{"id":19296,"date":"2018-04-08T12:03:13","date_gmt":"2018-04-08T15:03:13","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=19296"},"modified":"2018-04-08T12:03:13","modified_gmt":"2018-04-08T15:03:13","slug":"a-perversa-combinacao-de-desemprego-e-arrocho-salarial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19296","title":{"rendered":"A perversa combina\u00e7\u00e3o de desemprego e arrocho salarial"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Desemprego.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Paulo Kliass<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/brasil\/a-perversa-combinacao-de-desemprego-e-arrocho-salarial\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Outras Palavras<\/a><\/p>\n<p>Desde 2015, o desemprego quase dobrou no pa\u00eds: de 6,8% para 12% hoje. Elites consideram que sal\u00e1rios est\u00e3o elevados demais. O ingrediente b\u00e1sico do austeric\u00eddio \u00e9 o hiperarrocho dos trabalhadores<\/p>\n<p>A op\u00e7\u00e3o relativa aos rumos para a pol\u00edtica econ\u00f4mica, tal como adotada pelos sucessivos governos a partir de 2015, representou uma verdadeira trag\u00e9dia para a grande maioria da popula\u00e7\u00e3o brasileira. O diagn\u00f3stico equivocado a respeito dos desequil\u00edbrios nas contas p\u00fablicas foi sendo martelado \u00e0 exaust\u00e3o pelos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o e pelos arautos do financismo. Como diz a m\u00fasica, parecia mesmo que \u201ct\u00e1 tudo dominado!\u201d O consenso em torno da agenda conservadora era de tal ordem que Lula chega a sugerir a Dilma o nome de Henrique Meirelles para o Minist\u00e9rio da Fazenda. E ela acaba optando por um gen\u00e9rico e nomeia Joaquim Levy para o cargo no in\u00edcio de seu segundo mandato. O estrago estava a caminho.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia do austeric\u00eddio proposta pelos representantes do sistema financeiro combinava a perversidade da pol\u00edtica monet\u00e1ria hiperarrochada com a irresponsabilidade da pol\u00edtica fiscal tamb\u00e9m contracionista. Ora, essa articula\u00e7\u00e3o de taxa de juros nas estratosferas com cortes draconianos e horizontais nas rubricas or\u00e7ament\u00e1rias significava o in\u00edcio do fim. A insanidade era tamanha que os pr\u00f3prios respons\u00e1veis pela defini\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f4mica promoviam o estrangulamento de qualquer capacidade de se estabelecer uma rea\u00e7\u00e3o ao pren\u00fancio das dificuldades que j\u00e1 se apresentavam na linha do horizonte.<\/p>\n<p>Mas esse era apenas um dos aspectos da receita preferida pela ortodoxia para promover o tal do \u201cajuste\u201d. Ali\u00e1s, esse termo ficou consagrado como a miraculosa panaceia para dar conta de todos os problemas da economia brasileira. Ora, mencionar t\u00e3o somente o termo \u201cajuste\u201d tem o mesmo sentido de sugerir as t\u00e3o badaladas \u201creformas\u201d. Sem a companhia de algum adjetivo ou qualifica\u00e7\u00e3o, tanto o primeiro quanto as \u00faltimas servem para tudo, nada e qualquer coisa. O ponto sens\u00edvel \u00e9 avan\u00e7ar na indaga\u00e7\u00e3o a respeito de que tipo de ajuste ou reforma se est\u00e1 falando.<\/p>\n<p>\u201cUm certo n\u00edvel de desemprego saud\u00e1vel\u201d?<\/p>\n<p>E assim o v\u00e9u da suposta neutralidade da pol\u00edtica econ\u00f4mica se esvai completamente. Afinal, n\u00e3o h\u00e1 proposta t\u00e9cnica e isenta nesse dom\u00ednio. O ajuste recessivo implementado desde ent\u00e3o tinha lado e inten\u00e7\u00e3o. Pouco a pouco, os economistas conservadores passaram a perder a pose e a vergonha. O principal formulador do programa de A\u00e9cio Neves nas elei\u00e7\u00f5es de 2014 era o banqueiro Arm\u00ednio Fraga. Em suas declara\u00e7\u00f5es ele nem mesmo se ruborizava ao afirmar que o desequil\u00edbrio era t\u00e3o forte que se fazia necess\u00e1rio um \u201ccerto n\u00edvel de desemprego saud\u00e1vel\u201d (sic). Outros defensores do establishment financeiro avan\u00e7avam com cr\u00edticas em rela\u00e7\u00e3o aos rendimentos dos trabalhadores e sugeriam que uma das raz\u00f5es da crise residia no elevado n\u00edvel do sal\u00e1rio m\u00ednimo e dos vencimentos dos assalariados de maneira geral.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia mais grave de todo esse processo foi a \u201cnaturaliza\u00e7\u00e3o\u201d da viol\u00eancia e da dor como as \u00fanicas sa\u00eddas para a crise. A narrativa neoliberal buscava culpabilizar aquilo que assinalavam como o populismo e a irresponsabilidade reinantes desde 2003. Dessa forma, em raz\u00e3o dos pecados cometidos, o pa\u00eds haveria de purgar o sofrimento da cura. A recess\u00e3o econ\u00f4mica e a queda no PIB converteram-se em metas a serem atingidas. Esse era o caminho da ortodoxia para promover o seu ajuste. Fal\u00eancias pulverizadas por todos os cantos e desemprego desenfreado seriam efeitos inescap\u00e1veis.<\/p>\n<p>E assim foi feito. Os resultados todos conhecemos muito bem quais foram. Uma das formas pela qual o IBGE mede o desemprego ocorre pela apura\u00e7\u00e3o de uma vari\u00e1vel chamada \u201ctaxa de desocupa\u00e7\u00e3o\u201d. A pesquisa chamada \u201cPNAD cont\u00ednua\u201d registra regularmente o percentual da popula\u00e7\u00e3o desocupada sobre o total da for\u00e7a de trabalho, a chamada popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa (PEA).<\/p>\n<p>Vale a pena recordar que durante o \u00faltimo trimestre de 2013, ela estava em seu mais baixo n\u00edvel hist\u00f3rico: 6,2%. Ao longo de 2014, houve uma ligeira eleva\u00e7\u00e3o, mas ela terminou ainda em 6,5%. A economia seguia bem e o n\u00edvel de atividade era bastante razo\u00e1vel. No entanto, a op\u00e7\u00e3o pelo ajuste recessivo, na forma do austeric\u00eddio, terminou por comprometer esse quadro de aparente tranquilidade. Os lucros dos bancos e os ganhos dos setores do topo da pir\u00e2mide s\u00f3 fizeram crescer durante o aprofundamento da crise.<\/p>\n<p>P\u00f3s austeric\u00eddio: desemprego aumenta 50%<\/p>\n<p>Ao longo de 2015, o desemprego explode e aumenta de quase 50%: ele sai de 6,8% no in\u00edcio do ano e termina em 9,0% no \u00faltimo trimestre. Em 2016, a recess\u00e3o se aprofunda ainda mais e a taxa de desocupa\u00e7\u00e3o fecha o ano em 12%. Em 2017 ela chega a atingir o pico de 13,7% e depois se estabiliza em um patamar em torno de 12%. Ocorre que, para al\u00e9m dos n\u00fameros frios e das estat\u00edsticas, essa realidade evidenciava a piora na qualidade de vida da grande maioria de pessoas e fam\u00edlias, que haviam obtido melhorias significativas desde as mudan\u00e7as implementadas a partir de 2003. Mas o desemprego foi tratado como uma fatalidade inescap\u00e1vel e o pr\u00f3prio governo Dilma parecia ignorar o drama social instalado. O ministro do Planejamento Nelson Barbosa, por exemplo, \u00e0s v\u00e9speras do golpeachment defendia medidas para retirar direitos dos trabalhadores, como abono salarial, seguro desemprego e pens\u00e3o por morte.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da taxa de ocupa\u00e7\u00e3o como medida do desemprego, o IBGE tamb\u00e9m pesquisa e divulga outros indicadores que retratam a precariedade do mercado de trabalho, em especial nos momentos de crise. Esse \u00e9 o caso da chamada \u201ctaxa de subutiliza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho\u201d. Por meio de tal informa\u00e7\u00e3o, pode-se avaliar o impacto das condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas sobre as condi\u00e7\u00f5es de vida daqueles que s\u00f3 possuem a capacidade de trabalhar como fonte de sobreviv\u00eancia. Com isso, a taxa de subutiliza\u00e7\u00e3o incorpora tamb\u00e9m os desocupados, os subocupados por insufici\u00eancia de horas e os que fazem parte da for\u00e7a de trabalho potencial. Assim, mesmo que a pessoa n\u00e3o se declare \u201cdesempregada\u201d na pesquisa, fica evidenciado que est\u00e1 se sujeitando a condi\u00e7\u00f5es anormais para assegurar algum rendimento no final do m\u00eas.<\/p>\n<p>As informa\u00e7\u00f5es relativas ao final de 2017 apontam para uma taxa de subutiliza\u00e7\u00e3o de 23,6% em rela\u00e7\u00e3o ao total da PEA. Isso representa um contingente expressivo de 26,4 milh\u00f5es de pessoas. Apenas a t\u00edtulo de compara\u00e7\u00e3o, a mesma taxa atingiu seu m\u00ednimo de 14,9% no final de 2013, exatamente quando o desemprego estava tamb\u00e9m no mais baixo n\u00edvel 6,2%. Mas o discurso oficial e a \u201cintelligentsia\u201d financista n\u00e3o parecem muito preocupados com os efeitos colaterais de tal esc\u00e2ndalo social e econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Brinde \u00e0 precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p>O governo Temer prop\u00f4s o radicaliza\u00e7\u00e3o de tal tend\u00eancia, com a Reforma da Previd\u00eancia e a flexibiliza\u00e7\u00e3o da CLT. Ao inv\u00e9s de sugerir medidas de suaviza\u00e7\u00e3o dos efeitos da recess\u00e3o sobre o mercado de trabalho, as propostas de pol\u00edticas p\u00fablicas apontam no sentido contr\u00e1rio. O contorcionismo ret\u00f3rico \u00e9 tanto que a precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es trabalhistas ganham nova roupagem sob o manto da narrativa do empreendedorismo. Assim, passam a ser exaltadas as virtudes e as qualidades dos indiv\u00edduos que passam a vender pipoca ou produtos\/servi\u00e7os semelhantes no limite da informalidade. Pouco importa se o analista est\u00e1 diante de uma pessoa que cansou de procurar um posto de trabalho, depois de ter sido desempregada. O que vale ressaltar para os cabe\u00e7as de planilha \u00e9 o esp\u00edrito meritocr\u00e1tico dos que v\u00eam de baixo. Afinal, isso s\u00f3 demonstra como a din\u00e2mica do mercado sempre apresenta uma solu\u00e7\u00e3o de equil\u00edbrio \u00f3timo para todos.<\/p>\n<p>O financismo se mostra sempre muito preocupado com aspectos como \u201ccusto Brasil\u201d, \u201ccarga tribut\u00e1ria\u201d, necessidade de desonera\u00e7\u00e3o, justa remunera\u00e7\u00e3o dos ativos, entre tantos outros. Clama por todos os lados a exigir responsabilidade fiscal, mas sempre orienta a separar a sua parte privilegiada no bolo dos recursos p\u00fablicos. Mas quando se trata de sugerir medidas na \u00e1rea social, impera o sil\u00eancio. Medidas para retomar o caminho do crescimento e do desenvolvimento com o protagonismo do setor p\u00fablico s\u00e3o descartadas a priori. Pelo contr\u00e1rio, os elogios v\u00e3o sempre para o caminho do desmonte do Estado e do corte de verbas da \u00e1rea social.<\/p>\n<p>E assim o drama do desemprego continua sua saga de esc\u00e2ndalo sempre ignorado pelas elites endinheiradas de nosso triste Brasil.<\/p>\n<p>https:\/\/outraspalavras.net\/brasil\/a-perversa-combinacao-de-desemprego-e-arrocho-salarial\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19296\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[190],"tags":[233],"class_list":["post-19296","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-fora-temer","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-51e","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19296","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19296"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19296\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19296"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19296"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19296"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}