{"id":19677,"date":"2018-05-15T17:58:59","date_gmt":"2018-05-15T20:58:59","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=19677"},"modified":"2018-05-15T18:03:25","modified_gmt":"2018-05-15T21:03:25","slug":"marx-sobre-nossa-america","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19677","title":{"rendered":"Marx sobre Nossa Am\u00e9rica"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/boitempoeditorial.files.wordpress.com\/2017\/12\/marx-na-floresta-margem.jpg?w=620&amp;h=620\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><em>N\u00e9stor Kohan recupera o debate sobre Marx e nosso continente, 200 anos ap\u00f3s seu nascimento.<\/em><\/p>\n<p><strong>Por N\u00e9stor Kohan<\/strong><\/p>\n<p><strong>As heresias latino-americanas<\/strong><\/p>\n<p>Duzentos anos ap\u00f3s o nascimento de Karl Marx, o debate sobre sua heran\u00e7a n\u00e3o est\u00e1 resolvido na Am\u00e9rica Latina.\u00a0Isso \u00e9 inquestion\u00e1vel.\u00a0O interesse ressurgiu com \u00edmpeto nos \u00faltimos anos e, n\u00e3o por acaso, se realizaram in\u00fameros eventos internacionais tanto no Brasil e M\u00e9xico como na Bol\u00edvia e Venezuela, entre muitos outros pa\u00edses da regi\u00e3o. Neste novo aniversario apareceram, como era de se esperar, filmes, reedi\u00e7\u00f5es, f\u00f3runs de discuss\u00e3o e semin\u00e1rios.<\/p>\n<p>Quando o principal fundador da Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores (AIT) e autor de\u00a0<em>O Capital<\/em>\u00a0faleceu, Jos\u00e9 Mart\u00ed escreveu:\u00a0<em>\u201cVeja essa grande sala.\u00a0<\/em><em>Karl Mar est\u00e1 morto. Como se colocou ao lado dos fracos, merece honra\u201d<\/em>.\u00a0Assim, rendia homenagem, sem ser marxista, um dos escritores m\u00e1ximos da Am\u00e9rica Latina ao principal te\u00f3rico do comunismo e do socialismo revolucion\u00e1rio em escala mundial.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi a \u00fanica vez que o pensamento insubmisso de Nossa Am\u00e9rica se estremeceu e fundiu, de modo her\u00e9tico, com a chama libert\u00e1ria e rebelde inaugurada por Marx.<\/p>\n<p>Emiliano Zapata, principal l\u00edder campesino da revolu\u00e7\u00e3o mexicana, escreveu a um de seus companheiros, o general Jenaro Amezcua, que a revolu\u00e7\u00e3o marxista da R\u00fassia e a revolu\u00e7\u00e3o mexicana tinham os mesmos inimigos e as mesmas demandas, A carta de Zapata defendendo os bolcheviques, fervorosos admiradores de Marx, foi publicada no peri\u00f3dico\u00a0<em>El Mundo\u00a0<\/em>de Havana, em maio de 1918.<\/p>\n<p>Um m\u00eas depois do escrito de Emiliano Zapata, Deodoro Roca, o principal ide\u00f3logo da Reforma Universit\u00e1ria de C\u00f3rdoba [Argentina], iniciada em junho de 1918, cujo centen\u00e1rio se comemora este ano [2018], entrecruzou suas leituras de Marx e sua admira\u00e7\u00e3o pela revolu\u00e7\u00e3o bolchevique de Lenin com a tradi\u00e7\u00e3o cultural e anti-imperialista do modernismo liter\u00e1rio inaugurado por Jos\u00e9 Mart\u00ed e prolongado por Rub\u00e9n Dario e outros poetas e escritores latino-americanos daquele ent\u00e3o. Nesta lista, entre outros, figura Jos\u00e9 Ingenieros em sua veia modernista, alheia ao cientificismo positivista, que tamb\u00e9m impregnou parte de sua obra, a mais conhecida.<\/p>\n<p>Pouco tempo depois da Reforma Universit\u00e1ria de 1918, durante os anos 20, o peruano Jos\u00e9 Carlos Mari\u00e1tegui se animou hereticamente a recuperar o \u201ccomunismo incaico\u201d e as comunidades ind\u00edgenas de diversos povos origin\u00e1rios como antecedente obrigat\u00f3rio e inevit\u00e1vel das lutas socialistas e anti-imperialistas do futuro. O fez no plano organizativo, fundando um partido socialista aderido \u00e0 Internacional Comunista, articulando uma central trabalhadora e inaugurando peri\u00f3dicos sindicais e culturais. De todos eles, o empreendimento mais importante \u00e9, sem d\u00favida, a revista\u00a0<em>Amauta<\/em>, que amalgamou a tradi\u00e7\u00e3o estritamente marxista com as vanguardas est\u00e9ticas (como o surrealismo), a psican\u00e1lise e a perspectiva indianista. Algo similar \u2013 ainda que talvez com menos erudi\u00e7\u00e3o que o peruano \u2013 tentou realizar durante essa mesma \u00e9poca em sua Cuba natal e em seu ex\u00edlio mexicano, o jovem dirigente estudantil Julio Antonio Mella, quando defendeu a unidade insepar\u00e1vel de Marx e Mart\u00ed.<\/p>\n<p>Esses cruzamentos, empr\u00e9stimos, afinidades rec\u00edprocas, entrecruzamentos e fus\u00f5es her\u00e9ticas foram uma constante que resistiu, inclusive, os embates do marxismo mais dogm\u00e1tico \u2013 pretensamente \u201cortodoxo\u201d \u2013 da \u00e9poca de Joseph Stalin.<\/p>\n<p>Quase Trinta anos depois de Mari\u00e1tegui, Mella, Recabarren e Farabundo Mart\u00ed, desobedecendo essa pretensa ortodoxia que provinha da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica j\u00e1 stalinizada, no julgamento em que o ditador Batista fez a Fidel castro, este identificou sem titubear Jos\u00e9 Mart\u00ed como \u201co autor intelectual\u201d da tomada do quartel Moncada. Assalto ao c\u00e9u (militarmente falido) que em 1953 inicia a revolu\u00e7\u00e3o cubana e abre todo um horizonte de rebeldias latino-americanas que perduram at\u00e9 os dias de hoje. Seu amigo e companheiro, Ernesto Che Guevara, estudando com seus combatentes da Bol\u00edvia durante 1966, leu Lenin mesclado com as hist\u00f3rias e lendas de Juana Azurduy. Entre os escritos da viagem insurgente de Guevara (durante v\u00e1rias d\u00e9cadas in\u00e9ditos) se encontrou um poema de Pablo Neruda dedicado, nada menos, que a&#8230; Sim\u00f3n Bol\u00edvar.<\/p>\n<p>Sim, Bol\u00edvar, apesar de Marx t\u00ea-lo questionado em um escrito em 1858, redigido para uma enciclop\u00e9dia estadunidense por contar com fontes de duvidoso sustento e escassa fiabilidade historiogr\u00e1fica. Marx escreveu esse artigo t\u00e3o pouco feliz sobre Sim\u00f3n Bol\u00edvar porque as \u00fanicas obras que tinha em m\u00e3o no Museu Brit\u00e2nico, onde estudava Marx, invariavelmente insultavam o libertador americano. Esses livros anti-bolivarianos tinham sido escritos por ex-combatentes das legi\u00f5es estrangeiras que, participando das guerras de independ\u00eancia latino-americana, tinha pretendido dirigi-las ou, em seu defeito cobrar suculentos soldos. Bol\u00edvar se negou a ambos requerimentos, motivando o rancor, as reprova\u00e7\u00f5es e o nojo que Marx encontrou naqueles livros de \u201cmem\u00f3rias\u201d brit\u00e2nicos e franceses. Ainda assim, apesar do equ\u00edvoco que cometeu o Mestre em confiar em uma historiografia t\u00e3o parcial e de duvidosa proced\u00eancia, o Che Guevara quis amalgamar de todas as formas seu querido Marx com seu admirado Sim\u00f3n Bol\u00edvar.\u00a0N\u00e3o se equivocou.<\/p>\n<p>Como compreender, ent\u00e3o, esse iconoclasta e her\u00e9tico sincretismo latino-americano, onde o pensador judeu alem\u00e3o Karl Marx (filho e neto de rabinos de ambas partes de sua fam\u00edlia) se veste e se impregna do perfume das culturas dos povos origin\u00e1rios, das negritudes, das rebeldias prof\u00e9ticas das comunidades crist\u00e3s de base, dos campesinos sem terra e das lutas das diversas classes trabalhadoras de Nossa Am\u00e9rica? \u00c9 o marxismo parte central da cultura pol\u00edtica que mant\u00e9m aceso o fogo sagrado da rebeli\u00e3o latino-americana ou, pelo contr\u00e1rio, constitui uma \u201cideologia estrangeira\u201d&#8230; como costumavam a repetir em seus programas televisivos os ide\u00f3logos oficiais dos genocidas militares na Argentina de 1976 (alguns cujos filhos hoje ocupam lugares centrais na pol\u00edtica local)?<\/p>\n<p><strong>Nascimento da heresia: nem pl\u00e1gio nem c\u00f3pia<\/strong><\/p>\n<p>Diferente dos primeiros imigrantes europeus que em fins do s\u00e9culo XIX traduziram e divulgaram com as melhores inten\u00e7\u00f5es algumas obras de Marx e Engels, os primeiros marxistas latino-americanos utilizaram suas categorias de um modo criador. Tinha raz\u00e3o o pesquisador italiano Antonio Melis quando caracterizou Mari\u00e1tegui como \u201co primeiro marxista da Am\u00e9rica\u201d, apesar de que muito antes dele j\u00e1 tinham lido Marx por estas terras. O revolucion\u00e1rio peruano n\u00e3o s\u00f3 citou o autor de\u00a0<em>O Capital<\/em>. N\u00e3o s\u00f3 memorizou sua letra e repetiu seus slogans. Tentou apropriar-se de seu m\u00e9todo e de seu pensamento para elucidar o problema ind\u00edgena (em sua \u00f3tica, consistente na falta de terras para as classes populares e as comunidades origin\u00e1rias) e, ao mesmo tempo, resolver a quest\u00e3o nacional inacabada de um continente que nasceu com quatro vice-reinados e, depois da amarga incid\u00eancia econ\u00f4mica, pol\u00edtica, diplom\u00e1tica e militar da Inglaterra e Estados Unidos, terminou dividido e fragmentado em mais de vinte republiquetas bananeiras (ou de produ\u00e7\u00e3o de soja e extrativistas, da mesma forma). Mari\u00e1tegui, mais fiel ao esp\u00edrito da concep\u00e7\u00e3o materialista da hist\u00f3ria do autor de<em>\u00a0O Capital<\/em>\u00a0que a sua letra, abordou os problemas da revolu\u00e7\u00e3o social nossa-americana articulando a luta anticapitalista, o anti-imperialismo e o socialismo sem esquecer jamais dos novos sujeitos que desde ent\u00e3o acompanhariam as lutas oper\u00e1rias, as comunidades origin\u00e1rias, n\u00e3o s\u00f3 ancestrais e arcaicas, mas tamb\u00e9m as comunidades presentes.<\/p>\n<p>Enfrentando, ao mesmo tempo, o populismo de V\u00edctor Ra\u00fal Haya de la Torre (av\u00f4 de muitas experi\u00eancias nacionalistas e desenvolvimentistas falidas que hoje em dia seguem esperando que chegue o messias salvador e uma suposta \u201cburguesia nacional\u201d eternamente postergada) e o ent\u00e3o incipiente stalinismo de Victorio Codovilla (que pretendia, seguindo esquemas de seu mestre Stalin, entender nosso continente a partir de um suposto \u201cfeudalismo\u201d s\u00f3 v\u00e1lido nas lousas e esquemas de manual), Mari\u00e1tegui inaugura uma nova corrente pol\u00edtico-cultural: o marxismo latino-americano. Uma tradi\u00e7\u00e3o que, at\u00e9 nossos tempos, aborda a cultura latino-americana questionando os esquemas euroc\u00eantricos que tentam convencer as classes trabalhadoras e populares a apoiarem diversos empres\u00e1rios e banqueiros, e a seus economistas \u201cbruxos\u201d, possuidores de f\u00f3rmulas m\u00e1gica e esot\u00e9ricas que com um enigm\u00e1tico \u201cabracadabra\u201d terminariam, supostamente, com cinco s\u00e9culo de explora\u00e7\u00e3o, mis\u00e9ria e marginaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dentro dos fundadores, Mari\u00e1tegui \u00e9 o mais radical, original e audaz na hora de decifrar inc\u00f3gnitas que Marx n\u00e3o tinha conhecido, ainda que tenha intu\u00eddo ou come\u00e7ado a explorar, pensando na periferia do sistema capitalista mundial.\u00a0Por\u00e9m,, Mari\u00e1tegui n\u00e3o esteve s\u00f3.\u00a0Em suas pol\u00eamicas contra o populismo de Haya de la Torre, o pensador peruano esteve acompanhdo pelo jovem marxista cubano, Julio Antonio Mella. Ao brilhante bin\u00f4mio Mari\u00e1tegui-Mella poderia, talvez, agregar-se outros dois nomes: o argentino An\u00edbal Norberto Ponce e o chileno Luis Emilio Recabarren. Ainda que o cubano tenha sido o mais militante, o argentino o mais erudito e o chileno o mais organizador, nenhum se compara com a originalidade e o voo imaginativo do peruano.<\/p>\n<p>A este elenco imponente, que brilhou nos anos 20, sucedeu durante trinta anos o eco dos esquemas med\u00edocres implantados por Stalin na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, onde Marx n\u00e3o era mais que uma caricatura ou uma est\u00e1tua gigante e fria de cimento cinza.<\/p>\n<p>Somente com a emerg\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o cubana e a hegemonia de Fidel Castro e Che Guevara, o marxismo deste continente pode sacudir o p\u00f3 burocr\u00e1tico e dogm\u00e1tico das Academias de Ci\u00eancias da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. N\u00e3o \u00e9 por acaso que nos anos 60 a revolu\u00e7\u00e3o cubana recuperou o marxismo revolucion\u00e1rio da d\u00e9cada de 20 (anti-imperialista e anticapitalista ao mesmo tempo), assim como tamb\u00e9m os escritos menos transitados e divulgados de Marx. Os mesmos que hoje, em 2018, s\u00e3o reeditados e difundidos na Bol\u00edvia de Evo Morales e \u00c1lvaro Garc\u00eda Linera. Esse curioso pa\u00eds, sempre desprezado pelas elites universit\u00e1rias do continente como supostamente \u201cinculto\u201d, atualmente atrai o mais distinto e prestigiado da intelectualidade marxista continental e, nos animar\u00edamos em acrescentar, mundial. N\u00e3o \u00e9 por acaso que at\u00e9 o afamado e mundialmente consagrado ge\u00f3grafo marxista David Harvey, especialista em\u00a0<em>O Capital<\/em>\u00a0e\u00a0<em>best seller<\/em>\u00a0em escala global, tenha dedicado grande aten\u00e7\u00e3o \u00e0 experi\u00eancia comunal e origin\u00e1ria da Bol\u00edvia.<\/p>\n<p>Referimo-nos particularmente \u00e0queles artigos, cartas e manuscritos tardios, onde Karl Marx estuda o colonialismo e as sociedades perif\u00e9ricas e dependentes, revisando os restos ou incrusta\u00e7\u00f5es evolucionistas de seus primeiros ensaios e superando suas limita\u00e7\u00f5es euroc\u00eantricas dos artigos jornal\u00edsticos da juventude.<\/p>\n<p>Sobre este horizonte, que tinha inaugurado a revolu\u00e7\u00e3o cubana a partir dos anos 60, se inscrevem investiga\u00e7\u00f5es posteriores como:\u00a0<em>O marxismo na Am\u00e9rica Latina<\/em>\u00a0(1980) de Michael L\u00f6wy;\u00a0<em>Marx e Am\u00e9rica Latina\u00a0<\/em>(1980) de Jos\u00e9 Aric\u00f3;\u00a0<em>\u00a0Uma leitura latino-americana de \u00abO Capital\u00bb de Marx\u00a0<\/em>(1988) de Alberto Parisi;\u00a0\u00a0<em>O \u00faltimo Marx e a liberta\u00e7\u00e3o latino-americana<\/em>\u00a0(1990) de Enrique Dussel;\u00a0<em>De Marx ao marxismo na Am\u00e9rica Latina<\/em>\u00a0(1999) de Adolfo S\u00e1nchez V\u00e1zquez, entre muitos outros. A todos eles cabe agregar as in\u00fameras obras, centrais no marxismo latino-americano contempor\u00e2neo, de Bol\u00edvar Echeverr\u00eda (Equador-M\u00e9xico), Jorge Veraza (M\u00e9xico), \u00c1lvaro Garc\u00eda Linera (Bol\u00edvia), para o caso de Nossa Am\u00e9rica, assim como os escritos sobre Marx ou inspirados nele de Kevin Anderson (EUA), Samir Amin (Egito), Immanuel Wallerstein (EUA), sem esquecermos do populoso acervo hist\u00f3rico da teoria marxista da depend\u00eancia (Ruy Mauro Marini, Theotonio dos Santos e Vania Bambirra do Brasil, Orlando Caputo Leiva [Chile], Jaime Osorio [Chile-M\u00e9xico], Adri\u00e1n Sotelo Valencia [M\u00e9xico], etc.<\/p>\n<p><strong>O giro copernicano de Marx<\/strong><\/p>\n<p>Para al\u00e9m de seus respectivos matizes, estilos de escritura e fontes diversas, a maioria destas obras coincidem que em sua maturidade Marx revisa seus pontos de vista no que se refere ao problema do colonialismo, da explora\u00e7\u00e3o do mundo perif\u00e9rico e dos povos submetidos \u00e0 expans\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>Em seus escritos tardios (desde a segunda metade dos anos 1850 adiante), Marx chega a duas conclus\u00f5es contundentes que reexaminam e reformulam sua pr\u00f3pria teoria.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, n\u00e3o existe nem existir\u00e1 \u201cprogresso\u201d para os povos, classes e comunidades subjugadas enquanto permanecerem sob a domina\u00e7\u00e3o da bota imperial.\u00a0O \u201cprogresso\u201d n\u00e3o \u00e9 linear.\u00a0Deve ser medido tomando como crit\u00e9rio central o \u00e2ngulo e a perspectiva dos povos submetidos (n\u00e3o o desenvolvimento tecnol\u00f3gico nem o desdobramento das \u201cfor\u00e7as produtivas\u201d). A expans\u00e3o da Inglaterra n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o fez avan\u00e7ar a \u00cdndia colonial \u2013 como ingenuamente tinha esperado o jovem Marx at\u00e9 1853 \u2013, como tamb\u00e9m a fez retroceder \u201cpara tr\u00e1s\u201d.<\/p>\n<p>Em segunda inst\u00e2ncia, a hist\u00f3ria n\u00e3o segue um percurso evolutivo, ascendente e etapista. N\u00e3o existe e nunca existiu um centro \u00fanico (Europa ocidental, supostamente herdeira da antiga Roma e da Gr\u00e9cia helenista), de onde se implantariam e irradiariam, como ondas conc\u00eantricas, para toda a \u00f3rbita, passo a passo, sem saltar nenhuma, as diversas etapas do desenvolvimento hist\u00f3rico. A hist\u00f3ria mundial (tampouco \u201co esp\u00edrito da civiliza\u00e7\u00e3o\u201d) jamais segue um curso do Oriente para o Ocidente.<\/p>\n<p>Estas duas conclus\u00f5es de Marx tardio constituem um descobrimento completamente disruptivo com o eurocentrismo e o ocidentalismo modernizante (t\u00e3o caros para muitos admiradores e simpatizantes de Marx como para inimigos declarados do autor de\u00a0<em>O Capital<\/em>). Em seu conjunto, o obrigaram a repensar toda sua concep\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria mundial, da sociedade capitalista e das tarefas, modalidades e curso de desenvolvimento pol\u00edtico dos projetos futuros de emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa inesperada novidade te\u00f3rica e pol\u00edtica est\u00e1 presente, por exemplo, em\u00a0<strong>(a)<\/strong>\u00a0seus numerosos escritos cr\u00edticos sobre o colonialismo europeu,\u00a0<strong>(b<\/strong>) em suas an\u00e1lises sobre a hist\u00f3ria espanhola e o papel que os delegados americanos nas cortes de C\u00e1diz desempenharam frente \u00e0 invas\u00e3o napole\u00f4nica,\u00a0<strong>(c)<\/strong>\u00a0em seus primeiros esbo\u00e7os de<em>\u00a0O Capital\u00a0<\/em>de 1857-1858 (conhecidos como os\u00a0<em>Grundrisse<\/em>),\u00a0<strong>(d)<\/strong>\u00a0em sua defesa da independ\u00eancia da Pol\u00f4nia,\u00a0<strong>(e)<\/strong>\u00a0em seus trabalhos de den\u00fancia da domina\u00e7\u00e3o brit\u00e2nica sobre Irlanda,\u00a0<strong>(f)<\/strong>\u00a0em sua cr\u00edtica da interven\u00e7\u00e3o colonial da Inglaterra, Fran\u00e7a e Espanha no M\u00e9xico de Benito Ju\u00e1rez de 1861,\u00a0<strong>(g)<\/strong>\u00a0em sua carta de 1877 ao jornal russo<em>\u00a0Anais da p\u00e1tria<\/em>,\u00a0<strong>(h)\u00a0<\/strong>em seus apontamentos etnol\u00f3gicos, redigidos desde 1879-1880 em diante, sobre a obra do antrop\u00f3logo russo Kovalevsky (particularmente quando este fala das culturas, comunidades e civiliza\u00e7\u00f5es da Am\u00e9rica),\u00a0<strong>(i)<\/strong>\u00a0em sua correspond\u00eancia de 1881 com a revolucion\u00e1ria russa Vera Zasulich (tanto em sua carta finalmente enviada por correio postal como em seus extensos esbo\u00e7os pr\u00e9vios, nunca enviados), e em v\u00e1rios outros escritos escassamente transitados, n\u00e3o menos importantes, que n\u00e3o figuram habitualmente em suas obras \u201cescolhidas\u201d (escolhidas por quem e a partir de qual \u00e2ngulo de sele\u00e7\u00e3o?) e \u00e0s vezes nem sequer em suas obras \u201ccompletas\u201d.<\/p>\n<p><strong>Marx apologista do imp\u00e9rio?<\/strong><\/p>\n<p>Para os estudiosos s\u00e9rios constatar essa mudan\u00e7a de paradigma e giro copernicano nos escritos de maturidade j\u00e1 constitui um lugar consensual. Existe suficiente documenta\u00e7\u00e3o emp\u00edrica, materiais de arquivo e tradu\u00e7\u00f5es para o castelhano que o provam.<\/p>\n<p>No entanto, na hora de discutir Marx, se costuma passar ao largo o estudo rigoroso dos documentos que hoje est\u00e3o ao alcance de qualquer pessoa que investigue sobre estes temas. Marx continua despertando paix\u00f5es acaloradas e, muitas vezes, ataque incendi\u00e1rios. N\u00e3o \u00e9 algo negativo em si mesmo semelhante paix\u00e3o frente ao pensamento de um autor considerado \u201ccl\u00e1ssico\u201d, desde que o ardor do cora\u00e7\u00e3o e o bater da corrente sangu\u00ednea&#8230; n\u00e3o obscure\u00e7a a vida nem obrigue a tergiversar obstinadamente o sentido de uma obra. Tal \u00e9 o caso de alguns ensa\u00edstas, jornalistas, acad\u00eamicos e pol\u00edticos que, todavia hoje, ap\u00f3s 200 anos de seu nascimento, se deixam arrastar por seu arrebato pol\u00eamico, o preju\u00edzo pol\u00edtico e o tumulto de suas v\u00edsceras, negando-se sequer a ler ou ao menos reconhecer materiais que j\u00e1 est\u00e3o dispon\u00edveis para a leitura de quem tenha simplesmente vontade de empreender a tarefa.<\/p>\n<p>Por exemplo, o ensa\u00edsta Jos\u00e9 Pablo Feinmann, de grande presen\u00e7a midi\u00e1tica na Argentina, em seu livro<em>\u00a0Filosofia e Na\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0(escrito em plena euforia pol\u00edtica entre 1970 e 1975, publicado em 1982 e reeditado sem modificar uma s\u00f3 ora\u00e7\u00e3o em 1996) afirma com discut\u00edvel severidade que Marx \u00e9&#8230; \u201cum pensador do imp\u00e9rio brit\u00e2nico\u201d (sic), ou seja, um desenfreado apologista da domina\u00e7\u00e3o colonial sobre os povos submetidos. Uma l\u00f3gica argumentativa que compartilha \u2013 apesar de suas inten\u00e7\u00f5es politicamente opostas \u2013 o hoje neoliberal Juan Jos\u00e9 Sebreli, que em\u00a0<em>O ass\u00e9dio \u00e0 modernidade<\/em>\u00a0(1992) e em outros escritos e interven\u00e7\u00f5es, caracteriza Marx como um vulgar entusiasta da modernidade ocidentalista e um partid\u00e1rio ing\u00eanuo da expans\u00e3o imperial. Uma caracteriza\u00e7\u00e3o que a Sebreli servia nos anos 90 para envernizar com jarg\u00e3o \u201cfilos\u00f3fica\u201d e suposta erudi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica seu apoio \u00e0 direita argentina e \u00e0s privatiza\u00e7\u00f5es da era neoliberal menemista em nome do&#8230; \u201cavan\u00e7o das for\u00e7as produtivas\u201d e outras express\u00f5es descontextualizadas extra\u00eddas de alguns escritos de Marx.<\/p>\n<p>Esse esp\u00edrito de \u00e9poca, ferozmente marcado \u2013 desde a economia pol\u00edtica \u00e0 cr\u00edtica cultural \u2013 por uma defesa a toda prova do ocidentalismo modernizante e globalizante \u201cem nome de Marx\u201d (na realidade a contram\u00e3o do pr\u00f3prio Marx), foi caracterizado pelo escritor marxista latino-americano Agust\u00edn Cueva como uma aut\u00eantica \u201cf\u00faria anti-terceiro mundista\u201d. Assim o fez na segunda metade dos anos 80 em um de seus trabalhos incorporado a sua obra antol\u00f3gica\u00a0<em>Entre a ira e a esperan\u00e7a<\/em>, que recolhe postumamente (2008) escritos de diferentes d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Sem a paix\u00e3o militante de Feinmann, sem a ironia \u00e1cida de Sebreli, o professor Arturo Chavola, diretor do Instituto de Est\u00e9tica da Universidade de Guadalajara, publicou em 2005\u00a0<em>A imagen da Am\u00e9rica no marxismo<\/em>, sua tese originariamente defendida em Paris.<\/p>\n<p>Mais uma vez Chavola volta a insistir que Marx seria simplesmente um europeu que aplaude a domina\u00e7\u00e3o das col\u00f4nias e n\u00e3o entenderia nada dos povos oprimidos. Por\u00e9m, muita \u00e1gua correu embaixo da ponte. Ao menos este professor mexicano n\u00e3o desconhece alguns escritos tardios de Marx. S\u00f3 que em lugar de registrar a not\u00e1vel mudan\u00e7a de olhar do \u00faltimo Marx n\u00e3o v\u00ea neles mais que a confirma\u00e7\u00e3o linear dos textos juvenis. Desconhecendo a virada e a revis\u00e3o que Marx empreende a partir da cria\u00e7\u00e3o da Associa\u00e7\u00e3o Internacional dos Trabalhadores (AIT), Chavola volta, mais uma vez, a pintar um Marx iluminista, moderno, determinista, euroc\u00eantrico e apologista absoluto da burguesia europeia. Todavia, mais teimoso que seus antecessores, decreta para o fim dos tempos a suposta inutilidade do marxismo para Nossa Am\u00e9rica.<\/p>\n<p>Seja para repudi\u00e1-lo, seja para \u201cdefend\u00ea-lo\u201d, seja para manipul\u00e1-lo e for\u00e7\u00e1-lo a dizer o que cada um disponha ou necessite, segundo a ocasi\u00e3o, em todos os casos mencionados se toma como axioma auto-evidente que Marx n\u00e3o seria ingenuamente evolucionista e ilustrado. Escandalosamente se deixam de lado seus incisivos textos tardios, onde essa perspectiva resulta agudamente criticada.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que este curioso cad\u00e1ver, v\u00e1rias vezes enterrado, voltou mais uma vez a sair de sua tumba. Passam os anos e as d\u00e9cadas, desfilam seus detratores, se seguem lavrando atestados de \u00f3bito, por\u00e9m seu sorriso ir\u00f4nico n\u00e3o se apaga.<\/p>\n<p>Fonte original:\u00a0https:\/\/www.nodal.am<\/p>\n<p>Fonte:\u00a0http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2018\/05\/10\/marx-sobre-nuestra-america\/<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19677\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[8,50],"tags":[219],"class_list":["post-19677","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-c61-cultura-revolucionaria","tag-manchete"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-57n","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19677","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19677"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19677\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19677"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19677"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19677"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}