{"id":1897,"date":"2011-09-25T17:05:33","date_gmt":"2011-09-25T17:05:33","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1897"},"modified":"2011-09-25T17:05:33","modified_gmt":"2011-09-25T17:05:33","slug":"memoria-comunista-24-anos-da-morte-do-cabo-vermelho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1897","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria Comunista: 24 anos da morte do Cabo Vermelho"},"content":{"rendered":"\n<p align=\"CENTER\">\u00a0<\/p>\n<p align=\"RIGHT\"><strong>Mem\u00f3ria Comunista: 24 anos da morte do Cabo Vermelh<\/strong><strong>o<\/strong><sup><strong><a name=\"sdfootnote2anc\" href=\"#sdfootnote2sym\"><sup>2<\/sup><\/a><\/strong><\/sup><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p align=\"RIGHT\">\u201c<em>H\u00e1 homens que lutam um dia e s\u00e3o bons,<\/em><\/p>\n<p align=\"RIGHT\"><em>H\u00e1 outros que lutam um ano e s\u00e3o melhores,<\/em><\/p>\n<p align=\"RIGHT\"><em>H\u00e1 os que lutam muitos anos e s\u00e3o muito bons.<\/em><\/p>\n<p align=\"RIGHT\"><em>Mas h\u00e1 os que lutam toda a vida <\/em><\/p>\n<p align=\"RIGHT\"><em>e esses s\u00e3o imprescind\u00edveis.\u201d<\/em><\/p>\n<p align=\"RIGHT\"><em>Bertoldo Brecht<\/em><\/p>\n<p>O dia da p\u00e1tria deveria ser um momento de reflex\u00e3o e tomada de consci\u00eancia pelos processos que vivemos e nos fizeram chegar at\u00e9 aqui. Enquanto um pa\u00eds que tem uma das burguesias mais cru\u00e9is e que, em momentos especiais, fez uso da for\u00e7a brutal utilizando a pol\u00edcia e as for\u00e7as armadas para derrotar, ao arrepio da lei, as lutas dos trabalhadores. Sete de setembro \u00e9 um dia de luta que nos permite refletir sobre nossa hist\u00f3ria e sobre o futuro daqueles que querem mudar o mundo. Todavia, o dia da p\u00e1tria sempre nos \u00e9 apresentado a partir de um simbolismo c\u00edvico, revestido de patriotadas diletantes. Mas esse dia nos oferece outra possibilidade de reflex\u00e3o, que nos traz \u00e0 mem\u00f3ria, a hist\u00f3ria e a honra de um militante. Foi nesse dia que cerrou os olhos, l\u00e1 em 1987, o cabo Vermelho, um dos comandantes da Comuna de Natal, do governo provis\u00f3rio e revolucion\u00e1rio de quatro dias no Rio Grande do Norte, em 1935.<\/p>\n<p><strong>A Luta pela sobreviv\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Estou aqui trazendo para a reflex\u00e3o, daqueles que lutam pela emancipa\u00e7\u00e3o humana, a figura revolucion\u00e1ria de Giocondo Gerbasi Alves Dias, ou simplesmente Cabo Dias, ou mais precisamente, o Camarada Dias.<\/p>\n<p>Giocondo Dias nasceu na cidade de Salvador, em 18 de novembro de 1913, no centro hist\u00f3rico dessa cidade, onde passou sua inf\u00e2ncia entre o Santo Ant\u00f4nio Al\u00e9m do Carmo, na Rua dos Ossos, na Sa\u00fade, na Rua do Jenipapeiro e no bairro do Toror\u00f3, na Rua Jos\u00e9 Duarte. Come\u00e7ou a trabalhar muito cedo em virtude do falecimento do seu pai, Antonio Alves Dias, o menino Giocondo passou a ter tarefas laborativas para ajudar sua m\u00e3e, Ana Maria Frederico Gerbasi e seus quatro irm\u00e3os (Maria das Dores, Gilberto, Gerson e Antonio).<\/p>\n<p>Descendente de italianos por parte de m\u00e3e e de portugueses por parte de pai, Giocondo trabalhou em armaz\u00e9ns de secos e molhados e, depois, como ajudante de padres, em v\u00e1rias igrejas do centro hist\u00f3rico expandido de Salvador. A inf\u00e2ncia muito atribulada, com a luta pelo sustento da fam\u00edlia n\u00e3o permitiu que ele terminasse sequer o curso prim\u00e1rio, embora tenha se matriculado v\u00e1rias vezes. O que restava para um jovem pobre e lutador, naquele per\u00edodo, era ingressar no ex\u00e9rcito para garantir a continuidade do sustento da fam\u00edlia. Por\u00e9m, antes de entrar para o ex\u00e9rcito, ele entrou em contato com as ideias que movimentariam a sua vida, e pelas quais lutaria por toda a sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Primeiro, tomou conhecimento das ideias revolucion\u00e1rias a partir do conv\u00edvio com o tio Federico Gerbasi, sapateiro e anarquista, que morreu muito cedo de tuberculose. Depois, atrav\u00e9s do poeta Alberto Campos, que tinha ido trabalhar em Salvador como datil\u00f3grafo de uma firma de com\u00e9rcio. Esse literato foi o respons\u00e1vel pela educa\u00e7\u00e3o inicial que Giocondo teve sobre as ideias do comunismo. Alberto Campos apresentou a ele o primeiro jornal do Partido Comunista Brasileiro<em>, A Na\u00e7\u00e3o<\/em>, que era dirigido, no Rio de Janeiro, por Le\u00f4nidas Resende, isso, em 1927. Em 1931, o escrit\u00f3rio de com\u00e9rcio onde ele trabalhava foi fechado em virtude das turbul\u00eancias causadas pela crise do capitalismo de 1929. Pouco antes, o poeta Alberto Campos tinha sido candidato a deputado federal pelo BOC, em elei\u00e7\u00e3o anterior.<\/p>\n<p>Em 1932, exatamente no dia 2 de abril, na cidade de Recife, em Pernambuco, Giocondo Dias se alista no 21\u00ba Batalh\u00e3o de Ca\u00e7adores e entra oficialmente para o ex\u00e9rcito brasileiro. Logo depois eclode o movimento de descontentamento da burguesia paulista com o Governo Get\u00falio Vargas, que ficou conhecido na hist\u00f3ria oficial como a \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Constitucionalista de 1932\u201d e o 21\u00ba BC \u00e9 deslocado para Uberaba no dia 12 de julho de 1932, como refor\u00e7o na luta contra a empreitada paulista. Esse batalh\u00e3o seria importante nas contendas pol\u00edticas do Brasil, na \u00e9poca de Giocondo.<\/p>\n<p>Ao terminar sua participa\u00e7\u00e3o nas disputas entre o governo de Vargas e as tropas arregimentadas pela burguesia paulista, o 21\u00baBC, que em 1931 havia se levantado contra o usineiro e governador de Pernambuco Lima Cavalcante, e quase foi dissolvido ap\u00f3s esse epis\u00f3dio, foi enviado para a fronteira do Peru com a Bol\u00edvia. Giocondo, que havia participado de combates e opera\u00e7\u00f5es, estava neste momento, numa regi\u00e3o in\u00f3spita de fronteira, onde o batalh\u00e3o foi quase liquidado por doen\u00e7as tropicais. Esse batalh\u00e3o sempre mostrou um desejo ardente por transforma\u00e7\u00e3o social. Giocondo cita que ao chegar ao quartel, no in\u00edcio da sua vida militar, encontrou nas paredes muitas picha\u00e7\u00f5es com as seguintes frases: \u201cViva o Comunismo\u201d, \u201cViva Luiz Carlos Prestes\u201d.<\/p>\n<p>Mas a inger\u00eancia pol\u00edtica do ent\u00e3o governador de Pernambuco, Lima Cavalcanti, n\u00e3o permitiria o retorno do 21\u00ba BC \u00e0 sua terra e a sa\u00edda foi fazer uma troca, o 29\u00ba BC de Natal iria para Pernambuco e o 21\u00ba BC iria para o Rio Grande do Norte. Manifestando assim, nesse momento, o uso e abuso das classes dominantes sobre o ex\u00e9rcito brasileiro.<\/p>\n<p><strong>O Cabo Vermelho<\/strong><\/p>\n<p>Giocondo Dias, por bravura e hero\u00edsmo na luta contra as tropas paulistas, tinha sido promovido a Cabo e recebeu um elogio no Boletim do 21\u00ba BC do dia 05 de junho de 1933, assinado pelo comandante, onde ele reverenciava a coragem do Cabo Dias. Estamos no ano de 1933, Giocondo agora se encontrava em Natal, onde sua lideran\u00e7a avan\u00e7ava dentro do quartel, juntamente com a do Cabo Estev\u00e3o Juvenal Guerra. O tempo avan\u00e7a, entra em cena o ano de 1934, agora com 21 anos, Giocondo casa com Lourdes Tavares, estudante secundarista de 18 anos e mant\u00e9m contato com o PCB formalmente, embora a sua entrada no Partido, para muitas fontes historiogr\u00e1ficas, s\u00f3 tenha ocorrido em agosto de 1935.<\/p>\n<p>O ano de 1934 \u00e9 movimentado por muitas agita\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e com grande insatisfa\u00e7\u00e3o popular nos centros urbanos, fazendo com que, ao final desse ano e in\u00edcio de 1935, ocorressem greves que deixaram paralisados mais de 1,5 milh\u00f5es de trabalhadores pelo Brasil a fora. Oper\u00e1rios, estudantes, lutadores antifascista, ressurgimento do CGT, contribu\u00edram para que o ano de 1935 fosse fortalecido com a funda\u00e7\u00e3o, logo no seu in\u00edcio, da ANL (Alian\u00e7a Nacional Libertadora), em 30 de mar\u00e7o, com um programa progressista bastante mobilizador, com presen\u00e7a forte nos quart\u00e9is e com grande influ\u00eancia do PCB e de Prestes. Essa articula\u00e7\u00e3o aliancista, com car\u00e1ter de frente, foi operada pelo PCB. Podemos afirmar que a ANL agrupou, em trezentas cidades e 17 Estados, algo mais que um milh\u00e3o de pessoas. Esse amplo operador pol\u00edtico encontrou a rea\u00e7\u00e3o do governo Vargas e dos seus aparatos repressivos, foi fechado pelo governo em 12 de julho de 1935.<\/p>\n<p>Come\u00e7ava ent\u00e3o um momento de muitas precipita\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e de avalia\u00e7\u00f5es voluntaristas e dogm\u00e1ticas. Foi lan\u00e7ada a palavra de ordem \u201cTodo poder \u00e0 Alian\u00e7a Nacional Libertadora\u201d. Essa palavra de ordem percorreu todo o pa\u00eds atrav\u00e9s da a\u00e7\u00e3o do PCB e as contradi\u00e7\u00f5es se acirraram. V\u00e1rios dirigentes foram afastados do PCB, pouco tempo depois, a exemplo de Astrogildo Pereira, Cristiano Cordeiro e Heitor Ferreira Lima, ou seja, dois fundadores do PCB e dois ex-Secret\u00e1rios-Gerais. Nesse momento, encontrava-se na lideran\u00e7a do Partido, como Secret\u00e1rio-Geral, o baiano radicado em Alagoinhas, Ant\u00f4nio Maciel Bonfim, mais conhecido pelo codinome de Miranda.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s entrar para o Partido, Giocondo foi desenvolver a sua milit\u00e2ncia na mesma c\u00e9lula do sapateiro Praxedes e de outros militantes no bairro chamado Petr\u00f3polis, em Natal. Come\u00e7a ent\u00e3o uma grande articula\u00e7\u00e3o nacional que coloca a quest\u00e3o do poder na ordem do dia. Essa movimenta\u00e7\u00e3o fica restrita ao aparato militar do partido e, para muitos historiadores, grande parte dos CRs (Comit\u00eas Regionais) do partido n\u00e3o tinham conhecimento do que estava ocorrendo. Finalmente, a partir de uma inflex\u00e3o da base militar do PCB, articulada com poucos membros da c\u00fapula do Partido, a partir das informa\u00e7\u00f5es de Miranda e com o conhecimento de Prestes, \u00e9 desencadeado o movimento insurrecional de 1935, o chamado Levante Comunista.<\/p>\n<p>O movimento revolucion\u00e1rio come\u00e7ou em Natal, no Rio Grande do Norte, na noite do dia 23 de novembro, quando o 21\u00ba BC se subleva, tomando a cidade e o batalh\u00e3o da pol\u00edcia, depois de uma luta feroz que durou 19 horas. Os revolucion\u00e1rios t\u00eam o apoio da popula\u00e7\u00e3o e formam o Comit\u00ea Popular Revolucion\u00e1rio (CPR). O Cabo Dias, l\u00edder revolucion\u00e1rio do levante, participa, nesse momento, da indica\u00e7\u00e3o dos membros do governo provis\u00f3rio que foi composto por: Lauro Cort\u00eas Lago, ministro do interior, Jos\u00e9 Batista Galv\u00e3o, ministro da via\u00e7\u00e3o, Jos\u00e9 Praxedes, sapateiro que era o Secret\u00e1rio- Pol\u00edtico do PCB neste momento, ministro do abastecimento, Quintino Clemente de Barros, que era sargento, ministro da defesa e Jos\u00e9 Macedo, ministro das finan\u00e7as. Est\u00e1 assim constitu\u00eddo o Primeiro Governo popular da Rep\u00fablica Brasileira, que ficou quatro dias no poder e que pode ser considerado o terceiro regime de inspira\u00e7\u00e3o sovi\u00e9tica instalado no mundo depois da Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917. O primeiro foi na Hungria, em 1918, com a lideran\u00e7a de Bela Kun, o segundo nas Ast\u00farias, em 1934, na Espanha e o terceiro, esse levante, que tinha como comandante militar, o Cabo Dias.<\/p>\n<p>O velho sapateiro Praxedes, comunista de longa tradi\u00e7\u00e3o, em relatos no primeiro semestre de 1982, nos informou que o Governo Provis\u00f3rio era todo composto por militantes do PCB, embora eles usassem o instrumento da ANL para aumentar a coes\u00e3o do movimento e pelas circunst\u00e2ncias pol\u00edticas do Rio Grande do Norte. Foi feito um comunicado ao povo pelo CPR, no dia 24 de novembro, cujo t\u00edtulo e primeiro par\u00e1grafo diziam:<\/p>\n<p>\u201c<em><strong>Ao povo <\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong>O Rio Grande do Norte, desafrontado dos dias amargos em que viveu tiranizado por um governante forjado na prostitui\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios republicanos de outrora, hasteia-se soberbo, como fl\u00e2mula redentora no setentri\u00e3o brasileiro, abrindo caminho largo no solo aben\u00e7oado da p\u00e1tria \u00e0 entrada triunfal do Cavaleiro da Esperan\u00e7a \u2013 Luiz Carlos Prestes[&#8230;].\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o lan\u00e7ou seu jornal, <em>A Liberdade<\/em>, na manh\u00e3 do dia 27, onde no seu cabe\u00e7alho havia um comunicado:<\/p>\n<p>\u201c<em><strong>Enfim, pelo esfor\u00e7o invenc\u00edvel dos oprimidos de ontem, pela colabora\u00e7\u00e3o decidida e un\u00e2nime do povo, legitimamente representados por soldados, marinheiros, oper\u00e1rios e camponeses, inaugura-se no Brasil a era da Liberdade, sonhada por tantos martyres, centralizada e corporificada na figura legend\u00e1ria \u2013 omnipresente no amor e na confian\u00e7a divinat\u00f3ria dos humildes \u2013 de Luiz Carlos Prestes, o \u201cCavaleiro da Esperan\u00e7a.\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Foram lan\u00e7ados v\u00e1rios comunicados do Comit\u00ea Popular Revolucion\u00e1rio, ao povo potiguar durante esses quatro dias de poder. O l\u00edder revolucion\u00e1rio, Cabo Dias, circulava em v\u00e1rias a\u00e7\u00f5es que iam definindo os rumos da Revolu\u00e7\u00e3o. Todavia, as tropas do governo federal estavam no interior do Estado, vindas da Para\u00edba e de Alagoas, marchando agora para Natal. A correla\u00e7\u00e3o da luta era desfavor\u00e1vel, o fim do levante se aproximava. O Cabo Dias tentava conter os impulsos do subversivismo irrespons\u00e1vel que, naquele momento, desejava fuzilar os membros do governo deposto e seus oficiais, quando a correla\u00e7\u00e3o era desfavor\u00e1vel. E, numa dessas discuss\u00f5es, o Cabo Dias recebeu 3 tiros e teve que ser socorrido e levado rapidamente para o hospital. Mas, antes impediu que o atirador fosse fuzilado por seus camaradas. Do hospital, prevendo a derrota do levante, encaminhou um carro como escolta do quartel para resgatar a sua fam\u00edlia. No retorno, quando o carro passava pela chefatura de pol\u00edcia, foi alvo de v\u00e1rios tiros e um deles alvejou a cabe\u00e7a da jovem Sinh\u00e1, cunhada do Cabo Dias, que morreu naquele momento.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o avan\u00e7ou, mesmo com os levantes do dia 24, em Recife, comandados pelo sargento Greg\u00f3rio Bezerra, que foi sufocado no dia seguinte, e no Rio de Janeiro, no dia 27, liderado pelos oficiais Agildo Barata e Agliberto Azevedo e com a participa\u00e7\u00e3o do ex-cabo David Capistrano. O levante foi dominado em todo o pa\u00eds. Longos combates ocorreram em Natal e no Rio de Janeiro. No Rio Grande do Norte com a participa\u00e7\u00e3o de soldados, cabos, sargentos e com a presen\u00e7a do povo. No Rio de Janeiro com a participa\u00e7\u00e3o de oficiais; em Recife, foi logo derrotado.<\/p>\n<p>O Cabo Dias empreendeu fuga, conseguiu se esconder numa fazenda no interior do Estado e, l\u00e1, em circunst\u00e2ncias perif\u00e9ricas ao movimento, foi covardemente ferido, levando 13 facadas e ficando \u00e0 beira da morte jogado numa estrada vicinal.<\/p>\n<p>Foi salvo por D. Alzira Floriano, a mesma pessoa que tinha providenciado a sua fuga, que chamou um m\u00e9dico e o removeu para um hospital, em virtude do estado grave em que se encontrava. D. Alzira era uma mulher da pol\u00edtica local, havia sido prefeita de Lages, embora integrando a classe dominante, tinha uma admira\u00e7\u00e3o pela integridade pol\u00edtica do Cabo Dias.<\/p>\n<p>O l\u00edder revolucion\u00e1rio se recuperou e ficou preso em Natal, quando sofreu uma nova tentativa de assassinato, que n\u00e3o se consumou. Ficou na cadeia por mais de 01 ano, quando foi solto em Salvador (para onde havia sido transferido), pelo ato de anistia conhecido como \u201cmacedada\u201d, em 1937. E, mesmo solto, foi procurado pela pol\u00edcia em Salvador, tendo que entrar numa rigorosa clandestinidade at\u00e9 meados de 1945.<\/p>\n<p><strong>A luta pol\u00edtica na Bahia<\/strong><\/p>\n<p>Apesar das grandes desconfian\u00e7as em virtude de infiltra\u00e7\u00f5es, Giocondo Dias articula seu contato com o Partido na Bahia, atrav\u00e9s de conversas com Jo\u00e3o Falc\u00e3o. Mesmo na clandestinidade, se transforma num importante dirigente do CR da Bahia, inst\u00e2ncia que era reconhecidamente a mais importante do Partido no Brasil, naquele momento. O CR da Bahia lan\u00e7ou a revista Seiva, a primeira publica\u00e7\u00e3o do PCB, e foi procurado pelo Bir\u00f4 da Internacional Comunista na Am\u00e9rica do Sul, que reconhecia o trabalho que estava sendo feito nesse Estado.<\/p>\n<p>Nesse momento, nos anos 40, se constitu\u00eda o chamado \u201cGrupo Baiano\u201d, que iria preparar e realizar a Confer\u00eancia de 1943. Era um contingente de militantes baianos e n\u00e3o baianos, mas que na Bahia haviam se encontrado, a exemplo de Carlos Marighella, Arm\u00eanio Guedes, Mois\u00e9s Vinhas, Giocondo Dias, Aristeu Nogueira, Milton Ca\u00edres de Brito, Arruda C\u00e2mara, Le\u00f4ncio Basbaum, Alberto Passos Guimar\u00e3es, Jacob Gorender, Maur\u00edcio Grabois, Praxedes, Fernando Santana, Osvaldo Peralva, Boris Tabakoff e Jorge Amado. A partir de 42, M\u00e1rio Alves, em 45, Ana Montenegro e tantos outros. Era um conjunto extraordin\u00e1rio de militantes, intelectuais e dirigentes que marcou a hist\u00f3ria do PCB e do Brasil de forma indel\u00e9vel.<\/p>\n<p>Durante o per\u00edodo de clandestinidade, Giocondo Dias foi condenado \u00e0 revelia pelo Tribunal de Seguran\u00e7a Nacional (TSN) a 6 anos e 6 meses, assim como passou por uma cirurgia para retirar as balas que o atingiram no levante de 1935. Ainda nesse per\u00edodo de dura clandestinidade, nasceram seus filhos, Gilberto (1938), Antonio Eduardo (1940) e Eduardo Lu\u00eds (1942), depois ainda teria mais duas filhas com D. Lourdes, mulher e companheira de sempre.<\/p>\n<p>Um fato novo ocorreu na vida do Partido na Bahia. Voltando do ex\u00edlio em 1943, Jorge Amado informou ao CR da Bahia que existia uma articula\u00e7\u00e3o nacional para reorganizar o Partido e que estava sendo feito pela CNOP (Comiss\u00e3o Nacional de Organiza\u00e7\u00e3o Provis\u00f3ria do PCB), constitu\u00edda no Rio de Janeiro pelo chamado \u201cGrupo Baiano\u201d. Pouco tempo depois em passagem pela Bahia, Jo\u00e3o Amazonas conversaria com Giocondo Dias e Jo\u00e3o Falc\u00e3o sobre o Partido. \u00c9 desse per\u00edodo hist\u00f3rico, a realiza\u00e7\u00e3o da II Confer\u00eancia Pol\u00edtica do PCB, que ocorreu nos dias 27, 28 e 29 de agosto de 1943 num local entre Barra do Pira\u00ed e Engenheiro Passos, regi\u00e3o da Serra da Mantiqueira. A partir da\u00ed o Partido passa a ter uma dire\u00e7\u00e3o e a CNOP elege, in absentia, Luiz Carlos Prestes Secret\u00e1rio-Geral do PCB. Nesse momento come\u00e7a o trabalho de constru\u00e7\u00e3o da unidade partid\u00e1ria e da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Partido em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Na Bahia, o Secret\u00e1rio-Pol\u00edtico era Giocondo Dias e em fevereiro de 1944 foi eleita uma nova dire\u00e7\u00e3o para o CR, onde M\u00e1rio Alves passou a fazer parte dessa inst\u00e2ncia e Giocondo continuou na fun\u00e7\u00e3o de Secret\u00e1rio-Pol\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>Tempos de democracia&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Enfim chegaram os ventos da liberdade. As hordas do fascismo foram derrotadas; a URSS no campo de batalha derrotou a tentativa de escravizar a humanidade; Get\u00falio cambaleava no poder. Era imposs\u00edvel, naquela conjuntura, barrar a democracia, que vinha das ruas, das f\u00e1bricas, dos campos, das lutas dos comunistas e progressistas.<\/p>\n<p>O Estado Novo estava desmoronando, aquele aparato que perseguiu, torturou e matou comunistas, sucumbiu ao esp\u00edrito da \u00e9poca. Era o fim do governo desp\u00f3tico que havia enviado gr\u00e1vida, a hero\u00edna comunista e judia, Olga Ben\u00e1rio Prestes, para os campos de concentra\u00e7\u00e3o nazista, para ser assassinada. L\u00e1 nasceu sua filha, a comunista e historiadora Anita Leoc\u00e1dia Prestes, s\u00edmbolo de uma luta sem tr\u00e9gua contra a barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>O povo tomou as ruas, o PCB \u00e9 o operador pol\u00edtico da vanguarda, cai o Estado Novo no dia 18 de abril de 1945. Nesse dia hist\u00f3rico, na condi\u00e7\u00e3o de Secret\u00e1rio-Pol\u00edtico do PCB na Bahia, e ao lado de M\u00e1rio Alves, Carlos Marighella, Fernando Santana e Jo\u00e3o Falc\u00e3o, Giocondo Dias fala para as massas da sacada de um pr\u00e9dio na pra\u00e7a municipal, no centro de Salvador. Era o l\u00edder revolucion\u00e1rio falando para os trabalhadores da sua terra. A hist\u00f3ria marchava, a luta de classes pendia para o lado do proletariado, a burguesia reacion\u00e1ria encontrava-se nas cordas e o PCB era o operador pol\u00edtico da classe, agora pautava a luta e definia os caminhos da democracia. A trilha estava aberta e o caminhar das lutas dos trabalhadores seria \u00e1rduo.<\/p>\n<p>Em junho de 1946, na III Confer\u00eancia Pol\u00edtica do PCB, realizada no Rio de Janeiro, Giocondo Dias \u00e9 eleito para o Comit\u00ea Central. Nesse encontro, a vida do Cabo Vermelho \u00e9 conhecida pela primeira vez, dentro do partido, e ele passou a gozar de uma grande admira\u00e7\u00e3o diante da descoberta de seus feitos em 1935. Ao t\u00e9rmino dessa confer\u00eancia, foi apresentado, publicamente, o CC na sede da UNE, era sem d\u00favida um grande feito hist\u00f3rico. Foi eleito um CC com 29 efetivos e 15 suplentes. Entre os efetivos, al\u00e9m de Prestes, chamava a aten\u00e7\u00e3o a presen\u00e7a dos integrantes do chamado \u201cGrupo Baiano\u201d e na supl\u00eancia a presen\u00e7a de hist\u00f3ricos comunistas, a exemplo de Astrogildo Pereira, Oct\u00e1vio Brand\u00e3o e Fernando Lacerda, todos ex-Secret\u00e1rios-Geral do Partido e, no caso de Astrogildo, fundador em 1922.<\/p>\n<p>Prestes, nessa reuni\u00e3o, observava com muita aten\u00e7\u00e3o o que dizia o l\u00edder revolucion\u00e1rio do levante vermelho de 35 e, ap\u00f3s o evento, o chamou em particular orientando ele a \u201cestudar e melhorar o seu portugu\u00eas\u201d. Para muitos que conheceram Dias, sabem que esse conselho de Prestes o seguiu at\u00e9 o fim dos seus dias.<\/p>\n<p>Ao final de 1946, Giocondo ainda participaria de um curso organizado pelo CC e ministrado por Dinarco Reis e Astrogildo Pereira, onde foi reconhecidamente um dos melhores alunos.<\/p>\n<p>No processo eleitoral do ano anterior, o partido tinha tido uma grande participa\u00e7\u00e3o. Seu candidato \u00e0 presid\u00eancia, o engenheiro Yedo Fi\u00faza tinha tido quase 10% dos votos e Prestes foi eleito Senador, juntamente com 14 deputados federais pelo PCB, e mais tr\u00eas por outros partidos. O PCB encontrava-se num momento de grande visibilidade p\u00fablica.<\/p>\n<p>Em janeiro de 1947, ocorreram as elei\u00e7\u00f5es para deputados estaduais e governador, quando, na Bahia, o PCB lan\u00e7ou a sua chapa composta por mais de 20 militantes e liderada por Giocondo Dias, mas que ainda tinha a presen\u00e7a nela de Ana Montenegro, M\u00e1rio Alves, Jaime Maciel, do l\u00edder oper\u00e1rio que seria depois condecorado na URSS, Jo\u00e3o dos Passos. Essa chapa elegeu dois deputados, Giocondo Dias e Jaime Maciel. O apoio para governador exigia uma defini\u00e7\u00e3o muito dif\u00edcil e o CC tomou para si a decis\u00e3o e terminou optando por Oct\u00e1vio Mangabeira, que viria a ser eleito. Antes disso, no dia 05 de janeiro de 1947, em grande com\u00edcio em Salvador, na Pra\u00e7a da S\u00e9, Luiz Carlos Prestes efetivava o apoio do PCB \u00e0 candidatura de Oct\u00e1vio Mangabeira, que retribuiria o apoio recebido em nota de compromisso com o partido, que foi publicada no jornal <em>O Momento.<\/em><\/p>\n<p>Em 7 de abril de 1947, instalavam-se os trabalhos da Assembl\u00e9ia Legislativa, com car\u00e1ter Constituinte e tendo dois comunistas no seu corpo. Giocondo Dias teve uma participa\u00e7\u00e3o importante nos debates da Constituinte, levando para este espa\u00e7o pol\u00edtico as propostas dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Mas a rea\u00e7\u00e3o burguesa cresceu e encontrou for\u00e7as para enfrentar os trabalhadores e, em maio, no dia 07, de 1947, o registro do PCB foi cassado por tr\u00eas votos a dois, no TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Era cassado assim, o registro de um partido que tinha uma presen\u00e7a enorme entre os trabalhadores, quase duzentos mil filiados, 17 deputados federais, 64 deputados estaduais, um senador legend\u00e1rio e que havia tido 10% dos votos na \u00faltima elei\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>O PCB reagiu em todo pa\u00eds. Lutou nas diversas trincheiras, fez manifesta\u00e7\u00f5es, publicou comunicados em seus jornais, a exemplo daqueles que sa\u00edram no jornal <em>O Momento<\/em>, na Bahia, mas foi derrotado. Logo em seguida, no in\u00edcio de 1948, os parlamentares comunistas s\u00e3o cassados e um tempo de trevas se abre novamente para aqueles que sempre lutaram pela liberdade.<\/p>\n<p>No dia 7 de janeiro de 1948, em se\u00e7\u00e3o concorrida, a C\u00e2mara Federal votou o projeto que extinguia todos os mandatos de parlamentares comunistas nas mais diversas inst\u00e2ncias legislativas. Foram 7 horas de se\u00e7\u00e3o e ao t\u00e9rmino, a bancada comunista, de p\u00e9, bra\u00e7o esquerdo levantado e punho cerrado, gritava:<\/p>\n<p>\u201c<em><strong>Viva o Partido Comunista!<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong>Viva Prestes!<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong>Viva o proletariado!<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong>N\u00f3s voltaremos!\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>No dia 8, Giocondo Dias fazia o seu discurso na Assembl\u00e9ia Legislativa da Bahia, em nome dos \u201cinteresses do povo e da classe oper\u00e1ria da nossa terra\u201d. E no dia 14, realizava o seu discurso final, onde afirmava \u201c[&#8230;] Um comunista \u00e9 homem que sabe cumprir o dever e resistir a todas os arreganhos da rea\u00e7\u00e3o e dos potentados dos senhores das classes dominantes.\u201d E concluiu seu discurso dizendo que chegar\u00e1 um tempo onde \u201cn\u00e3o haver\u00e1 mais lugar para ditaduras terroristas como a que ora infelicita a na\u00e7\u00e3o, ditadura que nosso povo repudia e saber\u00e1 substituir por um governo de sua confian\u00e7a, um governo popular.\u201d E concluiu dando vivas a Luiz Carlos Prestes.<\/p>\n<p>Ainda em 1948, precisamente no dia 28 de fevereiro, o PCB resolveu fazer um com\u00edcio na Pra\u00e7a da S\u00e9. Era a comemora\u00e7\u00e3o pelo centen\u00e1rio do Manifesto Comunista e pela elei\u00e7\u00e3o de dois vereadores para a C\u00e2mara municipal de Salvador. Mesmo tendo o pedido de licen\u00e7a para realizar o com\u00edcio, a pol\u00edcia, a mando de Oct\u00e1vio Mangabeira, resolveu proibir, e a selvageria se abateu sobre os comunistas, ocorrendo v\u00e1rias pris\u00f5es, espancamentos e o assassinato do banc\u00e1rio Luiz Garcia, que se parecia muito com Giocondo. Nesse epis\u00f3dio, enquanto conversava com a pol\u00edcia diante do tumulto estabelecido pela repress\u00e3o, Giocondo \u00e9 agredido e cai. Nesse momento, os agentes da burguesia atiram nele, mas sobre seu corpo se joga o militante Am\u00e9rico Carvalho, ent\u00e3o funcion\u00e1rio da livraria do Partido, que \u00e9 atingido por uma das balas. Giocondo, ferido, \u00e9 escondido no Hospital Psiqui\u00e1trico, Sanat\u00f3rio Bahia, no bairro da Lapinha, que era dirigido por um militante comunista. O Historiador Luis Henrique Dias Tavares, militante do PCB naquela \u00e9poca e participante dessa batalha, narrou esse epis\u00f3dio na cr\u00f4nica <em>\u201cO Com\u00edcio\u201d.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>De volta \u00e0 noite turva&#8230;<\/strong><\/em><\/p>\n<p>J\u00e1 na clandestinidade, Giocondo chega ao Rio de Janeiro, em 15 de abril de 1948, e \u00e9 designado para ser um dos respons\u00e1veis pela seguran\u00e7a de Prestes. Mesmo n\u00e3o morando com Prestes, e nem sabendo onde ficava o famoso aparelho, pois, em verdade, a seguran\u00e7a de Prestes nesse momento era feita pelo advogado e jornalista baiano, Jo\u00e3o Falc\u00e3o, quadro da maior import\u00e2ncia na hist\u00f3ria do PCB e que vivia com o \u201cVelho\u201d, sendo seu seguran\u00e7a e motorista, sempre \u201cacompanhado por uma metralhadora\u201d e pela postura reservada do comandante da hist\u00f3rica Coluna.<\/p>\n<p>Em 1949, Giocondo ficou efetivamente encarregado da seguran\u00e7a de Prestes, agora, j\u00e1 em S\u00e3o Paulo, substituindo a Jo\u00e3o Amazonas. Assim, Giocondo era a \u00fanica pessoa que tinha as informa\u00e7\u00f5es sobre Prestes e sobre o aparelho onde esse residia, fazendo a ponte com o secretariado e a comiss\u00e3o executiva do Partido. Quando o aparelho foi mudado para o bairro do Jabaquara, ele trouxe, da Bahia, Altamira Rodrigues Sobral, uma jovem militante comunista, que era filha de um dirigente do CR, chamado Jo\u00e3o Rodrigues Sobral, muito conhecido de Dias. Passou-se ent\u00e3o a se chamar Maria e, numa noite de dezembro de 1952, chega Giocondo no novo aparelho trazendo seu morador \u201cum homem baixo, magro, de palet\u00f3, camisa e chap\u00e9u sobre o rosto\u201d. Giocondo o apresenta a Maria, e ele respondeu estendendo a m\u00e3o: \u201cMeu nome \u00e9 Pedro. Muito prazer, dona Maria\u201d. Era Luiz Carlos Prestes, o l\u00edder comunista mais importante da Am\u00e9rica Latina e um dos mais importantes do mundo, diante da mulher que seria a sua companheira por mais de 40 anos.<\/p>\n<p>Reservado e circunspecto, cuidado pelos seus camaradas, nessa casa n\u00e3o apenas dirigia a pol\u00edtica dos revolucion\u00e1rios, mas tamb\u00e9m cuidava das rosas no jardim o dirigente comunista mais procurado do Brasil. Afinal, algu\u00e9m diria mais para frente, \u201cA Revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 uma Rosa\u201d.<\/p>\n<p><strong>A linha pol\u00edtica perde o encontro com a realidade<\/strong><\/p>\n<p>O Partido est\u00e1 agora na mais profunda clandestinidade e seus dirigentes transitam apenas pelos subterr\u00e2neos. A inflex\u00e3o na conjuntura leva \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o do Manifesto de Agosto, o espa\u00e7o da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de massas vai cada vez mais se fechando e o Partido, no horizonte da noite turva, tenta organizar a FDLN (Frente Democr\u00e1tica de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional). Entrava em cena uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que se preparava para a tomada do poder, por\u00e9m sem a presen\u00e7a das amplas camadas de trabalhadores. Prosseguiu assim, a linha pol\u00edtica obreirista, e a clandestinidade cega dava sinais de isolamento do partido. Mas, mesmo assim, nesse per\u00edodo hist\u00f3rico, o PCB foi a for\u00e7a motriz da campanha do \u201cPetr\u00f3leo \u00e9 Nosso\u201d.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica do IV Congresso do PCB n\u00e3o fez o partido avan\u00e7ar. Mas a conjuntura pol\u00edtica se encaminhava para uma tr\u00e9gua que talvez possibilitasse aos comunistas voltar \u00e0 luz do dia em a\u00e7\u00f5es menos perigosas.<\/p>\n<p>Chegamos aos movimentados anos do governo Juscelino, o Brasil estava sendo sacudido, e no PCB, o XX Congresso do PCUS traria uma larga crise. Mas o PCB prossegue sua marcha na hist\u00f3ria, e numa reviravolta pol\u00edtica, a partir de uma articula\u00e7\u00e3o de Giocondo Dias, que coordenou uma comiss\u00e3o que escreveria um texto pol\u00edtico para enfrentar as demandas do tempo presente, composta por Alberto Passos Guimar\u00e3es, M\u00e1rio Alves, Dinarco Reis, Arm\u00eanio Guedes, Jacob Gorender e Orestes Timba\u00faba, que se reunia desde dezembro de 1957, foi apresentado ao CC, em mar\u00e7o de 1958, a chamada Declara\u00e7\u00e3o que levava o nome do m\u00eas, e que contou com o apoio de Prestes; afinal, para o Secret\u00e1rio-Geral, era a media\u00e7\u00e3o poss\u00edvel no sentido de manter a unidade do Partido. Vale ressaltar o papel primordial que tiveram M\u00e1rio Alves e Jacob Gorender, na elabora\u00e7\u00e3o do documento.<\/p>\n<p>Esse documento pauta uma inflex\u00e3o pol\u00edtica na hist\u00f3ria do PCB. E a sua aplica\u00e7\u00e3o o trouxe de volta para as atividades de massas, onde seus militantes puderam agir a c\u00e9u aberto.<\/p>\n<p>O PCB est\u00e1, nesse momento, na ante-sala das articula\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Termina o governo Juscelino, passa o epis\u00f3dio J\u00e2nio Quadros, agora \u00e9 o governo Goulart. No decorrer dessas batalhas, um pequeno grupo insatisfeito com as cr\u00edticas ao stalinismo, j\u00e1 afastado da vida partid\u00e1ria, sem raiz na classe oper\u00e1ria e na sociedade em geral, sai do partido e lan\u00e7a o \u201cManifesto dos cem\u201d. Esse acontecimento, embora capitaneado por importantes dirigentes comunistas, n\u00e3o teve maior repercuss\u00e3o, nem no Partido, muito menos na vida social ensejada pelas contradi\u00e7\u00f5es de classes.<\/p>\n<p>A Declara\u00e7\u00e3o de Mar\u00e7o permitiu a reinser\u00e7\u00e3o do PCB na pol\u00edtica nacional, todavia, se constituiu num instrumento para uma pol\u00edtica reboquista frente ao governo e ao processo pol\u00edtico em curso, permitindo vacila\u00e7\u00f5es frente \u00e0 conjuntura de crise. Giocondo era nesse per\u00edodo o segundo dirigente na estrutura partid\u00e1ria, na condi\u00e7\u00e3o de Secret\u00e1rio de Organiza\u00e7\u00e3o e com o prest\u00edgio pol\u00edtico em ascens\u00e3o. Afinal, foi o articulador da nova linha pol\u00edtica, a partir desse c\u00e9lebre documento (A Declara\u00e7\u00e3o de Mar\u00e7o).<\/p>\n<p>Era um momento novo da hist\u00f3ria do PCB e do Brasil. Massas nas ruas, trabalhadores em greve, reformas de base em discuss\u00e3o, governo sem saber qual \u00e9 o seu rumo, e o PCB claudicante na a\u00e7\u00e3o e dividido internamente entre o esquerdismo e o reformismo reboquista.<\/p>\n<p>O Partido estava no \u00e1pice do seu papel de vanguarda, dirigia a classe oper\u00e1ria via o CGT (Comando Geral dos Trabalhadores), tinha um homem interagindo com o Planalto, que era o deputado Marco Antonio Tavares Coelho, estava no comando dos sindicatos rurais, via a CONTAG (Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Trabalhadores na Agricultura), e tinha muitos militantes nas for\u00e7as armadas e nas for\u00e7as p\u00fablicas (PM). Poderia se dizer que agora o PCB tinha acesso ao poder. O que fazer? Continuava a indefini\u00e7\u00e3o dentro do Partido (qual seria o caminho a seguir), no governo o ambiente pol\u00edtico era de confus\u00e3o e vacila\u00e7\u00e3o. Todavia, a rea\u00e7\u00e3o burguesa encontrou o seu caminho hist\u00f3rico, consolidou uma alian\u00e7a dentro e fora do Brasil, colocou as tropas na rua e deu o golpe civil-militar de 1\u00ba de abril de 1964, efetivando assim, a contra-revolu\u00e7\u00e3o de forma preventiva.<\/p>\n<p><strong>A derrota da linha: o golpe e a crise<\/strong><\/p>\n<p>Giocondo Dias estava alinhado em um campo de luta, de onde examinava o acirramento pol\u00edtico do in\u00edcio de 1964, com preocupa\u00e7\u00e3o. Ele compreendia que o Partido n\u00e3o tinha for\u00e7as, naquele momento, para colocar a quest\u00e3o do poder na pauta da luta. E, em virtude disso, temia que algo de muito grave ocorresse. Pois bem, todos n\u00f3s sabemos o que aconteceu, o longo per\u00edodo de trevas que come\u00e7ava, consolidaria a autocracia burguesa no Brasil.<\/p>\n<p>Dias, assim como o Partido, de forma mais dura ou menos fechada, entrou para a clandestinidade. Uma velha forma de vida e milit\u00e2ncia, conhecida por ele h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n<p>A ditadura instalada tomava suas provid\u00eancias para assegurar o seu poder. E o Partido dava sinais de uma crise, principalmente pelas interpreta\u00e7\u00f5es sobre o golpe que passaram a disputar a linha e a condu\u00e7\u00e3o do aparelho.<\/p>\n<p>O PCB vivia uma nova contradi\u00e7\u00e3o, a linha pol\u00edtica da \u201cDeclara\u00e7\u00e3o de Mar\u00e7o\u201d, consolidada no V Congresso de setembro de 1960, tinha sido derrotada pela precipita\u00e7\u00e3o dos acontecimentos golpistas. O Partido estava em ebuli\u00e7\u00e3o. A percep\u00e7\u00e3o que essa \u201clinha\u201d tinha levado ao extremo da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica o \u201ccaminho pac\u00edfico\u201d, sem nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o com uma prepara\u00e7\u00e3o para responder a articula\u00e7\u00e3o da burguesia, inclusive de forma armada, trouxe em si uma grande discuss\u00e3o, que se realizava num ambiente pol\u00edtico tenso, podendo explodir a qualquer momento.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio interno, Giocondo Dias consolida a sua lideran\u00e7a e lan\u00e7a o documento, \u201cManifesto ao Partido\u201d. O Secret\u00e1rio-Geral estava isolado dos debates, por se encontrar blindado na clandestinidade em virtude da repress\u00e3o. Operavam no campo da luta pol\u00edtica dois grupos, um liderado por Dias, que era composto por Geraldo Rodrigues, Jaime Miranda, Orlando Bonfim e Dinarco Reis, tendo o acompanhamento intelectual de Alberto Passos Guimar\u00e3es, que era sempre consultado por Giocondo. E o outro, que era composto por Carlos Marighella, M\u00e1rio Alves e Jover Telles. Os dois \u00faltimos lan\u00e7aram um documento chamado, \u201cEsquema para discuss\u00e3o\u201d que polemizava, radicalizando o processo de discuss\u00e3o e que fora aprovado na Comiss\u00e3o Executiva.<\/p>\n<p>Nesse processo, quanto mais o regime \u201cendurecia\u201d, mais estragos o Partido sofria.<\/p>\n<p>Na disputa interna para encontrar uma orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que refletisse sobre o golpe e apontasse o caminho para enfrentar a autocracia burguesa, \u00e9 convocado o VI congresso que veio a ocorrer em dezembro de 1967, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>No decorrer desse processo, centenas de militantes sa\u00edram do PCB e organizaram agrupamentos pol\u00edticos, cujo eixo central da atua\u00e7\u00e3o seria a luta armada contra a ditadura civil-militar. Carlos Marighella e Joaquim C\u00e2mara Ferreira formaram a ALN (A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional), uma parte do setor estudantil criou o MR-8 (Movimento Revolucion\u00e1rio 08 de Outubro), M\u00e1rio Alves, Apol\u00f4nio de Carvalho (her\u00f3i da guerra civil espanhola e da resist\u00eancia francesa) e Jacob Gorender formaram o PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucion\u00e1rio). Os CRs da Guanabara, Rio Grande do Sul, S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais enfrentaram o Comit\u00ea Central e, em alguns casos, derrotaram as posi\u00e7\u00f5es do comando nacional.<\/p>\n<p>\u00c9 um momento de grande ruptura pol\u00edtica e org\u00e2nica, que abriu uma fenda profunda na maior for\u00e7a pol\u00edtica da esquerda brasileira, o grande PCB, e ele estava em vias de ficar conhecido como o \u201cPartid\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O PCB, agora sem os dissidentes, encontra o seu rumo. Estava formulada a pol\u00edtica de frente com o chamamento \u00e0 participa\u00e7\u00e3o de amplas camadas populares. Segue o trabalho do Partido com base na \u201clinha\u201d definida e essa orienta\u00e7\u00e3o come\u00e7a a se mostrar vitoriosa, quando, ao mesmo tempo, os aparatos repressivos, massacravam os bravos her\u00f3is, que apesar das boas inten\u00e7\u00f5es e da disposi\u00e7\u00e3o de luta, equivocadamente optaram pela luta armada. Dias sofreu muito com os assassinatos de camaradas e amigos de longas jornadas, como M\u00e1rio Alves e Carlos Marighella.<\/p>\n<p>Giocondo Dias operava na clandestinidade. Um ter\u00e7o do CC estava no ex\u00edlio, Prestes j\u00e1 havia sa\u00eddo do pa\u00eds para n\u00e3o ser eliminado pela repress\u00e3o e se estabeleceu em Moscou, na Rua Gorki, pr\u00f3ximo ao Kremlin. A ditadura sofria com o avan\u00e7o das lutas consolidadas pela frente pol\u00edtica e, \u00e9 nesse contexto, que a ditadura volta-se contra o operador pol\u00edtico deste instrumento e lan\u00e7a v\u00e1rias opera\u00e7\u00f5es para destruir o PCB. A repress\u00e3o queria acabar com o papel do PCB na opera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que come\u00e7ava a abalar o poder do regime. Utilizando-se de v\u00e1rias t\u00e9cnicas, a repress\u00e3o conseguiu com sucesso infiltrar gente no PCB, para, a partir da\u00ed, efetuar pris\u00f5es e assassinar quadros dirigentes e lideran\u00e7as de frente de massa. Quando come\u00e7ou o ano de 1974, essas opera\u00e7\u00f5es avan\u00e7aram e at\u00e9 1976 elas conseguiram efetuar quase 700 pris\u00f5es de militantes do partido e mais de 20 assassinatos de dirigentes, sejam eles do CC e dos CRs, mas tamb\u00e9m de militantes a exemplo do dentista baiano C\u00e9lio Guedes (assassinado antes desse per\u00edodo), do oper\u00e1rio Manuel Fiel Filho e do jornalista Vladmir Herzog. O oper\u00e1rio e o jornalista s\u00e3o os \u00faltimos mortos da ditadura, em 1976.<\/p>\n<p>Um fen\u00f4meno novo entrou no roteiro de debate dos comunistas: as posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de Prestes e suas contradi\u00e7\u00f5es com a maioria do CC no ex\u00edlio. Passamos a ter, ent\u00e3o, uma fissura velada no CC.<\/p>\n<p>Aqui no Brasil, escondido, Giocondo Dias sentiu o cerco da repress\u00e3o que se fechava sobre ele e notando que ele corria risco, o CC no ex\u00edlio, em conjunto com o Estado Sovi\u00e9tico, designou o baiano Jos\u00e9 Salles para organizar uma opera\u00e7\u00e3o no sentido de tir\u00e1-lo do Brasil. Foi uma longa e vitoriosa opera\u00e7\u00e3o, comandada pelo jovem dirigente que viria, mais \u00e0 frente, ser o Secret\u00e1rio-Geral Adjunto do Partido no ex\u00edlio. Salles saiu com Dias pela fronteira do sul e conseguiu seguir em diversos v\u00f4os at\u00e9 Moscou.<\/p>\n<p><strong>Do Ex\u00edlio \u00e0 Secretaria-Geral: os \u00faltimos dias do general da t\u00e1tica<\/strong><\/p>\n<p>Giocondo Dias se estabelece primeiro em Moscou e depois em Paris, onde passou a trabalhar em conjunto com outros dirigentes comunistas em um escrit\u00f3rio cedido pela CGT. Era um trabalho de articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica junto aos exilados da Frente contra a ditadura brasileira. Ele fazia reuni\u00f5es, desenvolvia contatos, articulava o Partido no exterior e criava pontes com os camaradas no Brasil. Trabalhava de forma incessante. No ex\u00edlio, em Paris, Dias perde a companheira de sua vida, morreu D. Lourdes, a camarada Lourdes, que deu toda sua vida, que come\u00e7ou aos 18 anos, a Giocondo, ao PCB e ao Brasil. O velho combatente mesmo acostumado com os \u00e1speros tempos, agora sofria de forma constante.<\/p>\n<p>Com a dire\u00e7\u00e3o do partido quase toda no ex\u00edlio, novas pol\u00eamicas se apresentaram no debate interno do CC. De um lado se postava o Cavaleiro da Esperan\u00e7a, de outro, mesmo sem demonstrar querer o combate, colocava-se o l\u00edder da maioria do CC, Giocondo Dias.<\/p>\n<p>Dias viajou por toda a Europa, discutindo com os camaradas do PCB e dos outros Partidos Comunistas. No Brasil as lutas de massas avan\u00e7avam, a pol\u00edtica econ\u00f4mica da ditadura fracassava, a Frente pol\u00edtica crescia no parlamento desde as elei\u00e7\u00f5es de 1974, se organizavam lutas amplas contra a carestia, pela anistia e por elei\u00e7\u00f5es gerais.<\/p>\n<p>Era chegado o momento de voltar ao Brasil e Giocondo Dias retorna no dia 02 outubro de 1979. Alegre e motivado ele tenta organizar a sua vida para melhor atender a reconstru\u00e7\u00e3o do Partido. Reencontra sua m\u00e3e, que pouco depois faleceu, e se casa novamente, agora com Maria C\u00e2ndida, por quem estava apaixonado. Mas a situa\u00e7\u00e3o do PCB era de profunda cis\u00e3o entre Prestes e o CC. Ap\u00f3s algumas tentativas de resolu\u00e7\u00e3o do longo impasse, o legend\u00e1rio Secret\u00e1rio-Geral lan\u00e7a uma \u201cCarta aos Comunistas\u201d e se afasta da dire\u00e7\u00e3o, deixando um v\u00e1cuo de poder. \u00c9 nesse contexto que o CC se re\u00fane no dia 12 de maio de 1980 e, mesmo bastante desfalcado, por mortes e desaparecimentos, elege Giocondo Dias para a Secretaria-Geral do Partido e forma uma comiss\u00e3o executiva composta por: Dias, Malina, Teodoro Mello, Luiz Ten\u00f3rio e Givaldo Siqueira.<\/p>\n<p>Essa nova dire\u00e7\u00e3o acentuaria a inflex\u00e3o pol\u00edtica que j\u00e1 estava em curso no Partido. E, ao arrepio da realidade concreta, sem compreender as transforma\u00e7\u00f5es que o Brasil estava passando, subalternizou a a\u00e7\u00e3o do operador pol\u00edtico aos interesses da agenda do centro democr\u00e1tico, enquanto outras for\u00e7as de esquerda marchavam na disputa pela hegemonia do movimento social. Aprofunda-se nesse momento a derrota da hegemonia pecebista.<\/p>\n<p>Giocondo Dias, na condi\u00e7\u00e3o de Secret\u00e1rio-Geral, logo viajou para Moscou, esteve em v\u00e1rios pa\u00edses da Europa, em Cuba, na China, sempre em reuni\u00f5es com as lideran\u00e7as comunistas. No Brasil, esteve em contato pol\u00edtico com diversas for\u00e7as que efetivaram a transi\u00e7\u00e3o pelo alto. O dirigente Dias, longe do cabo, era o general da t\u00e1tica. Operava na media\u00e7\u00e3o da democracia, sem perceber que a t\u00e1tica teria que ser subordinada a estrat\u00e9gia da Revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 na consolida\u00e7\u00e3o dessa pol\u00edtica, Giocondo Dias trabalha na perspectiva da realiza\u00e7\u00e3o do VII congresso, que termina por ocorrer no dia 13 de dezembro de 1982, em S\u00e3o Paulo, com a participa\u00e7\u00e3o de 86 delegados. A pol\u00edcia invade o local e prende v\u00e1rios dirigentes, mais uma vez o velho combatente estava na cadeia. Todavia, 3 dias depois seria solto. Ele seria mais uma vez detido, quando retornava de uma viagem a Moscou, em 1985.<\/p>\n<p>O velho Giocondo Dias seria ainda, antes de morrer, homenageado no Brasil e no exterior pela sua incans\u00e1vel luta em defesa da Democracia, da Paz e do Socialismo.<\/p>\n<p>Mas um novo inimigo se apresentou para um \u00faltimo combate. Dias descobriu que tinha um tumor no c\u00e9rebro, foi tratado em Moscou, onde fez uma cirurgia em janeiro de 1987.<\/p>\n<p>Retornou ao Brasil e faleceu no dia 07 de setembro, desse mesmo ano. Seu corpo foi velado na Assembl\u00e9ia Legislativa do Rio de Janeiro. Por l\u00e1 passaram autoridades pol\u00edticas, velhos e novos camaradas, intelectuais e simples trabalhadores.<\/p>\n<p>Morreu um her\u00f3i, morreu o Cabo Vermelho, que nos legou um patrim\u00f4nio de 52 anos de milit\u00e2ncia no Partido Comunista Brasileiro, o velho PCB.<\/p>\n<p>Sobre ele disse Jorge Amado, no seu livro <em>Bahia de Todos os Santos, <\/em>publicado em Portugal, em 1978:<\/p>\n<p>\u201c<em><strong>Nenen&#8230; <\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong>Onde andar\u00e1, n\u00e3o sei. Qual o caminho que o leva adiante, que rua atravessa com passo firme, em que cidade vive e trabalha, em que pa\u00eds de seu obscuro universo subterr\u00e2neo? N\u00e3o sei se est\u00e1 magro ou gordo, se o cabelo loiro tornou-se grisalho, se o sorriso fez-se mais t\u00edmido, se as cicatrizes das balas e das punhaladas ainda o incomodam, mas imagino como deve se sentir sozinho desde que Lourdes morreu longe da p\u00e1tria. N\u00e3o sei sequer o nome pelo qual atende, sempre cort\u00eas e paciente, capaz de ouvir e aprender quem tanto tem a dizer e a ensinar. De seus nomes, um, quem sabe o primeiro, lhe foi dado pela m\u00e3e e \u00e9 usado pelos mais pr\u00f3ximos, seus irm\u00e3os, seus filhos, alguns poucos amigos de data antiga e maior intimidade \u2013 Nenen lhe dizemos com acentos de admira\u00e7\u00e3o e profundo afeto, em vez de amor.<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong>Durante um tempo, vai longe, quando se decidiam os destinos da humanidade, cruzamos juntos, num vai-e-vem constante, as ruas da cidade da Bahia e realizamos uma saga inesquec\u00edvel. Nossa luta era a da liberdade contra a escravid\u00e3o nazista, nosso sonho o mundo farto, nossa bandeira a da fraternidade, ou seja, da anistia. Num dos meus romances, no Tenda dos Milagres, eu o coloquei numa tribuna de com\u00edcio durante a guerra, falando em nome dos trabalhadores \u2013 em muitas tribunas ergueu a voz \u2013 na pra\u00e7a, no sindicato, na C\u00e2mara de Deputados, nas reuni\u00f5es abertas e fechadas, mas ergue a voz apenas o necess\u00e1rio para argumentar e convencer, jamais para impor e violentar a opini\u00e3o alheia. Nasceu para a conviv\u00eancia e por isso mesmo em nenhum momento suportou o dogma nem se curvou aos \u00eddolos. Manteve-se \u00edntegro, nem mesmo o mando o corrompeu por jamais ter desejado o poder, querendo apenas servir. T\u00e3o decente quanto ele certamente existem outros; mais decente e leal, imposs\u00edvel.<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong>Baiano com as virtudes todas; o riso f\u00e1cil, a discri\u00e7\u00e3o inata e a capacidade de sonhar com a aurora. Nunca ser\u00e1 amargo quem luta por seu pa\u00eds e seu povo com ambi\u00e7\u00e3o de concorrer na medida de suas for\u00e7as para o bem comum. De quando em vez leio jornais que o procuram, com \u00f3dio mortal, policiais e inimigos da paz e da liberdade. Onde andar\u00e1 Giocondo Dias, dito Nenen por sua m\u00e3e? N\u00e3o sei mas vos afirmo que, esteja onde estiver, estar\u00e1 trabalhando para que o amanh\u00e3 dos brasileiros seja mais belo.<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em><strong>Baiano com r\u00e9gua e compasso e uma luz no cora\u00e7\u00e3o.\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p><a name=\"sdfootnote1sym\" href=\"#sdfootnote1anc\">1<\/a> Professor de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da Uneb e autor\/organizador do livro\u00a0<em>Caio Prado J\u00fanior \u2013 Hist\u00f3ria e Sociedade<\/em>, pela editora Quarteto.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><a name=\"sdfootnote2sym\" href=\"#sdfootnote2anc\">2<\/a> As notas de rodap\u00e9 e as refer\u00eancia bibliogr\u00e1ficas foram retiradas do texto, para efeito desta divulga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: IFCS UFRJ\n\n\n\n\n\n\n\n\n\u00a0\nMilton Pinheiro1\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1897\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[46],"tags":[],"class_list":["post-1897","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c56-memoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-uB","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1897","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1897"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1897\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1897"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1897"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1897"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}