{"id":19107,"date":"2018-03-19T22:14:01","date_gmt":"2018-03-20T01:14:01","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=19107"},"modified":"2018-03-19T22:14:01","modified_gmt":"2018-03-20T01:14:01","slug":"as-novas-ditaduras-latino-americanas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19107","title":{"rendered":"As novas ditaduras latino-americanas"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/nuestropartidoescolombia.info\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/1-Dictaduras-600x3811.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Jorge Beinstein<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o autorit\u00e1ria<\/p>\n<p>A radicaliza\u00e7\u00e3o reacion\u00e1ria dos governos de pa\u00edses como Paraguai, Argentina, Brasil, M\u00e9xico ou Honduras come\u00e7a a gerar a pol\u00eamica em torno de sua caracteriza\u00e7\u00e3o. Nenhum desses regimes foi o resultado de golpes de estado militares, nos casos de Brasil, Honduras ou Paraguai a destitui\u00e7\u00e3o dos presidentes foi realizada (par\u00f3dia constitucional mediante) pelo poder legislativo em combina\u00e7\u00e3o mais ou menos forte com os poderes judicial e midi\u00e1tico. No Brasil, a Presid\u00eancia passou a ser exercida pelo vice-presidente Temer (ungido por um golpe parlamentar), cujo n\u00edvel de aceita\u00e7\u00e3o popular, segundo diversas pesquisas, rondaria apenas 3% dos cidad\u00e3os. No Paraguai ocorreu o mesmo e o presidente destitu\u00eddo foi substitu\u00eddo pelo vice-presidente atrav\u00e9s de um procedimento parlamentar express. Depois, foram realizadas novas elei\u00e7\u00f5es presidenciais que consagraram Horacio Cartes, um personagem de ultradireita e claramente vinculado ao narcotr\u00e1fico.<\/p>\n<p>Em Honduras, se realizaram elei\u00e7\u00f5es presidenciais em novembro de 2017.[1] A \u201cAlian\u00e7a de Oposi\u00e7\u00e3o contra a Ditadura\u201d claramente venceu, por\u00e9m o governo, honrando o qualificativo com o qual marcou a oposi\u00e7\u00e3o, consumou uma fraude escandalosa afirmando, assim, a continuidade do ditador Juan Orlando Hernandez.<\/p>\n<p>Um caso muito curioso \u00e9 o da Argentina, onde se realizaram em 2015 elei\u00e7\u00f5es presidenciais em meio a uma avalanche midi\u00e1tica, econ\u00f4mica e judicial sem precedentes contra o governo e favor\u00e1vel ao candidato direitista Mauricio Macr\u00ec. O resultado foi a vit\u00f3ria de Macri por escassa margem. Bastou assumir a presid\u00eancia e avan\u00e7ou sobre os outros poderes do estado, conseguindo em pouco tempo a soma do poder p\u00fablico. Se a essa concentra\u00e7\u00e3o de poder agregamos o controle dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e do poder econ\u00f4mico, nos encontramos ante uma pequena camarilha com uma capacidade de controle pr\u00f3pria de uma ditadura. Completa o panorama o comportamento cada vez mais repressivo do governo que, pela primeira vez desde o fim da ditadura militar em 1983, decidiu pela interven\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas em conflitos internos mediante a constitui\u00e7\u00e3o de uma \u201cfor\u00e7a militar de implanta\u00e7\u00e3o r\u00e1pida\u201d, integrada por efetivos do Ex\u00e9rcito, da Marinha e da Aeron\u00e1utica e a forma\u00e7\u00e3o de uma for\u00e7a operativa conjunta com a DEA, utilizando a desculpa da \u201cluta contra o narcotr\u00e1fico e o terrorismo\u201d.[2] Desse modo, a Argentina se incorpora a uma tend\u00eancia regional imposta pelos Estados Unidos de reconvers\u00e3o convergente das For\u00e7as Armadas convencionais, as pol\u00edcias e outras estruturas de seguran\u00e7a em pol\u00edcias militares capazes de \u201ccontrolar\u201d as popula\u00e7\u00f5es desses pa\u00edses. N\u00e3o seguindo o velho estilo conservador-militar inspirado na \u201cdoutrina de seguran\u00e7a nacional\u201d, mas estabelecendo espa\u00e7os sociais ca\u00f3ticos imersos no desastre, precisamente atravessados pelo narcotr\u00e1fico (promovido, manipulado de cima) e outras formas de criminalidade dissociativa, seguindo a doutrina da Guerra de Quarta Gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No M\u00e9xico, como sabemos, se sucedem os governos fraudulentos imersos em uma crescente onda de barb\u00e1rie. J\u00e1 na Col\u00f4mbia, a absten\u00e7\u00e3o eleitoral tradicionalmente majorit\u00e1ria chegou recentemente pr\u00f3ximo aos dois ter\u00e7os do padr\u00e3o eleitoral[3], adornada por um muito publicitado \u201cprocesso de paz\u201d que conseguiu a rendi\u00e7\u00e3o das FARC, assegurando ao mesmo tempo a preserva\u00e7\u00e3o da din\u00e2mica de saqueios, assassinatos e concentra\u00e7\u00e3o de rendas que caracteriza tradicionalmente esse sistema. Nestes dois casos n\u00e3o nos encontramos diante de algo \u201cnovo\u201d, mas frente a regimes relativamente velhos que foram evoluindo at\u00e9 chegar hoje a construir verdadeiros exemplos exitosos de aplica\u00e7\u00e3o das t\u00e9cnicas mais avan\u00e7adas de desintegra\u00e7\u00e3o social. A trag\u00e9dia desses pa\u00edses mostra o futuro que aguarda aos rec\u00e9m-chegados ao inferno.<\/p>\n<p>O panorama fica completo com as tentativas de restaura\u00e7\u00e3o reacion\u00e1ria na Bol\u00edvia e Venezuela. No caso venezuelano, a interven\u00e7\u00e3o direta dos Estados Unidos visa recuperar (recolonizar) a maior reserva petrol\u00edfera do mundo no momento em que o reinado do petro-d\u00f3lar (fundamento da hegemonia financeira global do Imp\u00e9rio) entra em decl\u00ednio r\u00e1pido ante a ascens\u00e3o da China (o maior comprador internacional de petr\u00f3leo). Esta, busca impor sua pr\u00f3pria moeda respaldada pelo ouro (o petro-yuan-ouro) em alian\u00e7a precisamente com a Venezuela e outros gigantes do setor energ\u00e9tico, como R\u00fassia e Ir\u00e3.<\/p>\n<p>Na Bol\u00edvia, o aparato de intelig\u00eancia imperial realiza uma de suas manipula\u00e7\u00f5es de manual, inspirada na doutrina da Guerra de Quarta Gera\u00e7\u00e3o. Coloca em a\u00e7\u00e3o seus ap\u00eandices midi\u00e1ticos locais e globais, tentando implantar a histeria (neste caso racista) em faixas importantes das classes m\u00e9dias brancas e mesti\u00e7as contra o presidente \u00edndio. Aqui, n\u00e3o se trata de barrar um governo progressista, mas de apropriar-se das reservas de l\u00edtio, as maiores do mundo (segundo diferentes prospec\u00e7\u00f5es, a Bol\u00edvia contaria com aproximadamente 50% das reservas de l\u00edtio do planeta), pe\u00e7a chave na futura reconvers\u00e3o energ\u00e9tica global.<\/p>\n<p>Principais caracter\u00edsticas<\/p>\n<p>As atuais ditaduras t\u00eam todas as caracter\u00edsticas de apresentar uma imagem civil com apar\u00eancia de respeito aos preceitos constitucionais, mantendo um calend\u00e1rio eleitoral com pluralidade de partidos e demais particularidades de um regime democr\u00e1tico de acordo com as regras ocidentais. Por outro lado, n\u00e3o nos encontramos ante mecanismos expl\u00edcitos de censura e, ainda que marginais e ou em posi\u00e7\u00f5es muito secund\u00e1rias, se escutam algumas vozes divergentes. Os prisioneiros pol\u00edticos passam quase sempre pelos julgamentos onde os ju\u00edzes os condenam de maneira arbitr\u00e1ria, por\u00e9m aparentando apoiar-se nas normas legais vigentes. Os assassinatos de opositores s\u00e3o minimizados ou ocultados pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o e ficam, geralmente, envoltos em mantos de confus\u00e3o que diluem as culpas estatais, amalgamando de maneira sistem\u00e1tica os crimes pol\u00edticos com as viol\u00eancias policiais contra pobres e pequenos delinquentes sociais e repress\u00f5es aos protestos populares.<\/p>\n<p>Essa m\u00e1scara democr\u00e1tica, prolixamente desprolixa, resulta ser o que \u00e9: uma m\u00e1scara, quando constatamos que os meios de comunica\u00e7\u00e3o, convertidos em um instrumento de manipula\u00e7\u00e3o total da popula\u00e7\u00e3o, est\u00e3o controlados por monop\u00f3lios como o grupo Clar\u00edn na Argentina, O Globo no Brasil ou Televisa no M\u00e9xico, cujos propriet\u00e1rios constituem parte do estreito c\u00edrculo do Poder. Ou quando chegamos \u00e0 conclus\u00e3o de que o sistema judici\u00e1rio est\u00e1 completamente controlado por esse c\u00edrculo, do qual participam os principais interesses econ\u00f4micos (transnacionalizados), manipulando discretamente o aparato policial-militar. E que, em consequ\u00eancia, os partidos pol\u00edticos significativos, os meios de comunica\u00e7\u00e3o, as grandes estruturas sindicais e outros espa\u00e7os de potencial express\u00e3o da sociedade civil est\u00e3o estrategicamente controlados (para al\u00e9m de certos descontroles t\u00e1ticos), mediante um confuso emaranhado de repress\u00f5es, chantagens, crimes seletivos, abusos judiciais, bombardeios midi\u00e1ticos implac\u00e1veis, dissociadores ou disciplinadores e fraude eleitoral mais ou menos descarada, segundo o problema concreto a resolver.<\/p>\n<p>O novo panorama provocou uma not\u00e1vel crise de percep\u00e7\u00e3o, onde a realidade se choca com princ\u00edpios ideol\u00f3gicos, conceitualiza\u00e7\u00f5es e outros componentes de um \u201csentido comum\u201d herdado do passado. N\u00e3o somos v\u00edtimas de um r\u00edgido enquadramento da popula\u00e7\u00e3o com pretens\u00f5es totalit\u00e1rias expl\u00edcitas, anulando toda possibilidade de dissenso, buscando integrar o conjunto da sociedade a um simples esquema militar, mas ante sistemas flex\u00edveis, na realidade emaranhados, que n\u00e3o tentam disciplinar todos, mas sim desarticular, degradar a sociedade civil, convertendo-a em uma v\u00edtima inofensiva, dominada pela trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>N\u00e3o se apresentam projetos nacionais desmesurados, pr\u00f3prios dos militares \u201csalvadores da p\u00e1tria\u201d de outros tempos, ou imagens sinistras como a de Pinochet, nem sequer discursos hiperotimistas como o dos globalistas neoliberais dos anos 1990, ou personagens c\u00f4micos como Carlos Menem, mas presidentes sem carisma, no geral torpes, aborrecidos repetidores de frases banais preparadas pelos assessores de imagem que formam uma rede regional globalizada de \u201cformadores de opini\u00e3o\u201d made in USA.<\/p>\n<p>Em suma, as ditaduras protegidas e triunfalistas do passado parecem ter sido substitu\u00eddas por ditaduras ou protoditaduras cinzas, que oferecem pouco e nada montadas sobre niveladoras midi\u00e1ticas embrutecedoras. Sempre por tr\u00e1s (na realidade, por cima) destes fen\u00f4menos se encontram o aparato de intelig\u00eancia dos Estados Unidos e os de alguns de seus aliados. A CIA, a DEA, o MOSSAD, o M16, segundo os casos que manipulam, os minist\u00e9rios de seguran\u00e7a ou defesa, os de rela\u00e7\u00f5es exteriores, as grandes estruturas policiais desses regimes vassalos, e planejam estrat\u00e9gias eleitorais fraudulentas e repress\u00f5es pontuais.<\/p>\n<p>Capitalismo de desintegra\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Forjam-se, assim, articula\u00e7\u00f5es complexas, sistemas de domina\u00e7\u00e3o onde convergem elites locais (midi\u00e1ticas, pol\u00edticas, empresariais, policial-millitares, etc.) com aparatos externos integrantes do sistema de poder dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Estas for\u00e7as dominam sociedades marcadas pelo que poderia ser qualificado como \u201ccapitalismo de desintegra\u00e7\u00e3o\u201d, baseado no saqueio de recursos naturais e na especula\u00e7\u00e3o financeira, al\u00e9m da crescente marginaliza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, radicalmente diferente dos velhos capitalismos subdesenvolvidos estruturados em torno de atividades produtivas (agr\u00e1rias, mineradoras, industriais). N\u00e3o \u00e9 que nos velhos sistemas n\u00e3o existissem o saqueio de recursos nem a bandidagem financeira. Em alguns momentos e pa\u00edses ocupavam o centro da cena, por\u00e9m no longo prazo e na maior parte dos casos ficavam em um segundo plano. A superexplora\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra e a acumula\u00e7\u00e3o dos lucros produtivos apareciam como os principais objetivos econ\u00f4micos diretos daquelas ditaduras.<\/p>\n<p>Tampouco \u00e9 certo que agora as elites dominantes se desinteressem dos sal\u00e1rios ou da propriedade da terra. Pelo contr\u00e1rio, desenvolvem um amplo leque de estratagemas destinadas a reduzir os sal\u00e1rios reais e apropriar-se de territ\u00f3rios, j\u00e1 que se nos velhos capitalismos n\u00e3o existia somente produ\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m especula\u00e7\u00e3o e saqueio, nos atuais a base produtiva, em retra\u00e7\u00e3o por conta da pilhagem desmesurada, continua sendo uma fonte important\u00edssima de benef\u00edcios. No entanto, sua preserva\u00e7\u00e3o, sua reprodu\u00e7\u00e3o no longo prazo n\u00e3o est\u00e1 no centro das preocupa\u00e7\u00f5es cotidianas das elites presas psicologicamente pela din\u00e2mica parasit\u00e1ria da especula\u00e7\u00e3o financeira e seu entorno de neg\u00f3cios obscuros.<\/p>\n<p>Entre outras coisas, porque no atual imagin\u00e1rio burgu\u00eas desapareceu o longo prazo, suas opera\u00e7\u00f5es mais importantes est\u00e3o regidas pelo curto prazo l\u00fampem-capitalista. No saqueio de recursos naturais, atrav\u00e9s da megaminera\u00e7\u00e3o a c\u00e9u aberto, da extra\u00e7\u00e3o de g\u00e1s e petr\u00f3leo de xisto ou da agricultura baseada em transg\u00eanicos, s\u00e3o utilizadas tecnologias orientadas pela velocidade do ritmo financeiro a servi\u00e7o de pessoas que n\u00e3o t\u00eam tempo nem interesse para dedicar-se a temas, tais como a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o afetada, o equil\u00edbrio ambiental e outras \u00e1reas impactadas pelos \u201cdanos colaterais\u201d do \u00eaxito empresarial (financeiriza\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a tecnol\u00f3gica, da cultura t\u00e9cnica dominante como auxiliar do saqueio).<\/p>\n<p>Estes capitalismos de desintegra\u00e7\u00e3o s\u00e3o conduzidos por elites que podem ser caracterizadas como l\u00fampem-burguesias, burguesias, principalmente parasit\u00e1rias, transnacionalizadas, financeirizadas, oscilando entre o legal e o ilegal, crescentemente distanciadas da produ\u00e7\u00e3o. S\u00e3o inst\u00e1veis n\u00e3o por acidente da conjuntura, mas por sua ess\u00eancia decadente. Acima delas, se encontram as grandes pot\u00eancias e suas elites embarcadas h\u00e1 tempos no caminho da degrada\u00e7\u00e3o, em um planeta onde os produtos financeiros derivados representavam, em fins de 2017, umas sete vezes o Produto Bruto Global, onde a d\u00edvida global total (p\u00fablica mais privada) era de quase tr\u00eas vezes o Produto Bruto Global, onde s\u00f3 cinco grandes bancos estadunidenses dispunham de \u201cativos financeiros derivados\u201d de uns 250 bilh\u00f5es de d\u00f3lares (13 vezes o Produto Bruto Interno dos Estados Unidos), onde somadas as oito pessoas mais ricas do mundo disp\u00f5em de uma riqueza equivalente a 50% da popula\u00e7\u00e3o mundial (os mais pobres).<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o e ascens\u00e3o dessas elites latino-americanas s\u00e3o o resultado de prolongados processos de decad\u00eancia estrutural e cultural, de um subdesenvolvimento que incluiu h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas componentes parasit\u00e1rios que foram se apropriando do sistema, o foram corroendo, envenenando, apodrecendo, seguindo a l\u00f3gica preponderante do capitalismo global, n\u00e3o de maneira mec\u00e2nica, mas impondo especificidades nacionais pr\u00f3prias de cada degenera\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Por debaixo dessas elites aparecem popula\u00e7\u00f5es fragmentadas, com trabalhadores integrados do ponto de vista das normas laborais vigentes e separados dos trabalhadores informais, prec\u00e1rios. Com massas crescentes de marginais urbanos, de pobres e indigentes estigmatizados pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, desprezados por boa parte das classes integradas que v\u00e3o diminuindo na medida em que avan\u00e7am os processos de concentra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e pilhagem de riquezas.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata, ent\u00e3o, de espa\u00e7os sociais estanques, segmentados de maneira est\u00e1vel, mas de sociedades submetidas \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o ampliada da rapina elitista transnacionalizada, \u00e0 sucess\u00e3o intermin\u00e1vel de transfer\u00eancias de rendas de baixo para cima e para o exterior, \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o ascendente da qualidade de vida das classes baixas, por\u00e9m tamb\u00e9m de por\u00e7\u00f5es crescentes das camadas m\u00e9dias.<\/p>\n<p>Alguns autores se referem ao fen\u00f4meno qualificando-o de \u201cneoliberalismo tardio\u201d[4], algo assim como um regresso aos paradigmas ideol\u00f3gicos neoliberais que tiveram seu auge nos anos 1990, por\u00e9m em um contexto global desfavor\u00e1vel a esse retorno (ascens\u00e3o do protecionismo comercial, decl\u00ednio da unipolaridade em torno dos Estados Unidos, etc.). Nos encontrar\u00edamos, ent\u00e3o, frente a uma aberra\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, um contrassenso econ\u00f4mico e geopol\u00edtico protagonizado por c\u00edrculos dirigentes obstinados em sua subordina\u00e7\u00e3o ao Imp\u00e9rio norte-americano, interrompendo a marcha normal, racional, progressista e despolarizante que predominava na Am\u00e9rica Latina. As direitas latino-americanas se encontrariam embarcadas em um novo projeto na contram\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, ocorre que o mundo n\u00e3o se encaminha para uma nova harmonia, um novo ciclo produtivo, mas para o aprofundamento de uma crise de longa dura\u00e7\u00e3o, iniciada h\u00e1 quase meio s\u00e9culo. A mesma se caracteriza, entre outras coisas, pelo decl\u00ednio tendente das taxas de crescimento das economias capitalistas centrais tradicionais e pela hipertrofia financeira (financeiriza\u00e7\u00e3o da economia global), impulsionando a quebra de normas, legitimidades institucionais e equil\u00edbrios socioculturais que asseguravam a reprodu\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o burguesa para al\u00e9m das turbul\u00eancias pol\u00edticas ou econ\u00f4micas. A muta\u00e7\u00e3o parasit\u00e1ria-depredadora do capitalismo tem como centro o Ocidente articulado em torno do Imp\u00e9rio norte-americano, por\u00e9m envolve o conjunto da periferia e tamb\u00e9m afeta pot\u00eancias emergentes, como a China ou a R\u00fassia, muito dependentes de suas exporta\u00e7\u00f5es, onde os mercados da Europa, Estados Unidos e Jap\u00e3o cumprem um papel decisivo. Assim \u00e9 como as taxas de crescimento do Produto Bruto Interno da China se veem desacelerando e a economia russa oscila entre a recess\u00e3o, o estancamento e o crescimento an\u00eamico.<\/p>\n<p>Um aspecto essencial da nova situa\u00e7\u00e3o global \u00e9 o car\u00e1ter abertamente devastador das din\u00e2micas agr\u00e1rias, mineradoras e industriais motorizadas tanto pelas pot\u00eancias tradicionais como pelas emergentes, cujos efeitos deixaram de ser uma borrada amea\u00e7a futura para converter-se em um desastre presente, que vem se amplificando ano ap\u00f3s ano.<\/p>\n<p>Tudo isso nos deveria levar \u00e0 conclus\u00e3o de que os regimes reacion\u00e1rios da Am\u00e9rica Latina n\u00e3o t\u00eam nada de tardios, de desatualizados, de deslocados historicamente, mas que s\u00e3o a express\u00e3o da podrid\u00e3o radical de suas elites, de sua muta\u00e7\u00e3o parasit\u00e1ria enla\u00e7ada com um fen\u00f4meno global que as inclui. O que nos permite descobrir n\u00e3o s\u00f3 a fragilidade hist\u00f3rica, a instabilidade dessas burguesias, t\u00e3o prepotentes e vorazes como enfermas, mas tamb\u00e9m as v\u00e3s ilus\u00f5es progressistas negadoras da realidade que, ao qualificar de tardio o l\u00fampem-capitalismo dominante, o marcam como anormal, an\u00f4malo, a inesperado, alentando a esperan\u00e7a do retorno \u00e0 \u201cnormalidade\u201d de um novo ciclo de prosperidade na regi\u00e3o, mais ou menos keynesiano, mais ou menos produtivo, mais ou menos democr\u00e1tico, mais ou menos razo\u00e1vel, nem muito direitista nem muito esquerdista, nem t\u00e3o elitista nem t\u00e3o populista O sujeito burgu\u00eas desse horizonte burgu\u00eas fantasioso s\u00f3 est\u00e1 em sua imagina\u00e7\u00e3o. A marcha do real do mundo o converteu em um habitante fantasmag\u00f3rico da mem\u00f3ria. No entanto, os grandes \u201cempres\u00e1rios\u201d, os c\u00edrculos concretos de poder, participam de corpo e alma da orgia da devasta\u00e7\u00e3o, t\u00e3o desinteressados no longo prazo e no desastre social e ambiental como na racionalidade progressista (a qual consideram um estorvo, um obst\u00e1culo populista ao livre funcionamento do \u201cmercado\u201d).<\/p>\n<p>Rea\u00e7\u00f5es populares e aprofundamento da crise<\/p>\n<p>A grande inc\u00f3gnita \u00e9 a que se refere ao futuro comportamento das grandes maiorias populares que foram afetadas tanto do ponto de vista econ\u00f4mico como cultural pela decad\u00eancia do sistema. As elites puderam aproveitar a desestrutura\u00e7\u00e3o, as irracionalidades sociais geradas por um fen\u00f4meno perverso que atravessou tanto as etapas direitistas como as progressistas. Durante os per\u00edodos de governos de direita civis ou militares foram promovidos e garantidos privil\u00e9gios e abusos de todo tipo, afirmando um \u201csentido comum\u201d ego\u00edsta, dissociativo, de subestima\u00e7\u00e3o de identidades culturais solid\u00e1rias. Por\u00e9m, quando chegaram as experi\u00eancias progressistas, essas elites utilizaram a degrada\u00e7\u00e3o social existente, a fragmenta\u00e7\u00e3o neoliberal herdada (ligada, em alguns casos, a tradi\u00e7\u00f5es de marginaliza\u00e7\u00e3o muito enraizadas), impulsionando irrup\u00e7\u00f5es racistas, neofascistas das camadas m\u00e9dias estendidas \u00e0s vezes at\u00e9 espa\u00e7os meio-baixos, onde se misturam o pequeno comerciante com o assalariado integrado (em consequ\u00eancia, sobre o marginalizado, do prec\u00e1rio).<\/p>\n<p>Vimos, assim, no Brasil, na Argentina, na Bol\u00edvia ou Venezuela mobiliza\u00e7\u00f5es hist\u00e9ricas das classes m\u00e9dias urbanas neofascistas exigindo as cabe\u00e7as dos governantes \u201cpopulistas\u201d, manipuladas pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o e pelos poderes econ\u00f4micos que o progressismo respeitou como parte de seu pertencimento ao sistema (admitida abertamente, silenciada ou negada de maneira superficial ou insuficiente).<\/p>\n<p>Agora, as chamadas restaura\u00e7\u00f5es conservadoras ou direitistas n\u00e3o est\u00e3o restaurando o passado neoliberal, mas instaurando esquemas de devasta\u00e7\u00e3o nunca antes vistos. Puderam triunfar gra\u00e7as \u00e0s limita\u00e7\u00f5es e des\u00e2nimos de progressismos encurralados pelas crises de sistemas que eles pretendiam melhorar, reformar ou, em alguns casos, superar de maneira indolor, gradual, \u201ccivilizada\u201d.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, as crises nacionais n\u00e3o foram detidas. Pelo contr\u00e1rio, s\u00e3o incentivadas pelos comportamentos saqueadores das direitas governantes que seguem praticando suas t\u00e1ticas dissociadoras de embrutecimento coletivo, buscando gerar \u00f3dio social para com os pobres. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o trabalham a pleno vapor por tr\u00e1s desses objetivos e como o decl\u00ednio econ\u00f4mico avan\u00e7a, empurrado pelas pol\u00edticas oficiais e pela marcha da crise global, as manipula\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas come\u00e7am a se demonstrar impotentes ante a mar\u00e9 ascendente de protestos populares. A virtualidade do marketing neofascista come\u00e7a a ser transbordada pela materialidade das pen\u00farias n\u00e3o s\u00f3 dos pobres, mas tamb\u00e9m das camadas m\u00e9dias que v\u00e3o empobrecendo. Maus materiais que ao amplificar-se abrem a porta \u00e0 rebeldia daqueles que nunca foram enganados e dos que foram tra\u00eddos. \u00c9 assim como no Brasil o rep\u00fadio popular ao governo Temer \u00e9 esmagador ou na Argentina a imagem ado\u00e7ada de Macri vai se diluindo velozmente enquanto se estendem os protestos populares.<\/p>\n<p>A repress\u00e3o, a militariza\u00e7\u00e3o dos governos de direita aparece, ent\u00e3o, como alternativa de governabilidade, as din\u00e2micas ditatoriais desses regimes v\u00e3o engendrando dispositivos policial-militares com a esperan\u00e7a de controlar os de baixo, v\u00e3o funcionando com cada vez maior intensidade os mecanismos de \u201ccoopera\u00e7\u00e3o hemisf\u00e9rica\u201d: opera\u00e7\u00f5es conjuntas com a DEA, fornecimento de armamento e capacita\u00e7\u00e3o para o controle de protestos sociais, multiplica\u00e7\u00e3o de estruturas repressivas nacionais e regionais monitoradas a partir dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Trata-se de um combate com final aberto entre for\u00e7as sociais, que buscam sobreviver e que ao faz\u00ea-lo podem chegar a engendrar vastos movimentos de regenera\u00e7\u00e3o nacional, radicalmente antissist\u00eamicos, e elites degradadas e inst\u00e1veis, dependentes do amo imperial (que se reserva o direito \u00e0 interven\u00e7\u00e3o direta, se as circunst\u00e2ncias requererem e permitirem), animadas por um niilismo portador de puls\u00f5es t\u00e2ntricas.<\/p>\n<p>1.\u00a0Hugo No\u00e9 Pino, \u201cCronolog\u00eda del fraude electoral en Honduras\u201d, Criterio.hn. 8 dez. 2017,\u00a0<a href=\"https:\/\/criterio.hn\/2017\/12\/08\/cronologia-del-fraude-electoral-honduras\/\">https:\/\/criterio.hn\/2017\/12\/08\/cronologia-del-fraude-electoral-honduras\/<\/a><\/p>\n<p>2.\u00a0Manuel Gaggero, \u201cArgentina. La historia se repite\u2026 como tragedia\u201d,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2018\/02\/11\/argentina-la-historia-se-repitecomo-tragedia\/\">http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2018\/02\/11\/argentina-la-historia-se-repitecomo-tragedia\/<\/a><\/p>\n<p>[3]Ana Patricia Torres Espinosa, \u201cAbstenci\u00f3n electoral en Colombia. Desafecci\u00f3n pol\u00edtica, violencia pol\u00edtica y conflicto armado\u201d, Cuadernos de Investigaci\u00f3n, Universidad Complutense de Madrid, Facultad de Ciencias Pol\u00edticas y Sociolog\u00eda,<a href=\"http:\/\/politicasysociologia.ucm.es\/data\/cont\/docs\/21-2016-12-21-%20CI12_W_Ana%20Patricia%20Torres.pdf\">http:\/\/politicasysociologia.ucm.es\/data\/cont\/docs\/21-2016-12-21- CI12_W_Ana%20Patricia%20Torres.pdf<\/a>\u00a0Miguel Garc\u00eda Sanchez, \u201cSobre la baja participaci\u00f3n electoral en Colombia\u201d, Semana, 2016-10-18,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.semana.com\/opinion\/articulo\/miguel-garcia-sanchez-sobre-la-baja-participacion-electoral-decolombia\/499388\">http:\/\/www.semana.com\/opinion\/articulo\/miguel-garcia-sanchez-sobre-la-baja-participacion-electoral-decolombia\/499388<\/a><\/p>\n<p>[4]\u00a0\u201cEl neoliberalismo tard\u00edo. Teor\u00eda y praxis.\u00a0Documento de Trabajo n\u00ba 5\u201d, Daniel Garc\u00eda Delgado y Agustina Gradin (compiladores), FLACSO, Argentina 2017.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/nuestropartidoescolombia.info\/las-nuevas-dictaduras-latinoamericanas\/\">http:\/\/nuestropartidoescolombia.info\/las-nuevas-dictaduras-latinoamericanas\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19107\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8,38],"tags":[222],"class_list":["post-19107","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-c43-imperialismo","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4Yb","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19107","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19107"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19107\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19107"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19107"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19107"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}