{"id":19170,"date":"2018-03-25T17:26:04","date_gmt":"2018-03-25T20:26:04","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=19170"},"modified":"2018-03-25T17:26:04","modified_gmt":"2018-03-25T20:26:04","slug":"marielle-franco-racismo-e-fake-news","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19170","title":{"rendered":"Marielle Franco, Racismo e Fake News"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"Marielle Franco, Racismo e Fake News\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/vcw5dWLmdLt7vFFZ1SxbryrfIA2uydupm9g5jchi4RTMw9FjqjjPKwhi_knsnqJSnR2BXiFeEi8B4DcAWzHxBrS0F-TD1JnTdYyIIYz6BMz7jBXj-drgB0nYvyJR1F5FFXV3NOjv-FSHr5Lb7muPGaI0yxVsibfnbaJDeSfaZ5rrHrqxvvdCgzDvEKRcW2kflWFDR48F3-7My-PTjed3C8Qh189YahptObmml5MK5Egfqjz8JO7K7P-L_lp0w_8RNGgkxGHhygw0yY-DGrjHeWQPdXcsMeuQt8HJ-4Vja5hP-2svXbOlneNBveqqR1l5zMUhwIQMJZX4FeQ1THgiq9xnMndyGMqdHzId3QXC7zlMoiadpkR_gg_jO_NMl1mMtViCTx7dizns-2jv8w0SwWqciRm9LAyTqpIwLyuZ-P6XqZXa_d_hcKdMuK-W8zQqghxvoDWsQNLHpgbgBEOuMOiJYddS5H460cKhe6HBILPF_7OLIg6Jb-GGgeZp4drMuY0Ea8MA0hwUtoiaKtrfqbn4wmapoG5GNax-Gpb8af5YrSLDl70F-gzfPkzjR9PLUlbgfGYDedZ2Eba45tsYLvjzs0rivZ7SoRkdyPkw4qWm5O9R3pzMx22o9csxv1hazBB3TbMghUZ9mZUOoA6hVaBU1T39Zu19aw=w1230-h713-no\" alt=\"Marielle Franco, Racismo e Fake News\" \/><!--more--><strong>Criminalizar a v\u00edtima para justificar sua morte<\/strong><\/p>\n<p><b>Por Henrique Oliveira*<\/b><\/p>\n<p>Na noite do dia 14\/03, o Brasil foi surpreendido e aterrorizado pelo assassinato brutal da vereadora Marielle Franco do PSOL. Al\u00e9m da Marielle Franco, o motorista Anderson Pedro Gomes, que fazia um\u00a0bico\u00a0de motorista no dia cobrindo um amigo, tamb\u00e9m foi vitimado, a \u00fanica sobrevivento foi a assessora Fernanda Chaves. O assassinato ocorreu no centro da cidade do Rio de Janeiro, quando Marielle voltava de uma roda de conversa intitulada\u00a0<i>Mulheres Negras Movendo as Estruturas.<\/i><\/p>\n<p>O que se\u00a0sabe\u00a0at\u00e9 agora, \u00e9 que o carro que estava Marielle foi\u00a0seguido\u00a0e menos de meia hora depois que saiu do local foi alvejado por 13 tiros, 9 na lataria e 4 no vidro. Marielle foi atingida na cabe\u00e7a por 4 vezes e o Anderson por 3 nas costas. O tipo de armamento utilizado foi uma pistola 9mm, armamento restrito as for\u00e7as de seguran\u00e7a, numa per\u00edcia realizada nas c\u00e1psulas encontradas, foi constatado que a muni\u00e7\u00e3o pertencia a um lote vendido para a Pol\u00edcia Federal em 2006. O lote \u00e9 o UZZ \u2013 18, o mesmo que foi utilizado na maior chacina ocorrida em\u00a0S\u00e3o Paulo\u00a0no ano de 2015, que terminou com 23 pessoas mortas, cujos autores foram Policiais Militares e Guardas Municipais, que foram levados recentemente a j\u00fari.<\/p>\n<p>O Ministro da Seguran\u00e7a P\u00fablica, Raul Jugmann, disse na sexta feira (16) que a muni\u00e7\u00e3o utilizada foi\u00a0roubada\u00a0na sede dos Correios no estado na Para\u00edba. Enquanto isso, a superintend\u00eancia dos\u00a0Correios\u00a0na Para\u00edba informou que n\u00e3o tem conhecimento sobre furto de muni\u00e7\u00e3o na sua sede.<\/p>\n<p>A morte de Marielle Franco levou a uma r\u00e1pida rea\u00e7\u00e3o popular por todo o Brasil, ela tinha sido a 5\u00aa vereadora mais votada, com mais de 46 mil votos. Os protestos se espalharam pelo pa\u00eds, Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo, Recife, Aracaju entre outras capitais e cidades, reaquecendo o\u00a0movimento de rua, que al\u00e9m de se manifestarem exigindo uma investiga\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, tamb\u00e9m se posicionaram contra a Interven\u00e7\u00e3o Federal no estado do Rio de Janeiro, pelo fim da guerra \u00e0s drogas que concentra a sua repress\u00e3o nas favelas, contra o Racismo e o Machismo institucionais.<\/p>\n<p>A principal linha de investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 que a vereadora tenha sido executada, j\u00e1 que nada foi roubado. E a principal motiva\u00e7\u00e3o para o seu assassinato, pode estar intimamente relacionado com a atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Marielle Franco em toda a sua trajet\u00f3ria como defensora dos Direitos Humanos \u2013 com \u00eanfase numa plataforma antiracista, em defesa dos direitos das mulheres e da comunidade LGBT \u2013 principalmente contra a viol\u00eancia Policial nas favelas do Rio de Janeiro. E recentemente Marielle havia assumido a fun\u00e7\u00e3o como relatora da Comiss\u00e3o da C\u00e2mara de Vereadores, para acompanhar a interven\u00e7\u00e3o federal.<\/p>\n<p>Nos dias que antecederam a sua execu\u00e7\u00e3o, Marielle Franco vinha denunciando por meio das redes sociais os abusos policiais cometidos por membros do\u00a041\u00aa BPM\u00a0(Batalh\u00e3o da Pol\u00edcia Militar) Acari. Na postagem realizada em seu perfil Marielle comentou\u00a0<i>\u201cPrecisamos gritar para que todos saibam o est\u00e1 acontecendo em Acari nesse momento. O 41\u00b0 Batalh\u00e3o da Pol\u00edcia Militar do Rio de Janeiro est\u00e1 aterrorizando e violentando moradores de Acari. Nessa semana, dois jovens foram mortos e jogados em um val\u00e3o. Hoje a pol\u00edcia andou pelas ruas amea\u00e7ando os moradores. Acontece desde sempre e com a interven\u00e7\u00e3o ficou ainda pior. Compartilhem essa imagem nas suas linhas do tempo e na capa do perfil!\u201d.<\/i><\/p>\n<p>O batalh\u00e3o de Pol\u00edcia denunciado por Marielle, \u00e9 nada menos do que o batalh\u00e3o mais violento na cidade do Rio de Janeiro nos \u00faltimos 5 anos. Segundo os dados do ISP (Instituto de Seguran\u00e7a P\u00fablica), os policiais registraram 450 mortes durante esse per\u00edodo. \u00c9 o mesmo batalh\u00e3o que, por exemplo, foi respons\u00e1vel pela morte da estudante Maria Eduarda dentro de uma Escola municipal, na qual os PM\u2019s se tornaram\u00a0r\u00e9us, depois que a justi\u00e7a aceitou a den\u00fancia do Minist\u00e9rio P\u00fablico, em que os policiais assumiram o risco de causar a morte da adolescente, ap\u00f3s atirarem na dire\u00e7\u00e3o da Escola.<\/p>\n<p>E infelizmente, o assassinato de Marielle Franco n\u00e3o \u00e9 um caso isolado para os defensores de Direitos Humanos no Brasil, o pa\u00eds lidera o ranking de assassinato de defensores de Direitos Humanos. Em 2017, somente entre os meses de Janeiro e Agosto, o relat\u00f3rio da Anistia Internacional tinha identificado 58 mortes de defensores, enquanto em todo o ano de 2016 foram registradas 66 v\u00edtimas. Na madrugada da segunda feira (12), uma daslideran\u00e7as da Associa\u00e7\u00e3o dos Caboclos, Ind\u00edgenas e Quilombolas da Amaz\u00f4nia, Paulo S\u00e9rgio Almeida Nascimento, foi assassinado na cidade de Barbacena, nordeste do estado do Par\u00e1. Paulo S\u00e9rgio vinha sendo amea\u00e7ado por policiais e o pedido feito de prote\u00e7\u00e3o a Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica foi negado.<\/p>\n<p>De acordo com o advogado da Associa\u00e7\u00e3o, o Paulo S\u00e9rgio era um sujeito atuante na den\u00fancia contra a refinaria norueguesa Hydro Alunorte, respons\u00e1vel por lan\u00e7ar rejeitos t\u00f3xicos de minera\u00e7\u00e3o nas nascentes do rio Amaz\u00f4nia. Al\u00e9m dos vazamentos, tamb\u00e9m foi descoberto que a empresa utilizava uma\u00a0tubula\u00e7\u00e3o clandestina, para dispensar material n\u00e3o tratado na nascente do rio Muripi.<\/p>\n<p>Mas de forma alguma pretendo incluir o assassinato de Marielle Franco dentro de uma normalidade da viol\u00eancia, em que se trata de mais uma morte, quero localiza lo numa perspectiva mais ampla, que envolve um projeto pol\u00edtico de na\u00e7\u00e3o. Pois como disse o advogado Almir Felitte para o\u00a0Justificando, os assassinatos de Paulo S\u00e9rgio e Marielle Franco resumem 500 anos de Brasil. E para aqueles que acham que estamos aos poucos retrocedendo ao ano de 1964, eu digo que estamos muito mais pr\u00f3ximos de 1530, \u00e9 a continuidade do projeto hist\u00f3rico de na\u00e7\u00e3o, em que afrodescendentes e ind\u00edgenas s\u00e3o eliminados por resistirem aos interesses de grupos pol\u00edticos e econ\u00f4micos.<\/p>\n<p><b>As fake news para criminalizar a v\u00edtima<\/b><\/p>\n<p>E n\u00e3o bastou apenas assassinarem a Marielle Franco fisicamente, como forma de tentar apagar a chama pol\u00edtica que ela representava, logo ap\u00f3s o ocorrido v\u00e1rios internautas passaram a debochar e a comemorar a morte da vereadora, por causa da sua milit\u00e2ncia em torno da pauta dos Direitos Humanos. Porque se convencionou no Brasil, uma concep\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria e ideologicamente orientada, que os Direitos Humanos s\u00e3o um instrumento pol\u00edtico para a \u2018defesa dos bandidos\u2019, usando at\u00e9 um jarg\u00e3o pejorativo de \u2018direitos dos manos\u2019. Inclusive a Marielle Franco quando foi assessora no mandato do Deputado Estadual Marcelo Freixo (PSOL), atendeu casos de policiais que foram vitimados. Em uma mat\u00e9ria do\u00a0G1, a m\u00e3e de um Policia Civil, Eduardo Oliveira, falou sobre a import\u00e2ncia da Comiss\u00e3o de Direitos Humanos e de como Marielle foi \u2018imbat\u00edvel e importante\u2019, auxiliando com o processo, tamb\u00e9m no acolhimento e preocupa\u00e7\u00e3o com a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O jornal Extra chegou ao ponto de ter que publicar uma mat\u00e9ria, com a inten\u00e7\u00e3o de esclarecer o p\u00fablico acerca dos Direitos Humanos, o texto se chamou\u00a0\u2018Marielle, os direitos e os humanos: esclarecimento do EXTRA aos leitores\u2019.<\/p>\n<p>Os ataques a hist\u00f3ria e a dignidade de Marielle Franco n\u00e3o ficaram reduzidas apenas as caixas de coment\u00e1rios dos jornais online. A desembargadora\u00a0Mar\u00edlia Castro Neves, do Rio de Janeiro, fez um coment\u00e1rio no Facebook dizendo que Marielle foi assassinada por causa do seu \u2018engajamento com bandidos\u2019. Segundo a desembargadora que nem conhecia a Marielle, as acusa\u00e7\u00f5es tiveram como base um texto veiculado pelo Whatsapp, texto esse, que afirmava um suposto v\u00ednculo pol\u00edtico entre Marielle e a fac\u00e7\u00e3o carioca Comando Vermelho. A execu\u00e7\u00e3o seria ent\u00e3o resultado da quebra de um acordo pol\u00edtico com o grupo, j\u00e1 que a vereadora teria sido eleita com o apoio do Comando Vermelho, sendo apenas mais um \u2018cad\u00e1ver comum\u2019.<\/p>\n<p>Ao jornal Folha de S\u00e3o Paulo, Mar\u00edlia disse que deu a sua opini\u00e3o como cidad\u00e3, por n\u00e3o atuar na \u00e1rea criminal. Mas mesmo assim, esse coment\u00e1rio exprime muito bem as convic\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias de membros do poder judici\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o a popula\u00e7\u00e3o negra e pobre. A partir desse fato, n\u00f3s podemos compreender mais a fundo, o porqu\u00ea que as cadeias brasileiras est\u00e3o abarrotadas de pessoas negras. Apesar da referida desembargadora n\u00e3o atuar na \u00e1rea criminal \u2013 o que \u00e9 um al\u00edvio \u2013 ao lermos o seu coment\u00e1rio n\u00f3s ficamos muito mais cientes sobre a sua vis\u00e3o de mundo, do que realmente sobre quem era Marielle Franco e as poss\u00edveis causas da sua morte.<\/p>\n<p>E chama aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m o fato dela se referir a Marielle como mais um \u2018cad\u00e1ver comum\u2019, em um pa\u00eds como o Brasil, onde 60 mil pessoas s\u00e3o assassinadas por ano, sendo que a cada 100 pessoas vitimadas, 71 delas s\u00e3o negras, com foco especial para faixa et\u00e1ria da\u00a0juventude. Se formos fazer um recorte para a quest\u00e3o de g\u00eanero, veremos que entre 2003 e 2013, houve um aumento no assassinato de mulheres negras em 54%, enquanto o n\u00famero de mulheres brancas, como a desembargadora Mar\u00edlia, caiu em 9,8%, segundo o Mapa da Viol\u00eancia de 2015.<\/p>\n<p>As mulheres negras al\u00e9m de serem as maiores v\u00edtimas de feminic\u00eddios, elas tamb\u00e9m s\u00e3o as maiores v\u00edtimas letais entre as mulheres, em contexto de a\u00e7\u00f5es policiais. A\u00a0Ag\u00eancia Patr\u00edcia Galv\u00e3o\u00a0utilizando os dados colhidos pelo F\u00f3rum Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica, constatou se que entre os anos de 2005 e 2015 cruzando a categoria ra\u00e7a\/cor das v\u00edtimas, as mulheres negras foram 52% das mulheres mortas em\u00a0<i>\u2018Interven\u00e7\u00f5es legais ou opera\u00e7\u00f5es de guerra\u2019.\u00a0<\/i>\u00c9 a naturaliza\u00e7\u00e3o da mortalidade em massa de pessoas negras.<\/p>\n<p>O PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) afirmou que vai entrar com uma representa\u00e7\u00e3o oficial no CNJ (Conselho Nacional de Justi\u00e7a) e uma a\u00e7\u00e3o criminal por cal\u00fania e difama\u00e7\u00e3o contra a desembargadora Marilia Castro Neves. O jornalismo da\u00a0UOL\u00a0tamb\u00e9m apurou que a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) no Rio de Janeiro tamb\u00e9m vai se manifestar oficialmente sobre o caso.<\/p>\n<p>O deputado federal e presidente do DEM no Distrito Federal,\u00a0Alberto Fraga\u00a0que \u00e9 coronel da reserva, divulgou no seu twitter que Marielle\u00a0<i>\u201cengravidou aos 16 anos, era usu\u00e1rio de Maconha, foi eleita pelo Comando Vermelho, era defensora de fac\u00e7\u00e3o rival e ex esposa de Marcinho VP\u201d<\/i>. Ap\u00f3s ser questionado pela reportagem da Band News, o deputado disse que recebeu a not\u00edcia pela internet, n\u00e3o buscou a veracidade da mesma, mas que\u00a0n\u00e3o se arrepende\u00a0de ter divulgado.<\/p>\n<p>O site\u00a0E \u2013 Farsas\u00a0que desde 2002 atua na internet investigando rumores e not\u00edcias de car\u00e1ter duvidosas, realizou uma busca e desmentiu todas as acusa\u00e7\u00f5es realizadas contra Marielle. A Marielle n\u00e3o engravidou aos 16 anos, mas sim aos 19, Marielle n\u00e3o teve vota\u00e7\u00e3o expressiva nas regi\u00f5es em que o Comando Vermelho tem dom\u00ednio, e n\u00e3o existe nenhum tipo de vest\u00edgio que ela estabeleceu rela\u00e7\u00f5es com os dois traficantes denominados Marcinho VP.<\/p>\n<p>A Marielle Franco est\u00e1 sendo atacada moralmente por ser mulher, quando \u00e9 julgada por ter engravidado aos 19 anos, o que \u00e9 uma realidade nacional, o Brasil \u00e9 o quarto pa\u00eds da Am\u00e9rica do Sul com maior\u00a0\u00edndice de gravidezna adolesc\u00eancia, segundo a OMS (Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade), al\u00e9m do \u00f3dio racial e de classe, que tentam associa la ao tr\u00e1fico de drogas. Se Marielle Franco fosse uma deputada branca e classe m\u00e9dia\/alta, estaria sendo associada ao tr\u00e1fico de drogas que existe nos bairros nobres? E vou mais fundo nas interroga\u00e7\u00f5es, se ela fosse uma mulher branca, teria sido assassinada em plena Interven\u00e7\u00e3o Federal na seguran\u00e7a p\u00fablica? E n\u00e3o basta apenas matar a Marielle, o objetivo \u00e9 destruir a sua representa\u00e7\u00e3o, para que ela n\u00e3o seja exemplo para aqueles que querem uma sociedade mais igualit\u00e1ria, uma tentativa desesperada de quem n\u00e3o aceita que uma mulher negra, da favela e defensora dos Direitos Humanos possa mobilizar o pa\u00eds.<\/p>\n<p>O que vemos n\u00e3o \u00e9 apenas Fake News, termo que se popularizou ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o presidencial nos EUA, onde as not\u00edcias falsas alimentaram a campanha do candidato vencedor Donald Trump. Mas sim uma estrat\u00e9gia muito utilizada em nosso pa\u00eds quando uma pessoa \u00e9 vitimada pela viol\u00eancia, principalmente quando essa pessoa \u00e9 negra e pobre, com o objetivo evidente de criminaliza la. \u00c9 uma pr\u00e1tica corriqueira da Pol\u00edcia e da imprensa, utilizarem os antecedentes criminais das pessoas mortas pela pol\u00edcia ou em outras situa\u00e7\u00f5es, como forma de explicar e at\u00e9 mesmo justificar o \u00f3bito.<\/p>\n<p>E isso nos leva a uma reflex\u00e3o sobre a import\u00e2ncia urgente, da legaliza\u00e7\u00e3o e regulamenta\u00e7\u00e3o das drogas. As not\u00edcias falsas que est\u00e3o sendo divulgadas sobre Marielle, se baseiam numa realidade concreta, na sua origem no Complexo da Mar\u00e9, local que \u00e9 dominado pelo Comando Vermelho, grupo que realiza na localidade o varejo das drogas que est\u00e3o proibidas. \u00c9 preciso desmontar o dispositivo pol\u00edtico da proibi\u00e7\u00e3o das drogas, para que n\u00e3o se possa mais especular em cima da origem social e pelo fato das pessoas serem negras, que elas podem ter participa\u00e7\u00e3o no tr\u00e1fico de drogas.<\/p>\n<p>O delegado da Pol\u00edcia Civil, Orlando Zaccone no seu livro\u00a0<i>\u2018Indignos de vida \u2013 A forma jur\u00eddica da pol\u00edtica exterm\u00ednio do Rio de Janeiro\u2019<sup>i<\/sup>\u00a0<\/i>estuda o arquivamento de autos de resist\u00eancia na cidade do Rio de Janeiro entre os anos de 2003 e 2009, percebendo como a letalidade policial \u00e9 legitimada e legalizada pelo poder jur\u00eddico, n\u00e3o pela forma como se deram os fatos, se realmente existiu o uso leg\u00edtimo da for\u00e7a, mas sim pela condi\u00e7\u00e3o do morto. Ao se identificar na pessoa morta a figura do traficante, que \u00e9 considerado como criminoso\/inimigo, a a\u00e7\u00e3o policial \u00e9 concebida como legal.<\/p>\n<p>A culpabilidade ent\u00e3o se encontra invertida, n\u00e3o se trata de saber como e por que a pessoa foi morta, mas sim de construir em torno da sua vida, da sua trajet\u00f3ria, elementos que a vincule a atividade criminosa. E \u00e9 essa batalha que estamos vendo e travando em torno da mem\u00f3ria de Marielle, em que se busca de todas as formas relaciona la ao tr\u00e1fico de drogas, para dizer que a sua morte n\u00e3o foi um crime, muito menos um crime pol\u00edtico e sim uma retalia\u00e7\u00e3o de grupos criminosos. Pois dentro dessa l\u00f3gica, se Marielle tinha envolvimento com o tr\u00e1fico de drogas, a sua vida deixa de ter valor, a como\u00e7\u00e3o seria ent\u00e3o desnecess\u00e1ria, j\u00e1 que ela seria uma \u2018indigna de vida\u2019.<\/p>\n<p>As pessoas que se dedicam as causas pol\u00edticas, n\u00e3o a fazem na perspectiva de se tornarem her\u00f3is e querem mudar o mundo sozinhas, quem transforma as pessoas em m\u00e1rtires e em s\u00edmbolos, s\u00e3o os repressores. O que \u00e9 mais assustador tamb\u00e9m, \u00e9 pensarmos que as pessoas que assassinaram Marielle, fizeram tal ato para continuarem torturando e matando pessoas nas favelas sem risco de den\u00fancia vinda de uma autoridade pol\u00edtica.<\/p>\n<p>E dentro da mentalidade racista, classista e machista, uma mulher negra, vinda da favela s\u00f3 poderia ascender socialmente ao cargo de vereadora, se estivesse de alguma forma vinculada ao poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico do tr\u00e1fico de drogas. Quando a realidade mostra ao contr\u00e1rio, Marielle mesmo engravidando cedo, conseguiu se formar em n\u00edvel superior, fez p\u00f3s gradua\u00e7\u00e3o e se elegeu representante leg\u00edtima da popula\u00e7\u00e3o pobre e negra. Se olharmos bem, sem muito esfor\u00e7o, veremos que quem emerge na pol\u00edtica mantendo rela\u00e7\u00f5es estreitas com o crime organizado, s\u00e3o justamente os sujeitos que est\u00e3o fora das favelas.<\/p>\n<p>Marielle e Anderson, presentes, hoje e sempre!<\/p>\n<p>*Militante da UJC-Bahia.<\/p>\n<p>i)\u00a0D\u2019Elia filho, Orlando Zaccone, Indignos de vida: a forma jur\u00eddica da pol\u00edtica de exterm\u00ednio de inimigos da na cidade do Rio de Janeiro, 1\u00aaed, Rio de Janeiro, Revan, 2015<\/p>\n<p>Imagem:\u00a0Leo Correa (AP)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19170\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[244],"tags":[224],"class_list":["post-19170","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-violencia","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4Zc","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19170","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19170"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19170\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19170"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19170"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19170"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}