{"id":19225,"date":"2018-03-31T16:12:01","date_gmt":"2018-03-31T19:12:01","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=19225"},"modified":"2018-03-31T16:12:01","modified_gmt":"2018-03-31T19:12:01","slug":"nao-ha-guerra-entre-carteis-e-o-exercito-que-esta-matando-no-mexico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19225","title":{"rendered":"N\u00e3o h\u00e1 guerra entre cart\u00e9is, \u00e9 o Ex\u00e9rcito que est\u00e1 matando no M\u00e9xico"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/operamundi.uol.com.br\/dialogosdosul\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/portada.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Di\u00e1logos do Sul<\/p>\n<p>Exercer o jornalismo implica assumir uma postura pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Conversa com Federico Mastrogiovanni, jornalista italiano radicado no M\u00e9xico. Leiam com aten\u00e7\u00e3o, pois o M\u00e9xico de hoje nos mostra o que poder\u00e1 ser o Brasil amanh\u00e3, a continuar a militariza\u00e7\u00e3o, a entrega das riquezas naturais, destrui\u00e7\u00e3o do sistema p\u00fablico de educa\u00e7\u00e3o, a viol\u00eancia resultante de tudo isso. \u00c9 a militariza\u00e7\u00e3o que causa a viol\u00eancia, n\u00e3o o contr\u00e1rio como diz a m\u00eddia, diagnostica o soci\u00f3logo e jornalista \u00edtalo-mexicano e arremata: o jornalismo tem que ser cr\u00edtico!<\/p>\n<p>Boa leitura:<\/p>\n<hr \/>\n<p>O jornalismo tem que ser cr\u00edtico<\/p>\n<p>Jornalista italiano, antrop\u00f3logo cultural e soci\u00f3logo formado pela Universidade La Sapienza, Roma<\/p>\n<p>Um dia ele decidiu provar a sorte longe dessa cidade italiana a qual chama de \u201ccasa\u201d, pressionado mais pelas circunst\u00e2ncias do que por esse car\u00e1ter aventureiro que se descobre nele depois de trocar algumas palavras. Afastou-se desse lugar que lhe deu, quase por instinto, as ferramentas e as t\u00e9cnicas que um dia marcariam sua exist\u00eancia. Seus desejos de conhecer o mundo se fundiram com essa jovialidade que acompanha a sua vida.<\/p>\n<p><em>Por Fernando Le\u00f3n Jacomino*<\/em><\/p>\n<p><strong><em>Fernando Le\u00f3n Jacomino:<\/em>\u00a0Como e por que Federico Mastrogiovanni cruzou o Atl\u00e2ntico e chegou a um lugar que lhe deu uma raz\u00e3o, um motivo para lutar?<\/strong><\/p>\n<p><em>Federico Mastrogiovanni:<\/em>\u00a0Sou um jornalista italiano, embora minha forma\u00e7\u00e3o seja de antropologia\u00a0cultural, sociologia na Universidade de La Sapienza, em Roma. Comecei a trabalhar com um jornalista que se chama Gianni Min\u00e1, muito conhecido em Cuba, quando ainda estava na universidade. Trabalhei tr\u00eas anos com ele, como tradutor, como editor, como motorista, como redator, tudo.<\/p>\n<p>Aprendi muito com ele, conheci muita gente e,\u00a0sobretudo,\u00a0me ensinou o of\u00edcio. Depois de alguns anos trabalhando em outros meios, na It\u00e1lia ficou dif\u00edcil porque ser jornalista se tornou um luxo. Tinha que fazer outros trabalhos para me manter, para permitir-me esse luxo. Quando se desatou a crise de 2008 perdi um trabalho que tinha e decidi sair da It\u00e1lia. M\u00e9xico era um lugar que eu j\u00e1 conhecia, conhecia algumas pessoas, conhecia o idioma, pensei que podia ser uma boa op\u00e7\u00e3o. Comecei a trabalhar desde que cheguei. O golpe de estado em Honduras foi um dos primeiros trabalhos que fiz ao chegar ao M\u00e9xico.<\/p>\n<p>Sempre trabalhei como freelancer. Comecei a buscar novos meios com os quais trabalhar, porque na It\u00e1lia n\u00e3o havia condi\u00e7\u00f5es e pagavam pouco. Comecei a trabalhar com o site\u00a0Opera Mundi e fiz outras colabora\u00e7\u00f5es no M\u00e9xico. Pouco a pouco,\u00a0comecei a desenvolver minha agenda que basicamente era cobrir temas de viola\u00e7\u00f5es de Direitos Humanos, principalmente causadas por elementos de institui\u00e7\u00f5es mexicanas. Nesse tema,\u00a0estive trabalhando mais de tr\u00eas anos sobre a migra\u00e7\u00e3o, mas no aspecto econ\u00f4mico, sobre o neg\u00f3cio da migra\u00e7\u00e3o de centro-americanos que est\u00e3o em tr\u00e2nsito no M\u00e9xico.<\/p>\n<p>Existe a percep\u00e7\u00e3o de que no M\u00e9xico h\u00e1 uma guerra entre os cart\u00e9is do narcotr\u00e1fico. Com um olhar mais profundo e cr\u00edtico,\u00a0pode-se ver que existe o fen\u00f4meno de grupos criminosos que traficam droga, mas algo aconteceu a partir de 2006.<\/p>\n<p><b>Por que percebemos desse modo?<\/b><\/p>\n<p>Federico Mastrogiovanni:\u00a0T\u00ednhamos uma percep\u00e7\u00e3o alterada, porque h\u00e1 muitos autores, sobretudo historiadores como Luis Astorga, analistas pol\u00edticos, que nos descrevem o auge da produ\u00e7\u00e3o de drogas no M\u00e9xico; sabemos que sempre \u00e9 um neg\u00f3cio que tem sido controlado pelo governo mexicano e pelo PRI\u00a0[Partido Revolucion\u00e1rio Institucional], prevalentemente ao longo do tempo. Nunca tinha representado uma amea\u00e7a para as institui\u00e7\u00f5es, sempre esteve sob controle. Em certo ponto acontece algo: entre 2006 e 2007 se desata uma viol\u00eancia tremenda, como nunca tinha sido vivida no M\u00e9xico. Contam-nos que se trata do narcotr\u00e1fico e se come\u00e7a a militarizar as ruas, a se fazer operativos conjuntos\u00a0entre a Pol\u00edcia Federal e\u00a0o Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>Durante anos essa hist\u00f3ria \u00e9 contada, mas\u00a0na verdade, o\u00a0que podemos ver agora com olho cr\u00edtico \u00e9 que o narcotr\u00e1fico tampouco amea\u00e7a o\u00a0Estado mexicano; o que acontece \u00e9 que foram criadas grandes divis\u00f5es dentro do pr\u00f3prio PRI, dentro de outros partidos,\u00a0como o Partido de A\u00e7\u00e3o Nacional, at\u00e9 no PRD[Partido da Revolu\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica]\u00a0e sobretudo se polarizaram grupos que se referem a interlocutores pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Existem grupos que fazem refer\u00eancia ao governador do estado de Veracruz e dentro do pr\u00f3prio partido geram-se estas diferen\u00e7as e cada um quase que tem seu grupo armado, que n\u00e3o \u00e9 diretamente, formalmente ligado, mas h\u00e1 constantes neg\u00f3cios, constantes contatos.<\/p>\n<p>Contam-nos que existe uma s\u00e9rie de grupos que det\u00eam o poder do estado, mas n\u00e3o \u00e9 verdade. O Estado no M\u00e9xico \u00e9 forte, n\u00e3o \u00e9 um estado falido como se diz, \u00e9 forte e\u00a0al\u00e9m disso,\u00a0reprime com muita for\u00e7a. Mas \u00e9 mais articulado, em v\u00e1rios estados h\u00e1 muitas for\u00e7as, mas a base de tudo isso est\u00e1 em uma pol\u00edtica de terror.<\/p>\n<p>Eu documento isso com meu trabalho sobre o desaparecimento for\u00e7ado, que tende ao controle do territ\u00f3rio com o uso da viol\u00eancia para poder entregar \u00e0s empresas transnacionais que se dedicam \u00e0 extra\u00e7\u00e3o dos recursos naturais. Principalmente o petr\u00f3leo, mas tamb\u00e9m o g\u00e1s natural, os min\u00e9rios, qualquer tipo de mineral, de metal valioso, ouro, prata, ferro e outros minerais.<\/p>\n<p>Como em muitos casos h\u00e1 uma resist\u00eancia por parte da popula\u00e7\u00e3o, porque chega uma mineradora e destr\u00f3i um territ\u00f3rio em que n\u00e3o se pode fazer nada. O que se necessita para expropriar essas terras \u00e9 que se gere um contexto de viol\u00eancia, um clima de medo. As pessoas v\u00e3o embora, h\u00e1 muito deslocamento for\u00e7ado interno, ou se calam, ou chega o Ex\u00e9rcito e toma o territ\u00f3rio. A viol\u00eancia justifica a resposta de seguran\u00e7a,<\/p>\n<p>O discurso que estou tratando de manejar, quando falo de desaparecimento for\u00e7ado \u00e9 com outra explica\u00e7\u00e3o. \u00c9 muito evidente, quando v\u00ea\u00a0os mapas,\u00a0a gente se d\u00e1 conta\u00a0de\u00a0que onde n\u00e3o h\u00e1 jazidas n\u00e3o acontece isso; al\u00e9m do mais,\u00a0h\u00e1 o tr\u00e2nsito da droga, a gente n\u00e3o pensa nisso, mas em Guerrero,\u00a0que \u00e9 um estado montanhoso, com selva, dif\u00edcil de atravessar\u2026\u00a0mas\u00a0por que todos t\u00eam que passar por Guerrero? Dizem que \u00e9 a linha mais reta, n\u00e3o \u00e9 assim, seria a linha mais reta se n\u00e3o houvesse montanhas, se n\u00e3o houvesse um territ\u00f3rio \u00e1spero como \u00e9 o de Guerrero. Por que n\u00e3o passam por Iucat\u00e3? \u00c9 todo\u00a0um\u00a0plano, \u00e9 uma pista gigante. Em Guerrero est\u00e3o as minas de ouro mais importantes.<\/p>\n<p>O que sustento \u00e9 que h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o importante, e que n\u00e3o se leva em considera\u00e7\u00e3o, entre a produ\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia e a explora\u00e7\u00e3o de recursos naturais. O tema do narcotr\u00e1fico \u00e9 em parte uma cortina de fuma\u00e7a porque quando se observa as datas se percebe que por exemplo, no M\u00e9xico, o ex-presidente L\u00e1zaro C\u00e1rdenas [1934 e 1940]havia nacionalizado os hidrocarbonetos. Enrique Pe\u00f1a Nieto [2012 \u2013 atual] fez uma reforma energ\u00e9tica que demorou anos para ser implementada. Minha leitura \u00e9 que todo o mandato anterior, de [Luiz Felipe] Calder\u00f3n (2006 \u2013 2012), preparou a reforma energ\u00e9tica que Pe\u00f1a Nieto p\u00f4s em pr\u00e1tica quando chegou. Dando acesso a todas as empresas estrangeiras.<\/p>\n<p>Eram necess\u00e1rias duas coisas: uma reforma energ\u00e9tica e um tempo pr\u00e9vio de gera\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia para permitir a resposta de seguran\u00e7a do forte estado mexicano que agora tira territ\u00f3rio da popula\u00e7\u00e3o para entregar \u00e0s empresas.<\/p>\n<p>Em uma recente palestra, explicavam que a este fen\u00f4meno nem sequer o chamam de desaparecimento for\u00e7ado, t\u00eam um termo popular, est\u00e1 naturalizado entre as pessoas\u2026<\/p>\n<p>Teve \u00eaxito e se contou com uma terminologia que exclu\u00eda o Estado da equa\u00e7\u00e3o, s\u00e3o \u201clevantones\u201d, s\u00e3o sequestros. Mas, o que aconteceu? O inesperado. Depois de anos de desaparecimentos, os familiares, alguns poucos familiares em diferentes lugares do pa\u00eds come\u00e7aram a se organizar, a se encontrar, a se reconhecerem, a dizer isto n\u00e3o \u00e9\u2026<\/p>\n<p>O sequestro faz pensar que se trata de um acontecimento individual, \u00e9 um \u201clevant\u00f3n\u201d, est\u00e3o levando, est\u00e3o levantando, mas n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno social, n\u00e3o \u00e9 algo que eu e voc\u00ea estejamos partilhando. O que \u00e9 um fen\u00f4meno social? \u00c9 um acontecimento individual, desconectado, cada um tem sua raz\u00e3o de ser, mas se s\u00e3o tantos \u00e9 preciso ler como um processo.<\/p>\n<p>Alguns familiares come\u00e7am a se juntar. Em alguns lugares, por exemplo em torno do bispo Ra\u00fal Vera, no estado de Coahuila. O bispo dominicano muito combativo e muito l\u00facido com rela\u00e7\u00e3o ao que estava acontecendo assumiu alguns casos. Em torno de uma organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 mais f\u00e1cil porque ela funciona como um abrigo. No caso de Coahuila, onde aumentou muito o n\u00famero de desaparecidos e onde casualmente est\u00e1 a bacia de Burgos, entre Coahuila e Nuevo Le\u00f3n, e Tamaulipas que es a quarta reserva de g\u00e1s do mundo (Shell), n\u00e3o pode ser casualidade.<\/p>\n<p>Um dos fatores de mudan\u00e7a \u00e9 que come\u00e7am a ser constitu\u00eddos grupinhos e pouco a pouco se reconhecem, compartilham a dor, a busca, a procura com vida. Esse \u00e9 outro tema que eu tinha esquecido, sobre os 43. Politicamente o desaparecido \u00e9 procurado com vida, n\u00e3o se procura o corpo, a n\u00e3o ser como segunda op\u00e7\u00e3o. Os desaparecidos s\u00e3o procurados com vida porque foram levados vivos e vivos os queremos. Esse \u00e9 um elemento, o outro \u00e9 Ayotzinapa, que \u00e9 o inesperado porque tinha havido antes v\u00e1rios desaparecimentos de grupo, v\u00e1rios desaparecimentos de jovens, casos similares, mas Ayotzinapa marca um antes e um depois. Toma-se consci\u00eancia, come\u00e7a a se anunciar pouco a pouco um fen\u00f4meno; essas s\u00e3o as datas, 26 e 27 de setembro que mudam tudo. Eram normalistas, os familiares n\u00e3o se deixaram comprar, reclamaram ajudados por organiza\u00e7\u00f5es sociais, de direitos humanos, mas fundamentalmente foram eles, foi sua valentia.<\/p>\n<p>Tratou-se de dizer, como sempre, que eram narcotraficantes e n\u00e3o foi poss\u00edvel, eram sim lutadores sociais, mas eram camponeses, camponeses que estudam na escola normal, que t\u00eam 19 anos e que se esfor\u00e7am para serem professores e regressarem \u00e0 sua comunidade para ensinar a ler e a escrever.<\/p>\n<p>Gerou-se um movimento em torno disso e finalmente se come\u00e7a a nomear de outra forma. Eu estava h\u00e1 anos trabalhando com o tema e estava conectado com gente que j\u00e1 conhecia, que me explicou o que \u00e9 um desaparecimento for\u00e7ado. No entanto, no n\u00edvel de massa, o que chega \u00e9 outro tipo de informa\u00e7\u00e3o. Com limites ainda, porque ainda \u00e9 confuso, se diz \u201cah, foram mortos\u201d, \u201cah, os narcos\u201d; isto vai ser corrigido depois, mas o importante \u00e9 que entre na agenda p\u00fablica o tema do desaparecimento for\u00e7ado de pessoas.<\/p>\n<p><b>A militariza\u00e7\u00e3o \u00e9 a causa da viol\u00eancia<\/b><\/p>\n<p>Federico Mastrogiovanni: Temos documenta\u00e7\u00e3o oficial e de todos os lados se diz que o aumento da viol\u00eancia n\u00e3o acontece a partir de 2007, n\u00e3o \u00e9 consequ\u00eancia da guerra entre cart\u00e9is, e que\u00a0 por isso o Ex\u00e9rcito teve que intervir. O aumento da viol\u00eancia \u00e9 consequ\u00eancia da presen\u00e7a do Ex\u00e9rcito, da Pol\u00edcia Federal, ou seja, a militariza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma resposta \u00e0 viol\u00eancia, \u00e9 a causa da viol\u00eancia<\/p>\n<p>Existem dados que s\u00e3o chatos de ler, mas at\u00e9 certo ponto os jornalistas t\u00eam que ler e fazer uma investiga\u00e7\u00e3o bem-feita. Esses dados explicam, por exemplo, por que Ju\u00e1rez foi uma das cidades que viveu um surto de viol\u00eancia brutal nestes anos. Ali os \u00edndices de viol\u00eancia antes de 2006 estavam na m\u00e9dia e \u00e0s vezes at\u00e9 abaixo; chega o Ex\u00e9rcito para militarizar e a viol\u00eancia dispara. Os meus amigos jornalistas me dizem que havia bloqueios militares a cada quil\u00f4metro, uma cidade sitiada durante anos por parte do Ex\u00e9rcito, mas estranhamente, hiper violenta, com uma alta taxa de homic\u00eddios, de decapita\u00e7\u00f5es e de desaparecimentos. N\u00f3s engolimos o discurso de que se deve \u00e0 guerra entre cart\u00e9is; n\u00e3o \u00e9 nenhuma guerra entre cart\u00e9is, \u00e9 o Ex\u00e9rcito que est\u00e1 matando gente.<\/p>\n<p><b>Por que um italiano graduado em La Sapienza se introduz nesse tipo de temas e o faz contra a corrente, quando existem tantas ONGs que trabalham o tema dos direitos humanos em uma busca de respostas pr\u00e9-concebidas? Por que essa luta? Ter\u00e1 a ver com sua origem, com sua convic\u00e7\u00e3o juvenil ou com sua forma\u00e7\u00e3o como antrop\u00f3logo?<\/b><\/p>\n<p>Federico Mastrogiovanni: Creio que \u00e9 porque sou obsessivo-compulsivo e para mim \u00e9 necess\u00e1ria a precis\u00e3o; e no \u00e2mbito jornal\u00edstico \u00e9 muito necess\u00e1ria a precis\u00e3o. Estou fazendo um doutorado, estudo e trabalho na Universidade Ibero-americana. O doutorado \u00e9 justamente sobre a an\u00e1lise cr\u00edtica do discurso, \u00e9 uma postura inc\u00f4moda porque vai questionar posturas que s\u00e3o aparentemente pr\u00f3ximas politicamente.Quando falo da precis\u00e3o \u00e9 porque h\u00e1 consequ\u00eancias reais. No M\u00e9xico, assumir o conceito de guerra ao narcotr\u00e1fico, que \u00e9 difundido pelo presidente da Rep\u00fablica significou que a quase totalidade dos jornalistas interiorizaram a leitura da realidade que o governo passou, acriticamente, sem criticar sequer esse relato da realidade. Sim, tem consequ\u00eancias reais. N\u00e3o quero ser parte da consequ\u00eancia de um significado que gera mortos, porque tem consequ\u00eancias. A \u00fanica forma \u00e9 tratar de criticar e entender onde estamos nos equivocando.<\/p>\n<p>Isso tem a ver com enfoques que v\u00eam da semi\u00f3tica, que v\u00eam da sociologia \u00e9 claro, mas tamb\u00e9m \u00e9 uma postura pol\u00edtica porque se eu me assumo como pessoa de esquerda, como pessoa cr\u00edtica, n\u00e3o posso depois reproduzir um discurso que na realidade est\u00e1 favorecendo a resposta de seguran\u00e7a de um estado violento e repressor como o Estado mexicano; \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Toda pessoa, em algum momento vai viver alguma contradi\u00e7\u00e3o, mas existem algumas contradi\u00e7\u00f5es que posso suportar e outras que n\u00e3o posso suportar. Posso suportar o fato de que escrevo para um meio que me permite pagar o aluguel, mas \u00e9 um meio que tem publicidade da Rolex. Isso eu posso suportar. N\u00e3o posso suportar \u00e9 que meu discurso contribua a permitir que o governo mexicano reprima, isso n\u00e3o. A\u00ed est\u00e1 a decis\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><b>Ler \u00e9 na realidade subversivo<\/b><\/p>\n<p><b>Como voc\u00ea consegue se unir \u00e0 Brigada Ler em liberdade? Que lugar ocupa esse projeto em sua vida profissional?<\/b><\/p>\n<p>Federico Mastrogiovanni: Conheci a Marina h\u00e1 alguns anos, ficamos amigos. O projeto que eles desenvolvem \u00e9 fundamental, n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que fa\u00e7a um trabalho pol\u00edtico-popular desse tipo, de populariza\u00e7\u00e3o da leitura, de devolv\u00ea-la aos lugares, \u00e0queles de quem a tiraram. Ler \u00e9 na realidade subversivo, \u00e9 fundamental o trabalho desse grupo.<\/p>\n<p>\u00c9 uma maneira de gerar pensamento. Em muitas ocasi\u00f5es realizam-se debates, tert\u00falias nas quais se apresentam posturas diferentes, nas quais as pessoas discutem. N\u00e3o \u00e9 apresentar o pensamento da Brigada, mas sim propiciar que fluam todas as posi\u00e7\u00f5es em sua diversidade e se gera pensamento, o que me parece imprescind\u00edvel. Gerar pensamento atrav\u00e9s do debate, da discuss\u00e3o e atrav\u00e9s do confronto de pontos de vista diferentes dentro da pr\u00f3pria esquerda.<\/p>\n<p>Quando posso participo nas apresenta\u00e7\u00f5es que s\u00e3o muito enriquecedores, \u00e9 uma forma interessante de fazer pol\u00edtica ativa.<\/p>\n<p><b>O que encontrar\u00e1 o \u00e1vido leitor no livro \u201c<\/b><b>El asesino que no seremos<\/b><b>\u201d?<\/b><\/p>\n<p>Federico Mastrogiovanni:\u00a0\u00c9 a hist\u00f3ria de um encontro de duas pessoas, o protagonista, um homem que passou parte importante de sua vida, quase 15 anos, em uma pris\u00e3o de seguran\u00e7a m\u00e1xima nos Estados Unidos, a pris\u00e3o The Pelican Bay. Este homem anteriormente havia sido bandido em Los Angeles, nasceu no M\u00e9xico, em Tijuana, nunca teve nacionalidade estadunidense e ao sair da pris\u00e3o foi deportado para o M\u00e9xico, um pa\u00eds que n\u00e3o conhecia, que n\u00e3o era seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>Nessa hist\u00f3ria h\u00e1 muitos temas que tem a ver com todas as hist\u00f3rias que fiz at\u00e9 agora. O assunto que desenvolvo n\u00e3o foi casual porque a\u00ed est\u00e1 a migra\u00e7\u00e3o que sempre foi um eixo para mim como emigrante, mas tamb\u00e9m como pessoa que v\u00ea no tr\u00e2nsito das pessoas uma das caracter\u00edsticas da humanidade. Por outra parte, est\u00e1 o tema da discrimina\u00e7\u00e3o de mexicanos nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>O personagem diz todo o tempo: assumo todas as minhas decis\u00f5es, assumo a responsabilidade de minhas boas e m\u00e1s decis\u00f5es. Ele diz, mas n\u00e3o assume como desculpa, mas o que se v\u00ea \u00e9 que existe uma discrimina\u00e7\u00e3o. Ser mexicano em um bairro pobre de Los Angeles n\u00e3o \u00e9 o mesmo que ser branco, de classe m\u00e9dia, em Los Angeles, n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa.<\/p>\n<p>Existem contextos sociais que facilitam que voc\u00ea tome certas decis\u00f5es e n\u00e3o outras. Para um menino de 12 anos que cresce no Vale de Los Angeles rodeado de bandidos, de certo tipo de est\u00edmulo, certo tipo de vis\u00e3o, a forma em que se pode adquirir um m\u00ednimo de poder e um m\u00ednimo de respeito em certos contextos, n\u00e3o \u00e9 na Universidade, \u00e9 tornando-se bandido.\u00a0 Pessoas que n\u00e3o t\u00eam nem respeito nem poder aspiram a algo assim. N\u00e3o \u00e9 uma justificativa, ele nunca conta isso como uma justificativa, mas sim como o que aconteceu e a\u00ed tomei minhas decis\u00f5es.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria \u00e9 sobre a tomada de decis\u00f5es positivas; vou melhorar na pris\u00e3o mesmo que continue sendo um bandido. Foi condenado a dez anos de pris\u00e3o, mas ficou 15 porque tamb\u00e9m na pris\u00e3o criou problemas. O fato de pertencer a uma quadrilha o obrigava a ser fiel ao seu grupo, ser leal e sobreviver.<\/p>\n<p>\u00c9 a tomada de decis\u00f5es positivas: vou ler, vou me formar, n\u00e3o vou deixar que o sistema me aniquile e \u00e9 um sistema que est\u00e1 pensado para aniquilar as pessoas.<\/p>\n<p>Quando fui ver a pris\u00e3o onde ele esteve, as celas de isolamento foram os lugares mais aberrantes que eu vi na vida. A \u00fanica coisa que a gente pensa \u00e9 que metem a\u00ed para acabar com a vida das pessoas e \u00e9 justamente essa resist\u00eancia, outra vez, resistir a um sistema que est\u00e1 feito para destruir voc\u00ea. N\u00e3o apenas resistir, voc\u00ea sai e cria uma vida que ningu\u00e9m pensava que voc\u00ea podia criar. Ele agora \u00e9 professor num Jardim da Inf\u00e2ncia no M\u00e9xico. Ensina ingl\u00eas, \u00e9 um grande professor a as pessoas lhe confiam seus filhos.<\/p>\n<p>Todas estas possibilidades falam tamb\u00e9m de uma hist\u00f3ria quase m\u00e1gica, na qual nada est\u00e1 escrito. N\u00e3o \u00e9 verdade que se voc\u00ea nasce em Tijuana e vive toda a sua vida no vale de Los Angeles, rodeado de bandidos, tem que acabar morto em uma briga de rua ou terminar sua vida em uma pris\u00e3o. H\u00e1 muitas op\u00e7\u00f5es. \u00c9 como uma alegoria das possibilidades da resist\u00eancia, \u00e9 uma vis\u00e3o pol\u00edtica, \u00e9 a pr\u00f3pria vis\u00e3o pol\u00edtica, n\u00e3o tem que ser pela for\u00e7a como \u00e9.<\/p>\n<p>Sempre no n\u00edvel individual e coletivo \u00e9 poss\u00edvel encontrar formas de resist\u00eancia que em realidade humanizam as pessoas, \u00e9 uma resist\u00eancia humanizadora. Uma das chaves \u00e9 a leitura. Se voc\u00ea vem de um contexto onde a \u00fanica forma de rela\u00e7\u00e3o \u00e9 a viol\u00eancia e sai desse contexto atrav\u00e9s da leitura, \u00e9 fenomenal.<\/p>\n<p>Edwin est\u00e1 cursando agora no M\u00e9xico a licenciatura em idiomas. Eu sempre lhe dizia, se voc\u00ea pudesse falar com o Edwin de 20 anos atr\u00e1s, na pris\u00e3o, em isolamento, voc\u00ea teria falado sobre isso que hoje \u00e9 seu presente, o que voc\u00ea teria pensado? Imposs\u00edvel, ci\u00eancia-fic\u00e7\u00e3o, ele me diz.<\/p>\n<p><b>Em que se parecem as pessoas que assistiram seu curso em Cuba e as desses outros muitos lugares onde voc\u00ea tem estado?<\/b><\/p>\n<p>Federico Mastrogiovanni:\u00a0Parece-me que em geral \u00e9 maior o n\u00edvel de leitura dos participantes daqui, \u00e9 muito mais elevado do que no M\u00e9xico. Em uma compara\u00e7\u00e3o entre jornalistas mexicanos e cubanos \u00e9 not\u00f3ria a melhor prepara\u00e7\u00e3o dos da Ilha. Nesse sentido foi uma surpresa positiva. Estava acostumado a me relacionar com jornalistas que quase n\u00e3o l\u00eaem, n\u00e3o l\u00eaem muito. Os participante aqui tinham uma bagagem bastante s\u00f3lida.<\/p>\n<p><b>O jornalismo tem que ser cr\u00edtico<\/b><\/p>\n<p>Penso que este tipo de proposta cr\u00edtica pode ser aplicado a qualquer contexto. N\u00e3o \u00e9 uma receita, mas uma metodologia de trabalho. Nem sempre se entende que \u00e9 uma metodologia cr\u00edtica para si mesmo, para o trabalho de cada dia que a gente aplica aos diferentes contextos. Espero que possa servir como uma ferramenta para melhorar uma ideia de trabalho jornal\u00edstico.<\/p>\n<p>Claro que \u00e9 a ideia que subscrevo porque penso que o jornalismo tem que ser cr\u00edtico. Seu exerc\u00edcio implica assumir uma postura pol\u00edtica. \u00c9 assumir qual \u00e9 a pr\u00f3pria postura pol\u00edtica. A proposta que apresento \u00e9 que cada um de n\u00f3s assuma de que lado e em que ponto est\u00e1 parado, e que fa\u00e7a um jornalismo cr\u00edtico. Fazer isso \u00e0s vezes p\u00f5e em discuss\u00e3o o poder, mas p\u00f5e em discuss\u00e3o suas convic\u00e7\u00f5es. Pessoalmente, a mim serve para pr\u00e9-elaborar meu discurso, para cometer menos erros, me ajuda a ser mais preciso e, como consequ\u00eancia, implica criticar os que nos rodeiam, os que nos governam. Isso tamb\u00e9m \u00e9 parte da profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Evidente que a linha n\u00e3o tem que ser criticar por criticar, a linha tem que ser a precis\u00e3o dentro do cumprimento da fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica que \u00e9 o jornalismo. Espero que no curso se tenha entendido este prop\u00f3sito.<\/p>\n<p>Cada contexto tem suas peculiaridades, suas especificidades. Para mim \u00e9 interessante confrontar-me com isso.<\/p>\n<p><i>*O autor da entrevista \u00e9 diretor de La Jiribilla, revista de cultura cubana \u2013 direitos reservados<\/i><\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"KqF3s4ar0n\"><p><a href=\"http:\/\/operamundi.uol.com.br\/dialogosdosul\/nao-ha-guerra-entre-carteis-e-o-exercito-que-esta-matando-gente-no-mexico-denuncia-jornalista\/29032018\/\">\u201cN\u00e3o h\u00e1 guerra entre cart\u00e9is, \u00e9 o Ex\u00e9rcito que est\u00e1 matando no M\u00e9xico\u201d, denuncia jornalista<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"http:\/\/operamundi.uol.com.br\/dialogosdosul\/nao-ha-guerra-entre-carteis-e-o-exercito-que-esta-matando-gente-no-mexico-denuncia-jornalista\/29032018\/embed\/#?secret=KqF3s4ar0n\" data-secret=\"KqF3s4ar0n\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;\u201cN\u00e3o h\u00e1 guerra entre cart\u00e9is, \u00e9 o Ex\u00e9rcito que est\u00e1 matando no M\u00e9xico\u201d, denuncia jornalista&#8221; &#8212; Di\u00e1logos do Sul\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19225\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[225],"class_list":["post-19225","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-505","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19225","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19225"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19225\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19225"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19225"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19225"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}