{"id":19545,"date":"2018-05-04T18:17:35","date_gmt":"2018-05-04T21:17:35","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=19545"},"modified":"2018-05-04T18:17:35","modified_gmt":"2018-05-04T21:17:35","slug":"estaremos-diante-de-novas-ditaduras-na-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19545","title":{"rendered":"Estaremos diante de novas ditaduras na Am\u00e9rica Latina?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i2.wp.com\/operamundi.uol.com.br\/dialogosdosul\/wp-content\/uploads\/2018\/04\/Sem-t%C3%ADtulo-1.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Jorge Beinstein*, em <a href=\"http:\/\/resistir.info\/beinstein\/nuevas_dictaduras_mar18.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Resistir.info<\/a><\/p>\n<p>A radicaliza\u00e7\u00e3o reacion\u00e1ria dos governos de pa\u00edses como Paraguai, Argentina, Brasil, M\u00e9xico ou Honduras come\u00e7a a gerar pol\u00eamica na Am\u00e9rica Latina quanto \u00e0 sua caracteriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nenhum desses regimes resultou de golpes de estado militares. Nos casos do Brasil, Honduras ou Paraguai, a destitui\u00e7\u00e3o dos presidentes foi realizada (mediante par\u00f3dia constitucional) pelo poder legislativo em combina\u00e7\u00e3o mais ou menos forte com os poderes judicial e midi\u00e1tico. No Brasil, a presid\u00eancia passou a ser exercida pelo vice-presidente Michel Temer (ungido por um golpe parlamentar) cujo n\u00edvel de aceita\u00e7\u00e3o popular segundo diversas pesquisas rondaria apenas 3% dos cidad\u00e3os. No Paraguai, ocorreu o mesmo e o presidente destitu\u00eddo foi substitu\u00eddo pelo vice-presidente atrav\u00e9s de um procedimento parlamentar express e a seguir foram realizadas elei\u00e7\u00f5es presidenciais que consagraram Hor\u00e1cio Cartes, um personagem de ultra direita com ind\u00edcios de v\u00ednculo ao narcotr\u00e1fico.<\/p>\n<p>Em Honduras realizaram-se elei\u00e7\u00f5es presidenciais em novembro\/2017, a \u201cAlianza de Oposici\u00f3n contra la Dictadura\u201d havia ganho claramente, mas o governo, fazendo honra ao qualificativo com que o havia marcado a oposi\u00e7\u00e3o, consumou uma fraude escandalosa afirmando assim a continuidade do ditador Juan Orlando Hernandez.<\/p>\n<p>Um caso extremamente curioso \u00e9 o da Argentina, onde em 2015 se realizaram elei\u00e7\u00f5es presidenciais em meio a uma avalanche midi\u00e1tica, econ\u00f4mica e judicial sem precedentes contra o governo e favor\u00e1vel ao candidato direitista Mauricio Macri. O resultado foi a vit\u00f3ria de Macri por escassa margem, o qual logo que assumiu a presid\u00eancia avan\u00e7ou sobre os outros poderes do estado conseguindo em pouco tempo a soma do poder p\u00fablico. Se a essa concentra\u00e7\u00e3o de poder acrescentarmos o controle dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e o poder econ\u00f4mico, encontramo-nos perante uma pequena camarilha com uma capacidade de controle pr\u00f3pria de uma ditadura. Completa o panorama o comportamento cada vez mais repressivo do governo que, pela primeira vez desde o fim da ditadura militar em 1983, decidiu pela interven\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas em conflitos internos mediante a constitui\u00e7\u00e3o de uma \u201cfor\u00e7a militar de arranque r\u00e1pido\u201d integrada por efetivos do Ex\u00e9rcito, da Marinha e da Aeron\u00e1utica e a forma\u00e7\u00e3o de uma for\u00e7a operativa conjunta com a DEA [ag\u00eancia antidrogas dos EUA] utilizando a desculpa da \u201cluta contra o narcotr\u00e1fico e o terrorismo\u201c. Desse modo, a Argentina incorpora-se numa tend\u00eancia regional imposta pelos Estados Unidos de reconvers\u00e3o convergente das For\u00e7as Armadas convencionais, das pol\u00edcias e outras estruturas de seguran\u00e7a em pol\u00edcias-militares capazes de \u201ccontrolar\u201d as popula\u00e7\u00f5es desses pa\u00edses. N\u00e3o seguindo o velho estilo conservador-quartelada inspirado na \u201cdoutrina de seguran\u00e7a nacional\u201d e sim estabelecendo espa\u00e7os sociais ca\u00f3ticos imersos no desastre, atravessados precisamente pelo narcotr\u00e1fico (promovido e manipulado desde cima) e outras formas de criminalidade dissociadora seguindo a doutrina da Guerra de Quarta Gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No M\u00e9xico, como sabemos, sucedem-se os governos fraudulentos imersos numa crescente onda de barb\u00e1rie e na Col\u00f4mbia a absten\u00e7\u00e3o eleitoral tradicionalmente maiorit\u00e1ria chegou recentemente a cerca de dois ter\u00e7os do padr\u00e3o eleitoral, adornada por um muito publicitado \u201cprocesso de paz\u201d que conseguiu a rendi\u00e7\u00e3o das FARC [For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias da Col\u00f4mbia] assegurando ao mesmo tempo a preserva\u00e7\u00e3o da din\u00e2mica de saques, assassinato e concentra\u00e7\u00e3o de rendimentos que caracteriza tradicionalmente esse sistema. Nestes dois casos n\u00e3o nos encontramos perante algo \u201cnovo\u201d e sim frente a regimes relativamente velhos que foram evoluindo at\u00e9 chegarem hoje a constituir verdadeiros exemplos de aplica\u00e7\u00e3o com \u00eaxito das t\u00e9cnicas mais avan\u00e7adas de desintegra\u00e7\u00e3o social. A trag\u00e9dia desses pa\u00edses mostra o futuro que aguarda os rec\u00e9m-chegados ao inferno.<\/p>\n<p>O panorama na Am\u00e9rica Latina \u00e9 completado com as tentativas de restaura\u00e7\u00e3o reacion\u00e1ria na Bol\u00edvia e na Venezuela. No caso venezuelano, a interven\u00e7\u00e3o direta dos Estados Unidos procura recuperar (recolonizar) a maior reserva petrol\u00edfera do mundo no momento em que o reinado do petrod\u00f3lar (fundamento da hegemonia financeira global do imp\u00e9rio) entra em decl\u00ednio r\u00e1pido perante a ascens\u00e3o da China (o maior comprador internacional de petr\u00f3leo) que procura impor a sua pr\u00f3pria moeda apoiada pelo ouro (o petro-yuan-ouro) em alian\u00e7a precisamente com a Venezuela e outros gigantes do setor energ\u00e9tico, como a R\u00fassia e o Ir\u00e3.<\/p>\n<p>Na Bol\u00edvia, o aparelho de intelig\u00eancia imperial realiza uma das suas manipula\u00e7\u00f5es de manual inspirada na doutrina da Guerra de Quarta Gera\u00e7\u00e3o. P\u00f5e em a\u00e7\u00e3o seus ap\u00eandices midi\u00e1ticos locais e globais tentando lan\u00e7ar a histeria (neste caso racista) de faixas importante das classes m\u00e9dias brancas e mesti\u00e7as contra o presidente \u00edndio. Aqui n\u00e3o s\u00f3 se trata de varrer um governo progressista como tamb\u00e9m de apropriar-se das reservas de l\u00edtio, a maiores do mundo (segundo diferentes prospec\u00e7\u00f5es, a Bol\u00edvia contaria com aproximadamente 50% das reservas de l\u00edtio do planeta), elemento chave na futura reconvers\u00e3o energ\u00e9tica global.<\/p>\n<p>Principais caracter\u00edsticas<\/p>\n<p>As atuais ditaduras da Am\u00e9rica Latina t\u00eam todas as caracter\u00edsticas para apresentar uma imagem civil com apar\u00eancia de respeito pelos preceitos constitucionais, mantendo um calend\u00e1rio eleitoral com pluralidade de partidos e os demais tra\u00e7os de um regime democr\u00e1tico de acordo com as regras ocidentais. Por outro lado, encontramo-nos perante mecanismos expl\u00edcitos de censura e, ainda que marginais ou em posi\u00e7\u00f5es muito secund\u00e1rias, ouvem-se algumas vozes divergentes. Os prisioneiros pol\u00edticos passam quase sempre pelos tribunais onde os ju\u00edzes os condenam de maneira arbitr\u00e1ria mas aparentando apoiar-se nas normas legais vigentes. Os assassinatos de opositores s\u00e3o minimizados ou ocultados pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o e ficam em geral envoltos por mantos de confus\u00e3o que diluem as culpas estatais, amalgamando de maneira sistem\u00e1tica os crimes pol\u00edticos com as viol\u00eancias policiais contra pobres e pequenos delinquentes sociais e repress\u00f5es aos protestos populares.<\/p>\n<p>Essa m\u00e1scara democr\u00e1tica, prolixamente negligente, acaba por ser o que \u00e9: uma m\u00e1scara, quando constatamos que os meios de comunica\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina convertidos num instrumento de manipula\u00e7\u00e3o total da popula\u00e7\u00e3o est\u00e3o controlados por monop\u00f3lios como o grupo Clar\u00edn, na Argentina, O Globo, no Brasil ou Televisa, no M\u00e9xico, cujos propriet\u00e1rios fazem parte do c\u00edrculo estreito do Poder. Ou quando chegamos \u00e0 conclus\u00e3o de que o sistema judicial est\u00e1 completamente controlado por esse c\u00edrculos do qual participam os principais interesses econ\u00f4micos (transnacionalizados) manejando \u00e0 discri\u00e7\u00e3o o aparelho policial-militar. E que em consequ\u00eancia os partidos pol\u00edticos significativos, os meios de comunica\u00e7\u00e3o, as grandes estruturas sindicais e outros espa\u00e7o de express\u00e3o potencial da sociedade civil est\u00e3o estrategicamente controlados (para al\u00e9m de certos descontroles t\u00e1ticos) mediante uma teia embrulhada de repress\u00f5es, chantagens, crimes seletivos, abusos judiciais, bombardeios midi\u00e1ticos esmagadores dissociadores ou disciplinadores e fraude eleitoral mais ou menos descarada conforme o problema concreto resolver.<\/p>\n<p>O novo panorama da Am\u00e9rica Latina provocou uma crise not\u00e1vel de percep\u00e7\u00e3o onde a realidade se choca com princ\u00edpios ideol\u00f3gicos, conceitua\u00e7\u00f5es e outros componentes de um \u201csentido comum\u201d herdado do passado. N\u00e3o somos v\u00edtimas de um r\u00edgido enquadramento da popula\u00e7\u00e3o com pretens\u00f5es totalit\u00e1rias expl\u00edcitas que anule toda possibilidade de dissens\u00e3o, procurando integrar o conjunto da sociedade num simples esquema militar, e sim perante sistemas flex\u00edveis, na realidade confusos, que n\u00e3o tentam disciplinar a todos e sim, antes, desarticular, degradar a sociedade civil convertendo-a numa v\u00edtima inofensiva, esmagada pela trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>Atualmente na Am\u00e9rica Latina, n\u00e3o se apresentam projetos nacionais desmesurados, pr\u00f3prios dos militares \u201csalvadores da p\u00e1tria\u201d de outros tempos, ou imagens sinistras como a de Pinochet, nem sequer discursos hiper otimistas como os dos globalistas neoliberais dos anos 1990 ou personagens c\u00f4micos como Carlos Menem, e sim presidentes sem carisma, torpes, aborrecidos repetidores de frases banais preparadas pelos assessores de imagem que formam uma rede regional globalizada de \u201cformadores de opini\u00e3o\u201d made in USA.<\/p>\n<p>Em suma, as ditaduras blindadas e triunfalistas do passado parecem ter sido substitu\u00eddas na Am\u00e9rica Latina por ditaduras ou proto-ditaduras cinzentas que oferecem pouco ou nada, montadas sobre embrutecedores cilindros compressores midi\u00e1ticos. Sempre por tr\u00e1s (na realidade por cima) destes fen\u00f4menos encontram-se o aparelho de intelig\u00eancia dos Estados Unidos e os de alguns dos seus aliados. A CIA, a DEA, o MOSSAD, o MI6 conforme os casos manipulam os minist\u00e9rios da seguran\u00e7a ou da defesa, os das rela\u00e7\u00f5es exteriores, as grandes estruturas policiais desses regimes vassalos e concebem estrat\u00e9gias eleitorais fraudulentas e repress\u00f5es pontuais.<\/p>\n<p>Capitalismo de desintegra\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Forjam-se assim articula\u00e7\u00f5es complexas, sistemas de domina\u00e7\u00e3o onde convergem elites locais (midi\u00e1ticas, pol\u00edticas, empresariais, policiais-militares, etc) com aparelhos externos integrantes do sistema de poder dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Estas for\u00e7as dominam a sociedade marcadas pelo que poderia ser qualificado como \u201ccapitalismo de desintegra\u00e7\u00e3o\u201d, baseado no saque de recursos naturais, na especula\u00e7\u00e3o financeira e na crescente marginaliza\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, radicalmente diferente dos velhos capitalismo subdesenvolvidos estruturados em torno de atividades produtivas (agr\u00edcolas, mineiras, industriais). N\u00e3o \u00e9 que nos velhos sistema n\u00e3o existisse o saque de recursos nem o banditismo financeiro, que em alguns momentos e pa\u00edses ocupavam o centro da cena, mas no longo prazo e na maior parte dos casos ficavam num segundo plano. A super explora\u00e7\u00e3o da m\u00e3o-de-obra e monop\u00f3lio dos lucros produtivos surgiam como os principais objetivos econ\u00f4micos diretos daquelas ditaduras.<\/p>\n<p>Tampouco \u00e9 certo que agora as elites dominantes na Am\u00e9rica Latina se desinteressem dos sal\u00e1rios ou da propriedade da terra. Ao contr\u00e1rio, desenvolvem um amplo leque de estratagemas destinados a reduzir os sal\u00e1rios reais e apropriar-se de territ\u00f3rios. Se bem que nos velhos capitalismos n\u00e3o existisse s\u00f3 produ\u00e7\u00e3o e sim tamb\u00e9m especula\u00e7\u00e3o e saque, nos atuais a base produtiva, em retra\u00e7\u00e3o por causa da pilhagem desmesurada, continua a ser uma fonte important\u00edssima de benef\u00edcios. Contudo, a sua preserva\u00e7\u00e3o, a sua reprodu\u00e7\u00e3o no longo prazo, n\u00e3o est\u00e1 no centro das preocupa\u00e7\u00f5es cotidianas das elites, presas psicologicamente pela din\u00e2mica parasit\u00e1ria da especula\u00e7\u00e3o financeira e seu entorno de neg\u00f3cios turvos.<\/p>\n<p>Isto acontece porque, entre outras coisas, no atual imagin\u00e1rio burgu\u00eas o longo prazo desapareceu, suas opera\u00e7\u00f5es mais importantes s\u00e3o regidas pelo curto prazo l\u00fampen-capitalista. No saque de recursos naturais atrav\u00e9s da mega-minera\u00e7\u00e3o a c\u00e9u aberto, da extra\u00e7\u00e3o de g\u00e1s e petr\u00f3leo de xisto ou da agricultura baseada em transg\u00eanicos, utilizam-se tecnologias orientadas pela velocidade do ritmo financeiro ao servi\u00e7o de gente que n\u00e3o tem tempo nem interesse para se dedicar a temas tais como a sa\u00fade da popula\u00e7\u00e3o afetada, o equil\u00edbrio ambiental e outras \u00e1reas impactadas pelos \u201cdanos colaterais\u201d do \u00eaxito empresarial (financeiriza\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a tecnol\u00f3gica, a cultura t\u00e9cnica dominante como auxiliar do saque).<\/p>\n<p>Estes capitalismos de desintegra\u00e7\u00e3o s\u00e3o conduzidos por elites que podem ser caracterizadas como l\u00fampen-burguesias, burguesias principalmente parasit\u00e1rias, transnacionalizadas, financiarizadas, oscilando entre o legal e o ilegal, cada vez mais afastadas da produ\u00e7\u00e3o. S\u00e3o inst\u00e1veis n\u00e3o por acidentes da conjuntura e sim pela sua ess\u00eancia decadente. Por cima delas encontram-se as grandes pot\u00eancias e suas elites embarcadas desde h\u00e1 tempos no caminho da degrada\u00e7\u00e3o, num planeta onde os produtos financeiros derivados representavam em fins de 2017 umas sete vezes o Produto Global Bruto, onde a d\u00edvida global total (p\u00fablica mais privada) era de quase tr\u00eas vezes do Produto Global Bruto, onde s\u00f3 cinco grandes bancos estadunidenses dispunham de \u201cativos financeiros derivados\u201d da ordem dos 250 milh\u00f5es de milh\u00f5es de d\u00f3lares (13 vezes o Produto Interno Bruto dos Estados Unidos), onde as oito pessoas mais ricas do mundo disp\u00f5em em conjunto de uma riqueza equivalente a 50% da popula\u00e7\u00e3o mundial (os mais pobres).<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o e escalada dessas elites latino-americanas s\u00e3o o resultado de prolongados processos de decad\u00eancia estrutural e cultural, de um subdesenvolvimento que incluiu j\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas de componentes parasit\u00e1rios que se foram apropriando do sistema, foram carcomendo-o, envenenando, apodrecendo, seguindo a l\u00f3gica sobredeterminante do capitalismo global, n\u00e3o de maneira mec\u00e2nica e sim impondo especificidades nacionais pr\u00f3prias de cada degenera\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Por baixo dessas elites surgem popula\u00e7\u00f5es fragmentadas, com trabalhadores integrados do ponto de vista das normas laborais em vigor separados dos trabalhadores informais, prec\u00e1rios. Com massas crescentes de marginais urbanos, de pobres e indigentes estigmatizados pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o, desprezados por boa parte das classes integradas que se v\u00e3o apequenando na medida em que avan\u00e7am os processos de concentra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e pilhagem de riquezas.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de espa\u00e7os sociais estanques, segmentados de modo est\u00e1vel, e sim de sociedade submetidas \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o ampliada da rapina elitista transnacionalizada, \u00e0 sucess\u00e3o intermin\u00e1vel de transfer\u00eancias de rendimentos de baixo para cima e para o exterior, \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o crescente da qualidade de vida das classes baixas assim como de por\u00e7\u00f5es crescentes das camadas m\u00e9dias.<\/p>\n<p>Alguns autores referem-se ao fen\u00f4meno qualificando-o de \u201cneoliberalismo tardio\u201d, algo assim como um regresso aos paradigmas neoliberais que tiveram seu auge nos anos 1990 mas num contexto global desfavor\u00e1vel a esse retorno (ascens\u00e3o do protecionismo comercial, decl\u00ednio da unipolaridade em torno dos Estados Unidos, etc.). N\u00f3s nos encontrar\u00edamos, portanto, frente a uma aberra\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, um contrassenso econ\u00f4mico e geopol\u00edtico protagonizado por c\u00edrculos dirigentes obstinados na sua subordina\u00e7\u00e3o ao imp\u00e9rio norte-americano, interrompendo a marcha normal, racional, progressista e despolarizante que predominava na Am\u00e9rica Latina. As direitas latino-americanas encontrar-se-iam embarcadas em um projeto na contram\u00e3o da evolu\u00e7\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>Mas acontece que o mundo n\u00e3o se encaminha rumo a uma nova harmonia, um novo ciclo produtivo, e sim rumo ao aprofundamento de uma crise de longa dura\u00e7\u00e3o, iniciada h\u00e1 quase meio s\u00e9culo. Esta caracteriza-se entre outras coisas pelo decl\u00ednio tendencial das taxas de crescimento das economias capitalistas centrais tradicionais e pela hipertrofia financeira (financeiriza\u00e7\u00e3o da economia global) impulsionando a ruptura de normas, legitimidades institucionais e equil\u00edbrios socioculturais que asseguravam a reprodu\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o burguesa para al\u00e9m das turbul\u00eancias pol\u00edticas ou econ\u00f4micas. A muta\u00e7\u00e3o parasit\u00e1rio-depredadora do capitalismo tem como centro um Ocidente articulado em torno do imp\u00e9rio norte-americano, mas envolve o conjunto da periferia e tamb\u00e9m afeta pot\u00eancias emergentes como a China ou a R\u00fassia, muito dependentes das suas exporta\u00e7\u00f5es em que os mercados da Europa, Estados Unidos e Jap\u00e3o cumprem um papel decisivo. Assim, as taxas de crescimento do Produto Interno Bruto da China v\u00eam-se desacelerando e a economia russa oscila entre a recess\u00e3o, a estagna\u00e7\u00e3o e o crescimento an\u00eamico.<\/p>\n<p>Um aspecto essencial da nova situa\u00e7\u00e3o global \u00e9 o car\u00e1cter abertamente devastador das din\u00e2micas agr\u00edcolas, mineiras e industriais motorizadas tanto pelas pot\u00eancias tradicionais como pelas emergentes, cujos efeitos deixaram de ser uma nebulosa amea\u00e7a futura para se converterem num desastre presente que se vai ampliando ano ap\u00f3s ano.<\/p>\n<p>Tudo isto nos deveria levar \u00e0 conclus\u00e3o de que os regimes reacion\u00e1rios da Am\u00e9rica Latina n\u00e3o t\u00eam nada de tardio, de desatualizado, de deslocaliza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e sim que s\u00e3o a express\u00e3o do apodrecimento radical das suas elites, da sua muta\u00e7\u00e3o parasit\u00e1ria enla\u00e7ada com um fen\u00f4meno global que as inclui. O que nos permite descobrir n\u00e3o s\u00f3 a fragilidade hist\u00f3rica, a instabilidade dessas burguesias, t\u00e3o prepotentes e vorazes como doentias, como tamb\u00e9m as v\u00e3s ilus\u00f5es progressistas negadoras da realidade que, ao qualificar de tardio o l\u00fampen-capitalismo dominante marcam-no como anormal, an\u00f4malo, fora da \u00e9poca, alentando a esperan\u00e7a do retorno \u00e0 \u201cnormalidade\u201d de um novo ciclo de prosperidade na regi\u00e3o, mais ou menos keynesiano, mais ou menos produtivo, mais ou menos democr\u00e1tico, mais ou menos razo\u00e1vel, nem muito direitista nem muito esquerdista, nem t\u00e3o elitista nem t\u00e3o populista. O sujeito burgu\u00eas desse horizonte burgu\u00eas fantasia est\u00e1 s\u00f3 na sua imagina\u00e7\u00e3o, a marcha real do mundo converteu-o num habitante fantasmag\u00f3rico da mem\u00f3ria. Enquanto isso os grandes \u201cempres\u00e1rios\u201d, os c\u00edrculos concretos de poder, participam de corpo e alma na orgia da devasta\u00e7\u00e3o, t\u00e3o desinteressados no longo prazo e no desastre social e ambiental quanto na racionalidade progressista (\u00e0 qual consideram estorvo, um trav\u00e3o populista ao livre funcionamento do \u201cmercado\u201d).<\/p>\n<p>Rea\u00e7\u00f5es populares e aprofundamento da crise<\/p>\n<p>A grande inc\u00f3gnita \u00e9 a que se refere ao futuro comportamento das grandes maiorias populares que foram afetadas tanto do ponto de vista econ\u00f4mico como cultural pela decad\u00eancia do sistema. As elites puderam aproveitar a desestrutura\u00e7\u00e3o, as irracionalidades sociais geradas por um fen\u00f4meno perverso que atravessou tanto as etapas direitistas como as progressistas. Durante os per\u00edodos de governos de direita civis ou militares promovendo e garantindo privil\u00e9gios e abusos de todo tipo, afirmou-se um \u201csentido comum\u201d ego\u00edsta, dissociador, subestimador de identidades culturais solid\u00e1rias. Mas quando chegaram as experi\u00eancias progressistas essas elites utilizaram a degrada\u00e7\u00e3o social existentes, a fragmenta\u00e7\u00e3o neoliberal herdada (enla\u00e7adas em alguns casos com tradi\u00e7\u00f5es de marginaliza\u00e7\u00e3o muito enraizadas) impulsionando irrup\u00e7\u00f5es racistas, neofascistas das camadas m\u00e9dias estendidas por vezes at\u00e9 espa\u00e7os m\u00e9dio-baixos onde se misturam o pequeno comerciante com o assalariado integrado (em consequ\u00eancia, acima do marginalizado, do prec\u00e1rio).<\/p>\n<p>Assistimos assim no Brasil, Argentina, Bol\u00edvia ou Venezuela a mobiliza\u00e7\u00f5es hist\u00e9ricas de classes m\u00e9dias urbanas neofascistas a exigirem as cabe\u00e7a dos governantes \u201cpopulistas\u201d, manipuladas pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o e pelos poderes econ\u00f4micos que o progressismo havia respeitado como parte de seu pertencimento ao sistema (admitida abertamente, silenciada ou negada de maneira superficial ou insuficiente). Agora as chamadas restaura\u00e7\u00f5es conservadoras ou direitistas n\u00e3o est\u00e3o a restaurar o passado neoliberal e sim a instaurar esquemas de devasta\u00e7\u00e3o nunca antes vistos. Puderam triunfar gra\u00e7as \u00e0s limita\u00e7\u00f5es e esvaziamentos de progressistas encurralados pelas crises de sistemas que eles pretendiam melhorar, reformas ou em alguns casos superar de maneira indolor, gradual, \u201ccivilizada\u201d.<\/p>\n<p>Mas a crises nacionais n\u00e3o se det\u00eam. Ao contr\u00e1rio, s\u00e3o incentivadas pelos comportamentos saqueadores das direitas governantes que continuam a praticar suas t\u00e1cticas dissociadoras, de embrutecimento coletivo, buscando gerar \u00f3dio social para com os pobres. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o trabalham a todo vapor por tr\u00e1s desses objetivos e na medida em que o decl\u00ednio econ\u00f4mico avan\u00e7a pressionado pelas pol\u00edticas oficiais e pela marcha da crise global, as manipula\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas come\u00e7am a demonstrar-se impotentes perante a mar\u00e9 ascendente de protestos populares. A virtualidade do marketing neofascista come\u00e7a a ser ultrapassada pela materialidade das pen\u00farias, n\u00e3o s\u00f3 dos pobres como tamb\u00e9m de camadas m\u00e9dias que se v\u00e3o empobrecendo. Males materiais que ao se ampliarem lhes abrem a porta \u00e0 rebeldia daqueles que foram enganados e dos que foram cr\u00e9dulos. \u00c9 assim que no Brasil o rep\u00fadio popular ao governo de Temer \u00e9 esmagador e na Argentina a imagem edulcorada de Macri se vai diluindo velozmente enquanto se estendem os protestos populares.<\/p>\n<p>A repress\u00e3o, a militariza\u00e7\u00e3o dos governos de direita surge ent\u00e3o como alternativa de governabilidade. As din\u00e2micas ditatoriais desses regimes v\u00e3o engendrando dispositivos policiais-militares com a esperan\u00e7a de controlar os de baixo, v\u00e3o funcionando com cada vez maior intensidade os mecanismos de \u201ccoopera\u00e7\u00e3o hemisf\u00e9rica\u201d: fornecimento de armamento e capacita\u00e7\u00e3o para o controle de protestos sociais, multiplica\u00e7\u00e3o de estruturas repressivas nacionais e regionais monitoradas a partir dos Estados Unidos. Trata-se de um combate com final aberto entre for\u00e7as sociais que procuram sobreviver e que, ao faz\u00ea-lo, podem chegar a engendrar vastos movimentos de regenera\u00e7\u00e3o nacional, radicalmente anti sist\u00eamicos e elites degradadas e inst\u00e1veis, dependentes do amo imperial (que se reserva o direito de interven\u00e7\u00e3o direta, se as circunst\u00e2ncias o exigirem e permitirem), animadas por um niilismo portador de puls\u00f5es fan\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o: Vitor Teixeira<\/p>\n<p>*Economista. Autor de \u201cMacr\u00ec: Or\u00edgenes e instalaci\u00f3n de una dictadura mafiosa\u201d, que pode ser descarregado aqui .<\/p>\n<p>http:\/\/resistir.info\/beinstein\/nuevas_dictaduras_mar18.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19545\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[233],"class_list":["post-19545","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","tag-6a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-55f","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19545","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19545"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19545\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19545"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19545"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19545"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}