{"id":1982,"date":"2011-10-21T18:48:46","date_gmt":"2011-10-21T18:48:46","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=1982"},"modified":"2011-10-21T18:48:46","modified_gmt":"2011-10-21T18:48:46","slug":"soledad-a-mulher-do-cabo-anselmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1982","title":{"rendered":"Soledad, a mulher do Cabo Anselmo"},"content":{"rendered":"\n<p>Quem foi, quem \u00e9 Soledad Barrett Viedma? Qual a sua for\u00e7a e drama, que a maioria dos brasileiros desconhece? De modo claro e curto, ela foi a mulher do Cabo Anselmo, que ele entregou a Fleury em 1973. Sem remorso e sem dor, o Cabo Anselmo a entregou gr\u00e1vida para a execu\u00e7\u00e3o. Com mais cinco militantes contra a ditadura, no que se convencionou chamar \u201cO massacre da granja S\u00e3o Bento\u201d. Esse crime contra Soledad Barrett Viedma \u00e9 o caso mais eloquente da guerra suja da ditadura no Brasil. O artigo \u00e9 de Urariano Mota.<\/p>\n<p>Urariano Mota<\/p>\n<p>Carta Maior -18\/10\/2011<\/p>\n<p>Em 1970, de volta ao Brasil, Anselmo foi preso pela ditadura militar. Em troca da liberdade, delatou perseguidos pol\u00edticos ao delegado S\u00e9rgio Paranhos Fleury, do Dops. A lista de denuciados inclu\u00eda sua namorada, Soledad Viedma, que acabou morta devido \u00e0 tortura.<\/p>\n<p>Quem l\u00ea \u201cSoledad no Recife\u201d pergunta sempre qual a natureza da minha rela\u00e7\u00e3o com Soledad Barrett Viedma, a bela guerreira que foi mulher do Cabo Anselmo. Eu sempre respondo que n\u00e3o fomos amantes, que n\u00e3o fomos namorados. Mas que a amo, de um modo apaixonado e definitivo, enquanto vida eu tiver. Ent\u00e3o os leitores voltam, at\u00e9 mesmo a editora do livro, da Boitempo: \u201cmas voc\u00ea n\u00e3o a conheceu?\u201d. E lhes digo, sim, eu a conheci, depois da sua morte. E explico, ou tento explicar.<\/p>\n<p>Quem foi, quem \u00e9 Soledad Barrett Viedma? Qual a sua for\u00e7a e drama, que a maioria dos brasileiros desconhece? De modo claro e curto, ela foi a mulher do Cabo Anselmo, que ele entregou a Fleury em 1973. Sem remorso e sem dor, o Cabo Anselmo a entregou gr\u00e1vida para a execu\u00e7\u00e3o. Com mais cinco militantes contra a ditadura, no que se convencionou chamar \u201cO massacre da granja S\u00e3o Bento\u201d. Essa execu\u00e7\u00e3o coletiva \u00e9 o ponto. No entanto, por mais eloquente, essa coisa vil n\u00e3o diz tudo. E tudo \u00e9, ou quase tudo.<\/p>\n<p>Entre os assassinados existem pessoas inimagin\u00e1veis a qualquer escritor de fic\u00e7\u00e3o. Pauline Philipe Reichstul, presa aos chutes como um c\u00e3o danado, a ponto de se urinar e sangrar em p\u00fablico, teve anos depois o irm\u00e3o, Henri Philipe, como presidente da Petrobras. Jarbas Pereira Marques, vendedor em uma livraria do Recife, arriscou e entregou a pr\u00f3pria vida para n\u00e3o sacrificar a da sua mulher, gr\u00e1vida, com o \u201cbucho pela boca\u201d. Apesar de apavorado, por saber que Fleury e Anselmo estavam \u00e0 sua procura, ele se negou a fugir, para que n\u00e3o fossem em cima da companheira, muito fr\u00e1gil, conforme ele dizia. Que escritor \u00e9pico seria capaz de espelhar tal grandeza?<\/p>\n<p>E Soledad Barrett Viedma n\u00e3o cabe em um par\u00eantese. Ela \u00e9 o centro, a pessoa que grita, o ponto de apoio de Arquimedes para esses crimes. Ainda que n\u00e3o fosse bela, de uma beleza de causar espanto vestida at\u00e9 em roupas r\u00fasticas no treinamento da guerrilha em Cuba; ainda que n\u00e3o houvesse transtornado o poeta Mario Benedetti; ainda que n\u00e3o fosse a socialista marcada a navalha aos 17 anos em Montevid\u00e9u, por se negar a gritar Viva Hitler; ainda que n\u00e3o fosse neta do escritor Rafael Barrett, um cl\u00e1ssico, fundador da literatura paraguaia; ainda assim&#8230; ainda assim o qu\u00ea?<\/p>\n<p>Soledad \u00e9 a pessoa que aponta para o espi\u00e3o Jos\u00e9 Anselmo dos Santos e lhe d\u00e1 a senten\u00e7a: \u201cAt\u00e9 o fim dos teus dias est\u00e1s condenado, canalha. Aqui e al\u00e9m deste s\u00e9culo\u201d. Porque olhem s\u00f3 como sofre um cora\u00e7\u00e3o. Para recuperar a vida de Soledad, para cantar o amor a esta combatente de quatro povos, tive que mergulhar e procurar entender a face do homem, quero dizer, a face do indiv\u00edduo que lhe desferiu o golpe da inf\u00e2mia. Tive que procurar dele a maior proximidade poss\u00edvel, estud\u00e1-lo, procurar entend\u00ea-lo, e dele posso dizer enfim: o Cabo Anselmo \u00e9 um personagem que n\u00e3o existe igual, na altura de covardia e frieza, em toda a literatura de espionagem. Isso quer dizer: ele superou os agentes duplos, capazes sempre de crimes realizados com per\u00edcia e serenidade. Mas para todos eles h\u00e1 um limite: os espi\u00f5es n\u00e3o chegam \u00e0 trai\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria carne, da mulher com quem se envolvem e do futuro filho. Se duvidam da pervers\u00e3o, acompanhem o depoimento de Al\u00edpio Freire, escritor e jornalista, ex-preso pol\u00edtico:<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 impressionante o informe do senhor Anselmo sobre aquele grupo de militantes &#8211; \u00e9 um documento que foi encontrado no Dops do Paran\u00e1. \u00c9 algo absolutamente inimagin\u00e1vel e que, de t\u00e3o diferente de todas as ignom\u00ednias que conhecemos, nos faltam palavras exatas para nos referirmos ao assunto.<\/p>\n<p>Depois de descrever e informar sobre cada um dos cinco outros camaradas que seriam assassinados, referindo-se a Soledad (sobre a qual d\u00e1 o hist\u00f3rico de fam\u00edlia, etc.), o que ele diz \u00e9 mais ou menos o seguinte:<\/p>\n<p>\u2018\u00c9 verdade que estou REALMENTE ENVOLVIDO pessoalmente com ela e, nesse caso, SE FOR POSS\u00cdVEL, gostaria que n\u00e3o fosse aplicada a solu\u00e7\u00e3o final\u2019.<\/p>\n<p>Ao longo da minha vida e desde muito cedo aprendi a metabolizar (sem perder a ternura, jamais) as trag\u00e9dias. Mas fiquei durante umas tr\u00eas semanas acordando \u00e0 noite, pensando e tentando entender esse abismo, essa voragem\u201d.<\/p>\n<p>Esse crime contra Soledad Barrett Viedma \u00e9 o caso mais eloquente da guerra suja da ditadura no Brasil. Voc\u00eas entendem agora por que o livro \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o que todo o mundo l\u00ea como uma relato apaixonado. N\u00e3o seria poss\u00edvel recriar Soledad de outra maneira. No t\u00edtulo, l\u00e1 em cima, escrevi Soledad, a mulher do Cabo Anselmo. Melhor seria ter escrito, Soledad, a mulher de todos os jovens brasileiros. Ou Soledad, a mulher que apredemos a amar.<\/p>\n<p><em>(*) Urariano Mota, 59 anos, \u00e9 natural de \u00c1gua Fria, sub\u00farbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opini\u00e3o, Escrita, Fic\u00e7\u00e3o e outros peri\u00f3dicos de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura. Atualmente, \u00e9 colunista do Direto da Reda\u00e7\u00e3o e colaborador do Observat\u00f3rio da Imprensa. As revistas Carta Capital, F\u00f3rum e Continente tamb\u00e9m j\u00e1 veicularam seus textos. Autor de Os cora\u00e7\u00f5es futuristas (Recife, Baga\u00e7o, 1997), um romance de forma\u00e7\u00e3o, que se passa sob a ditadura de Em\u00edlio Garrastazu M\u00e9dici (1969\u20131974), e de Soledad no Recife (S\u00e3o Paulo, Boitempo, 2009).<\/em><\/p>\n<p>Fonte:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=18721\">http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=18721<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Cartamaior\n\n\n\n\n\n\n\n\nCarta Maior -18\/10\/2011\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/1982\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[53],"tags":[],"class_list":["post-1982","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c64-ditadura"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-vY","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1982","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1982"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1982\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1982"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1982"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1982"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}