{"id":19920,"date":"2018-06-09T03:13:00","date_gmt":"2018-06-09T06:13:00","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=19920"},"modified":"2018-06-09T03:13:00","modified_gmt":"2018-06-09T06:13:00","slug":"estamos-caminhando-para-voltar-ao-mapa-da-fome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19920","title":{"rendered":"Estamos caminhando para voltar ao Mapa da Fome"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/images\/ihu\/2018\/06\/08_06_fome_foto_feed_my_starving_children_flickr_cc.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/579737-estamos-caminhando-com-muita-indignidade-pra-voltar-ao-mapa-da-fome\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">IHU<\/a><\/p>\n<p>Em entrevista ao portal\u00a0EPSJV\/Fiocruz,\u00a0realizada durante o\u00a04\u00ba Encontro Nacional de Agroecologia, a antrop\u00f3loga\u00a0Maria Emilia Pacheco, da secretaria executiva da\u00a0Articula\u00e7\u00e3o Nacional de Agroecologia (ANA)\u00a0e do\u00a0F\u00f3rum Brasileiro de Soberania e Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional\u00a0, fala sobre a import\u00e2ncia do encontro para a constru\u00e7\u00e3o da resist\u00eancia aos retrocessos que t\u00eam amea\u00e7ado a agricultura familiar e as pol\u00edticas p\u00fablicas de apoio \u00e0 agroecologia. Ela tamb\u00e9m discute o papel da agroecologia para a garantia do direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o previsto na\u00a0Constitui\u00e7\u00e3o,\u00a0que completa 30 anos em 2018.<\/p>\n<p>A\u00a0antrop\u00f3loga\u00a0Maria Emilia Pacheco\u00a0concedeu entrevista \u00e0\u00a0Andr\u00e9 Antunes,\u00a0publicada por\u00a0EPSJV\/Fiocruz, 06-06-2018.<\/p>\n<p><strong>Eis a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>O 4\u00ba ENA acontece no ano em que se completa 30 anos da Constitui\u00e7\u00e3o. O que ela diz sobre o direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>A\u00a0Constitui\u00e7\u00e3o\u00a0em\u00a01988\u00a0n\u00e3o tinha ainda o direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o como um dos seus direitos sociais. Essa foi a conquista de uma mobiliza\u00e7\u00e3o que ocorreu mais tarde, em 2010, quando o\u00a0direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o\u00a0foi inclu\u00eddo no artigo\u00a06\u00ba pela Emenda Constitucional 64. Isso parece algo muito curioso, porque falar de alimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 falar da vida, e talvez exatamente por isso os parlamentares na \u00e9poca acharam que n\u00e3o era necess\u00e1rio incluir. Mas estar inscrito l\u00e1 tem um significado simb\u00f3lico, um significado pol\u00edtico profundo. Foi nesse processo de mobiliza\u00e7\u00e3o que se deu ap\u00f3s a Constitui\u00e7\u00e3o, e sobretudo a partir dos anos\u00a02000,\u00a0que fomos construindo uma vis\u00e3o sobre soberania alimentar, sobre\u00a0seguran\u00e7a alimentar\u00a0e nutricional que resultou em uma\u00a0Pol\u00edtica Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional.<\/p>\n<p><strong>A agroecologia apareceu como nessa discuss\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>O debate da pol\u00edtica n\u00e3o trazia propriamente a tradu\u00e7\u00e3o da palavra agroecologia, mas fala em uma de suas diretrizes de produ\u00e7\u00e3o em bases sustent\u00e1veis, fala da defesa de direitos e do direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es tradicionais. Isso \u00e9 muito significativo porque esse movimento pela soberania alimentar e pela seguran\u00e7a alimentar e nutricional ajudou a impulsionar tamb\u00e9m o debate que vinha sendo feito na Articula\u00e7\u00e3o Nacional de Agroecologia para chegarmos a uma\u00a0Pol\u00edtica Nacional de Agroecologia e Produ\u00e7\u00e3o Org\u00e2nica\u00a0[aprovada em 2012]. A compreens\u00e3o articulada dessas duas pol\u00edticas \u00e9 fundamental. A agroecologia tem como um de seus objetivos exatamente a transforma\u00e7\u00e3o dos sistemas alimentares, uma alimenta\u00e7\u00e3o de qualidade que respeite as culturas alimentares. Isso \u00e9 parte tamb\u00e9m do nosso debate da pol\u00edtica de seguran\u00e7a alimentar e nutricional.<\/p>\n<p><strong>Como vem se efetivando o direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o tivemos conquistas estruturantes no Brasil. Nunca tivemos efetivamente uma\u00a0democratiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 terra, n\u00e3o temos historicamente uma\u00a0garantia dos direitos territoriais. N\u00e3o rompemos no Brasil com uma vis\u00e3o desenvolvimentista, que s\u00f3 instrumentaliza um\u00a0Estado agroexportador\u00a0e de\u00a0explora\u00e7\u00e3o dos bens da natureza. Mas o processo de desconstru\u00e7\u00e3o, de viola\u00e7\u00e3o de direitos e de desmonte das pol\u00edticas \u00e9 muito grave e muito acelerado nesse momento.<\/p>\n<p><strong>Quais os principais aspectos desse desmonte que voc\u00ea destacaria como obst\u00e1culos \u00e0 obten\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>O primeiro deles \u00e9 o\u00a0PL do veneno\u00a0[PL 6299\/02], essa arquitetura feita com o apoio da bancada ruralista e seguramente com lobby das grandes corpora\u00e7\u00f5es, com o apoio da\u00a0Embrapa.\u00a0Mas \u00e9 muito importante dizer da posi\u00e7\u00e3o extremamente importante da\u00a0Fiocruz,\u00a0do\u00a0Instituto Nacional do C\u00e2ncer, entre outras. Talvez essa seja uma das lutas que mais agregue diferentes atores hoje no Brasil. Temos segmentos do Minist\u00e9rio P\u00fablico, agora a\u00a0SBPC\u00a0[Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ci\u00eancia] se aproximou. \u00c9 uma das quest\u00f5es que afeta profundamente o nosso direito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o, porque quando n\u00f3s falamos do direito humano a alimenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ter o que comer, \u00e9 ter um alimento de qualidade. O alt\u00edssimo \u00edndice de polui\u00e7\u00e3o do solo, das \u00e1guas, dos alimentos, nos coloca muito distantes da perspectiva de soberania alimentar. \u00c9 um verdadeiro desmonte que est\u00e3o propondo em rela\u00e7\u00e3o a uma legisla\u00e7\u00e3o de agrot\u00f3xico que vem de 1989. Tamb\u00e9m querem\u00a0tirar o s\u00edmbolo &#8220;T&#8221; de transg\u00eanico\u00a0dos alimentos. S\u00e3o quest\u00f5es extremamente graves, e est\u00e3o em debate nesse momento.<\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m quero dizer que as mudan\u00e7as que est\u00e3o ocorrendo na legisla\u00e7\u00e3o ambiental e fundi\u00e1ria \u00e9 grav\u00edssima. O arcabou\u00e7o legal que est\u00e1 sendo modificado significa colocar para o mercado uma quantidade significativa de terra p\u00fablica, em raz\u00e3o da mudan\u00e7a da legisla\u00e7\u00e3o sobre a venda de terras para estrangeiro, e agora mais recentemente, da lei que est\u00e1 sendo chamada de\u00a0Lei da Grilagem, a 13.465\/17, que pode provocar uma desestrutura\u00e7\u00e3o dos assentamentos da reforma agr\u00e1ria, que foi o m\u00ednimo que n\u00f3s conseguimos no longo tempo da nossa hist\u00f3ria. Quero insistir nisso: o Brasil nunca fez uma verdadeira reforma agr\u00e1ria. Os Estados Unidos editaram uma lei que favorecia que os ex-escravos tivessem acesso \u00e0 terra. Aqui foi o contr\u00e1rio. A\u00a0Lei de Terras\u00a0de 1850\u00a0cerceou o direito \u00e0 terra aos ex-escravos, que s\u00f3 poderiam acess\u00e1-la pela compra. Como \u00e9 que iriam ter essa terra? Nesse momento h\u00e1 um agu\u00e7amento desse antagonismo. \u00c9 outra nega\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o brasileira, que fala da fun\u00e7\u00e3o social da propriedade, sob v\u00e1rios pontos de vista, ambiental, da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista&#8230; E \u00e9 isso tudo que est\u00e1 sendo desconstru\u00eddo.<\/p>\n<p>Sem contar que h\u00e1 hoje no Congresso a\u00a0Proposta de Emenda Constitucional [PEC] 215, que retira o dever do Executivo de titular as terras dos povos ind\u00edgenas e transfere para o Congresso. Imagina o que vai acontecer! Outra quest\u00e3o associada a esse arcabou\u00e7o \u00e9 a lei que regulamenta o dom\u00ednio da terra para as comunidades quilombolas. Isso est\u00e1 ainda em quest\u00e3o porque a\u00a0PEC 215\u00a0tamb\u00e9m se refere a comunidades quilombolas, mas houve uma vit\u00f3ria parcial recentemente no Supremo Tribunal Federal, onde havia uma proposta de A\u00e7\u00e3o Direita de Inconstitucionalidade em rela\u00e7\u00e3o a essa lei e o\u00a0STF\u00a0julgou a a\u00e7\u00e3o improcedente.<\/p>\n<p>E, finalmente, temos do ponto de vista da soberania alimentar uma disputa muito grande sobre o que \u00e9 a qualidade do alimento. Cada vez h\u00e1 mais evid\u00eancias de que o consumo crescente dos produtos aliment\u00edcios ultra processados tem gerado as doen\u00e7as cr\u00f4nicas n\u00e3o-transmiss\u00edveis, o aumento da obesidade no pa\u00eds, o sobrepeso. Isso tamb\u00e9m tem rela\u00e7\u00e3o com a soberania alimentar porque ao mesmo tempo em que os camponeses t\u00eam dificuldade de provar que seus alimentos s\u00e3o de qualidade, por estarem submetidos \u00e0s normas de vigil\u00e2ncia sanit\u00e1ria do passado tamb\u00e9m, que s\u00f3 recentemente come\u00e7ou a mudar, h\u00e1 uma press\u00e3o enorme da ind\u00fastria aliment\u00edcia de n\u00e3o querer aceitar a rotulagem nutricional nessa perspectiva que analisa a nutri\u00e7\u00e3o do ponto de vista do impacto para a sa\u00fade. H\u00e1 uma proposta de uma rotulagem frontal, nos moldes do fumo, de advert\u00eancia sobre os riscos \u00e0 sa\u00fade dos\u00a0alimentos ultraprocessados, e h\u00e1 uma press\u00e3o das corpora\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o de alimentos, contra.<\/p>\n<p><strong>No final do ano passado a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura fez um alerta sobre o risco de o pa\u00eds voltar ao Mapa da Fome da ONU. De que forma essa conjuntura de retrocessos \u00e9 determinante para esse cen\u00e1rio?<\/strong><\/p>\n<p>Isso \u00e9 grav\u00edssimo. N\u00f3s tivemos um momento hist\u00f3rico no pa\u00eds extremamente importante que foi fruto de uma conjuga\u00e7\u00e3o de fatores: a valoriza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo, o aumento da taxa de ocupa\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m os programas que foram constru\u00eddos, como o\u00a0Bolsa Fam\u00edlia, o\u00a0Programa Nacional de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar, o\u00a0Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos, o programa\u00a0Um Milh\u00e3o de Cisternas. Essas iniciativas tiveram uma import\u00e2ncia fundamental nesse contexto que nos levou a sair do Mapa da Fome. E est\u00e3o todas amea\u00e7adas. A<strong>\u00a0<\/strong><b>Emenda Constitucional 95<\/b>, que limita o gastos p\u00fablicos por 20 anos, \u00e9 uma medida antipovo. N\u00e3o tem similar nos pa\u00edses que est\u00e3o passando por ajustes fiscais. Isso tem um impacto enorme. Isso sem contar a desestrutura\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista que tivemos, a redu\u00e7\u00e3o de cerca de um milh\u00e3o de fam\u00edlias que tinham acesso ao\u00a0Bolsa Fam\u00edlia.\u00a0O\u00a0Programa de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar\u00a0continua, embora estejamos longe ainda de dizer que todo pa\u00eds est\u00e1 comprando 30% da agricultura familiar camponesa.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que n\u00f3s estamos caminhando com muita indignidade pra voltar ao\u00a0Mapa\u00a0da\u00a0Fome. O que \u00e9 grave, porque a fome no Brasil convive com a desnutri\u00e7\u00e3o e at\u00e9 com a obesidade. Ent\u00e3o n\u00f3s temos um quadro extremamente complexo que precisa ser enfrentado. N\u00f3s precisamos levantar como na\u00e7\u00e3o, pra n\u00e3o permitir que a fome volte ao pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Gostaria que voc\u00ea falasse sobre essa crise no abastecimento dos combust\u00edveis e o risco de inseguran\u00e7a alimentar que ela gerou, com o descarte de alimentos que estragaram por n\u00e3o terem sido entregues, desabastecimento e infla\u00e7\u00e3o nos pre\u00e7os. O que ela evidencia sobre a insustentabilidade desse modelo de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de alimentos e o que isso coloca como espa\u00e7o para agroecologia se apresentar como alternativa?<\/strong><\/p>\n<p>O\u00a0ENA\u00a0est\u00e1 sendo realizado exatamente no momento, ao meu ver, em que se tornam mais vis\u00edveis essas contradi\u00e7\u00f5es. N\u00f3s nos indagamos se era poss\u00edvel, se cabia manter o ENA nesse contexto, e chegamos \u00e0 conclus\u00e3o que sim. Ficou bem claro como n\u00f3s somos uma\u00a0economia dependente dos insumos f\u00f3sseis. Na\u00a0agroecologia\u00a0n\u00f3s defendemos exatamente um outro paradigma de rela\u00e7\u00e3o com a natureza. E por isso que a agroecologia tem todas as condi\u00e7\u00f5es de ganhar mais visibilidade nesse momento. Temos certeza que conseguimos responder que uma produ\u00e7\u00e3o em bases agroecol\u00f3gicas, \u00e9 capaz sim de alimentar o mundo. Porque o mundo continua sendo alimentado pelos camponeses e camponesas. \u00c9 preciso dizer isso de forma muito clara. E o desabastecimento tamb\u00e9m precisa ser mais bem analisado. N\u00f3s tivemos algumas not\u00edcias de que no interior, onde h\u00e1 os chamados circuito de proximidade, entre a produ\u00e7\u00e3o da agricultura familiar e os lugares de abastecimento, n\u00e3o tem esse desabastecimento. O Brasil continua se regendo por essa pol\u00edtica\u00a0agroexportadora\u00a0e o\u00a0agroneg\u00f3cio\u00a0continua insistindo que isso \u00e9 fundamental para alimentar a popula\u00e7\u00e3o. N\u00f3s temos que reverter isso. Esse momento da nossa hist\u00f3ria ao meu ver contribui pra reverter, porque eu acredito que tem uma repolitiza\u00e7\u00e3o de algumas quest\u00f5es, tem um chamamento para n\u00f3s para dizer que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel o pa\u00eds continuar com o passeio dos alimentos.<\/p>\n<p>N\u00f3s n\u00e3o temos no\u00a0Brasil\u00a0s\u00f3 uma concentra\u00e7\u00e3o de terra; tamb\u00e9m temos uma especializa\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o, que \u00e9 grave. O arroz foi produzido no Maranh\u00e3o at\u00e9 a d\u00e9cada de 1980. Hoje est\u00e1 mais concentrado no Sul do Brasil. E isso \u00e9 uma amea\u00e7a para a\u00a0soberania alimentar. N\u00f3s precisamos ter a garantia de mais variedades das esp\u00e9cies, uma descentraliza\u00e7\u00e3o dos alimentos. Esse desabastecimento chama aten\u00e7\u00e3o pra isso. Ent\u00e3o, acho que esse momento indica tamb\u00e9m uma aten\u00e7\u00e3o que n\u00f3s precisamos ter com os v\u00e1rios segmentos da classe trabalhadora, com suas heterogeneidades nas suas formas de organiza\u00e7\u00e3o, de luta. Ter essa capacidade de escuta, de perceber onde est\u00e1 a manifesta\u00e7\u00e3o de insatisfa\u00e7\u00e3o do povo, \u00e9 fundamental.<\/p>\n<p><strong>Como entende o papel do movimento agroecol\u00f3gico nesse processo?<\/strong><\/p>\n<p>O lema do\u00a04\u00ba ENA\u00a0fala de\u00a0democracia, porque ela est\u00e1 em quest\u00e3o no Brasil. N\u00e3o podemos dizer que estamos vivendo um momento pleno de democracia. \u00c9 verdade que a democracia \u00e9 permeada de contradi\u00e7\u00f5es, mas nesse momento, principalmente ap\u00f3s o golpe, n\u00f3s vivemos uma situa\u00e7\u00e3o muito grave de viola\u00e7\u00e3o de direitos, desmonte de pol\u00edticas e ascens\u00e3o de contravalores. Por isso que \u00e9 no\u00a0ENA\u00a0tamb\u00e9m queremos acentuar valores.\u00a0Agroecologia\u00a0significa impulsionar outro sistema agroalimentar, outra maneira de produzir e de consumir, por isso que essa rela\u00e7\u00e3o com a seguran\u00e7a alimentar e nutricional \u00e9 essencial, mas queremos chamar aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m para a mudan\u00e7a das rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>Por isso que defendemos valores como da\u00a0emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres, somos contra o\u00a0racismo. N\u00f3s temos in\u00fameros exemplos de racismo institucional nas pol\u00edticas, quando n\u00e3o incorporam o direito a igualdade do ponto de vista racial. Precisamos nos posicionar tamb\u00e9m contra o\u00a0etnoc\u00eddio.\u00a0Os\u00a0povos ind\u00edgenas\u00a0est\u00e3o sendo dizimados no Brasil. \u00c9 preciso entender que os povos ind\u00edgenas, as comunidades quilombolas, as comunidades tradicionais n\u00e3o representam um passado; representam o presente e o futuro, porque se n\u00f3s temos uma enorme\u00a0agrobiodiversidade\u00a0no pa\u00eds, diversidade enorme de esp\u00e9cies, de variedades de sementes, \u00e9 porque temos uma hist\u00f3ria. Quem domesticava e continua domesticando os bens da natureza e transformando em novos alimentos s\u00e3o essas popula\u00e7\u00f5es, que chamam nossa aten\u00e7\u00e3o para uma outra perspectiva. N\u00f3s temos que conhecer melhor como s\u00e3o os modos de vida dessas popula\u00e7\u00f5es e respeit\u00e1-los.<\/p>\n<p>A\u00a0Constitui\u00e7\u00e3o\u00a0brasileira chama aten\u00e7\u00e3o que n\u00f3s estamos em um pa\u00eds poli\u00e9tnico. Nesse momento isso est\u00e1 em quest\u00e3o ao meu ver. Assim como outros artigos da\u00a0Constitui\u00e7\u00e3o\u00a0brasileira, como o\u00a0artigo 225, que fala do\u00a0meio ambiente como um bem de uso comum. O que estamos vendo \u00e9 um processo devastador de privatiza\u00e7\u00e3o da natureza. Cl\u00e1usulas p\u00e9treas da\u00a0Constitui\u00e7\u00e3o\u00a0brasileira est\u00e3o sendo desrespeitadas e isso \u00e9 um atentado \u00e0 democracia. Com o\u00a0Encontro Nacional de Agroecologia\u00a0n\u00f3s queremos recolocar, politizar essas quest\u00f5es e entender um outro\u00a0projeto de na\u00e7\u00e3o\u00a0precisa dialogar com os valores e princ\u00edpios que a agroecologia prop\u00f5e. A agroecologia n\u00e3o \u00e9 uma resposta apenas do ponto de vista tecnol\u00f3gico, que nos fala como devemos produzir para garantir um alimento saud\u00e1vel. A agroecologia tamb\u00e9m chama aten\u00e7\u00e3o para nosso\u00a0sociobiodiversidade:\u00a0todas essas identidades que comp\u00f5e o povo brasileiro. Chama aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m para rompermos com o\u00a0machismo, o patriarcado, o racismo. \u00c9 uma verdadeira plataforma que por isso mesmo traz uma pujan\u00e7a de di\u00e1logo com outras redes e outras plataformas. Construir uma unidade maior em outros movimentos \u00e9 essencial nesse momento.<\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/579737-estamos-caminhando-com-muita-indignidade-pra-voltar-ao-mapa-da-fome<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19920\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[227],"class_list":["post-19920","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo","tag-5a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5bi","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19920","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19920"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19920\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19920"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19920"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19920"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}