{"id":19630,"date":"2018-05-13T19:41:49","date_gmt":"2018-05-13T22:41:49","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=19630"},"modified":"2018-05-13T19:41:49","modified_gmt":"2018-05-13T22:41:49","slug":"maio-68-a-nao-revolucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19630","title":{"rendered":"Maio 68, a n\u00e3o-revolu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.abrilabril.pt\/sites\/default\/files\/styles\/8c-362x204\/public\/assets\/img\/7254.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><strong>O impulso revolucion\u00e1rio \u00e9 desviado para o territ\u00f3rio do espet\u00e1culo. Os mitos dada\u00edstas e anarquistas na pol\u00edtica e na arte aterram, com a Internacional Situacionista, em Paris, no Maio 68.<\/strong><\/p>\n<p>Por Manuel Augusto\u00a0Ara\u00fajo<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.abrilabril.pt\/tags\/maio-de-68\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ABRIL ABRIL<\/a><\/p>\n<p>Maio 68 faz cinquenta anos. A 13 de Maio a Fran\u00e7a assistiu \u00e0 maior greve geral de sempre, que paralisou o pa\u00eds. Uma greve s\u00f3 compar\u00e1vel \u00e0 greve de 1936 e \u00e0 que antecedeu a Comuna de Paris. A maior greve geral que alguma vez aconteceu na Europa ou em qualquer parte do mundo.<\/p>\n<p>Era o culminar de lutas oper\u00e1rias que se tinham intensificado desde os princ\u00edpios dos anos 60, com lutas enquadradas, algumas desenquadradas, pelas estruturas sindicais, e das lutas estudantis desse ano.<\/p>\n<p>Estudantes e oper\u00e1rios conflu\u00edram nesse dia numa batalha contra o poder gaulista, corporizado por um general reacion\u00e1rio que at\u00e9 a\u00ed tinha a maior oposi\u00e7\u00e3o em Miterrand, um pol\u00edtico oportunista.<\/p>\n<p>Maio 68 destr\u00f3i o jogo de xadrez em que esses dois filibusteiros se enfrentavam. Destr\u00f3i o jogo, mas n\u00e3o destr\u00f3i o tabuleiro. O jogo ir\u00e1 continuar com outras manobras e, como os lances imediatos e os seguintes a curto e m\u00e9dio prazo mostraram, s\u00e3o eles que acabam por sair triunfantes.<\/p>\n<p>Triunfo no quadro pol\u00edtico e comunicacional que tamb\u00e9m \u00e9 verific\u00e1vel nos percursos dos principais intervenientes no Maio 68. Uma das ilustra\u00e7\u00f5es da imagem desse triunfo \u00e9 ler na\u00a0<em>M Magazine du Monde<\/em>\u00a0(revista do Le Monde de 6 de Janeiro) que Daniel Cohn-Bendit e Romain Goupil est\u00e3o fazendo um filme para a televis\u00e3o comemorativo dos 50 anos de Maio 68.<\/p>\n<p>Dois\u00a0<em>soixante-huitards<\/em>, dois destacados lideres estudantis, um anarquista o outro trotskista. Cohn-Bendit, que midiaticamente se tornou a cara de Maio 68, a partir da d\u00e9cada de 70 aproximou-se dos Verdes alem\u00e3es, foi eleito em 1994 deputado europeu e co-presidente do grupo parlamentar Verde no Parlamento Europeu, que abandonou em 2014 com um discurso inflamado a favor do federalismo.<\/p>\n<p>Romain Goupil \u00e9 um cineasta que rapidamente evoluiu para posi\u00e7\u00f5es da direita. Ambos foram apoiantes de Macron, esse meteorito fabricado pelos\u00a0<em>media<\/em>, um reacion\u00e1rio que se apresentou ao eleitorado acima dos partidos tradicionais afirmando o prop\u00f3sito de reformar a pol\u00edtica, uma linguagem recorrente de direita que muito seduz os chamados independentes e tamb\u00e9m muito tem seduzido algumas esquerdas.<\/p>\n<p>\u00c9 um percurso de distanciamento a quaisquer resqu\u00edcios revolucion\u00e1rios que j\u00e1 tinha sido trilhado por outros distintos dirigentes estudantis como Alain Glucksman, Bernard Henry-Levy, Guy Lardeau, Christian Jambert, Jean Paul Duli\u00e9, que formaram a corrente dos Novos Fil\u00f3sofos que desenvolveram e desenvolvem as teorias mais conservadoras, nos ant\u00edpodas do que defendiam em Maio 68.<\/p>\n<p>S\u00e3o convictamente atlantistas, violentamente cr\u00edticos da \u00ababomina\u00e7\u00e3o do colonialismo do homem branco\u00bb, defensores do capitalismo em todas as suas formas, atacam o multiculturalismo que consideram ser \u00abo racismo dos antirracistas\u00bb.<\/p>\n<p>Raros s\u00e3o os que, como Alain Krivine e Alain Cyroulnik, continuaram fi\u00e9is aos ideais trotskistas que perfilaram na juventude. \u00c9 o que significativamente\u00a0sobra da poeira de estrelas do Maio 68. N\u00e3o \u00e9 um acaso comemorar-se Maio 68 com saudosismos e manipula\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria, nem \u00e9 um acaso a involu\u00e7\u00e3o dos seus l\u00edderes se atentarmos para as teorias da Internacional Situacionista (IS), a sua base te\u00f3rica e ideol\u00f3gica, onde pontificava Guy Debord1.<\/p>\n<p>No primeiro n\u00famero da revista da IS (Junho 1958) apregoam ser preciso mudar o mundo. J\u00e1 a raz\u00e3o era \u00abpara n\u00e3o se entediar (\u2026) o t\u00e9dio \u00e9 uma realidade vulgar dos jovens enraivecidos e pouco informados e essa rebeli\u00e3o de adolescentes, instalados confortavelmente na vida, n\u00e3o tem perspectivas e est\u00e1 bem distante de ser uma causa. Os situacionistas fazem o julgamento dos tempos livres e sentenciam-nos\u00bb\u00a0considerando que \u00aba pol\u00edtica constitui uma aliena\u00e7\u00e3o compar\u00e1vel \u00e0 da arte\u00bb.<\/p>\n<p>A IS move-se num mar encapelado de contradi\u00e7\u00f5es que acabam por contaminar Maio 68. Afirmam que \u00aba IS n\u00e3o quer ter nada em comum com o poder hierarquizado, sob que forma for. A IS n\u00e3o \u00e9 portanto nem um movimento pol\u00edtico, nem uma sociologia de mistifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u00bb\u00a0para logo a seguir se designarem como contribuintes ativos para um novo movimento prolet\u00e1rio de emancipa\u00e7\u00e3o \u00abcentrado na espontaneidade das massas\u00bb\u00a0com o fim \u00abde superar os fracassos da pol\u00edtica especializada\u00bb\u00a0(&#8230;)\u00a0\u00abcom novas formas de a\u00e7\u00e3o contra a pol\u00edtica e a arte\u00bb.<\/p>\n<p>Dizem querer alterar radicalmente\u00a0\u00abo terreno tradicional da supera\u00e7\u00e3o da filosofia, da realiza\u00e7\u00e3o da arte e da aboli\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica\u00bb. S\u00e3o herdeiros de Proudhon, \u00abtodas as revolu\u00e7\u00f5es se cumpriram pela espontaneidade do povo\u00bb. Uma cren\u00e7a na espontaneidade das massas que, sobretudo depois das experi\u00eancias da Comuna de Paris, mesmo Kropotkine elogiando\u00a0\u00abesse admir\u00e1vel esp\u00edrito de organiza\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea que o povo possui em t\u00e3o alto grau\u00bb\u00a0considera n\u00e3o ser por si s\u00f3 suficiente para fazer eficazmente uma revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma confian\u00e7a desmentida pelas v\u00e1rias experi\u00eancias hist\u00f3ricas a que Lenin recorre para em\u00a0<em>Que Fazer?<\/em>2\u00a0combater as ilus\u00f5es originadas por essa convic\u00e7\u00e3o sem deixar de considerar a import\u00e2ncia das a\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas.<\/p>\n<p>Interessante s\u00e3o as recorrentes refer\u00eancias da IS \u00e0 arte, colocada em paralelo e no mesmo plano da pol\u00edtica. Interessante mas n\u00e3o inesperado. A IS deriva da Internacional Letrista (IL), fundada em 1952 por um grupo de jovens artistas de vanguarda, onde j\u00e1 se encontra Guy Debord, que em 1957 se refunda na IS,\u00a0onde se associam \u00e0 IL o Movimento para uma Bauhaus Imaginista, o grupo Cobra e a London Psychogeographical Association.<\/p>\n<p>Nas funda\u00e7\u00f5es desse edif\u00edcio te\u00f3rico est\u00e3o, entre outras, as ideias de Isidore Isou:\u00a0\u00a0\u00abA\u00a0evolu\u00e7\u00e3o social n\u00e3o \u00e9 o instinto de sobreviver mas a vontade de criar (&#8230;) a cria\u00e7\u00e3o \u00e9 a mais alta forma de atividade humana e a arte a forma mais alta de cria\u00e7\u00e3o, e a poesia a mais alta forma de arte\u00bb.<\/p>\n<p>E, sobretudo, as de Chtcheglov que\u00a0em\u00a0<em>Formul\u00e1rio para um Novo Urbanismo<\/em>declara: \u00abEstamos entediados na cidade, n\u00e3o h\u00e1 mais o Templo do Sol. Entre as pernas das mulheres que passavam, os dada\u00edstas imaginaram uma chave de macaco e os surrealistas uma ta\u00e7a de cristal. Est\u00e1 tudo perdido. Sabemos como ler todas as promessas nos rostos \u2013 o \u00faltimo est\u00e1gio da morfologia. A poesia dos\u00a0<em>outdoors<\/em>\u00a0durou vinte anos. N\u00f3s estamos entediados na cidade, n\u00f3s realmente temos que nos esfor\u00e7ar para ainda descobrir mist\u00e9rios sob os empedrados, o mais recente estado de humor e poesia\u00bb.<\/p>\n<p>\u00c9 o urbanismo ut\u00f3pico de Chtcheglov que projeta uma \u00abcapital intelectual do mundo\u00bb, uma esp\u00e9cie de Las Vegas fourierista enxertada numa Disneyl\u00e2ndia surrealista, onde a raz\u00e3o de viver se descobria vagando pelos seus bairros e jardins, os\u00a0\u00abdiversos sentimentos catalog\u00e1veis que se encontram nos acasos da vida corrente\u00bb e em que a principal atividade dos seus habitantes seria\u00a0\u00aba permanente deriva\u00bb.<\/p>\n<p>De modo obl\u00edquo, o urbanismo ut\u00f3pico de Chtcheglov, pela m\u00e3o dos situacionistas, irrompe em Maio 68. \u00abDebaixo\u00a0dos Empedrados a Praia\u00bb,\u00a0\u00abA nossa esperan\u00e7a s\u00f3 pode vir dos desesperados\u00bb; Decreto o Estado de Felicidade Permanente\u00bb;\u00a0\u00abVivam sem tempos mortos\u00bb,\u00a0\u00abA vida est\u00e1 alhures\u00bb, palavras de ordem que poderiam ter sido escritas por Chtcheglov por desejar resgatar a vida com a poesia tinha que estar na rua, como cantar\u00e1 Leo Ferr\u00e9 a celebrar Maio 68.<\/p>\n<p>Essas ideias j\u00e1 tinham sido antecipadas por Walter Mehring um dada\u00edsta que, em Berlim 1919, proclama em\u00a0<em>??? O que \u00e9 Dadayama??? \u00a0dadayma faz \/ ferver o sangue \/ e a alma do povo \/ na panela onde se fundem \/ &#8211;um pouco de corrida\u2014 um pouco \/ de assembleia nacional&#8211; \/ um pouco de Frente Vermelha \/ metade prateada \/ metade a\u00e7o \/ mais a mais-valia \/&#8212;&#8212;= a vida quotidiana<\/em>.<\/p>\n<p>S\u00e3o as minas Dada espalhadas nos campos da pol\u00edtica e da arte que ir\u00e3o rebentar na IL, um grupo de jovens artistas e intelectuais que durante meia d\u00fazia de anos se juntaram procurando nos seus divertimentos encontrar um modo de mudar o mundo.<\/p>\n<p>Se na \u00e9poca passaram quase inc\u00f3gnitos, tornaram-se conhecidos quando fecharam a IL para fundar com outros a Internacional Situacionista\u00a03.<\/p>\n<p>Ser\u00e3o os\u00a0<em>Lost Prophets<\/em>\u00a0de John Berger4,\u00a0\u00abo programa (ou anti-programa) dos situacionistas ser\u00e1 provavelmente reconhecido como uma das formula\u00e7\u00f5es puramente pol\u00edticas mais l\u00facidas destes \u00faltimos dec\u00e9nios da hist\u00f3ria, reflectindo de forma extrema a for\u00e7a do seu desespero e das suas privilegiadas fraquezas\u00bb.<\/p>\n<p>O t\u00e9dio \u00e9 para os situacionistas a patologia social. A aliena\u00e7\u00e3o e a ideologia, a hierarquia e a burocracia s\u00e3o, para eles, a estrutura do mundo. Consideram que todas as ideologias s\u00e3o uma aliena\u00e7\u00e3o por isso definem posi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o uma ideologia.<\/p>\n<p>Uma nega\u00e7\u00e3o que acaba por ser uma afirma\u00e7\u00e3o, \u00e0 semelhan\u00e7a da ideologia burguesa que se recusa com contum\u00e1cia a assumir enquanto ideologia. Fazem essas den\u00fancias, proclamando provocatoriamente que \u00abn\u00e3o h\u00e1 situacionismo\u00bb, enquanto se apresentam como revolucion\u00e1rios unicamente interessados nas liberdades.<\/p>\n<p>Liberdades que significam o direito de fazer tudo e mais alguma coisa com as consequ\u00eancias que isso implica, num turbilh\u00e3o que desconhece fronteiras. S\u00e3o princ\u00edpios devedores do dada\u00edsmo com as suas extravag\u00e2ncias, cruezas e barbarismos que tornam imposs\u00edvel a medita\u00e7\u00e3o contemplativa.<\/p>\n<blockquote><p><b>\u00abEsquecem ou n\u00e3o sabem reconhecer os dada\u00edstas que a burguesia entediada com o seu pr\u00f3prio t\u00e9dio j\u00e1 n\u00e3o se deixa assombrar nem escandalizar, tudo recupera para nada se criar e transformar.\u00bb<\/b><\/p><\/blockquote>\n<p>\u00ab\u00c0 medita\u00e7\u00e3o que se tornou, no processo de degenera\u00e7\u00e3o da burguesia, uma escola de comportamento associal, contrap\u00f5e-se a distra\u00e7\u00e3o como uma forma especial de comportamento social. De fato as manifesta\u00e7\u00f5es dada\u00edstas asseguravam uma extrema distra\u00e7\u00e3o na medida em que faziam da obra de arte o centro de um esc\u00e2ndalo. Ela tinha de satisfazer sobretudo uma exig\u00eancia muito concreta: causar indigna\u00e7\u00e3o p\u00fablica\u00bb\u00a0(Walter Benjamin)5.<\/p>\n<p>Esquecem ou n\u00e3o sabem reconhecer os dada\u00edstas que a burguesia entediada com o seu pr\u00f3prio t\u00e9dio j\u00e1 n\u00e3o se deixa assombrar nem escandalizar, tudo recupera para nada se criar e transformar.<\/p>\n<p>Os antecedentes hist\u00f3ricos dos ativistas da IS encontram-se na Alemanha que, no rescaldo da I Guerra Mundial, na Primavera e no Ver\u00e3o de 1918, est\u00e1 em profunda crise. Os movimentos populares for\u00e7am a abdica\u00e7\u00e3o do imperador Guilherme, todas as esperan\u00e7as s\u00e3o poss\u00edveis antes de serem defraudadas pelo governo social-democrata de Friedrich Ebert que recuou em todos os campos pol\u00edticos, sociais e econ\u00f4micos;\u00a0do levantamento espartaquista que lhes queria dar continuidade ser liquidado; de Karl Lieknecht e Rosa Luxemburgo serem assassinados.<\/p>\n<p>No Clube\u00a0Dada de Berlim, Grozs, Walter Mehring, Johannes Baader, John Heartfield, Raoul Hausmann sa\u00fadam entusiasticamente os tumultos,\u00a0\u00abo mundo dada\u00edsta pode ser instantaneamente realizado\u00bb. Cantam can\u00e7\u00f5es e recitam poemas incompreens\u00edveis, aclamam sobre esse barulho de fundo o espontaneismo das massas que, segundo eles, dissolve as ideologias de esquerda e de direita.<\/p>\n<p>Nesse clube renovam-se as consignas do Cabaret Voltaire de Zurique, fundado por Hugo Ball e Emmy Hennings,\u00a0em que participam Marcel Janco, Richard Huelsenbeck, Tristan Tzara, Sofia Taueber-Arp e Jean Arp, fundadores de Dada, um movimento art\u00edstico an\u00e1rquico, com objetivos art\u00edsticos e pol\u00edticos cujos ecos, flutuando com os ventos da hist\u00f3ria, continuam a fazer-se ouvir nos nossos tempos, ainda recentemente foram a adubo do movimento\u00a0<em>punk<\/em>.<\/p>\n<p>\u00abA hist\u00f3ria repete-se, a primeira vez como trag\u00e9dia e a segunda como farsa\u00bb escreveu Karl Marx no\u00a0<em>18 de Brum\u00e1rio de Louis Bonaparte<\/em>6. \u00abA hist\u00f3ria n\u00e3o se repete, mas por vezes pode rimar\u00bb,\u00a0dir\u00e1 Mark Twain que acreditava que nenhuma ocorr\u00eancia hist\u00f3rica era solit\u00e1ria, mas uma eterna repeti\u00e7\u00e3o de algo que j\u00e1 aconteceu \u00a0noutro contexto, com outra forma, espoletada por outras raz\u00f5es.<\/p>\n<p>Pensa Mark Twain e os situacionistas tamb\u00e9m o pensam pelo que, mudando o enfoque dos dada\u00edstas mas usando a mesma lente, entendem que podem e devem fazer uma transforma\u00e7\u00e3o espectacular de todas as coisas e tamb\u00e9m do seu contr\u00e1rio, usando\u00a0\u00aba coer\u00eancia revers\u00edvel do mundo moderno\u00bb.<\/p>\n<p>O impulso revolucion\u00e1rio \u00e9 desviado para o territ\u00f3rio do espet\u00e1culo, a vida social como simbolismo. Os mitos dada\u00edstas e anarquistas na pol\u00edtica e na arte aterram, com a Internacional Situacionista, em Paris, no Maio 68.<\/p>\n<p>As suas teorias, que tinham bastante curso nos meios universit\u00e1rios alem\u00e3es e franceses, expandem-se ainda mais\u00a0aceleradamente quando um grupo de estudantes da Universidade de Estrasburgo faz uma edi\u00e7\u00e3o de milhares de exemplares do panfleto da IS \u00abA Mis\u00e9ria do Meio Estudantil\u00bb,\u00a0que ter\u00e1 profunda influ\u00eancia nas correntes de esquerda, sobretudo nas anarquistas e trotskistas, em que os comunistas, rotulados de tradicionais e burocratas, eram t\u00e3o atacados como sempre o foram pelas direitas.<\/p>\n<p>Maio 68 \u00e9 a n\u00e3o-revolu\u00e7\u00e3o que marca o fim de uma \u00e9poca, inicia uma outra em que a ideia de revolu\u00e7\u00e3o se fragmenta em lutas importantes para mudan\u00e7as na evolu\u00e7\u00e3o das sociedades, mas que deixam intocadas as suas funda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Maio 68 \u00e9 o momento nuclear desse processo. Uma revolu\u00e7\u00e3o sem programa pol\u00edtico, uma revolu\u00e7\u00e3o sem revolucion\u00e1rios que faz um sobre investimento no existencial.<\/p>\n<p>Faz isso enquanto abre o caminho para processos ousados que introduzem novas formas de luta na longa luta das mulheres, na nova luta pelos direitos dos homossexuais e, de forma\u00a0embrion\u00e1ria, nas lutas ecol\u00f3gicas. Abrir\u00e1 o caminho para novas frentes, a interrup\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria da gravidez, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, etc.<\/p>\n<p>Faz isso mas tamb\u00e9m um desinvestimento em identidades institu\u00eddas, o que produz uma paisagem aleat\u00f3ria em que se interroga o significado do que \u00e9 pol\u00edtico. As frentes de luta abertas por Maio 68, que se assumem como fraturantes, mesmo quando centrais de uma altera\u00e7\u00e3o de atitude social, n\u00e3o s\u00e3o mudan\u00e7a social, nem est\u00e3o realmente empenhadas em transforma\u00e7\u00f5es sociais radicais.<\/p>\n<p>Quando proclamavam que iam mudar a sociedade logo se desmentiam com um desinteresse quase enfastiado pelas estruturas econ\u00f4micas e do Estado, embrulhado numa gritaria altissonante que mal lhe arranhava a pele. O cen\u00e1rio conhecido \u00e9 o de um afinado processo de despolitiza\u00e7\u00e3o e de desmobiliza\u00e7\u00e3o na batalha por uma real mudan\u00e7a social que amortecem e tendem a anular.<\/p>\n<p>Maio 68, recusando participar na constru\u00e7\u00e3o dos alicerces em que se fundam as revolu\u00e7\u00f5es, \u00e9 a fascinante festa bem expressa nas imaginativas palavras de ordem que excitam a criatividade e ocultam com fina casca colorida e luminescente o enorme vazio que o corro\u00eda por dentro.<\/p>\n<p>\u00abEu tinha alguma coisa a dizer, mas n\u00e3o sei mais o qu\u00ea\u00bb,\u00a0\u00e9 provavelmente a chave da \u00abImagina\u00e7\u00e3o ao Poder\u00bb. S\u00e3o palavras de ordem para todos os gostos, abrangem todas as \u00e1reas\u00a0\u00abDebaixo dos empedrados, a praia\u00bb; \u00ab\u00c9 proibido Proibir\u00bb; \u00abAbaixo o realismo socialista. Viva o surrealismo\u00bb; \u00abAmem-se uns aos outros\u00bb; \u00abA anarquia sou eu\u00bb; \u00abA arte est\u00e1 morta, libertemos a nossa vida\u00bb; \u00abCorram camaradas, o velho mundo est\u00e1 atr\u00e1s de voc\u00eas\u00bb; \u00abA cultura \u00e9 a invers\u00e3o da vida\u00bb; \u00abDez\u00a0horas de prazer j\u00e1\u00bb; \u00abA economia est\u00e1 ferida, pois que morra!\u00bb; \u00abTrabalhador: voc\u00ea tem 25 anos, mas seu sindicato \u00e9 de outro s\u00e9culo\u00bb; \u00abN\u00e3o se chateiem, chateiem os outros\u00bb; \u00abA humanidade s\u00f3 ser\u00e1 feliz quando o \u00faltimo capitalista for enforcado com as tripas do \u00faltimo esquerdista\u00bb; \u00abA liberdade do outro estende a minha ao infinito\u00bb; \u00abA arte est\u00e1 morta, n\u00e3o consumamos o seu cad\u00e1ver\u00bb;\u00abO estado \u00e9 cada um de n\u00f3s\u00bb; \u00abQuanto mais eu fa\u00e7o amor, mais tenho vontade de fazer a revolu\u00e7\u00e3o. Quanto mais fa\u00e7o a revolu\u00e7\u00e3o, mais tenho vontade de fazer amor\u00bb; \u00abOs sindicatos s\u00e3o uns bord\u00e9is\u00bb; \u00abN\u00e3o nos prendamos ao espect\u00e1culo da contesta\u00e7\u00e3o, passemos \u00e0 contesta\u00e7\u00e3o do espect\u00e1culo\u00bb; \u00abAutogest\u00e3o da vida quotidiana\u00bb; \u00abA felicidade \u00e9 uma ideia nova\u00bb; \u00abTeremos um bom mestre desde que cada um seja o seu\u00bb; \u00abA Revolu\u00e7\u00e3o tem deixar de ser, para existir\u00bb;\u00a0\u00abTudo \u00e9 Dad\u00e1\u00bb.<\/p>\n<p>S\u00e3o mais versos de um\u00a0<em>Cadavre Exquis\u00a0<\/em>surrealista do que palavras de ordem de um programa pol\u00edtico. Como o programa pol\u00edtico n\u00e3o existia ficam essas palavras, a sua carga po\u00e9tica, o seu vazio revolucion\u00e1rio em nega\u00e7\u00e3o de outra frase recuperada de Saint-Just pintada nas paredes da Sorbonne: \u00abUma Revolu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o vai at\u00e9 ao fim cava o seu t\u00famulo\u00bb.<\/p>\n<p>N\u00e3o havendo programa, por esta pequena sele\u00e7\u00e3o se v\u00ea como h\u00e1 uma ideia subjacente de desenquadramento pol\u00edtico. A t\u00f4nica centra-se no espetacular e na personaliza\u00e7\u00e3o em que \u00abos confrontos duros entre o verdadeiro e o falso, do belo e do feio, do real e da ilus\u00e3o, do sentido e do n\u00e3o sentido, esbatem-se, os antagonismos tornam-se flutuantes\u00bb\u00a0(Giles Lipovetsky)7.<\/p>\n<p>Nesse caldo de cultura, em que o hedonismo e a indiferen\u00e7a triunfam, narciso caminha para a era do vazio. Era do vazio em que se vive \u00aba tens\u00e3o lucidamente autodestrutiva da desesperada vitalidade\u00bb, como dir\u00e1 um dos seus ep\u00edgonos, aduzindo\u00a0\u00abque a atual l\u00f3gica de uma poss\u00edvel resist\u00eancia abandona as ideias modernas de racionalidade global da vida social e pessoal para a desintegrar numa unidade de minirracionalidades ao servi\u00e7o de uma inabarc\u00e1vel e incontrol\u00e1vel irracionalidade, reinventando-as de modo a que elas deixem de ser partes do todo e passem a ser totalidades em m\u00faltiplas partes\u00bb, o que logicamente encerra a resist\u00eancia a esta sociedade, em qualquer uma das formas em que se manifeste e como se manifeste, num casulo onde se debate e agoniza condenada \u00e0 dana\u00e7\u00e3o do fracasso.<\/p>\n<p>Essa\u00a0\u00abreinven\u00e7\u00e3o de minirracionalidades\u00bb acaba por ser um exerc\u00edcio de pacifica\u00e7\u00e3o do estado de s\u00edtio\u00a0\u00abda global inabarc\u00e1vel e incontrol\u00e1vel irracionalidade\u00bb, ritualizando uma suposta resist\u00eancia em artif\u00edcios de sobreviv\u00eancia em que o \u00fanico objetivo \u00e9 ser absolutamente o que se \u00e9, mesmo quando n\u00e3o se \u00e9 nada se a esse nada se consegue colar um c\u00f3digo de barras que passe nas caixas registadoras dos supermercados da pol\u00edtica, da economia, das artes.<\/p>\n<p>\u00c9 um corte epistemol\u00f3gico, o dobrar a esquina da hist\u00f3ria em que \u00aba &#8216;dissolu\u00e7\u00e3o&#8217;\u00a0da hist\u00f3ria, nos v\u00e1rios sentidos que se podem atribuir a essa express\u00e3o, \u00e9, de resto, provavelmente, a caracter\u00edstica que distingue do modo mais claro a hist\u00f3ria contempor\u00e2nea da hist\u00f3ria\u00a0&#8216;moderna&#8217;\u00bb\u00a0(Gianni Vattimo)8.<\/p>\n<p>\u00c9 o caldo da cultura do simulacro e da simula\u00e7\u00e3o, uma imagem feita de muitas imagens. Um poderoso holograma que se assume como nova realidade em que a vida \u00e9 controlada por uma estetiza\u00e7\u00e3o descontrolada.<\/p>\n<p>\u00abTudo se estetiza a si mesmo a pol\u00edtica se estetiza em espect\u00e1culo, o sexo em publicidade e pornografia, e toda a gama de atividades se transforma em algo chamado \u00abcultura\u00bb, o que \u00e9 completamente diferente de arte; esta \u00abcultura\u00bb invade todos os campos atrav\u00e9s da publicidade e da semiologiza\u00e7\u00e3o da m\u00eddia (Jean Braudillard)9.<\/p>\n<p>A contamina\u00e7\u00e3o \u00e9 viral. Perdem-se e deixam de haver pontos de refer\u00eancia. Em todos os campos desaparecem os par\u00e2metros para se fazerem ju\u00edzos de valor. Os ju\u00edzos pol\u00edticos, \u00e9ticos, est\u00e9ticos forjam-se no excesso at\u00e9 se banalizarem sem reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os situacionistas e a Internacional Situacionista, que tem em Guy Debord e Raoul Vaneigem10\u00a0os principais pensadores que organizam o seu corpo te\u00f3rico, ir\u00e1 encontrar em Maio 68 a express\u00e3o das suas teorias, preconizando o irresol\u00favel paradoxo de uma \u00absociedade revolucion\u00e1ria\u00bb incorporar as tend\u00eancias positivas do desenvolvimento capitalista deixando intocada a explora\u00e7\u00e3o desenfreada que o sustenta e sem nunca se definirem os crivos que fazem a avalia\u00e7\u00e3o das tend\u00eancias positivas.<\/p>\n<p>Para eles, a situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria seria resolvida com a organiza\u00e7\u00e3o autogestion\u00e1ria das for\u00e7as produtivas sem alterar as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o. Uma situa\u00e7\u00e3o ins\u00f3lita em que se enredam manipulando um cubo de Rubik \u00e0 procura de solu\u00e7\u00f5es, como se o fundamental n\u00e3o fosse destruir o cubo.<\/p>\n<blockquote><p><b>\u00abMaio 68 \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o sem revolu\u00e7\u00e3o nem revolucion\u00e1rios. Um tumulto de contradi\u00e7\u00f5es que tem vida curta.\u00bb<\/b><\/p><\/blockquote>\n<p>Maio 68 \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o sem revolu\u00e7\u00e3o nem revolucion\u00e1rios. Um tumulto de contradi\u00e7\u00f5es que tem vida curta. A IS nasce em 1967 e extingue-se em 1972, marcada por in\u00fameras deser\u00e7\u00f5es e expuls\u00f5es. Anselm Jappe, o \u00faltimo te\u00f3rico e estudioso do Situacionismo, na continuidade de Debord, persiste em defender o legado desse movimento que, na sua opini\u00e3o, instalou uma conspira\u00e7\u00e3o permanente contra o mundo mesmo admitindo que essa conspira\u00e7\u00e3o est\u00e1 estandardizada, foi absorvida pelo capitalismo.<\/p>\n<p>Maio 68 \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o p\u00f3s-revolucion\u00e1ria que se dissipou quase t\u00e3o rapidamente quanto havia surgido, numa sucess\u00e3o de momentos simb\u00f3licos que rapidamente se evaporaram.<\/p>\n<p>Deixou um rasto de sedutoras frases-chave, uma poeira de estrelas por onde hoje se continua a navegar. Sem ser de fato uma Revolu\u00e7\u00e3o e por at\u00e9 esvaziar o sentido de Revolu\u00e7\u00e3o, teve uma repercuss\u00e3o imensa nos tempos seguintes, apesar do seu funcionamento bipolar.<\/p>\n<p>Por um lado, desvaloriza e secundariza as lutas oper\u00e1rias e procura minar o trabalho pol\u00edtico dos partidos revolucion\u00e1rios, por outro, atira pedras \u00e0s caras\u00a0do poder que acaba por promover uma profunda altera\u00e7\u00e3o no modo de estar no mundo.<\/p>\n<p>Uma das faces dessa moeda, a mais vis\u00edvel e persistente, foi a festa que ocupou as ruas, os grafites, as discuss\u00f5es sem fim, as barricadas, as ocupa\u00e7\u00f5es selvagens, a po\u00e9tica das palavras de ordem.<\/p>\n<p>Um movimento de resist\u00eancia ao deserto urbano em que se ocultava a sua outra face: a deser\u00e7\u00e3o e a indiferen\u00e7a que sobrevoavam e continuam a sobrevoar o mundo contempor\u00e2neo. \u00c9 \u00aba revolu\u00e7\u00e3o sem finalidade, sem programa, sem v\u00edtimas nem traidores, sem enquadramento pol\u00edtico\u00bb. (Giles Lipovetsky).<\/p>\n<p>A pol\u00edtica tornou-se espet\u00e1culo. Destru\u00edram-se conven\u00e7\u00f5es r\u00edgidas substituindo-as por outras conven\u00e7\u00f5es onde se firmam o feroz individualismo, a esteticiza\u00e7\u00e3o da vida, a cultura hedonista.<\/p>\n<p>Maio 68 revelou com grande clareza um mundo tornado demasiado ligeiro, demasiado absurdo. Uma das suas palavras de ordem\u00a0\u00abCada Vez \u00e9 Nenhuma Vez\u00bb\u00a0sintetiza-o de forma transparente. Nada se repete, tudo \u00e9 meramente casual e por isso inenarr\u00e1vel.<\/p>\n<p>Os situacionistas, o n\u00facleo pol\u00edtico mais s\u00f3lido de Maio 68, teorizaram sobre a sociedade do espet\u00e1culo na pol\u00edtica e na vida, verificando \u00aba generaliza\u00e7\u00e3o da sedu\u00e7\u00e3o em que o espet\u00e1culo \u00e9 a ocupa\u00e7\u00e3o da parte principal do tempo vivido no exterior da produ\u00e7\u00e3o moderna\u00bb\u00a0(Guy Debord).<\/p>\n<p>Seduzir, introduzir o jogo das apar\u00eancias na realidade, fazer das simula\u00e7\u00f5es e dos simulacros o centro da atividade pol\u00edtica e social, temas sobre que Braudillard se debru\u00e7ou extensamente, culminam na aceita\u00e7\u00e3o da mistifica\u00e7\u00e3o e da aliena\u00e7\u00e3o enquanto normalidades no quadro da vida p\u00f3s-moderna.<\/p>\n<p>A ideologia dilui-se, os partidos transformam-se em m\u00e1quinas eleitorais a servi\u00e7o dos poderes econ\u00f4mico-financeiros dominantes que lhes d\u00e3o apoio vari\u00e1vel em linha com os benef\u00edcios que lhes s\u00e3o concedidos, desertando mesmo da ideia da democracia como territ\u00f3rio da luta de classes pac\u00edfica, preconizada pelos primeiros sociais-democratas.<\/p>\n<p>A luta por mudan\u00e7as sociais fragmenta-se em lutas por altera\u00e7\u00f5es de atitudes sociais, o que acaba por paradoxalmente desgastar a ideia de revolu\u00e7\u00e3o. Tudo acaba por aparentemente desaguar num mundo de uma sociedade de abund\u00e2ncia e consumo, a\u00a0<em>b\u00eate-noir\u00a0<\/em>que Maio 68 contesta violentamente nas ruas mas ama secretamente nas suas alcovas subterr\u00e2neas pelo que, passado o inc\u00eandio\u00a0e feito o rescaldo, muito mudou para nada mudar.<\/p>\n<p>O Pr\u00edncipe de Salinas continuava vivo e aspira \u00e0 eternidade, os seus sal\u00f5es continuam muito frequentados por esgrimistas de \u00a0floretes embotados. Alcan\u00e7ada a paz pantanosa, mesmo que seja invadida por pontuais sobressaltos, o clube dos ricos continua a prosperar, \u00e9 cada vez mais restrito e enriquece a velocidades inimagin\u00e1veis, os pobres s\u00e3o cada vez mais e est\u00e3o cada vez mais pobres, a proletariza\u00e7\u00e3o estende-se a todas as \u00e1reas da actividade produtiva mesmo que esses novos prolet\u00e1rios n\u00e3o se reconhe\u00e7am como prolet\u00e1rios.<\/p>\n<p>Um cen\u00e1rio complexo de luta e de lutas sempre amea\u00e7adas pelos labirintos em que os minotauros se multiplicam e est\u00e3o atentos para as desengatilhar.<\/p>\n<p>Em Maio 68 tornam-se mais vis\u00edveis os fios ideol\u00f3gicos porque se tece o p\u00f3s-modernismo onde a recusa de narra\u00e7\u00e3o dos fatos passa a ser assumida como recusa da realidade em si, a desconstru\u00e7\u00e3o como a destrui\u00e7\u00e3o de uma atividade pol\u00edtica, art\u00edstica, liter\u00e1ria, filos\u00f3fica, historiogr\u00e1fica ativas, o ser individual como um ser livre e semelhante aos outros, para se transitar para uma atividade pol\u00edtica, art\u00edstica, liter\u00e1ria, filos\u00f3fica e historiogr\u00e1fica enquanto experi\u00eancia de negatividades, aus\u00eancias, obsolesc\u00eancias e o ser individual ficar aprisionado por querer ser diferente, o que o torna uma figura mais adjetiva que substantiva.<\/p>\n<p>A realidade deixou de ser um sistema operativo onde se atua para a transformar, no limite revolucionar, para se assumir como um territ\u00f3rio de uma hiper-realidade onde s\u00f3 as err\u00e2ncias s\u00e3o poss\u00edveis sem dia seguinte.<\/p>\n<p>\u00abMaio 68 foi um grande teatro de rua, com a administra\u00e7\u00e3o em espectral aus\u00eancia \u00e0 espera que aquilo passasse\u00bb,\u00a0declara Alain Tanner a prop\u00f3sito do seu filme\u00a0<em>Jonas ter\u00e1 25 anos no ano 2000<\/em>, sobre as pessoas que viveram aqueles dias e que a seguir foram rejeitadas pela hist\u00f3ria por causa do seu insucesso, \u00abo que importa, mais que os acontecimentos foi esse teatro colocar em cena as esperan\u00e7as e os desejos ocultados, que continuaram a emergir \u00e0 superf\u00edcie\u00bb.<\/p>\n<p>Revisitar Maio 68 e os seus \u00a0fantasmas, vestindo-os com roupas mais em dia, \u00e9 muito \u00fatil em momentos de crise, como as que atualmente se vivem, para desarmar a ideia de revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 um acaso Guy Debord, o maior te\u00f3rico da Internacional Situacionista, o te\u00f3rico da sociedade do espet\u00e1culo, ter sido, em 2013, objeto de uma grande exposi\u00e7\u00e3o na Biblioteca Nacional de Paris, que lhe adquiriu os arquivos, classificando-os como tesouro nacional. Hoje em dia n\u00e3o h\u00e1, da direita \u00e0 esquerda, pol\u00edtico ou pensador que se preze que n\u00e3o cite Debord por tudo e por nada.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o quer dizer que o tenham lido, nem quer dizer que n\u00e3o se deva ler a sua obra com tudo o que nela se aprende, mas quer dizer que Guy Debord, como Maio 68 foram recuperados por esta sociedade que t\u00e3o radicalmente pareciam contestar e que, ironicamente, os integrou no seu circo midi\u00e1tico. Um destino que n\u00e3o lhes causar\u00e1 grandes inc\u00f4modos nem muito desagrado.<\/p>\n<p>A forma como o poder e as for\u00e7as que o suportam, estando ou n\u00e3o no seu exerc\u00edcio, olharam para Maio 68 foi clara e cinicamente expressa por Andr\u00e9 Malraux \u2013 um intelectual de esquerda que aceitou ser ministro da Cultura de De Gaulle, que no seu consulado provocou imensa indigna\u00e7\u00e3o na intelectualidade francesa quando, em 1966, proibiu a representa\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>La Religieuse<\/em>\u00a0de Diderot.<\/p>\n<p>Protestos mais violentos houve em Fevereiro de 68, quando demite Henri Langlois, um dos mentores da Nouvelle Vague, da presid\u00eancia da Cinemateca Francesa, alegando problemas de gest\u00e3o, quando o verdadeiro motivo era Langlois se ter recusado a censurar cenas do filme de Truffaut,\u00a0<em>Beijos Proibidos<\/em>\u00a0\u2013 numa entrevista ao\u00a0<em>Der Spiegel<\/em>\u00a0em Outubro de 1968: \u00abno que respeita aos estudantes divertiu-me o laivo surrealista do movimento. Mas nem por um segundo levei aquilo a s\u00e9rio (\u2026) a imagina\u00e7\u00e3o ao poder \u00e9, sem d\u00favida, um gracejo.\u00bb<\/p>\n<p>Revisitar Maio 68 \u00e9 tamb\u00e9m verificar que, mais que uma revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que nunca foi, foi uma revolu\u00e7\u00e3o cultural que provocou grandes mudan\u00e7as nas atitudes sociais.<\/p>\n<p>Maio 68 mudou o mundo sem o fazer saltar dos eixos, sem o descentrar das suas rota\u00e7\u00f5es e transla\u00e7\u00f5es que se mantiveram\u00a0\u00edntegras, apesar dos muitos epis\u00f3dios que pouco as aceleraram e muito as desaceleraram at\u00e9 aos tempos de regress\u00e3o pol\u00edtica, econ\u00f3mica e social que hoje se vivem.<\/p>\n<p>Tem um legado que persiste e \u00e9 importante, que deve ser limpo das ilus\u00f5es e das boas inten\u00e7\u00f5es que plantou, das muitas tergiversa\u00e7\u00f5es que produziu, dos bochornosos concubinatos em que se envolveu.<\/p>\n<p>Ensinou, como talvez nunca se tenha verificado com tanta clareza em s\u00e9culos de hist\u00f3ria, que o capital sabe desarmar e reduzir o impacto das lutas pol\u00edticas, que as mistifica para tirar proveitos cercando as for\u00e7as que de fato o amea\u00e7am, que nunca hesita no uso de todas as armas dos seus arsenais, dos das armas aos comunicacionais, n\u00e3o recuando das mais violentas e b\u00e1rbaras repress\u00f5es \u00e0s mais subtis e suaves persuas\u00f5es, com a despolitiza\u00e7\u00e3o na linha da frente.<\/p>\n<p>Celebre-se Maio 68 com uma palavra de ordem que nunca foi dita nem grafitada, mas foi cantada por\u00a0Leo Ferr\u00e9 em<em>\u00a0Il n\u2019y a Plus Rien<\/em>:\u00a0<em>A desordem \u00e9 a ordem sem o poder<\/em>. Talvez a melhor consigna de Maio 68 e das suas incandescentes cinzas.<\/p>\n<p>1. Debord, Guy\u00a0\u2013\u00a0A Sociedade do Espect\u00e1culo, Ant\u00edgona -Editores Refract\u00e1rios,2002;\u00a0Commentaires sur la Societ\u00e9 du Spetacle, Gallimard, 1992<br \/>\n2. L\u00e9nine \u2013\u00a0Que fazer?,\u00a0Edi\u00e7\u00f5es Avante!, 2017<br \/>\n3.\u00a0Internacional Situacionista \u2013 Antologia, Ant\u00edgona-Editores Refract\u00e1rios,1997;\u00a0Formulaire pour un Urbanisme Nouveau, Ivan Chtcheglov (pseud\u00f3nimo Gilles Ivan) in International Situacioniste n.\u00ba1, Junho 1958<br \/>\n4. Berger, John &#8211;\u00a0Lost Prophets, in Leaving the 20th Century, editado por Christopher Ray, New Society 6, Mar\u00e7o 1975<br \/>\n5. Benjamin, Walter \u2013\u00a0A Obra de Arte na \u00c9poca da sua Possibilidade de Reprodu\u00e7\u00e3o T\u00e9cnica\u00a0(3.\u00aa vers\u00e3o) in A Modernidade\/Ass\u00edrio&amp;Alvim, 2006)<br \/>\n6. Marx, Karl \u2013\u00a0O 18 de Brum\u00e1rio de Louis Bonaparte, Edi\u00e7\u00f5es Avante! 2018<br \/>\n7. Lipovetsky, Gilles \u2013\u00a0A Era do Vazio, Edi\u00e7\u00f5es 70, 1983<br \/>\n8. Vattimo, Gianni \u2013\u00a0O Fim da Modernidade, Editorial Presen\u00e7a, 1987<br \/>\n9. Braudillard, Jean \u2013\u00a0Simulacros e Simula\u00e7\u00e3o, Rel\u00f3gio d\u2019\u00c1gua, 1991<br \/>\n10. Vaneigem, Raoul \u2013\u00a0Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos do Ser Humano, Ant\u00edgona-Editores Refract\u00e1rios,2003<\/p>\n<p>Cr\u00e9ditos\/ France Culture<\/p>\n<p>https:\/\/www.abrilabril.pt\/tags\/maio-de-68<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19630\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9],"tags":[228],"class_list":["post-19630","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s10-internacional","tag-5b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-56C","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19630","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19630"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19630\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19630"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19630"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19630"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}