{"id":19518,"date":"2018-04-30T17:57:14","date_gmt":"2018-04-30T20:57:14","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=19518"},"modified":"2018-04-30T17:57:14","modified_gmt":"2018-04-30T20:57:14","slug":"o-caso-santrich-preocupantes-coincidencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19518","title":{"rendered":"O caso Santrich: preocupantes coincid\u00eancias"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resumenlatinoamericano.org\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/viktor-bout-mercader-muerte-644x362-620x362.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Por Juan Carlos Vallejo, Resumen Latinoamericano, 25 de abril de 2018<\/p>\n<p>Afirmava o peri\u00f3dico El Tiempo (Col\u00f4mbia, 11 de abril de 2018), referindo-se \u00e0 pris\u00e3o de Jes\u00fas Santrich (partido FARC): \u201cA opera\u00e7\u00e3o \u00e9 similar a duas emblem\u00e1ticas nas quais a DEA conseguiu capturar os maiores traficantes de armas do mundo: Monzer Al Kazar e V\u00edctor Bout. Nessas capturas, os agentes se fizeram passar por narcotraficantes relacionados com as FARC\u201d. (1)<\/p>\n<p>Que pena, por\u00e9m, isso n\u00e3o foi de todo assim. Em ambos os casos, a DEA suplantou membros das FARC-EP para alcan\u00e7ar sua miss\u00e3o. E no caso de Viktor Bout, tudo foi uma grande montagem. E me parece que o de Santrich vai pelo mesmo caminho e que Marlon Mar\u00edn foi levado contra sua vontade.<\/p>\n<p>Segundo a revista The New Yorker (8 de fevereiro de 2010), Monzer Al Kazar, traficante de drogas e armas de nacionalidade s\u00edria, desempenhou um papel a favor dos interesses dos Estados Unidos no esc\u00e2ndalo Ir\u00e3-Contras vendendo, em 1987, armas aos Contras da Nicar\u00e1gua pelo que recebeu pagamento do militar estadunidense Ol\u00edver North; por\u00e9m, foi \u00fatil para o imp\u00e9rio at\u00e9 2007 quando, para justificar sua \u201cguerra contra o terrorismo\u201d, dois \u201cmembros\u201d das FARC-EP, \u201cCarlos\u201d e \u201cLuis\u201d (na realidade dois guatemaltecos a servi\u00e7o da DEA) apareceram em sua casa para comprar armas. Toda a opera\u00e7\u00e3o foi gravada com c\u00e2meras escondidas. Depois, a DEA tirou da pris\u00e3o um reconhecido criminoso, \u201cSamir\u201d, para que servisse de isca e fizesse a presa se mover para um pa\u00eds seguro, onde pudesse ser pego. Monzer Al Kazar foi capturado em Madri, extraditado aos Estados Unidos e condenado em 2008 a uma pena de 30 anos. (2)<\/p>\n<p>Viktor Bout<\/p>\n<p>Viktor Bout, ex-militar e pr\u00f3spero comerciante nascido na ex-Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, iniciou seu neg\u00f3cio de transporte de carga com importa\u00e7\u00f5es de diversos produtos para as ex-rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas; caiu em desgra\u00e7a quando entrou para o transporte de armas \u2013 que n\u00e3o era proibido para seu tipo de empresa \u2013 para o Afeganist\u00e3o e rep\u00fablicas africanas desobedientes aos interesses da Gr\u00e3-Bretanha ou Estados Unidos e ante as quais hoje a Corte Penal Internacional se endurece por n\u00e3o terem assinado o Tratado de Roma.<\/p>\n<p>Estudando o caso de Juvenal Ovidio Ricardo Palmera, \u201cSim\u00f3n Trinidad\u201d, membro das FARC-EP extraditado da Col\u00f4mbia em 2004 e condenado nos Estados Unidos (2008) por um crime que n\u00e3o cometeu, cheguei ao dossi\u00ea de Bout e \u00e0 infame fabrica\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica e jur\u00eddica da DEA contra ele. (3)<\/p>\n<p>Tanto para Sim\u00f3n Trinidad como para Viktor Bout, a palavra justi\u00e7a foi mais que distante, totalmente negada. Uma norma fundamental nos tratados de extradi\u00e7\u00e3o obriga que antes da solicita\u00e7\u00e3o de extradi\u00e7\u00e3o se deva fazer uma declara\u00e7\u00e3o oficial de todas as acusa\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que quando algu\u00e9m \u00e9 extraditado para os Estados Unidos da Am\u00e9rica, a corte dos Estados Unidos n\u00e3o pode acrescentar nenhuma acusa\u00e7\u00e3o adicional ante a justi\u00e7a do pa\u00eds que vai extraditar a pessoa. No entanto, Sim\u00f3n foi preso por tr\u00e1fico de drogas e lavagem de dinheiro (todas as acusa\u00e7\u00f5es foram retiradas) e o condenaram por conspirar para manter tr\u00eas empres\u00e1rios estadunidenses como ref\u00e9ns. Esta \u00faltima acusa\u00e7\u00e3o n\u00e3o estava na peti\u00e7\u00e3o de extradi\u00e7\u00e3o apresentada e, al\u00e9m disso, os empres\u00e1rios eram prisioneiros de guerra conforme o Direito Internacional Humanit\u00e1rio (III Conv\u00eanio de Genebra, T\u00edtulo I, Art\u00edgo 4\u00b0, se\u00e7\u00e3o A, n\u00fameros 4 y 5). (4)<\/p>\n<p>O calv\u00e1rio de Viktor Bout come\u00e7a no ano de 1998, com a demoniza\u00e7\u00e3o de sua figura atrav\u00e9s de uma fabrica\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica que o apresentava como um magnata, um mercen\u00e1rio inescrupuloso e frio. No ano 2000, o ex-investigador belga das Na\u00e7\u00f5es Unidas, Johan Peleman \u2013 que se autoqualificava como \u201cespecialista em armas\u201d, mas n\u00e3o sabia que uma AK-47 e uma Kalashnikov eram a mesma coisa \u2013 contribui para a destruir a reputa\u00e7\u00e3o de Bout. Peleman afirmava que Bout tinha comprado em um ano 60 avi\u00f5es. Inventaram um s\u00f3cio para Viktor, Richarad Chichakli, um contador p\u00fablico que em um v\u00eddeo postado por ele no YouTube, na clandestinidade, alega que todo v\u00ednculo com o com\u00e9rcio de armas \u00e9 falso. Chichakli conheceu Bout 15 anos atr\u00e1s e sua rela\u00e7\u00e3o foi amistosa e empresarial legal.<\/p>\n<p>Entre 2005 e 20007, surgem um filme e um livro: \u201cO Senhor da Guerra\u201d protagonizado por Nicolas Cage (5) e os publicistas Stephen Brown e Douglas Farah publicam o livro \u201cO Mercador da Morte\u201d (em refer\u00eancia a Bout). O bombardeio midi\u00e1tico foi implac\u00e1vel: todos os dias eram produzidos artigos, eram descontextualizadas fotografias onde o apresentavam como um traficante de armas quando, na realidade, era um observador passivo frente \u00e0 presen\u00e7a de militares do governo desses pa\u00edses com os quais estava fazendo ou buscando fazer neg\u00f3cios. Bout se deixava fotografar em todas as partes porque n\u00e3o tinha nada a esconder. Inventavam v\u00e1rios codinomes para ele e que tinha 15 passaportes. Depois, at\u00e9 videogames apareceram com sua figura de \u201cmau\u201d. Toda esta propaganda suja contra Bout come\u00e7a a surgir efeito e v\u00e1rios pa\u00edses fecham suas portas ao \u201cvil\u00e3o\u201d. (6)<\/p>\n<p>O que vemos com o caso de Jes\u00fas Santrich? O mesmo aparato de propaganda midi\u00e1tica em r\u00e1dio, televis\u00e3o e imprensa desaforado, desbocado e totalmente inclinado a apresent\u00e1-lo como culpado sem ser vencido em ju\u00edzo. Sem que apresentem sequer as provas completas e em contexto que dizem ter. Inclusive, a circular da Interpol o denomina em ingl\u00eas como \u201cfugitive\u201d [fugitivo] e em espanhol como \u201cpr\u00f3fugo\u201d [perseguido]. Isso n\u00e3o \u00e9 por acaso um pr\u00e9-julgamento? Al\u00e9m disso, quem deve ordenar a captura \u00e9 um juiz ou um promotor colombiano, e n\u00e3o a Interpol. Nem sequer se tinha nomeado o juiz nos Estados Unidos e foi o muito questionado \u201cGrande J\u00fari\u201d \u2013 muito criticado por exonerar policiais que matam os negros \u2013 quem proferiu a decis\u00e3o de acusar Santrich. A figura medieval inglesa do \u201cGrande J\u00fari\u201d n\u00e3o existe no ordenamento jur\u00eddico colombiano.<\/p>\n<p>Surpreende e preocupa tamb\u00e9m a enorme coincid\u00eancia com o caso Bout a presen\u00e7a de Nicolas Cage na Col\u00f4mbia (1\u00b0 de abril de 2018), s\u00f3 uns dias antes da captura de Santrich. N\u00e3o pelo ator em si, mas pelo que veio fazer. Cito a RCN (7), se\u00e7\u00e3o \u201cSuperlike\u201d:<\/p>\n<p>\u201cSegundo se deu conhecer, o motivo de sua vita est\u00e1 relacionado diretamente com a rodagem de seu novo filme \u2018Running with the devil\u2019, a qual narraria a hist\u00f3ria de hum agente da DEA\u201d. L\u00ea-se em The Hollywood Reporter (3 de mar\u00e7o de 2018): \u201cNicolas Cage ser\u00e1 a estrela no filme de a\u00e7\u00e3o e drogas \u2018Correndo com o diabo\u2019\u201d. O filme foi escrito e \u00e9 dirigido por Jason Cabell. Mais adiante, diz: \u201cCabel se baseou em suas experi\u00eancias da vida real \u2013 trabalhava com a DEA na Col\u00f4mbia e serviu em mais de 100 pa\u00edses, incluindo o Iraque \u2013 disseram as fontes ao The Hollywood Reporter\u201d. (8)<\/p>\n<p>Ao que parece, a trama do filme de Cabell consiste em um carregamento de coca\u00edna que viaja desde as selvas da Col\u00f4mbia, passando pelo M\u00e9xico, Estados Unidos e Canad\u00e1. Assim, o her\u00f3i do filme deve descobrir as rotas da entrega controlada. N\u00e3o se surpreendam se o vil\u00e3o do filme for cego! Por\u00e9m, sigamos com Bout\u2026<\/p>\n<p>Viktor Bout estava praticamente em bancarrota e tinha regressado \u00e0 R\u00fassia para buscar outra forma de ganhar a vida com a venda de utens\u00edlios de cozinha. Ent\u00e3o, come\u00e7a a ser contatado, em 2008, por Andrew Smulian, um cidad\u00e3o brit\u00e2nico e negociante que tinha conhecido em 1997, na \u00c1frica do Sul. Smulian disse a Bout que tinha uns \u201cmembros das FARC-EP\u201d que queriam fazer neg\u00f3cio acerca de suas aeronaves de carga. Viktor, inicialmente, repudiou a oferta devido a sua situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e que n\u00e3o era seguro mover-se para outro lugar devido \u00e0 m\u00e1 fama mundial criada sobre ele. Smulian viajou para Moscou em janeiro de 2008 para dar confian\u00e7a a Bout e persuadi-lo de que aceitasse essa reuni\u00e3o com os \u201cmembros das FARC-EP\u201d, pois tinham interesse em suas aeronaves. Finalmente, em 22 de fevereiro de 2008, ante sua urgente situa\u00e7\u00e3o financeira e a insist\u00eancia de Smulian, Bout aceita reunir-se em Bangkok, Tail\u00e2ndia, com Smulian e os \u201cguerrilheiros das FARC-EP\u201d que se apresentaram como \u201cCarlos\u201d e \u201cRicardo\u201d. Viktor disse a amigos pr\u00f3ximos na R\u00fassia que ia para a Tail\u00e2ndia porque existia uma poss\u00edvel oportunidade para sair de problemas econ\u00f4micos ao vender uns helic\u00f3pteros ou talvez um avi\u00e3o. Nunca mencionou armas.<\/p>\n<p>O que Viktor Bout n\u00e3o sabia era que Andrew Smulian estava facilitando o trabalho da DEA desde 2007, quando fabricaram uma armadilha contra ele em Curazao com dois \u201cmembros das FARC-EP\u201d chamados \u201cEl Comandante\u201d e \u201cEduardo\u201d, que queriam fazer um milion\u00e1rio neg\u00f3cio agr\u00edcola. Smulian foi \u00e0 reuni\u00e3o e \u201cos guerrilheiros\u201d disseram que tinham milh\u00f5es de d\u00f3lares para comprar armas (fuzis para franco-atirador e m\u00edsseis) e, assim, combater contra o ex\u00e9rcito colombiano e\u00a0 os pilotos estadunidenses que os protegiam.<\/p>\n<p>Os \u201cguerrilheiros\u201d eram agentes secretos da DEA. Depois de Curazao, ocorreram reuni\u00f5es na Dinamarca e Rom\u00eania para fazer cair Bout, por\u00e9m este n\u00e3o participou delas. A DEA necessitava que Smulian fizesse Bout sair da R\u00fassia para poder prend\u00ea-lo. (9) N\u00e3o \u00e9 claro se Smulian j\u00e1 estava \u201ccolaborando\u201d com a DEA desde Curazao ou se a DEA esperou at\u00e9 Bangkok para captur\u00e1-lo e coloc\u00e1-lo para colaborar.<\/p>\n<p>Em 6 de mar\u00e7o de 2008, Viktor Bout chega a um hotel de Bangkok, Tail\u00e2ndia, local da reuni\u00e3o. A sala do 27\u00b0 andar j\u00e1 tinha sido adequada pela DEA com c\u00e2meras e microfones ocultos. Ali chegam Bout, Smulian e os \u201cguerrilheiros das FARC-EP\u201d (agentes secretos da DEA). A conversa se inicia com Bout dizendo: \u201cBem, olha, se voc\u00ea trabalha com d\u00f3lares, tudo vai e ser\u00e1 monitorado pelos Estados Unidos\u201d. \u201cCarlos\u201d se expressa violentamente dizendo que eles (as FARC-EP) sabem como eles (os Estados Unidos) s\u00e3o e que eles (as FARC-EP) est\u00e3o lutando e essa \u00e9 a raz\u00e3o pela qual eles (as FARC-EP) querem mat\u00e1-los (aos estadunidenses). Bout responde: \u201cBem, deixe-me fazer uma lista de suas necessidades\u201d.<\/p>\n<p>Depois, \u201cCarlos\u201d faz gestos como se estivesse disparando e expressa que ele quer matar aqueles gringos filhos da puta. (10) Parece que para a DEA o \u201cOk\u201d de Bout foi um consentimento \u00e0s frases e gestos expressos por \u201cCarlos\u201d. Os agentes da DEA dizem que o fato dele (Bout) ficar ouvindo-os dizer isso (os supostos \u201cguerrilheiros\u201d) e n\u00e3o ir embora ou mostrar a porta para que eles sa\u00edssem, era consentir que cometessem esses atos. Por\u00e9m, esse \u201cOk\u201d de Bout \u00e9 um bord\u00e3o muito comum antes de iniciar uma frase. \u00c9 como o \u201cYou know\u201d (Voc\u00ea sabe) que se usa muito tamb\u00e9m ao terminar frases e que \u00e9 muito comum em muitos hispanos, latinos e afro-americanos. As palavras e gestos de viol\u00eancia ocorreram por conta dos agentes secretos da DEA e n\u00e3o por parte de Viktor Bout. \u00c9 evidente que houve pr\u00e9-fabrica\u00e7\u00e3o da conversa e isto foi muito bem planejado desde o in\u00edcio. Estenderam uma armadilha para Viktor Bout, o emaranharam.<\/p>\n<p>Bout foi preso nesse mesmo lugar da reuni\u00e3o e tentaram obter um jatinho para lev\u00e1-lo aos Estados Unidos (como o sequestro de \u201cRodrigo Granda\u201d na Venezuela para ser levado \u00e0 Col\u00f4mbia). A opera\u00e7\u00e3o falhou e tiveram que deixar Bout nas m\u00e3os da justi\u00e7a tailandesa. O rastro de Smulian foi perdido (extradi\u00e7\u00e3o express ou sequestro \u00e0 Marlon Mar\u00edn?). Aparecer\u00e1 depois na cidade de Nova York como testemunha contra V\u00edctor Bout.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o funcionou a doutrina Bush-Chenney-Uribe, de ignorar o DIH e a soberania do reino da Tail\u00e2ndia, os Estados Unidos pediram sua extradi\u00e7\u00e3o e a audi\u00eancia se celebrou em 22 de setembro de 2008, onde se apresentaram as acusa\u00e7\u00f5es de: \u201cConspira\u00e7\u00e3o com inten\u00e7\u00e3o de assassinar estadunidenses\u201d, \u201ctentativa de assassinar funcion\u00e1rios estadunidenses\u201d e \u201ctentativa de adquirir m\u00edsseis terra-ar e dar ref\u00fagio a terroristas\u201d.<\/p>\n<p>Em 11 de agosto de 2009, a corte negou a extradi\u00e7\u00e3o por consider\u00e1-la de car\u00e1ter pol\u00edtico e n\u00e3o criminal. Tamb\u00e9m porque, segundo o reino da Tail\u00e2ndia, n\u00e3o existiam m\u00e9ritos para extradit\u00e1-lo, n\u00e3o foram cometidos delitos contra o reino e n\u00e3o existia suficiente e forte evid\u00eancia. Do mesmo modo, o reino da Tail\u00e2ndia n\u00e3o considerava as FARC-EP como grupo terrorista.<\/p>\n<p>Bout j\u00e1 estava a ponto de sair livre para a R\u00fassia e sua esposa o esperava fora da pris\u00e3o. Por\u00e9m, algo inesperado aconteceu\u2026<\/p>\n<p>Uma carta do governo colombiano (11), selada como \u201cConfidencial\u201d e dirigida ao Ministro de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da Tail\u00e2ndia, deu um giro de 180\u00b0 nos acontecimentos. Gra\u00e7as a essa carta, os Estados Unidos apelaram e a Suprema Corte da Tail\u00e2ndia autorizou a extradi\u00e7\u00e3o de Bout em 20 de agosto de 2010.<\/p>\n<p>Bout disse em seu dossi\u00ea: \u201cN\u00e3o existe caso, n\u00e3o existem provas, n\u00e3o ganharam&#8230;&#8221; Os Estados Unidos pediram \u00e0 Col\u00f4mbia que o ajudasse! Depois de ter perdido o caso de extradi\u00e7\u00e3o, o governo dos Estados Unidos fez com que o governo da Col\u00f4mbia escrevesse uma carta ao governo da Tail\u00e2ndia rogando que permitisse a extradi\u00e7\u00e3o de Viktor Bout aos Estados Unidos. \u00c9 certo, a Col\u00f4mbia est\u00e1 pedindo \u00e0 Tail\u00e2ndia que extradite Viktor aos Estados Unidos tentando levar as FARC a julgamento.<\/p>\n<p>As t\u00e1ticas que foram utilizadas pelo governo dos Estados Unidos para obter a repulsa da demanda interposta contra a administra\u00e7\u00e3o de Bush por Richard Chichakli, agora est\u00e3o sendo utilizadas de novo como uma \u00faltima tentativa para for\u00e7ar a Tail\u00e2ndia a extraditar Viktor aos Estados Unidos. No caso de Chichakli, como o governo dos Estados Unidos n\u00e3o pode demonstrar a pr\u00e1tica de qualquer infra\u00e7\u00e3o contra Richard, tentaram processar Viktor Bout mediante a apresenta\u00e7\u00e3o de 1000 p\u00e1ginas de hist\u00f3rias inventadas. Agora, sob ordem dos Estados Unidos, o governo da Col\u00f4mbia est\u00e1 sendo utilizado para converter a audi\u00eancia de extradi\u00e7\u00e3o de Bout em um julgamento \u00e0s FARC, \u201crogando\u201d oficialmente ao governo da Tail\u00e2ndia, em nome do governo dos Estados Unidos, que aceite o pedido de extradi\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos apresentando 300 p\u00e1ginas de documentos relacionadas com seus pr\u00f3prios assuntos com as FARC.<\/p>\n<p>Sempre dissemos que este caso n\u00e3o \u00e9 nada mais que pol\u00edtico, e o conjunto de evid\u00eancias permitem afirm\u00e1-lo. O governo dos Estados Unidos mentiu em todas as suas alega\u00e7\u00f5es contra Viktor e as mentiras foram expostas depois que os Estados Unidos falharam em mostrar as evid\u00eancias. Quem poderia imaginar que os Estados Unidos eram o proxeneta da Col\u00f4mbia? A carta \u201cconfidencial\u201d assinada pelo Ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores est\u00e1 aqui, em ingl\u00eas e em espanhol, para sua divers\u00e3o\u201d. (12)<\/p>\n<p>Mas a hist\u00f3ria n\u00e3o termina aqui\u2026<\/p>\n<p>Em 16 de novembro de 2010, Viktor Bout foi extraditado para os Estados Unidos. O Ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da R\u00fassia, Sergei Lavrov disse que a decis\u00e3o tinha sido ilegal, politicamente motivada e feita sob forte press\u00e3o externa. (13)<\/p>\n<p>Durante o julgamento realizado na cidade de Nova York, foi muito chamativo que a Ju\u00edza do Distrito, Shira Scheindlin, repudiasse as primeiras grava\u00e7\u00f5es por consider\u00e1-las for\u00e7adas. (14) Um duro golpe para a DEA. Por\u00e9m, n\u00e3o contavam com sua ast\u00facia e, em apuro, acrescentaram mais acusa\u00e7\u00f5es a Bout, como compra ilegal de aeronave, fraude utilizando dispositivos eletr\u00f4nicos para enganar e obter dinheiro de pessoas e lavagem de dinheiro. Tamb\u00e9m jogaram a principal carta com Andrew Smulian, que apareceu como \u201ctestemunha-chave\u201d contra Bout e cantou melhor que Luciano Pavarotti tudo o que a DEA comp\u00f4s para afundar Viktor e salvar sua pele. Far\u00e1 o mesmo Marlon Mar\u00edn?<\/p>\n<p>Em 2 de novembro de 2011, o j\u00fari da Corte de Manhattan considerou culpado Viktor. E aqui outra p\u00e9rola: Hither Hobson, que tinha sido parte do j\u00fari, confessou depois que tinha ficado espantada ao ver o filme com Nicolas Cage e, obviamente, votou \u201cculpado\u201d. (15)<\/p>\n<p>Em 5 de abril de 2012, a ju\u00edza Scheindlin condenou Viktor Bout somente por \u201cconspirar para vender armas a um grupo estrangeiro considerado terrorista pelos Estados Unidos\u201d. As demais acusa\u00e7\u00f5es se derreteram como manteiga em p\u00e3o quente. A senten\u00e7a estipulada para este crime vai de 25 anos a pris\u00e3o perp\u00e9tua. A ju\u00edza aplicou a condena\u00e7\u00e3o m\u00ednima de 25 anos e considerou que era apropriada porque n\u00e3o havia evid\u00eancia de que Bout tivesse cometido os delitos pelos quais foi acusado.<\/p>\n<p>Em outubro de 2015, a porta-voz do Minist\u00e9rio de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da R\u00fassia, Marian Zakharova, disse que Bout tiha sido \u201cinjustamente condenado\u201d e que seu caso era \u201coutro caminho do politizado sistema judicial estadunidense que, claramente, segue as ordens de cima\u201d. (16)<\/p>\n<p>Depois de retirar-se do ramo jur\u00eddico, a ju\u00edza afirmaria: \u201cEmaranharam este tipo nisso. Ofereceram-lhe muito dinheiro\u2026 Eu dei a m\u00ednima senten\u00e7a que poderia dar\u201d. Depois, acrescentou que o castigo a Bout tinha sido \u201cexcessivo\u201d e \u201cinapropriado\u201d. (17)<\/p>\n<p>Escreveu Antonio Caballero (Semana, 3 de fevereiro de 2018, \u201cEl Retorno del Sapo\u201d [O retorno do sapo]):<\/p>\n<p>\u201cAquelas reformas pretensamente \u2018realistas\u2019 que, em nome da efic\u00e1cia e por copiar servilmente a justi\u00e7a norte-americana, talvez a mais corrupta do mundo (\u2018the best justice money can buy\u2019, a melhor justi\u00e7a que se pode comprar com dinheiro, como a chama a imprensa dos Estados Unidos), desmantelaram a arquitetura do aparato judicial colombiano e o deterioram moralmente: pagamento de delatores, que nos retrocede aos m\u00e9todos sinistros da Inquisi\u00e7\u00e3o que em seu tempo apodreceram de cima a baixo a sociedade da Espanha dos Habsburgo; ju\u00edzes sem rosto, inspirados tamb\u00e9m nela; regateio de penas, que as reduz ou anula para quem pode pag\u00e1-las: com den\u00fancias, com fichas de cassino ou com chumbo\u201d. (18)<\/p>\n<p>O mesmo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chamou o Sistema Judicial dos Estados Unidos como \u201cuma piada\u201d e um \u201cfaz-me rir\u201d. (19) Em outra ocasi\u00e3o, o chamou de \u201cRigged System\u201d (Sistema Manipulado), quando o FBI disse que tinha encontrado nada em 650 mil mensagens eletr\u00f4nicas que poderiam envolver Hillary Clinton em assuntos penais. (20)<\/p>\n<p>Em 21 de maio de 2010, escrevi: \u201cQuando a justi\u00e7a opera como vingan\u00e7a deixa de ser justi\u00e7a e se converte em arbitrariedade. O julgamento de Sim\u00f3n Trinidad nos Estados Unidos teve mais de vingan\u00e7a que de justi\u00e7a\u201d. Minha opini\u00e3o n\u00e3o era somente pelo caso de Sim\u00f3n, mas que o sistema \u00e9 carcer\u00e1rio e arbitr\u00e1rio (as pris\u00f5es s\u00e3o privatizadas e, por isso, necessita estar cheias para produzir lucro). (21). N\u00e3o \u00e0 toa a popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria dos Estados Unidos \u00e9 enorme.<\/p>\n<p>Para concluir, creio na inoc\u00eancia de Jes\u00fas Santrich e que Marlon Mar\u00edn foi levado contra sua vontade. Penso em Tulio Bayer e seu \u201cGancho ciego\u201d. Opino que \u00e9 muito dif\u00edcil esperar uma avalia\u00e7\u00e3o objetiva e imparcial de todas as provas do pedido de extradi\u00e7\u00e3o para os Estados Unidos sabendo das manipula\u00e7\u00f5es e campanhas midi\u00e1ticas contra Cuba, Iraque, L\u00edbia, S\u00edria e Venezuela que foram feitas e s\u00e3o feitas. Al\u00e9m disso, de ser extraditado, n\u00e3o receberia um julgamento justo nos Estados Unidos porque j\u00e1 existe um pr\u00e9-julgamento contra ele e contra todos ex-membros das FARC-EP. A DEA suplantou o nome da organiza\u00e7\u00e3o e inventou opera\u00e7\u00f5es com a submissa ajuda do governo colombiano. Desconfiar \u00e9 um direito e eu desconfio muito do modus operandus da DEA. O caso de Viktor Bout e Sim\u00f3n Trinidad s\u00e3o dois claros exemplos de dois sistemas judiciais que n\u00e3o oferecem garantias aos processados e uma DEA que opera mais como um cartel da droga.<\/p>\n<p>Notas<\/p>\n<p>1. http:\/\/www.eltiempo.com\/<wbr \/>justicia\/investigacion\/asi-<wbr \/>descubrieron-los-presuntos-<wbr \/>nexos-de-jesus-santrich-con-<wbr \/>narcotrafico-203226<\/p>\n<p>2. https:\/\/www.newyorker.com\/<wbr \/>magazine\/2010\/02\/08\/the-<wbr \/>trafficker<\/p>\n<p>3. https:\/\/www.youtube.com\/watch?<wbr \/>v=lJwB3DecPA4<\/p>\n<p>4. http:\/\/guerrillaviaweb.<wbr \/>blogspot.ru\/2010\/05\/apuntes-<wbr \/>sobre-el-caso-simon-trinidad.<wbr \/>html<\/p>\n<p>5. http:\/\/otramiradadelconflicto.<wbr \/>wikispaces.com\/file\/view\/<wbr \/>Colombia-+Destape+del+poder+<wbr \/>olig\u00e1rquico-+Juan+carlos+<wbr \/>vallejo.pdf<\/p>\n<p>6. https:\/\/www.youtube.com\/watch?<wbr \/>v=xooPoGuqzfE<\/p>\n<p>7. http:\/\/www.canalrcn.com\/super-<wbr \/>like\/cine-y-tv\/articulo-nota\/<wbr \/>nicolas-cage-causa-sensacion-<wbr \/>en-colombia-3121<\/p>\n<p>8. https:\/\/www.hollywoodreporter.<wbr \/>com\/heat-vision\/nicolas-cage-<wbr \/>starring-drug-thriller-<wbr \/>running-devil-1094217<\/p>\n<p>9. https:\/\/www.youtube.com\/watch?<wbr \/>v=XvPGIcVRKco<\/p>\n<p>10. https:\/\/www.youtube.com\/watch?<wbr \/>v=xooPoGuqzfE<\/p>\n<p>11. http:\/\/victorbout.com\/<wbr \/>Documents\/Colombia_MFA_Spa.pdf<\/p>\n<p>12. https:\/\/web.archive.org\/web\/<wbr \/>20100402083928\/http:\/\/www.<wbr \/>victorbout.com:80\/<wbr \/>NewsandUpdates.htm<\/p>\n<p>13. http:\/\/www.washingtonpost.com\/<wbr \/>wp-dyn\/content\/article\/2010\/<wbr \/>08\/20\/AR2010082000452.html?<wbr \/>sid=ST2010082202870<\/p>\n<p>14. https:\/\/sputniknews.com\/us\/<wbr \/>201605041039036663-bout-<wbr \/>scheindlin-fabricated\/<\/p>\n<p>15. http:\/\/otramiradadelconflicto.<wbr \/>wikispaces.com\/file\/view\/<wbr \/>Colombia-+Destape+del+poder+<wbr \/>olig\u00e1rquico-+Juan+carlos+<wbr \/>vallejo.pdf<\/p>\n<p>16. https:\/\/sputniknews.com\/<wbr \/>russia\/201605041039060685-<wbr \/>bout-scheindlin-repatriation\/<\/p>\n<p>17. https:\/\/sputniknews.com\/<wbr \/>russia\/201605041039060685-<wbr \/>bout-scheindlin-repatriation\/<\/p>\n<p>18. http:\/\/www.semana.com\/opinion\/<wbr \/>articulo\/el-retorno-del-sapo-<wbr \/>antonio-caballero-columna-de-<wbr \/>opinion\/555806<\/p>\n<p>19. https:\/\/www.washingtonpost.<wbr \/>com\/blogs\/right-turn\/wp\/2017\/<wbr \/>11\/02\/trumps-mindless-insult-<wbr \/>to-the-american-judicial-<wbr \/>system\/?utm_term=.c179c451a067<\/p>\n<p>20. https:\/\/www.youtube.com\/watch?<wbr \/>v=-H8OQ1ynqaQ<\/p>\n<p>21. http:\/\/guerrillaviaweb.<wbr \/>blogspot.com\/2010\/05\/apuntes-<wbr \/>sobre-el-caso-simon-trinidad.<wbr \/>html<\/p>\n<p>Juan Carlos Vallejo \u00e9 escritor, cineasta e jornalista pol\u00edtico internacional<\/p>\n<p>Foto: Viktor Bout no momento de sua deten\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Fonte original: Radio Caf\u00e9 Stereo<\/p>\n<p>Fonte:\u00a0http:\/\/www.<wbr \/>resumenlatinoamericano.org\/<wbr \/>2018\/04\/26\/colombia-el-caso-<wbr \/>santrich-preocupantes-<wbr \/>coincidencias\/<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19518\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[224],"class_list":["post-19518","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia","tag-3b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-54O","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19518","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19518"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19518\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19518"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19518"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19518"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}