{"id":19221,"date":"2018-03-31T02:34:07","date_gmt":"2018-03-31T05:34:07","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=19221"},"modified":"2018-03-31T02:34:07","modified_gmt":"2018-03-31T05:34:07","slug":"a-tempestade-que-se-avizinha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19221","title":{"rendered":"A tempestade que se avizinha"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/1.bp.blogspot.com\/-YHMb55zj4Rw\/VKPf-OV4LsI\/AAAAAAAACMk\/5uAch5fkWv0\/s1600\/Terceira%2BGuerra%2BMundial%2B-%2BJTW.png?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><a href=\"https:\/\/www.odiario.info\/a-tempestade-que-se-avizinha\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ODiario.info*<\/a><\/p>\n<p>O perigo de que o partido da guerra se torne predominante no seio das classes dominantes, perante uma crise de dimens\u00f5es n\u00e3o control\u00e1veis, \u00e9 enorme. O atraso na compreens\u00e3o da gravidade do momento adensa os perigos. O sil\u00eancio dos pol\u00edticos burgueses sobre os perigos para a Humanidade e a necessidade de lutar pela paz \u00e9 ensurdecedor.<\/p>\n<p>A crise sist\u00e9mica do capitalismo entrou numa nova e mais perigosa fase. As velhas pot\u00eancias imperialistas \u2013 EUA, europeias e Jap\u00e3o \u2013 est\u00e3o a bra\u00e7os com uma profunda altera\u00e7\u00e3o na correla\u00e7\u00e3o mundial de for\u00e7as no plano econ\u00f3mico. Enfrentam (como na S\u00edria) a resist\u00eancia de povos e pa\u00edses \u00e0 sua domina\u00e7\u00e3o; o perigo iminente duma nova derrocada econ\u00f3mica; e o descontentamento e revolta crescentes dos trabalhadores contra a sua explora\u00e7\u00e3o desenfreada, mesmo nos pa\u00edses do centro imperialista (veja-se os EUA). As velhas classes dominantes recusam aceitar o fim da sua domina\u00e7\u00e3o hegem\u00f3nica, mas as dificuldades geram crescentes contradi\u00e7\u00f5es no seio dos EUA, na Uni\u00e3o Europeia e entre as duas margens do Atl\u00e2ntico. Refor\u00e7a-se o partido da viol\u00eancia e guerra. Este in\u00edcio de ano \u00e9 marcado por uma nova corrida armamentista (incluindo nuclear) e o multiplicar de amea\u00e7as de guerra, cada vez mais abertas, contra a R\u00fassia e a China. A Humanidade enfrenta de novo o perigo real dum conflito de grandes propor\u00e7\u00f5es, cujas consequ\u00eancias seriam catastr\u00f3ficas.<\/p>\n<p>A nova corrida \u00e0s armas<\/p>\n<p>A revista The Economist faz manchete (27.1.2018) com: \u00abA pr\u00f3xima guerra\u00bb. Em editorial, afirma que \u00abnos \u00faltimos 25 anos a guerra ceifou demasiadas vidas [mas \u2026] uma confronta\u00e7\u00e3o devastadora entre as grandes superpot\u00eancias mundiais permaneceu quase inimagin\u00e1vel. [Mas hoje] um conflito numa escala e duma intensidade nunca vistas desde a segunda guerra mundial \u00e9 de novo plaus\u00edvel\u00bb. Na mesma altura, a revista Time (1.2.2018) dedicava a sua capa, ilustrada com um cogumelo at\u00f3mico, ao tema \u00abTornando a Am\u00e9rica de novo nuclear\u00bb. A revista d\u00e1 conta do plano aprovado pelo governo Trump para gastar \u00ab1,2 bili\u00f5es [trili\u00f5es, na nomenclatura dos EUA] de d\u00f3lares para reformular por inteiro o complexo de armas nucleares\u00bb, ou seja, \u00abmodernizar a vetusta \u2018triade nuclear\u2019 de [avi\u00f5es] bombardeiros, submarinos e m\u00edsseis baseados em terra\u00bb.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas semanas foram divulgadas as novas vers\u00f5es dos principais documentos-guia da pol\u00edtica militar dos EUA, a Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional (Dezembro de 2017) e a Avalia\u00e7\u00e3o da Postura Nuclear (Nuclear Posture Review, Fevereiro de 2018). Ambos apontam para uma clara escalada da corrida armamentista, impulsionada pela forte presen\u00e7a de militares no governo Trump, e para a militariza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o e ciberespa\u00e7o. H\u00e1 epis\u00f3dios de prepara\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica das popula\u00e7\u00f5es para uma guerra. No dia 13 de Janeiro, a Ag\u00eancia governamental para as emerg\u00eancias no Hawai enviou para todos os telem\u00f3veis um falso alerta sobre um ataque em curso com m\u00edsseis bal\u00edsticos que iria atingir aquele Estado dos EUA. Ap\u00f3s 38 minutos (!) de p\u00e2nico generalizado, veio o desmentido (New York Times, 13.1.2018). Tr\u00eas dias depois, o epis\u00f3dio repetiu-se no Jap\u00e3o, por obra da emissora nacional NHK (NYT, 16.1.2018).<\/p>\n<p>Os planos de escalada b\u00e9lica s\u00e3o acompanhados por or\u00e7amentos que aumentam drasticamente as despesas militares. O or\u00e7amento dos EUA para 2018 \u00abatribui 716 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares para despesas militares, um aumento de 13% face a 2017\u00bb (The Guardian, 9.2.2018). A mesma fonte sublinha que s\u00f3 os 80 mil milh\u00f5es de d\u00f3lares adicionais neste or\u00e7amento militar dos EUA \u00abexcedem o or\u00e7amento militar de qualquer outro pa\u00eds, \u00e0 excep\u00e7\u00e3o da China\u00bb. O aumento \u00e9 \u00absuperior em 7% ao que fora solicitado pela Casa Branca\u00bb de Trump, facto digno de registo, pois segundo o New York Times (8.2.2018), a aprova\u00e7\u00e3o do Or\u00e7amento na C\u00e2mara de Representantes (por 240 a 186 votos) s\u00f3 foi poss\u00edvel porque 73 Democratas compensaram os 67 Republicanos que votaram contra (n\u00e3o pelo aumento das despesas militares, mas pela aus\u00eancia de cortes que os compensassem). A pol\u00edtica de militariza\u00e7\u00e3o e guerra n\u00e3o \u00e9 uma novidade de Trump \u2013 sempre foi consensual entre os partidos do grande capital nos EUA.<\/p>\n<p>O aumento espectacular nas despesas militares n\u00e3o \u00e9 exclusivo dos EUA. As principais pot\u00eancias europeias seguem o mesmo caminho, financiando simultaneamente (at\u00e9 ver) a NATO e a constru\u00e7\u00e3o do chamado ex\u00e9rcito europeu (\u2018Coopera\u00e7\u00e3o Estruturada Permanente\u2019 na linguagem cifrada de Bruxelas). Os mesmos governos que afirmam n\u00e3o haver dinheiro para despesas sociais, e que j\u00e1 gastaram bili\u00f5es a sustentar o sistema financeiro, preparam-se agora para multiplicar as despesas militares. Para a guerra, como para o grande capital, n\u00e3o h\u00e1 despesa ou endividamento \u2018incomport\u00e1vel\u2019. O or\u00e7amento militar alem\u00e3o para 2018 subiu 3,9%, prevendo aumentos de 5,3 mil milh\u00f5es at\u00e9 2021 (marketwatch.com, 13.3.2017), e \u00e9 previs\u00edvel que o pr\u00f3ximo governo alem\u00e3o os reforce ainda mais. O governo franc\u00eas decidiu gastar 300 mil milh\u00f5es de euros at\u00e9 2025 no seu or\u00e7amento militar (incluindo 45 mil milh\u00f5es em armas nucleares), com aumentos anuais de 1700 milh\u00f5es at\u00e9 2023 e de 3 mil milh\u00f5es em 2024 e 2025 (Le Monde, 7-8 de Fevereiro de 2018). Nessa altura a Fran\u00e7a gastar\u00e1 2% do PIB em despesas de guerra, o montante fixado pela NATO e que Trump t\u00e3o insistentemente reclama. Quase em simult\u00e2neo, o governo espanhol anunciou (El Pa\u00eds, 24.1.2018) que vai duplicar os gastos militares nos pr\u00f3ximos sete anos, alcan\u00e7ando 18,5 mil milh\u00f5es de euros, ou seja 1,53% do PIB. Em Portugal, os Ministros da Defesa e Neg\u00f3cios Estrangeiros assinaram (P\u00fablico, 25.1.2018) um artigo conjunto onde, pelo meio de lament\u00e1veis vassalagens \u00e0 NATO, anunciam a inten\u00e7\u00e3o (n\u00e3o quantificada) de \u00abnum futuro pr\u00f3ximo\u00bb refor\u00e7ar os gastos militares \u00abnomeadamente atrav\u00e9s da aquisi\u00e7\u00e3o de novas aeronaves de transporte m\u00e9dio e do refor\u00e7o da nossa capacidade naval\u00bb no \u00e2mbito NATO.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente o enorme perigo de tudo isto. O militarismo anda sempre de m\u00e3os dadas com a reac\u00e7\u00e3o, no plano externo e interno. N\u00e3o \u00e9 casual a promo\u00e7\u00e3o da extrema-direita e o apadrinhamento do fascismo (como na Ucr\u00e2nia). O ex-Ministro da Defesa dos EUA, William Perry, declarou que \u00abA nova corrida armamentista j\u00e1 come\u00e7ou. [\u2026] O perigo dum conflito nuclear \u00e9 hoje maior do que durante a Guerra Fria\u00bb (Time, 1.2.2018). Basta olhar para o que se passou no in\u00edcio de Fevereiro para compreender o perigo real de que, de forma intencional ou n\u00e3o, a Humanidade seja arrastada para um conflito nuclear: no curto espa\u00e7o de uma semana foram abatidos na S\u00edria, em combate, um avi\u00e3o russo, outro israelita e um helic\u00f3ptero turco, tendo avi\u00f5es dos EUA atacado posi\u00e7\u00f5es do governo s\u00edrio na martirizada regi\u00e3o de Deir El-Ezzor (junto \u00e0s maiores reservas de petr\u00f3leo do pa\u00eds), matando dezenas de soldados s\u00edrios.<\/p>\n<p>Como resultado das invas\u00f5es e agress\u00f5es directas ou por interpostos bandos terroristas ao servi\u00e7o do imperialismo, h\u00e1 muitos anos que a cat\u00e1strofe da guerra generalizada faz parte do presente, e n\u00e3o do futuro, dos povos do M\u00e9dio Oriente. Mas o perigo dum embate directo entre as for\u00e7as (convencionais ou n\u00e3o) das duas maiores pot\u00eancias nucleares \u00e9 di\u00e1rio, em particular naquela regi\u00e3o do planeta. N\u00e3o pode mesmo ser exclu\u00edda uma enorme provoca\u00e7\u00e3o dos partid\u00e1rios da guerra, que conduza ao desastre.<\/p>\n<p>A causa de fundo: o capitalismo e a sua crise<\/p>\n<p>A guerra \u00e9 insepar\u00e1vel da Hist\u00f3ria do capitalismo na sua fase imperialista. O S\u00e9culo XX testemunhou duas guerras mundiais, fruto da agressividade imperialista e das rivalidades entre pot\u00eancias imperialistas pelo controlo de recursos e mercados e pela hegemonia. A Segunda Guerra Mundial, gerada pela mais violenta e agressiva express\u00e3o de capitalismo que a Hist\u00f3ria registara at\u00e9 ent\u00e3o \u2013 o nazi-fascismo \u2013 teve ainda a marca indel\u00e9vel da grande crise do capitalismo dos anos 30, e do \u00f3dio visceral aos trabalhadores e aos povos, em particular \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica socialista. O mundo mudou muito nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Mas a ess\u00eancia do capitalismo n\u00e3o mudou \u2013 nem mudar\u00e1. A comprov\u00e1-lo est\u00e1 o \u00faltimo quarto de S\u00e9culo. O profundo desequil\u00edbrio na correla\u00e7\u00e3o mundial de for\u00e7as que se seguiu \u00e0s vit\u00f3rias contra-revolucion\u00e1rias no Leste da Europa abriu portas \u00e0 viol\u00eancia e agressividade do capitalismo, quer no plano interno, quer a n\u00edvel internacional. A destrui\u00e7\u00e3o das conquistas sociais dos povos e a brutal ofensiva exploradora foi acompanhada pelo gradual desmantelamento da ordem internacional institu\u00edda ap\u00f3s a derrota do nazi-fascismo, e pela escalada das guerras de agress\u00e3o abertas. A lista dos povos v\u00edtimas da barb\u00e1rie imperialista nestes \u00faltimos 25 anos \u00e9 extensa. A expans\u00e3o da NATO, do ponto de vista geogr\u00e1fico e nas auto-atribu\u00eddas \u2018miss\u00f5es\u2019, fala por si. Os alvos da f\u00faria imperialista s\u00e3o quaisquer pa\u00edses que n\u00e3o aceitem submeter-se aos diktats imperiais, independentemente dos seus sistemas sociais e pol\u00edticos. A n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o das ordens da superpot\u00eancia global \u00e9 casus belli \u2013 motivo de guerra. Quem pensou que aceitando desarmar-se poderia assegurar a sua sobreviv\u00eancia (como o Iraque de Saddam Hussein ou a L\u00edbia de Qadafi) descobriu tarde demais que a realidade era precisamente ao contr\u00e1rio: os acordos assinados nada valem para o imperialismo e a entrega de armas n\u00e3o convencionais e\/ou sistemas de m\u00edsseis \u00e9 apenas o prel\u00fadio para a invas\u00e3o das pot\u00eancias imperialistas e a destrui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds \u2018recalcitrante\u2019. As queixas das grandes pot\u00eancias capitalistas em rela\u00e7\u00e3o a (reais ou falsos) programas de rearmamento de pa\u00edses que t\u00eam sido alvo da sua agressividade e amea\u00e7as, como a R\u00fassia, o Ir\u00e3o, a China ou a Coreia do Norte, s\u00e3o de uma hipocrisia sem limites. Viram a realidade de p\u00e9s para o ar, apresentando as v\u00edtimas como carrascos e os carrascos como v\u00edtimas. Basta ler o The Economist para perceber que aquilo que as pot\u00eancias imperialistas receiam n\u00e3o \u00e9 serem alvos de agress\u00e3o, mas sim a perda da sua hegemonia e, em particular, a perda da impunidade alcan\u00e7ada ap\u00f3s o desaparecimento da URSS, que lhes permitia atacar sem receio de resposta por parte das suas v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Entretanto, o parasitismo e poder hegem\u00f3nico do grande capital financeiro n\u00e3o apenas conduziu ao empobrecimento de grande parte da Humanidade, como corroeu as pr\u00f3prias bases do sistema capitalista. O castelo de cartas do moderno sistema financeiro abriu fendas t\u00e3o profundas que os Estados ao servi\u00e7o do grande capital se viram for\u00e7ados a intervir com um arsenal n\u00e3o convencional de medidas para suster a derrocada. Mas uma d\u00e9cada ap\u00f3s a eclos\u00e3o da grande crise de 2007-2008, multiplicam-se novos sinais de perigo. As bolhas especulativas regressaram em for\u00e7a aos mercados financeiros, alimentadas pela entrega de dinheiro f\u00e1cil ao grande capital. Qualquer tentativa de abandonar essas pol\u00edticas faz de novo estremecer o sistema financeiro, como testemunha a nova crise bolsista de Fevereiro de 2018. A economia produtiva (aquilo que os pr\u00f3prios propagandistas do sistema chamam \u2018economia real\u2019, confessando a natureza artificial da especula\u00e7\u00e3o financeira) n\u00e3o arranca. O mecanismo de reprodu\u00e7\u00e3o do capital est\u00e1 quebrado. E as pol\u00edticas generalizadas de empobrecimento dos povos agravam ulteriormente a situa\u00e7\u00e3o. O problema de fundo permanece e novas eclos\u00f5es de crise est\u00e3o no horizonte, com a agravante de que os \u2018mecanismos n\u00e3o ortodoxos\u2019 j\u00e1 foram gastos. Os bancos centrais e Estados nacionais, ap\u00f3s assumir como seus os colossais endividamentos e perdas do grande capital privado, est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o crescentemente insustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>A somar a toda esta realidade est\u00e1 a profunda e aparentemente impar\u00e1vel altera\u00e7\u00e3o da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as econ\u00f3micas mundial, com a ascens\u00e3o de novas pot\u00eancias, algumas das quais n\u00e3o abdicam da sua soberania nacional. A China, em particular, \u00e9 j\u00e1 hoje a maior economia do mundo (calculando o PIB em Paridade de Poder de Compra) e respons\u00e1vel por boa parte do crescimento econ\u00f3mico mundial. Paradoxalmente, o crescimento de novas pot\u00eancias econ\u00f3micas foi em parte alimentado pelas pol\u00edticas de deslocaliza\u00e7\u00e3o de capital dos centros imperialistas para esses pa\u00edses, na procura simult\u00e2nea de maximizar lucros e de criar condi\u00e7\u00f5es para a ofensiva social das \u00faltimas d\u00e9cadas contra os trabalhadores do centro imperialista. A escalada de hostilidade dirigida simultaneamente contra a R\u00fassia e a China (em particular pelos EUA) visa acirrar as contradi\u00e7\u00f5es internas naqueles pa\u00edses, nos quais existem sectores abertos ao compromisso e que alimentam ilus\u00f5es sobre a verdadeira natureza do sistema de poder nos EUA, um objectivo que em alguns outros pa\u00edses em ascens\u00e3o teve \u00eaxito. Mas, ao mesmo tempo, essa hostilidade fortalece os sectores que compreendem que a \u00fanica hip\u00f3tese de sobreviv\u00eancia dos respectivos pa\u00edses reside na procura duma ordem alternativa no plano econ\u00f3mico, financeiro e pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Se \u00e9 raro os arautos do capitalismo confessarem a real natureza do sistema e a sua profunda crise, \u00e9 cada vez mais frequente ouvir a R\u00fassia e China usadas como bode expiat\u00f3rio da escalada militarista e belicista em curso. Vai ficando em segundo plano a invoca\u00e7\u00e3o do \u2018terrorismo\u2019 (boa parte do qual patrocinado, financiado e armado pelas pot\u00eancias da NATO e seus aliados regionais) como pretexto para guerras, despesas militares, leis securit\u00e1rias ou agress\u00f5es. Antes de falar em amea\u00e7as terroristas, a nova National Security Strategy dos EUA afirma que \u00abA China e a R\u00fassia desafiam o poder, a influ\u00eancia e os interesses Americanos, tentando provocar a eros\u00e3o da seguran\u00e7a e prosperidade americanas\u00bb. Alexander Mercouris (theduran.com, 8.2.2018) sublinha a confiss\u00e3o impl\u00edcita nesta afirma\u00e7\u00e3o: os dias da \u2018superpot\u00eancia \u00fanica hegem\u00f3nica\u2019 s\u00e3o coisa do passado. Menos diplom\u00e1tico, o editorial do The Economist (27.1.2018) afirma que aqueles pa\u00edses \u00abs\u00e3o hoje Estados revisionistas, que querem desafiar o status quo\u00bb e, com a habitual invers\u00e3o de responsabilidades, amea\u00e7a: \u00abSe a Am\u00e9rica permitir que a China e R\u00fassia estabele\u00e7am hegemonias regionais [\u2026] ter-lhes-\u00e0 dado luz verde para prosseguirem os seus interesses atrav\u00e9s da for\u00e7a bruta. Da \u00faltima vez que isso foi feito, o resultado foi a Primeira Guerra Mundial\u00bb. Para o anglo-sax\u00f3nico The Economist n\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas. Agora que o Sol j\u00e1 se p\u00f4s sobre o Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico, t\u00eam de ser os EUA a pot\u00eancia hegem\u00f3nica. Como a Alemanha imperial descobriu h\u00e1 um S\u00e9culo atr\u00e1s, a alternativa oferecida aos pa\u00edses em ascens\u00e3o econ\u00f3mica \u00e9 entre a vassalagem (o termo \u00e9 de Zbigniew Brzezinski) e a guerra. Para o The Economist, essa hegemonia deve ser imposta com o sangue \u2013 e o endividamento \u2013 do povo norte-americano: \u00abA Am\u00e9rica tem de compreender que \u00e9 o principal benefic\u00e1rio do sistema internacional e que \u00e9 a \u00fanica pot\u00eancia com a capacidade e os recursos para o proteger dum ataque sustentado\u00bb. Tese que conduz \u00e0 quest\u00e3o suscitada por Trump: se \u00e9 assim, porque n\u00e3o h\u00e3o de ser os lucros tamb\u00e9m Americanos?<\/p>\n<p>Longe dos mitos propagand\u00edsticos para as grandes massas, j\u00e1 h\u00e1 20 anos (3.1.1998) o The Economistpublicava um longo artigo defendendo uma alian\u00e7a hegem\u00f3nica euro-atl\u00e2ntica sobre o planeta, falando num \u00abexplosivo rect\u00e2ngulo [energ\u00e9tico] entre a Ar\u00e1bia e o Cazaquist\u00e3o\u00bb e perguntando-se: \u00abem que direc\u00e7\u00e3o ir\u00e3o correr os oleo\/gasodutos, de quem ser\u00e1 o dinheiro que vai decidir a quest\u00e3o, ser\u00e1 necess\u00e1rio algo mais musculado do que dinheiro\u00bb? A revista respondia falando duma potencial \u00abguerra Euro-asi\u00e1tica\u00bb. J\u00e1 ent\u00e3o falava na necessidade \u00abde aliar um longo alcance nuclear com um alcance tamb\u00e9m n\u00e3o nuclear, n\u00e3o apenas porque a maioria das crises \u00e9 melhor enfrentada por meios n\u00e3o nucleares [!!], mas tamb\u00e9m porque mesmo um ataque nuclear bem sucedido [sic] tem de ser seguido por soldados no terreno que possam assegurar que permane\u00e7a bem sucedido [!]\u00bb. Tamb\u00e9m h\u00e1 quase duas d\u00e9cadas, o General Loureiro dos Santos (DN, 13.3.2000) previa uma guerra mundial, como resultado da \u00abdisputa dos recursos mundiais\u00bb e perante a ascens\u00e3o de novas pot\u00eancias, referindo em particular a China e a R\u00fassia, que \u00abre\u00fanam capacidade para se op\u00f4r ou desafiar os Estados Unidos. E os Estados Unidos precisar\u00e3o de actuar. Isso n\u00e3o ser\u00e1 para j\u00e1, mas dentro de 15, 20 anos \u00e9 praticamente inevit\u00e1vel\u00bb. E dava voz \u00e0 perigos\u00edssima, mas reveladora, banaliza\u00e7\u00e3o das armas nucleares: \u00abA arma at\u00f3mica continuar\u00e1 a ser uma arma muito importante [\u2026] mas para as grandes pot\u00eancias deixar\u00e1 de ser um obst\u00e1culo\u00bb [sic].<\/p>\n<p>As habituais patranhas que agora se inventam para tentar justificar a corrida belicista das velhas pot\u00eancias imperialistas esbarram contra a franqueza destas afirma\u00e7\u00f5es, escritas quando ainda Putin n\u00e3o era Presidente e o mundo parecia uma coutada dos EUA. Uma guerra global para preservar a sua hegemonia faz parte dos planos de importantes sectores do imperialismo desde h\u00e1 muito. S\u00e3o o fruto duma vis\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o do mundo que encara as soberanias dos povos e os interesses das classes trabalhadoras como meros entraves descart\u00e1veis. O perigo de que o partido da guerra se torne predominante no seio das classes dominantes, perante uma crise de dimens\u00f5es n\u00e3o control\u00e1veis, \u00e9 enorme. O atraso na compreens\u00e3o da gravidade do momento adensa os perigos. O sil\u00eancio dos pol\u00edticos burgueses sobre os perigos para a Humanidade e a necessidade de lutar pela paz \u00e9 ensurdecedor.<\/p>\n<p>Cabe aos trabalhadores e aos povos \u2013 as principais v\u00edtimas de todas as guerras \u2013 erguer com urg\u00eancia a bandeira da luta pela paz e contra os delirantes planos de guerra que amea\u00e7am multiplicar muitas vezes a j\u00e1 de si enorme trag\u00e9dia em que vive hoje boa parte da Humanidade. \u00c9 necess\u00e1ria a solidariedade com os povos que est\u00e3o na primeira linha das agress\u00f5es imperialistas. E os trabalhadores dos principais centros imperialistas s\u00e3o tamb\u00e9m v\u00edtimas do capitalismo: basta olhar para a dram\u00e1tica situa\u00e7\u00e3o social nos EUA e em muitos pa\u00edses da UE. O inimigo da paz \u00e9 tamb\u00e9m o inimigo dos trabalhadores e dos povos de todo o mundo. \u00c9 essa a base social da vasta frente anti-imperialista e contra a guerra que urge erguer e que poder\u00e1 travar o monstro decadente, mas feroz, do grande capital internacional.<\/p>\n<p>*Este artigo foi publicado em \u201cO Militante\u201d, Edi\u00e7\u00e3o n\u00ba 353 \u2013 Mar\/Abr 2018<\/p>\n<p>https:\/\/www.odiario.info\/a-tempestade-que-se-avizinha\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19221\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[234],"class_list":["post-19221","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-501","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19221","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19221"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19221\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19221"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19221"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19221"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}