{"id":19883,"date":"2018-06-05T15:51:41","date_gmt":"2018-06-05T18:51:41","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=19883"},"modified":"2018-06-05T15:51:41","modified_gmt":"2018-06-05T18:51:41","slug":"a-psicologia-de-massas-do-fascismo-ontem-e-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19883","title":{"rendered":"A psicologia de massas do fascismo ontem e hoje"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/cgn.inf.br\/upload\/noticias\/1727572018052718.jpg?w=747&#038;ssl=1\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><b>Por que as massas caminham sob a dire\u00e7\u00e3o de seus\u00a0algozes?<\/b><\/p>\n<p><b>Mauro Iasi revisita as teses de Wilhelm Reich sobre a psicologia de massas do fascismo para compreender os impasses pol\u00edticos do presente.<\/b><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/06\/04\/a-psicologia-de-massas-do-fascismo-ontem-e-hoje-por-que-as-massas-caminham-sob-a-direcao-de-seus-algozes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">BLOG DA BOITEMPO<\/a><\/p>\n<p><b><em>Por\u00a0Mauro Luis Iasi.<\/em><\/b><\/p>\n<blockquote><p><em>\u201co fascismo, na sua forma mais pura, \u00e9 o somat\u00f3rio<br \/>\nde todas as rea\u00e7\u00f5es irracionais do car\u00e1ter do homem m\u00e9dio\u201d<br \/>\nW. Reich<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cqueriam que eu falasse do agora<br \/>\nmas, o presente que procuro<br \/>\nest\u00e1 preso em um passado<br \/>\nque insiste em ser futuro\u201d<br \/>\nM. Iasi<br \/>\n<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>O psic\u00f3logo marxista Wilhelm Reich (1897-1957) escreveu o livro\u00a0<em>Psicologia de massas do fascismo\u00a0<\/em>em 1933 (o estudo se estendeu de 1930 at\u00e9 1933), no contexto da ascens\u00e3o do nazismo na Alemanha. O autor se refugiou em Viena, depois Copenhagen e Oslo, onde iniciou seus estudos sobre as coura\u00e7as e depois do que denominou de \u201cenergia vital\u201d, levando-o a teoria do \u201c<em>orgon<\/em>\u201d. Desde 1926 acumulava diverg\u00eancias com Freud, com o qual trabalhou como assistente cl\u00ednico e, em 1934, seria expulso da Sociedade Freudiana e da Associa\u00e7\u00e3o Psicanal\u00edtica Internacional, sairia da Noruega em dire\u00e7\u00e3o aos EUA, onde seria tamb\u00e9m perseguido com a acusa\u00e7\u00e3o de \u201csubvers\u00e3o\u201d. Acabou preso em 1957 e morreu no mesmo ano na pris\u00e3o. Toda sua obra, incluindo livros e material de pesquisa, foram queimados por ordem judicial nos EUA em 1960.<\/p>\n<p>Ainda que possamos questionar as teorias reichianas fundadas na teoria do \u201c<em>orgon<\/em>\u201d e a rela\u00e7\u00e3o que esperava estabelecer entre \u201csoma e psiquismo\u201d, temos que ter muito cuidado ao tratar as considera\u00e7\u00f5es que esse importante autor tece sobre o fascismo e o car\u00e1ter das massas analisados na obra citada. Em v\u00e1rios aspectos, considero que as reflex\u00f5es de Reich sobre o tema podem ser extremamente \u00fateis em nossos tumultuados dias, principalmente pelas quest\u00f5es que levanta, mais do que pelas respostas que encontra.<\/p>\n<p>O autor coloca da seguinte maneira o problema. Se assumirmos que a compreens\u00e3o da sociedade realizada por Marx esteja correta \u2013 isto \u00e9, que o desenvolvimento da sociedade capitalista e suas contradi\u00e7\u00f5es leva \u00e0 possibilidade de sua supera\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria (o que implica a conforma\u00e7\u00e3o do proletariado como um sujeito consciente de sua tarefa hist\u00f3rica) \u2013, a quest\u00e3o que se coloca \u00e9 como compreender o comportamento pol\u00edtico de amplos setores da classe trabalhadora que efetivamente est\u00e3o servindo de base para a rea\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que emergia com o fascismo.<\/p>\n<p>Chamar aten\u00e7\u00e3o aos efeitos da explora\u00e7\u00e3o capitalista, como a mis\u00e9ria, a fome e o conjunto das injusti\u00e7as pr\u00f3prias do sistema capitalista para ativar o \u201c\u00edmpeto revolucion\u00e1rio\u201d, dizia Reich, j\u00e1 n\u00e3o era suficiente. Tampouco acusar o comportamento conservador das massas de \u201cirracional\u201d, de constituir uma \u201cpsicose de massas\u201d ou uma \u201chisteria coletiva\u201d \u2013 algo que em nada contribui para jogar luz sobre a raiz do problema, a saber, compreender a raz\u00e3o pela qual a classe trabalhadora respaldava o discurso fascista que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, atacava exatamente seus pr\u00f3prios interesses.<\/p>\n<p>Na base dessa incompreens\u00e3o se encontrava um sentimento de espanto. Os marxistas acreditavam que a crise econ\u00f4mica de 1923-1933 era de tal forma brutal que produziria \u201cnecessariamente uma orienta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica de esquerda nas massas por ela atingidas\u201d. Entretanto, o que se presenciou foi, nas palavras do autor, uma \u201cclivagem entre a base econ\u00f4mica, que pendeu para a esquerda, e a ideologia de largas camadas da sociedade, que pendeu para a direita\u201d. O autor conclui com a constata\u00e7\u00e3o de que a \u201csitua\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a situa\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica das massas n\u00e3o coincidem necessariamente\u201d. (Wilhelm Reich,\u00a0<em>Psicologia de massas do fascismo,\u00a0<\/em>S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 7).<\/p>\n<p>Nesse ponto, Reich afirmar\u00e1 que \u2013 e a observa\u00e7\u00e3o dele aqui me parece profundamente pertinente hoje \u2013 essa n\u00e3o correspond\u00eancia n\u00e3o deveria surpreender aos marxistas, uma vez que o materialismo dial\u00e9tico de Marx n\u00e3o compreende a rela\u00e7\u00e3o entre a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a consci\u00eancia de classe como sendo algo mec\u00e2nico, ou seja, como se a situa\u00e7\u00e3o material determinasse esquematicamente sua express\u00e3o ideal na consci\u00eancia dos membros de uma classe social. Somente um \u201cmarxismo vulgar\u201d concebe uma ant\u00edtese na rela\u00e7\u00e3o entre economia e ideologia, assim como entre a \u201cestrutura\u201d e a \u201csuperestrutura\u201d, uma perspectiva prec\u00e1ria que n\u00e3o leva em conta o chamado \u201cefeito de volta\u201d da ideologia, isto \u00e9, as formas pelas quais a ideologia incide sobre a pr\u00f3pria base material que a determina. Presa a essa vis\u00e3o esquem\u00e1tica e pouco dial\u00e9tica, resta a essa modalidade de marxismo vulgar apenas recorrer ao chamamento moral para que os trabalhadores correspondam em sua a\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es objetivas em que se inserem, clamando pela \u201cconsci\u00eancia revolucion\u00e1ria\u201d, \u00e0s \u201cnecessidades das massas\u201d ou ao \u201cimpulso natural\u201d para as greves e a luta (p. 14). Melancolicamente, Reich conclui ent\u00e3o que essa vers\u00e3o esquem\u00e1tica do marxismo:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cTentar\u00e1, por exemplo, explicar uma situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica com base na \u2018psicose hitleriana\u2019 ou tentar\u00e1 consolar as massas, persuadindo-as a n\u00e3o perder a f\u00e9 no marxismo, assegurando-lhes que, apesar de tudo, o processo avan\u00e7a, que a revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser esmagada, etc. O marxista comum acaba por descer ao ponto de incutir no povo uma coragem ilus\u00f3ria, sem, no entanto, analisar objetivamente a situa\u00e7\u00e3o em sem compreender sequer o que se passou.\u00a0<em>Jamais compreender\u00e1 que uma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil nunca \u00e9 desesperadora para a rea\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou que uma grave crise econ\u00f4mica tanto pode conduzir \u00e0 barb\u00e1rie como a liberdade social<\/em>. Em vez de deixar seus pensamentos e atos partirem da realidade, ele transporta essa realidade para a sua fantasia de modo que ela corresponda aos seus desejos.\u201d (pp. 14-5)<\/p><\/blockquote>\n<p>A mis\u00e9ria econ\u00f4mica causada pela crise atualiza a disjuntiva \u201csocialismo ou barb\u00e1rie\u201d, mas o que faria com que os trabalhadores optem pela alternativa socialista? Reich est\u00e1 convencido de que em uma situa\u00e7\u00e3o como essas os trabalhadores escolhem em primeiro lugar a barb\u00e1rie. O marxismo vulgar compreende a ideologia como um conjunto de ideias que se imp\u00f5e \u00e0 sociedade e, portanto, aos trabalhadores. Dessa maneira, os partid\u00e1rios desse tipo de perspectiva acreditam que as ideais marxistas ganham for\u00e7a na crise porque desmentem na pr\u00e1tica as ideias conservadoras. O que foge \u00e0 compreens\u00e3o dessa an\u00e1lise \u00e9 exatamente o modo de opera\u00e7\u00e3o da ideologia, muito mais do que a defini\u00e7\u00e3o escol\u00e1stica do \u201cque \u00e9\u201d ideologia.<\/p>\n<p>Assim, o psic\u00f3logo comunista far\u00e1 a pergunta decisiva: se uma ideologia se transforma em for\u00e7a material quando se apodera das massas, como afirmava Marx, a pergunta \u00e9 \u201ccomo \u00e9 poss\u00edvel que um fator ideol\u00f3gico produza resultado material\u201d, seja na dire\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica revolucion\u00e1ria ou na dire\u00e7\u00e3o de uma \u201cpsicologia de massas reacion\u00e1ria\u201d? (p. 17)<\/p>\n<p>Se compreendermos a ideologia na chave de ideias dominantes em uma sociedade \u2013 isto \u00e9, as ideias das classes dominantes que expressam as rela\u00e7\u00f5es sociais que fazem de uma classe a classe dominante (Marx e Engels,\u00a0<em>A ideologia alem\u00e3<\/em>, Boitempo, p. 47) \u2013, a pergunta se formula da seguinte maneira: como \u00e9 que rela\u00e7\u00f5es sociais se convertem em express\u00f5es ideais, valores, ju\u00edzos e representa\u00e7\u00f5es interiorizadas pelas pessoas que constituem uma determinada sociedade? A resposta \u00e9 que isto se d\u00e1 na viv\u00eancia de institui\u00e7\u00f5es no interior das quais as pessoas formam seu pr\u00f3prio psiquismo, neste caso, fundamentalmente, na fam\u00edlia.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que as rela\u00e7\u00f5es sociais dadas s\u00e3o apresentadas pela pessoa em forma\u00e7\u00e3o como \u201crealidade\u201d, onde se desenvolve a transi\u00e7\u00e3o do \u201cprinc\u00edpio do prazer\u201d para o \u201cprinc\u00edpio da realidade\u201d e se produz um complexo processo de identifica\u00e7\u00e3o com aquele que representa o limite, a ordem e a norma social a ser imposta, mas, o que \u00e9 essencial ao nosso tema, que \u00e9 incorporada pela pessoa como se fosse sua (autocontrole) e n\u00e3o uma imposi\u00e7\u00e3o oriunda de uma ordem social. O fundamento desse processo de interioriza\u00e7\u00e3o, na forma\u00e7\u00e3o daquilo que Freud denominou de \u201csuperego\u201d, est\u00e1 a repress\u00e3o \u00e0 sexualidade infantil, o seu recalque e a volta como sintoma nos termos de Reich (<em>Materialismo Dial\u00e9tico e Psican\u00e1lise<\/em>. Lisboa: Presen\u00e7a\/S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1977).<\/p>\n<p>\u00c9 mister lembrar neste momento que o resultado desse processo de interioriza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais na forma de valores e normas de comportamento implica na identidade com o agende da imposi\u00e7\u00e3o das normas externas, no caso do complexo de \u00c9dipo descrito por Freud na forma\u00e7\u00e3o de uma identidade com o pai.<\/p>\n<p>Dessa maneira, Reich localizar\u00e1 a base de uma determinada express\u00e3o de uma psicologia de massas (a do fascismo) em dois pilares: uma certa forma de fam\u00edlia tendo no centro a repress\u00e3o \u00e0 sexualidade infantil; e o car\u00e1ter da \u201cclasse m\u00e9dia baixa\u201d. Para ele, a repress\u00e3o \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades materiais difere da repress\u00e3o aos impulsos sexuais pelo fato que a primeira leva \u00e0 revolta enquanto a segunda impede a rebeli\u00e3o, uma vez que o retira do dom\u00ednio consciente \u201cfixando-o como defesa moral\u201d, fazendo com que o pr\u00f3prio recalque do impulso seja inconsciente, seja visto pela pessoa como uma caracter\u00edstica de seu car\u00e1ter. O resultado disso, segundo Reich, \u201c\u00e9 o conservadorismo, o medo a liberdade, em resumo, a mentalidade reacion\u00e1ria\u201d (<em>Psicologia de Massas do Fascismo<\/em>, p. 29).<\/p>\n<p>Os setores m\u00e9dios n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos a viverem esse processo (que \u00e9 de fato universal para nossa sociedade) mas o vivem de maneira singular. Trata-se de uma classe ou segmento de classe espremido entre o antagonismo das classes fundamentais da sociabilidade burguesa (a burguesia e o proletariado), desenvolvendo o curioso senso de que est\u00e3o acima das classes e representam a na\u00e7\u00e3o. Seus impulsos jogam os setores m\u00e9dios ora para a radicalidade prolet\u00e1ria (a luta contra as barreiras da realidade que se levantam contra os impulsos), ora para o apelo \u00e0 ordem da rea\u00e7\u00e3o burguesa (a defesa das barreiras sociais impostas como garantia da sobreviv\u00eancia). Como o indiv\u00edduo teme seus impulsos e clama por controle, os segmentos m\u00e9dios temem a quebra da ordem na qual se equilibram precariamente e pedem controle e repress\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 acidente ou casualidade que, no campo dos valores reacion\u00e1rios, vejamos alinhados \u00e0 defesa abstrata da \u201cna\u00e7\u00e3o\u201d caracter\u00edsticas como o \u201cmoralismo\u201d quanto aos costumes (que vem inseparavelmente ligado a preconceitos, a homofobia, etc.) e a defesa da \u201cfam\u00edlia\u201d, assim como o chamado \u201cirracionalismo\u201d, a \u201cviol\u00eancia\u201d, o mito da xenofobia e do racismo como constituintes da na\u00e7\u00e3o, e o clamor pela \u201cordem\u201d. A recente cena dantesca de \u201cmanifestantes\u201d enrolados na bandeira do Brasil, de joelhos e m\u00e3os na cabe\u00e7a, pedindo uma interven\u00e7\u00e3o militar \u00e9 a imagem que condensa todos esses elementos. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, essa n\u00e3o \u00e9 uma sociedade \u201cdoente\u201d, mas a sociedade \u201cnormal\u201d exposta sem os filtros que rotineiramente a oculta.<\/p>\n<p>Os argumentos de Reich est\u00e3o longe de dar conta da totalidade do fen\u00f4meno do fascismo. Ainda que justificada, sua cr\u00edtica aos marxistas oficiais (em 1931 Reich criou a Sexpol Verlag que aglutina mais de 40 mil membros discutindo uma pol\u00edtica sexual e suas rela\u00e7\u00f5es com a luta revolucion\u00e1ria, o que causou preocupa\u00e7\u00f5es no Partido Comunista austr\u00edaco e redundou na sua expuls\u00e3o do partido em 1933) n\u00e3o pode dar conta de todos os elementos hist\u00f3ricos, pol\u00edticos, sociais e culturais do tema que foram abordados em in\u00fameras obras de competentes marxistas (de Gramsci a Adorno e Benjamin, passando por Togliatti, Polantzas e tantos outros). Ele apenas aponta para um aspecto que normalmente \u00e9 desconsiderado. O que nos parece pertinente \u00e9 que o comportamento fascista n\u00e3o pode ser reduzido a manipula\u00e7\u00e3o e engodo, mas encontra profunda ra\u00edzes na consci\u00eancia imediata das massas e seus fundamentos afetivos, seja nos segmentos m\u00e9dios, seja na classe trabalhadora.<\/p>\n<p>O fascismo \u00e9, na sua ess\u00eancia, uma express\u00e3o pol\u00edtica da crise do capitalismo em sua fase imperialista e na etapa do dom\u00ednio dos monop\u00f3lios, como define Leandro Konder (<em>Introdu\u00e7\u00e3o ao fascismo<\/em>, S\u00e3o Paulo, Express\u00e3o Popular, 2009). Ele disfar\u00e7a sob uma m\u00e1scara modernizadora seu conte\u00fado conservador, sendo antiliberal, antissocialista, antioper\u00e1rio e, principalmente, antidemocr\u00e1tico. A dificuldade do fascismo reside exatamente em juntar esses dois aspectos contr\u00e1rios em sua s\u00edntese \u2013 isto \u00e9, uma intencionalidade a servi\u00e7o do grande capital (imperialista, monopolista e financeiro) e uma base de massas que permita apresentar seu programa reacion\u00e1rio como alternativa para a \u201cna\u00e7\u00e3o\u201d. Creio que o estudo de Reich nos d\u00e1 aqui uma pista valiosa. A ideologia fascista conclama \u00e0 revolta dos impulsos reprimidos (seja das necessidades materiais, seja aqueles relativos \u00e0 repress\u00e3o da sexualidade) e depois oferece a ordem como alternativa, dialogando assim diretamente com o fundamental da estrutura do car\u00e1ter universalizado pela sociabilidade burguesa, principalmente das chamadas classes m\u00e9dias. \u00c9, portanto, uma pol\u00edtica da pequena burguesia que mobiliza massas trabalhadoras para defender os interesses do grande capital monopolista. Acreditem, realizou-se esta fa\u00e7anha com efici\u00eancia e sucesso naquilo que conhecemos por nazifascismo.<\/p>\n<p>Na luta contra o fascismo, a burguesia democr\u00e1tica \u00e9 sempre a primeira derrotada e junto a ela a pequena burguesia que acredita no seu pr\u00f3prio mito de um Estado acima dos interesses de classe. A \u00fanica for\u00e7a social capaz de enfrentar o fascismo \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria; por isso s\u00e3o os trabalhadores o alvo duplo do fascismo, seja no sentido da coopta\u00e7\u00e3o, seja na repress\u00e3o brutal e direta. Quando a luta de classes se acirra e qualquer concilia\u00e7\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel, a burguesia se inquieta, os segmentos m\u00e9dios entram em p\u00e2nico e os fascistas vendem seu rem\u00e9dio amargo para a doen\u00e7a que ajudaram a criar. Se nesse momento os trabalhadores se movimentarem com autonomia em dire\u00e7\u00e3o ao seu projeto societ\u00e1rio \u2013 o socialismo \u2013, impelidos inicialmente pelos impulsos mais elementares e ainda n\u00e3o conscientes, eles podem colocar toda a sociedade em torno de sua luta e se constituir como alternativa \u00e0 barb\u00e1rie do capitalismo em crise. Se, por raz\u00f5es v\u00e1rias, esse segmento n\u00e3o se movimentar com a for\u00e7a necess\u00e1ria, uma longa noite de terror se imp\u00f5e com seus cad\u00e1veres e cortejos f\u00fanebres.<\/p>\n<p>Ainda que tenham particularidades em seu processo de consci\u00eancia, os trabalhadores n\u00e3o podem escapar ao fato de que s\u00e3o socializados nas institui\u00e7\u00f5es de uma ordem burguesa, portanto, que os valores, princ\u00edpios, representa\u00e7\u00f5es ideais desta ordem constituam o fundamento de sua consci\u00eancia imediata. Diante do caos que emerge da crise do capital vive uma contradi\u00e7\u00e3o entre os impulsos materiais que os impulsionam \u00e0 luta e \u00e0 identidade com os opressores que os mant\u00eam presos \u00e0s correntes da ideologia. Na aus\u00eancia de uma pol\u00edtica revolucion\u00e1ria se somam \u00e0s \u201cclasses m\u00e9dias\u201d conclamando pela ordem e se prestam a ser a base de massas para as aventuras fascistas.<\/p>\n<p>Toda a esperan\u00e7a da psican\u00e1lise \u00e9 tornar poss\u00edvel que o inconsciente emerja, em parte, para que seja compreendido o sintoma. Guardadas as media\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, a luta de classes torna poss\u00edvel que as determina\u00e7\u00f5es ocultas pelos mecanismos da ordem se fa\u00e7am vis\u00edveis e que o sintoma se torne exposto. No primeiro assim como no segundo caso isto n\u00e3o significa a resolu\u00e7\u00e3o do sintoma, mas o in\u00edcio de uma longa luta para enfrent\u00e1-lo. O novo que pulsa vigoroso nas entranhas do cad\u00e1ver moribundo do velho mundo, n\u00e3o pode ser detido a n\u00e3o ser pela viol\u00eancia. N\u00e3o pode se libertar sem quebrar violentamente a ordem que o aprisiona.<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cVeintiuno veintiuno<br \/>\nfirmamento del dos mil<br \/>\nen el cielo la paloma<br \/>\nva en la mira del fusil\u201d<br \/>\n<\/em>Silvio Rodriguez<\/p><\/blockquote>\n<hr \/>\n<p><strong>Mauro Iasi\u00a0<\/strong>\u00e9 professor adjunto da Escola de Servi\u00e7o Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (N\u00facleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comit\u00ea Central do PCB. \u00c9 autor do livro\u00a0<em>O dilema de Hamlet: o ser e o n\u00e3o ser da consci\u00eancia<\/em>\u00a0(Boitempo, 2002) e colabora com os livros\u00a0<em>Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifesta\u00e7\u00f5es que tomaram as ruas do Brasil<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Gy\u00f6rgy Luk\u00e1cs e a emancipa\u00e7\u00e3o humana<\/em>\u00a0(Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o\u00a0<strong>Blog da Boitempo\u00a0<\/strong>mensalmente, \u00e0s quartas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2018\/06\/04\/a-psicologia-de-massas-do-fascismo-ontem-e-hoje-por-que-as-massas-caminham-sob-a-direcao-de-seus-algozes\/\">A psicologia de massas do fascismo ontem e hoje: por que as massas caminham sob a dire\u00e7\u00e3o de seus&nbsp;algozes?<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19883\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7],"tags":[222],"class_list":["post-19883","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-s8-brasil","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5aH","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19883","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19883"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19883\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19883"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19883"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19883"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}