{"id":19059,"date":"2018-03-15T20:00:12","date_gmt":"2018-03-15T23:00:12","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=19059"},"modified":"2018-03-15T20:00:12","modified_gmt":"2018-03-15T23:00:12","slug":"marielle-uma-voz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19059","title":{"rendered":"Marielle, uma voz"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"Marielle, uma voz\" src=\"https:\/\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2018\/03\/marielle-boitempo-2.jpg?w=747\" alt=\"Marielle, uma voz\" \/><!--more-->&#8220;Hoje dizemos Marielle. Uma voz coletiva que tem nome, que se ocupou em lutar contra a noite, que carrega no seu corpo negro todas as mulheres assassinadas, todos os corpos e todo o sangue, todos os nomes expropriados de seus donos, todos os sonhos, toda a vida que a morte carregou para o oco da noite. Que diz alto os nomes dos assassinos e os acusa. A voz tem um nome, Marielle. E Marielle foi morta outra vez. Mas esta morte tem um nome, porque carregava muitas vozes, porque nunca estava sozinha nunca ser\u00e1 esquecida, porque atrav\u00e9s dela \u00e9 que lembramos dos esquecidos.&#8221;<\/p>\n<p>Por Mauro Luis Iasi.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cQuando \u00e9 abatido o que n\u00e3o lutou s\u00f3,<br \/>\no inimigo<br \/>\nainda n\u00e3o venceu.\u201d<\/p>\n<p>\u2013 BERTOLD BRECHT.<\/p><\/blockquote>\n<p>A chuva caia torrencialmente sobre a cidade. Ians\u00e3 mandava seus raios e os clar\u00f5es tentavam negar a noite que insiste em suas sombras. Os corpos n\u00e3o se viam, a pele negra se confunde com a noite, os rios de sangue fluem para a vala, de todas as feridas abertas, dos navios descarregando sua carga humana acorrentada, no verde dos canaviais, nas favelas, nas ruelas da velha cidade, das flechas de S\u00e3o Sebasti\u00e3o.<\/p>\n<p>O sangue, ferro vermelho, rio que tanto carrega a vida como se esvai para fora dela, tamb\u00e9m d\u00e1 cor as bandeiras que a defende. Na noite as cores se amam no negro, o vermelho, o lil\u00e1s o preto. Ians\u00e3 manda seus raios.<\/p>\n<p>Outro corpo cair\u00e1. Na noite n\u00e3o saberemos seu nome, dos sonhos que carregava, dos bra\u00e7os que o esperavam no vazio da volta. No por\u00e3o do navio negreiro se contar\u00e1 a carga faltante. No mar escuro o esquecimento far\u00e1 parte da mem\u00f3ria dos peixes. S\u00e3o muitos e di\u00e1rios, aqueles que partem sem deixar seu nome para que gritemos, para que nossas l\u00e1grimas de dor e raiva alcancem seu corpo, para que o abutre do esquecimento n\u00e3o dilacere sua mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Os \u00edndios e as montanhas guardar\u00e3o suas almas, das senzalas se ouvir\u00e3o cantos incompreens\u00edveis, o bater dos p\u00e9s no ch\u00e3o para que a terra acorde de seu pesadelo de morte. O ar da noite gelar\u00e1 por um instante e cada gota de chuva brilhar\u00e1 como uma estrela.<\/p>\n<p>Nunca saberemos todos os nomes. Algumas vozes, no entanto, carregam a magia de falar por todas as vozes esquecidas, sei l\u00e1 por que raz\u00e3o, rolam de sua face l\u00e1grimas de outras gentes, sentindo em seu corpo o a\u00e7oite e o tiro, a dor e a falta. A voz da mem\u00f3ria \u00e9 que fala nelas e com sua for\u00e7a rompe o tecido do tempo e a pretens\u00e3o da noite, revolve a terra numa agricultura reversa, desplantando o oculto. Nessas vozes cantam c\u00e2nticos ancestrais, contam-se hist\u00f3rias de nossos av\u00f3s, que lan\u00e7am fa\u00edscas de luz na noite do esquecimento. Ians\u00e3 manda seus raios.<\/p>\n<p>Tal magia se adquire ao se comer o mesmo p\u00e3o do sofrimento, quando se vive na noite ao lado dos explorados, quando se nasce onde n\u00e3o se pode viver, quando se vive ali onde a regra \u00e9 morrer. \u00c9 a voz de quem sobreviveu aos seus e levou suas almas costurados no vestido, no len\u00e7o preso na cabe\u00e7a, na bandeira que leva com seus mortos para marchar nas avenidas que levam nomes de seus assassinos.<\/p>\n<p>S\u00e3o vozes que brotam do fundo da terra, das covas rasas, das valas e que se servem da boca de pessoas vivas, no sentido mais vivo da palavra viva. Dos l\u00e1bios e l\u00ednguas no prazer dos beijos, dos a\u00e7oites de verdades que rasgam os v\u00e9us escuros da noite que insiste. Ians\u00e3 manda seus raios e o clar\u00e3o mostra o que a noite oculta.<\/p>\n<p>Por conta dessas vozes vivas sabemos dos outros que a noite esconde. Sua voz tem nome e corpo, mas sua estatura projeta algo muito al\u00e9m do portador da voz, porque foi buscar seu tamanho na mem\u00f3ria dos \u00edndios e das montanhas, das senzalas e favelas, da for\u00e7a dos p\u00e9s que acordam a terra. Por isso podemos dizer seu nome e ao diz\u00ea-lo acordar os mortos que carrega, devolv\u00ea-los aos bra\u00e7os que esperavam, ao caminho interrompido que trilhavam. Ians\u00e3 nos ilumina com seus raios.<\/p>\n<p>Hoje dizemos Marielle. Uma voz coletiva que tem nome, que se ocupou em lutar contra a noite, que carrega no seu corpo negro todas as mulheres assassinadas, todos os corpos e todo o sangue, todos os nomes expropriados de seus donos, todos os sonhos, toda a vida que a morte carregou para o oco da noite. Que diz alto os nomes dos assassinos e os acusa. Esta voz tem um nome e dizemos: Marielle. Ians\u00e3 ilumina seu corpo com seus raios. A voz tem um nome, Marielle. E Marielle foi morta outra vez. No navio negreiro, no canavial, nas ruas estreitas do Rio de Janeiro, na favela, na f\u00e1brica, em casa, agora no carro. Mas esta morte tem um nome, porque carregava muitas vozes, porque nunca estava sozinha nunca ser\u00e1 esquecida, porque atrav\u00e9s dela \u00e9 que lembramos dos esquecidos. Seu nome \u00e9 Marielle, seu nome \u00e9 mulher, seu nome \u00e9 negra, seu nome \u00e9 justi\u00e7a, seu nome \u00e9 luta, seu nome \u00e9 socialista, seu nome \u00e9 Marielle.<\/p>\n<p>Ians\u00e3 chora tempestades.<\/p>\n<p>Cada gota de chuva lava nossa cidade, cada raio a ilumina. Cada gota de sangue que cai na terra renasce em nossa luta\u2026 que nunca termina\u2026 nunca\u2026 nunca termina.<\/p>\n<p>https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/<wbr \/>2018\/03\/15\/marielle-uma-voz\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19059\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[71],"tags":[219],"class_list":["post-19059","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c84-solidariedade","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4Xp","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19059","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19059"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19059\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19059"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19059"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19059"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}