{"id":19997,"date":"2018-06-14T18:04:50","date_gmt":"2018-06-14T21:04:50","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=19997"},"modified":"2018-06-22T23:17:40","modified_gmt":"2018-06-23T02:17:40","slug":"sangue-no-campo-mas-a-resistencia-segue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19997","title":{"rendered":"Sangue no campo, mas a resist\u00eancia segue"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ihu.unisinos.br\/\/images\/ihu\/2018\/06\/13_06_2018-luta_midia_ninja_flickr.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/579851-sangue-no-campo-mas-a-resistencia-segue\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">IHU-UNISINOS<\/a><\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 duro ver tantas vidas ceifadas e tanto sangue derramado na\u00a0luta pela terra, mas somente tendo a coragem de olhar nos olhos dos\/as crucificados\/as no altar do \u00eddolo mercado adquirimos a luz e a for\u00e7a necess\u00e1ria para construirmos domingos de ressurrei\u00e7\u00e3o com terra para quem nela trabalha, terra partilhada e socializada&#8221;, escreve\u00a0frei\u00a0Gilvander Moreira, padre da Ordem dos carmelitas,\u00a0professor de \u201cDireitos Humanos e Movimentos Populares\u201d em curso de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o do\u00a0IDH, em\u00a0Belo Horizonte\u00a0(MG),\u00a0 e assessor da\u00a0Comiss\u00e3o Pastoral da Terra\u00a0\u2013\u00a0CPT\u00a0-, do Centro Ecum\u00eanico de Estudos B\u00edblicos \u2013\u00a0CEBI\u00a0-, do Servi\u00e7o de Anima\u00e7\u00e3o B\u00edblica &#8211;\u00a0SAB\u00a0&#8211; e da\u00a0Via Campesina\u00a0em\u00a0Minas Gerais.<\/p>\n<p>Eis o artigo.<\/p>\n<p>No\u00a0Brasil, a expropria\u00e7\u00e3o da terra dos camponeses pelo\u00a0capitalismo\u00a0e pelos capitalistas que se apossam da terra para obter renda e fortalecer a acumula\u00e7\u00e3o de capital tem historicamente gerado assassinatos e\u00a0massacres, mas tamb\u00e9m resist\u00eancia. Na contram\u00e3o do discurso naturalizador do\u00a0latif\u00fandio\u00a0e do\u00a0agroneg\u00f3cio, inspirando-se tamb\u00e9m na experi\u00eancia da\u00a0Diocese de Goi\u00e1s, de compromisso com o campesinato, desde 26 de novembro de 1967 \u2013 data em que\u00a0Dom Tom\u00e1s Baldu\u00edno\u00a0se tornou bispo -, atuando a partir de pesquisa participante e divulgando Boletins peri\u00f3dicos que revelavam a situa\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica dos camponeses da regi\u00e3o, lideran\u00e7as da igreja de\u00a0Goi\u00e1s, sob a coordena\u00e7\u00e3o do bispo\u00a0Dom Tom\u00e1s Baldu\u00edno\u00a0\u2013 de saudosa mem\u00f3ria -, por 31 anos (de 1967 a 2014), propunham a\u00e7\u00f5es concretas de luta em defesa dos direitos dos camponeses. A partir de centenas de agentes de pastorais que est\u00e3o espalhados em quase todo o territ\u00f3rio nacional, a\u00a0Comiss\u00e3o Pastoral da Terra\u00a0(CPT) publica anualmente, desde 1985, o livro\u00a0Conflitos no Campo Brasil, que \u00e9 um diagn\u00f3stico refinado da viol\u00eancia perpetrada contra o campesinato no Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Segundo dados da\u00a0CPT, em 32 anos, de 1985 a 2017, foram assassinados na\u00a0luta pela terra\u00a0no\u00a0Brasil\u00a01488 pessoas, uma m\u00e9dia de 49,6 por ano. Em 2017, foram assassinados 71 camponeses, o maior n\u00famero desde 2003, quando se computaram 73 v\u00edtimas e um total de 1639 conflitos. Igual a um assassinato a cada 22 conflitos. Mas o lado mais macabro dos assassinatos em 2017 s\u00e3o os\u00a0massacres. O ano de 2017 ficar\u00e1 marcado na hist\u00f3ria pelos\u00a0Massacres no Campo. Cinco\u00a0massacres\u00a0com 31 v\u00edtimas. 44% do total de\u00a0assassinatos em conflitos no campo. No primeiro semestre de 2017, em pouco mais de um m\u00eas, ocorreram tr\u00eas\u00a0massacres\u00a0com 22 mortos: o de\u00a0Colniza, no\u00a0Mato Grosso, dia 19 de abril, com 9 posseiros assassinados por quatro pistoleiros, contratados por um empres\u00e1rio madeireiro; o de\u00a0Vilhena, em\u00a0Rond\u00f4nia, dia 29 de abril, com 3 camponeses mortos, e o de\u00a0Pau D\u2019Arco, no\u00a0Par\u00e1, dia 24 de maio, com 10\u00a0Sem Terra\u00a0mortos pela pol\u00edcia militar do estado do\u00a0Par\u00e1, alvejados a curta dist\u00e2ncia, com tiros no peito e na cabe\u00e7a, o que configura execu\u00e7\u00e3o. Houve outros dois massacres: o de\u00a0Len\u00e7\u00f3is, na\u00a0Bahia, dia 6 de agosto de 2017, na\u00a0comunidade Quilombola de I\u00fana, com 6 quilombolas assassinados; e o de\u00a0Canutama, no estado do\u00a0Amazonas, dia 14 de dezembro de 2017, com 3\u00a0Sem Terra\u00a0mortos e desaparecidos.<\/p>\n<p>Airton Pereira\u00a0e\u00a0Jos\u00e9 Batista Afonso, ambos integrantes da\u00a0CPT, afirmam que o que assusta \u00e9 identificar o \u201cgrau de brutalidade e crueldade que os acompanharam. Cad\u00e1veres degolados, carbonizados, ensanguentados, desfigurados. Exemplos que dever\u00e3o ficar marcados para sempre na alma de homens, de mulheres, de jovens e crian\u00e7as. Uma pedagogia do terror\u201d. Em 2017, as tentativas de assassinato passaram de 74 para 120 \u2013 um crescimento de 63% e um n\u00famero que corresponde a uma tentativa a cada tr\u00eas dias. As amea\u00e7as de morte aumentaram de 200 para 226. O n\u00famero de pessoas torturadas passou de 1 para 6. E o de presos foi de 228 para 263. Entre os 1488 assassinados, entre 1985 e 2017, est\u00e3o dois advogados populares:\u00a0Jo\u00e3o Carlos Batista, assassinado dia 06 de dezembro de 1988, em\u00a0Bel\u00e9m, no\u00a0Par\u00e1*, e\u00a0Paulo Fonteles, em\u00a0Ananindeua, no\u00a0Par\u00e1, dia 11 de junho de 1987.<\/p>\n<p>A repress\u00e3o militar, sob o comando dos generais no poder, a partir de 31 de mar\u00e7o de 1964, \u201cabrira as portas para a a\u00e7\u00e3o violenta dos grandes propriet\u00e1rios de terra, por meio de seus capatazes e pistoleiros, em centenas de pontos no pa\u00eds inteiro, na certeza de que eram impunes e, al\u00e9m disso, aliados da repress\u00e3o na manuten\u00e7\u00e3o da ordem\u201d (MARTINS, 1999, p. 83). Repetindo-se como trag\u00e9dia a hist\u00f3ria, a partir de 31 de agosto de 2016, com a consuma\u00e7\u00e3o do golpe parlamentar, jur\u00eddico e midi\u00e1tico que derrubou a presidenta\u00a0Dilma Roussef\u00a0\u2013 o 7\u00ba na hist\u00f3ria brasileira -, os latifundi\u00e1rios e empres\u00e1rios do\u00a0agroneg\u00f3cio\u00a0escancararam as porteiras da\u00a0viol\u00eancia no campo.<\/p>\n<p>Enfim, no\u00a0Brasil, desde 22 de abril de 1500, os camponeses v\u00eam sendo expropriados de suas terras e assassinados, mas a resist\u00eancia continua. Nunca \u00e9 em v\u00e3o o sangue dos m\u00e1rtires. Quando um membro do campesinato \u00e9 assassinado, ele n\u00e3o \u00e9 sepultado, mas semeado na terra e faz brotar e multiplicar a resist\u00eancia. Do sangue de\u00a0Margarida,\u00a0Margaridas\u00a0aos milhares seguem na luta pela terra, de cabe\u00e7a erguida. Ao disseminarem o terror, a desertifica\u00e7\u00e3o, o envenenamento da comida com\u00a0uso indiscriminado de agrot\u00f3xico, a expropria\u00e7\u00e3o dos camponeses e mandar assassinar, o\u00a0latif\u00fandio\u00a0e o\u00a0agroneg\u00f3cio\u00a0n\u00e3o ter\u00e3o a \u00faltima palavra. Assim como n\u00e3o teve a \u00faltima palavra os podres poderes que mandaram executar Jesus Cristo,\u00a0Che Guevara,\u00a0Martin Luther King\u00a0e\u00a0Gandhi. Com vida em abund\u00e2ncia para todas e todos, uma terra sem males est\u00e1 sendo constru\u00edda a partir das\u00a0Comunidades Camponesas, com camponeses e camponesas desenvolvendo a\u00a0Agricultura Familiar\u00a0alicer\u00e7ada em uma rela\u00e7\u00e3o harmoniosa com o\u00a0meio ambiente, dos nossos parentes\u00a0ind\u00edgenas,\u00a0quilombolas\u00a0e\u00a0povos tradicionais, verdadeiros guardi\u00e3es da m\u00e3e terra, da irm\u00e3 \u00e1gua e de toda a\u00a0biodiversidade.<\/p>\n<p>Um soldado que estava diante de Jesus crucificado, fitando-lhe os olhos, olho no olho, exclamou: \u201cVerdadeiramente este homem era o filho de Deus!\u201d (Evangelho de Marcos15,39). \u00c9 duro ver tantas vidas ceifadas e tanto sangue derramado na\u00a0luta pela terra, mas somente tendo a coragem de olhar nos olhos dos\/as crucificados\/as no altar do \u00eddolo mercado adquirimos a luz e a for\u00e7a necess\u00e1ria para construirmos domingos de ressurrei\u00e7\u00e3o com terra para quem nela trabalha, terra partilhada e socializada.<\/p>\n<p>Belo Horizonte, MG, 12-06-2018.<\/p>\n<p>Nota:<\/p>\n<p>*\u00a0Cf. BATISTA, Pedro C\u00e9sar. Jo\u00e3o Batista: m\u00e1rtir da luta pela reforma agr\u00e1ria \u2013 viol\u00eancia e impunidade no Par\u00e1. 3\u00aa edi\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2007.<\/p>\n<p>Refer\u00eancia:<\/p>\n<p>MARTINS, Jos\u00e9 de Souza. O poder do atraso: ensaios de Sociologia da Hist\u00f3ria Lenta. 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: HUCITEC, 1999.<\/p>\n<p>Obs.: Os v\u00eddeos, abaixo, ilustram o texto, acima.<\/p>\n<p>1) Viol\u00eancia do latif\u00fandio aumenta no norte de Minas Gerais\/Audi\u00eancia P\u00fablica\/ALMG\/Toninho do MST. 25\/4\/2018.<\/p>\n<p><span class=\"embed-youtube\" style=\"text-align:center; display: block;\"><iframe loading=\"lazy\" class=\"youtube-player\" width=\"747\" height=\"421\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QLEZ1zgwvcI?version=3&#038;rel=1&#038;showsearch=0&#038;showinfo=1&#038;iv_load_policy=1&#038;fs=1&#038;hl=pt-BR&#038;autohide=2&#038;wmode=transparent\" allowfullscreen=\"true\" style=\"border:0;\" sandbox=\"allow-scripts allow-same-origin allow-popups allow-presentation allow-popups-to-escape-sandbox\"><\/iframe><\/span><\/p>\n<p>2) O clamor das Comunidades Pesqueiras\/Vazanteiras de Minas Gerais por justi\u00e7a. 3\u00aa Parte. BH\/MG. 13\/11\/2017<\/p>\n<p><span class=\"embed-youtube\" style=\"text-align:center; display: block;\"><iframe loading=\"lazy\" class=\"youtube-player\" width=\"747\" height=\"421\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/oEOQu6tLOnI?version=3&#038;rel=1&#038;showsearch=0&#038;showinfo=1&#038;iv_load_policy=1&#038;fs=1&#038;hl=pt-BR&#038;autohide=2&#038;wmode=transparent\" allowfullscreen=\"true\" style=\"border:0;\" sandbox=\"allow-scripts allow-same-origin allow-popups allow-presentation allow-popups-to-escape-sandbox\"><\/iframe><\/span><\/p>\n<p>3) PM de MG despejando c\/ trucul\u00eancia MST da Ariadn\u00f3polis, em Campo do Meio\/MG: Injusti\u00e7a! 20\/05\/16<\/p>\n<p><span class=\"embed-youtube\" style=\"text-align:center; display: block;\"><iframe loading=\"lazy\" class=\"youtube-player\" width=\"747\" height=\"421\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Iz1E3OiYVTU?version=3&#038;rel=1&#038;showsearch=0&#038;showinfo=1&#038;iv_load_policy=1&#038;fs=1&#038;hl=pt-BR&#038;autohide=2&#038;wmode=transparent\" allowfullscreen=\"true\" style=\"border:0;\" sandbox=\"allow-scripts allow-same-origin allow-popups allow-presentation allow-popups-to-escape-sandbox\"><\/iframe><\/span><\/p>\n<p>http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/579851-sangue-no-campo-mas-a-resistencia-segue<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/19997\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[20,118],"tags":[226],"class_list":["post-19997","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c1-popular","category-c131-reforma-agraria","tag-4b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5cx","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19997","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19997"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19997\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19997"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19997"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19997"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}