{"id":2016,"date":"2011-10-28T21:18:19","date_gmt":"2011-10-28T21:18:19","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2016"},"modified":"2011-10-28T21:18:19","modified_gmt":"2011-10-28T21:18:19","slug":"santos-sinal-verde-para-a-guerra-suja-na-colombia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2016","title":{"rendered":"Santos, sinal verde para a guerra suja na Col\u00f4mbia"},"content":{"rendered":"\n<p>Como parte de uma controvertida reforma da Justi\u00e7a (que produziu um \u00e2mago de choque entre o Executivo e a Corte Suprema e o Conselho de Estado)<sup><sup>i<\/sup><\/sup>, o governo de Juan Manoel Santos incluiu, de \u00faltima hora, um artigo que <em>\u201cestabelece a presun\u00e7\u00e3o de que os delitos cometidos por policiais e militares correspondem a atos de servi\u00e7o e ser\u00e3o conhecidos somente pela justi\u00e7a penal militar, salvo exce\u00e7\u00f5es pontuais.\u201d<\/em><sup><sup>ii<\/sup><\/sup> O artigo dizia textualmente <em>\u201cEm todo caso, se presume a rela\u00e7\u00e3o com o servi\u00e7o nas opera\u00e7\u00f5es militares e procedimentos da Pol\u00edcia Nacional. Nessas situa\u00e7\u00f5es, quando tenha lugar o exerc\u00edcio da a\u00e7\u00e3o penal, a mesma se adiantar\u00e1 pela Justi\u00e7a Penal Militar e Policial\u201d<\/em>. Segundo o Ministro da Defesa Pinz\u00f3n, \u00e9 necess\u00e1rio para proporcionar \u201cmaior seguran\u00e7a jur\u00eddica (impunidade?) \u00e0 tropa em sua guerra contra-insurgente. Ainda quando a impunidade seja alt\u00edssima na Col\u00f4mbia, sobretudo relativo a crimes de Estado (os quais beiram 98%), esse artigo n\u00e3o oculta sua pretens\u00e3o de torn\u00e1-la absoluta, fazendo a popula\u00e7\u00e3o ainda mais vulner\u00e1vel do que j\u00e1 \u00e9.<\/p>\n<p>Diante desta grande impunidade, a tenacidade de algumas organiza\u00e7\u00f5es defensoras dos direitos humanos, assim como o trabalho de certos ju\u00edzes independentes, de car\u00e1ter (os quais tem sido v\u00edtimas da persegui\u00e7\u00e3o dos organismos do Estado<sup><sup>iii<\/sup><\/sup>, alguns chegando a ser assassinados)<sup> <sup>iv<\/sup><\/sup> , tem levado a um n\u00famero relativamente insignificante de fardados ante os tribunais (4.280 processos judiciais, insignificantes considerando a escala das atrocidades que s\u00e3o cometidas na Col\u00f4mbia, mas significativos desde o ponto de vista pol\u00edtico)<sup><sup>v<\/sup><\/sup> por sua participa\u00e7\u00e3o em crimes atrozes, o qual foi suficiente para gerar pavor entre as filas castrenses. Segundo, o senador oficial Roy Barreras, \u201c<em>al\u00e9m do temor dos militares de perder a vida em combate, est\u00e1 o temor de terminar na cadeia por uma condena\u00e7\u00e3o na qual a investiga\u00e7\u00e3o e o julgamento s\u00e3o feitos por civis que desconhecem a linguagem e os procedimentos da guerra\u201d<\/em>.<sup><sup>vi<\/sup><\/sup><\/p>\n<p>Diante desse sofisma, o Estado colombiano tira sua m\u00e1scara de \u201cdemocracia assediada\u201d e de \u201crespeito aos seres humanos\u201d para mostrar, ao nu, a necessidade que tem de deixar o terrorismo de Estado e os crimes atrozes para avan\u00e7ar na guerra contra-insurgente&#8230; procedimento que os \u201cburros civis\u201d desconhecem ou n\u00e3o aceitam de boa vontade.<\/p>\n<p>Apesar de toda a ret\u00f3rica vazia do governo de Santos de que sua estrat\u00e9gia militar se ap\u00f3ia no respeito irrestrito aos direitos humanos (em parte, engenhada para tirar das costas o pesado fardo dos \u201cfalsos positivos\u201d que lhe aflige desde sua \u00e9poca de Ministro da Defesa do governo anterior). Na palavra de seus pr\u00f3prios ministros e parlamentares, os direitos humanos representam um estorvo ao ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio aclarar com detalhes as limita\u00e7\u00f5es \u00f3bvias da Justi\u00e7a Penal Militar, a qual coloca o ladr\u00e3o a julgar o ladr\u00e3o \u2013 n\u00e3o \u00e9 de surpreender-se que os escassos processos que tem terminado em condena\u00e7\u00f5es militares, sejam por obra e gra\u00e7a da justi\u00e7a ordin\u00e1ria (casos que incluem o desaparecimento de pessoas, a promo\u00e7\u00e3o de esquadr\u00f5es da morte para estuprar e torturar \u201csuspeitos\u201d e que incluem o seq\u00fcestro de civis para assassin\u00e1-los e apresent\u00e1-los como \u201cguerrilheiros dados como baixa no combate\u201d &#8211; ou \u201cfalsos positivos\u201d &#8211; entre outros crimes igualmente perversos). H\u00e1 tamb\u00e9m limita\u00e7\u00f5es mais espec\u00edficas, as quais t\u00eam sido suficientemente denunciadas pelo parlamentar e dirigente do Movimento Nacional de V\u00edtimas de Crimes de Estado (MOVICE), Iv\u00e1n Cepeda, que declarou que esta n\u00e3o cobre temas como o narcotr\u00e1fico, extors\u00f5es, viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos, acordos para delinq\u00fcir, entre outros \u2013 todos temas pelos quais alguns fardados est\u00e3o comparecendo ante as cortes.<sup><sup>vii<\/sup><\/sup><\/p>\n<p>Todos seriam, agora, \u201catos de servi\u00e7o\u201d. Como exemplo de como interpreta o Estado como \u201catos de servi\u00e7o\u201d, temos o p\u00e9rfido assassinato a tiros pelas costas do adolescente grafiteiro Diego Felipe Becerra<sup><sup>viii<\/sup><\/sup>, o qual foi passado \u00e0 Justi\u00e7a militar porque a Promotoria estimou que esse inescus\u00e1vel infantic\u00eddio constituiria um \u201cato de servi\u00e7o\u201d.<sup><sup>ix<\/sup><\/sup> Dif\u00edcil \u00e9 negar, com essa classe de \u201ccrit\u00e9rio\u201d, que Col\u00f4mbia n\u00e3o somente seja o imp\u00e9rio da impunidade, mas tamb\u00e9m o da arbitrariedade.<\/p>\n<p>Devido \u00e0 pol\u00eamica que essa inclus\u00e3o ocasionou de \u00faltima hora, o Ministro do Interior, Vargas Lleras, afirmou sexta-feira passada que, finalmente, esse artigo n\u00e3o faria parte da reforma, mas que seria apresentado como outro projeto<sup><sup>x<\/sup><\/sup>. Independentemente de se a amplia\u00e7\u00e3o do foro militar faria parte ou n\u00e3o da reforma judicial, o certo \u00e9 que o que essa proposta coloca no tapete \u00e9 a necessidade que o governo de Santos sente de aprofundar a guerra suja como uma maneira de conter os avan\u00e7os da insurg\u00eancia, cujos ataques crescem continuamente desde 2005, mas os quais s\u00e3o mais evidentes desde 2009.<\/p>\n<p><strong>Atolamento da sa\u00edda militar ao conflito social e armado<\/strong><\/p>\n<p>Para al\u00e9m do triunfalismo midi\u00e1tico que se imp\u00f4s durante a \u00faltima d\u00e9cada, como parte de uma guerra psicol\u00f3gica do Estado, a insurg\u00eancia est\u00e1 longe do \u201cfim do fim\u201d como assegurou em 2008 o deca\u00eddo general Montoya. Em lugar de sucumbir ante a gigantesca ofensiva montada com bilh\u00f5es de d\u00f3lares aportados pelo governo dos EUA para o Plano Col\u00f4mbia, com tantos mais aportados para planos de \u201ccoopera\u00e7\u00e3o civil-militar\u201d e planos de \u201ccoopera\u00e7\u00e3o\u201d, com um hipertrofiado ex\u00e9rcito de cerca de meio milh\u00e3o de homens, com toda a assist\u00eancia t\u00e9cnica que recebem de Israel ou EUA, com um gasto militar mantido superior ao 5% do PIB, com uma rede de informantes de dimens\u00f5es mais pr\u00f3prias da Alemanha nazista que de uma suposta \u201cdemocracia ocidental\u201d (dois milh\u00f5es de pessoas oficialmente reconhecidas), com milhares de paramilitares realizando tarefas de mil\u00edcias privadas em praticamente todo o territ\u00f3rio, com bombardeios de propor\u00e7\u00f5es b\u00edblicas nos quais se arrojam toneladas de bombas sobre a selva (n\u00e3o \u00e9 casual o nome da \u201cOpera\u00e7\u00e3o Sodoma\u201d), com a colabora\u00e7\u00e3o militar dos governos \u201cprogressistas\u201d da Venezuela e Equador&#8230; com toda essa press\u00e3o militar, a insurg\u00eancia, longe de ter sido derrotada, tem assimilado os golpes, tem adequado sua estrat\u00e9gia e tem retomado, em vastas regi\u00f5es do pa\u00eds, a ofensiva.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o \u00e9 algo que est\u00e3o inventando os \u201c\u00e1ulicos da guerrilha\u201d, como denominava o ex-presidente Uribe V\u00e9lez a quem ousasse questionar sua \u201crevelada e divina\u201d pol\u00edtica da (in)Seguran\u00e7a (anti)Democr\u00e1tica. N\u00e3o, \u00e9 algo que reconhecem organismos como a Corpora\u00e7\u00e3o Novo Arco Iris (CNAI), dirigida pelo estrito colaborador do presidente Santos e entusiasta partissan da Seguran\u00e7a Democr\u00e1tica, Le\u00f3n Valencia.<\/p>\n<p>O que dizem os \u00faltimos informes da CNAI? Segundo o informe intitulado \u201c<em>Da Guerra de Jojoy \u00e0 Guerra de Cano<\/em>\u201d<sup><sup>xi<\/sup><\/sup>, as FARC-EP teriam adequado sua estrat\u00e9gia em v\u00e1rios aspectos cruciais mediante o chamado \u201cPlano 2010\u201d:<\/p>\n<ul>\n<li>\n<p>Abandono \tda guerra de posi\u00e7\u00f5es e das grandes mobiliza\u00e7\u00f5es de tropas que \tcaracterizaram o per\u00edodo de 1996-2007; volta \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o de \tpequenos contingentes de alta mobilidade pra evitar ser detectados \tpelo ar e predom\u00ednio da instiga\u00e7\u00e3o como forma de ataque;<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p>Descentraliza\u00e7\u00e3o \tdas estruturas guerrilheiras para absorver os golpes do ex\u00e9rcito \taos comandos m\u00e9dios e aos comandantes;<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p>Cria\u00e7\u00e3o \tde Unidades T\u00e1ticas de Combate com especialistas em explosivos e \tespecializa\u00e7\u00e3o de guerrilheiros como franco-atiradores;<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p>Cria\u00e7\u00e3o <em>ad hoc <\/em>de \t\u201ccomandos conjuntos de \u00e1rea\u201d entre diferentes frentes que se \tcombinam e dispersam em fun\u00e7\u00e3o de tarefas espec\u00edficas;<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p>Desenvolvimento \tde campos minados com minas suspensas e estrat\u00e9gias de minas \tofensivas na beira de caminhos<\/p>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p><sup><sup>xii<\/sup><\/sup><\/p>\n<p>Em um novo informe, <em>\u201cA Nova Realidade das FARC\u201d<\/em> d\u00e3o conta de novos aspectos da estrat\u00e9gia militar das FARC-EP:<\/p>\n<ul>\n<li>\n<p>Utiliza\u00e7\u00e3o \tde carros-bomba que facilitariam golpear guarni\u00e7\u00f5es militares sem \tnecessidade de agrupamentos massivos de tropas;<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p>Desenvolvimento \tde corpos de elite, que se especializaram em penetrar nas linhas de \tguarda de diversas frentes e golpear com ataques explosivos da \tretaguarda.<\/p>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p>Sobre o ELN, os informes da CNAI confirmam uma tend\u00eancia ao fortalecimento dessa guerrilha e a consolida\u00e7\u00e3o de sua hegemonia em tr\u00eas \u00e1reas do pa\u00eds \u2013 Cauca, Nari\u00f1o e Arauca. Tem havido expans\u00e3o de suas frentes no Choc\u00f3, Antioquia e mant\u00e9m sua presen\u00e7a em \u00e1reas como o Sul de Bolivar, Cesar e Norte de Santander. O pacto pol\u00edtico-militar com as FARC-EP n\u00e3o somente teria servido para controlar o conflito entre ambas organiza\u00e7\u00f5es em certas regi\u00f5es como Arauca, mas tamb\u00e9m para potencializar a luta contra as for\u00e7as do Estado colombiano. Sua estrat\u00e9gia militar tem sido caracterizada por:<\/p>\n<ul>\n<li>\n<p>A \torganiza\u00e7\u00e3o de estruturas pequenas e o fortalecimento das redes de \tapoio;<\/p>\n<\/li>\n<li>\n<p>Estrat\u00e9gia \tde retirada, para evitar golpe direto da ofensiva do \tex\u00e9rcito-paramilitares;<sup><sup>xiii<\/sup><\/sup><\/p>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p>Os resultados n\u00e3o deixam de ser surpreendentes para quem tem digerido anos de propaganda sobre o \u201cfim do fim\u201d: 2010 terminou com mais de 2000 baixas na For\u00e7a P\u00fablica<sup><sup>xiv<\/sup><\/sup> &#8211; 1885 baixas somente at\u00e9 setembro de 2010 segundo a CNAI<sup><sup>xv<\/sup><\/sup>. Entre janeiro e maio de 2011, a For\u00e7a P\u00fablica sofreu 967 baixas.<sup><sup>xvi<\/sup><\/sup> Tampouco se ajustam os resultados ao cen\u00e1rio descrito pelo ex-ministro de Defesa Rivera, quem definia essas baixas como \u201cbra\u00e7adas de afogado\u201d, como a\u00e7\u00f5es desesperadas de uma insurg\u00eancia encurralada.<\/p>\n<p>Obviamente, os golpes insurgentes t\u00eam atingido o governo de Santos, propiciando uma mudan\u00e7a de Ministro da Defesa em setembro, com a sa\u00edda do ent\u00e3o ministro Rodrigo Rivera, e a entrada de Juan Carlos Pinz\u00f3n. Da mesma maneira, mudou-se a comand\u00e2ncia das For\u00e7as Militares, passando a comand\u00e2ncia geral do almirante Edgar Cely ao general Alejandro Navas. Mudan\u00e7as que, sem d\u00favida, refletem a insatisfa\u00e7\u00e3o do <em>establishment<\/em> com o rumo da guerra.<sup><sup>xvii<\/sup><\/sup><\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m esses golpes tiveram um impacto sobre a moral do ex\u00e9rcito. Segundo o \u00faltimo informe da CNAI, a situa\u00e7\u00e3o do desgaste ou desmoraliza\u00e7\u00e3o das tropas do Estado dever-se-iam aos embates da nova estrat\u00e9gia de luta guerrilheira, a prolonga\u00e7\u00e3o de campanhas militares infrut\u00edferas e a certeza de que n\u00e3o h\u00e1 para quando o anunciado \u201cfim do fim\u201d. Segundo esse mesmo informe, a estrat\u00e9gia das for\u00e7as armadas tem sido exitosa desde uma perspectiva midi\u00e1tica, mas n\u00e3o assim no terreno do combate.<sup><sup>xviii<\/sup><\/sup> Ou seja, <strong>pode-se mentir a esse setor do pa\u00eds idiotizado com a televis\u00e3o e a propaganda do governo, mas n\u00e3o quem vive o conflito em carne e osso.<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 compreendendo esse panorama que melhor entendemos as vozes que surgem hoje para culpar o judici\u00e1rio do atolamento militar: \u201c<em>A tese se desprende da que se ouve h\u00e1 tempos nos quart\u00e9is: n\u00e3o se pode ganhar uma guerra suja com armas limpas<\/em>\u201d.<sup><sup>xix<\/sup><\/sup><\/p>\n<p><strong>Mais al\u00e9m da dicotomia santismo-uribismo: uma guerra de classes contra os camponeses e os setores populares<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de todos os esfor\u00e7os dos apologistas de Santos para mostr\u00e1-lo como uma vers\u00e3o civilizada de seu predecessor, o troglodita Uribe Velez, os argumentos com os quais tem defendido a amplia\u00e7\u00e3o do foro militar, reproduzem ao p\u00e9 da letra a cantiga recitada pelo proto-fascista assessor presidencial de Uribe, Jos\u00e9 Obdulio Gaviria, que expressou que a desmoraliza\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito deve-se a que \u201c<em>as for\u00e7as militares e at\u00e9 a pol\u00edcia est\u00e3o sendo v\u00edtimas de uma persegui\u00e7\u00e3o muito forte de parte da promotoria (&#8230;) Qualquer opera\u00e7\u00e3o da for\u00e7a p\u00fablica \u00e9 examinada como se fosse um crime, e isso tem baixado muit\u00edssimo a moral das for\u00e7as armadas<\/em>\u201d.<sup><sup>xx<\/sup><\/sup><\/p>\n<p>Uma l\u00f3gica parecida tem sido aplicada por Jos\u00e9 Felix Lafaurie, presidente da Federa\u00e7\u00e3o de Ganaderos (Fedeg\u00e1n), gr\u00eamio que apoiou ativamente o surgimento da maquinaria de morte paramilitar conhecida como as Autodefesas Unidas da Col\u00f4mbia (AUC), organismo respons\u00e1vel pelo assassinato e desaparecimento de dezenas de milhares de colombianos, e o deslocamento for\u00e7ado de milh\u00f5es de camponeses cujas terras tem acabado em boa medida nas m\u00e3os de latifundi\u00e1rios pecuaristas. Os pecuaristas n\u00e3o ocultam seu interesse em aprofundar a guerra contra-insurgente que tem dado enormes privil\u00e9gios econ\u00f4micos, como revela o ultimo informe do PNUD.<sup><sup>xxi<\/sup><\/sup> Na realidade, eles est\u00e3o no centro do conflito social e armado que a Col\u00f4mbia vive, e s\u00e3o uma parte integral das \u201ccondi\u00e7\u00f5es estruturais\u201d que alimentam a viol\u00eancia pol\u00edtica. Lafaurie insiste, igual que Jos\u00e9 Obdulio Gaviria, que a baixa moral das tropas \u201c<em>est\u00e1 em que a justi\u00e7a e a sociedade voltem-se contra elas, e se nutre de uma estrat\u00e9gia de desprest\u00edgio midi\u00e1tico da institui\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d.<sup><sup>xxii<\/sup><\/sup> Ou seja, a sociedade deveria calar-se ante os falsos positivos, os bombardeios indiscriminados, os esquadr\u00f5es da morte, a viol\u00eancia sistem\u00e1tica contra a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em outro artigo, Lafaurie definiu os militares como \u201c<em>cidad\u00e3os especiais, fora do comum<\/em>\u201d, que n\u00e3o podem ser julgados por uma justi\u00e7a ordin\u00e1ria, ainda quando seus crimes afetem a popula\u00e7\u00e3o civil, porque essa desconheceria as t\u00e1ticas e as estrat\u00e9gias de guerra. Implicitamente, se reconhece que a viola\u00e7\u00e3o os direitos humanos \u00e9 parte dessas \u201cestrat\u00e9gias\u201d. Mas a \u201cl\u00f3gica\u201d perversa desse argumento (que a justi\u00e7a civil desconhece os \u201cprocedimentos de guerra\u201d e portanto estaria inabilitada para julgar militares) tem sido brilhantemente evidenciada pelo colunista Alfredo Molano, que indica que \u201c<em>Os militares argumentam que a justi\u00e7a civil n\u00e3o sabe de condutas militares e portanto n\u00e3o pode decidir sobre elas, que \u00e9 como dizer que porque os ju\u00edzes n\u00e3o s\u00e3o empres\u00e1rios n\u00e3o podem decidir sobre delitos mercantis; ou que por n\u00e3o ser m\u00e9dicos deveriam abster-se de decis\u00f5es em caso de homic\u00eddios culposos por, digamos, deixar um bisturi na barriga de um cliente operado de apendicite. Nesse passo, chegamos ao ponto que somente os pecuaristas est\u00e3o habilitados para legislar sobre mat\u00e9rias agr\u00e1rias. Melhor dizendo, para que leis, havendo armas?<\/em><sup><sup>xxiii<\/sup><\/sup><\/p>\n<p>Mas, qual \u00e9 a conclus\u00e3o a qual chega Lafaurie com essa perversa \u201cl\u00f3gica\u201d? Sem pelos na l\u00edngua, diz que \u201c<em>necessitamos dotar de garantias os homens e as opera\u00e7\u00f5es militares. Estamos demorando em limpar o caminho a nossos her\u00f3is an\u00f4nimos. Necessitamos reconhecer a natureza destes homens e aliviar o desassossego que acompanha a tarefa de ser militar hoje na Col\u00f4mbia\u201d<\/em>.<sup><sup>xxiv<\/sup><\/sup> Lafaurie insiste em outra coluna escrita em setembro que \u201c<em>a urg\u00eancia de melhorar o bem-estar da for\u00e7a p\u00fablica, passa (&#8230;) por fortalecer o Foro e Justi\u00e7a Penal Militar (&#8230;) Uma democracia plena como a nossa pode e deve derrotar os violentos, e o far\u00e1 pelas m\u00e3os do Foro Militar. As guerras se ganham no cora\u00e7\u00e3o dos soldados\u201d<\/em>.<sup><sup>xxv<\/sup><\/sup><\/p>\n<p>\u00c9 importante referir-se \u00e0s declara\u00e7\u00f5es do Presidente de Fedeg\u00e1n, porque elas refletem os setores que enriqueceram mediante a guerra e que hoje buscam aprofund\u00e1-la, os setores que jamais apostar\u00e3o numa solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do conflito armado que ponha em quest\u00e3o a posse ileg\u00edtima que tem de 39% das terras.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A natureza de classe deste conflito, assim como o rol dos fazendeiros que representa Lafaurie, s\u00e3o evidenciados num relato sobre o deslocamento de camponeses nas regi\u00f5es de Guanapalo e Charras, em San Jos\u00e9 del Guaviare, num informe que j\u00e1 citamos da CNAI:<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u201cO representante da C\u00e2mara Ignacio Antonio Javela adquiriu 1.250 hectares de terras dos camponeses dessa regi\u00e3o, mas outros come\u00e7am a deslocar-se ante as amea\u00e7as e intimida\u00e7\u00f5es. Enquanto grupos ilegais rearmados come\u00e7aram a posicionar-se sobre a denominada <em>Trocha<\/em><em>Ganadera<\/em>, onde atualmente exercem press\u00e3o contra algumas comunidades camponesas. As FARC, por sua parte, proibiram os camponeses de vender seus estabelecimentos e manifestaram que defender\u00e3o a zona de outros grupos armados ilegais.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Implicitamente se trata de expulsar para concentrar a propriedade da terra. As compras massivas de terra a muito baixo pre\u00e7o ou mediante a intimida\u00e7\u00e3o armada levaram a um deslocamento gota a gota nessa regi\u00e3o. Paradoxalmente, o que garante a propriedade aos camponeses e colonos \u00e9 um grupo armado ilegal \u2013 as FARC \u2013 e n\u00e3o o Estado\u201d. [26]<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>O \u00faltimo informe do CODHES nos diz que boa parte da expans\u00e3o paramilitar se est\u00e1 dando em zonas de consolida\u00e7\u00e3o ou de forte presen\u00e7a da for\u00e7a p\u00fablica. Segundo eles, no primeiro semestre de 2011, segundo suas informa\u00e7\u00f5es parciais e preliminares, se haviam deslocado cerca de 89.750 pessoas, e destas 28% procedentes das zonas de consolida\u00e7\u00e3o territorial do Estado [27], o que coincide, a grosso modo, com as cifras globais de deslocamento de 2010, que indicariam 33% de deslocamento das zonas de consolida\u00e7\u00e3o [28]. Este deslocamento vem dos megaprojetos, do agroneg\u00f3cio, do latif\u00fandio, da minera\u00e7\u00e3o [29].<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Ao final das contas, apesar da dicotomia que se pretendeu fazer entre a pol\u00edtica de Uribe V\u00e9lez e a de Santos, existe uma continuidade deste modelo de guerra que beneficia um padr\u00e3o de enriquecimento por deslocamento violento.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Dial\u00e9tica pol\u00edtica do conflito social e armado<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Os latifundi\u00e1rios sabem muito bem por qu\u00ea pedem a gritos aprofundar a impunidade e com ela a guerra suja: porque um conflito que n\u00e3o \u00e9 somente militar, sen\u00e3o antes de tudo social como o colombiano n\u00e3o pode ganhar-se sen\u00e3o mediante a aplica\u00e7\u00e3o \u00e0 grande escala do terrorismo de Estado contra a popula\u00e7\u00e3o. Isto explica muito bem Ever Veloza, ali\u00e1s HH, um dos paramilitares que fez por v\u00e1rios anos o trabalho sujo do Estado a mando das Autodefesas Camponesas de C\u00f3rdoba e Urab\u00e1 (ACCU) e, mais tarde, das AUC, sobre a estrat\u00e9gia de terra arrasada do paramilitarismo, numa entrevista em 2008:<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u201cA guerrilha est\u00e1, mas n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o forte como antes. Quando n\u00f3s come\u00e7amos nas AUC, a guerrilha tinha o controle de todo o pa\u00eds, como no Urab\u00e1. Hoje em dia a guerrilha est\u00e1 em setores marginais. Por isso o movimento das autodefesas n\u00e3o fracassou. Foi tanto o crescimento e a penetra\u00e7\u00e3o das autodefesas a n\u00edvel nacional que olhe quantos pol\u00edticos est\u00e3o na pris\u00e3o por v\u00ednculos conosco, quantos militares est\u00e3o vinculados, quantos empres\u00e1rios. Eu creio que foi um \u00eaxito total.\u201d [30]<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Talvez um \u00eaxito puramente militar, no imediato, mas n\u00e3o um \u00eaxito sustent\u00e1vel ou total quando se considera a natureza social do conflito. Desde 2008, quando HH faz essas declara\u00e7\u00f5es, a insurg\u00eancia conseguiu reverter o avan\u00e7o das For\u00e7as Militares durante a primeira fase do Plano Col\u00f4mbia e voltou a mostrar um renovado dinamismo. Esse dinamismo est\u00e1 ligado, indubitavelmente, \u00e0 dial\u00e9tica pol\u00edtica do conflito, por mais que o discurso oficial tente \u201cpabloescobatizar\u201d a insurg\u00eancia [31] \u2013 algo que, que al\u00e9m do mais n\u00e3o \u00e9 nada novo, j\u00e1 que desde o come\u00e7o se buscou \u201cbandolerizar\u201d a insurg\u00eancia para assim negar as profundas causas estruturais, pol\u00edticas e sociais que a animam. O paradoxo \u00e9 que enquanto se nega que a insurg\u00eancia tem motiva\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, o ex\u00e9rcito trabalha junto aos grupos paramilitares que se definem como \u201canti-comunistas\u201d [32]. N\u00e3o deve surpreender que o oficialismo negue a legitimidade pol\u00edtica da insurg\u00eancia. Jamais uma tirania (e a Col\u00f4mbia, desde o ponto de vista pol\u00edtico e humanit\u00e1rio, n\u00e3o pode ser considerada outra coisa pese os formalismos democr\u00e1ticos ritualizados) aceitou a legitimidade de quem a enfrenta [33].<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Mas os informes da CNAI, sinalizam que \u00e9 no terreno pol\u00edtico onde se encontram em grande medida as ra\u00edzes deste novo dinamismo da insurg\u00eancia. Sobre as novas orienta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas na insurg\u00eancia, nos sinaliza um informe relativo \u00e0s FARC-EP que \u201cAlfonso Cano (&#8230;) conseguiu dar ao grupo guerrilheiro uma nova estrat\u00e9gia militar e um novo rumo pol\u00edtico. Este antrop\u00f3logo, apesar de suas ra\u00edzes urbanas, pode coordenar a guerrilha das FARC composta majoritariamente por camponeses (&#8230;).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 essa din\u00e2mica pol\u00edtica que explica as coloca\u00e7\u00f5es de Santos em um discurso no dia 28 de Setembro em uma base militar em Nari\u00f1o: \u201cSabemos muito bem que a estrat\u00e9gia das FARC vai ser a de estimular o protesto social e a de infiltrar esse protesto social para produzir viol\u00eancia, produzir caos\u201d [35]. N\u00e3o \u00e9 casualidade o ineg\u00e1vel odor \u201curibista\u201d destas temerosas acusa\u00e7\u00f5es, que novamente colocam em contradi\u00e7\u00e3o quem pretende construir a imagem de Santos como um \u201ccavaleiro democr\u00e1tico\u201d (\u00e0 diferen\u00e7a do seu antecessor e professor Uribe).<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Refletem uma compreens\u00e3o de que o conflito n\u00e3o \u00e9 somente armado, sen\u00e3o antes de tudo social, e que a reativa\u00e7\u00e3o do protesto popular tende a ser coincidente com a reativa\u00e7\u00e3o da luta armada, n\u00e3o porque os movimentos sociais ou as organiza\u00e7\u00f5es populares sejam \u201cfachadas da guerrilha\u201d ou \u201cguerrilheiros civis\u201d como freq\u00fcentemente dizem as elites para estigmatizar e para minar a legitimidade dos movimentos \u2013 como se n\u00e3o houvessem causas leg\u00edtimas para o protesto por parte dos estudantes, camponeses, cocaleiros, trabalhadores e comunidades. Para essas elites, toda marcha \u00e9 um \u201csinistro plano do terrorismo\u201d para perturbar a paz social em seu pa\u00eds das maravilhas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A realidade \u00e9 outra: quando existe um incremento do mal estar social e do protesto popular, \u00e9 natural que a insurg\u00eancia canalize parte deste mal estar porque ela foi, goste ou n\u00e3o a ordem estabelecida, uma forma de resposta hist\u00f3rica do povo \u00e0 viol\u00eancia sistem\u00e1tica do Estado contra os de baixo. Cada um pode considerar se \u00e9 uma resposta boa ou ruim, mas \u00e9 ineg\u00e1vel que a insurg\u00eancia n\u00e3o vem da lua para \u201cinfiltrar-se\u201d no povo, mas \u00e9 produto das entranhas das classes populares. Para amplos setores na Col\u00f4mbia, fundamentalmente rurais, a insurg\u00eancia segue sendo uma resposta leg\u00edtima contra a viol\u00eancia de classe institucionalizada pelos fazendeiros e seus s\u00f3cios multinacionais.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Beco<\/strong><strong>sem<\/strong><strong>sa\u00edda<\/strong><strong>para<\/strong><strong>a<\/strong><strong>via<\/strong><strong>militar<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Diante do aumento progressivo do protesto social desde o ano de 2002 [36] e que se tornou explosivo desde 2008, e ante a persist\u00eancia e o rearranjo da luta armada \u2013 rearranjo n\u00e3o apenas militar, mas tamb\u00e9m pol\u00edtico como vimos &#8211; , \u00e9 de se esperar que o governo tente sair do empate do conflito atrav\u00e9s do aprofundamento da guerra suja. E ai est\u00e1 a contradi\u00e7\u00e3o vital da oligarquia colombiana: que seus avan\u00e7os no campo militar comprometem o pol\u00edtico, e que o aprofundamento da guerra suja tem um efeito degradante em suas pr\u00f3prias fileiras. N\u00e3o \u00e9 o julgamento de militares o fundamental da desmoraliza\u00e7\u00e3o ou desgaste das For\u00e7as Armadas na Col\u00f4mbia, mas as causas expostas pelo CNAI: as expectativas imposs\u00edveis de uma vit\u00f3ria f\u00e1cil alimentadas no \u00faltimo per\u00edodo de Uribe V\u00e9lez, o fato de que as campanhas sejam cada vez mais longas e infrut\u00edferas, assim como os golpes crescentes da insurg\u00eancia. O fator sem lugar para d\u00favidas de maior peso na desmoraliza\u00e7\u00e3o das tropas do ex\u00e9rcito colombiano \u00e9 a natureza da guerra absurda que lutam em defesa dos latifundi\u00e1rios, das multinacionais estrangeiras. \u00c9 a natureza mesma de uma guerra degradada fundamentalmente pela a\u00e7\u00e3o do Estado e sua ferramenta paramilitar) que est\u00e1 na base da desmoraliza\u00e7\u00e3o da tropa.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Por mais que a propaganda oficial insista que na \u201cNa Col\u00f4mbia os Her\u00f3is Existem\u201d, a tropa sabe que al\u00e9m de onde se luta a guerra, onde o conflito se sofre na carne e no osso, no terreno, as percep\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito diferentes das dos telespectadores urbanos que acreditam em tudo que a m\u00eddia diz. Seguindo com este mesmo informe do CNAI: \u201ca corrup\u00e7\u00e3o de membros da For\u00e7a P\u00fablica faz com que a popula\u00e7\u00e3o desconfie da institucionalidade. Nos campos orientais, por exemplo, com o Plano Consolida\u00e7\u00e3o, o que se observa \u00e9 que, \u00e0 medida que a For\u00e7a P\u00fablica desloca as FARC, os homens do ERPAC [um esquadr\u00e3o paramilitar] v\u00e3o tomando posi\u00e7\u00f5es. Durante o trabalho de terreno realizado para realizar o presente informe, se conseguiu detectar que as For\u00e7as Militares funcionam em alguns territ\u00f3rios como for\u00e7as de ocupa\u00e7\u00e3o. Novamente, La Macarena \u00e9 o melhor exemplo; ali as denominadas brigadas c\u00edvico-militares parecem a\u00e7\u00f5es t\u00edpicas de for\u00e7as de ocupa\u00e7\u00e3o, servem para fazer censos, lista de pessoas, mas n\u00e3o para consolidar o Estado de Direito. A tropa ainda segue vendo a popula\u00e7\u00e3o civil como um inimigo\u201d [37].<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Nestas condi\u00e7\u00f5es, como se espera ganhar o conflito social e armado pela via militar?<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A insatisfa\u00e7\u00e3o com a presen\u00e7a militar nas regi\u00f5es de tradi\u00e7\u00e3o guerrilheira se reflete em um informe de Gary Leech escrito faz uns meses sobre as opera\u00e7\u00f5es contra \u2018Alfonso Cano\u2019 em Tolima: \u201cA maioria das comunidades na regi\u00e3o viveu sob o controle das FARC por d\u00e9cadas. Um l\u00edder comunit\u00e1rio em Lim\u00f3n explica que as FARC asseguravam que n\u00e3o houvesse viol\u00eancia nem crime, e que os camponeses n\u00e3o agredissem o meio ambiente. Sobre o controle do Estado, o crime vem aumentado e a economia n\u00e3o melhorou. O apoio popular \u00e0 insurg\u00eancia se mant\u00e9m relativamente intacto em suas bases tradicionais\u201d [38]. No inicio de agosto de 2008, no jornal Tempo apareceu um artigo nada honesto que reflete as dificuldades da luta contra-insurgente no Sumapaz: \u201co Ex\u00e9rcito se encontra com uma popula\u00e7\u00e3o que o olha com desconfian\u00e7a. Lugares tradicionalmente comunistas fecham suas portas e seu com\u00e9rcio para os soldados e por ali se v\u00eaem, inclusive, cartazes com a frase \u2018Reyes vive\u2019\u201d [39]. Situa\u00e7\u00f5es parecidas se v\u00eaem em todos os territ\u00f3rios no conflito, nas \u00e1reas tanto de influ\u00eancia das FARC-EP como do ELN, ou de grupos insurgentes menores que tamb\u00e9m existem.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Enquanto isso, a guerra suja continua com sua in\u00e9rcia de seis d\u00e9cadas. Bombardeios indiscriminados em Chaparral; envenenamento com <em>glisofato<\/em> das popula\u00e7\u00f5es no Choc\u00f3 e no Baixo Cauca Antioque\u00f1o; mutila\u00e7\u00f5es, massacres e estupros no Guapi, no sul de Bolivar, em Nari\u00f1o, realizados por paramilitares em perfeita coniv\u00eancia com o ex\u00e9rcito e a pol\u00edcia; cercos paramilitares em Curvarad\u00f3 e Jiguamiand\u00f3; seq\u00fcestro e assassinato de civis para apresent\u00e1-los como \u201cfalsos positivos\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A sa\u00edda militar que foi imposta como o discurso \u00fanico nos c\u00edrculos dominantes est\u00e1 enfrentando uma grave crise de legitimidade, rodeada por um interrogante: que tipo de sociedade se cria mediante esta viol\u00eancia de classe? Que sentido tem o \u201ctriunfo militar\u201d a que aspira o Estado atrav\u00e9s do aprofundamento da guerra suja? Ainda que o governo de Santos insista em que \u201cn\u00e3o jogou fora as chaves da paz\u201d, em sua linguagem paz equivale a vit\u00f3ria militar, que pode ser no campo militar ou na mesa de negocia\u00e7\u00e3o ante uma insurg\u00eancia isolada e desmoralizada. Em sua linguagem, a paz equivale \u00e0 desmobiliza\u00e7\u00e3o das tropas insurgentes e isso n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o um cen\u00e1rio de vit\u00f3ria militar.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>As chaves da paz se encontram, mesmo com o que possa crer o governo, no campo de batalha, no campo da luta de classes: quem tem as chaves \u00e9 o movimento popular que come\u00e7a a dar passos muito importantes de articula\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o, como se verifica em certas iniciativas de converg\u00eancia popular e encontros como os de Barrancabermeja e Cali, que d\u00e3o mostras do desejo do povo de converter-se em um ator em direito pr\u00f3prio, gestor de sua pr\u00f3pria institucionalidade, de seu poder, de seu pr\u00f3prio projeto de futuro.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Eles v\u00eam elaborando as propostas para a solu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica; porque sabem que a paz n\u00e3o significa simplesmente aus\u00eancia de conflito. De pouco serve que se declare a paz enquanto subsiste a viol\u00eancia institucionalizada do Estado, essa viol\u00eancia sistem\u00e1tica do capitalismo, que aniquila por fome milhares de colombianos ano ap\u00f3s ano. Essa viol\u00eancia que se expressa nos Tratados de Livre Com\u00e9rcio e em um desenvolvimento nacional que destr\u00f3i as comunidades e a vida dos seres humanos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00c9 hora de evocar uma vez mais os horizontes emancipat\u00f3rios que animaram o povo colombiano durante d\u00e9cadas, entender estas aspira\u00e7\u00f5es e necessidades profundas, l\u00ea-las e atualiz\u00e1-las sob o sinal de nossos novos tempos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Enquanto o Estado se prepara para aprofundar a guerra suja, o povo se prepara para aprofundar seu projeto emancipador.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Traduzido por Coletivo Paulo Petry, n\u00facleo da UJC\/PCB em Cuba.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>NOTAS DEL AUTOR:<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[1] http:\/\/elespectador.com\/noticias\/judicial\/articulo-2895&#8230;forma<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[2] http:\/\/www.semana.com\/politica\/gobierno-incluye-ampliac&#8230;.aspx<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[3] http:\/\/anarkismo.net\/article\/16405 http:\/\/anarkismo.net\/article\/16403<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[4] http:\/\/anarkismo.net\/article\/19272<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[5] Estamos hablando de poco menos del 1% de los uniformados siendo procesados por violaciones graves a los Derechos Humanos, en circunstancias que estas pr\u00e1cticas terroristas son ampliamente aplicadas en la instituci\u00f3n castrense, son aprendidas y transmitidas en cadena de mando.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[6] http:\/\/www.semana.com\/politica\/gobierno-incluye-ampliac&#8230;.aspx<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[7] http:\/\/elespectador.com\/noticias\/judicial\/articulo-3040&#8230;lidad<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[8] http:\/\/www.eltiempo.com\/colombia\/bogota\/ARTICULO-WEB-NE&#8230;.html http:\/\/www.semana.com\/nacion\/diego-felipe-muerte-muchas&#8230;.aspx<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[9] http:\/\/www.semana.com\/nacion\/caso-patrullero-disparo-gr&#8230;.aspx<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[10] http:\/\/www.semana.com\/nacion\/reversazo-del-gobierno-tem&#8230;.aspx<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[11] En \u201cRevista Arcanos\u201d N\u00famero 16, Abril del 2011, pp.28-47.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[12] \u201cLa Guerra contra y de las FARC\u201d, en \u201cRevista Arcanos\u201d, N\u00famero 15, Abril del 2010, p.20.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[13] \u201cELN: Debilitamiento Nacional, Fortalecimiento Regional\u201d, en \u201cRevista Arcanos\u201d, N\u00famero 16, Abril del 2011, pp.62-72.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[14] http:\/\/www.ddhh-colombia.org\/html\/noticias%20ddhh\/estad&#8230;1.pdf<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[15] \u201cLa Nueva Realidad de las FARC\u201d, p.42<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[16] Ibid, p.9<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[17] http:\/\/www.elespectador.com\/noticias\/judicial\/articulo-&#8230;tares<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[18] \u201cLa Nueva Realidad de las FARC\u201d, p.10. Reconocen, por ejemplo, que la muerte del \u2018Mono Jojoy\u2019 no trajo las desmovilizaciones masivas que se esperaban, y por el contrario, el ej\u00e9rcito enfrent\u00f3 una tenaz resistencia, con tres o hasta cinco combates diarios semanas despu\u00e9s del bombardeo, lo cual no indica, precisamente, desmoralizaci\u00f3n de la insurgencia a\u00fan ante un golpe tan contundente.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[19] http:\/\/www.elespectador.com\/impreso\/opinion\/columna-299&#8230;acaos<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[20] http:\/\/www.bbc.co.uk\/mundo\/noticias\/2011\/07\/110719_colo&#8230;shtml<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[21] http:\/\/pnudcolombia.org\/indh2011\/index.php\/el-informe\/r&#8230;vo\/31<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[22] El Colombiano, 3 de Septiembre, 2011, puede consultarse en http:\/\/www.pensamientocolombia.org\/DebateNacional\/?p=37516<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[23] http:\/\/elespectador.com\/impreso\/opinion\/columna-299951-&#8230;acaos<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[24] El Heraldo, 16 de Septiembre, 2011, puede consultarse en http:\/\/www.pensamientocolombia.org\/DebateNacional\/?p=37922<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[25] El Universal, 10 de Septiembre, 2011, puede consultarse en http:\/\/www.pensamientocolombia.org\/DebateNacional\/?p=37737<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[26] \u201cLa Guerra de y contra las FARC\u201d, p.9 (subrayado nuestro)<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[27]http:\/\/www.codhes.org\/images\/stories\/pdf\/codhes%20infor&#8230;8.pdf<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[28] http:\/\/www.codhes.org\/images\/stories\/pdf\/bolet%C3%ADn%2&#8230;7.pdf<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[29] http:\/\/anarkismo.net\/article\/19933<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[30] http:\/\/www.elespectador.com\/impreso\/judicial\/articuloim&#8230;fiesa<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[31]http:\/\/www.elcolombiano.com\/BancoConocimiento\/L\/las_far&#8230;a.asp<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[32] El Ej\u00e9rcito Revolucionario Popular Anti-Comunista (ERPAC) de los Llanos.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[33] El m\u00e1s inmundo de los defensores del paramilitarismo, Ernesto Yamhure, escribi\u00f3, con motivo de un nuevo aniversario del nacimiento del ELN, una columna para El Espectador la cual es t\u00edpica de esta ambivalencia discursiva entre la guerrilla comunista pero sin ideales: \u201cEl pasado 4 de julio, el Eln cumpli\u00f3 47 a\u00f1os de historia delincuencial. Para celebrarlo, emiti\u00f3 una proclama que desempolv\u00f3 el caduco discurso comunista que supuestamente los rige. Quieren hacernos creer que mientras secuestran y trafican con coca\u00edna, sustancia que los hace fabulosamente ricos, estudian a profundidad los textos de Engels y Kropotkin.\u201d http:\/\/www.elespectador.com\/impreso\/opinion\/columna-282&#8230;error Lo interesante del caso, es que su reconocimiento del estudio de Kropotkin reflejar\u00eda una complejidad ideol\u00f3gica mucho mayor que un supuesto \u201ccaduco discurso comunista\u201d.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[34] \u201cLa Nueva Realidad de las FARC\u201d, p.14<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[35] http:\/\/www.elespectador.com\/noticias\/judicial\/articulo-&#8230;ocial<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[36] Seg\u00fan el CINEP, el ciclo de protestas del 2002 al 2008 es el ciclo m\u00e1s alto de luchas populares en el \u00faltimo medio siglo, seg\u00fan el an\u00e1lisis cuantitativo de movilizaciones y acciones colectivas, registr\u00e1ndose un promedio de 643 acciones colectivas anuales (\u201cLa Protesta Social 2002-2008\u201d, CINEP, 2009). Sin embargo, desde el 2008 la protesta social ha adquirido proporciones mucho mayores, con importantes puntos de inflexi\u00f3n como la lucha de los corteros, la minga del 2008 y ahora las movilizaciones de los obreros petroleros y estudiantes.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[37] \u201cLa Nueva Realidad de las FARC\u201d, pp.16-17<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[38] http:\/\/colombiajournal.org\/the-hunt-for-farc-commander-&#8230;o.htm Art\u00edculo original en ingl\u00e9s, la traducci\u00f3n es del autor de este art\u00edculo.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[39] http:\/\/www.eltiempo.com\/archivo\/documento\/CMS-4424463<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>[40] \u201cDe la Guerra de Jojoy\u2026\u201d, p.33<\/p>\n<p>i<\/p>\n<p>ii<\/p>\n<p>iii<\/p>\n<p>iv<\/p>\n<p>v<\/p>\n<p>vi<\/p>\n<p>vii<\/p>\n<p>viii<\/p>\n<p>ix<\/p>\n<p>x<\/p>\n<p>xi<\/p>\n<p>xii<\/p>\n<p>xiii<\/p>\n<p>xiv<\/p>\n<p>xv<\/p>\n<p>xvi<\/p>\n<p>xvii<\/p>\n<p>xviii<\/p>\n<p>xix<\/p>\n<p>xx<\/p>\n<p>xxi<\/p>\n<p>xxii<\/p>\n<p>xxiii<\/p>\n<p>xxiv<\/p>\n<p>xxv<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Raffra\n\n\n\n\n\n\n\n\nJos\u00e9 Ant\u00f4nio Gutierrez D.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2016\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[34],"tags":[],"class_list":["post-2016","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c39-colombia"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-ww","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2016","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2016"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2016\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2016"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2016"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2016"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}