{"id":20154,"date":"2018-07-05T19:22:00","date_gmt":"2018-07-05T22:22:00","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=20154"},"modified":"2018-07-05T19:24:30","modified_gmt":"2018-07-05T22:24:30","slug":"mexico-entre-a-esperanca-e-a-conciliacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20154","title":{"rendered":"M\u00e9xico entre a esperan\u00e7a e a concilia\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/178.62.201.127\/sites\/default\/files\/styles\/scale_extra_small\/public\/amlo1_0.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por Di\u00f3genes Moura Breda<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.iela.ufsc.br\/noticia\/mexico-entre-esperanca-e-conciliacao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">IELA<\/a><\/p>\n<p><em>\u201cTodo parec\u00eda estar como en espera de algo\u201d<br \/>\nJuan Rulfo, Pedro P\u00e1ramo, 1955.<\/em><\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 a primeira vez em d\u00e9cadas que sa\u00edmos \u00e0s ruas para comemorar uma vit\u00f3ria pol\u00edtica&#8221;, comenta uma amiga que vive na Cidade do M\u00e9xico. Ao fundo da liga\u00e7\u00e3o, exclama\u00e7\u00f5es de milhares de pessoas que caminhavam rumo ao Z\u00f3calo, o grande quadril\u00e1tero formado pela Catedral Metropolitana, pelas ru\u00ednas do Templo Mayor, pelo Pal\u00e1cio Nacional e por outros pr\u00e9dios coloniais da capital mexicana. Na noite do 1\u00ba de julho de 2018, o conhecido ponto de encontro n\u00e3o acolheu uma marcha pela apari\u00e7\u00e3o dos 43 estudantes de Ayotzinapa, contra a privatiza\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo, contra a reforma educativa ou em mem\u00f3ria dos mortos de 2 outubro de 1968. N\u00e3o. Desta vez, a bandeira tricolor levantada no centro da pra\u00e7a maior da capital tremulava com os gritos de esperan\u00e7a de um pa\u00eds destro\u00e7ado, ap\u00f3s o processo eleitoral mais violento da hist\u00f3ria recente e sobre o qual pairava, uma vez mais, o fantasma das fraudes eleitorais que obstru\u00edram o caminho da esquerda em elei\u00e7\u00f5es passadas.<\/p>\n<p>Andr\u00e9s Manuel Lopez Obrador, ou simplesmente AMLO, \u00e9 o s\u00edmbolo desta esperan\u00e7a renovada, de uma esperan\u00e7a cultivada a fogo baixo por alguns, a ferro quente por muitos outros, durante quatro d\u00e9cadas de neoliberalismo e de terrorismo de Estado. Eleito com mais de 53% dos votos, a vit\u00f3ria contundente da coaliz\u00e3o \u201cJuntos Haremos Historia\u201d p\u00f5e fim ao dom\u00ednio do PRI\/PAN que vendeu o pa\u00eds, abriu as portas ao imperialismo estadunidense, massacrou professores, estudantes, jornalistas, mulheres, ind\u00edgenas e camponeses. Al\u00e9m do mais, a coaliza\u00e7\u00e3o liderada pelo MORENA (Movimento de Regenera\u00e7\u00e3o Nacional) de AMLO conseguiu maioria absoluta na C\u00e2mara de Deputados e no Senado, e venceu em 5 das 9 elei\u00e7\u00f5es estaduais em disputa, elegendo, inclusive, a segunda mulher governadora da Cidade do M\u00e9xico.<\/p>\n<p><strong>A trajet\u00f3ria de um pa\u00eds despeda\u00e7ado<\/strong><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i1.wp.com\/pcb.org.br\/portal\/images\/stories\/outras-opinioes.png\" alt=\"imagem\" \/>A vit\u00f3ria contundente nas urnas e a f\u00e9 popular em novos tempos s\u00e3o, por um lado, compreens\u00edveis. Desde 1994, com a assinatura do Tratado de Livre Com\u00e9rcio da Am\u00e9rica do Norte (TLCAN), o M\u00e9xico consolidou sua depend\u00eancia econ\u00f4mica, pol\u00edtica e militar aos Estados Unidos iniciada em 1982, durante a crise da d\u00edvida externa. As j\u00e1 conhecidas receitas do FMI foram aplicadas de forma exemplar, como em nenhum outro pa\u00eds da Am\u00e9rica Latina. Ao ajuste fiscal permanente e \u00e0 abertura comercial e financeira somaram-se a inger\u00eancia direta na pol\u00edtica e na seguran\u00e7a daquela na\u00e7\u00e3o pelo imperialismo ianque, que culminou na assinatura, em 2008, da Iniciativa M\u00e9rida, irm\u00e3 g\u00eamea do plano de \u201ccombate ao narcotr\u00e1fico\u201d instalado na Col\u00f4mbia nos anos 2000.<\/p>\n<p>Desse caldo de cultivo nefasto para as maiorias brotou um pa\u00eds mutilado. A ind\u00fastria estatal foi rifada para a elite mexicana, cuja riqueza f\u00e1cil a colocou entre as mais opulentas do mundo: Carlos Slim, um dos homens mais ricos do planeta, fez sua fortuna comprando as empresas estatais de telecomunica\u00e7\u00f5es. Pequenos e m\u00e9dios empres\u00e1rios foram \u00e0 fal\u00eancia. Em seus lugares apareceram as maquiladoras estadunidenses, que produzem para a exporta\u00e7\u00e3o e deixam como saldo sal\u00e1rios miser\u00e1veis.<\/p>\n<p>A abertura comercial jogou o campo na mis\u00e9ria, pois a importa\u00e7\u00e3o de alimentos, principalmente do milho \u2013 altamente subsidiado \u2013 dos EUA, inviabilizou a produ\u00e7\u00e3o local e a perman\u00eancia dos camponeses e ind\u00edgenas em suas terras comunais. Absurdo da hist\u00f3ria: em 2018, o M\u00e9xico, la civilizaci\u00f3n del ma\u00edz, se tornar\u00e1 o maior importador de milho do mundo, com cerca de 54% de todo o seu consumo proveniente do exterior. Praticamente a totalidade das importa\u00e7\u00f5es \u00e9 de milho amarelo transg\u00eanico dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Sem esperan\u00e7as, a massa empobrecida do campo fez suas trouxas e engrossou a fileiras dos pobres urbanos. Esses e aqueles logo perceberam que o melhor seria seguir pal\u2019 Norte buscar, apinhados no trem da morte, La Bestia, ou nas m\u00e3os de traficantes de gentes, los coyotes, uma vida melhor no mesmo pa\u00eds que os expulsava de seus lares. A di\u00e1spora mexicana e centro-americana \u2013 de salvadorenhos, nicaraguenses e guatemaltecos \u2013, \u00e9 um dos epis\u00f3dios mais tristes do nosso tempo.<\/p>\n<p><strong>As resist\u00eancias e o momento do \u00a1basta ya!: os sexenios de Calder\u00f3n e Pe\u00f1a Nieto<\/strong><\/p>\n<p>Ainda que o contexto brevemente esbo\u00e7ado torne a elei\u00e7\u00e3o de AMLO intelig\u00edvel em linhas gerais, faltam dois elementos para completar o quadro. O primeiro \u00e9 o da resist\u00eancia popular em todos esses anos. Os adjetivos de \u201cpacato\u201d e \u201cresignado\u201d n\u00e3o t\u00eam lugar no vocabul\u00e1rio do povo mexicano, que protagonizou a primeira e a maior revolu\u00e7\u00e3o popular do s\u00e9culo XX na Am\u00e9rica Latina. A luta de classes no M\u00e9xico n\u00e3o \u00e9 um domingo no parque. Assim, a implementa\u00e7\u00e3o do neoliberalismo se enfrentou com obst\u00e1culos nas urnas e nas ruas. A burguesia mexicana e os EUA combateram as candidaturas de esquerda atrav\u00e9s de fraudes: a primeira em 1988, que deu a Carlos Salinas de Gortari a presid\u00eancia, tirando-a de Cuauhtem\u00f3c C\u00e1rdenas, o qual ganhava a contagem at\u00e9 uma esdr\u00faxula queda no sistema de apura\u00e7\u00e3o, que, ap\u00f3s corrigida, fez aparecer o nome de Salinas como vencedor. Como mandat\u00e1rio, Salinas privatizou as telecomunica\u00e7\u00f5es e os bancos, reformou o artigo 27 da Constitui\u00e7\u00e3o \u2013 que permitiu a venda de terras ejidais (comunit\u00e1rias) \u2013 e assinou o TLCAN. Era o candidato do imp\u00e9rio. A segunda fraude foi contra o pr\u00f3prio L\u00f3pez Obrador, em 2006, e a terceira em 2012, tamb\u00e9m contra ele. Foram \u201celeitos\u201d nesses anos, respectivamente, Felipe Calder\u00f3n, o presidente que iniciou a \u201cguerra contra o narcotr\u00e1fico\u201d e Enrique Pe\u00f1a Nieto (EPN), o \u201cassassino de Atenco\u201d e que seguiu a linhas dos antecessores e em breve deixar\u00e1 o cargo. Falaremos de sua gest\u00e3o mais abaixo.<\/p>\n<p>O M\u00e9xico profundo n\u00e3o fez por menos nesses anos. O Ex\u00e9rcito Zapatista de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional entrou de forma triunfal na vida pol\u00edtica nacional no dia da assinatura do TLCAN, em primeiro de janeiro de 1994. Express\u00e3o de uma realidade que se fazia cada vez mais insuport\u00e1vel, o exemplo zapatista ajudou a levantar uma centena de movimentos ind\u00edgenas, de trabalhadores e camponeses por todo o pa\u00eds. Basta recordar a resist\u00eancia dos lutadores e lutadoras de Atenco frente ao massacre ordenado por EPN e a Assembleia Popular dos Povos de Oaxaca, ambos em 2006; a luta da comunidade de Cher\u00e1n e as demais pol\u00edcias comunit\u00e1rias de Guerrero, Michoac\u00e1n, etc.; a luta dos maestros e maestras da educa\u00e7\u00e3o, o movimento estudantil YoSoy132 e, mais recentemente, a como\u00e7\u00e3o nacional pelo desaparecimento dos 43 estudantes da Escola Normal de Ayotzinapa.<\/p>\n<p>A t\u00f4nica dos anos 90 do s\u00e9culo XX e das duas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XXI \u00e9 de uma luta de classes intensa, renhida, em que o capital estrangeiro e a elite mexicana transnacionalizada constru\u00edram, com o aux\u00edlio do Departamento de Estado dos EUA, uma pol\u00edtica de controle e exterm\u00ednio dos movimentos populares a partir do Estado, uma guerra aos pobres e \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es de esquerda travestida de \u201cguerra ao narcotr\u00e1fico\u201d. A esquerda, por sua vez, resistia, brigava por conservar direitos e territ\u00f3rios, sempre em desvantagem.<\/p>\n<p>Os dois \u00faltimos governos mexicanos, o de Enrique Calder\u00f3n (PAN) e de Enrique Pe\u00f1a Nieto (PRI), foram a gota d\u2019\u00e1gua para a insatisfa\u00e7\u00e3o popular. O primeiro deixou um saldo de 250.000 mortos e desaparecidos \u2013 segundo dados oficiais &#8211; com uma guerra ao narcotr\u00e1fico que s\u00f3 reestruturou o tr\u00e1fico em torno de dois grandes cart\u00e9is e cimentou a alian\u00e7a entre governos locais, estaduais e federal pelo reparto dos lucros do tr\u00e1fico. A militariza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e o despojo de comunidades agr\u00e1rias e ind\u00edgenas seguiu no mandato de Enrique Pe\u00f1a Nieto (2012 \u2013 2018), cujo s\u00edmbolo foi o desaparecimento dos 43 de Ayotzinapa. Mas o mandat\u00e1rio priista foi al\u00e9m. No come\u00e7o de seu governo, o PRI costurou o Pacto por M\u00e9xico, uma alian\u00e7a com o PAN de Calder\u00f3n e com o PRD, partido fundado pela ala esquerda do PRI em 1989 e que pouco a pouco foi se alinhando ao grande capital. O Pacto completou a pol\u00edtica neoliberal iniciada na d\u00e9cada de 80:\u00a0 abriu o setor do petr\u00f3leo \u2013 at\u00e9 ent\u00e3o monop\u00f3lio estatal \u2013 para as empresas transnacionais, aprovou \u00e0 for\u00e7a uma reforma educativa que precarizou o trabalho dos docentes, uns dos setores pol\u00edticos mais ativos do pa\u00eds, e imp\u00f4s uma reforma trabalhista aos moldes da que se aprovou no Brasil em 2017.<\/p>\n<p>O saldo que deixaram os dois \u00faltimos governos, na esteira de seus antecessores, \u00e9 de um pa\u00eds com 45% de sua popula\u00e7\u00e3o pobre (56 milh\u00f5es de pessoas), com uma informalidade no mercado de trabalho que beira os 60% da popula\u00e7\u00e3o ocupada e com \u00edndices de homic\u00eddios assustadores (33 por 100 mil a n\u00edvel nacional, 90 por 100 mil em estados como Guerrero). O pa\u00eds mais perigoso do mundo para exercer o jornalismo, o pa\u00eds onde lutar pelos seus direitos \u00e9 uma decis\u00e3o de vida ou morte.<\/p>\n<p>Os resultados das urnas de 1\u00ba de julho s\u00e3o um grito de ya basta a uma realidade insustent\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>L\u00f3pez Obrador, encurralado entre a esperan\u00e7a e a concilia\u00e7\u00e3o\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Desejo e realidade raramente caminham juntos. Em pol\u00edtica, menos ainda. Os significados que diferentes classes, setores de classe e grupos organizados atribuem a um significante nem sempre \u2013 diria, raramente \u2013 se corporificam, tais quais, naquele\/a cumpre o segundo papel. No caso mexicano, a vit\u00f3ria majorit\u00e1ria de Andr\u00e9s Manuel L\u00f3pez Obrador (AMLO) representa o desejo genu\u00edno de milh\u00f5es de cidad\u00e3os em uma transforma\u00e7\u00e3o estrutural da sociedade. N\u00e3o se trata de um desejo de revolu\u00e7\u00e3o, mas de uma aposta popular pelo fim da viol\u00eancia e da corrup\u00e7\u00e3o generalizada, por empregos dignos, por educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade p\u00fablicas, por soberania nacional e democracia participativa. AMLO simboliza essa esperan\u00e7a, e durante sua campanha soube capt\u00e1-la muito bem com o chamado \u00e0 \u201cquarta transforma\u00e7\u00e3o do M\u00e9xico\u201d. Em suas palavras, a primeira transforma\u00e7\u00e3o foi a Independ\u00eancia, em 1810; a segunda foi a Reforma, resultante da guerra de 1858-1961; a terceira, a Revolu\u00e7\u00e3o Mexicana iniciada em 1910. Todas elas, afirmou, foram feitas de forma violenta, mesmo a contragosto de seus l\u00edderes, mas pela primeira vez abre-se a possibilidade de uma transforma\u00e7\u00e3o pac\u00edfica e conciliadora, encabe\u00e7ada pelo seu partido.<\/p>\n<p>Ao anunciar a quarta transforma\u00e7\u00e3o, AMLO reivindica para si o lugar de continuador de uma tradi\u00e7\u00e3o secular de lutas pela afirma\u00e7\u00e3o da na\u00e7\u00e3o mexicana. Seu percurso na pol\u00edtica (<a href=\"http:\/\/www.iela.ufsc.br\/noticia\/lopez-obrador-e-o-novo-presidente-do-mexico\">veja aqui<\/a>) comprova, de fato, um compromisso com as grandes causas nacionais. Como militante do PRI e, posteriormente, do PRD, sempre sustentou posi\u00e7\u00f5es nacionalistas e anti-imperialistas e n\u00e3o vacilou em abandonar as fileiras daqueles partidos quando percebeu que se incorporavam \u00e0 ordem dominante. A funda\u00e7\u00e3o do Movimento de Regenera\u00e7\u00e3o Nacional (MORENA) em 2011 ganhou a simpatia da popula\u00e7\u00e3o justamente por apresentar uma alternativa pol\u00edtico-eleitoral fora da tr\u00edade PRI-PAN-PRD, cada vez mais desacreditada, e por ser a \u00fanica for\u00e7a partid\u00e1ria a lutar contra os ataques \u00e0 soberania nacional e aos direitos dos trabalhadores, como no caso da privatiza\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo, da reforma educativa e da pol\u00edtica de guerra \u00e0s drogas.<\/p>\n<p>Por outro lado, os demais setores da esquerda, sobretudo os movimentos ind\u00edgenas e camponeses, mas tamb\u00e9m setores estudantis e de trabalhadores urbanos, leram a convers\u00e3o neoliberal e a degenera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos partidos tradicionais como uma degenera\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o nacionalista nascida da Revolu\u00e7\u00e3o Mexicana e passaram a identificar qualquer \u201cprojeto nacional\u201d como uma armadilha das elites contra o povo. Tal identifica\u00e7\u00e3o, em grande medida justific\u00e1vel pela trajet\u00f3ria do PRI e do PRD, deixou a esquerda radical carente de uma demanda articuladora de toda a sociedade, que seria a luta por um outro projeto nacional, popular e anticapitalista. Assim, acossada pelo terrorismo de Estado que tentou e tenta elimin\u00e1-la, este setor da luta popular, apesar de sua combatividade e resist\u00eancia, permaneceu isolada das maiorias ao levantar a bandeira da autonomia dissociada de um projeto nacional.<\/p>\n<p>O trajeto do zapatismo ilustra a tese aqui proposta: de principal for\u00e7a pol\u00edtica da esquerda na d\u00e9cada de 1990 at\u00e9 a metade dos anos 2000, foi progressivamente limitando sua milit\u00e2ncia \u00e0 defesa de suas comunidades e \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o de suas bases de apoio. O fracasso na constru\u00e7\u00e3o da candidatura independente \u00e0 presid\u00eancia de Marichuy pelo EZLN e pelo Congresso Nacional Ind\u00edgena demonstra a marginaliza\u00e7\u00e3o do zapatismo na conjuntura pol\u00edtica mexicana atual: das 860 mil assinaturas necess\u00e1rias para o registro da candidatura, conseguiu-se apenas 250 mil. Novamente, com a afirma\u00e7\u00e3o anterior n\u00e3o pretendo desautorizar o zapatismo como for\u00e7a pol\u00edtica de esquerda, mas apenas evidenciar uma trajet\u00f3ria que o deslocou da linha de frente da luta de classes no M\u00e9xico.<\/p>\n<p>Ahora bien, sem concorrentes no campo da esquerda a candidatura de L\u00f3pez Obrador teve o caminho livre para apresentar-se como alternativa eleitoral \u00e0 situa\u00e7\u00e3o calamitosa do pa\u00eds. A elei\u00e7\u00e3o deste 1\u00ba de julho \u00e9 fruto dessa situa\u00e7\u00e3o, de sua hist\u00f3ria pol\u00edtica que o legitima como significante do desejo geral de mudan\u00e7a, e tamb\u00e9m da milit\u00e2ncia de base do MORENA, um verdadeiro ex\u00e9rcito de volunt\u00e1rios que nos \u00faltimos oito anos empreendeu a tarefa de convencimento dos setores populares e das classes m\u00e9dias. Por\u00e9m, o que mais salta aos olhos nestas elei\u00e7\u00f5es \u00e9 a mudan\u00e7a de perspectiva das classes dominantes, que passaram a admitir a elei\u00e7\u00e3o de um candidato que at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s intitulavam de o \u201cHugo Ch\u00e1vez mexicano\u201d. H\u00e1 dois fatores que concorrem para esta mudan\u00e7a de postura. O primeiro \u00e9 o pr\u00f3prio programa do MORENA para a presid\u00eancia, o Proyeto de Naci\u00f3n 2018-2024. O segundo \u00e9 a reconfigura\u00e7\u00e3o do capitalismo dependente mexicano diante das mudan\u00e7as na pol\u00edtica econ\u00f4mica e externa dos EUA.<\/p>\n<p>Vejamos, pois, o que est\u00e1 por dentro da quarta transforma\u00e7\u00e3o de L\u00f3pez Obrador. A linha-mestra do discurso que cativou o eleitorado passa pelo combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o e \u00e0 inseguran\u00e7a. Para combater a \u201cm\u00e1fia no poder\u201d, percebido como o principal problema do pa\u00eds pela maioria dos mexicanos, AMLO aposta em seu passado ilibado e em um conjunto de medidas como a fiscaliza\u00e7\u00e3o dos fundos p\u00fablicos, a nomea\u00e7\u00e3o de pessoas incorrupt\u00edveis para postos estrat\u00e9gicos, e a tipifica\u00e7\u00e3o dos crimes de desvio de fundos p\u00fablicos e conflito de interesses em delitos graves. O objetivo \u00e9 eliminar a articula\u00e7\u00e3o entre os distintos n\u00edveis de governo e o crime organizado. Falta, no entanto, uma caracteriza\u00e7\u00e3o mais profunda da corrup\u00e7\u00e3o, sobretudo no que toca \u00e0 inger\u00eancia de grandes grupos empresariais, nacionais e estrangeiros, no manejo da pol\u00edtica mexicana como pr\u00e1tica estabelecida para a rapinagem do patrim\u00f4nio p\u00fablico e das terras comunais para grandes projetos agr\u00edcolas e de minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o ao problema da inseguran\u00e7a, quest\u00e3o diretamente relacionada ao narcotr\u00e1fico, pouco h\u00e1 de concreto. Ap\u00f3s ser duramente criticado por suas propostas de perdoar a pequenos e m\u00e9dios traficantes e modificar a pol\u00edtica de drogas, o AMLO voltou atr\u00e1s e afirmou que reunir\u00e1 especialistas mexicanos e estrangeiros para encontrar uma solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica para a viol\u00eancia generalizada no pa\u00eds. Trata-se de um problema de dif\u00edcil solu\u00e7\u00e3o, mas que passa necessariamente por uma ruptura com a pol\u00edtica de guerra \u00e0s drogas organizada pelos EUA no M\u00e9xico, a Iniciativa M\u00e9rida. Se bem faltam propostas mais detalhadas, Andr\u00e9s Manuel posicionou-se contr\u00e1rio \u00e0 pol\u00edtica de combate ao narcotr\u00e1fico das duas \u00faltimas gest\u00f5es e se comprometeu a revisar as rela\u00e7\u00f5es com os EUA neste campo.<\/p>\n<p>O futuro presidente conecta o tema do narcotr\u00e1fico ao tema da economia e da pol\u00edtica social. Diz que o cultivo, processamento e venda das drogas s\u00f3 poder\u00e1 ser combatido com desenvolvimento econ\u00f4mico e social. Se bem h\u00e1 certa coer\u00eancia formal nesta rela\u00e7\u00e3o, h\u00e1 problemas de conte\u00fado, problemas que, ali\u00e1s, atravessam todas suas propostas no campo da economia. Aqui reside, talvez, o n\u00facleo das contradi\u00e7\u00f5es do Projeto de Naci\u00f3n 2018-2024 proposto por AMLO, que promete dar prioridade aos pobres e, ao mesmo tempo, manter intacta a abertura comercial e financeira, o super\u00e1vit prim\u00e1rio, o c\u00e2mbio flutuante e a autonomia do Banco Central. A promessa em manter a f\u00f3rmula que profundou a depend\u00eancia mexicana desde os anos 80 do s\u00e9culo XX \u00e9 claramente um compromisso com o grande capital nacional \u2013 o que sobrou dele \u2013 e o capital transnacional, compromisso que foi articulado pelo futuro Chefe de Gabinete da Presid\u00eancia de AMLO, Alfonzo Romo, grande capitalista com neg\u00f3cios nos setores de tabaco, sementes, seguros, energia, t\u00eaxtil, entre outros, al\u00e9m de ter conhecidas rela\u00e7\u00f5es com o capital estrangeiro, com quem fez neg\u00f3cios durante toda sua vida.<\/p>\n<p>O outro encarregado da implementa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f4mica ser\u00e1 Carlos Urz\u00faa, futuro Secret\u00e1rio da Fazenda. Urz\u00faa \u00e9 professor de Economia no conservador Instituto Tecnol\u00f3gico de Monterrey e ostenta uma carreira bem-sucedida como consultor do Banco Mundial. \u00c9 um velho conhecido de L\u00f3pez Obrador \u2013 foi o Secret\u00e1rio de Finan\u00e7as durante sua gest\u00e3o como prefeito da Cidade do M\u00e9xico \u2013 e junto com Romo ser\u00e1 o respons\u00e1vel por elevar o investimento p\u00fablico e criar um clima prop\u00edcio ao investimento privado \u2013 nacional e estrangeiro \u2013. Nas dezenas de palestras que proferiu durante a campanha presidencial, comprometeu-se com a pol\u00edtica de super\u00e1vits fiscais, com o controle da infla\u00e7\u00e3o, com a autonomia do Banco Central e com a livre flutua\u00e7\u00e3o do c\u00e2mbio. A lista se completa com Graciela M\u00e1rquez Col\u00edn, mencionada acima, que ser\u00e1 a Secretaria de Economia. Professora de Economia do prestigiado Col\u00e9gio de M\u00e9xico e entusiasta do livre com\u00e9rcio, seu lema \u00e9 retomar o crescimento econ\u00f4mico, cuja trajet\u00f3ria tem sido desapontadora desde 1983, e garantir melhores condi\u00e7\u00f5es para o pa\u00eds no TLCAN.<\/p>\n<p>Ao conceder ao grande capital a condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f4mica, AMLO coloca em xeque a promessa de fazer um governo para todos, uma vez que a reprodu\u00e7\u00e3o do capitalismo mexicano, tal como foi armada nas \u00faltimas 4 d\u00e9cadas, implica necessariamente a preserva\u00e7\u00e3o dos principais atrativos da economia mexicana para o capital, a saber, uma massa disposta a trabalhar por sal\u00e1rios aviltantes e o campo aberto para a implementa\u00e7\u00e3o de megaprojetos em territ\u00f3rios ind\u00edgenas e comunais. As concess\u00f5es ao grande capital e a manuten\u00e7\u00e3o do trip\u00e9 econ\u00f4mico neoliberal da mesma forma empacam a promessa de reconstru\u00e7\u00e3o de uma estrutura industrial voltada ao mercado interno e com sal\u00e1rios elevados, sobretudo nas regi\u00f5es mais pobres do pa\u00eds. Uma poss\u00edvel renegocia\u00e7\u00e3o do TLCAN, em que o M\u00e9xico pleiteia o aumento do conte\u00fado local nas empresas estadunidenses sediadas no pa\u00eds, dificilmente ser\u00e1 aceita pelo governo Trump, devido a seu giro por retomar o emprego industrial em solo estadunidense.<\/p>\n<p>Finalmente, as evasivas sobre a pol\u00edtica energ\u00e9tica durante a campanha deixam d\u00favidas sobre a retomada do controle do petr\u00f3leo pelo Estado. AMLO prometeu respeitar os contratos da reforma energ\u00e9tica de EPN, revisando somente aqueles suspeitos de corrup\u00e7\u00e3o. Mas nada disse sobre revog\u00e1-la.<\/p>\n<p>Vemos, portanto, que o n\u00facleo duro do pr\u00f3ximo mandato costurou compromissos muito s\u00f3lidos com o chamado setor empresarial (leia-se, o grande capital), e tudo indica que dar\u00e1 continuidade ao modelo de acumula\u00e7\u00e3o dependente do capitalismo mexicano. Entende-se, aqui, a progressiva aceita\u00e7\u00e3o do grande capital ao programa de L\u00f3pez Obrador, com a aposta de que, no fundo, tudo mudar\u00e1 para que tudo siga igual. Contribui para este apoio a necessidade, por parte do grande empresariado nacional, de uma postura mais firme do governo mexicano em rela\u00e7\u00e3o governo Trump, pois este v\u00eam dificultando as exporta\u00e7\u00f5es do pa\u00eds ao mercado estadunidense.<\/p>\n<p>Do outro lado, est\u00e1 um movimento popular que se fia na trajet\u00f3ria de esquerda do futuro presidente e nas promessas de que o governo dar\u00e1 voz e poder aos de abajo, para que tenham condi\u00e7\u00f5es de ganhar a queda de bra\u00e7o dos pr\u00f3ximos seis anos. Os compromissos de revogar a reforma educativa e a privatiza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua, de rever os contratos de concess\u00f5es \u00e0s mineradoras estrangeiras, de fortalecer a educa\u00e7\u00e3o e a sa\u00fade p\u00fablica atra\u00edram para a candidatura importantes sindicatos. As principais se\u00e7\u00f5es da Coordinadora Nacional de Trabajadores de la Educaci\u00f3n, a CNTE, e do Sindicato Nacional Minero declararam apoio. Eletricit\u00e1rios e telefonistas demonstraram simpatia, mesmo sem um apoio formal. Por\u00e9m, diferentemente do que ocorreu no Brasil, onde o apoio de centrais sindicais e movimentos sociais aos governos do PT resultou em paralisia pol\u00edtica, os sindicatos de esquerda e os movimentos populares dificilmente se contentar\u00e3o com as pol\u00edticas sociais focalizadas (bolsas de estudo, renda m\u00ednima aos aposentados etc.) prometidas pelo novo governo. H\u00e1 uma grande autonomia em rela\u00e7\u00e3o ao novo governo e, na aus\u00eancia de uma transforma\u00e7\u00e3o estrutural mais profunda em favor das maiorias, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que se voltar\u00e1 a ver o combativo povo mexicano nas ruas do pa\u00eds pressionando o governo que ele mesmo elegeu.<\/p>\n<p>Entre as bases do MORENA comenta-se de que a elei\u00e7\u00f5es s\u00e3o o primeiro passo da constru\u00e7\u00e3o de uma nova hegemonia pol\u00edtica no pa\u00eds. A confian\u00e7a \u00e9 de que as maiorias parlamentares eleitas na C\u00e2mara de Deputados e no Senado, e a centena de deputados eleitos em todo o pa\u00eds consigam revogar as reformas estruturais neoliberais e transformar a na\u00e7\u00e3o a partir do parlamento. Em que pese o otimismo pela vit\u00f3ria eleitoral, \u00e9 pouco prov\u00e1vel que haja for\u00e7a pol\u00edtica para grandes transforma\u00e7\u00f5es sem a press\u00e3o popular organizada.<\/p>\n<p>Os pr\u00f3ximos seis anos no M\u00e9xico ser\u00e3o de batalhas encarni\u00e7adas. Ambos lados da luta de classes trataram de garantir a melhor disposi\u00e7\u00e3o de suas pe\u00e7as no tabuleiro pol\u00edtico nacional. O grande capital, apoiado pelo imperialismo estadunidense, pressionar\u00e1 por dentro, mas n\u00e3o ter\u00e1 escr\u00fapulos em desestabilizar o governo caso L\u00f3pez Obrador acene de maneira decidida para a classe trabalhadora. Esta encontrar\u00e1 um terreno mais prop\u00edcio para sua organiza\u00e7\u00e3o, principalmente se o pr\u00f3ximo governo puser um fim no terrorismo de Estado, que atualmente faz da milit\u00e2ncia pol\u00edtica uma quest\u00e3o de vida ou morte. A esperan\u00e7a popular \u00e9 um combust\u00edvel poderoso e deve ser aproveitado rapidamente, antes que se transforme em resigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Que venha a quarta transforma\u00e7\u00e3o! E que venha de m\u00e3os dadas com o povo.<\/p>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o: Governar para todos, mas primeiro para os pobres<\/p>\n<p>http:\/\/www.iela.ufsc.br\/noticia\/mexico-entre-esperanca-e-conciliacao<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20154\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[90,104],"tags":[228],"class_list":["post-20154","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c103-mexico","category-c117-outras-opinioes","tag-5b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5f4","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20154","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20154"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20154\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20154"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20154"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20154"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}