{"id":2015,"date":"2011-10-28T21:11:58","date_gmt":"2011-10-28T21:11:58","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2015"},"modified":"2011-10-28T21:11:58","modified_gmt":"2011-10-28T21:11:58","slug":"o-cavaleiro-da-esperanca-vida-de-luiz-carlos-prestes-uma-obra-de-valor-historico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2015","title":{"rendered":"O Cavaleiro da Esperan\u00e7a: Vida de Luiz Carlos Prestes \u2013 uma obra de valor hist\u00f3rico"},"content":{"rendered":"\n<p><em>O Cavaleiro da Esperan\u00e7a: Vida de Luiz Carlos Prestes<\/em>, obra de Jorge Amado publicada pela primeira vez em espanhol, na Argentina, no ano de 1942, foi dedicada \u00e0 minha av\u00f3 Leocadia, m\u00e3e do biografado, \u201cla madre heroica\u201d, segundo Pablo Neruda. A dedicat\u00f3ria dizia: \u201c<em>Lejos de su hijo, en tierras que no son las suyas, sufre y lucha do\u00f1a Leocadia Prestes. Escribi este libro, amiga, para que lo ofrezcas a la madre de Luiz Carlos Prestes como uma d\u00e1diva del Brasil<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>Era a primeira biografia do meu pai, da qual Jorge Amado se dizia orgulhoso, ao escrever de pr\u00f3prio punho uma outra dedicat\u00f3ria no exemplar destinado a Leocadia Prestes e enviado ao M\u00e9xico, onde ent\u00e3o mor\u00e1vamos minha av\u00f3, minha tia Lygia e eu. Viv\u00edamos \u201cos anos tormentosos\u201d de nossas vidas, segundo palavras de Leocadia em carta dirigida ao filho, prisioneiro da ditadura Vargas.<\/p>\n<p>Jorge Amado, que havia publicado aos dezenove anos, em 1931, seu primeiro livro,\u00a0<em>O pa\u00eds do Carnaval<\/em>, participara das lutas contra o fascismo no Brasil e das jornadas promovidas pela Alian\u00e7a Nacional Libertadora (ANL) durante o ano de 1935. Com a derrota do movimento, foi preso em 1936 e, novamente, em 1937, ap\u00f3s o golpe que instaurou o Estado Novo. Seus livros foram proibidos no Brasil, in\u00fameros exemplares apreendidos pela pol\u00edcia e queimados em pra\u00e7a p\u00fablica em Salvador. Perseguido no pa\u00eds, Jorge Amado exilou-se na Argentina, onde escreveu a biografia de Prestes entre dezembro de 1941 e janeiro de 1942. A publica\u00e7\u00e3o em espanhol veio \u00e0 luz em maio daquele ano pela Editora Claridad, de Buenos Aires. Proibida no Brasil, a obra em espanhol, passou a circular clandestinamente no pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00c9 o pr\u00f3prio autor que, no pref\u00e1cio da primeira edi\u00e7\u00e3o brasileira, publicada em 1945 pela Livraria Martins Editora, narra a hist\u00f3ria do livro:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><em>Tradu\u00e7\u00f5es para outras l\u00ednguas foram feitas sobre a tradu\u00e7\u00e3o espanhola; no Brasil, al\u00e9m dos exemplares daquela edi\u00e7\u00e3o vendidos clandestinamente, por vezes por pre\u00e7os absurdos, apareceram c\u00f3pias datilografadas e at\u00e9 em fac-s\u00edmile fotogr\u00e1fico&#8230; Os exemplares aqui vendidos nunca chegaram a ser propriedade individual de algu\u00e9m, viveram sempre de m\u00e3o em m\u00e3o. O povo se referia a este livro com os mais diversos nomes: Vida de S\u00e3o Lu\u00eds, Vida do rei Lu\u00eds, Travessuras de Luisinho etc. Depois tamb\u00e9m sua edi\u00e7\u00e3o Argentina foi proibida e queimada em Buenos Aires, por ordem do governo Per\u00f3n. Valorizaram-se ainda mais os exemplares que circulavam no Brasil. Houve quem vivesse do aluguel de exemplares.<\/em><\/p>\n<p>Adiante, Jorge Amado destaca: \u201cNa luta pela anistia, pela democracia e contra o Estado Novo, mas principalmente contra o fascismo, este livro foi uma arma\u201d. Indiscutivelmente esse foi o grande papel desempenhado pela obra do famoso escritor brasileiro. Ele recorda: \u201cJunta-se a tudo isso a emo\u00e7\u00e3o que ele [o livro] despertou na Am\u00e9rica espanhola, onde quebrou recordes de venda, e pode-se imaginar quanto n\u00e3o me envaide\u00e7o dele, quanto n\u00e3o me orgulho de ser o seu autor\u201d. Efetivamente, durante meses a fio, a edi\u00e7\u00e3o espanhola foi o livro mais vendido na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Para escrever a obra, Jorge Amado correspondeu-se com Leocadia e Lygia Prestes, no M\u00e9xico, e consultou amigos e correligion\u00e1rios do biografado. A edi\u00e7\u00e3o Argentina continha ap\u00eandice com documentos sobre diversos momentos da vida de Prestes, um mapa do Brasil com o tra\u00e7ado da Coluna Prestes e algumas fotos de Prestes, de seus familiares e de combatentes da Coluna. Adotando estilo semelhante ao empregado na biografia de Castro Alves, escrita um ano antes, o autor se dirige permanentemente a uma leitora imagin\u00e1ria, a quem chama de \u201camiga\u201d e tamb\u00e9m de \u201cnegra\u201d, com o intuito de falar diretamente ao povo brasileiro, apelando aos leitores para que assumam posi\u00e7\u00e3o na luta pela democracia e pela liberdade. Jorge Amado escreve que \u201ceste n\u00e3o \u00e9 nem pretende ser um livro frio\u201d, mas uma obra escrita \u201ccom paix\u00e3o, sobre uma pessoa amada\u201d. Trata-se, pois, de uma biografia romanceada do Cavaleiro da Esperan\u00e7a, que como tal deve ser hoje apreciada e inserida, portanto, no momento hist\u00f3rico em que foi produzida.<\/p>\n<p>No Brasil, o livro s\u00f3 p\u00f4de ser publicado ap\u00f3s a decreta\u00e7\u00e3o da anistia aos presos pol\u00edticos em abril de 1945. Pessoalmente, tive o privil\u00e9gio de, aos oito anos de idade, ser presenteada pelo autor com o exemplar n\u00famero 1 dessa edi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, valorizada por dedicat\u00f3ria em que Jorge Amado me recomendava a \u201caprender na vida do [meu] Pai um exemplo de dignidade humana\u201d. A edi\u00e7\u00e3o brasileira continha um belo e original retrato de Prestes, obra do artista pl\u00e1stico Cl\u00f3vis Graciano, assim como fotos e documentos que, em alguns casos, n\u00e3o haviam sido inclu\u00eddos na edi\u00e7\u00e3o Argentina.<\/p>\n<p>At\u00e9 o golpe militar de 1964, o livro teve v\u00e1rias reedi\u00e7\u00f5es no Brasil. Na nona edi\u00e7\u00e3o, publicada em 1956 pela Editorial Vit\u00f3ria, pertencente ao Partido Comunista Brasileiro, a capa foi ilustrada por expressiva gravura alusiva \u00e0 Coluna Prestes, de autoria do artista rio-grandense Vasco Prado. Nessa edi\u00e7\u00e3o foi inclu\u00eddo posf\u00e1cio do autor, no qual \u00e9 lembrado que, ap\u00f3s a primeira edi\u00e7\u00e3o brasileira, sucederam-se rapidamente outras seis edi\u00e7\u00f5es. Assinalava-se ainda que a obra j\u00e1 havia sido at\u00e9 ent\u00e3o traduzida para cerca de vinte idiomas diferentes e tamb\u00e9m adaptada para o r\u00e1dio. Com o golpe reacion\u00e1rio de 1964, o livro desapareceu das livrarias, s\u00f3 voltando a ser publicado em 1979.<\/p>\n<p>Sou testemunha de que v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de jovens brasileiros, e tamb\u00e9m estrangeiros, tornaram-se revolucion\u00e1rios e aderiram ao comunismo, ingressando muitas vezes nos partidos comunistas dos seus pa\u00edses, sob o impacto provocado pela leitura da biografia de Luiz Carlos Prestes escrita por Jorge Amado. Em Portugal, durante a ditadura de Salazar, ele era leitura obrigat\u00f3ria dos militantes do Partido Comunista Portugu\u00eas, para os quais a vida do Cavaleiro da Esperan\u00e7a \u2013 sua coragem, dignidade humana e dedica\u00e7\u00e3o sem limites \u00e0 causa revolucion\u00e1ria \u2013 tornara-se um exemplo a ser seguido por todo comunista.<\/p>\n<p>Na qualidade de historiadora, mas tamb\u00e9m de filha de Luiz Carlos Prestes, tenho me empenhado em pesquisar e escrever sobre a vida desse grande brasileiro, ainda pouco conhecido inclusive por seus compatriotas. Prestes foi um patriota, um revolucion\u00e1rio e um comunista convicto. Pablo Neruda escreveu a seu respeito: \u201cNenhum dirigente comunista da Am\u00e9rica Latina teve uma vida t\u00e3o tr\u00e1gica e portentosa quanto Luiz Carlos Prestes\u201d.<\/p>\n<p>Como foi sempre coerente consigo mesmo e com os ideais revolucion\u00e1rios a que dedicou sua vida, sem jamais se dobrar diante de interesses menores ou de car\u00e1ter pessoal, Prestes despertou o \u00f3dio dos donos do poder, que sempre procuraram criar uma hist\u00f3ria oficial cuja t\u00f4nica tem sido a falsifica\u00e7\u00e3o tanto de sua trajet\u00f3ria pol\u00edtica como da hist\u00f3ria brasileira contempor\u00e2nea. Entretanto, para o historiador comprometido com as lutas populares, com os interesses dos explorados e dos oprimidos, a meta deve ser outra: contribuir para a elabora\u00e7\u00e3o de outra hist\u00f3ria, comprometida n\u00e3o s\u00f3 com a evid\u00eancia, mas tamb\u00e9m com o imperativo de construir um futuro de justi\u00e7a social e liberdade para o nosso povo.<\/p>\n<p>Para o historiador empenhado na elabora\u00e7\u00e3o de uma Hist\u00f3ria do Brasil, para quem valoriza o papel destacado de Luiz Carlos Prestes nas lutas populares do s\u00e9culo XX em nosso pa\u00eds,\u00a0<em>O Cavaleiro da Esperan\u00e7a: Vida de Luiz Carlos Prestes<\/em> \u00e9 um livro indispens\u00e1vel. Sua reedi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o importante para compreender melhor uma \u00e9poca de nossa hist\u00f3ria, para que, aprofundando o conhecimento de nosso passado, as novas gera\u00e7\u00f5es de brasileiros possam transformar o presente, construindo o futuro ao qual Prestes dedicou sua vida.<\/p>\n<p><strong>FONTE<\/strong>: AMADO, Jorge.\u00a0<em>O Cavaleiro da Esperan\u00e7a: vida de Lu\u00eds Carlos Prestes<\/em>. Posf\u00e1cio de Anita Leocadia Prestes. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2011, p. 371-375.<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"http:\/\/prestesaressurgir.blogspot.com\/2011\/10\/o-cavaleiro-da-esperanca-vida-de-luiz.html\" target=\"_blank\">http:\/\/prestesaressurgir.blogspot.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: PCB\n\n\n\n\n\n\n\n\nPor Anita Leocadia Prestes\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2015\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[23],"tags":[],"class_list":["post-2015","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c29-organizacao"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-wv","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2015","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2015"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2015\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2015"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2015"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2015"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}