{"id":19446,"date":"2018-04-23T20:06:12","date_gmt":"2018-04-23T23:06:12","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=19446"},"modified":"2018-04-23T20:06:12","modified_gmt":"2018-04-23T23:06:12","slug":"nelson-pereira-dos-santos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19446","title":{"rendered":"Nelson Pereira dos Santos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pipocamoderna.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Nelson-Pereira-dos-Santos3.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Joaquim Ferreira*<\/p>\n<p>Nascido em S\u00e3o Paulo, em 22 de outubro de 1928, Nelson Pereira dos Santos iniciou suas experi\u00eancias com o cinema na d\u00e9cada de 1940. Advogado de forma\u00e7\u00e3o, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1950 veio para o Rio de Janeiro e, a partir desse momento, inaugura o caminho que o tornaria um dos mais admir\u00e1veis diretores do cinema brasileiro.<\/p>\n<p>Cineasta engajado politicamente, marcou a hist\u00f3ria do cinema nacional como integrante ativo de diversos movimentos sociais e cinematogr\u00e1ficos. Conforme o pr\u00f3prio Nelson indicou, &#8220;foram os dez anos de minha forma\u00e7\u00e3o, do gin\u00e1sio \u00e0 Faculdade de Direito, uma viagem a Paris, o casamento, servi\u00e7o militar, cineclubes, Juventude Comunista, primeiro emprego em jornal, primeiro filme (&#8230;) Estava impregnado da certeza de que o Brasil encontraria o bom caminho para ter uma sociedade mais rica e mais justa.(&#8230;)&#8221;.<\/p>\n<p>Nelson oficialmente fez 27 filmes, destacando-se nessa produ\u00e7\u00e3o: &#8220;Boca de Ouro&#8221;(1955) , &#8220;Rio, 40 Graus&#8221; (1955), &#8220;Vidas Secas&#8221; (1963), &#8220;Rio, Zona Norte&#8221;(1957), &#8220;Amuleto de Ogum (1974)&#8221; e &#8220;Mem\u00f3rias do C\u00e1rcere&#8221; (1984), destaques que s\u00e3o refer\u00eancia da originalidade da obra de Nelson por conta da perspectiva das camadas populares na condu\u00e7\u00e3o das narrativas, criando assim a base da est\u00e9tica do Cinema Novo no pa\u00eds, movimento do qual Nelson foi um dos precursores e autores mais destacados.<\/p>\n<p>Foi membro do Partido Comunista Brasileiro nos anos de 1940 e 1950, tendo atuado em escolas de forma\u00e7\u00e3o. Conforme depoimento do pr\u00f3prio cineasta em 2007: &#8220;\u00c9 importante assinalar que, para mim, e acredito tenha sido para muita gente, o Partido foi uma outra universidade. Uma universidade pelo avesso, pois questionava a vers\u00e3o tradicional da hist\u00f3ria do Brasil, por exemplo. Outra coisa que o Partido proporcionou foi um conv\u00edvio amplo com pessoas de classes sociais, origens e forma\u00e7\u00f5es diferentes (&#8230;) &#8220;.<\/p>\n<p>Em 1950, fez o curta \u201cJuventude\u201d, sobre trabalhadores de S\u00e3o Paulo, destinado \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o num encontro da Juventude Comunista em Berlim Oriental e cujo negativo foi perdido. Essa experi\u00eancia, para Nelson, foi a sua descoberta para o cinema. Em 1951, escreveu na antiga revista \u201cFundamentos\u201d, que era preciso inventar uma cinematografia que refletisse \u201cna tela a vida, as hist\u00f3rias, as lutas e aspira\u00e7\u00f5es do povo brasileiro&#8221;.<\/p>\n<p>Em 1955, com a conclus\u00e3o de \u201cRio, 40 graus&#8221;, Nelson j\u00e1 indicava a trajet\u00f3ria pol\u00edtica que marcaria sua carreira. Filme proibido com o pretexto de ser filme de &#8220;comunista&#8221;, segundo a censura da \u00e9poca, o pr\u00f3prio PCB liderou uma campanha exitosa para retirar a censura ao filme, que foi lan\u00e7ado em mar\u00e7o de 1956. Outros dois filmes importantes da obra de Nelson Pereira dos Santos retomam, em momentos distintos, duas obras do escritor alagoano Graciliano Ramos(1892-1953) outro destacado militante do PCB: &#8220;Vidas Secas&#8221;, de 1938, e &#8221; Mem\u00f3rias do C\u00e1rcere&#8221;, de 1953, transformadas em filmes em 1963 e 1984, respectivamente.<\/p>\n<p>Em 1963, no per\u00edodo de efervesc\u00eancia pol\u00edtica e cultural que antecedeu o golpe que mergulharia o pais na ditadura pol\u00edtico-militar de 1964, Nelson lan\u00e7ou &#8220;Vidas Secas&#8221;, um dos mais importantes filmes cinemanovistas. Indicado \u00e0 Palma de Ouro em Cannes em 1964, &#8220;Vidas Secas&#8221; abordava pelo cinema os problemas sociais do Brasil. O filme prima pela honestidade intelectual de Nelson na adapta\u00e7\u00e3o da obra de Graciliano para o cinema. Quem leu o livro de Graciliano Ramos percebe a perfeita sincronia entre as duas representa\u00e7\u00f5es: roteiro preciso, filme conciso, seco, econ\u00f4mico nos di\u00e1logos, tal qual o estilo de Graciliano, mas perfeito nas lentes que, sem recursos artificiais, integram imagem, som e texto de forma equilibrada. Os \u00fanicos excessos s\u00e3o o retratos da desumaniza\u00e7\u00e3o, da imensa mis\u00e9ria, exclus\u00e3o e viol\u00eancia sociais retratadas no filme, bem ao neorrealismo italiano, refer\u00eancia importante do estilo de Nelson Pereira dos Santos. Assim, o diretor mostrava que era poss\u00edvel contar hist\u00f3rias com atores n\u00e3o profissionais, cen\u00e1rios externos e escassos recursos. O filme &#8220;Vidas Secas&#8221; transformou-se num elemento a mais para pensar o Brasil dos anos 1960.<\/p>\n<p>Na adapta\u00e7\u00e3o de Mem\u00f3rias do C\u00e1rcere em 1984, para o cinema, Nelson retorna a Graciliano Ramos e a sua autobiografia sobre o Estado Novo. Premiado nos Festivais de Cannes e Havana do mesmo ano, o diretor, na realidade, apresenta uma imagem atemporal das ditaduras, das persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e dos problemas cr\u00f4nicos da Rep\u00fablica brasileira, construindo um retrato social do Brasil, que vivia, naquele momento, os anos finais da ditadura militar. E de acordo com Nelson, &#8220;no Brasil estava acontecendo o movimento pelas &#8216;Diretas j\u00e1&#8217;. Vidas Secas aconteceu no come\u00e7o da ditadura e Mem\u00f3rias do c\u00e1rcere festejou o final&#8221;.<\/p>\n<p>Com a morte de Nelson Pereira dos Santos, o Brasil fica mais vazio intelectualmente. Morreu uma parte significativa do pensamento contempor\u00e2neo brasileiro expressado por uma rela\u00e7\u00e3o da arte com a cultura popular que transcende a tela e trata o cinema n\u00e3o como mero entretenimento cultural, mas como arte que possibilita uma an\u00e1lise profunda da realidade e aponta para a necessidade de sua radical transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>*Coordenador do cineclube Lumi\u00e8re Loucos por Cinema (Lumiar) e militante do PCB de Nova Friburgo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19446\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[234],"class_list":["post-19446","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-53E","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19446","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19446"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19446\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19446"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19446"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19446"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}