{"id":19206,"date":"2018-03-29T15:30:20","date_gmt":"2018-03-29T18:30:20","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=19206"},"modified":"2018-03-31T16:17:15","modified_gmt":"2018-03-31T19:17:15","slug":"escutemos-marielle","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19206","title":{"rendered":"Escutemos Marielle"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"Escutemos Marielle\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/180328-Marielle.jpg\" alt=\"Escutemos Marielle\" \/><!--more-->por Marielle Franco<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/brasil\/escutemos-marielle\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Outras Palavras<\/a><\/p>\n<p>Executada h\u00e1 duas semanas, um texto atual\u00edssimo de sua autoria debate os desafios que o golpe lan\u00e7a \u00e0s esquerdas. Que sentidos pol\u00edticos \u2014 e psicanal\u00edticos \u2014 sua vida evoca?<\/p>\n<p>Por Marielle Franco, com introdu\u00e7\u00e3o de Daniel Guimar\u00e3es<\/p>\n<p>Ainda sinto um baque e uma tristeza ao pensar em Marielle, mesmo ap\u00f3s duas semanas de sua execu\u00e7\u00e3o. Escuto com frequ\u00eancia os efeitos desse assassinato nas falas das e dos pacientes que recebo na Cl\u00ednica P\u00fablica de Psican\u00e1lise, mas tamb\u00e9m no consult\u00f3rio n\u00e3o-p\u00fablico. Marielle se fez presente para sempre e sinto saudade do futuro quando penso nela. Saudade das lembran\u00e7as que temos do futuro, formula\u00e7\u00e3o do hist\u00f3rico babala\u00f4 Agenor Miranda Rocha sobre o desejo. Marielle seria cada vez mais, no nosso jarg\u00e3o esquisito de esquerda, um grande quadro. Um perigo mesmo, para as for\u00e7as conservadoras e para o mercado que dirige o Estado brasileiro.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, uma s\u00e9rie de disputas narrativas entraram de canela para controlar os destinos do grande afeto social que reverberou a partir de Marielle. A direita mais inteligente e com um projeto de sociedade lan\u00e7ou m\u00e3o de t\u00e1ticas semelhantes \u00e0s de junho de 2013. Esvaziar o conte\u00fado da luta de Marielle, ao ponto de instrumentaliz\u00e1-la a favor do que Marielle era contra, a favor das for\u00e7as que anteciparam os gatilhos da arma que a matou. Entre o amplo campo da esquerda uma s\u00e9rie de vetores tamb\u00e9m entrou em a\u00e7\u00e3o para reivindicar a legitimidade de definir os motivos pelos quais ela teve sua vida interrompida e reputa\u00e7\u00e3o atacada.<\/p>\n<p>Pensamos ent\u00e3o em postar na p\u00e1gina da Cl\u00ednica P\u00fablica de Psican\u00e1lise v\u00eddeos e textos com falas dela. Ela falando sobre si, sobre o que fazia, sobre o que pensava. Atribuir a ela sua pr\u00f3pria fala, nesse momento que, por muitos motivos, tendemos a manter apenas sua imagem e falar por sobre ela, em nome dela. Uma parte significativa dessas falas v\u00eam do artigo \u201cA emerg\u00eancia da vida para superar o anestesiamento social frente \u00e0 retirada de direitos: o momento p\u00f3s-golpe pelo olhar de uma feminista, negra e favelada\u201d, do livro Tem sa\u00edda? Ensaios cr\u00edticos sobre o Brasil, da editora Zouk, agora publicado aqui no Outras Palavras.<\/p>\n<p>Assim, talvez, tenhamos ainda em Marielle uma grande aliada a elucidar sua execu\u00e7\u00e3o, fruto da autoriza\u00e7\u00e3o para viol\u00eancia contra os pobres, cada vez mais acentuada. Mais: quem sabe, encontremos interpreta\u00e7\u00f5es que podem nos fazer seguir adiante, com ela, num caminho que, se n\u00e3o sintetizar todas as lutas de esquerda que ela encarnava, ao menos pode contribuir para que as ponha em di\u00e1logo. Muito longe de tornar Marielle uma m\u00e1rtir, podemos perpetuar o processo de luta no qual ela estava inserida. Podemos elaborar politicamente e psiquicamente um luto que permanece luta. Podemos ter medo. O medo, dizia Freud, \u00e9 um momento no qual j\u00e1 temos um objeto com o qual identificamos o perigo. O risco que corr\u00edamos estaria perto da inibi\u00e7\u00e3o melanc\u00f3lica. Parece que isso n\u00e3o aconteceu. Muito pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Marielle era em seu corpo e hist\u00f3ria s\u00edntese de muitas lutas. Por isso fez acender, dentro do pr\u00f3prio campo amplo de esquerda, muitas disputas sobre o corpo dela mesma. Disputas sobre os direitos de heran\u00e7a de sua luta. Confesso n\u00e3o me preocupar com isso. Me parece um bom sinal. Um bom primeiro sinal, ao menos. Sinal de que, atrav\u00e9s do corpo de Marielle, muitas comunidades de pessoas podem se manifestar abertamente. Exigir n\u00e3o s\u00f3 visibilidade, mas protagonismo. Atrevo a arriscar que desse processo sair\u00e3o mais organiza\u00e7\u00f5es com pautas comuns do que divergentes. O debate sobre as partes exclu\u00eddas pelo capitalismo pode fazer com que elas voltem a se reencontrar. Marielle proporciona isso. Ela \u00e9 uma espiral dial\u00e9tica cont\u00ednua e cheia de pot\u00eancia. Executaram um quadro do futuro. Anteciparam o futuro. Marielle produziria muita for\u00e7a social transformadora. Por isso seguir\u00e1 produzindo for\u00e7a social transformadora. A mulher negra, favelada, pobre, que ocupava a rua e a institui\u00e7\u00e3o; que fazia discurso para multid\u00f5es, em palanques, e participava de rodas pequenas de conversa; que chamava o golpe de golpe, lutando contra ele pela via do Estado, enquanto apostava nas j\u00e1 atuantes redes de solidariedade de mulheres na periferia, para as quais demandava aten\u00e7\u00e3o da esquerda\u2026 Escutemos Marielle.<\/p>\n<p>Seus amores e pessoas pr\u00f3ximas merecem todo nosso cuidado, cuidando de Marielle. Cuidando dos nossos passos nessa conjuntura desfavor\u00e1vel. Utilizando toda nossa estrat\u00e9gia, toda for\u00e7a a favor do mundo que Marielle desejava, para que sua gente pudesse circular sem riscos e mais, pudesse expressar seu desejo de viver. Como cantaram na Mar\u00e9 em um ato em sua mem\u00f3ria e pela continuidade daquela luta \u201cse a cidade fosse nossa, Marielle tava viva.\u201d<\/p>\n<p>Quais as formas de encurtar o caminho para que a cidade seja nossa? Quais as ciladas que podem nos afastar dela? Como seria nossa cidade? Seguimos, com Marielle. (Daniel Guimar\u00e3es)<\/p>\n<p>https:\/\/outraspalavras.net\/<wbr \/>brasil\/escutemos-marielle\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19206\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[244],"tags":[],"class_list":["post-19206","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-violencia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-4ZM","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19206","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19206"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19206\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19206"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19206"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19206"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}