{"id":20129,"date":"2018-07-02T23:04:03","date_gmt":"2018-07-03T02:04:03","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=20129"},"modified":"2018-07-02T23:04:03","modified_gmt":"2018-07-03T02:04:03","slug":"a-condicao-da-mulher-e-a-primeira-opressao-de-classe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20129","title":{"rendered":"A condi\u00e7\u00e3o da mulher e a \u00abprimeira opress\u00e3o de classe\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.resumenlatinoamericano.org\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/29-de-junio-7.D.LOSURDO-bn-620x400.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Domenico Losurdo, El Viejo Topo<\/p>\n<p>Resumen Latinoamericano<\/p>\n<p>O g\u00eanero das lutas de classes emancipadoras inclui uma terceira esp\u00e9cie, al\u00e9m das duas que conhecemos. Sim, existe outro grupo social, muito numeroso, t\u00e3o numeroso que \u00e9 a metade ou mais da popula\u00e7\u00e3o total, um grupo social que padece da \u00abautocracia\u00bb e anseia a \u00abliberta\u00e7\u00e3o\u00bb (Befreiung): trata-se das mulheres, sobre quem pesa a opress\u00e3o exercida pelo var\u00e3o entre as quatro paredes dom\u00e9sticas (MEW, 21; 158). Estou citando um texto (A origem da fam\u00edlia, da propriedade privada e do estado) que Engels publicou em 1884. \u00c9 verdade que Marx tinha morrido h\u00e1 um ano, por\u00e9m j\u00e1 entre 1845 e 1846, em A ideologia alem\u00e3, texto no qual Engels se remete explicitamente, observa que na fam\u00edlia patriarcal \u00aba esposa e os filhos s\u00e3o os escravos do homem\u00bb (MEW, 3; 32). Por sua vez, o Manifesto, que n\u00e3o se cansa de criticar a burguesia pela redu\u00e7\u00e3o do prolet\u00e1rio \u00e0 m\u00e1quina e instrumento de trabalho, assinala que \u00abpara o burgu\u00eas, sua pr\u00f3pria mulher \u00e9 um simples instrumento de produ\u00e7\u00e3o\u00bb; pois bem, \u00abtrata-se justamente de abolir a posi\u00e7\u00e3o das mulheres como meros instrumentos de produ\u00e7\u00e3o\u00bb (MEW, 4; 478-479). A categoria utilizada para definir a condi\u00e7\u00e3o do oper\u00e1rio na f\u00e1brica capitalista tamb\u00e9m se utiliza para definir a condi\u00e7\u00e3o da mulher no \u00e2mbito da fam\u00edlia patriarcal.<\/p>\n<p><strong>Visto no conjunto, o sistema capitalista se apresenta como uma serie de rela\u00e7\u00f5es mais ou menos servis impostas por um povo a outro povo em escala internacional, por uma classe a outra no \u00e2mbito de um pa\u00eds e pelo homem \u00e0 mulher no \u00e2mbito da mesma classe. Compreende-se, ent\u00e3o, a tese que formula Engels remetendo-se a Fran\u00e7ois-Marie-Charles Fourier e que tamb\u00e9m defende Marx, a tese de que a emancipa\u00e7\u00e3o feminina \u00e9 \u00aba medida da emancipa\u00e7\u00e3o universal\u00bb (MEW, 20; 242 e 32; 583). Para o bem e para o mal, a rela\u00e7\u00e3o homem\/mulher \u00e9 uma sorte de microcosmos que reflete o ordenamento social: na R\u00fassia amplamente pr\u00e9-moderna, submetidos a uma implac\u00e1vel opress\u00e3o de seus amos, os camponeses \u2013 observa Marx \u2013 s\u00e3o capazes, por sua vez, de dar \u00absurras horr\u00edveis e mortais em suas mulheres\u00bb (MEW, 32; 437). Vejamos agora a f\u00e1brica capitalista: ainda que o poder desp\u00f3tico do patr\u00e3o subjugue a todos os oper\u00e1rios, o faz de um modo especialmente humilhante com as mulheres: \u00absua f\u00e1brica \u00e9 ao mesmo tempo seu har\u00e9m\u00bb (MEW, 2; 373).<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil encontrar na cultura da \u00e9poca vozes que denunciam o car\u00e1ter opressor da condi\u00e7\u00e3o feminina. Em 1970, Condorcet (1968, vol. 10, p. 121) disse que a exclus\u00e3o da mulher dos direitos pol\u00edticos \u00e9 um \u00abato de tirania\u00bb. No ano seguinte, a Declara\u00e7\u00e3o dos direitos da mulher e da cidad\u00e3, escrita por Olympia de Gouges, chama a aten\u00e7\u00e3o em seu artigo 4 sobre a \u00abtirania perp\u00e9tua\u00bb imposta pelo homem \u00e0 mulher. Na Inglaterra, mais de meio s\u00e9culo depois, J. S. Mill fala da \u00abescravid\u00e3o da mulher\u00bb, \u00abtirania dom\u00e9stica\u00bb e \u00abservid\u00e3o real\u00bb (atual\u00a0<em>bondage<\/em>) sancionada pela lei (1963-1991, pp. 264.\u00a0288 e 323 = Mill 1926, pp. 18, 68 e 139).<\/p>\n<p>Por\u00e9m, quais s\u00e3o as causas desta opress\u00e3o e da insensibilidade geral frente a ela? Condorcet (1968, vol. 10, p. 121) condena \u00abo poder do costume\u00bb, que ofusca o sentido da justi\u00e7a inclusive nos \u00abhomens ilustrados\u00bb. De modo parecido, argumenta Mill (1963-1991, pp. 263-264 = Mill 1926, pp. 15, 17 e 19), que remete ao conjunto de \u00abcostumes\u00bb, \u00abpreju\u00edzos\u00bb e \u00absupersti\u00e7\u00f5es\u00bb que \u00e9 preciso superar ou neutralizar com \u00abuma s\u00e3 psicologia\u00bb. Ainda que se fa\u00e7a refer\u00eancia \u00e0s rela\u00e7\u00f5es sociais, s\u00f3 se trata das \u00abrela\u00e7\u00f5es sociais de ambos sexos\u00bb, que sancionam a escravid\u00e3o ou submiss\u00e3o da mulher por causa da \u00abinferioridade de sua for\u00e7a muscular\u00bb e da vig\u00eancia neste \u00e2mbito da \u00ablei do mais forte\u00bb.<\/p>\n<p>N\u00e3o se indaga a rela\u00e7\u00e3o entre a condi\u00e7\u00e3o da mulher e as outras formas de opress\u00e3o. E mais, aos olhos de Mill (1963-1991, pp. 264-265 = Mill 1926, p. 19) a rela\u00e7\u00e3o homem\/mulher \u00e9 uma esp\u00e9cie de ilha na qual ainda se mant\u00e9m a l\u00f3gica da submiss\u00e3o, que j\u00e1 ficou muito para tr\u00e1s em outros \u00e2mbitos: \u00abVivemos, ou vivem pelo menos uma ou duas das na\u00e7\u00f5es mais avan\u00e7adas do mundo, em um estado em que a lei do mais forte parece totalmente abolida, e se diria que j\u00e1 n\u00e3o serve de norma aos assuntos dos homens\u00bb. Em compensa\u00e7\u00e3o, do ponto de vista de Marx e Engels, a rela\u00e7\u00e3o entre a metr\u00f3pole capitalista (as \u00abna\u00e7\u00f5es mais avan\u00e7adas do mundo\u00bb) e as col\u00f4nias \u00e9, mais que nunca, uma rela\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio e submiss\u00e3o; e na pr\u00f3pria metr\u00f3pole capitalista a coa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica (ainda n\u00e3o jur\u00eddica) segue presidindo as rela\u00e7\u00f5es entre capital e trabalho.<\/p>\n<p>Por acaso \u00e9 Mary Wollstonecraft (2008, p. 30) quem une a den\u00fancia da \u00abdepend\u00eancia servil\u00bb que se reserva \u00e0 mulher com o questionamento da ordem social. O dom\u00ednio machista parece pr\u00f3prio do antigo regime. Enquanto os campe\u00f5es da luta pela aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o denunciam a \u00abaristocracia da epiderme\u00bb ou a \u00abnobreza da pele\u00bb (Losurdo 2005, cap. 5, \u00a7 6), a militante feminista critica o que, em sua opini\u00e3o, se configura como o poder aristocr\u00e1tico dos var\u00f5es: a den\u00fancia deste poder j\u00e1 unida \u00e0 condena\u00e7\u00e3o das \u00abriquezas\u00bb heredit\u00e1rias e das \u00abhonras heredit\u00e1rias\u00bb, \u00e0 condena\u00e7\u00e3o das \u00ababsurdas distin\u00e7\u00f5es de estamento\u00bb. Em todo caso, \u00abas mulheres n\u00e3o se libertar\u00e3o\u00bb de verdade \u00abat\u00e9 que os estamentos n\u00e3o se misturem\u00bb e \u00abn\u00e3o se estabele\u00e7a mais igualdade em toda a sociedade\u00bb (Wollstonecraft 2008, pp. 109 e 139). Outras vezes, parece que a feminista e jacobina inglesa questiona a pr\u00f3pria sociedade capitalista. Sim, as mulheres deveriam \u00abter representantes em vez de ser governadas sem nenhuma voz nas delibera\u00e7\u00f5es do governo\u00bb. Por\u00e9m, n\u00e3o podemos perder de vista que na Inglaterra os oper\u00e1rios tamb\u00e9m est\u00e3o privados de direitos pol\u00edticos:<\/p>\n<p>Todo o sistema de representa\u00e7\u00e3o neste pa\u00eds \u00e9 s\u00f3 uma c\u00f4moda ocasi\u00e3o de despotismo. As mulheres n\u00e3o deveriam esquecer que est\u00e3o representadas na mesma medida em que o est\u00e1 a numerosa classe dos oper\u00e1rios, trabalhadores esfor\u00e7ados que pagam pelo sustento da fam\u00edlia real, apesar de que a duras penas consegue saciar com p\u00e3o a boca de seus filhos (Wollstonecraft 2008, p. 113).<\/p>\n<p>N\u00e3o faltam os pontos de contato entre condi\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e condi\u00e7\u00e3o feminina: o mesmo que para os membros da classe oper\u00e1ria, \u00abos poucos trabalhos abertos \u00e0s mulheres, longe de serem liberais, s\u00e3o servis\u00bb. Por \u00faltimo, no \u00e2mbito desta cr\u00edtica global das rela\u00e7\u00f5es de dom\u00ednio que caracterizam a ordem social existente, as pr\u00f3prias mulheres (sobretudo as de situa\u00e7\u00e3o mais acomodada) devem fazer um exame de consci\u00eancia, pois \u00e0s vezes d\u00e3o mostras de \u00abloucura\u00bb pelo \u00abmodo com que tratam os servi\u00e7ais na presen\u00e7a das crian\u00e7as, fazendo com que seus filhos acreditem que aqueles devem servir-lhes e suportar suas destemperan\u00e7as\u00bb (Wollstonecraft 2008, pp. 115 e 137).<\/p>\n<p>A \u00abjacobina inglesa\u00bb, que \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o genial, parece em certo modo precursora de Marx e Engels, que estabeleceram um nexo entre divis\u00e3o do trabalho no \u00e2mbito da fam\u00edlia e divis\u00e3o do trabalho no \u00e2mbito da sociedade.\u00a0\u00a0Segundo, em particular, formula a tese de que \u00aba fam\u00edlia nuclear moderna se baseia na escravid\u00e3o dom\u00e9stica, aberta ou dissimulada, da mulher\u00bb; em todo caso, \u00abo var\u00e3o \u00e9 o burgu\u00eas, enquanto a mulher representa o proletariado\u00bb (MEW, 21; 75).<\/p>\n<p><strong>Entre os contempor\u00e2neos de Marx e Engels, quem faz uma an\u00e1lise que poder se parecer com a sua n\u00e3o \u00e9 J. S. Mill, mas sim Nietzsche, ainda que com um ju\u00edzo de valor oposto. O cr\u00edtico implac\u00e1vel da revolu\u00e7\u00e3o como tal, inclu\u00edda a revolu\u00e7\u00e3o feminista, compara a condi\u00e7\u00e3o da mulher com a dos \u00abmiser\u00e1veis dos estamentos inferiores\u00bb, dos \u00abescravos do trabalho\u00a0<em>(Arbeitssklaven)<\/em>\u00a0ou dos presos\u00bb\u00a0<em>(<\/em>Genealogia da moral, III, 18<em>)<\/em>\u00a0e indiretamente junta o movimento feminista com o movimento oper\u00e1rio e o movimento abolicionista: os tr\u00eas buscam afanosamente, por denunciar com indigna\u00e7\u00e3o, as diferentes \u00abformas de escravid\u00e3o e servid\u00e3o\u00bb, como si constat\u00e1-las n\u00e3o fosse a confirma\u00e7\u00e3o de que a escravid\u00e3o \u00e9 \u00abo fundamento de toda civiliza\u00e7\u00e3o superior\u00bb\u00a0(Para al\u00e9m do bem e do mal, 239)<em>.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Evidentemente, o motivo do nexo entre submiss\u00e3o da mulher e a opress\u00e3o social em geral est\u00e1 desenvolvido de um modo mais amplo e org\u00e2nico em Engels, remetendo-se sempre ao livro A ideologia alem\u00e3, que escreveu com Marx e permaneceu in\u00e9dito muito tempo: \u00aba primeira opress\u00e3o de classe coincide com a do sexo feminino pelo sexo masculino\u00bb. \u00c9 uma longa hist\u00f3ria que ainda n\u00e3o terminou:<\/p>\n<p>A aboli\u00e7\u00e3o do matriarcado foi a derrota do sexo feminino no plano hist\u00f3rico universal. O homem tomou o comando da casa e a mulher foi degradada, submetida, convertida em escrava de seus desejos e simples instrumento para fazer filhos (Werkzeug der Kinderzeugung). Este estado de degrada\u00e7\u00e3o da mulher [\u2026] foi gradualmente adornado e dissimulado, \u00e0s vezes teve formas mais suaves, por\u00e9m nunca foi eliminado (MEW, 21; 68 e 61).<\/p>\n<p><strong>Se\u00e7\u00e3o 4 do primeiro cap\u00edtulo do livro de D. Losurdo,<em>\u00a0A luta de classes. Uma hist\u00f3ria pol\u00edtica e filos\u00f3fica.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Fonte:\u00a0http:\/\/www.resumenlatinoamericano.org\/2018\/06\/29\/la-condicion-de-la-mujer-y-la-primera-opresion-de-clase\/<\/p>\n<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Partido Comunista Brasileiro (PCB)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20129\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[180],"tags":[223],"class_list":["post-20129","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-feminista","tag-3a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5eF","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20129","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20129"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20129\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20129"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20129"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20129"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}