{"id":19247,"date":"2018-04-03T19:49:02","date_gmt":"2018-04-03T22:49:02","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=19247"},"modified":"2018-04-03T19:49:02","modified_gmt":"2018-04-03T22:49:02","slug":"os-dias-de-uma-guerra-apenas-sem-data","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19247","title":{"rendered":"Os dias de uma guerra apenas sem data"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrilabril.pt\/sites\/default\/files\/styles\/node_aberto_vp768\/public\/assets\/img\/imgonline-com-ua-resize-djfqxnawjk.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Jos\u00e9 Goul\u00e3o<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.abrilabril.pt\/internacional\/os-dias-de-uma-guerra-apenas-sem-data\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ABRIL <\/a><\/p>\n<p>Derrotados na S\u00edria e no M\u00e9dio Oriente, os donos do mundo avan\u00e7am para o confronto entre OTAN e Moscou. A guerra ultrapassou a fase da d\u00favida \u00abse\u00bb para se fixar na d\u00favida \u00abquando\u00bb. Para mal dos povos.<\/p>\n<p>Em 18 de janeiro de 2018, Sir Nicholas Carter disse o seguinte durante um discurso solene e midiatizado: a agress\u00e3o russa \u00abcome\u00e7ar\u00e1 mais cedo do que o previsto e atrav\u00e9s de um acontecimento imprevisto\u00bb[1].<\/p>\n<p>Sir Nicholas Carter, al\u00e9m de cavaleiro de Sua Majestade, \u00e9 o chefe do Estado Maior das For\u00e7as Armadas do Reino Unido[2] e agora tamb\u00e9m, por iner\u00eancia, ponta de lan\u00e7a da doutrina imperial brit\u00e2nica reciclada atrav\u00e9s do soundbite estrat\u00e9gico lan\u00e7ado pela primeira-ministra Theresa May \u2013 \u00abglobal Britannia\u00bb.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 ainda tempo de perceber por inteiro se a hist\u00f3ria venenosa dos assass\u00ednios do duplo-espi\u00e3o Serguei Skripal e filha \u00e9 o tal \u00abacontecimento imprevisto\u00bb que marca o in\u00edcio da \u00abagress\u00e3o russa\u00bb, ou seja, o toque a rebate para desencadear a t\u00e3o preparada ofensiva \u2013 obviamente \u00abdefensiva\u00bb \u2013 da OTAN contra Moscou. Parece pouco ambiciosa, apesar da grande amplitude, a retalia\u00e7\u00e3o baseada na excitada e contabil\u00edstica expuls\u00e3o massiva de membros do corpo diplom\u00e1tico a servi\u00e7o do diab\u00f3lico Putin. Tudo leva a crer, e disso existem provas factuais, que alguns acontecimentos projetados deveriam ter-se desenvolvido de modo mais belicoso durante estes dias de mar\u00e7o, mas alguma coisa correu mal aos que se habituaram a lan\u00e7ar conflitos no m\u00eas dedicado a Marte, o deus da guerra. J\u00e1 l\u00e1 iremos dentro de algumas linhas.<\/p>\n<p>Para j\u00e1, \u00e9 importante termos a no\u00e7\u00e3o de que Sir Nicholas Carter foi bastante mais longe do que a den\u00fancia da t\u00e3o recorrente como latente \u00abamea\u00e7a russa\u00bb. Exp\u00f4s mesmo um programa de a\u00e7\u00e3o e resposta baseado nas seguintes premissas: identificar as debilidades do inimigo de maneira a \u00abresponder assimetricamente\u00bb; continuar a apoiar os pa\u00edses vizinhos da R\u00fassia para que sejam capazes de \u00abfazer frente\u00bb aos planos agressivos deste pa\u00eds; diminuir a depend\u00eancia energ\u00e9tica \u00abdo ocidente\u00bb em rela\u00e7\u00e3o a Moscou, isto \u00e9, prosseguir a obra de recria\u00e7\u00e3o dos mapas do M\u00e9dio Oriente para que Israel e a Ar\u00e1bia Saudita sejam os gendarmes de uma rapina sem sobressaltos dos combust\u00edveis f\u00f3sseis da regi\u00e3o; enviar ainda mais tropas para as fronteiras russas, porque \u00abuma unidade de infantaria vale tanto quanto um esquadr\u00e3o de combate de F-16, quando se trata de disponibilidade\u00bb; identificar \u00abas nossas pr\u00f3prias debilidades perante os efeitos nefastos das m\u00e1s influ\u00eancias e da desinforma\u00e7\u00e3o russas e tomar medidas para as atenuar\u00bb. Ora, Londres n\u00e3o perdeu tempo e, nesse mesmo dia, anunciou a cria\u00e7\u00e3o de uma unidade militar \u00abcontra a propaganda russa\u00bb[3].<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil perceber que o discurso de Sir Nicholas Carter, proferido numa \u00e9poca em que o sistema de poder enraizado na sociedade norte-americana continua a ter de mover pi\u00f5es para domesticar a deriva comportamental de Donald Trump, n\u00e3o resultou da iniciativa voluntarista de um franco-atirador.<\/p>\n<p>Foi proferido quatro dias antes do espampanante lan\u00e7amento, em Londres, do livro \u00abOrdem para matar: o regime de Putin e o assass\u00ednio pol\u00edtico\u00bb da professora Amy Knight, \u00abespecialista em KGB\u00bb. A obra explica que o presidente russo e a sua gente s\u00e3o serial killers respons\u00e1veis por sucessivos massacres, desde o de Moscou em 1999 at\u00e9 ao da maratona de Boston em 2013, sem esquecer as execu\u00e7\u00f5es de pelo menos 14 espi\u00f5es, al\u00e9m das interfer\u00eancias nas elei\u00e7\u00f5es norte-americanas e europeias, fazendo eleger Trump e tornando o Brexit uma realidade. \u00c0 singela e natural curiosidade de algu\u00e9m que perguntou pelas provas de tais acusa\u00e7\u00f5es, a professora explicou que n\u00e3o as tinha, afinal trata-se de uma obra de fic\u00e7\u00e3o \u2013 mas nem assim menos inquietante.<\/p>\n<p>Uma inquieta\u00e7\u00e3o a que ningu\u00e9m pode ficar insens\u00edvel<br \/>\nPor isso, em fevereiro, a Alemanha comunicou \u00e0 OTAN a disponibilidade para construir um novo centro de planifica\u00e7\u00e3o e comando da alian\u00e7a para transporte r\u00e1pido de tropas e material.<\/p>\n<p>Jens Stoltenberg, o secret\u00e1rio-geral da alian\u00e7a, juntou-se \u00e0 iniciativa explicando que a organiza\u00e7\u00e3o necessita, como de p\u00e3o para a boca, \u00abde uma estrutura de comando capaz de garantir que as tropas certas estejam no local certo, com o equipamento certo e no momento certo\u00bb.<\/p>\n<p>Mais disse Stoltenberg, transportando-nos j\u00e1 para os acontecimentos de mar\u00e7o: que \u00aba OTAN est\u00e1 em vias de responder ao comportamento irrespons\u00e1vel da R\u00fassia\u00bb; que pretende \u00abmelhorar a rapidez e a capacidade letal das for\u00e7as norte-americanas na Europa\u00bb; que a R\u00fassia foi \u00abo primeiro pa\u00eds a utilizar um agente neurot\u00f3xico em territ\u00f3rio da alian\u00e7a, a minar as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas ocidentais, a violar a integridade territorial\u00bb de na\u00e7\u00f5es europeias. Embora n\u00e3o tenha sido expl\u00edcito, sabe-se que Jens Stoltenberg n\u00e3o fazia alus\u00e3o ao papel atlantista na amputa\u00e7\u00e3o do Kosovo \u00e0 S\u00e9rvia.<\/p>\n<p>O coro das den\u00fancias e das iniciativas punitivas ampliou-se<br \/>\nBoris Johnson, ministro brit\u00e2nico dos Neg\u00f3cios Estrangeiros, explicou que \u00abPutin vai utilizar o Campeonato Mundial de Futebol como Hitler usou os Jogos Ol\u00edmpicos de 1936 em Berlim\u00bb, pelo que o melhor \u00e9 as na\u00e7\u00f5es ocidentais boicotarem a competi\u00e7\u00e3o. \u00c9 certo que o mundo livre vai acarinhando regimes pr\u00e9 e parafascistas na generalidade das na\u00e7\u00f5es europeias que rodeiam a R\u00fassia, mas isso \u00e9 leg\u00edtimo porque se faz em defesa da democracia, da liberdade e dos direitos humanos; \u00e9 verdade tamb\u00e9m que o Mundial que se seguir\u00e1, o do Qatar 2022, est\u00e1 sendo preparado com base em trabalho escravo de milhares de imigrantes, mas a petroditadura de Doha \u00e9 amiga, aliada e n\u00e3o tem regateado esfor\u00e7os para destruir a L\u00edbia e a S\u00edria apoiando entidades humanit\u00e1rias e genuinamente democr\u00e1ticas como o Daesh e a al-Qaida.<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio norte-americano do Tesouro, em sintonia com a avalanche de medidas amea\u00e7adoras, anunciou novas san\u00e7\u00f5es contra a R\u00fassia, estas com base nas alegadas interfer\u00eancias nos assuntos p\u00fablicos norte-americanos, a prop\u00f3sito das quais at\u00e9 documentos comprovando a sua inexist\u00eancia \u00abdesapareceram\u00bb dos dossi\u00eas oficiais de investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O novo conselheiro de seguran\u00e7a de Trump, John Bolton[4] \u2013 que tem entre os (ver \u00abDaesh, a hist\u00f3ria escondida\u00bb) principais amigos Benjamin Netanyahu e o senador McCain, \u00abpadrinho\u00bb do Daesh \u2013 qualificou como \u00abato de guerra\u00bb a (n\u00e3o provada) inger\u00eancia da R\u00fassia nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais norte-americanas. E f\u00ea-lo mesmo antes de tomar posse do novo cargo.<\/p>\n<p>E o FBI declarou como \u00aboficial\u00bb a cria\u00e7\u00e3o pela R\u00fassia de um ex\u00e9rcito de hackers habilitados para paralisar os sistemas inform\u00e1ticos das centrais el\u00e9tricas, nucleares, h\u00eddricas, aeroportos e portos dos Estados Unidos e da Europa Ocidental. Sem contar com a frota de submarinos pronta a piratear navios mercantes ocidentais.<\/p>\n<p>Entretanto, na S\u00edria\u2026<br \/>\nNa S\u00edria, onde as tropas governamentais, apoiadas pelas for\u00e7as armadas russas, continuam a avan\u00e7ar na frente de guerra pela restaura\u00e7\u00e3o da legitimidade na regi\u00e3o de Ghuta Oriental, ainda em poder de terroristas apoiados por agentes de servi\u00e7os especiais franceses, brit\u00e2nicos e norte-americanos, esteve prestes a concretizar-se, neste m\u00eas de mar\u00e7o, um plano integrado de a\u00e7\u00f5es capazes de atear o rastilho da grande confronta\u00e7\u00e3o entre a OTAN e Moscou \u2013 ao encontro dos cen\u00e1rios apocal\u00edpticos enunciados por Sir Nicholas Carter e Amy Knight, a \u00abespecialista em KGB\u00bb.<\/p>\n<p>O plano tinha, com absoluta certeza apurada atrav\u00e9s dos fatos comprovados, a assinatura da primeira-ministra brit\u00e2nica; muito provavelmente contava tamb\u00e9m com o apoio do secret\u00e1rio de Estado norte-americano, Rex Tillerson, por raz\u00f5es que adiante se perceber\u00e3o; e n\u00e3o seria ignorado pelos restantes parceiros do chamado \u00abPequeno Grupo\u00bb, entidade que se reuniu pela primeira vez em 11 de janeiro para discutir as novas maneiras de prosseguir a opera\u00e7\u00e3o para desmantelamento da S\u00edria e de cuja sess\u00e3o \u2013 apesar do seu suposto secretismo \u2013 saiu um \u00abdocumento confidencial diplom\u00e1tico\u00bb. Esses outros pa\u00edses s\u00e3o a Fran\u00e7a, a Ar\u00e1bia Saudita e a Jord\u00e2nia.<\/p>\n<p>Era um plano conspirativo em quatro pontos interligados, todos eles suscept\u00edveis de elevar os n\u00edveis de confronta\u00e7\u00e3o global, e n\u00e3o apenas no M\u00e9dio Oriente: assass\u00ednio de um agente duplo russo; um bombardeamento com armas qu\u00edmicas contra os \u00abrebeldes\u00bb e a popula\u00e7\u00e3o de Ghuta Oriental, responsabilizando o governo s\u00edrio pela a\u00e7\u00e3o; um bombardeamento norte-americano de retalia\u00e7\u00e3o id\u00eantico ao de h\u00e1 um ano contra a base de Chayaat, mas desta feita contra Damasco e tendo como alvos privilegiados o pal\u00e1cio presidencial e os minist\u00e9rios \u2013 do tipo do que atingiu Bagd\u00e1 em abril de 2003; seguindo-se um pedido de exclus\u00e3o da R\u00fassia do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, foi detectada pelos servi\u00e7os secretos s\u00edrios e russos em tempo \u00fatil \u2013 e logo come\u00e7ou a abortar; por\u00e9m, os acontecimentos que se seguiram transformaram a semana de 12 a 19 de mar\u00e7o num per\u00edodo de riscos assustadores para a humanidade, que ficam como amea\u00e7as suspensas.<\/p>\n<p>Logo no dia 12, Theresa May confrontou a C\u00e2mara dos Comuns com os assass\u00ednios do espi\u00e3o reformado Serguei Skripal e filha em Salisbury, territ\u00f3rio brit\u00e2nico. No crime ter\u00e1 sido utilizado um agente neurot\u00f3xico conhecido como Novitchok e com chancela russa, embora ainda do per\u00edodo sovi\u00e9tico. A chefe do governo de Londres n\u00e3o deixou d\u00favidas sobre o alvo principal das suas graves acusa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As for\u00e7as militares s\u00edrias, por seu turno, puseram-se em campo com os dados obtidos pelos seus servi\u00e7os secretos e em dois dias, 12 e 13, desmantelaram laborat\u00f3rios de armas qu\u00edmicas em Aftris e Chifonya, na regi\u00e3o de Ghuta, ambos criados e geridos pelos terroristas da Al-Qaida cobertos sob outras designa\u00e7\u00f5es. Apesar de comprovada a inten\u00e7\u00e3o terrorista de utilizar, mais uma vez, armas qu\u00edmicas contra a popula\u00e7\u00e3o s\u00edria e depois responsabilizar as tropas regulares, a representante norte-americana na ONU, Nikki Halley, comportou-se perante o Conselho de Seguran\u00e7a como se o plano original estivesse em desenvolvimento. Amea\u00e7ou com um bombardeamento de retalia\u00e7\u00e3o contra o governo s\u00edrio pela utiliza\u00e7\u00e3o de armas qu\u00edmicas \u2013 enquanto a delega\u00e7\u00e3o russa distribu\u00eda por todos os membros os documentos do Estado-Maior norte-americano projetando o ataque contra Damasco \u2013 para o qual se concentraram navios de guerra no Mediterr\u00e2neo. Entretanto, o ministro russo dos Neg\u00f3cios Estrangeiros, Serguei Lavrov, advertiu Washington de que Moscovo reagiria \u00abna mesma propor\u00e7\u00e3o\u00bb no caso de cidad\u00e3os do seu pa\u00eds serem atingidos por um ataque norte-americano.<\/p>\n<p>O chefe do Estado Maior russo, Valeri Guerassimov, contatou o seu hom\u00f3logo norte-americano, Joseph Dunford, revelando que sabia o que se passava com o eventual uso de armas qu\u00edmicas na S\u00edria e este levou a advert\u00eancia a s\u00e9rio; transmitiu a informa\u00e7\u00e3o ao secret\u00e1rio da Defesa, James Mattis, que a fez seguir para o presidente; este ordenou ao chefe da CIA, Michael Pompeo, que investigasse a situa\u00e7\u00e3o e, embora n\u00e3o se conhe\u00e7am as conclus\u00f5es do trabalho, sabe-se que Tillerson interrompeu a viagem que estava a fazer em \u00c1frica e regressou a Washington, onde foi informado, mas n\u00e3o por Trump, de que fora demitido e substitu\u00eddo pelo pr\u00f3prio Pompeo.<\/p>\n<p>As investiga\u00e7\u00f5es sobre o acesso ao Novitchok conduzidas por jornalistas e diplomatas rapidamente desmontaram, entretanto, as teses de May garantindo a proced\u00eancia russa. De facto, o produto foi descoberto e originalmente produzido no laborat\u00f3rio sovi\u00e9tico de Nurus, no Uzbequist\u00e3o. Com a assinatura do tratado ilegalizando o uso de armas qu\u00edmicas e o desmoronamento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a R\u00fassia em desagrega\u00e7\u00e3o pediu apoio ao departamento norte-americano da Defesa para desmantelar o armamento qu\u00edmico e os laborat\u00f3rios de prepara\u00e7\u00e3o, incluindo o de Nurus. Pelo que o Novitchok, incluindo a f\u00f3rmula e os m\u00e9todos de produ\u00e7\u00e3o, n\u00e3o t\u00eam segredos para os respons\u00e1veis militares norte-americanos. Acresce que os laborat\u00f3rios que participaram no desmantelamento de armas qu\u00edmicas armazenam doses de todos os produtos conhecidos, entre eles o Novitchok, para poderem exercer fun\u00e7\u00f5es de descontamina\u00e7\u00e3o e controlo de ac\u00e7\u00f5es criminosas no caso de serem chamados a colaborar. Entre esses laborat\u00f3rios est\u00e1 o brit\u00e2nico de Porton Down, por sinal a 15 quil\u00f3metros de Salisbury, onde Skripal e a filha foram assassinados. Note-se que, segundo os peritos, uma pequena dose de 10 miligramas do produto \u00e9 letal.<\/p>\n<p>Apesar desta pan\u00f3plia de dados, o Conselho do Atl\u00e2ntico \u2013 esfor\u00e7ando-se por se manter num registo de realidade paralela que conserva abertas todas as portas de confronta\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o hesitou em acompanhar a tese brit\u00e2nica de liga\u00e7\u00e3o entre o assass\u00ednio do espi\u00e3o e o uso de armas qu\u00edmicas pela S\u00edria, declarando a R\u00fassia como \u00abprovavelmente respons\u00e1vel\u00bb pelos dois acontecimentos; e no Conselho de Seguran\u00e7a n\u00e3o foi aprovada uma proposta russa de resolu\u00e7\u00e3o entregando uma investiga\u00e7\u00e3o sobre estes assuntos \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o Internacional para o Desmantelamento de Armas Qu\u00edmicas porque o Reino Unido insistiu em incluir no texto uma express\u00e3o considerando desde logo a R\u00fassia como \u00abprovavelmente respons\u00e1vel\u00bb.<\/p>\n<p>Enquanto desfilam sob os nossos olhos os contingentes de diplomatas expulsos em massa como resposta a acontecimentos embrulhados em contradi\u00e7\u00f5es, provoca\u00e7\u00f5es e conspira\u00e7\u00f5es em cadeia, \u00e9 leg\u00edtimo refletirmos sobre o fato, cada vez mais incontroverso, de os nossos quotidianos e, sobretudo, as nossas vidas, estarem nas m\u00e3os de dirigentes transnacionais cuja irresponsabilidade \u00e9 diretamente proporcional ao poder quase absoluto de que disp\u00f5em.<\/p>\n<p>Vivemos numa situa\u00e7\u00e3o muito semelhante \u00e0 que antecedeu a Primeira Guerra Mundial, em pleno confronto de interesses globais que, regra geral, s\u00e3o contr\u00e1rios aos da esmagadora maioria dos cidad\u00e3os do mundo. No entanto, o poder de exterm\u00ednio das armas amontoadas e a redu\u00e7\u00e3o do planeta \u00e0 dimens\u00e3o da globalidade potencia e exponencialmente a gravidade do cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Um cen\u00e1rio onde se tornou de uma evid\u00eancia crua e cruel a incapacidade dos poderes ocidentais, tamb\u00e9m definidos como \u00abmundo civilizado\u00bb, em partilhar os bens de um planeta de que se consideram propriet\u00e1rios. Os paladinos da livre e leal concorr\u00eancia s\u00e3o os primeiros a rejeit\u00e1-la quando pressentem o seu monop\u00f3lio em risco. Por isso s\u00e3o cada vez mais incapazes de esconder o desconforto que sentem perante a efemeridade da unipolaridade que vigorou a partir da celebrada queda do muro de Berlim; ou de disfar\u00e7ar as saudades da R\u00fassia ca\u00f3tica e d\u00f3cil dos tempos de Ieltsin e outros sucessores de Gorbatchov, os tempos da corrida aos despojos sovi\u00e9ticos, em coliga\u00e7\u00e3o \u00edntima com as mafias nascentes, e que, afinal, n\u00e3o eram t\u00e3o anacr\u00f4nicos e obsoletos como os pintavam.<\/p>\n<p>Tais poderes s\u00e3o incapazes, por iner\u00eancia, de aceitar a derrota da sua estrat\u00e9gia militar de dissemina\u00e7\u00e3o do caos, principalmente no M\u00e9dio Oriente, que encalhou num obst\u00e1culo chamado S\u00edria. N\u00e3o aceitam que o dogma da sua \u00abinvencibilidade\u00bb seja desafiado, nem que se torne necess\u00e1rio ir aos limites aterradores de um conflito sem vencedores, em que todos seremos vencidos.<\/p>\n<p>Por isso, quem tentou montar a maquina\u00e7\u00e3o que nestas linhas ficou demonstrada n\u00e3o deixar\u00e1 de insistir at\u00e9 conseguir p\u00f4-la em marcha.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, o que a realidade destes idos de mar\u00e7o exp\u00f5e \u00e9 a inten\u00e7\u00e3o dos inquestion\u00e1veis donos do mundo, e respectivo bra\u00e7o armado, de n\u00e3o recuarem perante nada, de avan\u00e7arem nem que seja atrav\u00e9s de uma guerra de exterm\u00ednio que j\u00e1 ultrapassou a fase da d\u00favida \u00abse\u00bb para se fixar na d\u00favida \u00abquando\u00bb.<\/p>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o:\u00a0O capit\u00e3o Matt Dvorsky conduz uma inspec\u00e7\u00e3o pr\u00e9-voo de um m\u00edssil ar-ar Sidewinder, na base a\u00e9rea de Nellis Nevada, EUA, antes de uma miss\u00e3o \u00abGreen-Flag-West\u00bb, em 14 de Junho de 2011. As miss\u00f5es assim codificadas constituem um \u00abtreino real\u00edstico\u00bb para situa\u00e7\u00f5es de apoio a opera\u00e7\u00f5es de combate em qualquer ponto do globo. Cr\u00e9ditosU.S. Air Force photo by Airman 1st Class George Goslin\/Released<\/p>\n<hr \/>\n<p>1. Ver \u00ab<a href=\"http:\/\/www.bbc.com\/news\/uk-42770208\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Army<\/a><a href=\"http:\/\/www.bbc.com\/news\/uk-42770208\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u00a0chief calls for investment to keep up with Russia<\/a>\u00bb,\u00a0<em>BBC<\/em>\u00a0(22\/01\/2018). Incompreensivelmente foi escolhida para ilustrar o artigo uma imagem que\u00a0<a href=\"https:\/\/ichef.bbci.co.uk\/news\/624\/cpsprodpb\/17A84\/production\/_99700969_nato_russia_comparison-03.png\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ilustra a superioridade militar da NATO sobre a R\u00fassia e torna rid\u00edcula qualquer ideia de \u00abprimeiro ataque\u00bb russo<\/a>.<\/p>\n<p>2. Ver \u00ab<a href=\"http:\/\/www.bbc.com\/news\/uk-43572319\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">General Sir Nicholas Carter named as Chief of Defence Staff<\/a>\u00bb,\u00a0<em>BBC<\/em>\u00a0(28\/03\/2018)<\/p>\n<p>3. Ver \u00ab<a href=\"https:\/\/www.smh.com.au\/world\/europe\/uk-to-fight-back-against-russia-in-information-war-20180328-p4z6mc.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">UK to fight back against Russia in information war<\/a>\u00bb,\u00a0<em>The Sidney Morning Herald<\/em>\u00a0(28\/03\/2018)<\/p>\n<p>4. A confiss\u00e3o de um ex-ministro da Defesa de Israel\u00a0que conheceu John Bolton quando este era Embaixador dos EUA \u00e0s Na\u00e7\u00f5es Unidas, \u00e9 reveladora da personagem. Ver\u00ab<a href=\"https:\/\/www.rt.com\/news\/422295-bolton-urged-israel-strike-iran\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Israeli ex-defense minister says Trump\u2019s new NSC adviser Bolton was pushing him to strike Iran<\/a>\u00bb,\u00a0<em>RT<\/em>\u00a0(26\/03\/2018).<\/p>\n<p>https:\/\/www.abrilabril.pt\/internacional\/os-dias-de-uma-guerra-apenas-sem-data<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19247\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[234],"class_list":["post-19247","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-50r","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19247","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19247"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19247\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19247"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19247"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19247"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}