{"id":1963,"date":"2011-10-16T20:40:31","date_gmt":"2011-10-16T20:40:31","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1963"},"modified":"2011-10-16T20:40:31","modified_gmt":"2011-10-16T20:40:31","slug":"uma-chance-para-corrigir-os-erros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1963","title":{"rendered":"Uma chance para corrigir os erros"},"content":{"rendered":"\n<p>Os eventos deste ano no norte da \u00c1frica e no Oriente M\u00e9dio tiveram imenso impacto sobre a esquerda mundial. Em todas as correntes do pensamento cr\u00edtico multiplicaram-se variadas interpreta\u00e7\u00f5es acerca da chamada \u201cprimavera \u00e1rabe\u201d. Saudada na Tun\u00edsia, Egito, I\u00eamen, Ar\u00e1bia Saudita e Barein, tornou-se motivo de controv\u00e9rsia quando alcan\u00e7ou pa\u00edses como L\u00edbia, S\u00edria e Arg\u00e9lia, de passado conhecidamente anti-imperialista e onde os processos adotaram uma din\u00e2mica particularmente complexa, seja pela ado\u00e7\u00e3o de medidas repressivas por parte dos governos locais, seja pelas contradi\u00e7\u00f5es destes pa\u00edses perante os interesses de EUA, Uni\u00e3o Europ\u00e9ia e Israel.<\/p>\n<p>Diante dos acontecimentos que varreram aquela parte do mundo, a esquerda dividiu-se. De um lado, agruparam-se aquelas correntes que defendem a ideia de que as revoltas populares, que no Egito e na Tun\u00edsia foram impulsionadas por poderosos movimentos de massa, logrando derrubar dois dos mais importantes aliados do imperialismo na regi\u00e3o, seriam parte de uma mesma onda revolucion\u00e1ria cujos desdobramentos envolveriam a L\u00edbia, S\u00edria e outros pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio e \u00c1frica. Em outras palavras, a \u201cprimavera \u00e1rabe\u201d seria uma s\u00f3, e se alimentaria de um sincero desejo comum de liberdade, democracia e justi\u00e7a social, alheio aos interesses das pot\u00eancias estrangeiras.<\/p>\n<p>De outro lado, expressou-se uma posi\u00e7\u00e3o mais cautelosa, que n\u00e3o via nas revoltas populares um processo que se encerrava pela simples derrubada de governos e destacava a necessidade de solidariedade aos setores mais avan\u00e7ados do movimento de massas contra a transi\u00e7\u00e3o tutelada pelas elites atrav\u00e9s do ex\u00e9rcito, ao mesmo tempo em que distinguia claramente os levantes populares que se alastraram pela Tun\u00edsia, Egito e outros pa\u00edses, da guerra civil que teve lugar na L\u00edbia a partir da interven\u00e7\u00e3o estrangeira, que em \u00faltima inst\u00e2ncia, garantiu aos \u201crebeldes\u201d de Benghazi o poder de fogo necess\u00e1rio para fazer frente ao regime de Muammar Kadaffi.<\/p>\n<p>Seguramente, entre essas correntes encontraremos diferentes matizes, que v\u00e3o desde a simpatia velada ao ditador l\u00edbio, supostamente justificada por seu passado terceiro-mundista e seu apoio aos movimentos de liberta\u00e7\u00e3o, principalmente na Am\u00e9rica Latina, at\u00e9 o apoio aberto \u00e0 interven\u00e7\u00e3o da Otan, que vitimou centenas de civis em nome da&#8230; prote\u00e7\u00e3o de civis! Os mesmos que outorgaram todo o seu apoio aos \u201crebeldes\u201d que ora negociam com as pot\u00eancias ocidentais a entrega dos recursos naturais da L\u00edbia \u2013 notadamente o petr\u00f3leo e a \u00e1gua \u2013 e que continuam acreditando na exist\u00eancia de um suposto \u2013 e at\u00e9 agora desconhecido \u2013 \u201csetor anti-imperialista\u201d no interior do Conselho Nacional de Transi\u00e7\u00e3o, expressam outra vez sua simpatia pela possibilidade de uma a\u00e7\u00e3o militar estrangeira, desta vez na S\u00edria.<\/p>\n<p>A recente tentativa de aprova\u00e7\u00e3o de san\u00e7\u00f5es contra o pa\u00eds no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU, vetada por R\u00fassia e China, buscava pavimentar o caminho de uma nova interven\u00e7\u00e3o da Otan. Assim como ocorreu na L\u00edbia, as pot\u00eancias imperialistas tentam explorar a seu favor as profundas contradi\u00e7\u00f5es que enfrentam os setores populares dentro e fora da S\u00edria diante de um regime marcado pela corrup\u00e7\u00e3o e pelo autoritarismo pol\u00edtico. Para isso, contam com poderosos meios de comunica\u00e7\u00e3o \u2013 CNN, BBC, Al Jazeera, Reuters, AFP, dentre outros \u2013 que trabalham para confundir a opini\u00e3o p\u00fablica internacional, omitindo tanto a viol\u00eancia promovida por parte da oposi\u00e7\u00e3o, quanto as iniciativas tomadas no sentido de viabilizar uma solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica interna \u00e0 crise que vive o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Portanto, a estrat\u00e9gia do imperialismo na S\u00edria \u00e9 a mesma utilizada meses atr\u00e1s na L\u00edbia: estimular a dissid\u00eancia interna, controlar a oposi\u00e7\u00e3o e utilizar o justo descontentamento das massas para garantir a queda do regime e levar ao poder seus aliados. Assim, mais uma vez \u00e9 necess\u00e1rio que aqueles que defendem a democracia e a autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos manifestem-se contra a manipula\u00e7\u00e3o imperialista. Para isso, aqueles que emprestaram seu apoio \u00e0 interven\u00e7\u00e3o da Otan e aos \u201crebeldes\u201d associados ao imperialismo, devem adotar agora outra posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Antes de tudo, pelas gritantes diferen\u00e7as que existem entre L\u00edbia e S\u00edria \u2013 ainda que isto n\u00e3o sirva como justificativa para apoiar agress\u00e3o imperialista em nenhum dos casos. Essas diferen\u00e7as se manifestam por condi\u00e7\u00f5es muito particulares, que v\u00e3o desde a exist\u00eancia de uma oposi\u00e7\u00e3o progressista na S\u00edria \u2013 que recha\u00e7a fortemente a interven\u00e7\u00e3o estrangeira e reconhece o papel independente da pol\u00edtica externa do governo s\u00edrio \u2013 at\u00e9 a disposi\u00e7\u00e3o do regime de Bashar al Assad de implementar reformas econ\u00f4micas e sociais que permitam uma transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica negociada.<\/p>\n<p>O documento divulgado recentemente pelo oposicionista Partido Comunista Unificado da S\u00edria deixa claras as diferen\u00e7as daquele pa\u00eds em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 L\u00edbia. Diferente da oposi\u00e7\u00e3o a Kadaffi, composta por ex-integrantes do regime e por diferentes fac\u00e7\u00f5es tribais, as manifesta\u00e7\u00f5es de protesto que tiveram in\u00edcio em mar\u00e7o na S\u00edria contam com setores verdadeiramente comprometidos com reformas sociais e econ\u00f4micas democr\u00e1ticas. Al\u00e9m disso, o governo j\u00e1 apresentou sua disposi\u00e7\u00e3o para a reforma ou elabora\u00e7\u00e3o de uma nova constitui\u00e7\u00e3o e a cria\u00e7\u00e3o de leis a respeito da democratiza\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o e da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Como afirma o documento da oposi\u00e7\u00e3o comunista, na S\u00edria \u201co governo adotou diversas reformas sociais e democr\u00e1ticas que incluem a anula\u00e7\u00e3o das leis e tribunais de exce\u00e7\u00e3o e respeito \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es pac\u00edficas legais\u201d. No mesmo sentido, uma nova lei eleitoral e outra permitindo o estabelecimento de partidos pol\u00edticos tamb\u00e9m foram adotadas.<\/p>\n<p>Evidentemente, n\u00e3o se trata de defender o governo de Bashar al Assad, cujo partido, o Baath, est\u00e1 no poder h\u00e1 mais de quarenta anos. Apesar de seu compromisso com a causa palestina, sua relativa independ\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos interesses imperialistas na regi\u00e3o, seu car\u00e1ter profundamente laico e seu apoio ao Hezbollah, o regime s\u00edrio padece de problemas que n\u00e3o poder\u00e3o ser superados sem uma profunda ruptura com o atual modelo pol\u00edtico e econ\u00f4mico. A implementa\u00e7\u00e3o dos planos de ajuste econ\u00f4mico, a corrup\u00e7\u00e3o e o autoritarismo pol\u00edtico s\u00e3o incompat\u00edveis com a ideia de uma S\u00edria soberana e independente. Mas n\u00e3o ser\u00e3o o imperialismo, as fac\u00e7\u00f5es fundamentalistas e as elites financiadas pelas pot\u00eancias ocidentais que viabilizar\u00e3o as reformas reivindicadas pelos setores populares. Ao contr\u00e1rio, sob a batuta das for\u00e7as reacion\u00e1rias o futuro reserva viol\u00eancia, instabilidade e total aus\u00eancia de soberania.<\/p>\n<p>Aqui reside a diferen\u00e7a fundamental entre L\u00edbia e S\u00edria, para a qual devem estar atentos os que viram na agress\u00e3o imperialista da Otan a \u00fanica alternativa para a queda de Kadaffi: na S\u00edria a oposi\u00e7\u00e3o \u00e9 composta por um amplo leque de partidos, onde existem grupos conservadores financiados e armados desde o exterior, mas tamb\u00e9m, setores claramente nacionalistas e democr\u00e1ticos, como o pr\u00f3prio Partido Comunista Unificado ou o Partido Mu\u00e7ulmano, que recha\u00e7am a agress\u00e3o imperialista e lutam para garantir melhores condi\u00e7\u00f5es para a luta pol\u00edtica de massas e uma transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pac\u00edfica. A esses, devemos prestar toda a nossa solidariedade, denunciando os bandos armados e financiados pelas pot\u00eancias ocidentais, bem como as pretens\u00f5es imperialistas de interven\u00e7\u00e3o militar. Eis uma excelente oportunidade para corrigir os erros cometidos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 L\u00edbia.<\/p>\n<p><em>*<strong>Juliano Medeiros<\/strong> \u00e9 membro da Dire\u00e7\u00e3o Nacional do PSOL, da Funda\u00e7\u00e3o Lauro Campos e editor do site internacionalista Unam\u00e9rica.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: flickr\n\n\n\n\n\n\n\n\nJuliano Medeiros*\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1963\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-1963","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-vF","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1963","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1963"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1963\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1963"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1963"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1963"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}