{"id":20264,"date":"2018-07-19T22:22:07","date_gmt":"2018-07-20T01:22:07","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=20264"},"modified":"2018-07-19T22:22:07","modified_gmt":"2018-07-20T01:22:07","slug":"fascismo-passado-e-presente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20264","title":{"rendered":"Fascismo: passado e presente"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/operamundi.uol.com.br\/dialogosdosul\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/hoyla-usa-es-donald-trump-un-fascista-20160315.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Jorge Cadima<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.odiario.info\/fascismo-passado-e-presente\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ODiario.info<\/a><\/p>\n<p>Tal como no S\u00e9culo XX, o atual ascenso da extrema-direita \u00e9 express\u00e3o da profunda crise do sistema capitalista, que procura afirmar o seu poder e garantir a sua sobreviv\u00eancia. O combate ao perigo do fascismo, com velhas e novas caracter\u00edsticas, exige a compreens\u00e3o da sua ess\u00eancia. Exige que n\u00e3o se ignorem as li\u00e7\u00f5es da Hist\u00f3ria, ao mesmo tempo que se identificam caracter\u00edsticas novas que o fascismo assume nos nossos dias.<\/p>\n<p><strong>A ess\u00eancia do fascismo<\/strong><\/p>\n<p>Em 1933, ano do ascenso de Hitler ao poder, com o fascismo a alargar a sua influ\u00eancia e a recolher apoios no seio das grandes burguesias europeias, o XIII Plen\u00e1rio da Comiss\u00e3o Executiva da Internacional Comunista (CEIC) caracterizava o fascismo como \u00aba ditadura abertamente terrorista dos elementos mais reacion\u00e1rios, mais chauvinistas e mais imperialistas do capital financeiro\u00bb. A defini\u00e7\u00e3o ia ao cerne da quest\u00e3o: a natureza de classe desse fen\u00f4meno novo, que chegara ao poder uma d\u00e9cada antes, na It\u00e1lia, com Mussolini. O fascismo surgiu das entranhas da grande crise do sistema capitalista mundial, com a cat\u00e1strofe da I Guerra Mundial e, ap\u00f3s 1929, a profund\u00edssima crise econ\u00f4mica que, com epicentro nos EUA, rapidamente se espalhara a outros pa\u00edses do centro imperialista. A Guerra dera lugar, em 1917, \u00e0 primeira grande Revolu\u00e7\u00e3o Socialista na Hist\u00f3ria da Humanidade, inspirando trabalhadores e povos de todo o mundo, mostrando a alternativa ao belicismo, mis\u00e9ria, explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o do capitalismo. O grande capital receava perder o controlo.<\/p>\n<p>A realidade hist\u00f3rica foi afirmada pela Internacional Comunista: \u00abnascido no ventre da democracia burguesa, o fascismo \u00e9, aos olhos dos capitalistas, uma forma de salvar o capitalismo do colapso\u00bb, que \u00abprocura assegurar uma base de massas para o capital monopolista entre a pequena burguesia\u00bb. O fascismo sempre foi uma arma de combate ao movimento oper\u00e1rio e contra o perigo de que o descontentamento de largas massas com os efeitos da crise do capitalismo se dirigisse para uma via revolucion\u00e1ria, colocando em causa o pr\u00f3prio sistema.<\/p>\n<p><strong>Viol\u00eancia, demagogia, medo e bodes expiat\u00f3rios<\/strong><\/p>\n<p>A natureza do fascismo n\u00e3o foi de in\u00edcio clara para todos. Se era evidente a sua extrema viol\u00eancia contra o movimento oper\u00e1rio, a sua natureza era dissimulada pela mentira e uma demagogia social mistificadora, supostamente \u2018revolucion\u00e1ria\u2019, \u2018antiliberal\u2019 e nacionalista, que visava esconder a sua real ess\u00eancia, permitindo assim capitalizar o descontentamento de largas massas, v\u00edtimas do capitalismo.<\/p>\n<p>No seu Relat\u00f3rio ao VII Congresso da Internacional Comunista (1935), Dimitrov dizia: \u00abo fascismo chega ao poder como partido de ataque ao movimento revolucion\u00e1rio do proletariado, \u00e0s massas populares que est\u00e3o em estado de agita\u00e7\u00e3o; e no entanto apresenta a sua ascens\u00e3o ao poder como um movimento \u2018revolucion\u00e1rio\u2019 contra a burguesia, em nome de \u2018toda a Na\u00e7\u00e3o\u2019 e pela \u2018salva\u00e7\u00e3o\u2019 da Na\u00e7\u00e3o. Lembremo-nos da \u2018marcha sobre Roma\u2019 de Mussolini, da \u2018marcha\u2019 sobre Vars\u00f3via de Pilsudski, da \u2018revolu\u00e7\u00e3o\u2019 nacional-socialista de Hitler na Alemanha\u00bb. Acrescentava:\u00abO fascismo n\u00e3o \u00e9 uma forma de poder de Estado \u2018que se coloca acima das classes \u2013 do proletariado e da burguesia\u2019 como diz, por exemplo, Otto Bauer [dirigente social-democrata austr\u00edaco]. N\u00e3o \u00e9 a \u2018revolta da pequena burguesia que capturou a m\u00e1quina do Estado\u2019, como declara o socialista brit\u00e2nico Brailsford. [\u2026] O fascismo \u00e9 o poder do pr\u00f3prio capital financeiro\u00bb.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 casual que Hitler tenha chamado \u2018Nacional-Socialista\u2019 ao seu Partido, nem que o aventureiro Mussolini viesse das fileiras do Partido Socialista Italiano. A demagogia jogava na confus\u00e3o. Em 1919 Mussolini afirmava: \u00absou revolucion\u00e1rio e reacion\u00e1rio\u00bb e \u00abo fascismo \u00e9 um movimento sem preconceitos\u00bb 1. A demagogia permite que cada qual ou\u00e7a o que quer ouvir, mesmo quando as afirma\u00e7\u00f5es s\u00e3o contradit\u00f3rias ou incoerentes. O importante era catalisar o descontentamento e ganhar as massas para a viol\u00eancia reacion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Uma das novidades do fascismo, que o distingue de outros partidos de domina\u00e7\u00e3o da burguesia, \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de tropas de choque reacion\u00e1rias de massas. O historiador alem\u00e3o Kurt Gossweiler cita o pr\u00f3prio Hitler: \u00abQuando compreendermos que \u00e9 vital destruir o marxismo, todos os meios s\u00e3o bons para alcan\u00e7armos o nosso fim. Primeiramente, um movimento que se tenha fixado esse objetivo deve dirigir-se \u00e0s massas mais amplas poss\u00edvel, \u00e0s massas com as quais o pr\u00f3prio marxismo luta. A massa \u00e9 a fonte de toda a for\u00e7a. [\u2026] Se eu conseguir trazer a grande massa para o seio da Na\u00e7\u00e3o, quem me censurar\u00e1 pelos meios utilizados? Se vencermos, o marxismo ser\u00e1 exterminado at\u00e9 \u00e0 raiz. [\u2026] N\u00e3o teremos descanso enquanto restar um jornal, uma organiza\u00e7\u00e3o, um estabelecimento escolar ou cultural que n\u00e3o tenhamos erradicado, enquanto n\u00e3o tivermos reconduzido ao caminho certo o \u00faltimo marxista ou n\u00e3o o tivermos exterminado. N\u00e3o h\u00e1 meias medidas\u00bb 2.<\/p>\n<p>O medo desempenha um papel importante na demagogia fascista, abrindo espa\u00e7o \u00e0 irracionalidade e \u00e0 viol\u00eancia. Nas d\u00e9cadas de 20 e 30, largas camadas da pequena e m\u00e9dia burguesia eram arruinadas pela crise do capitalismo, e receavam cair na mis\u00e9ria em que vivia grande parte dos trabalhadoras. Transferir o receio da mis\u00e9ria dos trabalhadores para o receio dos pr\u00f3prios trabalhadores era um passo curto para a demagogia fascista. \u00c9 bem conhecida a estrat\u00e9gia de culpar trabalhadores e sindicatos pelos males do pa\u00eds. Ou de culpar o estrangeiro. A \u2018Na\u00e7\u00e3o\u2019 enquanto entidade abstrata promete solidariedade face ao medo, e quando ligada \u00e0 mitologia da \u2018ra\u00e7a\u2019 e da \u2018tribo\u2019 (muito presente no nazismo) permite sonhar com sociedades acima das classes e da brutalidade da explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem. Quanto mais brutal a realidade, mais o sonho se torna aliciante.<\/p>\n<p>No caso concreto do nazismo alem\u00e3o, a explora\u00e7\u00e3o do medo ganhou uma forma espec\u00edfica, com consequ\u00eancias terr\u00edveis: o anti-semitismo. Gossweiler chama a aten\u00e7\u00e3o (p. 48-9) para o fato de, nas suas interven\u00e7\u00f5es perante grandes industriais, Hitler ignorar o discurso antissemita, apesar de \u00aba direita alem\u00e3 j\u00e1 [ser] antissemita muito antes de Hitler fazer dele o seu programa\u00bb. \u00abParece evidente que Hitler poupou aos seus ouvintes milion\u00e1rios \u2013 como foi tamb\u00e9m o caso nos seus discursos perante os magnatas do Ruhr \u2013 as tiradas antissemitas que constitu\u00edram a base dos seus discursos de massas\u00bb. O antissemitismo n\u00e3o era necess\u00e1rio para ganhar o apoio da classe que Hitler pretendia servir. Mas era indispens\u00e1vel \u00abpara manipular as massas\u00bb. O antissemitismo parecia conciliar o irreconcili\u00e1vel: na demagogia nazista, os judeus eram n\u00e3o apenas os donos de Wall Street e da grande finan\u00e7a que arruinou a Alemanha ap\u00f3s a I Guerra Mundial com as draconianas repara\u00e7\u00f5es de guerra do Tratado de Versalhes, mas tamb\u00e9m os respons\u00e1veis pelo bolchevismo que queria \u2018destruir a Alemanha atrav\u00e9s da revolu\u00e7\u00e3o\u2019. A \u2018conspira\u00e7\u00e3o judaico-bolchevique\u2019 \u00e9 tese que hoje soa absurda, mas era moeda corrente entre boa parte das classes capitalistas europeias dos anos 30, incluindo a Igreja Cat\u00f3lica. O antissemitismo permitia assim desviar o \u00f3dio em rela\u00e7\u00e3o ao capitalismo enquanto sistema e classe, contra um grupo espec\u00edfico de capitalistas (poupando os \u2018arianos\u2019 capitalistas alem\u00e3es), ao mesmo tempo em que abria campo \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o e crimes sem freios contra os comunistas e os povos do Leste da Europa que Hitler desde sempre ambicionara subjugar (afinal, \u2018judeus\u2019 e \u2018sub-humanos\u2019).<\/p>\n<p><strong>Quando o grande capital aposta no fascismo<\/strong><\/p>\n<p>O fator decisivo na ascens\u00e3o do fascismo ao poder foi a luz verde que, em determinado momento, recebeu do grande capital (e dos grandes propriet\u00e1rios agr\u00e1rios) para executar o seu programa de esmagamento do movimento oper\u00e1rio e popular 3.<\/p>\n<p>Mussolini foi expulso do Partido Socialista em 1914 por defender a entrada da It\u00e1lia na I Guerra Mundial, contrariando a posi\u00e7\u00e3o do PSI. Fundou logo um novo jornal, com capitais de \u00abindustriais de orienta\u00e7\u00e3o mais ou menos intervencionista ou, pelo menos, interessados num aumento das encomendas militares\u00bb, entre os quais os donos da FIAT (Agnelli) 4. Mas foi em 1920 que a ascens\u00e3o do fascismo ao poder se torna um perigo real. Por toda a Europa, o \u00abespectro do comunismo\u00bb ganhava corpo. \u00c0 vitoriosa Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro de 1917 na R\u00fassia seguira-se a Revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de Novembro de 1918, que p\u00f4s fim \u00e0 I Guerra Mundial (brutalmente esmagada nos meses seguintes, numa antevis\u00e3o da subida ao poder do nazismo). Em It\u00e1lia, o PSI apresenta-se \u00e0s elei\u00e7\u00f5es de 1919 com um programa revolucion\u00e1rio, visando \u00aba instaura\u00e7\u00e3o da rep\u00fablica socialista e a ditadura do proletariado\u00bb, ap\u00f3s ter aderido em Mar\u00e7o \u00e0 rec\u00e9m-criada Internacional Comunista. Tornou-se na maior for\u00e7a pol\u00edtica do pa\u00eds, com 32,3% dos votos. O \u2018bi\u00eanio vermelho\u2019 de 1919-20 testemunhou enormes lutas oper\u00e1rias e camponesas. \u00c9 neste contexto que o grande capital italiano se vira para a solu\u00e7\u00e3o de for\u00e7a. A partir de 1920 tornam-se frequentes os assaltos armados a grevistas ou manifestantes e os assaltos violentos e incendi\u00e1rios \u00e0s sedes de partidos, sindicatos, jornais do movimento oper\u00e1rio (como em Portugal em 1975), incentivados por agr\u00e1rios e grandes industriais. Como em outros pa\u00edses, a viol\u00eancia fascista contou com a cumplicidade do poder, dos tribunais e pol\u00edcia, da comunica\u00e7\u00e3o social ao servi\u00e7o do grande capital, que culpa as v\u00edtimas pelos ataques de que s\u00e3o alvo. O conluio da velha burguesia liberal com o fascismo torna-se aberto nas elei\u00e7\u00f5es antecipadas de 1921, com a forma\u00e7\u00e3o de listas conjuntas, designadas Blocos Nacionais, \u00abencorajadas por grandes industriais de Mil\u00e3o, incluindo a Pirelli e Olivetti\u00bb 5. Embora os Blocos Nacionais fiquem atr\u00e1s dos Socialistas e do rec\u00e9m-formado Partito Comunista de It\u00e1lia (no total 29,3%, apesar do terror fascista), todos os partidos burgueses do Parlamento colaboraram na instaura\u00e7\u00e3o da ditadura fascista, que haveria de durar 20 anos e levar a It\u00e1lia ao desastre.<\/p>\n<p>A subida de Mussolini ao poder foi saudada efusivamente pelas classes dominantes, e numerosos foram os seus disc\u00edpulos, entre os quais Salazar. O bi\u00f3grafo ingl\u00eas de Winston Churchill, Clive Ponting escreve: \u00abChurchill era um grande admirador de Mussolini [\u2026]. Visitou a It\u00e1lia em 1927 [\u2026] e em Roma encontrou-se com Mussolini, sobre quem proferiu rasgados elogios [\u2026]. \u2018Se fosse italiano, estou seguro que teria estado de todo o cora\u00e7\u00e3o ao vosso lado, desde o in\u00edcio at\u00e9 ao fim, na vossa luta triunfante contra os apetites e paix\u00f5es animalescas do Leninismo\u2019. Durante os dez anos seguintes, Churchill continuou a elogiar Mussolini\u00bb 6.<\/p>\n<p>A grande crise econ\u00f4mica do capitalismo, em 1929, deu novo impulso \u00e0s simpatias do grande capital pelo fascismo. O contraste entre o afundamento econ\u00f4mico e social das grandes pot\u00eancias capitalistas e o impetuoso desenvolvimento que, com base nos planos quinquenais, transformava a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica socialista numa das maiores pot\u00eancias industriais do planeta, refor\u00e7ava o prest\u00edgio do socialismo e dos comunistas. Foi assim que o grande capital alem\u00e3o empurrou Hitler para o poder. Gossweiler recorda que nas elei\u00e7\u00f5es de Novembro de 1932, o Partido de Hitler perdeu mais de 2 milh\u00f5es de votos, e os comunistas subiam para 17%, afirmando: \u00abCom o decl\u00ednio do NSDAP e o risco de verem esfumar-se todas as suas esperan\u00e7as e os seus planos de conquista, os monopolistas, os militaristas e os Junkers deixaram as dissens\u00f5es e as querelas internas no vesti\u00e1rio e decidiram confiar mais rapidamente o poder ao partido de Hitler. A 19 de Novembro, banqueiros not\u00e1veis, grandes industriais e grandes propriet\u00e1rios de terras endere\u00e7aram uma peti\u00e7\u00e3o ao presidente Hindenburg solicitando-lhe com insist\u00eancia que nomeasse Hitler para a chancelaria\u00bb. O que viria a acontecer em Janeiro de 1933, abrindo as portas para a trag\u00e9dia na Alemanha e a n\u00edvel mundial. As vit\u00f3rias eleitorais das Frentes Populares em Fran\u00e7a e Espanha em 1936 acentuaram o abra\u00e7o do grande capital ao fascismo (em Fran\u00e7a pela via da capitula\u00e7\u00e3o a Hitler, ap\u00f3s a invas\u00e3o de 1940).<\/p>\n<p>Hoje, muitos pretendem sacudir a \u00e1gua do capote e lavar as m\u00e3os com \u00e1gua benta. Mas o entusiasmo de largos sectores do grande capital pelo fascismo \u00e9 indesment\u00edvel.<br \/>\n<strong><br \/>\nMilitarismo e guerra<\/strong><\/p>\n<p>O fascismo no poder caracterizou-se pelo desrespeito pela soberania dos povos, o militarismo e a guerra de agress\u00e3o. A viol\u00eancia no plano externo era o reverso da medalha da viol\u00eancia no plano interno. Se, por um lado, correspondia ao objetivo das pot\u00eancias fascistas de redesenhar o mapa do globo em seu proveito, com a conquista de espa\u00e7os coloniais a que haviam chegado tarde, por outro lado era o desenlace quase inevit\u00e1vel do \u2018keynesianismo militar\u2019 que serviu para redinamizar economias em profunda crise. A consci\u00eancia de que \u00abO fascismo \u00e9 a guerra\u00bb (t\u00edtulo de um artigo de Dimitrov 7) levara a URSS e a IC a procurar ativamente \u00e0 coopera\u00e7\u00e3o antifascista com as maiores pot\u00eancias imperialistas do tempo (Inglaterra, Fran\u00e7a, EUA). Uma coopera\u00e7\u00e3o recusada por essas pot\u00eancias, que sonhavam ver Hitler destruir a URSS socialista, at\u00e9 que os c\u00e1lculos b\u00e9licos de Hitler o levaram a desencadear primeiro a guerra a Ocidente, numa tentativa de vingar a derrota alem\u00e3 de 1918 e de assegurar o controlo do enorme poderio econ\u00f4mico da Europa Ocidental antes de se lan\u00e7ar contra a URSS. A guerra levou \u00e0 derrota das pot\u00eancias nazifascistas, gra\u00e7as ao heroico e decisivo sacrif\u00edcio da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, do seu povo e Ex\u00e9rcito Vermelho, com a contribui\u00e7\u00e3o crucial da resist\u00eancia noutros pa\u00edses, que teve nos comunistas o seu elemento central.<\/p>\n<p><strong>O fascismo nunca desapareceu<\/strong><\/p>\n<p>O papel determinante da URSS socialista e dos comunistas na derrota do nazifascismo em 1945, alterou em profundidade a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as mundial, n\u00e3o permitindo a imposi\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es de for\u00e7a do grande capital no centro imperialista e obrigando-o a concess\u00f5es sem precedentes. Mas tal n\u00e3o significou o fim do fascismo. N\u00e3o apenas permaneceu uma realidade de poder (como em Portugal e Espanha), mas parte importante dos fascistas derrotados foram recrutados e colocados a servi\u00e7o das pot\u00eancias imperialistas vencedoras na II Guerra. Salazar tornou-se membro fundador da OTAN. Os novos dirigentes da Alemanha Ocidental (RFA) eram em boa parte nazistas reciclados. Os fascistas gregos foram colocados no poder por ingleses e americanos para esmagar a resist\u00eancia antifascista. A reciclagem de milhares de nazifascistas foi particularmente importante nos aparelhos repressivos (militares, policiais, servi\u00e7os secretos), mesmo em pa\u00edses formalmente democr\u00e1ticos, como a Fran\u00e7a, It\u00e1lia, RFA, EUA. Desempenhou papel de relevo na subvers\u00e3o e viol\u00eancia das redes tipo Gladio (como na It\u00e1lia). Marcou a chamada \u00abGuerra Fria\u00bb. A \u00abditadura abertamente terrorista dos elementos mais reacion\u00e1rios, mais chauvinistas e mais imperialistas do capital financeiro\u00bb foi tamb\u00e9m arma de elei\u00e7\u00e3o das \u2018democracias ocidentais\u2019 na conten\u00e7\u00e3o do grande surto de liberta\u00e7\u00e3o nacional e social no mundo outrora colonizado.<br \/>\n<strong><br \/>\nA atualidade<\/strong><\/p>\n<p>O capitalismo vive hoje uma nova aguda fase de crise. Se, por um lado, a destrui\u00e7\u00e3o da URSS e do sistema socialista mundial parece afastar temporariamente o \u201cperigo\u201d de revolu\u00e7\u00f5es populares e socialistas, e a m\u00e1quina de propaganda \u00e9 mais capilar e eficaz do que nunca, por outro lado a vit\u00f3ria do capitalismo na transi\u00e7\u00e3o de S\u00e9culo tornou mais evidente a real natureza do sistema e os seus limites hist\u00f3ricos. Alastra o descontentamento com as pol\u00edticas de empobrecimento generalizado, mais explora\u00e7\u00e3o, guerra permanente e atropelo sistem\u00e1tico de direitos e liberdades. Embora amplas massas n\u00e3o tenham ainda consci\u00eancia da sua pr\u00f3pria for\u00e7a, as classes dominantes t\u00eam pavor dessa possibilidade e receiam as revolu\u00e7\u00f5es que as condi\u00e7\u00f5es objetivamente exigem. Por toda a parte o grande capital prepara os mecanismos de imposi\u00e7\u00e3o da sua ditadura aberta, que possam vir a ser acionados num momento de particular necessidade.<\/p>\n<p>A promo\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de um feroz e multifacetado anticomunismo, a par de um belicismo sem freios, do autoritarismo, dos mecanismos de vigil\u00e2ncia generalizada e repress\u00e3o, da destrui\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica das estruturas e princ\u00edpios da ordem mundial instaurada ap\u00f3s a derrota do nazifascismo, n\u00e3o s\u00e3o apan\u00e1gio deste ou daquele setor do grande capital. A onda reacion\u00e1ria \u00e9 geral. Trump joga de novo no nacionalismo, mas o mais perigoso e violento dos fascismos da atualidade chegou ao poder na Ucr\u00e2nia com a coniv\u00eancia ativa dos EUA de Obama e da Uni\u00e3o Europeia \u2018liberal\u2019. As cada vez mais agudas rivalidades interimperialistas apenas parecem recompor-se quando se trata de combater os povos. J\u00e1 Lenine advertira que \u00abo imperialismo \u00e9 a \u00e9poca do capital financeiro e dos monop\u00f3lios, que trazem consigo, em toda a parte, a tend\u00eancia para a domina\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o para a liberdade. A rea\u00e7\u00e3o em toda a linha, seja qual for o regime pol\u00edtico; a exacerba\u00e7\u00e3o extrema das contradi\u00e7\u00f5es\u00bb 8.<\/p>\n<p>Hoje, o perigo maior de guerra vem das velhas pot\u00eancias imperialistas (EUA, UE) que pretendem preservar pela for\u00e7a o status quo e impedir a profunda altera\u00e7\u00e3o em curso da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as econ\u00f4mica, protagonizada pela ascens\u00e3o de novas pot\u00eancias.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o atual n\u00e3o \u00e9, em geral, uma situa\u00e7\u00e3o de ditadura aberta, e n\u00e3o \u00e9 indiferente para a classe oper\u00e1ria, para os trabalhadores e os povos, preservar e defender toda e qualquer liberdade ou direito existentes. Nem todos os partidos da burguesia s\u00e3o iguais. Mas o combate ao ascenso da extrema-direita tem de ser feito sem ilus\u00f5es sobre a real natureza das for\u00e7as em presen\u00e7a.<\/p>\n<p>A demagogia fascista de hoje tem paralelos com a do passado, proclamando a sua pretensa oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 grande finan\u00e7a e ao capitalismo selvagem, ao mesmo tempo que procura canalizar o descontentamento e o renovado medo de empobrecimento, contra imigrantes e refugiados, trabalhadores sindicalizados, o movimento oper\u00e1rio organizado e os comunistas. Alguns bodes expiat\u00f3rios podem mudar: o papel reservado aos judeus h\u00e1 oito d\u00e9cadas \u00e9, em grande parte, hoje atribu\u00eddo a mu\u00e7ulmanos (ou russos). Mas a ess\u00eancia do fen\u00f4meno \u00e9 a mesma: dividir os povos, para melhor impor a todos a domina\u00e7\u00e3o do grande capital.<\/p>\n<p>O impacto atual da demagogia fascistizante \u00e9 tanto maior quanto parte importante do movimento oper\u00e1rio e comunista se encontra ainda enfraquecido ap\u00f3s as vit\u00f3rias contrarrevolucion\u00e1rias do final do S\u00e9culo XX, e nalguns casos, convertido \u00e0 promo\u00e7\u00e3o de projetos ao servi\u00e7o do grande capital, como \u00e9 o caso da Uni\u00e3o Europeia. O abandono de posi\u00e7\u00f5es de classe e de defesa intransigente dos direitos e aspira\u00e7\u00f5es dos trabalhadores e povos, mesmo quando feito em nome da necessidade de barrar o caminho ao avan\u00e7o da extrema-direita, abre objetivamente espa\u00e7o ao avan\u00e7o desta entre as camadas populares, como comprovam numerosos exemplos, desde logo em It\u00e1lia. N\u00e3o se trava o fascismo ignorando a natureza de classe do poder capitalista, que \u00e9 a mesma do fascismo. Trava-se o avan\u00e7o da extrema-direita organizando a luta dos trabalhadores e povos pelos seus interesses, expondo a real natureza dessas for\u00e7as e do sistema que as gera, as alimenta e \u2013 em casos extremos \u2013 as coloca no poder para afirmar da forma mais brutal o seu poder de classe.<\/p>\n<p><em>Notas<br \/>\n(1) Enzo Santarelli, Storia del Movimento e del Regime Fascista, Ed. Riuniti, 1967, p. 143 e p. 107.\u21b2<br \/>\n(2) Kurt Gossweiler, Hitler: ascens\u00e3o irresist\u00edvel?, Ed. \u00abAvante!\u00bb, 2009, pp. 46-7.\u21b2<br \/>\n(3) Para mais pormenores, vejam-se os numerosos artigos sobre o ascenso do fascismo em anteriores edi\u00e7\u00f5es de O Militante.\u21b2<br \/>\n(4) Idem, Enzo Santarelli. Cita\u00e7\u00f5es nas pp. 60, 111 e 153.\u21b2<br \/>\n(5) Denis Mack Smith, Mussolini, Paladin, 1983, p. 59.\u21b2<br \/>\n(6) Clive Ponting, Sinclair-Stevenson, Churchill, 1994, p. 350.\u21b2<br \/>\n(7) Publicado em O Militante, N.\u00ba 335, Mar\u00e7o de 2015.\u21b2<br \/>\n(8) V. I. L\u00e9nine, Obras Escolhidas em 6 tomos, Ed. \u00abAvante!\u00bb, tomo 2, 1984, p. 397.<\/em><\/p>\n<p><em>*Publicado em \u201cO Militante\u201d n\u00ba 355 &#8211; Jul\/Ago 2018<\/em><\/p>\n<p>https:\/\/www.odiario.info\/fascismo-passado-e-presente\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20264\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[165],"tags":[225],"class_list":["post-20264","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eua","tag-4a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5gQ","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20264","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20264"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20264\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20264"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20264"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20264"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}