{"id":18680,"date":"2018-02-11T13:34:08","date_gmt":"2018-02-11T16:34:08","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=18680"},"modified":"2018-02-11T13:34:08","modified_gmt":"2018-02-11T16:34:08","slug":"feudalismo-bancario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18680","title":{"rendered":"Feudalismo banc\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/resistir.info\/financas\/imagens\/bruegel_big_fish_1556.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por Alejandro Nadal *<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/resistir.info\/financas\/feudalismo_bancario.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Resistir.info<\/a><\/p>\n<p>Entre os s\u00e9culos VIII e XV predominou na Europa um sistema pol\u00edtico e econ\u00f4mico que recebeu o nome de feudalismo. Era um sistema organizado em torno da propriedade da terra, em troca de esquemas de vassalagem, prote\u00e7\u00e3o, trabalho e distribui\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. Na descri\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica de Marc Bloch, o esquema hier\u00e1rquico girava em torno dos tr\u00eas estamentos da sociedade: nobreza, clero e produtores do campo. Tipicamente os senhores feudais, firmemente ancorados nos seus castelos, prestavam prote\u00e7\u00e3o aos produtores agr\u00edcolas em troca de trabalho direto ou de um tributo que era pago em esp\u00e9cie.<\/p>\n<p>Entre os habitantes do campo e dos povoados as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas efetuavam-se por meio de mercados, feiras e outros esquemas de interc\u00e2mbio. A moeda em circula\u00e7\u00e3o era emitida, \u00e0s vezes, por autoridades eclesi\u00e1sticas e, em certas ocasi\u00f5es, por reis ou mesmo pelos senhores feudais. A troca s\u00f3 predominou quando havia derrocadas institucionais, como o colapso do imp\u00e9rio romano ou quando desapareceu o imp\u00e9rio de Carlos Magno.<\/p>\n<p>No feudalismo existia o cr\u00e9dito e algumas dinastias encarregaram-se de conceder empr\u00e9stimos aos que o necessitavam. Mas esses empr\u00e9stimos normalmente estiveram reservados aos poderosos e n\u00e3o eram para o grosso da popula\u00e7\u00e3o. Uma boa parte dos cr\u00e9ditos destinava-se a pagar mercen\u00e1rios e financiar guerras. Nesses casos os juros eram alt\u00edssimos e podiam atingir os 60 por cento (como hoje nos cart\u00f5es de cr\u00e9dito). Tamb\u00e9m havia empr\u00e9stimos para os grandes comerciantes, os quais apresentavam garantias suficientes. O resto da popula\u00e7\u00e3o tinha de recorrer aos prestamistas locais para resolver suas necessidades em caso de doen\u00e7a ou de alguma outra emerg\u00eancia.<\/p>\n<p>As grandes dinastias de prestamistas operavam com os seus correspondentes em diferentes partes da Europa e do Mediterr\u00e2neo. Assim podiam oferecer um servi\u00e7o valioso aos comerciantes atrav\u00e9s do reconhecimento de letras de c\u00e2mbio e outros t\u00edtulos. Esses grandes prestamistas operavam como banqueiros, mas a sua atividade principal n\u00e3o dependia da capta\u00e7\u00e3o de poupan\u00e7as. Os empr\u00e9stimos que ofereciam eram com recursos pr\u00f3prios ou provenientes das suas complexas opera\u00e7\u00f5es contabil\u00edsticas. Eram, por assim dizer, banqueiros sem bancos, no sentido moderno da palavra.<\/p>\n<p>Com o advento do capitalismo a atividade credit\u00edcia tornou-se cada vez mais importante e a revolu\u00e7\u00e3o industrial acelerou o processo atrav\u00e9s das escalas de produ\u00e7\u00e3o. Os bancos reorganizaram-se, come\u00e7aram a desenvolver suas fun\u00e7\u00f5es de capta\u00e7\u00e3o de poupan\u00e7a e suas opera\u00e7\u00f5es expandiram os confins da acumula\u00e7\u00e3o capitalista financiando o consumo. Assim, n\u00e3o s\u00f3 expandiu-se a dimens\u00e3o do mercado final para a produ\u00e7\u00e3o capitalista de mercadorias como tamb\u00e9m se encurtou o tempo de recupera\u00e7\u00e3o do capital. O processo culmina no s\u00e9culo XIX, quando o grosso da popula\u00e7\u00e3o passa a ser considerada como sujeito de cr\u00e9dito. As pessoas comuns e correntes passam ent\u00e3o a ser clientes dos bancos.<\/p>\n<p>Hoje, o n\u00edvel de endividamento da popula\u00e7\u00e3o depende de muitos factores, dentre os quais se destaca o rendimento salarial. Sob o neoliberalismo, a estagna\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios reais conduziu a uma expans\u00e3o extraordin\u00e1ria do cr\u00e9dito a fim de manter n\u00edveis de vida. O resultado foi um crescente endividamento da popula\u00e7\u00e3o em geral mediante hipotecas e empr\u00e9stimos para adquirir bens de consumo duradouro e pagar servi\u00e7os educativos ou de sa\u00fade. Os indicadores sobre endividamento das fam\u00edlias nos Estados Unidos em propor\u00e7\u00e3o do PIB mostram um crescimento vertiginoso de 40 para 97,8 por cento entre 1960 e 2014. O padr\u00e3o repete-se para muitos pa\u00edses europeus.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 que hoje uma parte significativa da popula\u00e7\u00e3o vive e trabalha para pagar juros aos bancos, em tal grau que \u00e9 poss\u00edvel pensar que vivemos numa esp\u00e9cie de feudalismo banc\u00e1rio. Neste sistema, os bancos s\u00e3o os senhores do dinheiro que criam moeda a partir do nada e, tal como no feudalismo stricto sensu, sua atividade t\u00e3o pouco depende da capta\u00e7\u00e3o de poupan\u00e7a. O lugar dos nobres \u00e9 ocupado pelos governantes, que tamb\u00e9m s\u00e3o sujeitos de cr\u00e9dito e devem obedecer aos ditames dos mercados de capitais. Seus bancos centrais, com toa a sua m\u00edtica independ\u00eancia, devem proporcionar reservas aos senhores do dinheiro quando as circunst\u00e2ncias assim o exijam. Os camponeses somos todos os demais, pois devemos recorrer ao cr\u00e9dito de maneira sistem\u00e1tica. Em certos casos at\u00e9 frac\u00e7\u00f5es do capital industrial ocupam uma posi\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 dos camponeses.<\/p>\n<p>O novo feudalismo banc\u00e1rio permite que as pessoas se movam de uma parcela para outra, quando por exemplo procura um emprego. Mas essas pessoas sempre levam \u00e0s costas uma carga pr\u00f3pria dos vassalos: devem pagar o servi\u00e7o da sua d\u00edvida, quer seja por uma hipoteca ou por outros empr\u00e9stimos. Talvez a diferen\u00e7a mais importante seja que, em contraste com as obriga\u00e7\u00f5es que tinham os senhores feudais para com os seus s\u00fabditos, os bancos n\u00e3o oferecem prote\u00e7\u00e3o alguma frente \u00e0 viol\u00eancia ou aos acidentes da vida.<\/p>\n<p>04\/Fevereiro\/2018<\/p>\n<p>*Economista.<\/p>\n<p>O original encontra-se em <a href=\"http:\/\/www.jornada.unam.mx\/2018\/01\/31\/opinion\/027a1eco?partner=rss\" target=\"_new\"> www.jornada.unam.mx\/2018\/01\/31\/opinion\/027a1eco?partner=rss<\/a><\/p>\n<p>Este artigo encontra-se em http:\/\/resistir.info\/financas\/feudalismo_bancario.html .<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div align=\"right\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18680\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[228],"class_list":["post-18680","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-5b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4Ri","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18680","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18680"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18680\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18680"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18680"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18680"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}