{"id":18900,"date":"2018-03-02T15:45:48","date_gmt":"2018-03-02T18:45:48","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=18900"},"modified":"2018-03-02T15:45:48","modified_gmt":"2018-03-02T18:45:48","slug":"esquerda-direita-e-o-embargo-da-memoria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18900","title":{"rendered":"Esquerda, direita e o embargo da mem\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"Esquerda, direita e o embargo da mem\u00f3ria\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/02\/26\/opinion\/1519658924_002382_1519659593_noticia_normal_recorte1.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"Esquerda, direita e o embargo da mem\u00f3ria\" \/><!--more--><a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/02\/26\/opinion\/1519658924_002382.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">El Pa\u00eds<\/a><\/p>\n<p>Ap\u00f3s a condena\u00e7\u00e3o de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva em segunda inst\u00e2ncia, intelectuais bastante respeit\u00e1veis defenderam, no campo da esquerda, mais uma vez, que n\u00e3o \u00e9 hora de debater os 13 anos do PT no poder. A justificativa \u00e9 a de que o momento exige que a esquerda e a centro-esquerda se unam para enfrentar a direita, em nome da democracia. Ao mesmo tempo, no campo da direita, que tampouco \u00e9 coesa, Michel Temer (MDB) e as for\u00e7as que o sustentam no poder, apesar das den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o (ou por causa delas), inventaram uma opera\u00e7\u00e3o militar no Rio de Janeiro como mote popular para ter peso e influ\u00eancia na elei\u00e7\u00e3o de 2018.<\/p>\n<p>Num campo, apresenta-se uma demanda para embargar a mem\u00f3ria. No outro, usa-se a marquetagem pol\u00edtica para silenciar realidades, criando um espet\u00e1culo. Ao ser produzida como factoide, caso da interven\u00e7\u00e3o federal no Rio, o ato encobre o fato. A seguran\u00e7a \u00e9 uma quest\u00e3o urgente. Mas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel enfrent\u00e1-la sem admitir que a pol\u00edtica de \u201cguerra \u00e0s drogas\u201d, que j\u00e1 foi abolida em partes mais s\u00e9rias do mundo, \u00e9 parte determinante do aumento da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Em vez disso, consolida-se, pela escolha de uma opera\u00e7\u00e3o militar, com soldados e tanques nas favelas e comunidades pobres, a guerra tamb\u00e9m como est\u00e9tica. De espasmo em espasmo, toda a aten\u00e7\u00e3o e a energia s\u00e3o deslocadas tanto para construir o espet\u00e1culo como para desconstru\u00ed-lo, como se testemunhou desde o an\u00fancio da opera\u00e7\u00e3o que tragou as aten\u00e7\u00f5es no Brasil e a maior parte do notici\u00e1rio. Enquanto isso, o pa\u00eds se arru\u00edna um pouco mais.<\/p>\n<p>N\u00e3o pretendo usar mais par\u00e1grafos para analisar a interven\u00e7\u00e3o federal no estado do Rio de Janeiro como silenciamento das causas reais de uma viol\u00eancia que tem destru\u00eddo as vidas dos mais pobres, em muito maior n\u00famero a dos jovens negros. H\u00e1 uma quantidade consider\u00e1vel de an\u00e1lises consistentes em circula\u00e7\u00e3o, produzidas por gente que se dedica ao tema h\u00e1 muitos anos. Meu ponto nesse artigo \u00e9 analisar o silenciamento produzido no campo da esquerda ligada a Lula e ao PT. E como esses silenciamentos, s\u00f3 aparentemente polarizados, se conectam e se confundem.<\/p>\n<p>A recente declara\u00e7\u00e3o do comandante do Ex\u00e9rcito ilumina a quest\u00e3o: o general Eduardo Villas B\u00f4as afirmou, em 19 de fevereiro, que os militares que atuar\u00e3o na interven\u00e7\u00e3o no Rio precisam de \u201cgarantias para agir sem o risco de surgir uma nova Comiss\u00e3o da Verdade\u201d. O que significa essa declara\u00e7\u00e3o? Que haver\u00e1 torturas, sequestros e assassinatos de civis nas favelas e comunidades do Rio de Janeiro como houve na ditadura civil-militar (1964-1985)? Que o general quer \u201cgarantias\u201d para que as tropas possam torturar, sequestrar e assassinar civis em nome do Estado, na opera\u00e7\u00e3o do Rio, sem responder por isso? Que o general quer quebrar a lei e oficializar o Estado de exce\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>A crise da democracia \u00e9 global, mas h\u00e1 algo de particular na crise de cada pa\u00eds. J\u00e1 escrevi em artigo anterior que acredito que as ra\u00edzes da atual crise da democracia no Brasil est\u00e3o no pr\u00f3prio processo de retomada da democracia, ap\u00f3s 21 anos de ditadura. As ra\u00edzes da atual crise brasileira est\u00e3o no apagamento dos crimes do regime de exce\u00e7\u00e3o e na impunidade dos torturadores e assassinos a soldo do Estado.<\/p>\n<p>Ao retomar a democracia sem lidar com os mortos e os desaparecidos da ditadura civil-militar, o Brasil seguiu adiante sem lidar com o trauma. Um pa\u00eds que, para retomar a democracia, precisa esconder os esqueletos no arm\u00e1rio \u2013 ou em covas clandestinas \u2013 \u00e9 um pa\u00eds com a democracia deformada, no qual as fardas s\u00e3o sempre um ponto de instabilidade assombrando o cotidiano. Uma democracia deformada est\u00e1 aberta a mais deforma\u00e7\u00f5es, como a hist\u00f3ria recent\u00edssima do Brasil \u00e9 pr\u00f3diga em provar.<\/p>\n<p>A desmem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 um tra\u00e7o banal na hist\u00f3ria do Brasil. Ela costuma ser defendida como um \u201cagora n\u00e3o \u00e9 hora\u201d, \u201ceste n\u00e3o \u00e9 o momento\u201d, \u201cdepois a gente cuida disso\u201d. Foi assim com a Lei da Anistia, de 1979, que at\u00e9 hoje grupos da sociedade lutam para rever com o objetivo de fazer a justa responsabiliza\u00e7\u00e3o dos torturadores e assassinos do regime. O ato mais significativo para lidar com a mem\u00f3ria do per\u00edodo de exce\u00e7\u00e3o foi justamente a Comiss\u00e3o da Verdade sobre os crimes da ditadura, que tanto preocupa o general, e a s\u00e9rie de movimentos em torno dela, como as Cl\u00ednicas do Testemunho pelo Brasil afora.<\/p>\n<p>Esse processo de produ\u00e7\u00e3o e documenta\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria sobre a ditadura foi, por\u00e9m, interrompido pelo atual governo. O fato de que a democracia no Brasil supera os 30 anos sem lidar com o passado autorit\u00e1rio \u00e9 um forte fator de desestabiliza\u00e7\u00e3o que costuma ser minimizado. Os efeitos do apagamento est\u00e3o vis\u00edveis hoje nas ruas.<\/p>\n<p>A esquerda ligada a Lula e ao PT tem atuado para embargar a mem\u00f3ria<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 carente de uma direita com postura respons\u00e1vel e projeto consistente, capaz de pensar o pa\u00eds para al\u00e9m da pol\u00edtica rasteira de ganhos privados e locupleta\u00e7\u00f5es imediatas. O campo da direita n\u00e3o \u00e9 coeso, mas nele predomina o discurso tosco, que tem nas bancadas do boi, da bala e da b\u00edblia do Congresso, assim como nas mil\u00edcias da internet, sua express\u00e3o mais barulhenta. Forjar realidades falsas se imp\u00f4s como modo de opera\u00e7\u00e3o, como por exemplo a recente difus\u00e3o de que os espa\u00e7os da arte estavam tomados por ped\u00f3filos. No caso das mil\u00edcias, o pr\u00f3prio an\u00fancio de uma filia\u00e7\u00e3o liberal \u00e9 uma falsifica\u00e7\u00e3o, na medida em que a pr\u00e1tica contradiz os valores liberais mais b\u00e1sicos.<\/p>\n<p>Neste momento, por\u00e9m, chama a aten\u00e7\u00e3o como a esquerda ligada a Lula e \u00e0 parte do PT tem atuado para embargar a mem\u00f3ria. Caminham neste sentido os ataques \u00e0queles que buscam refletir sobre os 13 anos do PT no poder, associado intimamente ao PMDB a partir do segundo mandato de Lula, e o papel desempenhado pelo partido, por Lula e por Dilma Rousseff na atual situa\u00e7\u00e3o do Brasil.<\/p>\n<p>Nenhum projeto de esquerda ou de centro-esquerda para o pa\u00eds faz sentido se, para se manter, precisa apagar cap\u00edtulos da hist\u00f3ria. Por todas as raz\u00f5es e porque n\u00e3o se pode construir um projeto respons\u00e1vel de pa\u00eds sem a compreens\u00e3o de onde se errou, assim como a consequente responsabiliza\u00e7\u00e3o pelo que foi causado pelos erros. \u00c9 poss\u00edvel cogitar a hip\u00f3tese de que, se tantos n\u00e3o tivessem silenciado ap\u00f3s a primeira den\u00fancia do mensal\u00e3o e adiado a cr\u00edtica e a autocr\u00edtica para um dia que nunca chega, os rumos poderiam ter sido diferentes tamb\u00e9m para Lula, Dilma Rousseff e o PT.<\/p>\n<p>A pedra que barra a opera\u00e7\u00e3o de apagamento nas biografias de Lula, de Dilma e do PT se chama Belo Monte, uma das maiores obras do Programa de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento (PAC). N\u00e3o \u00e9 uma pedra, mas milhares de toneladas de a\u00e7o e cimento no rio Xingu, no Par\u00e1, sob as quais pairam a suspeita de propinoduto nas investiga\u00e7\u00f5es da Lava Jato. A forma como a usina saiu do papel, depois de d\u00e9cadas de resist\u00eancia dos povos ind\u00edgenas e dos movimentos sociais da regi\u00e3o, \u00e9 claramente suspeita desde pelo menos o leil\u00e3o, em 2010.<\/p>\n<p>Mas, nesta \u00e1rea, a da Lava Jato, sempre se pode negar e alegar inoc\u00eancia para a opini\u00e3o p\u00fablica. A forma e a rapidez com que o processo de Lula foi conduzido na Justi\u00e7a, no caso do tr\u00edplex do Guaruj\u00e1, a fragilidade das provas e o comportamento pouco convencional de ju\u00edzes de ambas as inst\u00e2ncias, que opinaram antes de julgar, conduzem a d\u00favidas razo\u00e1veis sobre a legitimidade das senten\u00e7as, embaralhando ainda mais a paisagem j\u00e1 bastante enevoada do Brasil atual.<\/p>\n<p>Em Belo Monte, por\u00e9m, as viola\u00e7\u00f5es ao meio ambiente e aos direitos humanos, promovidas durante os governos do PT, s\u00e3o literalmente vis\u00edveis. E bastante dif\u00edceis de explicar quando um pol\u00edtico e um partido afirmam defender o povo \u2013 e afirmam serem perseguidos por defender o povo.<\/p>\n<p>Como explicar que milhares de fam\u00edlias foram expulsas de suas casas, terras e ilhas ou \u201cremovidas for\u00e7adamente\u201d, sem nenhuma assist\u00eancia jur\u00eddica, muitas delas assinando com o dedo papeis que eram incapazes de ler? Como explicar que as greves de oper\u00e1rios da usina, assim como as manifesta\u00e7\u00f5es contra Belo Monte promovida por ind\u00edgenas, ribeirinhos, pescadores, agricultores e moradores urbanos de Altamira foram reprimidas pela For\u00e7a Nacional no per\u00edodo em que o Partido dos Trabalhadores estava no poder?<\/p>\n<p>Como explicar que o PT permitiu, quando n\u00e3o apoiou, que a obrigatoriedade da prote\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas durante a constru\u00e7\u00e3o da usina, assim como das a\u00e7\u00f5es de mitiga\u00e7\u00e3o de seus efeitos sobre o rio e a floresta, se desvirtuasse num fluxo de mercadorias? Que as aldeias ind\u00edgenas, mesmo as de recente contato, recebessem de TV e colch\u00e3o a a\u00e7\u00facar e refrigerantes, produzindo o que foi caracterizado formalmente pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal como \u201cetnoc\u00eddio\u201d (morte cultural), sem contar um aumento de mais de 100% na desnutri\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as ind\u00edgenas entre 2010 e 2012?<\/p>\n<p>Como explicar que a viol\u00eancia urbana disparou, em grande parte por causa do processo de Belo Monte, e Altamira se tornou o munic\u00edpio com mais de 100 mil habitantes mais violento do Brasil, segundo o Atlas da Viol\u00eancia de 2017, produzido pelo Instituto Econ\u00f4mico de Pesquisa Aplicada (IPEA) e pelo F\u00f3rum Nacional de Seguran\u00e7a P\u00fablica? Como explicar que os bairros constru\u00eddos para abrigar as fam\u00edlias expulsas de suas casas n\u00e3o cumprem os requisitos m\u00ednimos determinados durante o licenciamento da usina e hoje se tornaram os novos territ\u00f3rios de viol\u00eancia de Altamira, com casas que j\u00e1 exibem rachaduras e se deterioram de forma acelerada?<\/p>\n<p>Como explicar?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de hoje que Belo Monte \u00e9 uma pedreira inteira no caminho do discurso de Lula, Dilma Rousseff e do PT. Mas parte significativa da esquerda, que historicamente lidera a luta pelos direitos humanos no Brasil, calou-se diante do que acontecia \u2013 e acontece \u2013 no Xingu pela imposi\u00e7\u00e3o de Belo Monte. Em vez de enfrentar as contradi\u00e7\u00f5es, preferiu silenciar diante delas, silenciando-as. Como se chama isso do ponto de vista da \u00e9tica?<\/p>\n<p>J\u00e1 a direita sempre apoiou a constru\u00e7\u00e3o de Belo Monte, como grande obra de infraestrutura e oportunidade de neg\u00f3cios. Vale a pena n\u00e3o esquecer que o ex-v\u00e1rias vezes ministro da ditadura Delfim Netto foi um dos art\u00edfices do leil\u00e3o da usina. Belo Monte s\u00f3 se tornou not\u00edcia negativa na maior parte da imprensa quando apareceu nas dela\u00e7\u00f5es da Lava Jato e passou a interessar enfraquecer o PT com vistas ao impeachment de Dilma Rousseff.<\/p>\n<p>Um dos \u00faltimos atos midi\u00e1ticos da ex-presidente foi justamente inaugurar Belo Monte, o que mostra o tamanho da convic\u00e7\u00e3o de Dilma sobre a constru\u00e7\u00e3o da usina. \u201cQuero dizer que esse empreendimento de Belo Monte me orgulha muito pelo que ele produziu de ganhos sociais e ambientais\u201d, discursou. A hidrel\u00e9trica \u00e9 questionada por viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos e ambientais em 24 a\u00e7\u00f5es do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal. As viola\u00e7\u00f5es cometidas pelo Estado brasileiro na constru\u00e7\u00e3o da usina est\u00e3o sendo examinadas pela Comiss\u00e3o Interamericana de Direitos Humanos.<\/p>\n<p>Mesmo assim, Belo Monte \u00e9 vendida hoje como \u201cfato consumado\u201d. Com frequ\u00eancia, mencionar Belo Monte em espa\u00e7os da esquerda ligada a Lula e ao PT significa ouvir: \u201cMas ainda esse assunto? Belo Monte j\u00e1 foi\u201d. A quest\u00e3o \u00e9: fato consumado para quem?<\/p>\n<p>Certamente n\u00e3o para os atingidos. Neste momento, Belo Monte se tornou uma pedreira ainda maior. Ser\u00e1 interessante observar quanto mais ela ainda ter\u00e1 de aumentar de tamanho para que aquilo que aconteceu \u2013 e acontece \u2013 no Xingu seja finalmente visto em toda a sua propor\u00e7\u00e3o e significados.<\/p>\n<p>Neste momento, Belo Monte se tornou uma pedreira maior tamb\u00e9m no caminho do discurso de Lula, porque \u00e9 cada vez mais vis\u00edvel que a gigantesca obra do PAC produziu um contingente de pobres urbanos. O per\u00edodo em que o PT ocupou o poder foi decisivo para uma grande parcela de brasileiros, que j\u00e1 estavam nas periferias, melhorar sua qualidade de vida. \u00c9 um fato. No Xingu, por\u00e9m, e em outras regi\u00f5es amaz\u00f4nicas, o que aconteceu foi um processo de convers\u00e3o de povos tradicionais em pobres urbanos. Este tamb\u00e9m \u00e9 um fato, que tenho documentado desde o in\u00edcio do processo.<\/p>\n<p>Assim como um fato sustenta o discurso de Lula, Dilma e do PT, este outro fato coloca esse mesmo discurso em xeque: como \u201co salvador dos pobres\u201d produziu pobres?<\/p>\n<p>Pelo menos 378 fam\u00edlias de ribeirinhos do Xingu reivindicam hoje a cria\u00e7\u00e3o de um territ\u00f3rio coletivo para que possam recuperar seu modo de vida destru\u00eddo por Belo Monte. A maioria dessas fam\u00edlias vive em situa\u00e7\u00e3o de pobreza, algumas delas em situa\u00e7\u00e3o de extrema pobreza. No in\u00edcio de fevereiro, o Conselho Ribeirinho, que re\u00fane os representantes de cada regi\u00e3o do Xingu onde houve deslocamento de pessoas, esteve em Bras\u00edlia para exigir a cria\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio e j\u00e1 apresentaram um mapa com a proposta.<\/p>\n<p>O Conselho Ribeirinho \u00e9 apoiado e assessorado na reivindica\u00e7\u00e3o por organiza\u00e7\u00f5es como Xingu Vivo Para Sempre e Instituto Socioambiental (ISA), pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia (SBPC), pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF), pela Defensoria P\u00fablica da Uni\u00e3o (DPU) e pelo Conselho Nacional de Direitos Humanos, entre outros apoios. Dois dos mais renomados antrop\u00f3logos do pa\u00eds, Manuela Carneiro da Cunha e Mauro de Almeida, mostraram tanto a legitimidade como a urg\u00eancia da cria\u00e7\u00e3o de um territ\u00f3rio coletivo durante semin\u00e1rio na Universidade de Bras\u00edlia, em 6 de fevereiro, do qual participaram tamb\u00e9m a presidente do IBAMA, Suely Ara\u00fajo, e representantes da Secretaria do Patrim\u00f4nio da Uni\u00e3o e da Casa Civil.<\/p>\n<p>A Norte Energia, empresa concession\u00e1ria de Belo Monte, convidou o antrop\u00f3logo Jos\u00e9 Augusto Laranjeiras Sampaio para analisar a quest\u00e3o, e ele foi enf\u00e1tico ao defender os direitos dos ribeirinhos ao seu modo de vida. Governo e Norte Energia se comprometeram a estudar a proposta e discutir uma primeira avalia\u00e7\u00e3o das \u00e1reas em mar\u00e7o. A empresa se comprometeu tamb\u00e9m a ampliar para todas as fam\u00edlias reconhecidas pelo Conselho Ribeirinho um valor mensal de cerca de 900 reais para garantir um sustento m\u00ednimo enquanto n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00e3o definitiva.<\/p>\n<p>O impasse \u00e9 como esse processo vai se desenrolar com um cons\u00f3rcio que violou sistematicamente os direitos humanos e ambientais ao construir e operar a usina e um governo do (P)MDB que \u00e9 parte integrante da arquitetura pol\u00edtica e econ\u00f4mica \u2013 e, suspeita-se, de propinas \u2013 que viabilizou a implanta\u00e7\u00e3o de Belo Monte. H\u00e1 temores de que a crescente tens\u00e3o na regi\u00e3o esteja apenas sendo contida para n\u00e3o gerar m\u00e1s not\u00edcias em ano eleitoral e para n\u00e3o aumentar ainda mais o passivo social, ambiental e jur\u00eddico de uma usina cuja poss\u00edvel venda chegou a ser anunciada pela imprensa, informa\u00e7\u00e3o que \u00e9 negada pelos s\u00f3cios.<\/p>\n<p>O projeto de privatizar a Eletrobras, uma das estatais que comp\u00f5em a Norte Energia, tamb\u00e9m poderia estar pesando na atual postura conciliadora. S\u00f3 os pr\u00f3ximos cap\u00edtulos v\u00e3o iluminar se h\u00e1 real disposi\u00e7\u00e3o de criar um territ\u00f3rio ribeirinho, o que depende tanto da compra de \u00e1reas de fazenda pela Norte Energia quanto da destina\u00e7\u00e3o de terras da Uni\u00e3o.<\/p>\n<p>Para os ribeirinhos, por\u00e9m, o ritmo da fome n\u00e3o \u00e9 o da burocracia. E o desespero aumenta a cada dia. \u201cQuero territ\u00f3rio pra ser\u201d, afirmou a ribeirinha Rita Cavalcante em Bras\u00edlia, com a linguagem de amplid\u00e3o que caracteriza essa popula\u00e7\u00e3o tradicional. Ela pontua assim a diferen\u00e7a entre terra e territ\u00f3rio, a terra ligada ao conceito de mercadoria, o territ\u00f3rio como identidade, como corpo, como foi apontado pelos antrop\u00f3logos. Pontua tamb\u00e9m a diferen\u00e7a entre reassentamento e reterritorializa\u00e7\u00e3o, como foi evidenciado pela procuradora da Rep\u00fablica em Altamira, Thais Santi.<\/p>\n<p>Os ribeirinhos s\u00e3o uma pedreira tanto no caminho da direita quanto da esquerda ligada a Lula porque encarnam um modo de vida que se contrap\u00f5e a \u201ctudo o que est\u00e1 a\u00ed\u201d. N\u00e3o \u00e9 que eles pregam ou defendem. \u00c9 de outra ordem: eles encarnam, vivem. Uma das popula\u00e7\u00f5es menos compreendidas do pa\u00eds, o que se chama hoje de \u201cribeirinhos\u201d ou \u201cbeiradeiros\u201d, palavra que pessoalmente eu prefiro, surgiu nos rios amaz\u00f4nicos com a explora\u00e7\u00e3o do l\u00e1tex para a produ\u00e7\u00e3o de borracha.<\/p>\n<p>A maioria dos atuais ribeirinhos descende de nordestinos pobres que foram carregados para a Amaz\u00f4nia no final do s\u00e9culo 19 para se tornarem seringueiros e\/ou de soldados da borracha na Segunda Guerra Mundial (1939-45). Sempre que a produ\u00e7\u00e3o da borracha deixou de ser interessante para o mercado, por uma raz\u00e3o ou outra, foram abandonados na floresta. L\u00e1 muitos formaram fam\u00edlias com mulheres ind\u00edgenas, parte delas roubada das aldeias, e criaram um modo de vida distinto. \u00c0s vezes numa margem do rio, \u00e0s vezes em outra.<\/p>\n<p>Quando a grilagem avan\u00e7ou sobre a floresta, muitos migraram para as ilhas dos rios amaz\u00f4nicos, o \u00faltimo reduto. Pescam, ca\u00e7am, plantam uma ro\u00e7a de subsist\u00eancia, fazem farinha, quebram castanha, tiram a\u00e7a\u00ed, se h\u00e1 interesse voltam a cortar seringa, \u00e0s vezes garimpam um pouco, alguns criam porcos ou galinhas, as atividades variam com a \u00e9poca do ano e tamb\u00e9m com as demandas do mercado.<\/p>\n<p>Vivem em total acordo com a floresta e com o rio. Tenho recolhido defini\u00e7\u00f5es de pobreza e de riqueza dos ribeirinhos ao longo dos \u00faltimos anos. Em s\u00edntese. \u201cSer rico \u00e9 n\u00e3o precisar de dinheiro\u201d e \u201cSer pobre \u00e9 n\u00e3o ter escolha\u201d. E a escolha, neste caso, \u00e9 bastante ampla, desde o que comer e quando trabalhar at\u00e9 a liberdade de se mover pelo rio, pescando ora num lugar ora noutro e podendo fazer casa onde quiserem. Esse modo de vida tem sido barrado pelas press\u00f5es econ\u00f4micas sobre a floresta. E, no Xingu, se agudizou com Belo Monte, a cat\u00e1strofe que literalmente barrou o rio e a liberdade de ir e vir.<\/p>\n<p>A liberdade entranhou-se nos ribeirinhos que j\u00e1 nasceram na floresta, mas carregam no corpo uma mem\u00f3ria transmitida oralmente que conta de s\u00e9culos de jugo. \u00c9 comum, ao se definirem como grupo identit\u00e1rio, afirmarem com orgulho: \u201cNunca ningu\u00e9m mandou em mim\u201d. Ou: \u201cNunca tive emprego\u201d. Trabalham muito, mas nos seus pr\u00f3prios termos.<\/p>\n<p>\u00c9 fundamental perceber como esse modo de viver \u00e9 revolucion\u00e1rio em si, na medida em que se contrap\u00f5e a uma vis\u00e3o de mundo dominante, para muitos a \u00fanica. E como esse ser\/estar no mundo n\u00e3o cabe num partido e num l\u00edder que s\u00f3 conseguem enxergar a vida nos termos do capital e trabalho.<\/p>\n<p>Para parte da esquerda, bastaria um emprego e uma moradia num conjunto habitacional padronizado, que estaria tudo certo. Mas, para os ribeirinhos, nada disso faz sentido. E, para a direita, gente que n\u00e3o quer ter nem emprego nem patr\u00e3o, mas tampouco se apresenta nos moldes do empreendedorismo, \u00e9 perigos\u00edssima.<\/p>\n<p>Sem caber em nenhuma caixa, os ribeirinhos, assim como outros povos tradicionais, t\u00eam pagado um pre\u00e7o alto. Ao reivindicar um territ\u00f3rio coletivo em Bras\u00edlia como repara\u00e7\u00e3o do irrepar\u00e1vel, a destrui\u00e7\u00e3o que Belo Monte causou nas suas vidas, eles provocam um movimento gigante. Eram pobres, na medida em que a maioria de seus ascendentes eram nordestinos fugidos da seca; criaram uma vida diferente na floresta depois que os patr\u00f5es foram embora; e hoje se recusam a voltar a ser pobres urbanos.<\/p>\n<p>Em resumo: fizeram uma revolu\u00e7\u00e3o inteira n\u00e3o contra, mas nas margens do rio e \u00e0 margem do Estado. Como o Estado e os campos pol\u00edticos v\u00e3o lidar com isso quando n\u00e3o for mais poss\u00edvel silenci\u00e1-los?<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo como grupo identit\u00e1rio, os ribeirinhos encarnam um desafio, na medida em que sua identidade \u00e9 justamente ser entre mundos. Muitos s\u00e3o ind\u00edgenas mas s\u00e3o tamb\u00e9m outra coisa. S\u00e3o agricultores e n\u00e3o s\u00e3o ao mesmo tempo. S\u00e3o isso e tamb\u00e9m aquilo. S\u00e3o m\u00faltiplos. Essa identidade caleidosc\u00f3pica e tamb\u00e9m mutante \u00e9 extremamente original. E, como nenhuma outra, responde aos desafios de um mundo assombrado pela mudan\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>Toda essa originalidade criativa e criadora \u00e9 negada, quando n\u00e3o destru\u00edda, tanto pela direita quanto por parte da esquerda. Como ela coloca em evid\u00eancia contradi\u00e7\u00f5es estruturais e aponta as fissuras nos discursos e na produ\u00e7\u00e3o de mitologia pol\u00edtica, os polos se despolarizam para impedir que a barragem seja rompida. Mas, se Belo Monte ainda se ergue no Xingu, essa outra barragem j\u00e1 rompeu.<\/p>\n<p>Qualquer impedimento \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria sobre a vida vivida \u00e9, j\u00e1 no seu \u00e2mago, autorit\u00e1rio. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel afirmar a defesa da democracia e, ao mesmo tempo, defender a suspens\u00e3o tempor\u00e1ria da mem\u00f3ria. N\u00e3o h\u00e1 adiamento poss\u00edvel para refletir sobre os 13 anos do PT no poder sem esbarrar no limite da \u00e9tica, este sim intranspon\u00edvel. Como dizer para o ribeirinho que teve sua casa e sua ilha incendiadas ou afogadas e hoje vive com menos de dois reais por dia na periferia urbana da cidade mais violenta do pa\u00eds que sua hist\u00f3ria, sua dor e sua vida n\u00e3o importam, que n\u00e3o tem lugar na hist\u00f3ria, que n\u00e3o \u00e9 hora?<\/p>\n<p>Houve avan\u00e7os importantes nas pol\u00edticas p\u00fablicas em \u00e1reas como a da sa\u00fade, da educa\u00e7\u00e3o e da cultura, houve as cotas raciais nas universidades, houve a amplia\u00e7\u00e3o do Bolsa Fam\u00edlia e o aumento real do sal\u00e1rio m\u00ednimo, entre outras conquistas. Mas houve tamb\u00e9m uma vis\u00e3o de desenvolvimento med\u00edocre e predadora, que massacrou a floresta e os povos da floresta. Houve a corrup\u00e7\u00e3o. E houve Belo Monte, onde todas as contradi\u00e7\u00f5es de Lula, Dilma e do PT no poder, assim como o DNA de suas alian\u00e7as, est\u00e3o desenhadas. N\u00e3o d\u00e1 para fazer mem\u00f3ria de uma parte e apagar a outra parte. S\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel seguir enfrentando as contradi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Belo Monte \u00e9, a cada dia mais, uma pedreira incontorn\u00e1vel no caminho de quem deseja embargar a mem\u00f3ria, como se fosse poss\u00edvel criar um projeto de pa\u00eds sem lidar com o passado e com o presente. Os ribeirinhos do Xingu e de outros rios amaz\u00f4nicos amea\u00e7ados por grandes obras de infraestrutura e de minera\u00e7\u00e3o, pela grilagem e pelo avan\u00e7o da fronteira agropecu\u00e1ria representam hoje, junto com os movimentos de sem tetos nas grandes cidades, os povos ind\u00edgenas e os quilombolas, n\u00e3o s\u00f3 a pot\u00eancia de agir do Brasil, mas a pot\u00eancia de ser Brasis, um pa\u00eds que s\u00f3 pode existir no plural. Brasis como entremundos tamb\u00e9m.<\/p>\n<hr \/>\n<p>Eliane Brum \u00e9 escritora, rep\u00f3rter e documentarista. Autora dos livros de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o Coluna Prestes &#8211; o Avesso da Lenda, A Vida Que Ningu\u00e9m v\u00ea, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum\/ Facebook: @brumelianebrum<\/p>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o:\u00a0Ribeirinho no lago morto de Belo Monte LILO CLARETO<\/p>\n<p>https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/02\/26\/opinion\/1519658924_002382.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/18900\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[226],"class_list":["post-18900","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4UQ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18900","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18900"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18900\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18900"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18900"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18900"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}