{"id":19563,"date":"2018-05-07T00:06:15","date_gmt":"2018-05-07T03:06:15","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=19563"},"modified":"2018-05-07T00:06:15","modified_gmt":"2018-05-07T03:06:15","slug":"neofascismo-e-decadencia-o-planeta-burgues-a-deriva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19563","title":{"rendered":"Neofascismo e decad\u00eancia: o planeta burgu\u00eas \u00e0 deriva\u00a0"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.vermelho.org.br\/admin\/arquivos\/biblioteca\/neonazism128566.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Jorge Beinstein<\/p>\n<p>Conceitos nebulosos<\/p>\n<p>Decad\u00eancia e neofascismo s\u00e3o dois conceitos de dif\u00edcil defini\u00e7\u00e3o ainda que essenciais para entender a realidade atual, suas presen\u00e7as esmagadoras, suas fronteiras imprecisas os tornam \u00e0s vezes \u201cinvis\u00edveis aos olhos\u201d (como o ensinou Saint-Exup\u00e9ry). Onde termina o autoritarismo burgu\u00eas e come\u00e7a o neofascismo? Como diferenciar um processo de decad\u00eancia de uma grande turbul\u00eancia muito presente ou de um fen\u00f3meno de corrup\u00e7\u00e3o social muito extenso?<\/p>\n<p>Quando falamos de decad\u00eancia, no geral nos referimos a processos prolongados onde convergem um conjunto de indicadores como a redu\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica do ritmo de crescimento econ\u00f3mico at\u00e9 chegar ao estancamento ou a retra\u00e7\u00e3o, o decl\u00ednio demogr\u00e1fico, a degrada\u00e7\u00e3o institucional, a hegemonia do parasitismo, a desintegra\u00e7\u00e3o social generalizada e outros. No entanto, \u00e0s vezes \u00e9 inevit\u00e1vel assinalar a decad\u00eancia de uma civiliza\u00e7\u00e3o ou de um conjunto de na\u00e7\u00f5es sem que se fa\u00e7am presentes todos esses sinais, o que decide a quest\u00e3o \u00e9 a evid\u00eancia de um processo duradouro de decomposi\u00e7\u00e3o sist\u00eamica, de desordem crescente, de entropia que se manifesta no comportamento das classes dirigentes corro\u00eddas pelo parasitismo, mas tamb\u00e9m das classes subordinadas.<\/p>\n<p>\u00c9 comum confundir decad\u00eancia com crise prolongada, assim \u00e9 como a chamada \u201clonga crise do s\u00e9culo XVII europeu\u201d aparenta com sua desordem, suas confronta\u00e7\u00f5es, levar essa regi\u00e3o ao desastre. No entanto, dito processo permitiu eliminar restos pr\u00e9-capitalistas, digerir as riquezas acumuladas do saqueio perif\u00e9rico iniciado nos s\u00e9culos XV e XVI, principalmente da Am\u00e9rica, e avan\u00e7ar no s\u00e9culo XVIII para seu aburguesamento geral cujas tr\u00eas express\u00f5es mais not\u00e1veis foram a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial na Inglaterra, as transforma\u00e7\u00f5es no continente desatadas pela Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, seguida pelas guerras napole\u00f4nicas, e o controle do planeta por parte do Ocidente completado em fins do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Em um sentido contr\u00e1rio, o que se apresenta como supera\u00e7\u00e3o da decad\u00eancia (o adeus \u00e0 crise dos anos 1930) entre o fim da Segunda Guerra Mundial e come\u00e7os dos anos 1970, onde emergiu a superpot\u00eancia estadunidense e se produziram os \u201cmilagres econ\u00f4micos\u201d da Alemanha Ocidental, It\u00e1lia, etc., na realidade n\u00e3o foi mais que uma reabilita\u00e7\u00e3o de um pouco mais de duas d\u00e9cadas sustentada pelas muletas do keynesianismo militar dos Estados Unidos e da interven\u00e7\u00e3o estatal em geral, dinamizando a oferta e a demanda dos pa\u00edses capitalistas centrais. Foi se esgotando para o fim dos anos 1960 at\u00e9 fazer crise na d\u00e9cada seguinte, passe livre ao parasitismo financeiro e seus acompanhantes culturais, institucionais e econ\u00f4micos. A droga keynesiana acalmou as dores, forneceu um dinamismo passageiro, por\u00e9m inoculou venenos que terminaram por agravar mais adiante a situa\u00e7\u00e3o do enfermo.<\/p>\n<p>De sua parte, o neofascismo aparece emparentado com o fascismo cl\u00e1ssico geralmente e, em certos casos, reproduz nostalgias do passado. No entanto, se diferencia do mesmo. \u00c0s vezes ressuscita velhos dem\u00f4nios que se misturam em uma marcha confusa (se a observamos desde antes de 1945) com descendentes de suas v\u00edtimas sob a bandeira comum do racismo anti-\u00e1rabe, das islamofobia ou da russofobia. Afinal, o velho fascismo tamb\u00e9m nasceu cultivando incoer\u00eancias, mesclando bandeiras contrapostas, como o elitismo nacionalista-imperialista e socialismo. Hitler e seu \u201cnacional-socialismo\u201d racista e ultra-autorit\u00e1rio constitui o caso mais grotesco.<\/p>\n<p>Em ambos casos, se trata de express\u00f5es que colhem pragmaticamente sentimentos de \u00f3dio e desprezo para com os povos ou setores sociais considerados inferiores, corruptos, b\u00e1rbaros e, em consequ\u00eancia, potenciais objetos de agress\u00e3o (esmagamento dos mais fracos), adornando-as com t\u00edtulos de nobreza (ra\u00e7a superior, patriotismo, civiliza\u00e7\u00e3o, valores morais, democracia, honestidade, etc.).<\/p>\n<p>Quando observamos o velho fascismo, vemos como Hitler ou Mussolini em suas ascens\u00f5es ao poder faziam demagogia \u201csocial\u201d ou \u201csocialista\u201d, captando o esp\u00edrito da \u00e9poca e a introduziam junto a outros condimentos em suas sopas ditatoriais, ainda que Franco afirmasse o conservadorismo mais negro sem necessidade dessas demagogias. E na Am\u00e9rica Latina apareciam ditaduras militares, ap\u00eandices de subdesenvolvimento do Ocidente, cultivando ambiguidades curiosas, como na Argentina no golpe de estado de 1930, onde se combinava o patriotismo aristocr\u00e1tico, a admira\u00e7\u00e3o ao fascismo italiano e a submiss\u00e3o colonial ao Imp\u00e9rio Ingl\u00eas.<\/p>\n<p>O neofascismo n\u00e3o fica atr\u00e1s e hoje na Europa constatamos que em pa\u00edses como Pol\u00f4nia ou Let\u00f4nia se mesclam o ultranacionalismo, o antissemitismo e outras manifesta\u00e7\u00f5es nazista, o respeito formal \u00e0 institucionalidade democr\u00e1tica made in Uni\u00e3o Europeia, o neoliberalismo econ\u00f4mico, a fobia antirrussa e a submiss\u00e3o \u00e0 OTAN. No Brasil, Paraguai, Honduras ou Argentina \u00e9 preservada a formalidade democr\u00e1tica, bandeira cultural de seu amo imperial, junto \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o mafiosa do poder. Tanto no fascismo como no neofascismo os discursos oficiais n\u00e3o t\u00eam sido outra coisa que que vestimentas de ocasi\u00e3o do lobo autorit\u00e1rio.<\/p>\n<p>O come\u00e7o da decad\u00eancia<\/p>\n<p>A crise na qual estamos submersos deveria ser considerada como o cap\u00edtulo atual de um longo processo de decad\u00eancia pensado como fen\u00f4meno de car\u00e1ter planet\u00e1rio. Quando come\u00e7ou? Ao fazer o percurso temporal para tr\u00e1s, encontramos anos decisivos como 2008, quando estoura a bolha financeira e se inicia a s\u00e9rie de crescimentos econ\u00f4micos an\u00eamicos no Ocidente e vai se desacelerando a expans\u00e3o chinesa. O que inevitavelmente nos leva a 2001 e seus arredores, quando convergem o fim do auge neoliberal dos 1990 (cheio de turbul\u00eancias) com o lan\u00e7amento imperial de uma desesperada (e fracassada) fuga militarista para adiante, apontando para a conquista do cora\u00e7\u00e3o geopol\u00edtico da Eur\u00e1sia e seus tesouros energ\u00e9ticos.<\/p>\n<p>Esse olhar nos impulsiona a continuar retrocedendo e chegar aos anos 1970, quando emerge a crise petroleira e a estagfla\u00e7\u00e3o, e se instala o decl\u00ednio tendencial da taxa de crescimento econ\u00f4mico global que se prolonga at\u00e9 a atualidade, motorizada pelas pot\u00eancias econ\u00f4micas tradicionais e suavizadas pela ascens\u00e3o chinesa. Sem esquecer o antecedente de 1968 (com epicentro nos sucessos de Maio na Fran\u00e7a e suas extens\u00f5es), terremoto pol\u00edtico- cultural que quebra a ilus\u00e3o da nova prosperidade civilizacional do Ocidente.<\/p>\n<p>Dita ilus\u00e3o se apoiava na ef\u00eamera recupera\u00e7\u00e3o keynesiana da Europa Ocidental e Estados Unidos, se a medirmos em tempos hist\u00f3ricos, enfrentada com a constante redu\u00e7\u00e3o de sua \u00e1rea de domina\u00e7\u00e3o territorial planet\u00e1ria (amplia\u00e7\u00e3o do campo socialista e do espa\u00e7o p\u00f3s-colonial).<\/p>\n<p>Atravessamos essa festa geograficamente limitada, entramos na Segunda Guerra Mundial e navegamos pelas recess\u00f5es dos anos 1930, desembocando em 1929 para, finalmente, nos determos em 1914, ano chave que marca o final da ascens\u00e3o irresist\u00edvel do Ocidente desde seus fracassos nas Cruzadas do Leste (para o Oriente M\u00e9dio e para o espa\u00e7o eslavo) e seus primeiros \u00eaxitos importantes no Oeste, desde o s\u00e9culo XV: a conquista completa da Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica e de posi\u00e7\u00f5es no Oeste da \u00c1frica e, sobretudo, do continente americano. Ofensiva plurissecular que culmina ao longo do s\u00e9culo XIX, devorando a quase totalidade da periferia.<\/p>\n<p>O dito megassaqueio gerou (e continua gerando) o que Malek qualificou como \u201cSuper\u00e1vit Hist\u00f3rico\u201d, ou seja, \u201co super\u00e1vit acumulado pela Europa e Estados Unidos sob a forma de civiliza\u00e7\u00e3o ocidental baseada no saqueio da \u00c1sia, \u00c1frica e Am\u00e9rica Latina. Imensa acumula\u00e7\u00e3o de poder que constitui a fonte da iniciativa hist\u00f3rica dos pa\u00edses do Oeste, desde o princ\u00edpio dos descobrimentos mar\u00edtimos, passando pela explos\u00e3o da bomba at\u00f4mica em Hiroshima e Nagasaki, at\u00e9 nossos dias\u201d . Acumula\u00e7\u00e3o de riquezas que permitiu criar um grande mercado interno, sua industrializa\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento de uma sucess\u00e3o de revolu\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e tecnol\u00f3gicas. O mundo do ano 1900 era decididamente ocidental por integra\u00e7\u00e3o burguesa de seu espa\u00e7o original e por suas amplia\u00e7\u00f5es coloniais e semicoloniais.<\/p>\n<p>Nesse momento, o \u201cprogresso\u201d, ou seja, a marcha ascendente da civiliza\u00e7\u00e3o burguesa (identificada com os padr\u00f5es culturais do Ocidente) em escala planet\u00e1ria, conseguiu impor a imagem de um processo irresist\u00edvel de melhorias sucessivas da condi\u00e7\u00e3o humana, ditadas pela expans\u00e3o do sistema ou por sua poss\u00edvel \u201csupera\u00e7\u00e3o socialista\u201d engendrada desde o interior do capitalismo central industrializado. Assim foi como a gera\u00e7\u00e3o bolchevique cultivou a esperan\u00e7a de que a revolu\u00e7\u00e3o que eles encabe\u00e7aram na periferia euroasi\u00e1tica russa constitu\u00eda o detonante da revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria no Ocidente. Os dirigentes da primeira grande insurrei\u00e7\u00e3o exitosa da periferia acreditavam erroneamente ser a avan\u00e7o da chegada do p\u00f3s-capitalismo socialista ocidental (e em consequ\u00eancia mundial).<\/p>\n<p>Como sabemos, a expans\u00e3o do capitalismo liberal, que segundo as ideias dominantes no come\u00e7o do s\u00e9culo XX irradiava o planeta para convert\u00ea-lo cedo ou tarde em um universo pr\u00f3spero e livre (por\u00e9m que, na realidade, desenvolvia o centro e subdesenvolvia a periferia), foi interrompida por um massacre espantoso, sem precedentes na hist\u00f3ria universal, chamado Primeira Guerra Mundial. E tamb\u00e9m sabemos que a t\u00e3o esperada revolu\u00e7\u00e3o socialista no Ocidente, impulsionada pela crise e pelo novo exemplo sovi\u00e9tico, n\u00e3o chegou nunca e que o que chegou ali foi o fascismo.<\/p>\n<p>Ra\u00edzes ocidentais do fascismo cl\u00e1ssico<\/p>\n<p>As interpreta\u00e7\u00f5es tradicionais do velho fascismo europeu visam navegar entre as que o atribuem a uma sorte de desvio moral das elites e, tamb\u00e9m, das massas populares enganadas por elas, principal produto da Primeira Guerra Mundial ou bem como resultado da radicaliza\u00e7\u00e3o de certas taras culturais gerada por formas espec\u00edficas, perversas, de desenvolvimento da modernidade em pa\u00edses como Alemanha e It\u00e1lia ou, tamb\u00e9m, como rea\u00e7\u00e3o antiprolet\u00e1ria da alta burguesia, arrastando as classes m\u00e9dias. Neste \u00faltimo caso, o fascismo teria sido uma emerg\u00eancia terrorista burguesa da luta de classes . N\u00e3o faltaram, em certos casos, algumas refer\u00eancias \u00e0 hist\u00f3ria anterior que quase sempre ficam esmagadas pelo peso confuso das desordens das primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, que produziram essa novidade surpreendente. Um marxista eminente daqueles tempos, Karl Radek, afirmava em 1930, ap\u00f3s das \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es na Alemanha que marcavam a ascens\u00e3o dos nazistas: \u201cDevemos constatar que sobre este partido que ocupa o segundo lugar na pol\u00edtica alem\u00e3, nem a literatura burguesa nem a socialista nada disseram. \u00c9 um partido sem hist\u00f3ria que se instala de improviso na vida pol\u00edtica da Alemanha, como uma ilha que emerge em meio ao mar sob o efeito de for\u00e7as vulc\u00e2nicas\u201d .<\/p>\n<p>\u201cPartido sem hist\u00f3ria\u201d, segundo Radek. De acordo com o medievalista Karl Werner, \u201cNingu\u00e9m negou mais a hist\u00f3ria alem\u00e3 que os ide\u00f3logos nazistas\u201d . A Escola de Frankfurt afirmou essa hip\u00f3tese e Max Horkheimer assinalava, em 1943, que \u201cO fascismo em sua exalta\u00e7\u00e3o do passado se torna anti-hist\u00f3rico. As refer\u00eancias dos nazistas \u00e0 hist\u00f3ria s\u00f3 significam que os poderosos t\u00eam que mandar e que n\u00e3o h\u00e1 com emancipar-se das leis eternas que guiam a hist\u00f3ria. Quando eles dizem Hist\u00f3ria, na realidade dizem o contr\u00e1rio: Mitologia\u201d.<\/p>\n<p>Inclusive em pleno auge hitleriano, Hermann Rauschning, um dos mais agudos avaliadores do nazismo, n\u00e3o pode escapar a ideia do car\u00e1ter absurdo, a-hist\u00f3rico e ef\u00eamero do nazismo apresentado como um surpreendente estouro de niilismo. Segundo Rauschning: \u201ceste fanatismo produzido e difundido \u00e9 t\u00e3o artificial e inaut\u00eantico que todo esse gigantesco aparato poderia chegar a ser derrubado de um dia para outro, a partir de algum acontecimento, sem deixar tra\u00e7o algum de vida aut\u00f4noma de alguma parte de seu mecanismo\u201d .<\/p>\n<p>Partido sem hist\u00f3ria, negador da hist\u00f3ria, substituindo a descri\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da hist\u00f3ria real pela mitologia, constru\u00e7\u00e3o niilista ef\u00eamera, etc.<\/p>\n<p>No entanto, a prop\u00f3sito do caso paradigm\u00e1tico por excel\u00eancia do fascismo \u2013 o nazismo alem\u00e3o e sua f\u00faria exterminadora de judeus \u2013, autores como Goldhagen, ao levantar uma quest\u00e3o se sentido comum, quem foram os executores do Holocausto?, conclui que: \u201cpor n\u00e3o ter existido uma consider\u00e1vel inclina\u00e7\u00e3o entre os alem\u00e3es comuns a tolerar, apoiar e inclusive, em muitos casos, contribuir primeiro \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o absolutamente radical dos judeus na d\u00e9cada de 1930 e, depois (pelo menos entre os encarregados de realizar a tarefa), de participar na matan\u00e7a de judeus, o regime jamais teria podido exterminar seis milh\u00f5es de pessoas\u201d, ao que acrescenta: \u201ccabe assinalar que a exist\u00eancia de um antissemitismo muito difundido em outras zonas da Europa explica porque os alem\u00e3es encontraram em outros pa\u00edses tantas pessoas dispostas a ajudar e desejosas de matar judeus\u201d . A partir da\u00ed, torna inevit\u00e1vel, como faz o autor, buscar refer\u00eancias na tradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do povo alem\u00e3o e assinalar, por exemplo, a ferocidade antissemita de Martinho Lutero (1483-1546) como uma das fontes de sua popularidade. Ao que devemos agregar o plurissecular desprezo para com os eslavos, com especial \u00eanfase em russos e polacos, considerados povos inferiores destinados a ser escravizados por povos superiores como os alem\u00e3es, o que legitimava a voca\u00e7\u00e3o para marchar para o Leste, para sua conquista imperial, como antecipava Hitler muito antes de chegar ao poder. A \u201cDrang nach Osten\u201d (impulso ou expans\u00e3o para o Leste) que no s\u00e9culo XIX incentivavam intelectuais nacionalistas como Heinrich von Sybel, que postulava reviver as aventuras medievais de coloniza\u00e7\u00e3o alem\u00e3 do Europa oriental, revalorizando os mitos das cruzadas germ\u00e2nicas e escandinavas para o Leste na Baixa Idade M\u00e9dia, paralelas \u00e0s cruzadas para o Oriente M\u00e9dio. Assim foi como a Ordem Teut\u00f4nica tentou conquistar a terra russa e foi derrotada, como o relata o filme \u201cAlexander Nevsky\u201d, de Sergei Eisenstein, antecipando em 1938 a derrota catastr\u00f3fica que os herdeiros nazistas da Ordem sofreriam na URSS poucos anos depois. Tudo isto nos leva a entender a aparente loucura de Hitler em conquistar o Leste n\u00e3o como uma cegueira ins\u00f3lita, mas como heran\u00e7a cultural profunda, latente na subjetividade popular alem\u00e3. Como assinala acertadamente Ay\u00e7oberry em seu livro j\u00e1 citado: \u201cNo desenvolvimento da pol\u00edtica exterior (de Hitler) tudo estava subordinado \u00e0 expans\u00e3o para o Leste&#8230; o que imp\u00f4s abandonos t\u00e1ticos inquietantes para os nacionalistas prim\u00e1rios: ren\u00fancia ao Tirol para conseguir a alian\u00e7a com a It\u00e1lia, \u00e0 expans\u00e3o ultramarina para seduzir a Inglaterra e, inclusive, a conquistas na Fran\u00e7a j\u00e1 que, segundo Hitler, a guerra contra dita na\u00e7\u00e3o \u2018s\u00f3 se justificaria se dessa maneira conseguirmos cobrir nossa retaguarda e, assim, ampliar nosso espa\u00e7o vital no Leste\u2019, cujo foco central era a captura e destrui\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica\u201d .<\/p>\n<p>A mitologia, subestimada por Horkheimer, revelava a exist\u00eancia de uma mem\u00f3ria hist\u00f3rica imperialista nada superficial.<\/p>\n<p>Necessitamos ampliar o espa\u00e7o da mem\u00f3ria europeia e colocar a descoberto um passado monstruoso de conquistas coloniais exitosas ou fracassadas, das gigantescas matan\u00e7as dos povos origin\u00e1rios da Am\u00e9rica, de africanos \u00e1rabes ou subsaarianos, de asi\u00e1ticos da \u00cdndia e China, em suma, de vastos genoc\u00eddios perif\u00e9ricos que moldaram a cultura de seus assassinos ocidentais. Malek menciona o \u201csuper\u00e1vit hist\u00f3rico\u201d, principalmente econ\u00f4mico, que acumulou o Ocidente com ditos saqueios, que n\u00e3o deveria ocultar o componente criminoso do mesmo, n\u00e3o como lembran\u00e7a distante, mas como parte decisiva da reprodu\u00e7\u00e3o de uma civiliza\u00e7\u00e3o sanguin\u00e1ria. Matan\u00e7a de perif\u00e9ricos combinada com grandes massacres e saqueios interno, como explicou Marx em sua descri\u00e7\u00e3o da Acumula\u00e7\u00e3o Primitiva.<\/p>\n<p>Nesse sentido, Hitler, Mussolini ou Franco n\u00e3o foram os produtos de irrup\u00e7\u00f5es moment\u00e2neas sem passado nem futuro.<\/p>\n<p>Os mitos hist\u00f3ricos n\u00e3o deveriam ser atirados \u00e0 lixeira das hist\u00f3rias falsas, sobretudo se aparecem na superf\u00edcie ou ficam submersas na mem\u00f3ria social para reaparecer no momento menos pensado. S\u00e3o formas concretas de mem\u00f3ria, latentes, em consequ\u00eancia, componentes da cultura popular. Podem ser criticadas, acusadas de ser vis\u00f5es deformadas ou \u201cirreais\u201d do passado como tamb\u00e9m o poderiam ser certas constru\u00e7\u00f5es de hist\u00f3ria \u201ccient\u00edfica\u201d, baseadas em uns pobres atos dispon\u00edveis ou n\u00e3o t\u00e3o pobres, por\u00e9m sempre incompletos, quase sempre distorcidos pelo observador influ\u00eddo pela cultura (as deforma\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas) de seu tempo.<\/p>\n<p>Uma observa\u00e7\u00e3o que merece ser o objeto de uma reflex\u00e3o mais ampla \u00e9 que a chegada do fascismo (sua primeira vit\u00f3ria na It\u00e1lia) se produziu muito pouco tempo depois do Ocidente se converter em amo do mundo, visto do longo prazo hist\u00f3rico, ambos fen\u00f4menos convergem em um curto espa\u00e7o temporal. A civiliza\u00e7\u00e3o burguesa torna-se realmente universal, planet\u00e1ria, come\u00e7ou a tocar seus limites territoriais e foi deixando de lado seus discursos democr\u00e1ticos (se quebra a l\u00f3gica da expans\u00e3o para espa\u00e7os indefesos e ganham for\u00e7a as do canibalismo interimperialista, do disciplinamento terrorista interno e do expansionismo desesperado).<\/p>\n<p>Mais ainda, \u00e9 poss\u00edvel detectar na Europa embri\u00f5es significativos de fascismo entre fins do s\u00e9culo XIX e come\u00e7os do XX, bem antes da megacrise iniciada em 1914, desde as emerg\u00eancias pol\u00edticas protofascistas na Fran\u00e7a\u00a0 at\u00e9 manifesta\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas virulentas de rep\u00fadio ao legado da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, a Comuna de Paris e a prolifera\u00e7\u00e3o de express\u00f5es democr\u00e1ticas radicais, socialistas e comunistas. Nietzsche ou Sorel anunciaram o fascismo avant la lettre, como restabelecimento de hierarquias sociais vigorosas, de autoritarismos rejuvenescedores do Ocidente.<\/p>\n<p>Na Europa de fins do s\u00e9culo XIX, pr\u00f3spera e imperialista, onde no topo de seu sistema de poder reinava uma pequena elite financeira (a Haute Finance assinalada por Polanyi como garantidora do equil\u00edbrio e da paz interior ), emergiam as origens do que ser\u00e1 o fim do capitalismo liberal e o nascimento do fascismo.<\/p>\n<p>Inclusive fora do cen\u00e1rio europeu nos 1920 e ainda antes de 1914, nos Estados Unidos (extens\u00e3o neo-europeia), apareceram o que alguns autores assinalam como as origens norte-americanas da ideologia nazista. Domenico Losurdo assinala \u201co not\u00e1vel papel que os movimentos reacion\u00e1rios e racistas americanos desenvolveram ao inspirar e alimentar na Alemanha a agita\u00e7\u00e3o que ao final desembocou no triunfo de Hitler. J\u00e1 os anos 20, entre a Ku Klux Klan e os c\u00edrculos alem\u00e3es de extrema direita, se estabeleceram rela\u00e7\u00f5es de interc\u00e2mbio e colabora\u00e7\u00e3o com a consigna do racismo contra os negros e contra os judeus\u201d. Losurdo acrescenta exemplos concretos inclusive alguns referentes \u00e0s ra\u00edzes lingu\u00edsticas de conceitos fundamentais do discurso nazista: \u201cO termo Untermensch, que desempenha um papel t\u00e3o central como nefasto na teoria e na pr\u00e1tica do Terceiro Reich, n\u00e3o \u00e9 outro a tradu\u00e7\u00e3o de Under Man [sub-homem]. O reconhece Alfred Rosenberg, um dos principais ide\u00f3logos do nazismo, que expressa sua admira\u00e7\u00e3o pelo autor estadunidense Lothrop Stoddard: a ele corresponde o m\u00e9rito de ter cunhado pela primeira vez o termo em quest\u00e3o, que ressaltar como subt\u00edtulo (The Menace of the Under Man) [A amea\u00e7a do sub-homem] de um livro publicado em Nova York, em 1922, e de sua vers\u00e3o alem\u00e3 (Die Drohung des Untermenschen) aparecia tr\u00eas anos depois. Quanto ao seu significado, Stoddard esclarece que este serve para mostrar ao conjunto de \u201cselvagens e b\u00e1rbaros\u201d, \u201cessencialmente negados \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o, seus inimigos incorrig\u00edveis\u201d, com quem \u00e9 necess\u00e1rio proceder a um radical ajuste de contas, caso se queira evitar o perigo que amea\u00e7a destruir a civiliza\u00e7\u00e3o. Elogiado, muito antes que por Rosenberg, por dois presidentes estadunidenses (Harding e Hoover), o autor americano \u00e9 posteriormente recebido com todas as honras em Berlim, onde encontra os exponentes mais ilustres da eugenia nazista, al\u00e9m dos mais altos hierarcas do regime, inclusive Adolf Hitler, que estava empenhado em sua campanha de aniquila\u00e7\u00e3o e escravid\u00e3o dos Untermenschen, ou seja dos \u201c\u00edndios\u201d da Europa Oriental\u201d .<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata apenas da influ\u00eancia da teoria estadunidense da \u201cwhite supremacy\u201d, rea\u00e7\u00e3o protofascista de fins do s\u00e9culo XIX contra a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, expressa na Alemanha como supremacia ariana, mas tamb\u00e9m de textos decisivos como \u201cO Judeu Internacional\u201d, de Henry Ford, publicado em 1920, depois traduzido e muito difundido na Alemanha, onde importantes chefes nazistas como Von Schirack e Himmler assinalar\u00e3o, anos depois, terem se inspirado nesse livro. Himmler fez notar que o livro de Ford cumpriu um papel significativo na forma\u00e7\u00e3o de Hitler .<\/p>\n<p>Ascens\u00e3o, auge, decl\u00ednio e recomposi\u00e7\u00e3o da mar\u00e9 perif\u00e9rica<\/p>\n<p>A irrup\u00e7\u00e3o do fascismo cl\u00e1ssico, por\u00e9m tamb\u00e9m sua derrota e renascimento como neofascismo, deve ser relacionado com a ascens\u00e3o e posterior decl\u00ednio de uma mar\u00e9 perif\u00e9rica que amea\u00e7ou sepultar a hegemonia ocidental, fato decisivo do s\u00e9culo XX. Por\u00e9m, que agora se apresenta principalmente sob a forma de pot\u00eancias emergentes, despertando a histeria geopol\u00edtica dos Estados Unidos e uma profunda crise existencial em alguns dos principais pa\u00edses europeus como Alemanha, Fran\u00e7a ou It\u00e1lia, arrastados, de um lado, por seu amo norte-americano e seus velhos instintos ocidentalistas imperiais (que o fazem ver o Leste como um espa\u00e7o de depreda\u00e7\u00e3o) e, pelo outro, por seus interesses econ\u00f4micos concretos que apontam para algum tipo de associa\u00e7\u00e3o ou amizade com as grandes economias euroasi\u00e1ticas come\u00e7ando pela China e R\u00fassia.<\/p>\n<p>Em 1914, a expans\u00e3o ocidental se converteu em guerra intestina (interimperialista) e, em 1917, se produziu o primeiro mega desengajamento, o maior espa\u00e7o geogr\u00e1fico do planeta onde habitava o Imp\u00e9rio Russo, rompeu com o Ocidente convertendo-se em Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Mais adiante chegaram a cis\u00e3o chinesa (1949), as expuls\u00f5es do conquistador ocidental na pen\u00ednsula da Indochina, a revolu\u00e7\u00e3o cubana e um amplo leque de nacionalismos perif\u00e9ricos, que quebraram os velhos la\u00e7os coloniais. Era poss\u00edvel mostrar uma sorte de filme onde o espa\u00e7o de domina\u00e7\u00e3o global do Ocidente se retra\u00eda gradualmente.<\/p>\n<p>A ilus\u00e3o marxista-euroc\u00eantrica de supera\u00e7\u00e3o p\u00f3s-capitalista a partir do centro imperial (desenvolvido) do mundo foi substitu\u00edda por outra ilus\u00e3o n\u00e3o menos pretenciosas, segundo a qual dita supera\u00e7\u00e3o se expandia a partir da periferia subdesenvolvida, desde os capitalismos ou semicapitalismos submetidos. No entanto, quando nos anos 1970 e 1980 come\u00e7ou e foi se agravando a crise do capitalismo central, quando perdia dinamismo produtivo e em seu seio se propagava o parasitismo financeiro, a amea\u00e7a comunista e anti-imperialista tamb\u00e9m foi perdendo dinamismo. A radicaliza\u00e7\u00e3o mao\u00edsta da revolu\u00e7\u00e3o chinesa come\u00e7ou a converter-se, desde fins dos anos 1970, em \u201csocialismo de mercado\u201d e da\u00ed um curioso capitalismo burocr\u00e1tico com o partido comunista encabe\u00e7ando, fazendo da China no s\u00e9culo XXI a segunda pot\u00eancia do mundo tendendo a se transformar em primeira. A URSS foi apodrecendo e colapsou no in\u00edcio dos anos 1990, arrastando todo seu espa\u00e7o \u201csocialista\u201d, inclusive pa\u00edses que tinham mantido autonomia, como Alb\u00e2nia e Iugosl\u00e1via.<\/p>\n<p>Sobretudo a partir do fim da URSS, por\u00e9m com manifesta\u00e7\u00f5es anteriores, at\u00e9 fins do s\u00e9culo XX, em boa parte da Europa emergia uma onda reacion\u00e1ria que retomava componentes do velho fascismo incorporando elementos novos. Racismo contra os imigrantes, \u00f3dios inter\u00e9tnicos, recupera\u00e7\u00e3o mais ou menos sinuosa, mais ou menos desavergonhada de bandeiras enterradas em 1945. Tratou-se de um processo confuso que levava em considera\u00e7\u00e3o os novos tempos globais e que deu seus primeiros passos antes da derrubada sovi\u00e9tica. Na Fran\u00e7a de 1981, por exemplo, a esquerda ganhava as elei\u00e7\u00f5es, por\u00e9m se estavam na moda os chamados \u201cnovos fil\u00f3sofos\u201d como Bernard Henri Levy ou Andr\u00e9 Glucksmann, que se apresentavam como supostos \u201chumanistas anti-stalinistas\u201d, rapidamente se converteram em um anticomunismo raivoso, convergindo em muitos aspectos com a direita neofascista. Aparentemente, a Fran\u00e7a girava politicamente para a esquerda (depois se comprovou que se tratava de uma pura apar\u00eancia), enquanto se deslocava culturalmente para a direita. A socialdemocracia, da Espanha at\u00e9 a Alemanha, ia abandonando seus modelos keynesianos, produtivistas e integradores, e penetrava no universo neoliberal governado pela especula\u00e7\u00e3o financeira. As chamadas direitas \u201cdemocr\u00e1tica\u201d faziam algo parecido e, gradualmente, se estendia uma mancha pestilenta que come\u00e7ava a ser qualificada como neonazismo, neofascismo, extrema direita, nova direita, etc. Na Europa Oriental, em lugares como a Pol\u00f4nia, pa\u00edses b\u00e1lticos, Cro\u00e1cia ou mais recentemente na Ucr\u00e2nia, reapareceram os velhos fantasmas do fascismo. J\u00e1 em pleno s\u00e9culo XXI, na Alemanha, \u00c1ustria, Fran\u00e7a e outros pa\u00edses europeus, os neofascistas obt\u00e9m grandes progressos eleitorais, em v\u00e1rios deles associando estilos e tradi\u00e7\u00f5es do passado hitlerista com s\u00f3lidas amizades sionistas. A nova islamofobia substitui (e \u00e0s vezes se mescla com) a velha judeofobia e at\u00e9 se produziram casos tragic\u00f3micos, onde em um mesmo movimento, se apertavam alguns veteranos (e inclusive jovens) admiradores de Hitler e Mussolini\u2026 e de Benjamin Netanyahu. Tamb\u00e9m aflorava neste europeu, e n\u00e3o apenas na Ucr\u00e2nia (Guerra Fria 2.0 mediante), o revanchismo antirrusso disposto a vingar-se da derrota sofrida sete d\u00e9cadas atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, sobretudo desde 2001, emergiu uma onda ultraimperialista que foi se desenvolvendo atrav\u00e9s dos governos de Bush e Obama at\u00e9 desembocar em Trump, ao ritmo da degrada\u00e7\u00e3o financeira. Multiplica\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00f5es militares diretas e indiretas, golpes brandos e san\u00e7\u00f5es contra pa\u00edses rebeldes \u00e0 domina\u00e7\u00e3o imperial, racismo, islamofobia, confronto com a R\u00fassia se aproximando ao limite da guerra&#8230; a era Trump foi assumindo todas as caracter\u00edsticas de um protofascismo.<\/p>\n<p>Regressando \u00e0 ascens\u00e3o e derrota do velho fascismo, \u00e9 necess\u00e1rio ressaltar n\u00e3o s\u00f3 a persist\u00eancia imperialista alem\u00e3 em torno da \u201cmarcha para o Leste\u201d, motor do expansionismo hitleriano, mas os del\u00edrios mussolinianos acerca da restaura\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio romano ou o espanholismo n\u00e3o menos delirante de Jos\u00e9 Antonio Primo de Rivera, nost\u00e1lgico do imp\u00e9rio espanhol desaparecido. A tentativa de conquista da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica tomou a forma de uma grande cruzada europeia contra o gigante euroasi\u00e1tico, onde participaram n\u00e3o apenas alem\u00e3es, mas tamb\u00e9m franceses, espanh\u00f3is, italianos, belgas, ucranianos ocidentais, let\u00f5es, etc. O aspecto imperialista-ocidental do fascismo cl\u00e1ssico e em consequ\u00eancia dos fascismos perif\u00e9ricos como sat\u00e9lites coloniais, seguidores elitistas de seus amos hist\u00f3ricos, fica ao descoberto.<\/p>\n<p>Nesse sentido, para al\u00e9m dos debates acerca da natureza socialista da URSS, de sua legitimidade comunista e de seu lugar na hist\u00f3ria das ideias e pr\u00e1ticas p\u00f3s-capitalistas, \u00e9 importante destacar que provavelmente, visto a n\u00edvel da hist\u00f3ria universal, o maior m\u00e9rito da experi\u00eancia sovi\u00e9tica foi o da destrui\u00e7\u00e3o da barb\u00e1rie fascista, inscrita no multissecular percurso de saqueios e genoc\u00eddios ocidentais. Esse fato por si s\u00f3 \u00e9 suficiente para justificar, reivindicar sua exist\u00eancia. Sem a URSS, Hitler teria conquistado esses territ\u00f3rios, a exitosa marcha para o Leste teria outorgado \u00e0 Alemanha a lideran\u00e7a da Europa e certamente a primazia global como cabe\u00e7a de um novo imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>A captura de Berlim pelo ex\u00e9rcito sovi\u00e9tico poderia ser vista como o s\u00edmbolo da vit\u00f3ria da humanidade condenada \u00e0 escravid\u00e3o, a periferia, o \u201cOriente\u201d tantas vezes estigmatizado. Oriente desprezado (e temido) cujos prolongamentos se estendiam para as periferias interiores do centro do mundo (os judeus e os ciganos europeus e demais grupos locais considerados inferiores, perigosos, indesej\u00e1veis).<\/p>\n<p>Os ciclos fascista e neofascista aparecem como etapas da longa decad\u00eancia sist\u00eamica global, tentativas brutais de salva\u00e7\u00e3o, de recupera\u00e7\u00e3o da vitalidade perdida. Derrotada a primeira arremetida reacion\u00e1ria (1945), as formas autorit\u00e1rias extremas do capitalismo realizaram uma prudente retirada estrat\u00e9gica, por\u00e9m coincidente com a evapora\u00e7\u00e3o da mar\u00e9 perif\u00e9rica nos anos 1980 e come\u00e7os dos 1990, a peste come\u00e7ou a se recompor, renovando discursos e t\u00e9cnicas de interven\u00e7\u00e3o. Tratou-se de uma transforma\u00e7\u00e3o conforme os novos tempos, onde o fen\u00f4meno entr\u00f3pico est\u00e1 experimentando um gigantesco salto para frente. No passado, o retrocesso do polo hegem\u00f4nico ocidental (do espa\u00e7o territorial sob seu controle, de sua domina\u00e7\u00e3o financeira, tecnol\u00f3gica, etc.) capturou, arrastou para o fracasso ensaios de autonomiza\u00e7\u00e3o capitalista ou com pretens\u00f5es p\u00f3s-capitalistas. O caso do Jap\u00e3o entre a restaura\u00e7\u00e3o Meiji e Hiroshima mostrou os limites da cria\u00e7\u00e3o de uma pot\u00eancia capitalista (imperialista) independente respeito da trama de domina\u00e7\u00e3o ocidental. O caso da URSS expressou a debilidade de uma constru\u00e7\u00e3o p\u00f3s-capitalista h\u00edbrida, geopoliticamente antag\u00f4nica ao Ocidente, mesclando entre outras coisas estatismo, aspira\u00e7\u00f5es comunistas e moderniza\u00e7\u00e3o negadora de heran\u00e7as culturais coletivistas repudiadas como pr\u00e9-capitalistas. Tampouco devemos esquecer neste caso as consequ\u00eancias da cruzada nazista que custou 27 milh\u00f5es de mortos e o posterior acosso pol\u00edtico-militar sofrido durante a Guerra Fria, formas concretas de exerc\u00edcio do poder do Ocidente, prisioneiro de sua din\u00e2mica expansionista, estrategicamente incompat\u00edvel com algum tipo de coexist\u00eancia medianamente dur\u00e1vel (essa obsess\u00e3o ocidental por controlar tudo que se expressou no passado como anticomunismo renasce atualmente como russofobia).<\/p>\n<p>Agora, quando se aprofunda o decl\u00ednio ocidental, emergem novos desafios perif\u00e9ricos, principalmente os da China e R\u00fassia. Em ambos casos e depois de diferentes percursos, se constitu\u00edram sistemas que de maneira muito geral podem ser caracterizados como capitalismos burocr\u00e1ticos, com amplas margens de autonomia a respeito do Ocidente e arrastando o peso de suas perspectivas heran\u00e7as culturais socialistas. Com um bem orquestrado giro para o capitalismo insertado na trama global, por\u00e9m preservando o governo do Partido Comunista no caso chin\u00eas, demolindo primeiro o edif\u00edcio sovi\u00e9tico para depois de uma ef\u00eamera tentativa de instaura\u00e7\u00e3o neoliberal, impor controles estatais sobre a economia no caso russo .<\/p>\n<p>Em princ\u00edpio, ficam abertos dois cen\u00e1rios entre outros, se partirmos do pressuposto de que a crise global vai se agravar. O primeiro, mostra a China e a R\u00fassia arrastadas pelo desastre geral, suas estruturas exportadoras dependentes dos mercados da Europa e Estados Unidos, a trama financeira internacional da qual constituem e as exig\u00eancias de militariza\u00e7\u00e3o derivadas da agressividade dos pa\u00edses da OTAN, as atariam \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o euro-norte-americana-global.<\/p>\n<p>O segundo cen\u00e1rio apresenta estas pot\u00eancias sobrevivendo ao desastre, afirmando seu espa\u00e7o euroasi\u00e1tico. Uma das variantes (aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o a \u00fanica) desse futuro poss\u00edvel seria a introdu\u00e7\u00e3o em suas sociedades de componentes defensivos p\u00f3s-capitalistas, para o que disp\u00f5em de reservas culturais mais que suficientes.<\/p>\n<p>Aprofundamento da decad\u00eancia<\/p>\n<p>A voca\u00e7\u00e3o planet\u00e1ria-imperialista do capitalismo (de seu motor ocidental) nos permite estabelecer paralelos com ciclos de civiliza\u00e7\u00f5es anteriores que n\u00e3o alcan\u00e7aram essa dimens\u00e3o geogr\u00e1fica. Imp\u00e9rios condenados a expandir-se de acordo com as leis que regeram sua reprodu\u00e7\u00e3o, ampliando seu espa\u00e7o de domina\u00e7\u00e3o at\u00e9 chegar ao limite estabelecido pelas t\u00e9cnicas de sua \u00e9poca. Nesse momento, sua l\u00f3gica de reprodu\u00e7\u00e3o ampliada chocava com a barreira territorial, ent\u00e3o o desenvolvimento vigoroso ia se transformando em decad\u00eancia, as virtudes em corrup\u00e7\u00e3o, os equil\u00edbrios em desordem, a explora\u00e7\u00e3o eficaz de povos e recursos naturais em superexplora\u00e7\u00e3o devastadora da periferia que destru\u00eda a sustentabilidade do sistema, enquanto a multiplica\u00e7\u00e3o de controles administrativos-repressivos, entre outros fatores, contribu\u00eda com o crescimento do parasitismo.<\/p>\n<p>A compara\u00e7\u00e3o com o caso de Roma \u00e9 inevit\u00e1vel, \u00e9 o melhor documentado. Pierre Chaunu nos explica que \u201ca conquista se desenvolveu mediante a expans\u00e3o em c\u00edrculos conc\u00eantricos realizando a extra\u00e7\u00e3o de homens e produtos da periferia para o centro. O caracter\u00edstico de dito sistema \u00e9 que exclu\u00eda o estado estacion\u00e1rio, n\u00e3o podia subsistir sem agregar novas zonas de extra\u00e7\u00e3o \u00e0s existentes chegando, finalmente, depois de um enriquecimento incessante, \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o do centro j\u00e1 que n\u00e3o podia viver dentro de limites est\u00e1veis, sem a exist\u00eancia em suas fronteiras de um espa\u00e7o aberto explor\u00e1vel, de uma \u201cfronteira aberta\u201d, de uma zona de extra\u00e7\u00e3o n\u00e3o integrada. O ponto de inflex\u00e3o ocorreu sob o reino de Trajano, em come\u00e7os do s\u00e9culo II quando se alcan\u00e7ou o limite da expans\u00e3o em Dacia, Esc\u00f3cia, Arm\u00eania&#8230; o norte da \u00c1frica de Maurit\u00e2nia ao Egito\u2026 quando a conquista romana tinha chegado a um pouco mais de 6 milh\u00f5es de quil\u00f4metros quadrados, tendo absorvido a totalidade do espa\u00e7o dispon\u00edvel poss\u00edvel\u201d . As t\u00e9cnicas de comunica\u00e7\u00e3o e transporte da \u00e9poca permitiram chegar ao m\u00e1ximo de territ\u00f3rio para al\u00e9m do qual os custos de conquista e sua preserva\u00e7\u00e3o superavam os benef\u00edcios, o que obrigou o processo de reprodu\u00e7\u00e3o do polo dominante a superexplorar o espa\u00e7o sob controle. Os equil\u00edbrios e consensos perif\u00e9ricos entraram em crise, as bases tribut\u00e1rias e escravistas foram tensionadas para al\u00e9m do toler\u00e1vel. Engels assinalava que quando o Imp\u00e9rio come\u00e7ou a declinar: \u201co estado romano tinha se convertido em uma m\u00e1quina gigantesca e complicada com o exclusivo fim de explorar os s\u00faditos. Impostos, tributos e confiscos de toda classe, afundavam a massa da popula\u00e7\u00e3o em uma pobreza cada vez mais miser\u00e1vel, pelas exa\u00e7\u00f5es dos governantes, dos arrecadadores, dos soldados&#8230; (em consequ\u00eancia) os b\u00e1rbaros contra os quais pretendiam proteger os cidad\u00e3os eram esperados por estes como salvadores\u201d . Junto a isso, Roma e as outras grandes cidades do Imp\u00e9rio invadidas pelo parasitismo foram se convertendo como explica Chaunu em \u201ccidades cancerosas, gulosas, insaci\u00e1veis, de crescimento an\u00e1rquico, destruidoras do tecido ambiental, que se expandem para al\u00e9m das condi\u00e7\u00f5es que as fizeram nascer e desenvolver-se\u201d . Dito de outra maneira, a cidade ordenadora foi submergindo na desordem, a efic\u00e1cia urbana (a cidade como mecanismo de controle e explora\u00e7\u00e3o de sua periferia) foi derivando em inefic\u00e1cia parasit\u00e1ria, o que desordenava o sistema em seu conjunto, o que exigia expandir, tornar mais complexas as estruturas de controle, aumentando assim sua inefic\u00e1cia geral, etc., etc., o c\u00edrculo vicioso da decad\u00eancia se expandiu de maneira irresist\u00edvel.<\/p>\n<p>Ao passarmos ao mundo moderno, observamos como, segundo o assinala Fieldhouse, \u201ca propor\u00e7\u00e3o da superf\u00edcie terrestre ocupada de fato pelos europeus, j\u00e1 sob controle europeu direto como col\u00f4nias, j\u00e1 como antigas col\u00f4nias, era de 35% em 1800, de 67% em 1878 e de 84,4% em 1914. Entre 1800 e 1878, a m\u00e9dia da expans\u00e3o imperialista foi de 560 mil km2 ao ano\u201d . O que a partir de fins do s\u00e9culo XV se tinha estendido em zonas costeiras da Am\u00e9rica, \u00c1frica e \u00c1sia, somado a espa\u00e7os territoriais mais vastos, se converteu em uma investida avassaladora no s\u00e9culo XIX. Grandes espa\u00e7os interiores desses continentes foram ocupados e come\u00e7aram a ser explorados. Em alguns casos, submetendo as popula\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias, destruindo suas culturas e, em outros, exterminando-as. A tudo isso se denominou progresso, vit\u00f3ria da civiliza\u00e7\u00e3o, etapa inevit\u00e1vel do desenvolvimento das for\u00e7as produtivas do capitalismo amalgamando, assim, as imagens de mudan\u00e7a positiva e do genoc\u00eddio, do bem como objetivo superior junto ao crime como dano de menor import\u00e2ncia hist\u00f3rica. As v\u00edtimas apareciam como seres inferiores (sub-homens, Untermenschen) destinados a ser civilizados (superexplorados) ou exterminados, dualidade cultural que antecipava o duplo discurso nazista, sua dupla imagem: a bela est\u00e9tica do desfile das juventudes arianas junto \u00e0 est\u00e9tica sinistra dos campos de concentra\u00e7\u00e3o. O capitalismo ascendente do s\u00e9culo XIX, desde sua base europeia, que se autorreferenciava como civiliza\u00e7\u00e3o portadora da hist\u00f3ria universal, do maravilhoso destino do mundo, completava a tarefa iniciada v\u00e1rios s\u00e9culos atr\u00e1s.<\/p>\n<p>O processo de ocupa\u00e7\u00e3o quase total do planeta, do espa\u00e7o territorial poss\u00edvel coincidiu com o que Polanyi chamou \u201ca paz de cem anos\u201d (entre o fim das guerras napole\u00f4nicas, em 1815, e o come\u00e7o da Primeira Guerra Mundial, em 1914) ao interior do espa\u00e7o europeu s\u00f3 turvado por pequenos conflitos ou de muito curta dura\u00e7\u00e3o . O fim vitorioso do expansionismo europeu, entre fins do s\u00e9culo XX, convergiu com o come\u00e7o de uma super crise, com uma guerra intestina que marcou para 1914 o come\u00e7o da decad\u00eancia.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, ocorreram no espa\u00e7o ocidental recess\u00f5es, hiperinfla\u00e7\u00f5es, a guerra civil espanhola, as ascens\u00f5es fascistas, a Segunda Guerra Mundial e a derrota do fascismo, a prosperidade ocidental e do Jap\u00e3o durante algo menos de tr\u00eas d\u00e9cadas at\u00e9 chegar \u00e0 crise dos anos 1970, com a crise energ\u00e9tica e a estagfla\u00e7\u00e3o. No entanto, desde 1917, o espa\u00e7o de domina\u00e7\u00e3o territorial do ocidente foi se retraindo ao mesmo tempo que a guerra fria, a militariza\u00e7\u00e3o e a satura\u00e7\u00e3o da onda consumista geravam em seu seio as condi\u00e7\u00f5es para a emerg\u00eancia da hipertrofia financeira como centro de uma expans\u00e3o parasit\u00e1ria sem precedentes.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel argumentar que a etapa colonial extensiva sentou as bases para uma posterior explora\u00e7\u00e3o mais intensiva do conquistado e que as turbul\u00eancias do s\u00e9culo XX permitiram digerir o conquistado, atravessando um percurso complexo que incluiu grandes perdas territoriais. Por\u00e9m, ao final desse s\u00e9culo, a URSS e sua \u00e1rea de influ\u00eancia tinham desaparecido, dando lugar a grandes reconvers\u00f5es capitalistas e a China tinha ingressado ao sistema global do capitalismo, contribuindo, entre outras coisas, com cerca de 230 milh\u00f5es de trabalhadores industriais baratos. No entanto, essa incorpora\u00e7\u00e3o n\u00e3o permitiu superar a decad\u00eancia ocidental. Certamente a agravou. Tanto os Estados Unidos como a Europa e o Jap\u00e3o sobreviveram ao ritmo de bolhas financeiras para, finalmente, depois de 2008, ingressar em uma etapa de crescimentos an\u00eamicos, deteriora\u00e7\u00f5es institucionais e degrada\u00e7\u00f5es de vastos setores sociais, onde as burguesias dominantes tornaram-se lumpemburguesias e onde o aparato militar do amo estadunidense (Guerra de Quarta Gera\u00e7\u00e3o) se converteu em um parasita cada vez mais sofisticado do ponto de vista tecnol\u00f3gico e cada vez mais custoso e ineficaz, em que o mercen\u00e1rio vai substituindo o cidad\u00e3o-soldado (not\u00e1vel paralelo com a decad\u00eancia romana).<\/p>\n<p>Debaixo da chamada recupera\u00e7\u00e3o territorial do capitalismo, se reproduz agravando-se a degrada\u00e7\u00e3o geral do sistema. Tend\u00eancias pesadas, sobredeterminantes, imp\u00f5em o decl\u00ednio.<\/p>\n<p>Uma delas \u00e9 o decl\u00ednio tendencial plurissecular da taxa de lucro, que foi se manifestando ao longo do s\u00e9culo XX para chegar mais recentemente a uma sorte de piso provis\u00f3rio muito baixo, provavelmente este anunciando uma futura queda catastr\u00f3fica (numerosos indicadores financeiros, energ\u00e9ticos, laborais, de demanda, etc. assim o indicam) o que confirma uma das hip\u00f3teses decisivas de Marx.<\/p>\n<p>Taxas baixas que impulsionam, ao mesmo tempo, o resfriamento nos investimentos produtivos, a expans\u00e3o dos neg\u00f3cios financeiros parasitando sobre a atividade econ\u00f4mica geral e o decl\u00ednio tendencial da taxa de crescimento da economia global. Personagens chaves do establishment como Larry Summers v\u00eam anunciando h\u00e1 quase um lustro o ingresso a um prolongado per\u00edodo de estancamento com centro no decl\u00ednio da economia dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>A decad\u00eancia promove o parasitismo que, por sua vez, exacerba a decad\u00eancia. J\u00e1 ingressamos na etapa em que o parasitismo financeiro decai porque sua v\u00edtima produtiva se aproxima do estancamento. Em fins de 2013, os neg\u00f3cios globais com produtos financeiros derivados, representavam 9,3 vezes o Produto Bruto Global. Em fins de 2015, tinha ca\u00eddo 6,6 vezes, mantendo-se aproximadamente nesse n\u00edvel at\u00e9 a atualidade . A contra\u00e7\u00e3o n\u00e3o apazigua o parasita. Pelo contr\u00e1rio, exacerba suas piores inclina\u00e7\u00f5es: o canibalismo financeiro, as opera\u00e7\u00f5es mafiosas, os golpes de m\u00e3o, os saqueios, as aventuras delirantes v\u00e3o cobrindo um clima de neg\u00f3cios cada vez mais enrarecido. N\u00e3o se trata de uma enfermidade limitada \u00e0 c\u00fapula do sistema, mas abarcando a totalidade das sociedades chamadas de alto desenvolvimento, onde se agrava a fragmenta\u00e7\u00e3o social, se deterioram as institui\u00e7\u00f5es, se estendem as irrup\u00e7\u00f5es neofascistas.<\/p>\n<p>A t\u00e3o publicizada globaliza\u00e7\u00e3o comercial, maravilha neoliberal que se expandia quebrando tecidos sociais e acumulando desocupa\u00e7\u00e3o e pobreza, chegou a seu m\u00e1ximo em 2008, quando as exporta\u00e7\u00f5es representavam 30,7% do Produto Bruto Global (em 1963, chegavam a 11,7%). Ent\u00e3o, deixou de crescer e iniciou o caminho descendente.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, vai cumprindo outro dos progn\u00f3sticos de Marx, o da polariza\u00e7\u00e3o crescente do sistema entre uma minoria cada vez menor e mais rica e uma massa global, o proletariado e semiproletariado do s\u00e9culo XXI, cada vez mais paup\u00e9rrima. Os anos da prosperidade keynesiana viram proliferar a ilus\u00e3o do fim do progn\u00f3stico marxista. Inclusive, ao come\u00e7ar o s\u00e9culo XXI, organismos internacionais e especialistas midi\u00e1ticos anunciavam uma mar\u00e9 de novas classes m\u00e9dias na periferia, que entre 2020-2030 alentaria um grande salto industrial global apoiado no futuro consumismo. Por\u00e9m, a chegada da crise de 2008 marcou o fim dessa fantasia, a concentra\u00e7\u00e3o global de rendas avan\u00e7a incontrol\u00e1vel n\u00e3o s\u00f3 na periferia, mas tamb\u00e9m nos capitalismos centrais, e a mis\u00e9ria das massas se estende.<\/p>\n<p>Neofascismo<\/p>\n<p>Assim como o fascismo cl\u00e1ssico, o neofascismo significa a radicaliza\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o de recursos humanos e naturais, ainda que o primeiro n\u00e3o tenha tido aplica\u00e7\u00e3o a n\u00edvel planet\u00e1rio e a capacidade tecnol\u00f3gica do segundo. Em ambos os casos, trata-se de um grande salto qualitativo da din\u00e2mica de explora\u00e7\u00e3o-opress\u00e3o do capitalismo triturando liberdades democr\u00e1ticas, garantias sociais das classes baixas, identidades culturais, etc. Todavia, continuamos impactados pelas atrocidades passadas do fascismo sem nos dar conta muitas vezes da carga de barb\u00e1rie, muito maior, da qual \u00e9 portador o neofascismo. Os grandes genoc\u00eddios do s\u00e9culo XX se ofuscam ante as consequ\u00eancias poss\u00edveis da devasta\u00e7\u00e3o neofascista em curso, protagonizada pelo Imp\u00e9rio e seus aliados.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio aprofundar a an\u00e1lise do fen\u00f4meno, detectar suas principais caracter\u00edsticas. Algumas constata\u00e7\u00f5es podem nos servir para isso.<\/p>\n<p>Primeira constata\u00e7\u00e3o: do quebra-cabe\u00e7as ideol\u00f3gico fascista ao pensamento confuso neofascista.<\/p>\n<p>O velho fascismo n\u00e3o escondia seu nome e a mundializa\u00e7\u00e3o do capitalismo sob a forma de cultura ocidental . Segundo seus propagandistas, se estendeu de suas bases europeias e apareceu como uma mistura de renova\u00e7\u00e3o vivificante da modernidade e de restabelecimento da ordem conservadora e autorit\u00e1ria corrompida pelo liberalismo e amea\u00e7ada de morte pelo comunismo. O rep\u00fadio \u00e0 democracia burguesa, desde sua forma mon\u00e1rquica constitucional at\u00e9 o elitismo republicano, servia na Europa como cavalinho de batalha para desqualificar toda forma de democracia. Desse modo, colhiam as cr\u00edticas populares de esquerda ante a estafa da democracia realizada pelas classes dominantes e as introduziam na mochila autorit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Os fascismos italiano, alem\u00e3o ou espanhol encontraram partid\u00e1rios nas elites perif\u00e9ricas. Em 1936 nasceram as Falanges Libanesas, em 1937 aparecia a Falange Socialista Boliviana, ambas formadas por admiradores do falangismo espanhol e do fascismo mussoliniano. Nos anos 1930, governou El Salvador o ditador Mart\u00ednez, um general admirador de Hitler ainda que administrando um pa\u00eds economicamente dependente dos Estados Unidos . J\u00e1 assinalei a forte influ\u00eancia do fascismo italiano no golpe militar de 1930 na Argentina, ao que \u00e9 preciso acrescentar, entre outras coisas, as rela\u00e7\u00f5es amistosas (sobretudo na esfera militar) da presid\u00eancia do general Agust\u00edn P. Justo (entre 1932 e 1938) com a Alemanha e It\u00e1lia, e sob a influ\u00eancia do Grande Mufti de Jerusal\u00e9m, se formou em 1941 a Legi\u00e3o \u00c1rabe Livre como parte do ex\u00e9rcito alem\u00e3o .<\/p>\n<p>A partir de um pragmatismo muito audaz, o fascismo cl\u00e1ssico conseguiu armar um quebra-cabe\u00e7as ideol\u00f3gico relativamente s\u00f3lido, o fundou n\u00e3o s\u00f3 gra\u00e7as \u00e0 inescrupulosidade de seus dirigentes, mas tamb\u00e9m contando com ide\u00f3logos de peso, como Oswald Spengler ou Martin Heidegger na Alemanha, ou Tommaso Marinetti e Gabrielle d&#8217;Annunzio na It\u00e1lia. Conseguiu situar em um espa\u00e7o comum variantes mais ou menos distanciadas das estruturas religiosas crist\u00e3s, cat\u00f3licas ou protestantes, at\u00e9 outras ultracat\u00f3licas, como a espanhola.<\/p>\n<p>O neofascismo \u00e9 muito mais pragm\u00e1tico, n\u00e3o repudia a democracia burguesa, mas tenta mimetizar-se nela, assumindo-a demagogicamente para coloc\u00e1-la a servi\u00e7o de suas bandeiras racistas e autorit\u00e1rias. O governo da Let\u00f4nia, por exemplo, n\u00e3o encontra incoer\u00eancia em aderir aos postulados democr\u00e1tico-liberais da Uni\u00e3o Europeia, da qual faz parte, com a realiza\u00e7\u00e3o do desfile anual em Riga dos veteranos das Waffen SS, integrante do ex\u00e9rcito nazista alem\u00e3o (tampouco a Uni\u00e3o Europeia se alarma por esses fatos) . A russofobia, bem vista pela OTAN, persegui\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o de l\u00edngua russa, nostalgias nazistas e formalismo democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>Tampouco na Pol\u00f4nia, tamb\u00e9m membro da Uni\u00e3o Europeia, parecem produzir-se graves problemas ante a exist\u00eancia de um governo neofascista, a russofobia mais extrema e a ades\u00e3o \u00e0s regras europeias em mat\u00e9ria de direitos humanos e institucionalidade democr\u00e1tica. Na Fran\u00e7a, a Frente Nacional adapta suas origens fascistas aos novos tempos, acentua sua xenofobia, sua agressividade anti-isl\u00e2mica, une la\u00e7os com a extrema direitas dos Estados Unidos, por\u00e9m busca suavizar (maquiar com cores republicanas) sua imagem extremista a n\u00edvel local . Em todos esses casos, o antigo antissemitismo \u00e9 colocado debaixo do tapete o atirado \u00e0 lixeira (enquanto se observa com simpatia a cruzada anti-isl\u00e2mica de Benjamin Netanyahu), a obsoleta demagogia \u201csocial\u201d de Mussolini \u00e9 substitu\u00edda pela das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, podemos encontrar similar acatamento formal \u00e0s regras da democracia representativa em regimes ditatoriais e protoditatoriais como em Honduras, Brasil, Argentina, M\u00e9xico ou Paraguai, em alguns casos apoiados na histeria neofascista das classes m\u00e9dias. Em v\u00e1rios desses governos autorit\u00e1rios se acotovelam velhos fascistas antissemitas com sionistas, resultado de curiosas converg\u00eancias de gera\u00e7\u00f5es diferentes. A amplitude neofascista n\u00e3o se det\u00e9m nas portas do imp\u00e9rio onde Donald Trump agrupa o racismo branco das classes baixas (onde se nota um certo aspecto da Ku Klux Klan), persegue os imigrantes e estreita sua amizade com a ultradireita governante em Israel. Tampouco o faz quando se trata de realizar opera\u00e7\u00f5es na periferia, promovendo, por exemplo, o Estado Isl\u00e2mico no Oriente M\u00e9dio, visando destruir a S\u00edria e encurralar o Ir\u00e3. Ainda que neste caso n\u00e3o dev\u00eassemos nos limitar ao aspecto conspirativo do tema, pois a manobra se apoia em mercen\u00e1rios e, tamb\u00e9m, em for\u00e7as sociais concretas da regi\u00e3o. A decad\u00eancia ou desaparecimento dos velhos nacionalismos p\u00f3s-coloniais (nasserismo, kadafismo, nacionalismo argelino) em um contexto de agravamento da crise, deu in\u00edcio \u00e0 emerg\u00eancia de uma sorte de neofascismo islamista, tradicionalista ao extremo em mat\u00e9ria religiosa (que como outros tradicionalismos religiosos extremistas, deforma de maneira delirante a hist\u00f3ria religiosa). Se estende assim, de maneira bizarra, o espa\u00e7o neofascista global que, entre outras coisas, n\u00e3o tem ide\u00f3logos de peso, n\u00e3o os necessita, nem interessa t\u00ea-los. Seu projeto pragm\u00e1tico se corresponde a um grau muito maior de degrada\u00e7\u00e3o civilizacional que do fascismo cl\u00e1ssico. Aqui j\u00e1 n\u00e3o existe quebra-cabe\u00e7as ideol\u00f3gico a ser organizado. A nova barb\u00e1rie n\u00e3o busca enquadrar ideologicamente popula\u00e7\u00f5es, disciplin\u00e1-las culturalmente, militaliz\u00e1-las, mas introduzi-las em uma sorte de dualidade ca\u00f3tica, com um polo dominante saqueador, superexplorador, socialmente restringido e grandes massas humanas marginalizadas. Heidegger est\u00e1 em voga, bem-vindos os manipuladores midi\u00e1ticos, os magos da p\u00f3s-verdade injetada nas redes sociais, os exitosos do imediatismo niilista.<\/p>\n<p>Segunda constata\u00e7\u00e3o: do fascismo industrial ao neofascismo financeiro.<\/p>\n<p>O fascismo emergiu das causas do capitalismo liberal europeu, em cujo topo se encontrava a Haute Finance, assinalada por Polanyi como imperialista, ou seja, como ensinava Lenin dominado pelo capital financeiro. No entanto, esse tipo de domina\u00e7\u00e3o, para express\u00e1-lo em termos gramscianos, n\u00e3o se converteu em hegemonia. A cultura financeira n\u00e3o era a cultura da totalidade do mundo burgu\u00eas, seu controle era exercido sem que seu veneno ideol\u00f3gico tenha invadido completamente o corpo produtivo onde predominava a ind\u00fastria. A modernidade ainda tinha alma industrial.<\/p>\n<p>De maneira acertada, Jeffrey Herf caracteriza o nazismo como modernismo reacion\u00e1rio, como aceita\u00e7\u00e3o e, inclusive, exacerba\u00e7\u00e3o das inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas combinada com o rep\u00fadio ao legado da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, principalmente seus aspectos democr\u00e1ticos, igualit\u00e1rios . Desse modo, o autor desautoriza a apresenta\u00e7\u00e3o do hitlerismo como simples obscurantismo, como retrocesso a uma sorte de medievalismo troglodita. Ainda que Herf o assinale como especificidade alem\u00e3, no entanto o fascismo italiano e, inclusive, o franquismo e seu fundamentalismo cat\u00f3lico ultramontano poderiam ser caracterizados da mesma maneira.<\/p>\n<p>Albert Speer, que foi ministro de armamento e guerra de Hitler, tentou justificar-se durante os Julgamentos de Nuremberg e, depois, em suas mem\u00f3rias, assinalando que \u201cos criminosos sucessos daqueles anos n\u00e3o s\u00f3 foram fruto da personalidade de Hitler. O alcance dos crimes tamb\u00e9m se deveu ao fato de que Hitler foi o primeiro capaz de empregar os instrumentos tecnol\u00f3gicos para multiplicar o crime. A maior tecnologia \u00e9 o perigo\u201d . A culpabiliza\u00e7\u00e3o da tecnologia leva a outorgar-lhe um alto n\u00edvel de autonomia a respeito das decis\u00f5es humanas. Trata-se de uma sorte de fetichismo tecnol\u00f3gico que cumpre um papel decisivo na cultura moderna.<\/p>\n<p>No imagin\u00e1rio modernista de come\u00e7os do s\u00e9culo XX, a tecnologia era quase equivalente \u00e0 tecnologia industrial, com suas m\u00e1quinas cada vez mais eficazes, com grandes organiza\u00e7\u00f5es estatais ou privadas, civis ou militares, tentando funcionar \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o, imitando as m\u00e1quinas visualizadas como paradigma superior do progresso. O para\u00edso autorit\u00e1rio aparecia como uma grande m\u00e1quina humana, obedecendo mecanicamente \u00e0quele que a maneja. O fascismo cl\u00e1ssico pode ser, ent\u00e3o, apresentado como express\u00e3o autorit\u00e1ria da modernidade industrial durante as primeiras d\u00e9cadas da decad\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 exagerado falar, ent\u00e3o, de fascismo industrial.<\/p>\n<p>Diferente dele, o neofascismo emerge muito tempo depois, arrastando velhas hist\u00f3rias, por\u00e9m inserido em um universo capitalista completamente financeirizado, onde as inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas da ind\u00fastria, da agricultura ou da minera\u00e7\u00e3o formam parte de uma din\u00e2mica geral de neg\u00f3cios, na qual prevalece a cultura financeira, seus ritmos, sua reprodu\u00e7\u00e3o parasit\u00e1ria; onde a urbaniza\u00e7\u00e3o se degenera em caos, onde a fragmenta\u00e7\u00e3o social e a transnacionaliza\u00e7\u00e3o quebraram integra\u00e7\u00f5es nacionais e articula\u00e7\u00f5es estatais, com taxas de lucros produtivas tendencialmente baixas e taxas de crescimento econ\u00f4mico an\u00eamicas nos capitalismos dominantes tradicionais e desacelerando-se na China. A hegemonia parasit\u00e1ria na \u00e1rea central hist\u00f3rica do capitalismo global, capturando de maneira irregular vastas zonas perif\u00e9ricas, se corresponde com uma etapa muito avan\u00e7ada da decad\u00eancia sist\u00eamica, sua imagem financeira, ou seja, n\u00e3o produtiva, mafiosa, vol\u00e1til, aventureira, define a identidade neofascista.<\/p>\n<p>Terceira constata\u00e7\u00e3o: o neofascismo como ruptura do metabolismo humanidade-natureza.<\/p>\n<p>Antecipado por Marx (que recolhia estudos avan\u00e7ados de sua \u00e9poca, como os de Liebig), ainda que sem ocupar um lugar central em sua obra, o fen\u00f4meno de ruptura do equil\u00edbrio entre a reprodu\u00e7\u00e3o social e a da natureza termina por ser realidade no s\u00e9culo XXI. A devasta\u00e7\u00e3o do meio ambiente, o esgotamento de recursos naturais, formam agora parte da din\u00e2mica do capitalismo. As avalanches da agricultura transg\u00eanica, da minera\u00e7\u00e3o a c\u00e9u aberto, da hipertrofia e polui\u00e7\u00e3o urbanas, s\u00e3o algumas e decisivas manifesta\u00e7\u00f5es de um processo cuja magnitude amea\u00e7a com restringir de maneira significativa as condi\u00e7\u00f5es da exist\u00eancia humana no planeta. A superexplora\u00e7\u00e3o de recursos energ\u00e9ticos, por exemplo, conduziu a uma r\u00e1pida redu\u00e7\u00e3o das reservas petroleiras com substitui\u00e7\u00f5es insuficientes \u00e0 vista do que levar\u00e1 a uma dram\u00e1tica degrada\u00e7\u00e3o das atividades econ\u00f4micas e sociais em geral.<\/p>\n<p>Uma das caracter\u00edsticas das tend\u00eancias neofascistas \u00e9 seu rep\u00fadio \u00e0s chamadas \u201cbobeiras ecol\u00f3gicas\u201d, que desalentariam os investimentos prejudicando o desenvolvimento empresarial. N\u00e3o se trata de um capricho autorit\u00e1rio, mas sim da express\u00e3o da necessidade profunda do grande capitalismo de rentabilizar seus neg\u00f3cios em uma era onde as baixas taxas de lucros produtivos os obrigam n\u00e3o s\u00f3 a praticar o canibalismo financeiro, mas tamb\u00e9m a reduzir custos e tempos saqueando recursos naturais.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos e seu governo est\u00e3o na vanguarda do processo destrutivo global . O abandono do Acordo de Paris sobre mudan\u00e7a clim\u00e1tica em nome do emprego e o desenvolvimento industrial aparecem como uma medida demag\u00f3gica nacionalista de Donald Trump, que responde \u00e0s press\u00f5es dos grandes grupos econ\u00f4micos dos Estados Unidos cujo \u00fanico objetivo \u00e9 aumentar seus lucros, destruindo todos os obst\u00e1culos ecol\u00f3gicos que se apresentem.<\/p>\n<p>O aspecto financeiro do neofascismo converge com suas pr\u00e1ticas devastadoras da natureza, de articula\u00e7\u00f5es sociais e de sobreviv\u00eancias culturais, cuja intera\u00e7\u00e3o metab\u00f3lica come\u00e7a a fraturar-se em come\u00e7os do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Quarta constata\u00e7\u00e3o: o car\u00e1ter ocidental-imperialista do neofascismo sobredetermina suas manifesta\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas parciais.<\/p>\n<p>Existiu um discurso fascista, com suas variantes nacionais, regionais, religiosas ou pondo a religi\u00e3o em um segundo plano, para al\u00e9m de suas misturas oportunistas, exibindo um conjunto de paradigmas, estilos, e at\u00e9 cenografias que lhe outorgavam uma certa identidade universal: as camisas pardas na Alemanha, as negras na It\u00e1lia, azuis nas falanges espanholas ou nos lanceiros (L\u0103ncieri) romenos, as camisas brancas da falange boliviana, que uniformizavam as for\u00e7as militarizadas que exerciam a viol\u00eancia contra a popula\u00e7\u00e3o civil.<\/p>\n<p>\u00c9 muito dif\u00edcil encontrar algo parecido no neofascismo. Seu car\u00e1ter universal vem sendo dado pela interven\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio global estadunidense e n\u00e3o pode cen\u00e1rios ou discursos comuns. Trata-se de uma onda reacion\u00e1ria de configura\u00e7\u00e3o vari\u00e1vel. Na Europa, predomina o discurso racista contra os povos perif\u00e9ricos, xenofobia propagada em sociedades afetadas pelo envelhecimento demogr\u00e1fico e a perda de dinamismo econ\u00f4mico (tem o aspecto de um neofascismo defensivo). Na Am\u00e9rica Latina, mobiliza principalmente as classes altas e m\u00e9dias contra os pobres, onde se combina, segundo os casos, racismo e segrega\u00e7\u00e3o social internos. Nos Estados Unidos, um dos baluartes da vit\u00f3ria de Trump foram as classes Baixas brancas decadentes dominadas pelo ressentimento social e a xenofobia. Por\u00e9m, no Oriente M\u00e9dio, uma for\u00e7a de choque decisiva foi o ultra islamismo do Estado Isl\u00e2mico, Al Qaeda e outras organiza\u00e7\u00f5es \u201cantiocidentais\u201d financiadas e treinadas pelo Ocidente, nutrindo-se de bases sociais politicamente \u00e0 deriva, desencantadas com a moderniza\u00e7\u00e3o. O objetivo imperial n\u00e3o \u00e9 regimentar, mas controlar estrategicamente popula\u00e7\u00f5es ca\u00f3ticas ou ap\u00e1ticas, encurralar e se poss\u00edvel destruir estados rivais ou fora de controle. Sobredetermina\u00e7\u00e3o imperialista que por sua dimens\u00e3o planet\u00e1ria, sua apresenta\u00e7\u00e3o ideologicamente confusa e seu impacto devastador n\u00e3o deveria ser visto como loucura do polo dominante mundial mais amplo da reprodu\u00e7\u00e3o ampliada negativa da civiliza\u00e7\u00e3o burguesa, que abandona completamente seus mitos progressistas para submergir no niilismo. \u00c9 um fen\u00f4meno que se expressa atrav\u00e9s de indicadores produtivos, tecnol\u00f3gicos, financeiros, ambientais, demogr\u00e1ficos, urbanos e outros que integram um processo mais vasto, onde tamb\u00e9m aparecem a agonia da racionalidade, o pessimismo social, o descr\u00e9dito da solidariedade.<\/p>\n<p>Luzes e sombras<\/p>\n<p>O fascismo aparentava ser uma avalanche incontrol\u00e1vel, assim acreditou por exemplo Stefan Zweig, escritor de grande popularidade internacional entre as duas guerras mundiais. O austr\u00edaco representativo da alta burguesia liberal nunca pode repor-se do choque causado pela chegada da barb\u00e1rie nazista. Marchou para o ex\u00edlio e terminou suicidando-se no Brasil, em 1942, tr\u00eas anos antes da derrubada do nazismo. Morreu acreditado na vit\u00f3ria universal do nazismo. O mundo que sentia saudade, o do capitalismo europe\u00edsta, n\u00e3o voltaria mais. \u201cN\u00e3o somos sen\u00e3o fantasmas e recorda\u00e7\u00f5es\u201d, assinalou sobre seu universo desaparecido, que reconhecia ser repleto de injusti\u00e7as, mas tamb\u00e9m de possibilidades de supera\u00e7\u00e3o. Assim o descreveu em sua obra p\u00f3stuma, \u201cO Mundo de ontem\u201d, que curiosamente termina talvez contradizendo seu pessimismo: \u201cO sol brilhava com plenitude e for\u00e7a. Enquanto regressava \u00e0 casa, rapidamente observei minha sombra diante de mim, do mesmo modo que via a sombra da outra guerra atr\u00e1s da atual. Durante todo esse tempo, aquela sombra j\u00e1 n\u00e3o se afastou de mim; ela pairou sobre meus pensamentos noite e dia. Por\u00e9m, toda sombra \u00e9, ao fim e ao cabo, filha da luz\u201d . Por\u00e9m, tamb\u00e9m m\u00e3e da luz seria necess\u00e1rio acrescentar, de uma luz diferente, nova. A cat\u00e1strofe nazista (sua emerg\u00eancia e derrubada final) significou, engendrou como rea\u00e7\u00e3o, o desdobramento de for\u00e7as sociais regeneradoras de dimens\u00f5es nunca antes vistas. O fim da Segunda Guerra Mundial abriu as portas para o socialismo no centro e leste europeu, a revolu\u00e7\u00e3o chinesa, as grandes descoloniza\u00e7\u00f5es na periferia, obrigando as burguesias dos pa\u00edses centrais a ceder seus pr\u00f3prios territ\u00f3rios ante as demandas de seus trabalhadores. Ali, n\u00e3o regressou o velho capitalismo liberal, mas se instalou a adapta\u00e7\u00e3o keynesiana. Isso era impens\u00e1vel, por exemplo, em 1940, para aqueles com crit\u00e9rio \u201crealista\u201d, que observavam as for\u00e7as em presen\u00e7a, incapazes de perceber a din\u00e2mica profunda do mundo, o devir poss\u00edvel que inclu\u00eda entre suas alternativas o despertar de grandes massas humanas subestimadas, buscando superar um sistema decadente.<\/p>\n<p>O desafio neofascista \u00e9 muito superior ao que representou o fascismo. Sua capacidade letal \u00e9 muito maior, suas v\u00edtimas potenciais j\u00e1 n\u00e3o se contam em dezenas de milh\u00f5es, mas, no melhor dos casos, em centenas de milh\u00f5es. Sua reprodu\u00e7\u00e3o devastadora amea\u00e7a a vida no planeta. O colosso imperial disp\u00f5e do maior maquin\u00e1rio de guerra que jamais conheceu a humanidade. Seu desenvolvimento comunicacional permite atacar em qualquer lugar do mundo. No entanto, sua natureza parasit\u00e1ria, o distanciamento psicol\u00f3gico de sua elite com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade paralela, sua financeiriza\u00e7\u00e3o, a corrup\u00e7\u00e3o que a aprisiona, seu imediatismo desenfreado, a conduzem para derrotas ou impasses surpreendentes como os que sofreu na S\u00edria e Afeganist\u00e3o, ou em suas tentativas de domestica\u00e7\u00e3o da R\u00fassia e China, como parte de sua estrat\u00e9gia fracassada de controle da Eur\u00e1sia. Ou que o caso latino-americano o levou a instaurar regimes autorit\u00e1rios sumamente fr\u00e1geis, como no Brasil ou Argentina.<\/p>\n<p>O Imp\u00e9rio se degrada empurrado por suas estrat\u00e9gias de recomposi\u00e7\u00e3o, respostas selvagens que, ao tentar impor uma reprodu\u00e7\u00e3o devastadora que nega estrategicamente a sobreviv\u00eancia da maior parte da humanidade, cria as condi\u00e7\u00f5es de sua queda. Se n\u00e3o fizer nada continuar\u00e1 afundando. As taxas de lucro corporativos caem, os tecidos sociais produtivos se enfraquecem, por\u00e9m se fizer o que ditam seus interesses concretos, afundar\u00e1 muito mais.<\/p>\n<p>Quando Hitler assumiu como Chanceler do Reich, Carl Schmitt, um dos mais destacados ide\u00f3logos do nazismo, declarou: \u201cHoje, 30 de janeiro de 1933, \u00e9 poss\u00edvel afirmar que Hegel morreu\u201d . Ou seja, a Raz\u00e3o como fundamento da civiliza\u00e7\u00e3o burguesa, a aposta em uma vis\u00e3o racional, cient\u00edfica, da hist\u00f3ria humana, de seu desenvolvimento presente e futuro. Por\u00e9m, a reconfigura\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica nazista durou pouco. Hegel come\u00e7ava a sofrer seus primeiros acharques, por\u00e9m continuou com vida, sobrevivendo a esse primeiro momento de decomposi\u00e7\u00e3o civilizacional cujo final foi simbolizado pelo soldado sovi\u00e9tico colocando a bandeira vermelha no alto do Reichstag, em 2 de maio de 1945. N\u00e3o s\u00f3 Hegel continuava vivo, mas tamb\u00e9m outro alem\u00e3o: Karl Marx, aparecia na cena anunciando sua vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Encontramo-nos agora submersos em uma decad\u00eancia muito mais profunda e extensa que a dos anos 1920-1930, amea\u00e7ando converter-se em um processo de autodestrui\u00e7\u00e3o de alcance planet\u00e1rio. Al\u00e9m disso, segundo afirma uma multid\u00e3o de comunicadores e acad\u00e9micos, a ilus\u00e3o p\u00f3s-capitalista do s\u00e9culo XX foi enterrada, Marx morreu. Por\u00e9m, ocorre que os amos do mundo e seus seguidores n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos protagonistas desta hist\u00f3ria. A humanidade sofredora assustadoramente majorit\u00e1ria tamb\u00e9m existe, tem mem\u00f3ria e capacidade de rebeldia (e a exerce). A c\u00fapula do Capit\u00f3lio em Washington \u00e9 um bom lugar para que no futuro, o fim dos devastadores culmine com a coloca\u00e7\u00e3o de uma bandeira libertadora e com o sorriso ir\u00f4nico de Marx anunciando que seu \u00f3bito n\u00e3o era mais que uma p\u00f3s-verdade propagada pelo Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>A imagem da bandeira sobre o Capit\u00f3lio me gera algumas interroga\u00e7\u00f5es&#8230; Como ser\u00e1 essa bandeira? Ser\u00e1 vermelha, ser\u00e1 uma whipala, talvez uma n\u00e3o criada? Quem a portar\u00e1? Um estadunidense, um chin\u00eas, um franc\u00eas, um mexicano, um eg\u00edpcio, um peruano? No caso de Berlim, em 1945, a coisa estava clara: tinha que ser inevitavelmente um sovi\u00e9tico levantando a bandeira vermelha, mas agora a multiplicidade de ofensivas imperiais e de resist\u00eancias, de altera\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, sociais e ambientais perif\u00e9ricas, mas tamb\u00e9m no centro do mundo, o caos global de deslocaliza\u00e7\u00f5es industriais e estafas financeiras, me fazem pensar que o portador da bandeira pode ser qualquer um e que a bandeira ser\u00e1 o resultado da cria\u00e7\u00e3o de uma humanidade rebelde. Em sua \u00faltima etapa declinante, a civiliza\u00e7\u00e3o burguesa tornou-se completamente universal, a densidade das intercomunica\u00e7\u00f5es globais, a transnacionaliza\u00e7\u00e3o da economia foram desfocando especificidades, criando novas formas de pluralismo do real, reabilitando mem\u00f3rias esquecidas. Em suma, tornando poss\u00edvel a supera\u00e7\u00e3o global do sistema.<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19563\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8],"tags":[221],"class_list":["post-19563","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-55x","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19563","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19563"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19563\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19563"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19563"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19563"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}