{"id":20226,"date":"2018-07-13T15:31:39","date_gmt":"2018-07-13T18:31:39","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=20226"},"modified":"2018-07-13T15:31:39","modified_gmt":"2018-07-13T18:31:39","slug":"marielle-uma-das-mulheres-do-fim-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20226","title":{"rendered":"Marielle: uma das mulheres do fim do mundo"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ujc.org.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/29243906_1569941593123020_4417124279091462144_n.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more--><\/p>\n<p><strong>Por:<\/strong> Guilherme Tardelli*<\/p>\n<p><b>O poema \u201cCora\u00e7\u00e3o do Mar\u201d, de Oswald de Andrade, musicado por Jos\u00e9 Miguel Wisnik, foi reconstitu\u00eddo na voz de Elza Soares. S\u00e3o injetados \u00e0 composi\u00e7\u00e3o do modernista os dois versos finais, aqui escritos:<\/b><\/p>\n<blockquote><p>\u201cCora\u00e7\u00e3o do Mar<br \/>\n\u00c9 terra que ningu\u00e9m conhece<br \/>\nPermanece ao largo<br \/>\nE cont\u00e9m o pr\u00f3prio mundo como hospedeiro.<br \/>\nTem por nome: \u201cse eu tivesse um amor\u201d<br \/>\nTem por nome: \u201cse eu tivesse um amor\u201d<br \/>\nTem por nome: \u201cse eu tivesse um amor\u201d<br \/>\nTem por bandeira um peda\u00e7o de sangue<br \/>\nOnde flui a correnteza do canal do mangue<br \/>\nTem por sentinelas equipagens, estrelas,<br \/>\ntaifeiros, madrugadas e escolas de samba.<br \/>\n\u00c9 um navio humano,<br \/>\nQuente, negreiro, do mangue.<br \/>\n\u00c9 um navio humano,<br \/>\nQuente, guerreiro, do mangue\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p><i>A Mulher do Fim do Mundo <\/i>tamb\u00e9m \u00e9 uma imagem reconstru\u00edda, do poema <i>Metade P\u00e1ssaro <\/i>(1941), de Murilo Mendes, mas vai al\u00e9m: \u00e9 a personifica\u00e7\u00e3o desta na cantora, \u201cA mulher do fim do mundo\/ D\u00e1 de comer \u00e0s roseiras,\/ D\u00e1 de beber \u00e0s est\u00e1tuas,\/ D\u00e1 de sonhar aos poetas.\u201d Elza \u00e9 a voz que re\u00fane todas as vozes e as canaliza num rompante de dor e resist\u00eancia, como resposta.<\/p>\n<p>A m\u00fasica hom\u00f4nima ao t\u00edtulo do disco aproxima-se do surrealismo, estabelecendo v\u00e1rias conex\u00f5es com Murilo Mendes, num mundo em que cada verso cont\u00e9m uma dor, a imagem potencialmente alegre do carnaval \u00e9 a tristeza da mulher, que passou a \u201cvida na avenida\u201d, que deixou tudo l\u00e1, e livra-se desta para cantar a si mesma no mundo. E o canto se faz pelo canto. Mas n\u00e3o \u00e9 um canto qualquer, \u00e9 um canto que se adensa a cada nova imagem, com as dificuldades da mulher negra, ainda mais da mulher negra consciente da hist\u00f3ria e que resiste.<\/p>\n<p>Elza arrasta seu canto at\u00e9 que, de voz rasgada pela idade, pela hist\u00f3ria, mostra o quanto ainda quer cantar, ainda quer agir. Os instrumentos v\u00e3o acabando at\u00e9 que sobra uma guitarra e a voz dela apenas repetindo e repetindo: \u201cMe deixem cantar at\u00e9 o fim\u201d.<\/p>\n<p>Clara Nunes, que tamb\u00e9m entoou a tristeza do povo, n\u00e3o poderia ser mais precisa: \u201cE de guerra em paz\/ De paz em guerra\/ Todo o povo dessa terra\/ Quando pode cantar\/ Canta de dor\u201d. Aproximando todos estes textos, chegamos \u00e0 uma esp\u00e9cie de ac\u00famulo de imagens do povo brasileiro, de modo que um artista colhe algo do outro e, acima de tudo, colhe algo do movimento da hist\u00f3ria. Vemos surrealismo \u2013 a mulher, que, em meio \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da Segunda Guerra Mundial, reaviva os objetos e os poemas e rosas \u2013 a dor do trabalhador, e a viol\u00eancia, que se repete. Tudo isso faz-se trabalho cotidiano das resistentes brasileiras, que cantam sobre esse horror e resistem, vibrantes.<\/p>\n<p>Ontem foi um dia de grande como\u00e7\u00e3o por Marielle, que n\u00e3o \u00e9 \u00fanica: \u00e9 o fado de muitos negros e negras desde o navio negreiro aos assassinatos nas favelas. Ent\u00e3o, coloco-nos em face do nosso maior poeta, Carlos Drummond de Andrade, no poema <i>Vis\u00e3o 1944<\/i>: \u201cMeus olhos s\u00e3o pequenos para ver\/ a massa de sil\u00eancio concentrada\/ por sobre a onda severa, piso oce\u00e2nico\/ esperando a passagem dos soldados\u201d.<\/p>\n<p>Hoje, sigo em prosa, meus olhos s\u00e3o pequenos para ver os corpos, muitos corpos que se amontoam, mas que reavivam a flor do mundo \u00e0s avessas com seu sangue; a flor que rompe o asfalto, ensopada em sua pr\u00f3pria subst\u00e2ncia, surge lutuosa e brava.<\/p>\n<p>Milh\u00f5es foram \u00e0s ruas ontem, por Marielle e Anderson e Amarildo e Rafael Braga e Cl\u00e1udia e milh\u00f5es sem nome, milh\u00f5es desfigurados pelas mesmas armas, que poderiam libert\u00e1-los. A massa n\u00e3o \u00e9 de sil\u00eancio, \u00e9 de milh\u00f5es de vozes prontas para agir.<\/p>\n<p>Devemos prometer: nenhum nome ser\u00e1 esquecido!<\/p>\n<p>A flor, que brota do asfalto, responde e compreende Marielle, e mostra, em seu movimento, um sentido \u00faltimo: ela era socialista. Ela era militante, mulher, negra e socialista. Sua busca, al\u00e9m da defesa dos direitos humanos, complementava-se com a luta por um mundo novo, pelo fim do Capitalismo.<\/p>\n<p>E milh\u00f5es surgem nas ruas, milh\u00f5es significam a flor, milh\u00f5es na tristeza, milh\u00f5es foram e s\u00e3o assassinados; e outros milh\u00f5es, vivos, buscam tirar a tristeza das coisas significadas sem \u00eanfase, buscam recuperar rela\u00e7\u00f5es humanas, entre seres e n\u00e3o entre coisas no mundo. Buscam entender as coisas e ver nelas trabalho, ver nelas a humanidade, e n\u00e3o uma rela\u00e7\u00e3o fantasmag\u00f3rica entre elas mesmas. O fim do exterm\u00ednio negro, das mulheres, e o fim da explora\u00e7\u00e3o do humano pelo humano eram o horizonte revolucion\u00e1rio de Marielle.<\/p>\n<p>Na Avenida Paulista acendemos velas e marchamos, abrindo caminho pela cidade, rasgando o asfalto. A for\u00e7a n\u00e3o se perde, mas se concentra, e cresce.<\/p>\n<p>Cada ato, cada depoimento emocionado, cada pessoa que se p\u00f5e na rua, para enfrentar o horror, faz viver Marielle, Elza e milh\u00f5es de vozes. Cada instrumento da bateria que vi ontem, cada par de olhos soturnos, cada grito, cada passo na rua, revelavam a revolta popular viva, Marielle viva, todos que ca\u00edram, vivos! Quanto mais eu suava e gritava, mais for\u00e7a aparecia, em mim, para seguir. Vi isso nos outros e vi a indigna\u00e7\u00e3o organizada.<\/p>\n<p>E at\u00e9 o fim vamos cantar, vamos cantar at\u00e9 o fim! Marielle \u00e9 uma das mulheres do fim do mundo. E essa mulher \u00e9 a mulher que anuncia um mundo novo, um mundo cujo homem n\u00e3o explora o homem, um mundo sem classes, sem racismo, sem machismo, sem exterm\u00ednio dos pobres, negros, despossu\u00eddos. E, por isso, pelo fim do mundo, nossa luta, como escreveu o camarada Mauro Iasi, nunca termina\u2026 nunca\u2026 nunca termina!<\/p>\n<p>Marielle, presente! Hoje e sempre!<\/p>\n<p>Aos nossos mortos, nenhum minuto de sil\u00eancio, mas toda uma vida de luta!<\/p>\n<p>*Militante da UJC, n\u00facleo USP.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"V0k3RhVSng\"><p><a href=\"http:\/\/ujc.org.br\/marielle-uma-das-mulheres-do-fim-do-mundo\/\">Marielle: uma das mulheres do fim do mundo<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" src=\"http:\/\/ujc.org.br\/marielle-uma-das-mulheres-do-fim-do-mundo\/embed\/#?secret=V0k3RhVSng\" data-secret=\"V0k3RhVSng\" width=\"600\" height=\"338\" title=\"&#8220;Marielle: uma das mulheres do fim do mundo&#8221; &#8212; UJC\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20226\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[180,244],"tags":[247],"class_list":["post-20226","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-feminista","category-violencia","tag-jd"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5ge","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20226","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20226"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20226\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20226"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20226"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20226"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}