{"id":20100,"date":"2018-06-28T20:35:28","date_gmt":"2018-06-28T23:35:28","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=20100"},"modified":"2018-06-28T20:35:28","modified_gmt":"2018-06-28T23:35:28","slug":"argentina-em-queda-livre-ate-o-fundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20100","title":{"rendered":"Argentina: em queda livre at\u00e9 o fundo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2018\/05\/09\/economia\/1525881853_191911_1525889454_noticia_normal_recorte1.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Claudio Katz*<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.odiario.info\/em-queda-a-pique-ate-ao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ODiario.info<\/a><\/p>\n<p>Na Argentina come\u00e7a a se revelar em toda a sua dimens\u00e3o o acordo com o FMI. Em vez das patacoadas que o governo Macri e a sua imprensa tentaram vender sobre \u00abo novo perfil benigno do Fundo\u00bb, \u00e9 a brutalidade do empobrecimento, da recess\u00e3o, da depend\u00eancia. Mas a pr\u00f3pria barb\u00e1rie de tal acordo cria novas dificuldades no campo governamental, e a resposta das massas tem sido not\u00e1vel.<\/p>\n<p>A crise devorou j\u00e1 tr\u00eas estrelas da \u201cmelhor equipe dos \u00faltimos 50 anos\u201d. Stuzzeneger foi sepultado pela corrida cambial e n\u00e3o \u00e9 muito relevante que n\u00e3o tenha sabido tomar o pulso ao mercado. Simplesmente foi descartado com o colapso do modelo. O mesmo ocorreu com as figuras emblem\u00e1ticas do tarifa\u00e7o (Aranguren) e da abertura comercial (Cabrera). Estes personagens combinaram o rep\u00fadio da popula\u00e7\u00e3o com a inimizades de neg\u00f3cios no seu pr\u00f3prio c\u00edrculo. Os bodes expiat\u00f3rios multiplicam-se sem deter a acelerada deteriora\u00e7\u00e3o de Macri. O financeiro Caputo n\u00e3o tem nenhuma receita para conter esse desmoronamento. A sua margem de a\u00e7\u00e3o estreitou-se desde que o FMI assumiu o comando direto da economia. A difus\u00e3o do que vinha em letra pequena no acordo desmente todas as patetices sobre um novo perfil benigno do Fundo.<\/p>\n<p>O ajuste \u00e9 muito superior ao imaginado e ser\u00e1 monitorado de forma cotidiana, sem aguardar as antigas auditorias trimestrais. O dessangramento das prov\u00edncias, a demoli\u00e7\u00e3o do salario e a redu\u00e7\u00e3o das pens\u00f5es ser\u00e1 acompanhado por um esvaziamento do Fundo de Garantia, para precipitar a privatiza\u00e7\u00e3o do sistema de previd\u00eancia. O programa em marcha tenta uma vers\u00e3o ordenada da mesma viragem que coroou todos os colapsos das \u00faltimas d\u00e9cadas. O objetivo \u00e9 reduzir o d\u00e9ficit fiscal e esmagar os sal\u00e1rios, mediante uma megadesvaloriza\u00e7\u00e3o que supere a taxa de infla\u00e7\u00e3o. Com a eleva\u00e7\u00e3o conseguinte do tipo de c\u00e2mbio espera-se reduzir o desequil\u00edbrio comercial e gerar os d\u00f3lares requeridos para pagar a d\u00edvida.<\/p>\n<p>A recess\u00e3o em grande escala \u00e9 o mecanismo escolhido para perpetrar este ajuste, num mar de fal\u00eancias, pobreza e desemprego. O FMI desenhou a opera\u00e7\u00e3o em tr\u00eas partes. O in\u00edcio \u00e9 uma desvaloriza\u00e7\u00e3o sem limite, at\u00e9 assegurar brechas significativas com os pre\u00e7os internos. Para garantir essa fratura foram dispostos severos limites a todas as tentativas de contrariar a disparada do d\u00f3lar com a venda de reservas. Longe de trazer os 50 bilh\u00f5es de d\u00f3lares imaginados pela imprensa, o FMI entregar\u00e1 5000 (ou 7000) milh\u00f5es, em troca de um estrito controle das reservas. Com essa restri\u00e7\u00e3o, a cota\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar pode trepar sem pausa, atrav\u00e9s da livre flutua\u00e7\u00e3o que Stuzzeneger come\u00e7ou a implementar. O n\u00edvel atual est\u00e1 muito longe da desejada paridade de 2002-03 e por isso Melcon\u00edan sugere chegar aos 41 pesos. Para evitar uma transfer\u00eancia integral dessa disparada aos pre\u00e7os, o FMI exige um segundo passo de brutal contra\u00e7\u00e3o da atividade produtiva. Essa recess\u00e3o \u00e9 induzida atrav\u00e9s de exorbitantes taxas de juros. 40% \u00e9 o n\u00edvel da opera\u00e7\u00e3o que Caputo implementa com os bancos, para resgatar as LEBACS com maior encarecimento do cr\u00e9dito. A sua engenharia de t\u00edtulos sobrepostos pulveriza por completo a ind\u00fastria. A ruptura da cadeia de pagamentos que se verifica em v\u00e1rios setores \u00e9 a antecipa\u00e7\u00e3o do brutal freio que a produ\u00e7\u00e3o e o comercio sofrer\u00e3o.<\/p>\n<p>O terceiro passo da cirurgia &#8211; que Dujovne submeter\u00e1 \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o da sua chefe Lagarde \u2013 \u00e9 o teto de infla\u00e7\u00e3o. Espera-se for\u00e7ar um percentual inferior \u00e0 taxa de desvaloriza\u00e7\u00e3o mediante o brutal esmagamento do consumo. Se este plano de alta desvaloriza\u00e7\u00e3o e enorme recess\u00e3o &#8211; assente no empobrecimento coletivo &#8211; n\u00e3o funciona, o FMI exigir\u00e1 cirurgias de maior dimens\u00e3o. O pr\u00f3ximo calv\u00e1rio de cataclismos incluir\u00e1 seguramente recuos e grandes divis\u00f5es por cima. O programa est\u00e1 minado pela sua pr\u00f3pria aplica\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do conhecido c\u00edrculo vicioso do ajuste. Os cortes geram mais redu\u00e7\u00f5es que impedem atingir o final do t\u00fanel. A recess\u00e3o reduz o recolhimento de impostos, potencia o d\u00e9ficit fiscal e obriga a maiores cortes com os mesmos resultados. Os tarifa\u00e7os agravam a recess\u00e3o e tornam-se intermin\u00e1veis pela sua vincula\u00e7\u00e3o aos contratos dolarizados. O que o fisco poupa com demiss\u00f5es e paralisa\u00e7\u00e3o da obra p\u00fablica \u00e9 desbaratado em juros da d\u00edvida.<\/p>\n<p>O apoio entusiasta da classe dominante a essa imola\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e que as \u00fanicas v\u00edtimas sejam os trabalhadores. Mas a crise impacta j\u00e1 sobre os capitalistas afetados pela pr\u00f3xima recess\u00e3o. Al\u00e9m disso, o buraco das contas p\u00fablicas empurrar\u00e1 a restaurar impostos e por isso avizinha-se um grande conflito com as reten\u00e7\u00f5es da soja. Tamb\u00e9m o turismo est\u00e1 na mira e, se a crise se descontrola, nenhum ministro poder\u00e1 evitar a reimplanta\u00e7\u00e3o de regula\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito da energia ou das divisas dos exportadores. O fim do gradualismo inaugura dois cen\u00e1rios poss\u00edveis: sismos controlados ou terremotos incontrol\u00e1veis. O primeiro curso sup\u00f5e um largo sangramento da economia semelhante ao padecido pela Gr\u00e9cia. O segundo repetiria a ruptura de 1989-90 ou 2001-02. A desativa\u00e7\u00e3o ou continuidade da corrida cambial (e sua eventual transfer\u00eancia para o \u00e2mbito banc\u00e1rio) indicar\u00e1 qual ser\u00e1 o contexto imperante.<\/p>\n<p>Esse quadro dirimir-se-\u00e1 tamb\u00e9m na esfera pol\u00edtica. Poder\u00e1 Macri aguentar o vendaval que se avizinha? As demiss\u00f5es de tr\u00eas ministros antecipam a passagem de faturas e as quebras internas, que Cambiemos conseguiu evitar desde o in\u00edcio da sua gest\u00e3o. A queda em desgra\u00e7a de qualquer funcion\u00e1rio inclui agora s\u00e9rias consequ\u00eancias judiciais. O procedimento de prender os desalojados que o macrismo inaugurou poderia voltar-se contra si, se algum juiz decide emendar a sua carreira com essa aposta. Nesse caso, Stuzzeneger dever\u00e1 explicar as confus\u00f5es do JP Morgan durante a corrida e Aranguren comparecer\u00e1 pelos privil\u00e9gios outorgados \u00e0 Shell.<\/p>\n<p>De momento, o grosso do peronismo mant\u00e9m uma atitude d\u00fabia. Oferece pontes de sobreviv\u00eancia a Macri evitando a sua pr\u00f3pria incinera\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 disposto a negociar os acordos com o FMI (atrav\u00e9s do or\u00e7amento de 2019), obrigando o oficialismo a suportar o custo eleitoral dessa transa\u00e7\u00e3o. Deseja a eros\u00e3o e n\u00e3o a queda do l\u00edder do PRO. Por isso impele-o a realizar o trabalho sujo, esperando que chegue desfeito \u00e0s elei\u00e7\u00f5es. O justicialismo n\u00e3o aspira s\u00f3 recuperar o governo. Tamb\u00e9m pretende encontrar um cen\u00e1rio de ajuste conclu\u00eddo e recupera\u00e7\u00e3o da economia. Sonha com gerir um quadro semelhante ao manejado por Cavallo com Menen ou por Lavagna com Kirchner. Mas a crise atual \u00e9 muito superior e os compromissos com o FMI afetar\u00e3o diretamente o pr\u00f3ximo mandat\u00e1rio. A continuidade de Macri (ou de um decalque justicialista) \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o dos empr\u00e9stimos que o Fundo outorga.<\/p>\n<p>Todos sabem que o desenlace da luta social determinar\u00e1 os acontecimentos dos pr\u00f3ximos meses. Nas \u00faltimas semanas recuperou-se o n\u00edvel de mobiliza\u00e7\u00e3o conseguido em dezembro e fevereiro passado. As ruas est\u00e3o diariamente ocupadas por manifesta\u00e7\u00f5es. Houve atos massivos de rep\u00fadio ao FMI e um grande impulso de greves ativas por parte dos sindicatos combativos. A marcha federal dos setores empobrecidos levou multid\u00f5es \u00e0s ruas e a desconcertada classe m\u00e9dia tende a somar-se aos protestos. O triunfo alcan\u00e7ado com a meia aprova\u00e7\u00e3o da lei do aborto acrescenta outro impulso. Foi o resultado de uma prolongada mobiliza\u00e7\u00e3o que popularizou essa reivindica\u00e7\u00e3o. Novamente se demonstrou que a luta serve e pode ser ganha. O agora conquistado no terreno democr\u00e1tico pode estender-se \u00e0 \u00f3rbita social. A prioridade \u00e9 a resist\u00eancia ao ajuste e ao terr\u00edvel pacto concertado com o FMI. Joga-se nessa batalha o nosso futuro.<\/p>\n<p><em>*Economista, investigador do CONICET, professor da UBA, membro do EDI. A sua p\u00e1gina web \u00e9:\u00a0www.lahaine.org\/katz<\/em><\/p>\n<p>https:\/\/www.odiario.info\/em-queda-a-pique-ate-ao\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20100\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[57],"tags":[234],"class_list":["post-20100","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c68-argentina","tag-6b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5ec","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20100","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20100"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20100\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20100"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20100"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20100"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}