{"id":19556,"date":"2018-05-04T19:27:20","date_gmt":"2018-05-04T22:27:20","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=19556"},"modified":"2018-05-04T19:27:20","modified_gmt":"2018-05-04T22:27:20","slug":"karl-marx-200-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19556","title":{"rendered":"Karl Marx 200 anos"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/serviraopovo.files.wordpress.com\/2018\/01\/13-karl-marx-and-engels-in-the-printing-house-of-the-neue-rheinische-zeitung-newspaper-published-in-cologne-at-the-time-of-the-revolution-of-1848-1849-painting-by-e-capiro.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><strong>Ricardo Costa (Rico) \u2013 Secret\u00e1rio Nacional de Comunica\u00e7\u00e3o do PCB<\/strong><\/p>\n<p><strong>KARL MARX<\/strong>\u00a0nasceu em 05 de maio de 1818 em Tr\u00e9veris (Trier), capital da prov\u00edncia alem\u00e3 do Reno. Seu pai, Hirschel, advogado e conselheiro de Justi\u00e7a, em 1824 abandonou o juda\u00edsmo, porque, nessa \u00e9poca, os cargos p\u00fablicos ficavam vedados aos judeus da Ren\u00e2nia, e batizou-se com o novo nome de Heinrich. Terminado o curso secund\u00e1rio em Trier, no ano de 1835, Marx matriculou-se na Universidade de Bonn, com a inten\u00e7\u00e3o de estudar Direito. O jovem Marx descobriu a vida bo\u00eamia, esbanjou o dinheiro do pai e escreveu versos apaixonados \u00e0 amiga de inf\u00e2ncia Jenny von Westphalen, mo\u00e7a de rara beleza e alta posi\u00e7\u00e3o social, de quem ficaria noivo em 1836, casando-se oito anos mais tarde. Casados, sofreriam toda sorte de priva\u00e7\u00f5es, e a mis\u00e9ria chegou a ponto de n\u00e3o terem como alimentar os filhos. Dos seis que nasceram, apenas tr\u00eas atingiram a idade adulta.<\/p>\n<p><strong>1835-1842: JUVENTUDE E IDEALISMO DE ESQUERDA<\/strong><\/p>\n<p>Em outubro de 1836, Marx matriculou-se na Universidade de Berlim, conhecida por seu ambiente disciplinador e tamb\u00e9m por ter sido, nas d\u00e9cadas precedentes, o espa\u00e7o em que um grande pensador alem\u00e3o lecionara e se projetara como um dos maiores fil\u00f3sofos de todos os tempos:\u00a0<strong>GEORG WILHELM FRIEDRICH HEGEL<\/strong>. Afastando-se cada vez mais do Direito e apaixonando-se pela Hist\u00f3ria e pela Filosofia, Marx entregou-se aos estudos com entusiasmo. Foi atra\u00eddo pelas ideias de Hegel, cujo pensamento convertera-se numa esp\u00e9cie de ideologia oficial no meio intelectual alem\u00e3o. O princ\u00edpio hegeliano segundo o qual o Estado moderno encarnava os ideais da Moral mais objetivos, representando a manifesta\u00e7\u00e3o da Raz\u00e3o no dom\u00ednio da vida social, era tomado, pelos intelectuais que apoiavam o regime mon\u00e1rquico, como apoio direto ao Estado prussiano. \u201cTudo que \u00e9 real \u00e9 racional\u201d, escrevera Hegel, e, j\u00e1 que o Estado era real, no sentido de que\u00a0<em>existia<\/em>, tinha de ser racional e estaria acima de qualquer censura.<\/p>\n<p>No entanto, havia aqueles que defendiam o car\u00e1ter subversivo da obra do fil\u00f3sofo: os jovens\u00a0<strong>hegelianos de esquerda<\/strong>\u00a0\u2013 grupo do qual Marx faria parte \u2013 e que ressaltavam a segunda parte da cita\u00e7\u00e3o de Hegel: \u201cTudo que \u00e9 racional \u00e9 real\u201d. Neste sentido, uma monarquia absolutista, respaldada em censores e na pol\u00edcia secreta, era irracional e, portanto, deveria desaparecer. Do grupo de jovens hegelianos (dentre os quais Bruno Bauer, Arnold Ruge, Moses Hess e Max Stirner), foi sem d\u00favida\u00a0<strong>LUDWIG FEUERBACH<\/strong>\u00a0quem, a partir de 1841, com a publica\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>A Ess\u00eancia do Cristianismo<\/em>, aglutinou todo o pensamento da esquerda hegeliana, formulando, de um novo ponto de vista, a mais consistente cr\u00edtica da filosofia da religi\u00e3o e da dial\u00e9tica hegelianas.<\/p>\n<p>O jovem Marx participou diretamente das discuss\u00f5es e dos trabalhos do grupo de Berlim at\u00e9 1841, quando voltou a Trier. Abandonando definitivamente a carreira de advogado, pretendia conquistar uma c\u00e1tedra universit\u00e1ria ap\u00f3s doutorar-se pela Universidade de Bonn, onde contava com o apoio de Bruno Bauer para ali mesmo ensinar, mas este acabaria expulso da institui\u00e7\u00e3o por suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, obrigando Marx a buscar uma universidade menor, como a de Iena, para concluir seus estudos.<\/p>\n<p>Em\u00a0<strong>1\u00ba de janeiro de 1842<\/strong>, era criado em Col\u00f4nia, na Ren\u00e2nia, o Jornal\u00a0<em>Gazeta Renana<\/em>, iniciativa de setores burgueses liberais que faziam oposi\u00e7\u00e3o ao reacionarismo do Rei Frederico Guilherme IV. Marx, em abril daquele ano, um m\u00eas antes de completar 24 anos, ingressaria na atividade jornal\u00edstica colaborando para o \u00f3rg\u00e3o liberal, logo ap\u00f3s a repress\u00e3o absolutista ter impedido que ele fosse aceito no magist\u00e9rio superior, ap\u00f3s a obten\u00e7\u00e3o do grau de doutor na Universidade de Iena, no ano anterior. A Alemanha ainda n\u00e3o existia como um estado unificado. A Confedera\u00e7\u00e3o Germ\u00e2nica, formada por v\u00e1rios reinos independentes entre si, era comandada pela Pr\u00fassia, sob dom\u00ednio da aristocracia latifundi\u00e1ria. Participando da atividade jornal\u00edstica em meio a este contexto de aus\u00eancia de liberdades democr\u00e1ticas, Marx transitaria da vida universit\u00e1ria para o in\u00edcio de sua milit\u00e2ncia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que Marx passou a colaborar com artigos para a\u00a0<em>Gazeta Renana<\/em>, no qual se ocupou de assuntos como o processo movido pelo Estado contra o roubo de madeira feito pelos camponeses, que continuavam a colher lenha nas florestas, como lhes assegurava o direito consuetudin\u00e1rio, embora agora j\u00e1 vigorasse o regime de propriedade capitalista. A cr\u00edtica de Marx \u00e0 atua\u00e7\u00e3o do Estado, embora permanecesse no campo do liberalismo jusnaturalista, come\u00e7ava a apontar para a necessidade de transformar a revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que reclamava uma reorganiza\u00e7\u00e3o do Estado, na ideia de uma\u00a0<strong>revolu\u00e7\u00e3o social<\/strong>, que deveria modificar a pr\u00f3pria estrutura da sociedade como um todo.<\/p>\n<p><strong>1843-1844: AMADURECE A IDEIA DE REVOLU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>A cr\u00edtica social-democr\u00e1tica desenvolvida por Marx e o socialismo ut\u00f3pico de Moses Hess acabaram provocando o afastamento dos leitores burgueses de\u00a0<em>A Gazeta Renana<\/em>, que foi fechada pelo governo. Antes mesmo do seu fechamento, Marx pediu demiss\u00e3o em 18 de mar\u00e7o de 1843, ao perceber que seus propriet\u00e1rios capitulavam diante da press\u00e3o das autoridades contra a linha cr\u00edtica que ele impusera ao jornal. A breve experi\u00eancia jornal\u00edstica provara para Marx que a reflex\u00e3o filos\u00f3fica n\u00e3o poderia ficar desgarrada de uma perspectiva de a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Por conta disso, no segundo semestre de 1843, passou a se dedicar \u00e0 leitura de pensadores pol\u00edticos, como Rousseau e Montesquieu, e de estudiosos da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa.<\/p>\n<p>A maior parte deste per\u00edodo Marx passou em Kreuznach, onde vivia Jenny, com quem se casou em 19 de junho. Ali produziu a\u00a0<strong><em>Cr\u00edtica da filosofia do direito p\u00fablico de Hegel<\/em><\/strong>\u00a0(o\u00a0<em>Manuscrito de Kreuznach<\/em>, cujo texto, na \u00edntegra, ficou in\u00e9dito at\u00e9 1927), documento, que, sob a influ\u00eancia de Feuerbach, atacava o idealismo hegeliano. Foi considerado pelo pr\u00f3prio Marx, mais tarde, como um marco no caminho para o materialismo hist\u00f3rico, ao criticar a concep\u00e7\u00e3o hegeliana de Estado e abordar o tema da aliena\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, expressa na separa\u00e7\u00e3o e oposi\u00e7\u00e3o entre Estado e sociedade civil, entre o \u201cpoder constitu\u00eddo\u201d e o \u201cpoder constituinte\u201d (o povo).<\/p>\n<p>Em outubro de 1843, Marx partiria para o ex\u00edlio na Fran\u00e7a, onde a esquerda hegeliana pretendia publicar uma revista capaz de promover a alian\u00e7a da filosofia alem\u00e3 com o socialismo franc\u00eas. Ao ter privilegiado, em seus estudos, o enfoque sobre o mundo sens\u00edvel, a sensibilidade e o cora\u00e7\u00e3o, Feuerbach entendia ser necess\u00e1rio traz\u00ea-los para o n\u00edvel do intelecto. Essa s\u00edntese filos\u00f3fica logo se traduziu num programa pol\u00edtico: o \u201cprinc\u00edpio feminino\u201d, o cora\u00e7\u00e3o, sede do materialismo franc\u00eas, deveria aliar-se ao intelecto, \u201cprinc\u00edpio masculino\u201d, sede do idealismo alem\u00e3o. Da\u00ed ent\u00e3o a cria\u00e7\u00e3o da revista, que se chamou\u00a0<em>Anais Franco-Alem\u00e3es<\/em>, estabelecida em Paris. Estabelecida a parceira com Arnold Ruge (hegeliano de esquerda que n\u00e3o superaria o ponto de vista liberal) e assegurado pelo sal\u00e1rio a receber da revista, da qual seria o redator chefe, Marx foi para a Fran\u00e7a, levando consigo Jenny.<\/p>\n<p>Os\u00a0<strong><em>Anais Franco-Alem\u00e3es<\/em><\/strong><em>\u00a0<\/em>n\u00e3o foram al\u00e9m do primeiro n\u00famero publicado em\u00a0<strong>fevereiro de 1844<\/strong>, tendo Marx participado com dois textos:\u00a0<strong><em>A Quest\u00e3o Judaica<\/em><\/strong>\u00a0e\u00a0<strong><em>Para a\u00a0Cr\u00edtica da Filosofia do Direito de Hegel. Introdu\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong><em>.<\/em>\u00a0No primeiro artigo, polemizou com Bruno Bauer, para quem a luta dos judeus contra as restri\u00e7\u00f5es pol\u00edticas a eles impostas na Alemanha somente se resolveria com o combate \u00e0 pr\u00f3pria religi\u00e3o (defensor do Estado Laico, Bauer entendia que o ate\u00edsmo era a condi\u00e7\u00e3o para a emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica). Marx considerava a proposta insuficiente para a luta dos judeus e criticava Bauer por manter a discuss\u00e3o no campo da religi\u00e3o. A verdadeira emancipa\u00e7\u00e3o humana se daria quando a conquista da liberdade pol\u00edtica viesse acompanhada da liberdade econ\u00f4mica, ou seja, com a conquista do fim da aliena\u00e7\u00e3o, representada no poder do dinheiro e da propriedade privada.<\/p>\n<p>Uma difusa teoria da aliena\u00e7\u00e3o servia de base para a cr\u00edtica ao capitalismo, no momento\u00a0em que Marx\u00a0iniciava contatos com o movimento oper\u00e1rio organizado, frequentando reuni\u00f5es parisienses da\u00a0<strong>Liga dos Justos<\/strong>\u00a0(fundada em 1836), uma associa\u00e7\u00e3o de artes\u00e3os proletarizados, cujo programa dava \u00eanfase \u00e0 supress\u00e3o da propriedade privada e ao retorno para o comunismo primitivo. Este contato com o movimento socialista franc\u00eas muito contribuiu para as novas formula\u00e7\u00f5es que aparecem no outro texto de Marx publicado nos\u00a0<em>Anais<\/em>.<\/p>\n<p>No segundo artigo, Marx apontava que a viabiliza\u00e7\u00e3o da transforma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, como resultado da vincula\u00e7\u00e3o da teoria \u00e0 pr\u00e1tica na luta pol\u00edtica (n\u00e3o bastam as \u201carmas da cr\u00edtica\u201d; \u00e9 necess\u00e1ria a \u201ccr\u00edtica das armas\u201d), dependeria de um sujeito hist\u00f3rico para quem a conquista da emancipa\u00e7\u00e3o era uma quest\u00e3o de vida ou morte. Pela primeira vez, nos escritos marxianos, o\u00a0<strong>proletariado<\/strong>\u00a0era identificado como este sujeito capaz de realizar a tarefa da revolu\u00e7\u00e3o anticapitalista. Assim disse Marx: \u201cA teoria tamb\u00e9m se transforma em uma for\u00e7a material quando se apodera das massas\u201d.<\/p>\n<p>Desde a universidade, Marx havia adquirido o h\u00e1bito de compilar resumos de obras, acompanhados por suas reflex\u00f5es cr\u00edticas. Os chamados\u00a0<strong><em>Manuscritos de Paris<\/em><\/strong><em>\u00a0<\/em>foram produzidos a partir de seus apontamentos sobre obras cl\u00e1ssicas de Jean-Baptiste Say, Adam Smith, David Ricardo e James Mill, que lhe permitiram desenvolver as primeiras avalia\u00e7\u00f5es sobre os conceitos de valor e pre\u00e7o.<\/p>\n<h2><\/h2>\n<h2>1844: A OP\u00c7\u00c3O PELO COMUNISMO<\/h2>\n<p>Ao longo do ano de 1844, Marx frequentou os meios oper\u00e1rios franceses, entrou em contato com pensadores socialistas como Proudhon e participou dos encontros dos trabalhadores emigrados alem\u00e3es, tendo inclusive escrito artigos para o jornal\u00a0<em>Avante!<\/em>\u00a0(<em>Vorwarts!<\/em>,\u00a0jornal quinzenal publicado em Paris de janeiro a dezembro de 1844). Marx fez claramente uma op\u00e7\u00e3o de classe, vinculando-se ao proletariado europeu engajado nas lutas contra a explora\u00e7\u00e3o capitalista. \u00c9 esta rela\u00e7\u00e3o com a classe trabalhadora que dar\u00e1 sentido \u00e0 sua vida e \u00e0 sua formula\u00e7\u00e3o te\u00f3rica. Marx abra\u00e7ava ent\u00e3o o\u00a0<strong>comunismo prolet\u00e1rio<\/strong>.<\/p>\n<p>Na Revista\u00a0<em>Anais Franco-Alem\u00e3es\u00a0<\/em>tamb\u00e9m\u00a0foi publicado artigo de\u00a0<strong>FRIEDRICH ENGELS<\/strong>,\u00a0<strong><em>Esbo\u00e7o de uma Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica<\/em><\/strong>, respons\u00e1vel por provocar uma virada no pensamento de Marx, ao despertar sua aten\u00e7\u00e3o para as quest\u00f5es levantadas pela ci\u00eancia econ\u00f4mica. Os pensadores que fundaram a Economia Pol\u00edtica (Adam Smith, John Mill, Jean Baptiste Say, Sismondi, etc), de matriz liberal, n\u00e3o tinham inten\u00e7\u00e3o alguma de se contrapor \u00e0 ideia da propriedade privada, deixando, por isso, de realizar uma cr\u00edtica radical da sociedade moderna. Mas a abordagem cient\u00edfica das quest\u00f5es econ\u00f4micas forneceu importantes subs\u00eddios para uma cr\u00edtica da teoria do Estado, aspecto este que foi percebido por Marx, o qual, da\u00ed para a frente, faria desta ci\u00eancia seu principal objeto de estudo.<\/p>\n<p>Assim como Engels, Marx ia rompendo aos poucos com a concep\u00e7\u00e3o feuerbachiana do homem como um ser gen\u00e9rico e passava a enxergar o fen\u00f4meno da aliena\u00e7\u00e3o como algo originado da forma como o trabalhador estava submetido \u00e0 explora\u00e7\u00e3o num sistema de produ\u00e7\u00e3o voltado para atender as necessidades dos propriet\u00e1rios e do mercado. Em\u00a0<strong>mar\u00e7o\u00a0<\/strong>de 1843, Marx j\u00e1 havia escrito, numa carta a Arnold Ruge, que os \u201caforismos de Feuerbach &#8230; se preocupam muito com a natureza e muito pouco com a pol\u00edtica\u201d.<\/p>\n<p>Os\u00a0<strong><em>Manuscritos Econ\u00f4mico-Filos\u00f3ficos<\/em><\/strong>\u00a0(os\u00a0<em>Manuscritos de Paris<\/em>, publicados somente em 1932), nesta nova fase da produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de Marx, indicavam que as influ\u00eancias contradit\u00f3rias de Feuerbach e Hegel passavam a coexistir com as quest\u00f5es postas a partir do contato estabelecido com a economia pol\u00edtica e o movimento socialista franc\u00eas. O materialismo de Feuerbach e a dial\u00e9tica de Hegel, num processo de s\u00edntese original, juntavam, sob nova perspectiva, os princ\u00edpios fundamentais dos dois fil\u00f3sofos: a passividade sofredora que o primeiro atribu\u00eda \u00e0 mat\u00e9ria e o ativismo redentor que o segundo conferia \u00e0 consci\u00eancia. Esses dois princ\u00edpios, transfigurados, iriam preparar o caminho para o conceito de\u00a0<strong>pr\u00e1xis<\/strong>, na ideia de que o homem \u00e9 um ser\u00a0<em>passivo<\/em>,\u00a0<em>dependente<\/em>\u00a0e\u00a0<em>limitado<\/em>, pois inserido num mundo previamente dado, mas, ao mesmo tempo, \u00e9\u00a0<em>ativo<\/em>, capaz de intervir neste mundo a partir da sua consci\u00eancia e vontade.<\/p>\n<p>A teoria cr\u00edtica do jovem hegeliano de esquerda se transformava numa\u00a0<strong>ontologia materialista<\/strong>:\u00a0Marx come\u00e7ava a enxergar o homem como um ser pr\u00e1tico e social, em que a ess\u00eancia humana \u00e9 hist\u00f3rica, ou seja, n\u00e3o existe uma \u201cnatureza humana\u201d permanente e imut\u00e1vel, como queriam os fil\u00f3sofos liberais. O homem constitui a si mesmo centralmente por meio do\u00a0<strong>trabalho<\/strong>, organizando as suas rela\u00e7\u00f5es com os outros homens e com a natureza de acordo com o n\u00edvel de desenvolvimento das for\u00e7as produtivas e dos meios de produ\u00e7\u00e3o, pelos quais se mant\u00e9m e se reproduz enquanto homem.<\/p>\n<p>Marx via a sociedade burguesa como uma\u00a0totalidade concreta, n\u00e3o como um conjunto de partes separadas que se integram conforme as fun\u00e7\u00f5es exercidas por cada pessoa, mas como um sistema din\u00e2mico e contradit\u00f3rio de rela\u00e7\u00f5es sociais, produzidas historicamente. Esta \u00e9 a vis\u00e3o antropol\u00f3gica de Marx, marcada pela ideia de que o homem \u00e9 o\u00a0<strong>conjunto das rela\u00e7\u00f5es sociais<\/strong>. A an\u00e1lise da organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica (a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica) possibilita a an\u00e1lise da estrutura de classes e da funcionalidade do poder (a cr\u00edtica do Estado) e das formula\u00e7\u00f5es jur\u00eddico-pol\u00edticas (a cr\u00edtica da ideologia).<\/p>\n<p>Nesta obra Marx indicava como o trabalho assalariado, no capitalismo, promove a aliena\u00e7\u00e3o do trabalhador, alienando-o de si mesmo, dos outros trabalhadores e da natureza. O sujeito que produz a riqueza n\u00e3o se realiza como ser humano a partir desta atividade, pois o trabalho \u00e9 um fardo, um supl\u00edcio, uma opress\u00e3o, e a riqueza produzida fica concentrada nas m\u00e3os dos patr\u00f5es. Os bens produzidos pelo trabalhador n\u00e3o pertencem ao trabalhador, que n\u00e3o se reconhece em todo o processo, tampouco naquilo que \u00e9 produzido. Por tudo isso, a supress\u00e3o da propriedade privada, com o comunismo, ser\u00e1 o \u201cmomento da emancipa\u00e7\u00e3o e da recupera\u00e7\u00e3o humanas\u201d.<\/p>\n<p><strong>1845-1847: A RUPTURA COM A \u201cIDEOLOGIA ALEM\u00c3\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Marx e Engels iniciaram um trabalho comum. Produziram juntos, inicialmente, o texto\u00a0<strong><em>A Sagrada Fam\u00edlia<\/em><\/strong>, uma pol\u00eamica feroz com Bruno Bauer e seus irm\u00e3os, Edgard e Egbert, que passaram a advogar uma pol\u00edtica liberal elitista, enquanto Marx e Engels defendiam que a teoria s\u00f3 teria sentido se estivesse a servi\u00e7o dos interesses prolet\u00e1rios. O livro ainda n\u00e3o havia sido publicado quando Marx foi expulso da Fran\u00e7a, em fevereiro de 1845, por press\u00f5es do governo prussiano sobre o ministro do Interior Guizot, por causa dos artigos publicados na revista\u00a0<em>Avante!<\/em>, em especial o que fez a defesa da greve dos tecel\u00f5es da Sil\u00e9sia.<\/p>\n<p>Marx e Engels partiram para Bruxelas, onde redigiram\u00a0<strong><em>A Ideologia Alem\u00e3<\/em><\/strong>\u00a0e as\u00a0<strong><em>Teses sobre Feuerbach<\/em><\/strong>, obras que representaram a ruptura definitiva, ao mesmo tempo, com o idealismo hegeliano e o pensamento materialista vulgar. Foi basicamente nestes textos que Marx e Engels elaboraram as linhas mestras de sua concep\u00e7\u00e3o te\u00f3rica da hist\u00f3ria, da sociedade e da cultura; neles se encontram os fundamentos do que veio a ser chamado de\u00a0<strong>materialismo hist\u00f3rico<\/strong>, uma teoria social ancorada numa\u00a0<strong>ontologia do ser social embasada no trabalho tomado como processo fundante da sociabilidade\u00a0<\/strong>(Jos\u00e9 Paulo Netto, \u201cPr\u00f3logo\u201d em MARX &amp; ENGELS \u2013 Manifesto do Partido Comunista, S\u00e3o Paulo, Cortez, 1998).<\/p>\n<p>Em\u00a0<strong><em>A Ideologia Alem\u00e3<\/em><\/strong>, h\u00e1 o acerto de contas te\u00f3rico e pol\u00edtico com os jovens hegelianos, acusados de limitarem seus combates ao reino do pensamento, desconhecendo a real situa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores alem\u00e3es e adotando ilus\u00f5es filos\u00f3ficas como se fossem verdades absolutas. Invertendo as teses cl\u00e1ssicas da filosofia ideol\u00f3gica alem\u00e3, Marx e Engels afirmavam: \u201cn\u00e3o \u00e9 a consci\u00eancia que determina a vida, mas sim a vida real que determina a consci\u00eancia\u201d. Somente o estudo da base econ\u00f4mica da sociedade poderia levar ao entendimento dos processos superestruturais: a coisifica\u00e7\u00e3o dos produtos no capitalismo (que tudo transforma em mercadoria), a explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem, a sociedade de classes tem sua origem na propriedade privada e na divis\u00e3o do trabalho, isto \u00e9, nas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A obra foi iniciada em setembro de 1845, logo ap\u00f3s uma viagem de estudos que Marx e Engels fizeram \u00e0 Inglaterra. Em\u00a0<strong>abril de 1846<\/strong>\u00a0o texto produzido a quatro m\u00e3os foi conclu\u00eddo, mas apenas parte dele foi publicado quando os autores ainda estavam vivos: o cap\u00edtulo IV do segundo volume saiu impresso na revista\u00a0<em>Vapor Vestef\u00e1lico<\/em>\u00a0(<em>Westphalics Dampfboot<\/em>), em agosto e setembro de 1847. V\u00e1rios editores, \u00e0 \u00e9poca, se recusaram a promover a edi\u00e7\u00e3o da obra, e o livro completo somente foi publicado, pelo Instituto Marx-Engels-Lenin de Moscou, no ano de 1932.<\/p>\n<p>Entre o final de 1846 e\u00a0<strong>abril de 1847<\/strong>, Marx redigiu, em franc\u00eas, uma nova pol\u00eamica, desta vez dirigida a\u00a0<strong>JOSEPH PROUDHON<\/strong>, emresposta ao livro\u00a0<em>Filosofia da Mis\u00e9ria<\/em>, do socialista franc\u00eas. Com o t\u00edtulo\u00a0<strong><em>Mis\u00e9ria da Filosofia<\/em><\/strong>, a obra de Marx criticava o programa pol\u00edtico que centrava a luta contra a sociedade capitalista no controle dos lucros e dos juros, vistos pelo autor comunista como fen\u00f4menos superficiais da produ\u00e7\u00e3o burguesa, que jamais poderiam ser combatidos sem que se atacassem os pr\u00f3prios mecanismos de explora\u00e7\u00e3o desenvolvidos pelo capital.<\/p>\n<p>Nesta obra, Marx produzia sua primeira an\u00e1lise sistem\u00e1tica do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, por interm\u00e9dio de uma vis\u00e3o totalizante da origem, do desenvolvimento e das contradi\u00e7\u00f5es do sistema. O embate te\u00f3rico com Proudhon tinha tamb\u00e9m um objetivo pol\u00edtico: buscava desmontar as bases filos\u00f3ficas de correntes socialistas que forte influ\u00eancia exerciam sobre o movimento oper\u00e1rio em v\u00e1rios pa\u00edses. Com isso, Marx e Engels aprofundavam suas liga\u00e7\u00f5es com a milit\u00e2ncia socialista, tentando dirigir suas a\u00e7\u00f5es para uma pr\u00e1tica de fato revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s organizarem \u201ccomit\u00eas de correspond\u00eancia comunista\u201d, com o prop\u00f3sito de trocarem informa\u00e7\u00f5es e criarem v\u00ednculos com os revolucion\u00e1rios europeus, Marx e Engels, em agosto de 1847, fundaram, em Bruxelas, a\u00a0<strong>Sociedade Oper\u00e1ria Alem\u00e3<\/strong>, formada basicamente por oper\u00e1rios alem\u00e3es emigrados, para quem Marx proferiu uma s\u00e9rie de palestras, no final do ano, explicando os fundamentos da explora\u00e7\u00e3o capitalista. Estas exposi\u00e7\u00f5es foram, depois, reunidas em texto sob o t\u00edtulo\u00a0<em>Trabalho Assalariado e Capital<\/em>, publicado em 1849. A liga\u00e7\u00e3o decisiva dos dois com o movimento oper\u00e1rio se daria atrav\u00e9s da Liga dos Justos, conforme veremos na pr\u00f3xima se\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>1847-1848: O MANIFESTO DO PARTIDO COMUNISTA<\/strong><\/p>\n<p>A\u00a0<strong>Liga dos Justos<\/strong>\u00a0foi uma organiza\u00e7\u00e3o formada a partir de uma dissid\u00eancia da\u00a0<em>Liga dos Proscritos<\/em>. Esta havia sido fundada em 1834, em Paris,\u00a0por Theodore Schuster, Wilhelm Weitling e outros imigrantes alem\u00e3es, inspirados na obra de Philippe Buonarroti, socialista italiano que atuou na Conjura dos Iguais, liderada por Graccus Babeuf. A Liga dos Justos adotava o lema \u201ctodos os homens s\u00e3o irm\u00e3os\u201d e tinha como objetivo \u201co estabelecimento do Reino de Deus na Terra, com base nos ideais de amor ao pr\u00f3ximo, igualdade e justi\u00e7a\u201d. Inspirava-se na sociedade secreta Carbon\u00e1ria e compartilhava as ideias dos socialistas franceses Saint-Simon e Charles Fourier. Buscava estabelecer na Pr\u00fassia uma \u201cRep\u00fablica Social\u201d, marcada pelos princ\u00edpios da \u201cliberdade\u201d, \u201cigualdade\u201d e \u201cvirtude c\u00edvica\u201d.<\/p>\n<p>Tratava-se de uma organiza\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter revolucion\u00e1rio conspirativo, da qual participavam ferreiros, carpinteiros, sapateiros e alfaiates. A se\u00e7\u00e3o francesa da Liga mantinha rela\u00e7\u00f5es com uma sociedade dirigida pelo republicano socialista Auguste Blanqui, ao qual se uniram na revolta de 12 de maio de 1839, contr\u00e1ria ao regime de Lu\u00eds Filipe, o \u201cRei dos Burgueses\u201d. Depois da revolta, seus membros foram expulsos da Fran\u00e7a, e a Liga se transferiu para Londres, onde, em 1840, foi criada a \u201cSociedade Educacional para Trabalhadores Alem\u00e3es\u201d. Weitling se mudou para a Su\u00ed\u00e7a.<\/p>\n<p>Em Londres, sofrendo forte influ\u00eancia do reformista Robert Owen, empres\u00e1rio defensor das cooperativas, a Liga manteve contato com as\u00a0<em>trade-unions<\/em>, o movimento cartista, grupos oper\u00e1rios fabris e de exilados pol\u00edticos provenientes de diferentes pa\u00edses europeus. Entre 1843 e 1846, Londres vivenciava uma efervesc\u00eancia de ideias, que contribu\u00edram para a disputa, no interior da Liga, das concep\u00e7\u00f5es que deveriam orientar suas a\u00e7\u00f5es. Novos princ\u00edpios come\u00e7avam a se afirmar em substitui\u00e7\u00e3o \u00e0s pr\u00e1ticas conspirativas, para dar lugar a uma concep\u00e7\u00e3o de revolu\u00e7\u00e3o como resultado de um processo que deveria combinar propaganda, a\u00e7\u00e3o permanente e organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Marx e Engels foram procurados por dirigentes que buscavam um novo caminho para o movimento oper\u00e1rio e defendiam a reorganiza\u00e7\u00e3o da Liga, sob bases program\u00e1ticas diferentes das at\u00e9 ent\u00e3o predominantes. Joseph Moll, em nome da \u201cAutoridade Central da Liga dos Justos\u201d, j\u00e1 havia estabelecido contatos,\u00a0em janeiro de 1847, com a intelectualidade revolucion\u00e1ria espalhada pela Europa, ocasi\u00e3o em que se encontrou com Marx em Bruxelas e Engels em Paris, resultando da\u00ed o ingresso de ambos na Liga dos Justos. Foi ent\u00e3o convocado um congresso para os meses de\u00a0<strong>maio<\/strong>\u00a0e junho daquele ano, que deveria contar com a participa\u00e7\u00e3o de seguidores daquelas ideias em diversos pa\u00edses. No congresso realizado em Londres, Engels presente, foi aprovada a convers\u00e3o da Liga dos Justos em\u00a0<strong>Liga dos Comunistas<\/strong>.<\/p>\n<p>Um segundo congresso foi convocado, especificamente para tratar da reestrutura\u00e7\u00e3o da Liga e de suas propostas program\u00e1ticas. Ampla discuss\u00e3o foi travada entre seus membros at\u00e9 que, novamente em Londres, delegados de v\u00e1rios pa\u00edses europeus reuniram-se, entre 29 de novembro e 08 de dezembro de 1847, e incumbiram Marx e Engels, eleitos para a dire\u00e7\u00e3o central da Liga, de redigirem o manifesto do programa, o qual ficou pronto em janeiro do ano seguinte. Os primeiros tr\u00eas mil do\u00a0<strong><em>Manifesto do Partido Comunista<\/em><\/strong>, em alem\u00e3o, foram publicados em Londres, em fevereiro de 1848.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>Manifesto<\/strong><em>\u00a0<\/em>representou, no plano te\u00f3rico-pol\u00edtico, uma marcante viragem hist\u00f3rica: \u00e9 nele que se apresentava, de maneira in\u00e9dita, um projeto social organicamente integrado a uma\u00a0<em>perspectiva de classe<\/em>, trazendo para a cena pol\u00edtica o proletariado, que come\u00e7ava a se organizar de forma aut\u00f4noma. At\u00e9 ent\u00e3o, frequentemente as demandas dos segmentos vinculados ao trabalho apareciam indistintas dos projetos burgueses, misturadas \u00e0 aspira\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria da\u00a0<em>igualdade<\/em>, da\u00a0<em>fraternidade<\/em>\u00a0e da\u00a0<em>liberdade<\/em>, palavras de ordem dos movimentos que atuaram na Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, sob a lideran\u00e7a da burguesia.<\/p>\n<p>No s\u00e9culo XIX, o avan\u00e7o do capitalismo e da luta de classes expunha mais claramente o antagonismo entre capital e trabalho, desnudando os limites do mundo burgu\u00eas, no qual a liberdade se restringia \u00e0 livre concorr\u00eancia no mercado, a igualdade se esgotava na formalidade jur\u00eddica, e a fraternidade se resolvia apenas na ret\u00f3rica e no moralismo. No momento em que come\u00e7ava a se dar a ruptura do bloco hist\u00f3rico que havia destru\u00eddo a ordem feudal, o projeto comunista do Manifesto apresentava-se como aspira\u00e7\u00e3o \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade, em que \u201co livre desenvolvimento de cada um \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o para o livre desenvolvimento de todos\u201d.<\/p>\n<p><strong>1848-1850: EXPLODE A LUTA DE CLASSES<\/strong><\/p>\n<p>O ano de 1848 representou um divisor de \u00e1guas no processo hist\u00f3rico mundial: nas jornadas de lutas que explodem na Europa, com revoltas populares eclodindo em v\u00e1rios pa\u00edses, em resposta \u00e0s crises econ\u00f4mico-sociais e ao dom\u00ednio secular das velhas aristocracias, a burguesia mostrava a sua face reacion\u00e1ria, ao optar por solu\u00e7\u00f5es conservadoras no momento em que amplos setores do proletariado e do campesinato se levantavam contra a ordem vigente. A onda revolucion\u00e1ria, que mobilizou aspira\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter liberal, democr\u00e1tico, nacionalista e socialista em toda a Europa, teve in\u00edcio na Fran\u00e7a, onde a monarquia chegava ao fim, canalizando a ira da popula\u00e7\u00e3o mais pobre, dos republicanos e dos socialistas.<\/p>\n<p>O rei Leopoldo da B\u00e9lgica respondeu \u00e0 agita\u00e7\u00e3o popular em seus dom\u00ednios dissolvendo todo tipo de associa\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e perseguindo os exilados que haviam fixado resid\u00eancia no pa\u00eds. Expulso da B\u00e9lgica, Marx retornou a Paris, mas, com a dissolu\u00e7\u00e3o da se\u00e7\u00e3o local da Liga dos Comunistas, foi para Col\u00f4nia, onde escreveu, com Engels, as\u00a0<em>Reivindica\u00e7\u00f5es do Partido Comunista na Alemanha<\/em>, panfleto que, pela primeira vez, buscava apresentar o programa pol\u00edtico do proletariado numa revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. Entre abril e maio, fundou a\u00a0<strong><em>Nova Gazeta Renana<\/em><\/strong>, na qual defendia a alian\u00e7a do proletariado e dos camponeses com a burguesia, numa soma de esfor\u00e7os visando \u00e0 liquida\u00e7\u00e3o dos restos do Antigo Regime ainda vigentes na Alemanha. O peri\u00f3dico, do qual Marx foi redator-chefe, circulou entre\u00a0<strong>junho de 1848<\/strong>\u00a0e maio de 1849.<\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a, o governo burgu\u00eas de Lu\u00eds Bonaparte, que assumiu ap\u00f3s a queda da monarquia, reprimia de forma violenta as revoltas prolet\u00e1rias de junho em Paris, dando a senha para as a\u00e7\u00f5es contrarrevolucion\u00e1rias das classes dominantes no restante da Europa, as quais esmagariam, nos meses seguintes, a breve \u201cprimavera dos povos\u201d. Em maio de 1849, explodiram conflitos e revolu\u00e7\u00f5es em diversas cidades alem\u00e3s, em algumas das quais Marx buscou atuar, conclamando \u00e0 unidade para a resist\u00eancia as for\u00e7as prolet\u00e1rias e democr\u00e1ticas, mas novamente foi obrigado a procurar abrigo fora da Alemanha.<\/p>\n<p>Pobre como nunca, depois de passar uma vez mais por Paris, a partir de 1849 fixou-se definitivamente em Londres, onde passou a dedicar-se integralmente aos seus estudos. Criou um novo jornal: a\u00a0<strong><em>Nova Gazeta Renana, Revista Pol\u00edtico-Econ\u00f4mica<\/em><\/strong>, onde, ao longo do ano de 1850, escreveu uma s\u00e9rie de tr\u00eas artigos que fazia o balan\u00e7o do movimento revolucion\u00e1rio franc\u00eas. Acrescido de um quarto artigo dele com Engels, escrito em outubro de 1850, os textos seriam publicados bem depois, em 1895, com o t\u00edtulo de\u00a0<strong><em>As Lutas de Classes na Fran\u00e7a (1848-1850)<\/em>.<\/strong><\/p>\n<p>Marx e Engels se dedicaram a promover, juntamente com outros revolucion\u00e1rios exilados, a avalia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da derrota do movimento. Entre as raz\u00f5es para a vit\u00f3ria dos setores reacion\u00e1rios estavam a retomada da economia, a fragilidade da classe trabalhadora, que mal contava com alguma estrutura organizacional em determinados pa\u00edses e a retirada do apoio da burguesia \u00e0s lutas pelas reformas pol\u00edticas e sociais. Numa postura que encerraria o ciclo \u201cprogressista\u201d iniciado com as revolu\u00e7\u00f5es burguesas nos s\u00e9culos precedentes, a burguesia optou por se reaproximar da aristocracia para impedir a eclos\u00e3o de um movimento popular radical, liderado pelas representa\u00e7\u00f5es mais organizadas do operariado. Tudo isso possibilitou que as for\u00e7as pol\u00edticas conservadoras, instaladas nos principais governos da Europa, retomassem, por meio de violenta repress\u00e3o \u00e0s massas mobilizadas, o controle da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em alian\u00e7a com cartistas e blanquistas, Marx e Engels esfor\u00e7aram-se ainda para formar a Sociedade Internacional dos Comunistas Revolucion\u00e1rios, iniciativa que, entretanto, n\u00e3o prosperou. Convencidos ent\u00e3o de que a vaga revolucion\u00e1ria de 1848 havia se esgotado e, em meio a fortes diverg\u00eancias que levaram a dissid\u00eancias e manifesta\u00e7\u00f5es de sectarismo, decidiram, em novembro de 1852, propor a dissolu\u00e7\u00e3o da se\u00e7\u00e3o londrina da Liga dos Comunistas, o que representou de fato o fim da organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Num momento de refluxo das lutas revolucion\u00e1rias, Marx passou a se dedicar quase que exclusivamente aos seus estudos. Vivia dos artigos que conseguia publicar em alguma revista, tendo colaborado, por oito anos, com dois artigos semanais para o\u00a0<em>New York Tribune<\/em>, que n\u00e3o lhe garantia um rendimento regular. O mais importante para a sua sobreviv\u00eancia era a ajuda financeira de Engels, que se estabeleceu em Manchester, trabalhando na ind\u00fastria t\u00eaxtil de propriedade de sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p><strong>1851-1853: REFLUXO DO MOVIMENTO OPER\u00c1RIO E DEDICA\u00c7\u00c3O AOS ESTUDOS<\/strong><\/p>\n<p>Num per\u00edodo muito dif\u00edcil de sua vida, marcado por um forte decl\u00ednio do movimento oper\u00e1rio, ap\u00f3s as derrotas nas agita\u00e7\u00f5es de 1848, combinado com a situa\u00e7\u00e3o material miser\u00e1vel da fam\u00edlia (que contribuiu para a morte prematura de dois de seus filhos), Marx trabalhou \u00e1rdua e sistematicamente, concentrando todos os seus esfor\u00e7os no projeto de uma\u00a0<strong>cr\u00edtica da economia pol\u00edtica<\/strong>. Frequentava diariamente a biblioteca p\u00fablica do Museu de Londres, dedicando cerca de dez horas para fazer anota\u00e7\u00f5es e copiar as passagens mais importantes dos livros pesquisados. Com este material, \u00e0 noite em sua casa, escrevia seus pr\u00f3prios textos. V\u00e1rias dessas anota\u00e7\u00f5es foram depois utilizadas diretamente como notas em\u00a0<em>O Capital<\/em>.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou, em\u00a01850, a\u00a0escrever os chamados\u00a0<strong><em>Cadernos de Londres<\/em><\/strong>, um conjunto de mais de 20 cadernos de estudos elaborados at\u00e9 1853. Neles aprofundou suas pesquisas na \u00e1rea da economia, passando por estudos de hist\u00f3ria da tecnologia e agronomia, at\u00e9 temas como t\u00e9cnicas militares e armamentos. Nos primeiros sete cadernos (I-VII), escritos entre setembro de 1850 e mar\u00e7o de 1851, leu e anotou apontamentos de livros de economistas e historiadores brit\u00e2nicos, com destaque para\u00a0<em>A riqueza das Na\u00e7\u00f5es<\/em>, de Adam Smith, concentrando-se especialmente na hist\u00f3ria e nas teorias das crises econ\u00f4micas. Ao contr\u00e1rio de pensadores socialistas da \u00e9poca, como Proudhon, para quem as crises econ\u00f4micas poderiam ser evitadas por meio da reforma do sistema monet\u00e1rio, Marx concluiu que as verdadeiras causas da crise deveriam ser buscadas nas contradi\u00e7\u00f5es da produ\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>Entre abril e novembro de 1851, Marx escreveu mais um conjunto de anota\u00e7\u00f5es reunidas no que seria o segundo grupo de cadernos (VIII-XVI), nos quais as cita\u00e7\u00f5es mais importantes eram aquelas dedicadas a analisar criticamente as ideias de David Ricardo, atrav\u00e9s do estudo mais aprofundado da renda da terra e do valor. Os cadernos IX e X, escritos de maio a\u00a0<strong>julho de 1851<\/strong>, concentraram-se na pesquisa de economistas que apontaram contradi\u00e7\u00f5es da teoria de Ricardo. O caderno XI tratou de textos que versavam sobre a condi\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora, os cadernos XII e XIII, sobre qu\u00edmica agr\u00e1ria (para o estudo da renda da terra), enquanto o Caderno XIV abordou o debate sobre a teoria da popula\u00e7\u00e3o de Thomas Malthus. Pesquisou ainda os modos pr\u00e9-capitalistas de produ\u00e7\u00e3o, o colonialismo, e, entre setembro e novembro de 1851, estendeu o campo de pesquisa \u00e0 tecnologia e a sua hist\u00f3ria (caderno XV). Dedicou o caderno XVI a diversas quest\u00f5es de economia pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Mas o trabalho mais frut\u00edfero de Marx no per\u00edodo foi a produ\u00e7\u00e3o de\u00a0<strong><em>O 18 Brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte<\/em><\/strong>, escrito entre dezembro de 1851 e mar\u00e7o de 1852. Era um documento t\u00edpico de an\u00e1lise de conjuntura, no qual, partindo do estudo da estrutura de classes na Fran\u00e7a, avaliava a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as pol\u00edticas em 1848 e o car\u00e1ter do golpe perpetrado por Bonaparte em dezembro de 1851, quando foi restaurado o poder imperial franc\u00eas. O texto, publicado em maio de 1852 em Nova Iorque, analisava o bonapartismo como forma de governo utilizada pela burguesia quando esta se encontrava acossada pela crise. Ainda no ano de 1851, Marx desdobrou-se na solidariedade aos revolucion\u00e1rios presos em Col\u00f4nia, contra os quais haviam sido abertos processos judiciais, que se arrastaram por meses. Sobre o caso, produziu, em dezembro de 1852, o panfleto\u00a0<em>Revela\u00e7\u00f5es sobre o processo dos comunistas em Col\u00f4nia<\/em>, denunciando a farsa preparada pelos tribunais reacion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Entre abril de 1852 e agosto de 1853, Marx escreveu as anota\u00e7\u00f5es para o terceiro e \u00faltimo grupo dos\u00a0<em>Cadernos de Londres<\/em>\u00a0(XVII-XXIV), lidando com v\u00e1rias fases do desenvolvimento hist\u00f3rico das sociedades, mas focando boa parte das pesquisas nas controv\u00e9rsias sobre a Idade M\u00e9dia. Demonstrou tamb\u00e9m um particular interesse pela \u00cdndia, na\u00e7\u00e3o sobre a qual dedicou artigos que foram publicados no\u00a0<em>New York Tribune<\/em>. A crise econ\u00f4mica foi um tema constante nos artigos que Marx escreveu para o jornal estadunidense. Neles ele aprofundou a an\u00e1lise sobre o car\u00e1ter das crises de superprodu\u00e7\u00e3o, pr\u00f3prias do capitalismo desenvolvido, avaliando que brevemente chegaria \u201cum momento em que a extens\u00e3o dos mercados n\u00e3o ser\u00e1 capaz de atender \u00e0 extens\u00e3o das manufaturas brit\u00e2nicas\u201d e que se \u201cacender\u00e1 o pavio da mina superlotada do sistema industrial moderno\u201d, causando \u201ca explos\u00e3o da crise geral que h\u00e1 muito tempo se prepara e que, espalhando-se, ser\u00e1 seguida de perto por revolu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas no continente\u201d (<em>Revolu\u00e7\u00e3o na China e na Europa<\/em>, junho de 1853). Marx n\u00e3o via o processo revolucion\u00e1rio de maneira determinista, mas estava convencido de que a crise seria um pr\u00e9-requisito indispens\u00e1vel para sua eclos\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>1853-1860: PARA A CR\u00cdTICA DA ECONOMIA POL\u00cdTICA<\/strong><\/p>\n<p>Entre outubro e dezembro de 1853, Marx escreveu uma s\u00e9rie de artigos (<em>Lorde Palmerston<\/em>) em que criticava a pol\u00edtica exterior do secret\u00e1rio de assuntos exteriores e futuro primeiro-ministro da Gr\u00e3-Bretanha, publicados no\u00a0<em>New York Tribune<\/em>\u00a0e no jornal dos cartistas ingleses,\u00a0<em>The People\u2019s Paper<\/em>. Entre agosto e novembro de 1854, produziu outra s\u00e9rie de textos (<em>A Revolu\u00e7\u00e3o na Espanha<\/em>), sobre o levante civil e militar ocorrido na Espanha. No final de 1854, retomou os estudos de economia pol\u00edtica, mas a sa\u00fade debilitada e a desastrosa situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica impediam a continuidade dos trabalhos. E a fam\u00edlia crescia, com o nascimento de Eleanor, em janeiro de 1855.<\/p>\n<p>O quadro dom\u00e9stico melhorou ligeiramente em 1856, gra\u00e7as a uma heran\u00e7a recebida ap\u00f3s a morte de um tio de Jenny, e Marx voltou a escrever artigos sobre a crise econ\u00f4mica. Esta somente veio a explodir nos primeiros meses de 1857, iniciada nos Estados Unidos a partir do sistema banc\u00e1rio de Nova Iorque, mas, logo em seguida, atingindo os centros do mercado mundial na Europa, na Am\u00e9rica do Sul e no Oriente, tornando-se a primeira crise financeira internacional da hist\u00f3ria. Com a eclos\u00e3o da crise, Marx considerou que sua tarefa mais urgente era analisar os fen\u00f4menos econ\u00f4micos em curso, para fornecer instrumentos te\u00f3ricos aos revolucion\u00e1rios, imaginando que uma nova onda de revoltas sociais estava para acontecer.<\/p>\n<p>Com este prop\u00f3sito em mente, iniciou e completou, entre 1857 e 1858, a primeira reda\u00e7\u00e3o de sua \u201ccr\u00edtica da economia pol\u00edtica\u201d. Em apenas alguns meses escreveu mais do que nos anos anteriores. Em dezembro de 1857, dizia, numa carta a Engels: \u201cEstou trabalhando como um louco todas as noites nos meus estudos econ\u00f4micos para ter pelo menos um esquema geral (<em>Grundrisse<\/em>), claro, antes do dil\u00favio\u201d. Entre\u00a0<strong>agosto de 1857\u00a0<\/strong>e maio de 1858, ele completou oito cadernos de escritos, os quais, somente publicados postumamente, foram intitulados pelos editores \u2013 com base na indica\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Marx \u2013\u00a0<strong><em>Grundrisse der Kritik der politischen \u00d6konomie<\/em><\/strong>, ou seja,\u00a0<em>Elementos fundamentais para a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica<\/em>, conhecidos simplesmente como\u00a0<strong><em>Grundrisse<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p>Neste manuscrito, com cerca de mil p\u00e1ginas, Marx abordava, pela primeira vez, os temas que, mais tarde, iriam constituir os Livros I e II de\u00a0<em>O Capital<\/em>, que tratam dos processos de produ\u00e7\u00e3o e de circula\u00e7\u00e3o do capital. A primeira edi\u00e7\u00e3o deste manuscrito apareceu em Moscou, em dois volumes, em 1939 e 1940, em seu original alem\u00e3o. Por causa da Segunda Guerra Mundial, esta primeira edi\u00e7\u00e3o teve divulga\u00e7\u00e3o escassa no Ocidente. Somente em 1953, os\u00a0<em>Grundrisse<\/em>\u00a0foram reeditados na antiga Alemanha Oriental, passando a despertar interesse de estudiosos marxistas e n\u00e3o marxistas.<\/p>\n<p>Marx utilizou seus escritos de v\u00e1rios anos para escrever tais manuscritos, que podem ser divididos em dois tipos: primeiro, aqueles produzidos na biblioteca e que constituem basicamente cadernos de extratos e de cita\u00e7\u00f5es, fruto da leitura de centenas de livros. O segundo tipo corresponde aos escritos pr\u00f3prios, feitos \u00e0 noite em sua casa, os quais compuseram os\u00a0<em>Grundrisse<\/em>, de onde Marx aproveitou v\u00e1rias passagens para a confec\u00e7\u00e3o dos\u00a0<em>Manuscritos de 1861-1863<\/em>. Estes, por sua vez, prepararam o advento de\u00a0<em>O Capital<\/em>, tendo significado o momento necess\u00e1rio de aprofundamento da an\u00e1lise sobre o capitalismo, pois Marx tinha plena consci\u00eancia de que precisava criar novas categorias te\u00f3ricas (um novo aparato conceitual) para se desvencilhar das contradi\u00e7\u00f5es existentes nas teorias dos pensadores liberais cl\u00e1ssicos.<\/p>\n<p>No mesmo per\u00edodo, na qualidade de correspondente do\u00a0<em>New York Tribune<\/em>, Marx assumiu e cumpriu o compromisso de enviar dezenas de artigos sobre o aprofundamento da crise na Europa. Al\u00e9m disso, produziu verbetes para\u00a0<em>The New American Cyclop\u00e6dia<\/em>, para tentar melhorar a sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Entre outubro de 1857 e fevereiro de 1858, compilou os\u00a0<strong><em>Cadernos da Crise<\/em><\/strong>, desta vez reunindo, em tr\u00eas cadernos, n\u00e3o mais passagens de livros de economistas e historiadores, mas uma grande quantidade de notas retiradas de diversos jornais di\u00e1rios sobre os principais desdobramentos da crise, as tend\u00eancias nas bolsas de valores, flutua\u00e7\u00f5es do mercado e fal\u00eancias de empresas na Europa, nos Estados Unidos e outras partes do mundo.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o houve nem sinal do movimento revolucion\u00e1rio que, supostamente, irromperia na sequ\u00eancia da crise e, para Marx, ele ainda n\u00e3o dominava criticamente todo o material reunido, os\u00a0<em>Grundrisse<\/em>\u00a0permaneceram como um conjunto de \u201cesbo\u00e7os\u201d ou como se fosse um mero rascunho. Apenas uma parte deste manuscrito, que tratava da mercadoria e do dinheiro, foi publicada, em 1859, sob o t\u00edtulo\u00a0<strong><em>Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica da economia pol\u00edtica<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p><strong>OS MANUSCRITOS DE 1861-1863<\/strong><\/p>\n<p>Entre 1861 e 1863, Marx redigiu uma nova vers\u00e3o da sua \u201cEconomia\u201d, que permaneceu in\u00e9dita at\u00e9 os anos 80 do s\u00e9culo XX. Uma terceira vers\u00e3o foi elaborada entre 1863 e 1865, formando a base n\u00e3o s\u00f3 do Livro I de\u00a0<em>O Capital<\/em>, \u00fanico publicado em vida de Marx, mas tamb\u00e9m do Livro III e das\u00a0<em>Teorias da mais-valia<\/em>, publicados, respectivamente, por Engels e por Kautsky.<\/p>\n<p>Situados entre os\u00a0<em>Grundrisse\u00a0<\/em>e\u00a0<em>O Capital<\/em>, os\u00a0<strong><em>Manuscritos de 1861-1863<\/em><\/strong><em>\u00a0<\/em>representaram a fase intelectual mais produtiva em toda a vida de Marx: foram ao todo 23 cadernos correspondendo a 2.384 p\u00e1ginas editadas posteriormente. Nelas Marx desenvolveu categorias e quest\u00f5es tais como a\u00a0<strong>subsun\u00e7\u00e3o do trabalho no capital<\/strong>, a metamorfose da base material capitalista, a diferen\u00e7a entre m\u00e1quina e ferramenta, a an\u00e1lise da maquinaria e do fetichismo, a rela\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e processo de produ\u00e7\u00e3o, etc. Estes manuscritos foram o laborat\u00f3rio te\u00f3rico de Marx para a reda\u00e7\u00e3o de\u00a0<strong><em>O Capital<\/em><\/strong>, porque se tornaram um texto cujo objetivo foi amadurecer a an\u00e1lise sobre o modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, preparando a reda\u00e7\u00e3o final da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. Como uma continua\u00e7\u00e3o da\u00a0<em>Contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 cr\u00edtica da economia pol\u00edtica<\/em>, j\u00e1 tratavam, em seu primeiro caderno, da transforma\u00e7\u00e3o do dinheiro em capital.<\/p>\n<p>A partir da an\u00e1lise da subsun\u00e7\u00e3o, Marx desenvolveu os conceitos de subsun\u00e7\u00e3o formal e subsun\u00e7\u00e3o real. O conceito de\u00a0<strong>subsun\u00e7\u00e3o formal\u00a0<\/strong>designa a rela\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o e subordina\u00e7\u00e3o do trabalho frente ao capital no per\u00edodo pr\u00e9-industrial, de predom\u00ednio do capital mercantil, que comandava a produ\u00e7\u00e3o artesanal e manufatureira. O trabalhador estava subsumido ao capital na medida em que n\u00e3o possu\u00eda mais os meios de produ\u00e7\u00e3o e era obrigado a se tornar um trabalhador assalariado. Por\u00e9m, a subsun\u00e7\u00e3o era apenas formal, pois, sem ainda a introdu\u00e7\u00e3o de m\u00e1quinas, o trabalhador era capaz de exercer um grande controle sobre o ritmo e o modo de produzir, detendo o monop\u00f3lio do conhecimento (o\u00a0saber-fazer) do processo de trabalho. Com isso, o aumento da explora\u00e7\u00e3o do trabalho, em geral, se dava pelo aumento da jornada de trabalho (<strong>mais valia absoluta<\/strong>).<\/p>\n<p>Nos modos de produ\u00e7\u00e3o pr\u00e9-capitalistas, o excedente da produ\u00e7\u00e3o era obtido diretamente pela viol\u00eancia (trabalho for\u00e7ado direto, trabalho compuls\u00f3rio), enquanto que, com a emerg\u00eancia do capital, o trabalho continua compuls\u00f3rio para a maioria da popula\u00e7\u00e3o, mas passa a ser mediado (e velado) pela troca de mercadorias. A manufatura foi nitidamente um per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o, momento em que se d\u00e1 a generaliza\u00e7\u00e3o da lei do valor para todos os produtos do trabalho humano, inclusive a for\u00e7a de trabalho, tamb\u00e9m transformada em mercadoria.<\/p>\n<p>O conceito de\u00a0<strong>subsun\u00e7\u00e3o real\u00a0<\/strong>designa a rela\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o e subordina\u00e7\u00e3o do trabalho perante o capital industrial, quando o trabalhador sofre um processo de expropria\u00e7\u00e3o do seu saber-fazer, perdendo o dom\u00ednio completo sobre o ritmo da produ\u00e7\u00e3o e, principalmente, sobre o modo de produzir, que passa a ser ditado pela maquinaria (ideias que j\u00e1 estavam presentes nos\u00a0<em>Grundrisse<\/em>). O capital separa bra\u00e7os e mentes, tornando o conhecimento aplicado no processo de trabalho como algo externo aos pr\u00f3prios produtores diretos. Foi preciso, ent\u00e3o, criar um segmento de trabalhadores t\u00e9cnico-cient\u00edficos, separado da classe trabalhadora tradicional, vinculado a um trabalho unicamente intelectual, sem nenhuma rela\u00e7\u00e3o direta com algum trabalho manual espec\u00edfico, respons\u00e1vel unicamente pela gest\u00e3o e organiza\u00e7\u00e3o do trabalho.<\/p>\n<p>Com o uso da maquinaria, o trabalho torna-se objetivamente abstrato, ou, dito de outro modo, o\u00a0<strong>trabalho abstrato\u00a0<\/strong>se realiza na pr\u00e1tica no interior mesmo do processo de trabalho e n\u00e3o apenas no momento da circula\u00e7\u00e3o. A produ\u00e7\u00e3o de mercadorias torna efetivamente social o trabalho individual que as produziu, ao passo que as mercadorias s\u00f3 t\u00eam um car\u00e1ter objetivo como valores na medida em que s\u00e3o todas express\u00f5es de uma subst\u00e2ncia social id\u00eantica, o trabalho humano. O trabalho abstrato, portanto, \u00e9 a propriedade adquirida pelo trabalho humano quando dirigido para a\u00a0<strong>produ\u00e7\u00e3o de mercadorias<\/strong>, num processo de\u00a0<strong>valoriza\u00e7\u00e3o do capital<\/strong>. Este \u00e9 o momento em que se d\u00e1 a materializa\u00e7\u00e3o do\u00a0<strong>fetichismo da mercadoria<\/strong>\u00a0no processo de produ\u00e7\u00e3o, quando\u00a0<strong>o trabalho morto passa a dominar o trabalho vivo<\/strong>. Sendo assim, o aumento da explora\u00e7\u00e3o se imp\u00f5e pela utiliza\u00e7\u00e3o da tecnologia e por novas formas de gerenciamento da produ\u00e7\u00e3o (<strong>mais valia relativa<\/strong>).<\/p>\n<p><strong>1864-1871: A INTERNACIONAL E A RETOMADA DAS LUTAS<\/strong><\/p>\n<p>No mesmo per\u00edodo em que se debru\u00e7ava sobre os Manuscritos de 1861-1863, Marx foi obrigado tamb\u00e9m a se ocupar da defesa de Louis Blanqui, revolucion\u00e1rio franc\u00eas que estava sendo perseguido pelo governo de Lu\u00eds Bonaparte. Al\u00e9m disso, dedicou-se a analisar as novas conjunturas sociais e pol\u00edticas na R\u00fassia, em que foi decretada a aboli\u00e7\u00e3o da servid\u00e3o em 1861, e nos Estados Unidos, onde a guerra civil daria a vit\u00f3ria aos nortistas, promovendo o fim da escravid\u00e3o e a r\u00e1pida expans\u00e3o do capitalismo.<\/p>\n<p>T\u00e3o logo as lutas oper\u00e1rias ressurgiram no cen\u00e1rio pol\u00edtico e social europeu, Marx dedicou um tempo precioso \u00e0 milit\u00e2ncia pol\u00edtica e social e aos trabalhos de organiza\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio. Em 28 de setembro de 1864, realizou-se, em Londres, uma grande assembleia de trabalhadores, com a presen\u00e7a de representantes do operariado ingl\u00eas, franc\u00eas e de imigrantes. Neste encontro, Marx apresentou o projeto de uma\u00a0<strong>Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores<\/strong>, com o objetivo de substituir as seitas socialistas ou semi-socialistas por uma organiza\u00e7\u00e3o efetiva da classe oper\u00e1ria que a levasse \u00e0 luta contra o capital. Foi eleito para a inst\u00e2ncia decis\u00f3ria mais alta da organiza\u00e7\u00e3o, o Conselho Geral, tendo sido ainda indicado a redigir, com outros companheiros, os estatutos e o programa da Associa\u00e7\u00e3o. A tarefa come\u00e7ou a ser cumprida numa reuni\u00e3o realizada em\u00a0<strong>18 de outubro<\/strong>, mas, diante das dificuldades em finalizar os documentos, Marx se prop\u00f4s a conclu\u00ed-los, os quais foram enfim aprovados, em 1\u00ba de novembro, pelo Conselho Geral, juntamente com uma\u00a0<em>Mensagem Inaugural da Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores<\/em>, tamb\u00e9m escrita por ele.<\/p>\n<p>Afastado da milit\u00e2ncia desde o encerramento da Liga dos Comunistas, Marx voltou com todo entusiasmo \u00e0 a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, sobretudo por estar em jogo a possibilidade de colocar o movimento oper\u00e1rio sob a perspectiva real do\u00a0<strong>internacionalismo prolet\u00e1rio<\/strong>, apesar da composi\u00e7\u00e3o extremamente heterog\u00eanea da Associa\u00e7\u00e3o Internacional. Em raz\u00e3o disso, sua dedica\u00e7\u00e3o era redobrada, no sentido de dar \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o uma unidade program\u00e1tica classista.<\/p>\n<p>Em junho de 1865, Marx polemizou com John Weston no interior do Conselho Geral, para refutar o argumento difundido pelos delegados influenciados pelas ideias de Robert Owen, segundo os quais um aumento geral de sal\u00e1rios seria prejudicial \u00e0 ind\u00fastria, ao com\u00e9rcio e aos pr\u00f3prios trabalhadores. A interven\u00e7\u00e3o de Marx, reunida no texto\u00a0<strong><em>Sal\u00e1rio, Pre\u00e7o e Lucro<\/em><\/strong>\u00a0(somente publicado em 1898 por sua filha Eleanor), representou uma verdadeira demarca\u00e7\u00e3o de campo entre os revolucion\u00e1rios e os reformistas, em cujas fileiras se inclu\u00edam os seguidores de Proudhon, apesar de toda sua verborragia radical. Neste manuscrito em que eram expostos elementos fundamentais para a constru\u00e7\u00e3o da\u00a0<strong>teoria do mais valor<\/strong>, h\u00e1 o chamamento do operariado \u00e0 luta e \u00e0 supera\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria da condi\u00e7\u00e3o de subjuga\u00e7\u00e3o imposta pelo capital por meio do trabalho assalariado.<\/p>\n<p>A expans\u00e3o da Internacional na segunda metade da d\u00e9cada de 1860, em que pese a forte influ\u00eancia das ideias de Marx, n\u00e3o impediu que viessem \u00e0 tona conflitos de concep\u00e7\u00f5es pol\u00edticas entre seus destacados dirigentes, dentre os quais os mais importantes foram aqueles que opuseram Marx, Engels e seus seguidores aos anarquistas, liderados por Mikhail Bakunin. As disputas com os anarquistas, que se tornaram cada vez mais acirradas, terminaram por levar \u00e0 sua expuls\u00e3o pelos delegados da Internacional, reunidos no congresso em Haia, em 1872.<\/p>\n<p>Antes disso, durante a guerra franco-prussiana de 1870-1871, conflito que contribuiu sobremaneira para a unifica\u00e7\u00e3o da Alemanha, chegava ao fim o Imp\u00e9rio de Napole\u00e3o III e tinha in\u00edcio uma nova fase da Rep\u00fablica francesa, com a ascens\u00e3o do pol\u00edtico reacion\u00e1rio Adolphe Thiers, ex-primeiro ministro de Lu\u00eds Bonaparte. Mas o proletariado franc\u00eas recusou-se a depor as armas ap\u00f3s a assinatura de uma paz humilhante do governo provis\u00f3rio com a Pr\u00fassia, proclamando a\u00a0<strong>Comuna de Paris<\/strong>, primeiro exemplo hist\u00f3rico de um governo revolucion\u00e1rio dirigido pelos trabalhadores.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de mobilizar a Internacional em defesa dos comunardos, Marx analisou profundamente aquela experi\u00eancia mete\u00f3rica de poder popular. Entre julho de 1870 e maio de 1871, encaminhou para o Conselho Geral da Internacional suas avalia\u00e7\u00f5es sobre o acontecimento, que renderam o trabalho intitulado\u00a0<strong><em>A Guerra Civil na Fran\u00e7a<\/em><\/strong>. A derrota do movimento, esmagado cruelmente pelas for\u00e7as da repress\u00e3o burguesas, serviu para que Marx refletisse sobre a necessidade de forma\u00e7\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria pr\u00f3pria da classe trabalhadora capaz de instaurar a\u00a0<strong>ditadura do proletariado<\/strong>, enfrentando radicalmente a for\u00e7a da burguesia e abrindo caminho para a supress\u00e3o das classes.<\/p>\n<p><strong>A REDA\u00c7\u00c3O DE\u00a0<em>O CAPITAL<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Entre janeiro de 1866 e abril de 1867, atormentado por problemas de sa\u00fade, Marx mergulhou no trabalho insano de transformar suas pesquisas e apontamentos em uma exposi\u00e7\u00e3o que pudesse ser materializada na forma de livro. O texto ficou pronto e foi publicado, numa primeira edi\u00e7\u00e3o de mil exemplares, em Hamburgo, em meados de setembro de 1867, com o t\u00edtulo\u00a0<strong><em>O Capital. Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica<\/em><\/strong>. Somente este Livro I, voltado a analisar o\u00a0<strong>processo de produ\u00e7\u00e3o do capital<\/strong>, pin\u00e7ado de um conjunto muito maior de manuscritos, foi pensado por ele para ser publicado.<\/p>\n<p>Marx ainda promoveu altera\u00e7\u00f5es no texto para a segunda edi\u00e7\u00e3o do livro e mais mudan\u00e7as desejava fazer, conforme indicou Engels no pref\u00e1cio \u00e0 terceira edi\u00e7\u00e3o, de\u00a0<strong>07 de novembro de 1883<\/strong>, mas a sa\u00fade ruim e a \u00e2nsia de concluir o volume II n\u00e3o o permitiram. A vers\u00e3o definitiva do Livro I saiu na quarta edi\u00e7\u00e3o, em 1890, com revis\u00e3o feita por Engels com base em outras anota\u00e7\u00f5es registradas pelo amigo. Partindo da an\u00e1lise sobre a\u00a0<strong>mercadoria<\/strong>, Marx tratou basicamente da rela\u00e7\u00e3o determinante do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista: a\u00a0<strong>explora\u00e7\u00e3o do trabalho assalariado pelo capital<\/strong>. Dentre outras conceitua\u00e7\u00f5es definitivas a respeito do capitalismo, Marx trouxe \u00e0 luz a lei geral da acumula\u00e7\u00e3o do capital, a transforma\u00e7\u00e3o do dinheiro em capital, a distin\u00e7\u00e3o entre capital constante e capital vari\u00e1vel.<\/p>\n<p>Compreendendo o valor de qualquer produto final como determinado pelo\u00a0<strong>tempo socialmente necess\u00e1rio<\/strong>\u00a0gasto em sua produ\u00e7\u00e3o, Marx tamb\u00e9m determinou a peculiaridade da mercadoria for\u00e7a de trabalho, que igualmente tem seu valor determinado pelo tempo socialmente necess\u00e1rio para a sua reprodu\u00e7\u00e3o. Da\u00ed ent\u00e3o que p\u00f4s a nu a ess\u00eancia do sistema, ao definir que o\u00a0<strong>capital<\/strong>\u00a0n\u00e3o \u00e9 uma coisa, mas uma\u00a0<strong>rela\u00e7\u00e3o social de explora\u00e7\u00e3o<\/strong>. Vendendo os produtos, o capitalista recebe, al\u00e9m da quantia necess\u00e1ria a repor o que investiu anteriormente, um\u00a0<strong>mais valor<\/strong>, um excedente que prov\u00e9m do resultado do trabalho concreto realizado pelo trabalhador. O capital, portanto, det\u00e9m a propriedade que garante ao capitalista explorar trabalho alheio.<\/p>\n<p>Trata-se, na verdade, de reduzir o tempo de trabalho de que necessita o trabalhador para reprodu\u00e7\u00e3o de sua capacidade de trabalho, ou seja, para a reprodu\u00e7\u00e3o do seu sal\u00e1rio. O capitalista, ao introduzir a maquinaria ou novas formas de organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, tem como finalidade a diminui\u00e7\u00e3o da quantidade de trabalho necess\u00e1rio para a produ\u00e7\u00e3o de mercadorias, principalmente da mercadoria mais importante do capitalismo: a for\u00e7a de trabalho. O desenvolvimento das for\u00e7as produtivas, nesses moldes, al\u00e9m de provocar a desvaloriza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, embute a aplica\u00e7\u00e3o de novas formas de domina\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, na inten\u00e7\u00e3o de capturar a subjetividade oper\u00e1ria, com vistas a garantir o processo hegem\u00f4nico do capital.<\/p>\n<p>O Livro II, sobre o\u00a0<strong>processo de circula\u00e7\u00e3o do capital<\/strong>, reunindo textos escritos entre os anos de 1868 e 1881, somente veio a ser publicado dois anos ap\u00f3s a morte de Marx, em 1885, editado por Engels. Nesta obra aparecem as an\u00e1lises sobre a movimenta\u00e7\u00e3o do capital, as suas metamorfoses e ciclos, a circula\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria, assim como as distin\u00e7\u00f5es entre o uso do dinheiro e do capital. A reprodu\u00e7\u00e3o e a acumula\u00e7\u00e3o do capital s\u00e3o estudadas do ponto de vista da circula\u00e7\u00e3o, ou seja, de como o capital se comporta e se reproduz no mercado.<\/p>\n<p>O Livro III, dedicado\u00a0<strong>ao processo global da produ\u00e7\u00e3o capitalista<\/strong>, resultante de notas redigidas entre 1864 e 1865, foi publicado em 1894, ap\u00f3s trabalho \u00e1rduo de Engels para juntar e dar encadeamento l\u00f3gico aos materiais dispersos deixados por Marx. Nele a an\u00e1lise do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista aparece como unidade indissol\u00favel de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o, acrescida do estudo das formas concretas do capital, tais como o capital industrial, o capital comercial, o\u00a0<strong>capital portador de juros<\/strong>, al\u00e9m da abordagem sobre a renda fundi\u00e1ria. O Livro IV, contendo as\u00a0<strong>teorias da mais valia<\/strong>, uma hist\u00f3ria cr\u00edtica do pensamento econ\u00f4mico e a quest\u00e3o do trabalho produtivo e improdutivo, foi editado, precariamente, por Kautsky, entre 1905 e 1910, somente recebendo um tratamento mais adequado em 1950.<\/p>\n<p>A obra m\u00e1xima de Marx unifica abordagens m\u00faltiplas no campo das ci\u00eancias humanas, ao reunir elementos da economia pol\u00edtica, da sociologia, da hist\u00f3ria, da geografia, da demografia, da filosofia e da antropologia. Partindo da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica, isto \u00e9, do estudo exaustivo do funcionamento do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, n\u00e3o se reduz a uma an\u00e1lise economicista da vida em sociedade, como querem seus detratores, mas, ao contr\u00e1rio, possibilita a compreens\u00e3o, em sua totalidade, da din\u00e2mica da sociedade burguesa, o conhecimento das classes sociais, suas rela\u00e7\u00f5es sociais, culturais e pol\u00edticas. Temos, portanto, em\u00a0<strong><em>O Capital<\/em><\/strong>, o fundamento da teoria social de Marx.<\/p>\n<p><strong>1871-1883: O CREP\u00daSCULO DO REVOLUCION\u00c1RIO<\/strong><\/p>\n<p>Ap\u00f3s o massacre da Comuna de Paris, Marx voltou sua aten\u00e7\u00e3o \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es verificadas no \u00e2mbito do capitalismo, que vivenciava a passagem para o capitalismo monopolista e o imperialismo, com a irrup\u00e7\u00e3o da chamada segunda revolu\u00e7\u00e3o industrial, na qual tinha destaque o desenvolvimento do setor de bens de produ\u00e7\u00e3o, da siderurgia e da energia. Neste contexto, entravam em cena, como novas pot\u00eancias econ\u00f4micas a disputar a primazia da Inglaterra nos mercados mundiais, a Alemanha unificada e fortemente industrializada, assim como os Estados Unidos, ap\u00f3s a Guerra Civil.<\/p>\n<p>Marx interessou-se tamb\u00e9m pela situa\u00e7\u00e3o na R\u00fassia, acreditando que estava em curso um processo de decomposi\u00e7\u00e3o da sociedade, desencadeado ap\u00f3s a emancipa\u00e7\u00e3o dos servos. Para ele, uma revolu\u00e7\u00e3o social era iminente, tendo escrito, em 1877, a Friedrich Sorge, revolucion\u00e1rio alem\u00e3o que migrou para os Estados Unidos: \u201cDessa vez a revolu\u00e7\u00e3o est\u00e1 come\u00e7ando no Oriente\u201d.<\/p>\n<p>Desde meados dos anos 1860, Marx e a fam\u00edlia moravam no bairro de Haverstock Hill, em Londres, onde ele passaria os \u00faltimos anos de sua vida. Suas filhas, Laura e Jenny, casaram-se com socialistas que lutaram na Comuna de Paris (Paul Lafargue e Charles Longuet, respectivamente). Eleanor, a terceira filha, por sua vez, namorou um comunardo, mas n\u00e3o se casou com ele. Com a sa\u00fade cada vez mais debilitada, Marx reduziu sua atividade pol\u00edtica, mas mantinha-se preocupado com o desenvolvimento das lutas prolet\u00e1rias.<\/p>\n<p>Na conjuntura de expans\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es capitalistas em todo o mundo e do surgimento de novas formas de organiza\u00e7\u00e3o social, dedicou especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o dos\u00a0<strong>partidos oper\u00e1rios de massa<\/strong>, a exemplo dos embri\u00f5es surgidos na Alemanha (Associa\u00e7\u00e3o Geral dos Oper\u00e1rios Alem\u00e3es) e na Fran\u00e7a (Partido Oper\u00e1rio Franc\u00eas). No caso do primeiro, havia forte influ\u00eancia de Ferdinand Lassalle, intelectual socialista de forma\u00e7\u00e3o hegeliana, de quem Marx discordou diversas vezes, por causa de suas posi\u00e7\u00f5es extremamente moderadas e oportunistas, a exemplo da proposta de alian\u00e7a com Bismarck para a unifica\u00e7\u00e3o da Alemanha. Lassalle morreu em 1864, mas deixou seguidores, os quais se uniram a partid\u00e1rios de Marx na Alemanha (Liebknetch, Auguste Bebel e Wilhelm Brake), em congresso realizado em 1875, na cidade de Gotha, do qual resultou a funda\u00e7\u00e3o do\u00a0<strong>Partido Social Democrata Alem\u00e3o<\/strong>.<\/p>\n<p>Marx contestou aquela uni\u00e3o, caracterizando-a como uma t\u00e1tica apressada e conciliadora, ao tentar juntar, num mesmo partido, concep\u00e7\u00f5es pol\u00edticas contrastantes. Redigiu, ent\u00e3o, as\u00a0<strong><em>Glosas Marginais ao Programa do Partido Oper\u00e1rio Alem\u00e3o<\/em><\/strong>, criticando seus dirigentes e as propostas aprovadas por eles, como a cria\u00e7\u00e3o de cooperativas e a luta por uma educa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica e popular sob o Estado burgu\u00eas alem\u00e3o, governado pelo reacion\u00e1rio Bismarck. Para al\u00e9m da cr\u00edtica \u00e0s resolu\u00e7\u00f5es do congresso, havia no documento as ideias de Marx sobre a transi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria para o socialismo e a distin\u00e7\u00e3o entre a fase socialista e o comunismo: na primeira, o Estado ainda subsiste, e a divis\u00e3o do trabalho n\u00e3o foi superada, ao passo que, na sociedade comunista, o Estado e as classes desaparecem, e a comunidade humana p\u00f5e em pr\u00e1tica a m\u00e1xima \u201cde cada um de acordo com suas capacidades; a cada um conforme suas necessidades\u201d.\u00a0\u00a0Em 1891, Engels publicou o material sob o t\u00edtulo\u00a0<strong><em>Cr\u00edtica ao Programa de Gotha<\/em><\/strong>, o \u00faltimo texto de relevo produzido por Marx antes de morrer.<\/p>\n<p>Marx continuou trabalhando at\u00e9 o falecimento, em\u00a0<strong>02 de dezembro de 1881<\/strong>, de sua companheira de toda a vida, Jenny, a quem ele confiou diversos de seus manuscritos, pedindo sua opini\u00e3o antes de public\u00e1-los. A morte da mulher o deixou muito abalado, como se constatou na carta escrita a Engels no ano seguinte: \u201cmeu esp\u00edrito vive atualmente em grande parte absorvido pela recorda\u00e7\u00e3o de minha mulher, que foi a melhor parte da minha vida\u201d. Em janeiro de 1883 morria a filha Jenny, um novo golpe dif\u00edcil de ser absorvido. Dois meses depois, no meio da tarde de 14 de mar\u00e7o, Karl Marx subiu ao seu quarto para deitar e n\u00e3o mais acordou.<\/p>\n<p>Diante do t\u00famulo do grande amigo, no dia 17, Engels proferiu emocionado discurso, lembrando que Marx foi, acima de tudo, um revolucion\u00e1rio, por ter se dedicado, como ningu\u00e9m, \u00e0s lutas pela derrubada da sociedade capitalista e das institui\u00e7\u00f5es burguesas e ao atuar em favor da emancipa\u00e7\u00e3o do proletariado, a quem buscou conscientizar acerca das condi\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o e das suas necessidades. A luta era raz\u00e3o de ser de Marx. Toda a sua gigantesca e vital produ\u00e7\u00e3o te\u00f3rica mant\u00e9m-se profundamente atual nos dias de hoje porque, al\u00e9m de retratar com incr\u00edvel precis\u00e3o os fundamentos da sociedade capitalista, foi constru\u00edda com o objetivo maior de servir ao projeto revolucion\u00e1rio da classe trabalhadora. E este \u00e9, com certeza, o futuro da humanidade.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"># O texto acima foi publicado no Livro Agenda de 2018 da Funda\u00e7\u00e3o Dinarco Reis\/PCB, &#8220;KARL MARX 200 ANOS&#8221;, dividido em cap\u00edtulos para separa\u00e7\u00e3o dos meses.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19556\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50,33],"tags":[219],"class_list":["post-19556","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","category-c34-marxismo","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-55q","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19556","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19556"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19556\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19556"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19556"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19556"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}