{"id":20258,"date":"2018-07-18T20:58:16","date_gmt":"2018-07-18T23:58:16","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=20258"},"modified":"2018-07-18T20:58:16","modified_gmt":"2018-07-18T23:58:16","slug":"esse-nao-e-seu-lugar-sociologia-do-intelectual-negro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20258","title":{"rendered":"\u201cEsse n\u00e3o \u00e9 seu lugar\u201d &#8211; sociologia do intelectual negro"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/christianjafas.files.wordpress.com\/2010\/01\/miltonsantos01.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->por Jones Manoel*<\/p>\n<p>\u00c9 uma tend\u00eancia, com muito apelo midi\u00e1tico, tratar da dimens\u00e3o de\u00a0inferioriza\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, est\u00e9tica e cultural do(a) negro(a) e da cultura afro e afro-brasileira quando o assunto \u00e9 racismo. Muitas vezes, qui\u00e7\u00e1 na maioria, o complexo de domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-econ\u00f4mica-ideol\u00f3gica compreendido como racismo \u00e9 reduzido a esse determinante do fen\u00f4meno, como se o combate \u00e0 cultura racista, a partir do \u201cempoderamento do negro\u201d, fosse suficiente ou o central no enfrentamento ao racismo.\u00a0\u00a0Na realidade, essa compreens\u00e3o culturalista do racismo e do seu enfrentamento, secundarizando ou ignorando as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e estruturas de poder, \u00e9 um dos grandes problemas e fragilidades do combate antirracista na atualidade: reduz o potencial revolucion\u00e1rio da luta e tende a torn\u00e1-la mais f\u00e1cil de ser assimilada\u00a0pela ordem dominante.<\/p>\n<p>De toda forma, a compreens\u00e3o dos limites do culturalismo (enquanto compreens\u00e3o te\u00f3rica e t\u00e1tica de a\u00e7\u00e3o) n\u00e3o deve fazer ningu\u00e9m menosprezar o papel que cumpre a ideologia na reprodu\u00e7\u00e3o do complexo de domina\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o chamado de racismo. Se olharmos de um ponto de vista formal e sem concretude hist\u00f3rica, podemos argumentar que todo sistema de domina\u00e7\u00e3o seja de casta, classe, ra\u00e7a, g\u00eanero, nacionalidade ou qualquer outra categoria tem como pressuposto criar uma cultura onde o dominante \u00e9 apresentado como superior, bonito, inteligente, merecedor de sua posi\u00e7\u00e3o social e o \u00fanico capacitado para exercer o seu lugar social, e o dominado a ant\u00edtese de tudo isso.<\/p>\n<p>Quando abordamos, especificamente, o racismo no Brasil percebemos que esses elementos de inferioriza\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e cultural do negro e qualquer coisa associado a ele se faz presente com uma for\u00e7a incr\u00edvel. No pa\u00eds do mito da democracia racial \u00e9 bastante dif\u00edcil perceber o n\u00edvel do apartheid \u00e9tnico-racial-classista que separa brancos e negros no Brasil em todos os espa\u00e7os e ambientes da sociedade burguesa.<\/p>\n<p>Dito isso, o objetivo deste pequeno escrito \u00e9 fazer apontamentos sociol\u00f3gicos sobre a exist\u00eancia do intelectual negro em espa\u00e7os socialmente constru\u00eddos para brancos das camadas m\u00e9dias e classe dominante. Digo apontamentos, pois n\u00e3o me proponho a fazer uma reflex\u00e3o mais sistem\u00e1tica buscando incorporar refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas, dados, pesquisas existentes etc. Essas linhas t\u00eam como fundamento, basicamente, a minha experi\u00eancia como negro, militante com perfil de propagandista (propagandista, no sentido leninista, significa aquele militante que atua como um vetor de difus\u00e3o do marxismo e do programa do partido no seio das massas exploradas e dos intelectuais, buscando, al\u00e9m de formas eficazes de conquistar os explorados para a revolu\u00e7\u00e3o, confrontar teoricamente os ide\u00f3logos da classe dominante) e aspirante a intelectual, refletindo as experi\u00eancias cotidianas a partir do arsenal te\u00f3rico que, acredito, est\u00e1 sob meu dom\u00ednio.<\/p>\n<p>Primeiro, a partir da segunda metade do s\u00e9culo XIX, setores da classe dominante brasileira compreenderam que era quest\u00e3o de tempo o fim da escravid\u00e3o \u2013 tend\u00eancia em curso no mundo dada a press\u00e3o da Inglaterra capitalista e as lutas de resist\u00eancia dos negros e negras escravizados \u2013 e prepararam a cria\u00e7\u00e3o de um proletariado branco atrav\u00e9s da imigra\u00e7\u00e3o. O processo de transi\u00e7\u00e3o ao capitalismo iniciado com a independ\u00eancia nacional, aboli\u00e7\u00e3o e primeira constitui\u00e7\u00e3o republicana e consolidado com a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, relegou\u00a0\u00e0\u00a0popula\u00e7\u00e3o negra o papel de ex\u00e9rcito industrial de reserva ou popula\u00e7\u00e3o sobrante. Grande parte do povo negro teve que sobreviver atrav\u00e9s de estrat\u00e9gias alternativas de sobreviv\u00eancia fora do mercado formal ou, quando no mercado de trabalho capitalista, assumindo as fun\u00e7\u00f5es mais degradantes, socialmente inferiorizadas e prec\u00e1rias.<\/p>\n<p>O caso t\u00edpico desse processo \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o primordial da mulher negra no Brasil em desenvolvimento capitalista nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX. Essa mulher negra tinha como uma das principais fun\u00e7\u00f5es empregat\u00edcias o papel de empregada dom\u00e9stica, passadeira, cozinheira e bab\u00e1, fazendo, basicamente, as mesmas fun\u00e7\u00f5es que as escravas dom\u00e9sticas na \u00e9poca da escravid\u00e3o, conservando, inclusive, v\u00e1rias rela\u00e7\u00f5es da escravid\u00e3o como os castigos f\u00edsicos, abusos sexuais onipresentes pelo patr\u00e3o e a arquitetura do \u201cquartinho da empregada\u201d. Nesse sentido, no desenvolvimento capitalista brasileiro, o processo de amplia\u00e7\u00e3o da camada m\u00e9dia e de uma burocracia estatal e privada exclui, no geral, a popula\u00e7\u00e3o negra, criando um quadro de estagna\u00e7\u00e3o da mobilidade social: a popula\u00e7\u00e3o negra, no Brasil, pertence quase que exclusivamente aos setores prolet\u00e1rios, n\u00e3o existindo uma classe m\u00e9dia ou burguesia negra significativa em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>Essa din\u00e2mica do capitalismo dependente criou um processo cultural de subjetiva\u00e7\u00e3o dos sujeitos no qual o negro nunca \u00e9 visto no papel de advogado, m\u00e9dico, juiz, engenheiro, professor universit\u00e1rio, burocrata de remunera\u00e7\u00e3o mais elevada etc. O negro sempre foi o pedreiro, lixeiro, porteiro, mendigo, lavador de carros, seguran\u00e7a e por a\u00ed vai. Essa estratifica\u00e7\u00e3o \u00e9tnico-racial na divis\u00e3o social do trabalho reproduz uma s\u00e9rie de espa\u00e7os sociais com seus respectivos imagin\u00e1rios, onde nunca o negro ser\u00e1 encaixado. Um desses espa\u00e7os \u00e9, sem d\u00favida, a universidade e um conjunto de rela\u00e7\u00f5es associadas ao papel de intelectual.<\/p>\n<p>A imagem t\u00edpica do intelectual n\u00e3o \u00e9 de um negro. Quando imaginamos algu\u00e9m \u201cinteligente\u201d, um grande professor, um pensador de renome, o estere\u00f3tipo b\u00e1sico \u00e9 de um homem branco (de classe m\u00e9dia ou oriundo da burguesia), \u201cbem vestido\u201d, acima dos 40 anos e com ares aristocr\u00e1ticos. N\u00e3o deixa de ser expressivo que, segundo a vers\u00e3o mais aceita na hist\u00f3ria do pensamento social brasileiro, os pais fundadores da nossa moderna compreens\u00e3o do Brasil s\u00e3o Gilberto Freyre, S\u00e9rgio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr. Guardadas todas as diferen\u00e7as pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas entre eles, os tr\u00eas t\u00eam em comum o fato de serem homens brancos de origens aristocr\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o conjunto de rela\u00e7\u00f5es sociais em que um intelectual est\u00e1 envolvido pressup\u00f5e, como parte indissoci\u00e1vel, uma subjetividade e um imagin\u00e1rio branco dos sujeitos participantes desses espa\u00e7os. O branco \u00e9 o professor, o pesquisador e o membro da burocracia universit\u00e1ria de maior n\u00edvel \u2013 diretores, reitores, pr\u00f3-reitores etc. \u2013 e o negro pertence ao corpo de trabalhadores da manuten\u00e7\u00e3o, limpeza, seguran\u00e7a e da baixa burocracia. Dois exemplos expressivos para tratar dessa gest\u00e3o.<\/p>\n<p>At\u00e9 meus 17 anos de idade, meu \u201csonho profissional\u201d era em primeiro lugar arrumar um emprego com \u201ccarteira assinada\u201d (comecei a trabalhar com 14 anos vendendo jornal no sinal) e conseguir ser porteiro em um pr\u00e9dio, dado eu pensar que era um trabalho tranquilo porque \u201cn\u00e3o carregava peso\u201d e recebia \u201cbem\u201d. Nunca me passou pela cabe\u00e7a fazer um curso superior; n\u00e3o fazia ideia de quantas faculdades p\u00fablicas existiam em Pernambuco, o que era o vestibular (sabia apenas que \u201cera uma prova dif\u00edcil\u201d), como entrar na universidade, as op\u00e7\u00f5es de curso ou o sentido social de ter curso superior.<\/p>\n<p>A partir de uma reviravolta que n\u00e3o vale a pena detalhar (a hist\u00f3ria \u00e9 longa) fiz o vestibular com 20 anos de idade e consegui passar. Eu e meu amigo (J\u00falio) fomos os primeiros da Favela da Borborema (lugar onde eu nasci e cresci) a entrar na UFPE; a Borborema tem cerca de 8 mil habitantes. Pois bem, depois dessa aprova\u00e7\u00e3o eu e J\u00falio abrimos um pr\u00e9-vestibular na comunidade chamado \u201cNovo Caminho\u201d, para ajudar os jovens da nossa favela a tamb\u00e9m entrar na universidade p\u00fablica. Quando passamos de porta em porta convidando eles para participar, percebemos um fato interessante: na maior parte do tempo n\u00e3o falamos do projeto, mas explic\u00e1vamos o que era a universidade, como se entrava, que n\u00e3o era pago, que n\u00e3o era imposs\u00edvel passar no vestibular, que fazer faculdade era importante etc. (o projeto foi mantido por dois anos e v\u00e1rios jovens da nossa comunidade conseguiram tamb\u00e9m chegar ao ensino superior).<\/p>\n<p>O segundo exemplo \u00e9 que, quando cheguei na universidade, percebi logo no primeiro ano duas coisas importantes: primeiro, a imensa maioria do corpo docente era branco (s\u00f3 tive um professor negro em toda minha gradua\u00e7\u00e3o e nenhum no meu mestrado), e os meus problemas cotidianos estavam exclu\u00eddos do conjunto de reflex\u00f5es e estudos da sala de aula \u2013 viol\u00eancia policial, exterm\u00ednio da juventude negra, aus\u00eancia de saneamento b\u00e1sico, precariedade dos servi\u00e7os p\u00fablicos, gravidez na adolesc\u00eancia, a cultura das periferias, abandono paterno etc. etc. etc.<\/p>\n<p>Na situa\u00e7\u00e3o de estudante universit\u00e1rio e posteriormente militante de uma organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (a Uni\u00e3o da Juventude Comunista), comecei a exercitar uma habilidade que desde cedo se manifestou, que era a capacidade de me comunicar facilmente: gostar de falar em p\u00fablico e aparentemente falar bem. Em 2013 tive a oportunidade de apresentar minha primeira confer\u00eancia em um semin\u00e1rio sobre a Escola de Frankfurt: meu tema foi a teoria do fascismo na obra de Theodor W. Adorno. Depois da minha apresenta\u00e7\u00e3o, v\u00e1rias pessoas vieram me cumprimentar e parabenizar pela mesa e uma das palavras que mais ouvi foi \u201csurpresa\u201d.<\/p>\n<p>A maioria das pessoas come\u00e7ava os elogios dizendo: \u201cnossa, fiquei surpreso com a&#8230;\u201d e se seguia. Na \u00e9poca pensei que isso era derivado da minha juventude (23 anos) e talvez do meu perfil f\u00edsico e de vestir (bem longe do estere\u00f3tipo de intelectual). De 2013 em diante, seja em espa\u00e7os acad\u00eamicos ou na milit\u00e2ncia pol\u00edtica, tornou-se algo comum fazer mesas, confer\u00eancias, espa\u00e7os de forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, falas em espa\u00e7os p\u00fablicos. Quando existia uma concord\u00e2ncia entre o ouvinte e as ideias que estava expondo, quase sempre o elogio vinha acompanhando de alguma palavra que denotava surpresa sobre o qu\u00e3o bom foi a palestra ou a forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica; quando, na discord\u00e2ncia, a maioria das cr\u00edticas e questionamentos incidia n\u00e3o nos meus argumentos, dados e fundamenta\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, mas na capacidade em si de eu saber do tema que estava abordando. Em suma, um questionamento acerca da minha capacidade de ser um vetor de propaga\u00e7\u00e3o do conhecimento.<\/p>\n<p>Demorou um certo tempo at\u00e9 perceber que isso n\u00e3o era fruto da minha idade ou apar\u00eancia f\u00edsica. A raz\u00e3o \u00e9 bem mais complexa que isso. Como dito acima, a configura\u00e7\u00e3o do apartheid \u00e9tnico-racial-classista no Brasil forjou um ambiente universit\u00e1rio e de maneira mais lata um \u201ccampo intelectual\u201d totalmente branco. A din\u00e2mica desses espa\u00e7os subjetiva e cria imagin\u00e1rios interpelando todos os sujeitos nele presentes com um certo tipo de normalidade. A normalidade \u00e9 n\u00e3o haver intelectuais negros nesses espa\u00e7os; a presen\u00e7a de negros e negras representa uma quebra do normal e do padr\u00e3o institu\u00eddo; como consequ\u00eancia, enquanto rea\u00e7\u00e3o principalmente do campo do inconsciente, o sujeito confrontado com esse desvio padr\u00e3o assume como m\u00e9dia essas duas posturas bin\u00e1rias descritas acima: demonstra surpresa pela capacidade nunca esperada do intelectual negro ou n\u00e3o consegue aceitar essa figura social e centra seu questionamento na sua capacidade de ser intelectual.<\/p>\n<p>O intelectual negro em ambiente universit\u00e1rio e espa\u00e7os intelectualizados tende a sentir um profundo sentimento de isolamento e solid\u00e3o porque n\u00e3o se reconhece nos seus pares, temas de pesquisa e simbologia dos ambientes. Mesmo quando o sujeito n\u00e3o \u00e9 militante e n\u00e3o tem qualquer n\u00edvel de debate cr\u00edtico, esse sentimento se manifesta como express\u00e3o do inconsciente, mesmo que n\u00e3o seja percebido enquanto tal.\u00a0\u00a0\u00c9 como se a din\u00e2mica em funcionamento gritasse todos os dias que \u201cesse n\u00e3o \u00e9 o seu lugar\u201d \u2013 pequeno desafio: converse com estudantes negros universit\u00e1rios e pergunte se eles se sentem\u00a0\u00e0\u00a0vontade na universidade. Aposto que, entre dez, sete v\u00e3o dizer que n\u00e3o t\u00eam sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento \u00e0 universidade.<\/p>\n<p>Esse conjunto de rela\u00e7\u00f5es estruturantes da vida do intelectual negro \u2013 ou aspirante a intelectual \u2013 tende a forjar duas rea\u00e7\u00f5es padr\u00f5es com desdobramentos diferentes. Primeiro, \u00e9 o processo de expuls\u00e3o gradual da universidade e desist\u00eancia de seguir qualquer carreira como intelectual. Quando terminam o curso, tendem a se afastar da universidade e seus circuitos correlatos e seguir suas vidas profissionais, muitas vezes n\u00e3o exercendo a profiss\u00e3o para o qual se formaram (fen\u00f4meno, evidentemente, composto de uma s\u00e9rie de outras rela\u00e7\u00f5es sociais). Em pessoas com milit\u00e2ncia pol\u00edtica esse sentimento normalmente \u00e9 expresso como um puro e simples rep\u00fadio ao car\u00e1ter elitista, aristocr\u00e1tico e autocentrado da universidade e dos espa\u00e7os intelectualizados, sendo pouco ponderada a dose de sofrimento ps\u00edquico que estar nesse espa\u00e7o causava ao sujeito.<\/p>\n<p>A segunda postura assume a forma de resist\u00eancia \u201cativa\u201d \u2013 ainda que \u00e0s vezes n\u00e3o racionalizada \u2013 decidindo continuar no espa\u00e7o e seguir a carreira como intelectual. Essa a\u00e7\u00e3o comporta dois padr\u00f5es b\u00e1sicos de comportamento: a) o intelectual negro busca assumir uma postura passiva, recatada, discreta. Evita posi\u00e7\u00f5es de destaque, grandes disputas e assumir protagonismo nos espa\u00e7os nos quais est\u00e1 inserido. Apresenta um tipo de \u201chumildade\u201d que o faz nunca exaltar seus m\u00e9ritos e a\u00e7\u00f5es como se evitasse reduzir o grau de hostilidade dos espa\u00e7os em que est\u00e1 inserido; b) assumir uma postura agressiva de extrema autoconfian\u00e7a e busca de protagonismo em todas as a\u00e7\u00f5es. O intelectual negro desse tipo parece sempre estar afrontando tudo e a todos, debochando do que est\u00e1 estabelecido e exibindo sempre uma postura altiva; via de regra, essas caracter\u00edsticas se misturam com \u201carrog\u00e2ncia\u201d e onipresente ironia \u2013 perfil no qual eu me incluo.<\/p>\n<p>Esses dois padr\u00f5es b\u00e1sicos de comportamento, embora na apar\u00eancia d\u00edspares, mant\u00eam em comum uma sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a constante. O intelectual negro nesse mundo branco, em seu n\u00e3o-lugar, se sente o tempo todo testado, pressionado, posto em\u00a0xeque. A postura de recato ou a da afronta s\u00e3o formas diferentes de tentar manejar essa inseguran\u00e7a em ambiente sempre hostil. As consequ\u00eancias dessas rela\u00e7\u00f5es, na produ\u00e7\u00e3o do intelectual, podem variar entre produzir uma caricatura de si mesmo buscando criticar tudo e a todos sem ter assumido plenamente a capacidade intelectual para isso ou conformar-se a um lugar secund\u00e1rio (ou pior) por nunca ousar em sua produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O primeiro tipo de rea\u00e7\u00e3o, a que mais me interessa, \u00e9 diariamente refor\u00e7ada ao perceber que os \u201cformadores de opini\u00e3o\u201d e \u201cespecialistas\u201d da m\u00eddia (TV, portais de Internet, programas de entrevista, grandes jornais etc.) tamb\u00e9m s\u00e3o essencialmente brancos e, quando um negro \u00e9 convidado a qualquer desses espa\u00e7os, normalmente, \u00e9 numa perspectiva monotem\u00e1tica: negro fala de racismo. Ali\u00e1s, nada mais refor\u00e7ador de todos os estere\u00f3tipos e imagin\u00e1rios constru\u00eddos pelo racismo que s\u00f3 termos negros e negras convidados para palestras, confer\u00eancias e forma\u00e7\u00f5es em datas como aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, dia da consci\u00eancia negra ou temas relacionados \u00e0 quest\u00e3o racial: \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201cheresia\u201d permitida pela ordem.<\/p>\n<p>Todas as dificuldades pr\u00f3prias de ser um intelectual no Brasil (extrema depend\u00eancia da universidade que, hoje, \u00e9 uma \u00f3tima institui\u00e7\u00e3o para formar acad\u00eamicos, mas muito ruim para formar intelectuais; pobreza do mercado editorial brasileiro, baixa valoriza\u00e7\u00e3o do trabalho intelectual nos partidos, sindicatos e movimentos sociais; dom\u00ednio de autores europeus e norte-americanos nos debates p\u00fablicos nacionais, etc.) s\u00e3o ampliadas e potencializadas quando se trata do ser negro. Objetiva e subjetivamente, \u201cesse n\u00e3o \u00e9 nosso lugar\u201d.<\/p>\n<p>Para concluir essa reflex\u00e3o, finalizo essas linhas com uma quest\u00e3o importante. A quebra dessa forma de ser da universidade e dos espa\u00e7os intelectualizados no Brasil n\u00e3o acontece estando desligada de um processo pol\u00edtico revolucion\u00e1rio de transforma\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, da educa\u00e7\u00e3o e da universidade. Pol\u00edticas p\u00fablicas como cotas criam, no m\u00e1ximo, um maior tensionamento nas estruturas estabelecidas. Embora esse tensionamento seja importante, ele atua como uma esp\u00e9cie de moderniza\u00e7\u00e3o sem mudan\u00e7a: a universidade e o \u201ccampo intelectual\u201d mudam para continuar na mesma.<\/p>\n<p>Essa compreens\u00e3o, contudo, n\u00e3o deve servir de desculpa para deixar para um long\u00ednquo amanh\u00e3 a constru\u00e7\u00e3o desde j\u00e1 de novas pr\u00e1ticas sociais. Nos partidos, movimentos sociais e sindicatos, por exemplo, percebe-se como \u00e9 raro termos lideran\u00e7as pol\u00edticas e intelectuais negros e negras, abordar a quest\u00e3o racial e o racismo sempre como um tema a parte, quase entificado, promovendo discuss\u00e3o tem\u00e1ticas e nunca como determinante gen\u00e9tico e estruturador do capitalismo brasileiro e de todas as express\u00f5es da quest\u00e3o social ou valorizar a figura do(a) negro(a) intelectual apenas em datas de festa (exemplo: aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o). Um esfor\u00e7o para, nos espa\u00e7os de milit\u00e2ncia, mudar desde j\u00e1 essas pr\u00e1ticas \u00e9 necess\u00e1rio, indispens\u00e1vel e deve estar conectado com o projeto de uma revolu\u00e7\u00e3o socialista que construa a universidade e a educa\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>O segundo aspecto, este mais ligado ao ambiente da academia e espa\u00e7os intelectualizados para al\u00e9m da universidade, embora tenha impress\u00f5es sobre como criar novas pr\u00e1ticas para combater as estruturas postas, quero deixar para aprofundar melhor em outro escrito.<\/p>\n<p>Para concluir de verdade, Mano Brown diz na m\u00fasica\u00a0A vida \u00e9 desafio\u00a0que \u201cpor voc\u00ea ser preto tem que ser duas vezes melhor\u201d, mas \u201cComo fazer duas vezes melhor, se voc\u00ea t\u00e1 pelo menos cem vezes atrasado pela escravid\u00e3o, pela hist\u00f3ria, pelo preconceito, pelos traumas, pelas psicoses&#8230; por tudo que aconteceu? duas vezes melhor como ?\u201d. Essa reflex\u00e3o de Brown \u00e9 totalmente justa para pensar a situa\u00e7\u00e3o do(a) negro (a)que se aventura a cumprir a fun\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-social de ser um intelectual. Os traumas, as psicoses, o preconceito, o mundo branco atuam todos os dias para nos derrubar.<\/p>\n<p>Se \u00e0s vezes parece que estamos sempre armados, na defensiva, \u00e9 porque nossa vida \u00e9 uma guerra. E na guerra, morre quem n\u00e3o atira.<\/p>\n<p>*Militante do PCB de Pernambuco<\/p>\n<p>Ilustra\u00e7\u00e3o: Milton Santos, um dos poucos intelectuais negros de destaque no Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20258\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[222],"class_list":["post-20258","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5gK","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20258","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20258"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20258\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20258"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20258"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20258"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}