{"id":1968,"date":"2011-10-18T10:52:42","date_gmt":"2011-10-18T10:52:42","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1968"},"modified":"2011-10-18T10:52:42","modified_gmt":"2011-10-18T10:52:42","slug":"surpresas-e-duvidas-quanto-a-vida-e-a-obra-de-louis-leger-vauthier","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1968","title":{"rendered":"Surpresas e d\u00favidas quanto \u00e0 vida e a obra de Louis-L\u00e8ger Vauthier"},"content":{"rendered":"\n<p>Frank Svensson*<\/p>\n<p>(comunica\u00e7\u00e3o apresentada em col\u00f3quio realizado em Recife e posteriormente inclu\u00eddo num livro a respeito, publicado na Fran\u00e7a)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 90px;\" dir=\"ltr\"><em>Ce chapitre, sous forme de t\u00e9moignage, cherche \u00e0 faire ie rapprochement\u00a0 entre mon parcours professionnel d\u2019architecte et mon parcours personnel de militant de gauche avec celui de Louis-Leger Vauthier, ing\u00e9nieur, arcchitecte et introducteur des idees socialistes au Br\u00e9sil.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 90px;\" dir=\"ltr\"><em>Mon int\u00e9r\u00eat pour Ia vie et L&#8217;\u0153uvre de Louis-L\u00e9ger Vauthier prend sa source dans de nombreux dornaines. \u00c0 l\u2019 occasion d\u2019un s\u00e9jour long de huit ans \u00e0 Recife, je me suis rapidement int\u00e9ress\u00e9 \u00e0 la vie et \u00e0 l&#8217;\u0153uvre d\u2019architectes \u00e9trangers, ayant laiss\u00e9 leur empreinte sur cette ville. Parmi eux, Vautnier se d\u00e9tache \u00e9videmment du lot.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 90px;\" dir=\"ltr\"><em>Lors de mon s\u00e9jour de deux ans en France, durant mon long exil en Europe, impos\u00e9 par le r\u00e9gime militaire au Br\u00e9sil, j\u2019ai effectu\u00e9 dans des archives fran\u00e7aises, des recherches sur les trois principales p\u00e9riodes de Ia vie et de L&#8217;\u0153uvre de Vauthier: celle qui a pr\u00e9c\u00e9d\u00e9 sa venue au Br\u00e9sil,celle qui couvre son s\u00e9jour dans notre pays et celle post\u00e9rieure \u00e0 son retour en France. Cet article contient donc quelques informations sur deux premieres p\u00e9riodes de Ia vie de Vauthier, mes recherches en cours \u00e9tant vou\u00e9es a apporter d\u2019autres informations sur la troisi\u00e8me p\u00e9riode .<\/em><\/p>\n<p>Falar de Vauthier limitado apenas em vinte minutos \u00e9 um desafio. Para n\u00e3o repetir o que aqui j\u00e1 foi dito, resumo minha fala tornando p\u00fablicas algumas \u201csurpresas&#8221; e &#8220;d\u00favidas&#8221; surgidas ao Iongo de minha pesquisa\u00a0 sobre sua obra e sua vida. A primeira grande surpresa foi constatar o quanto Vauthier \u00e9 representativo de uma significativa transi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, da passagem da Sociedade ocidental do per\u00edodo de produ\u00e7\u00e3o artesanal para o per\u00edodo industrial. O artesanato e a artesania como que haviam atingido o ponto\u00a0 m\u00e1ximo de desenvolvimento poss\u00edvel, dando o salto para a condi\u00e7\u00e3o de ind\u00fastria.<\/p>\n<p>As estradas da Fran\u00e7a camponesa eram usadas por pedestres e carruagens de tra\u00e7\u00e3o animal. Cargas mais pesadas eram transportadas com a ajuda de cursos d\u2019\u00e1gua ligados \u00e0s estradas. Grandes batel\u00f5es os singravam, tracionados por animais a partir das estradas. Raramente com apoio de velas e ventos. O pai de Louis, Pierre Vauthier, era engenheiro polit\u00e9cnico conhecido e reconhecido como especialista em cursos d&#8217;agua. J\u00e1 como estudante da \u00c9cole Polytechnique em Paris, Louis teve seu primeiro est\u00e1gio pr\u00e1tico permitido junto ao pai, em Dordogne.<\/p>\n<p>Contempor\u00e2neo foi o surgimento da m\u00e1quina a vapor. Aplicada a transportes, fez surgir a locomotiva e os barcos a vapor. Quando de seu segundo est\u00e1gio pr\u00e1tico, Vauthier reivindicou \u00e0 dire\u00e7\u00e3o da escola a permiss\u00e3o de faz\u00ea-lo na primeira f\u00e1brica de locomotivas instalada em Paris.<\/p>\n<p>O advento do per\u00edodo industrial implicou muitas previs\u00f5es quanto \u00e0s influ\u00eancias de novo ferramental nas rela\u00e7\u00f5es sociais vigentes e na configura\u00e7\u00e3o dos lugares a elas adequados. A partir de uma cultura marcada pelo humanismo cat\u00f3lico,\u00a0 evidenciaram-se na Franca os socialistas ut\u00f3picos Charles Fourier e Claude-Henri Saint-Simon. Na \u00c8cole Politecnique, o professor Victor Considerant reanimava os princ\u00edpios fourieristas lan\u00e7ando a \u00c8cole Societaire, da qual Vauthier faria parte. Foram amigos pelo resto da vida.<\/p>\n<p>Eu gostaria de mencionar um quarto nome influente na forma\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o de mundo de Vauthier, o de August Blanqui, mais conhecido por sua posterior lideran\u00e7a na Comuna de Paris.<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o profissional de Vauthier deu-se na transi\u00e7\u00e3o das engenharias militares para as civis. Os alunos polit\u00e9cnicos conjugavam o car\u00e1ter militar ao universit\u00e1rio. Entre 1835 e 1839 participaram de v\u00e1rios movimentos insurrecionais liderados por August Blanqui, resultando em 1839 em deten\u00e7\u00f5es de estudantes polit\u00e9cnicos. Vauthier, ent\u00e3o, aceita um convite para vir trabalhar em Recife, interrompendo seu curso, seu noivado e suas pr\u00e1ticas profissionais. H\u00e1 de se perguntar se o convite para trabalhar em Recife n\u00e3o lhe foi conveniente e confort\u00e1vel.<\/p>\n<p>Vauthier inicia no Brasil uma dualidade inerente ao exerc\u00edcio profissional no per\u00edodo industrial: resolver problemas das elites com a mais desenvolta compet\u00eancia e habilidade poss\u00edvel, sem atender \u00e0s necessidades da maioria de destitu\u00eddos. Para tanto se faz necess\u00e1rio o concomitante engajamento em formas socialmente organizadas. Temos entre n\u00f3s o extremo oposto no tempo, expresso por Oscar Niemeyer, com quem trabalhei por um curto per\u00edodo e que \u00e9 frequentemente acusado de n\u00e3o propor arquitetura para pobres. Acontece saber ele que o problema da pobreza n\u00e3o se resolve \u00e0 escala individual.<\/p>\n<p>\u00c9 complexo, exige formas complexas de solu\u00e7\u00e3o, e o instrumento mais eficiente que a hist\u00f3ria nos apresentou para tanto foram os partidos obreiros. Vauthier chega ao Brasil como polit\u00e9cnico e fourierista saintsimoniano militante. \u00c9 curioso observar que, de volta \u00e0 Fran\u00e7a, n\u00e3o abandona tal posicionamento, mas o canaliza para uma longa milit\u00e2ncia como socialista republicano. Aquele pa\u00eds deixara de ser Rep\u00fablica, passando a condi\u00e7\u00e3o de monarquia representativa, enquanto em Recife se olhava de soslaio para a experi\u00eancia republicana desenvolvida nos Estados Unidos da Am\u00e9rica do Norte. Ser\u00e1 que reflex\u00f5es feitas em Recife influiriam na posterior milit\u00e2ncia na Fran\u00e7a?<\/p>\n<p>O di\u00e1rio intimo de Vauthier, publicado por Gilberto Freyre em \u201cUm Engenheiro Franc\u00eas no Brasil\u201d, constitui-se no \u00fanico livro a seu respeito. Ora, di\u00e1rio intimo \u00e9 algo que se escreve para si mesmo, em linguagem intimista. O que melhor revela o que Vauthier fez no Brasil s\u00e3o os seus minuciosos relatos de trabalho reunidos no Arquivo P\u00fabico de Pernambuco. Urge restaur\u00e1-los, em que pese o muito que j\u00e1 se perdeu por efeito de tra\u00e7as e umidade. Uma an\u00e1lise minuciosa deles resgataria a verdade hist\u00f3rica em v\u00e1rios casos. Cito somente um, o do Cemit\u00e9rio de Santo Amaro.<\/p>\n<p>Trata-se do primeiro cemit\u00e9rio laico e p\u00fablico do Brasil, sen\u00e3o de toda a Am\u00e9rica Latina. Por muitos \u00e9 tido como de autoria do Engenheiro Mamede Ferreira, em muitos projetos um sucessor de Vauthier. \u00c9 deste, no entanto, a autoria do projeto original.<\/p>\n<p>Vauthier n\u00e3o era religioso. De volta \u00e0 Fran\u00e7a, participa de uma sociedade defensora da laicidade. Publica, junto com Charles Chassin, uma revista a respeito. Preenche inclusive um formul\u00e1rio abdicando de um enterro religioso. Para Recife prop\u00f5e um cemit\u00e9rio em forma de frondoso parque em local fora do per\u00edmetro urbano, onde antes eram lan\u00e7ados cad\u00e1veres de escravos. Simples, sereno e sem simbologia religiosa. E depois Mamede Ferreira prop\u00f5e uma capela mortu\u00e1ria em estilo neog\u00f3tico, fazendo com que o original cemit\u00e9rio ganhasse a condi\u00e7\u00e3o de Campo Santo devidamente cristianizado.<\/p>\n<p>Em seu livro sobre Vauthier, Gilberto Freyre acrescentou ao \u201cdi\u00e1rio \u00edntimo\u201d um conjunto de cartas denominadas de \u201cbrasileiras&#8221;. Durante muito tempo imaginei que tivessem sido enviadas do Brasil. S\u00f3 conhecendo melhor o per\u00edodo posterior a sua volta a Fran\u00e7a \u00e9 que fui descobrir terem sido escritas em Paris.<\/p>\n<p>Vauthier foi rapidamente eleito deputado da\u00a0 Assembleia Legislativa Nacional, em 1849. Seu mandato durou pouco, pois se envolveu logo com o levante armado de julho naquele ano. Preso, foi condenado pela Alta Corte de Versalhes \u00e0 deporta\u00e7\u00e3o. Deporta\u00e7\u00e3o era um termo jur\u00eddico que n\u00e3o levava necessariamente a ausentar-se do pa\u00eds, e sim a ficar confinado em pris\u00e3o exclusiva para presos pol\u00edticos. Esteve em tr\u00eas, sucessivamente. Na \u00faltima, estava preso tamb\u00e9m Proudhon (o personagem citado por Engels em seu livro sobre a quest\u00e3o da habita\u00e7\u00e3o). Proudhon teve direito na pris\u00e3o a usar um\u00a0 escrit\u00f3rio a partir do qual dirigia seu jornal: La Voix du Peuple. Uma vez em liberdade, instou junto \u00e0 administra\u00e7\u00e3o da pris\u00e3o para que Vauthier ocupasse tal escrit\u00f3rio. Foi a partir desse que escreveu seus artigos (inclusive as chamadas \u201ccartas brasileiras&#8221;) publicadas na revista de Cesar Daly, Revue d\u00b4architecture et des Travaux Publics, bem como seu trabalho sobre o Imposto Progressivo.<\/p>\n<p>Proudhon continuou lutando pela liberta\u00e7\u00e3o de Vauthier. Consegui-la foi\u00a0 sob a condi\u00e7\u00e3o de que Vauthier deixasse a Franca. Nesse per\u00edodo ele vai trabalhar com os cursos d\u2019agua em Veneza, com a perfura\u00e7\u00e3o do t\u00fanel Simplon e com a constru\u00e7\u00e3o do grande canal de retifica\u00e7\u00e3o de rio Ebro, no trecho entre Zaragoza e Barcelona.<\/p>\n<p>Neste \u00faltimo minuto que me \u00e9 dado, e d\u00e9cimo nono, quero tornar p\u00fablico que Vauthier foi meu mestre. Ningu\u00e9m como ele me adentrou t\u00e3o intensamente no conhecimento\u00a0 do industrial da sociedade ocidental.<\/p>\n<p>Tenho dito.<\/p>\n<p>*Frank Svensson, arquiteto e professor da UNB, \u00a0\u00e9 membro da Comiss\u00e3o Pol\u00edtica Nacional do PCB<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\n\n\n\n\n(Faits et interrogations concernant la vie et l\u2019oeuvre de\u00a0 Louis-Leger Vauthier : temoignage)\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1968\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[51],"tags":[],"class_list":["post-1968","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c62-debate"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-vK","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1968","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1968"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1968\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1968"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1968"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1968"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}