{"id":19448,"date":"2018-04-24T20:30:47","date_gmt":"2018-04-24T23:30:47","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=19448"},"modified":"2018-04-24T20:30:47","modified_gmt":"2018-04-24T23:30:47","slug":"50-anos-das-greves-de-contagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19448","title":{"rendered":"50 anos das Greves de Contagem!"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/iuVVnmj4jGxUYsVUkOaMe5qhtWAZdBz2kOZQATyyqJzVMywrk89uVSgPWfdLDu7Gn69VEG7t6ENM0qRLq1I5BPvxVEcBNJNsIDM4MJycx73LOB7YnisEZoFrD0_-vs_FZ9OpKr0rfWX6AQV8eOtIx-bJlLnb1Td-KsaXCSx_ObFbMFnI3Clg_2_DMPwEWk96MVV3IviSjCscXEk0-7pgFmyI3JAOqXZ8Y0PDtWsO8J5u3HFkzeCQnJYd7sXC82lKAYY97kbKRttrnrtbwejRfmaarOB82c0GbUHy6mul2beJahsTeis0yf5dd87YTdUgYFSt1Ril67DJXXlSHjLofZR9AkkN1hoLzfalPJeVxTCf4OhOvN-UuDrirqDuIOTrINsJvvblhmkaHdXNF4mUinqzEWfI3NoDtEAyJHhFlTYXhJKxuo7pcG0bE9a6PQo29trp1HMewy3g2m-TN7nV1SVLDmIhRKPzaksq0dpfrj3nbh1rfpSWxYx0EIFg0j0ola0Kyk4g7_F6U9HaVNUMaBps28Hak-tc8GO-3tgH6sWUPy7vZ5TXWHvGL56eD22zNiKTwNnzu0cjhaqqgnRsVjpRtq1AEUIQbABzkwk=w275-h183-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><strong>A Ousadia que Desafiou a Ditadura Militar!<\/strong><\/p>\n<p>F\u00e1bio Bezerra*<\/p>\n<p>Em abril de 1968, h\u00e1 exatos 50 anos, o movimento sindical desafiava o estado de exce\u00e7\u00e3o instaurado com o golpe civil-militar em 1964. A greve dos trabalhadores(as) da cidade industrial de Contagem colocava em evid\u00eancia a pol\u00edtica de arrocho salarial e a redu\u00e7\u00e3o de direitos sociais, condi\u00e7\u00f5es imprescind\u00edveis da pol\u00edtica econ\u00f4mica da Ditadura \u00e1 \u00e9poca. As greves oper\u00e1rias em Contagem (abril) e em Osasco (julho), ocorridas em 1968, demarcaram um per\u00edodo importante da luta sindical no Brasil e da resist\u00eancia \u00e0 Ditadura Militar.<\/p>\n<p>Em 16 de abril iniciava-se a greve dos trabalhadores metal\u00fargicos numa se\u00e7\u00e3o da Companhia Belgo-Mineira, mobilizando cerca de 1200 oper\u00e1rios! Mas, ao contr\u00e1rio do que alguns historiadores sustentam e alguns jornais \u00e0 \u00e9poca procuraram evidenciar, o movimento paredista n\u00e3o foi espont\u00e2neo, nem aut\u00f4nomo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que atuavam no movimento sindical em Contagem.<\/p>\n<p>Segundo o dirigente sindical do PCB e diretor do Sindicato dos Tecel\u00f5es no per\u00edodo, camarada Jos\u00e9 Francisco N\u00e9ris, a greve : \u201c(&#8230;) foi preparada com anteced\u00eancia, ao menos contou com a participa\u00e7\u00e3o de militantes do PCB, da Polop e do PCBR e alguns da ALN que desenvolviam algum tipo de trabalho nas bases, denunciando a pol\u00edtica de arrocho e as constantes investidas do governo\u201d.<\/p>\n<p>Em 1967 o Departamento Regional do Trabalho tentou impugnar o nome que encabe\u00e7ava a chapa de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 diretoria do Sindicato dos Metal\u00fargicos de Contagem, dirigida naquele momento por pessoas de confian\u00e7a da DRT e dos patr\u00f5es. \u00canio Seabra, destacado militante oper\u00e1rio que atuava na Mannesman, ent\u00e3o a maior metal\u00fargica do Estado de Minas, teve seu nome impugnado pela DRT, mas isso n\u00e3o impediu que se formasse a chapa de oposi\u00e7\u00e3o, que continha membros do PCB e foi vitoriosa nas elei\u00e7\u00f5es sindicais. A chapa contava com uma plataforma ousada e que contrariava o regime ditatorial. Expuls\u00e3o dos pelegos, oposi\u00e7\u00e3o ao fim da estabilidade para a implementa\u00e7\u00e3o do FGTS e ao arrocho salarial, organiza\u00e7\u00e3o de n\u00facleos de base nas f\u00e1bricas eram algumas das propostas da chapa vitoriosa.<\/p>\n<p>Ainda em 1967, segundo N\u00e9ris, alguns sindicatos em Minas tentaram formar uma Frente Sindical para combater a pol\u00edtica de arrocho salarial. Diversas lideran\u00e7as oper\u00e1rias do campo da oposi\u00e7\u00e3o haviam sido demitidas arbitrariamente e ou estavam na clandestinidade devido as persegui\u00e7\u00f5es do DOPS. Mesmo com toda a repress\u00e3o, o Comit\u00ea Intersindical Anti Arrocho foi criado no in\u00edcio de 1968, tendo o apoio de setores ligados \u00e0 Pastoral Oper\u00e1ria.<\/p>\n<p>A agita\u00e7\u00e3o de base se intensificava, at\u00e9 porque : \u201c(&#8230;) as correntes partid\u00e1rias que estavam na clandestinidade faziam intensa propaganda anti-arrocho e em defesa da Greve\u201d. E o que se iniciou em uma assembleia dos oper\u00e1rios da Belgo na manh\u00e3 do dia 16, como rastilho de p\u00f3lvora se espalhou por toda a cidade industrial, que naquele per\u00edodo contava com cerca de 18 mil oper\u00e1rios em um munic\u00edpio que tinha 28 mil moradores. Segundo N\u00e9ris, o Sindicato dos Metal\u00fargicos rapidamente tomou a frente nas negocia\u00e7\u00f5es com o governo. O PCB possu\u00eda tr\u00eas dirigentes na Diretoria (Ant\u00f4nio, Joaquim Fonseca e Gaspar), os quais, nas assembleias, sempre garantiam a palavra ao diretor cassado, \u00c9nio Seabra, que se destacou na condu\u00e7\u00e3o do movimento. Foi apresentada a proposta de reajuste de 10% no sal\u00e1rio base, a melhoria das condi\u00e7\u00f5es de trabalho e a n\u00e3o persegui\u00e7\u00e3o aos oper\u00e1rios paralisados.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s uma semana de impasses, o Ministro do Trabalho do Regime Militar, General Jarbas Passarinho, foi pessoalmente a Contagem e pediu a palavra em uma assembleia grevista, que j\u00e1 extrapolava os limites de Contagem e chegava as f\u00e1bricas de Belo Horizonte e Sabar\u00e1. O receio que o movimento se ampliasse para outros polos industriais preocupava o governo, apesar de toda a censura e a repress\u00e3o.<\/p>\n<p>Para a Ditadura, a continuidade da Greve seria \u201co in\u00edcio da guerra\u201d, nas palavras de Jarbas Passarinho! A Pol\u00edcia Militar do Estado de Minas foi acionada e diversos regimentos do interior se mobilizaram e ocuparam as ruas da cidade Industrial, reprimindo as assembleias de turno de forma violenta! No mesmo dia, diversas dilig\u00eancias da PM, em conjunto com as chefias das f\u00e1bricas, percorreram as vilas oper\u00e1rias intimando os trabalhadores e as trabalhadoras a retornar ao trabalho, sob pena de demiss\u00e3o sum\u00e1ria. O Sindicato foi ocupado pelas tropas da PM, e diversos diretores foram presos e torturados. O governo e os patr\u00f5es partiam para a contraofensiva.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que muitos esperavam, a greve continuou na maioria das f\u00e1bricas. Nas que retornaram, sob coer\u00e7\u00e3o brutal, muitos oper\u00e1rios paralisavam as atividades em turnos espec\u00edficos, por v\u00e1rias horas em protesto contra as pris\u00f5es arbitr\u00e1rias e a repress\u00e3o violenta. H\u00e1 relatos de que, em muitos bairros oper\u00e1rios, ocorreram o toque de recolher, ap\u00f3s as 20 horas, como forma de se tentar evitar reuni\u00f5es clandestinas dos grevistas.<\/p>\n<p>Mas de nada adiantou: o movimento paredista continuava. As v\u00e9speras do 1\u00ba de Maio, o General Costa de Silva, que ocupava a presid\u00eancia, anunciou em cadeia de r\u00e1dio a extens\u00e3o do abono salarial de 10% para todos os trabalhadores no Brasil. Naquele momento, chegava ao fim a primeira grande greve de resist\u00eancia pol\u00edtica e com reivindica\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora no per\u00edodo da Ditadura Militar. Apesar de n\u00e3o terem conquistado todas as reivindica\u00e7\u00f5es e o sindicato ter ficado durante anos sob interven\u00e7\u00e3o da DRT, o dirigente sindical Jos\u00e9 Francisco N\u00e9ris considerou o feito uma grande vit\u00f3ria da classe trabalhadora e das organiza\u00e7\u00f5es de esquerda, pois : \u201c(&#8230;) muitos n\u00e3o acreditavam que seria poss\u00edvel uma vit\u00f3ria e, para n\u00f3s, ter conseguido aquele reajuste, mesmo sendo um abono, naquelas condi\u00e7\u00f5es, foi uma grande vit\u00f3ria da resist\u00eancia e da unidade(&#8230;)\u201d.<\/p>\n<p>Mais do que o reajuste, a greve exp\u00f4s os limites e a trucul\u00eancia do Regime, possibilitou aos oper\u00e1rios em Contagem experimentar o empenho da ousadia e descobrir a for\u00e7a do movimento de massas. Ainda haveria outra greve naquele ano, mais precisamente em outubro, de menor dura\u00e7\u00e3o, mas com significativa intensidade (chegou a mobilizar 20 mil oper\u00e1rios). Nesse per\u00edodo, comiss\u00f5es de f\u00e1brica foram organizadas para operacionalizar as a\u00e7\u00f5es grevistas e driblar a repress\u00e3o, grupos de autodefesa tamb\u00e9m foram organizados para proteger os dirigentes das comiss\u00f5es de f\u00e1bricas nas assembleias e nas negocia\u00e7\u00f5es, e um fundo de reserva criado para manter as fam\u00edlias dos oper\u00e1rios contou com a solidariedade de outras categorias e sindicatos.<\/p>\n<p>Em julho de 1968 ocorreria, em Osasco, uma greve dos metal\u00fargicos que teve in\u00edcio na Cobrasma e mobilizou milhares de oper\u00e1rios. Tudo indica que, meses antes, lideran\u00e7as do movimento sindical em Osasco estiveram em contato com as lideran\u00e7as mais destacadas da greve de Contagem, para apreenderem as t\u00e1ticas de mobiliza\u00e7\u00e3o, agita\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o da greve.<\/p>\n<p>O lastro de resist\u00eancia e ousadia se espalhava pelos centros industriais do pa\u00eds, e isso atemorizava tanto a burguesia quanto o Regime Militar, que j\u00e1 se preocupava com as constantes manifesta\u00e7\u00f5es estudantis e o crescente movimento de oposi\u00e7\u00e3o que se organizava no pa\u00eds. Era, pois, necess\u00e1rio para os golpistas desenvolver outra estrat\u00e9gia para reprimir as manifesta\u00e7\u00f5es de oposi\u00e7\u00e3o e garantir a continuidade do ciclo de reformas conservadoras em curso.<\/p>\n<p>Em 13 de dezembro daquele mesmo ano, o Regime Militar decretada o famigerado Ato Institucional n\u00ba 05 (AI-5) que suspendia o Congresso, fechava partidos, restringia direitos pol\u00edticos e civis e sepultava os \u00faltimos resqu\u00edcios de democracia no pa\u00eds. Dezenas de sindicalistas e dirigentes foram, a pretexto da Lei de Seguran\u00e7a Nacional, presos e exterminados. O direito \u00e0 greve, na pr\u00e1tica, era suspenso e os sindicatos eram fechados ou sofriam interven\u00e7\u00e3o, o que sacramentaria um longo per\u00edodo de ostracismo e derrotas do movimento popular, em especial o movimento oper\u00e1rio e sindical brasileiro. Apenas com a intensifica\u00e7\u00e3o da crise econ\u00f4mica em fins da d\u00e9cada de 1970, mais precisamente 10 anos ap\u00f3s as greves de 1968, foi poss\u00edvel ver ressurgir com significativa for\u00e7a a luta sindical, mais aut\u00f4noma e cr\u00edtica.<\/p>\n<p>As greves de Contagem e Osasco foram greves hist\u00f3ricas e que merecem ser celebradas, estudadas e divulgadas como exemplos de resist\u00eancia, coragem e ousadia necess\u00e1rias \u00e0 luta dos(as) trabalhadores(as) e que, mesmo em conjunturas adversas, cujos cen\u00e1rios sejam profundamente desfavor\u00e1veis, nada deve parecer ser imposs\u00edvel de mudar, tampouco menosprezar o trabalho diuturno do justo combate de ideias e a\u00e7\u00f5es incisivas, pois sempre haver\u00e1 a possibilidade de a indigna\u00e7\u00e3o despertar, na mente e nos cora\u00e7\u00f5es, a revolta que materializa os sonhos em realidade e que p\u00f5e em movimento a roda da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>*Professor de Filosofia e membro do Comit\u00ea Central do PCB<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19448\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50,56],"tags":[233],"class_list":["post-19448","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","category-c67-greve","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-53G","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19448","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19448"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19448\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19448"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19448"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19448"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}