{"id":19763,"date":"2018-05-25T19:34:32","date_gmt":"2018-05-25T22:34:32","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=19763"},"modified":"2018-05-25T19:34:32","modified_gmt":"2018-05-25T22:34:32","slug":"a-carroceria-sobre-as-costas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19763","title":{"rendered":"A carroceria sobre as costas"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.opovo.com.br\/noticiasimages\/app\/noticia_146418291334\/2018\/05\/24\/373227\/grevedos-caminhoneiros.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->O perfil social dos caminhoneiros<\/p>\n<p>Por Golbery Lessa*<\/p>\n<p>De acordo com o Departamento Nacional de Tr\u00e2nsito (DENATRAN), h\u00e1 2,7 milh\u00f5es de caminh\u00f5es no Brasil. Os caminhoneiros aut\u00f4nomos s\u00e3o propriet\u00e1rios de cerca de 70% desses ve\u00edculos, e os 30% restantes est\u00e3o no patrim\u00f4nio das empresas de log\u00edstica e das firmas de outros setores. Nas transportadoras trabalham 360 mil motoristas de carga (fonte: Caged) e os aut\u00f4nomos s\u00e3o 1,8 milh\u00e3o de indiv\u00edduos. Portanto, a maioria dos caminhoneiros n\u00e3o \u00e9 composta de assalariados. Esse fato aproxima em alguma medida as reivindica\u00e7\u00f5es dos aut\u00f4nomos das reivindica\u00e7\u00f5es das empresas do setor. Contudo, isso n\u00e3o significa que exista uma identidade fundamental de interesses entre os dois polos e menos ainda que os caminhoneiros sejam sempre manipulados pelos empres\u00e1rios, apesar de ambos agirem em alian\u00e7as pontuais por diversas raz\u00f5es.<\/p>\n<p>Em 2016, segundo uma pesquisa sobre as condi\u00e7\u00f5es de trabalho dos caminhoneiros contratada pela Confedera\u00e7\u00e3o Nacional da Ind\u00fastria (CNI), cada caminh\u00e3o no pa\u00eds tinha em m\u00e9dia 13,9 anos de uso: os ve\u00edculos dos aut\u00f4nomos tinham 16,9 anos e aqueles das transportadoras apenas 7,5 anos. Os primeiros s\u00e3o obrigados a usar seus ve\u00edculos para al\u00e9m do tempo m\u00e1ximo recomend\u00e1vel e isso implica piores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e menor produtividade. Entre os aut\u00f4nomos, 62% pagaram empr\u00e9stimos durante 5 anos para comprarem seu principal meio de trabalho. A renda l\u00edquida m\u00e9dia desses trabalhadores era de 4.100 mil reais, a jornada de trabalho era de 11 horas, no estilo da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial na Inglaterra, e eles possu\u00edam em m\u00e9dia 3 dependentes. A m\u00e9dia de idade era de 45,7 anos, apenas 32,6% tinham completado o ensino m\u00e9dio e s\u00f3 1,2% havia conclu\u00eddo o curso superior. Geograficamente, a frota estava concentrada nos estados de Minas, SP, Paran\u00e1 e Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>Os motoristas de carga assalariados tinham, em 2014, segundo o Caged, uma renda m\u00e9dia de 1.800 reais, mas aqueles contratados pelas transportadoras e n\u00e3o por firmas de outros setores possu\u00edam, em 2016, renda m\u00e9dia (3.800 reais) e condi\u00e7\u00f5es de trabalho parecidas com aquelas dos aut\u00f4nomos, o que se explica pelas especificidades das jornadas nas empresas especializadas em transporte. Entretanto, a proximidade do tipo de jornada e do n\u00edvel de renda dos aut\u00f4nomos e assalariados n\u00e3o elimina as profundas diferen\u00e7as objetivas entre os dois regimes laborais e as especificidades das psicologias derivadas deles. Os primeiros n\u00e3o possuem uma renda fixa e segura, como possuem os assalariados; precisam fazer um c\u00e1lculo econ\u00f4mico an\u00e1logo ao de uma pequena empresa, focado no pre\u00e7o dos insumos, no amortecimento r\u00e1pido do capital, nas taxas de juros, nos ped\u00e1gios e nos impostos. Os segundos possuem uma psicologia oper\u00e1ria, focada na manuten\u00e7\u00e3o do poder de compra do sal\u00e1rio, na solidariedade com os outros trabalhadores da mesma empresa e na conquista das melhores condi\u00e7\u00f5es laborais poss\u00edveis.<\/p>\n<p>O caminhoneiro aut\u00f4nomo \u00e9 um empres\u00e1rio sui generis, pois n\u00e3o manda em ningu\u00e9m, \u00e9 patr\u00e3o e capataz de si mesmo em benef\u00edcio de bancos e distribuidoras de combust\u00edvel. Vive sob excessiva e estressante carga de trabalho di\u00e1ria sem a alegria do conv\u00edvio familiar, situa\u00e7\u00e3o que lhe acarreta doen\u00e7as laborais e falta de tempo para se instruir e fazer exerc\u00edcios f\u00edsicos. Ele tem consci\u00eancia dos preconceitos a partir dos quais sua forma de vida \u00e9 vista pelas outras pessoas, o que provoca impacto negativo na sua autoestima. Na citada pesquisa da CNI, os caminhoneiros afirmaram saber que s\u00e3o percebidos a partir das seguintes caracter\u00edsticas: irresponsabilidade, imprud\u00eancia no tr\u00e2nsito, uso de drogas e baixa escolaridade.<\/p>\n<p>O pre\u00e7o do diesel \u00e9 decisivo para o seu equil\u00edbrio financeiro, sendo o foco de suas reivindica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas. A remunera\u00e7\u00e3o do frete tamb\u00e9m \u00e9 essencial, mas n\u00e3o oscila tanto quanto o pre\u00e7o do combust\u00edvel e depende menos do Estado. Isso explica por que esses caminhoneiros se insurgem principalmente contra os aumentos do pre\u00e7o do diesel e miram no governo e no Congresso Nacional, mesmo n\u00e3o denunciando o problema da baixa remunera\u00e7\u00e3o dos fretes.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno da terceiriza\u00e7\u00e3o de parte do processo produtivo das empresas e a metodologia do \u201cestoque zero\u201d ampliaram o papel estrat\u00e9gico do transporte rodovi\u00e1rio, aumentando o peso dos trabalhadores do setor de transporte terrestre de cargas no funcionamento da economia. Mas a dispers\u00e3o objetiva das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas nas quais est\u00e3o inseridos os aut\u00f4nomos os transforma em quase dois milh\u00f5es de &#8220;empreendedores&#8221; convivendo lado a lado, mas com dificuldade de se unificarem em um coletivo coeso por lhes faltarem a alavanca unificadora da oposi\u00e7\u00e3o a um mesmo setor patronal. Isso parece explicar a maior parte de suas dificuldades de efetiva\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es coletivas exitosas e de desenvolverem lideran\u00e7as unificadoras. Essas dificuldades de coes\u00e3o parecem estar sendo minimizadas pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o digitais port\u00e1teis, como o celular com grupos de WhatsApp e de e-mail, mas sua persist\u00eancia \u00e9 estrutural e est\u00e1 na base da influ\u00eancia das empresas transportadoras em suas mobiliza\u00e7\u00f5es, pois estas acabam funcionando como um Bonaparte influenciando as a\u00e7\u00f5es e a consci\u00eancia de uma categoria estruturalmente fragmentada, um problema que poderia ser minimizado com uma maior aproxima\u00e7\u00e3o entre os aut\u00f4nomos e os caminhoneiros assalariados, os quais t\u00eam potencialidade sociol\u00f3gica de funcionarem como vanguarda sindical e pol\u00edtica da categoria como um todo.<\/p>\n<p>*Secret\u00e1rio Nacional de Agita\u00e7\u00e3o e Propaganda de PCB<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19763\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[223],"class_list":["post-19763","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-58L","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19763","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19763"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19763\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19763"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19763"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19763"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}