagar pelos erros de um monop\u00f3lio financeiro, que uma na\u00e7\u00e3o inteira deveria ser tributada para pagar d\u00edvidas privadas caiu por terra, transformando a rela\u00e7\u00e3o entre os cidad\u00e3os e suas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, e acabando por trazer os l\u00edderes da Isl\u00e2ndia para o mesmo lado dos seus eleitores. O Chefe de Estado, Olafur Ragnar Gr\u00edmsson, recusou-se a ratificar a lei que teria feito os cidad\u00e3os da Isl\u00e2ndia respons\u00e1veis pelas d\u00edvidas seus banqueiros, e aceitou o repto para um referendo.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que isto apenas fez com que a comunidade internacional aumentasse a press\u00e3o sobre a Isl\u00e2ndia. O Reino Unido e a Holanda amea\u00e7aram com repres\u00e1lias terr\u00edveis, que isolariam o pa\u00eds. Quando os islandeses foram a votos, os banqueiros estrangeiros amea\u00e7aram bloquear qualquer ajuda do FMI. O governo brit\u00e2nico amea\u00e7ou congelar poupan\u00e7as islandesas e contas correntes. Como afirmou Grimsson: \u201cFoi-nos dito que, se recus\u00e1ssemos as condi\u00e7\u00f5es da comunidade internacional, nos tornar\u00edamos na Cuba do Norte. Mas, se tiv\u00e9ssemos aceitado, ter-nos-\u00edamos tornado antes no Haiti do Norte.\u201d (Quantas vezes escrevi que quando os cubanos olham para os problemas do seu vizinho, o Haiti, consideram que t\u00eam sorte.)<\/p>\n<p>No referendo de Mar\u00e7o de 2010, 93% dos islandeses votou contra o pagamento da d\u00edvida. O FMI imediatamente congelou o seu empr\u00e9stimo. Mas a revolu\u00e7\u00e3o (apesar de n\u00e3o ter sido transmitida nos EUA), n\u00e3o se deixaria intimidar. Com o apoio de uma cidadania em f\u00faria, o governo colocou sob investiga\u00e7\u00f5es civis e penais os respons\u00e1veis pela crise financeira. A Interpol lan\u00e7ou um mandado internacional de captura para o ex-presidente do Kaupthing, Sigurdur Einarsson, \u00e0 medida que outros banqueiros envolvidos no crash fugiram do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Mas os islandeses n\u00e3o pararam por a\u00ed: decidiram elaborar uma nova constitui\u00e7\u00e3o que iria libertar o pa\u00eds do poder exagerado da finan\u00e7a internacional e do dinheiro virtual. (A que vigorava havia sido escrita quando a Isl\u00e2ndia ganhou sua independ\u00eancia \u00e0 Dinamarca, em 1918, sendo que a \u00fanica diferen\u00e7a relativamente \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o Dinamarquesa a de que a palavra \u201cpresidente\u201d a palavra substituiu a palavra \u201crei\u201d.)<\/p>\n<p>Para escrever a nova constitui\u00e7\u00e3o, o povo da Isl\u00e2ndia elegeu 25 cidad\u00e3os, de entre 522 adultos que n\u00e3o pertenciam a nenhum partido pol\u00edtico, mas recomendados por pelo menos trinta cidad\u00e3os. Este documento n\u00e3o foi obra de um punhado de pol\u00edticos, mas foi escrito na Internet. Reuni\u00f5es da Constituinte s\u00e3o transmitidas on-line, e os cidad\u00e3os podem enviar os seus coment\u00e1rios e sugest\u00f5es, vendo o documento tomar forma. A Constitui\u00e7\u00e3o que resultar\u00e1 deste processo participativo e democr\u00e1tico ser\u00e1 submetida ao Parlamento para aprova\u00e7\u00e3o depois das pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Alguns leitores lembrar-se-\u00e3o de que a crise agr\u00edcola da Isl\u00e2ndia do s\u00e9culo IX foi tratada no livro de Jared Diamond que tem esse nome. Hoje, esse pa\u00eds est\u00e1 a recuperar do colapso financeiro de forma exactamente oposta \u00e0quela geralmente considerada inevit\u00e1vel, como foi confirmado ontem pela nova presidente do FMI, Christine Lagarde, a Fareed Zakaria. Foi dito ao povo da Gr\u00e9cia que a privatiza\u00e7\u00e3o de seu sector p\u00fablico \u00e9 a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o. Os povos da It\u00e1lia, da Espanha e de Portugal enfrentam a mesma amea\u00e7a.<\/p>\n<p>Estes povos devem olhar para a Isl\u00e2ndia. Recusando curvar-se perante os interesses estrangeiros, este pequeno pa\u00eds afirmou, alto e a bom som, que o povo \u00e9 soberano.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que j\u00e1 n\u00e3o aparece nas not\u00edcias.<\/p>\n<p>Traduzido por Andr\u00e9 Rodrigues P. Silva<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/www.odiario.info\/index.php?autman=Deena%20Stryker&amp;submit=Buscar\">www.odiario.info<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: ODiario.info\n\n\n\n\n\n\n\n\nDeena Stryker\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1862\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-1862","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-u2","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1862","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1862"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1862\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1862"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1862"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1862"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}