{"id":2027,"date":"2011-11-02T20:00:45","date_gmt":"2011-11-02T20:00:45","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2027"},"modified":"2011-11-02T20:00:45","modified_gmt":"2011-11-02T20:00:45","slug":"imperialismo-e-democracia-casa-branca-ou-liberty-square","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2027","title":{"rendered":"Imperialismo e democracia: Casa Branca ou Liberty Square?"},"content":{"rendered":"\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre imperialismo e democracia tem sido debatida e discutida h\u00e1 mais de 2500 anos, desde a Atenas do s\u00e9culo V ao Liberty Park em Manhattan. Cr\u00edticos contempor\u00e2neos do imperialismo (e do capitalismo) afirmam encontrar uma incompatibilidade fundamental, mencionando as crescentes medidas de estado policial que acompanham guerras coloniais, desde as leis anti-terroristas de Clinton e o &#8220;Patriot Act&#8221; de Bush at\u00e9 as ordens de assassinato judicial de cidad\u00e3os estado-unidenses de Obama.<\/p>\n<p>No passado, contudo, muitos te\u00f3ricos do imperialismo de variadas convic\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, que v\u00e3o de Max Weber a Vladimir Lenine, argumentaram que o imperialismo unificava o pa\u00eds, reduzia a polariza\u00e7\u00e3o interna de classe e criava trabalhadores privilegiados que apoiavam activamente e votavam por partidos imperiais. Um levantamento hist\u00f3rico comparativo das condi\u00e7\u00f5es sob as quais imperialismo e institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas convergem ou divergem pode lan\u00e7ar alguma luz sobre os desafios e op\u00e7\u00f5es que confrontam os florescentes movimentos democr\u00e1ticos que irrompem por todo o globo.<\/p>\n<p><strong>O s\u00e9culo XIX <\/strong><\/p>\n<p>Durante o s\u00e9culo XIX, a expans\u00e3o imperial europeia e estado-unidense cobriu o mundo. Em tandem, enraizaram-se institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, a cidadania foi estendida \u00e0 classe trabalhadora, emergiram partidos competitivos, foi aprovada legisla\u00e7\u00e3o social e a classe trabalhadora aumentou a sua representa\u00e7\u00e3o nas c\u00e2maras legislativas.<\/p>\n<p>Ter\u00e1 sido o crescimento simult\u00e2neo da democracia e do imperialismo uma correla\u00e7\u00e3o esp\u00faria reflectindo for\u00e7as subjacentes divergentes e conflituantes, uma favorecendo a conquista al\u00e9m-mar e outra promovendo pol\u00edticas democr\u00e1ticas? De facto, houve uma grande dose de sobreposi\u00e7\u00e3o entre pol\u00edticas pr\u00f3-imperialistas e democr\u00e1ticas e n\u00e3o simplesmente entre as elites.<\/p>\n<p>Ao longo de todo o s\u00e9culo XIX e especialmente no s\u00e9culo XX, importantes sectores do trabalho, partidos social-democratas e numerosas eminentes personalidades de esquerda e revolucion\u00e1rios socialistas, em um momento ou outro combinaram o apoio a exig\u00eancias dos trabalhadores e a expans\u00e3o imperial. Nada menos que Karl Marx, nos seus primeiros escritos jornal\u00edsticos no\u00a0<em>New York Herald Tribune <\/em>apoiou criticamente a conquista brit\u00e2nica da \u00cdndia como sendo uma &#8220;for\u00e7a modernizadora&#8221; que deitava abaixo barreiras feudais, mesmo quando ele apoiava (com cr\u00edticas) as revolu\u00e7\u00f5es europeias de 1848.<\/p>\n<p>As classes dominantes, a for\u00e7a condutora do imperialismo, estavam divididas. Alguns viam as reformas democr\u00e1ticas, a &#8220;cidadania&#8221;, como um meio de efectuar conscri\u00e7\u00f5es em massa para guerras imperiais; outros temiam que reformas democr\u00e1ticas promovessem exig\u00eancias sociais que solapassem a acumula\u00e7\u00e3o de capital e a domina\u00e7\u00e3o pela elite. Ambos estavam certos: Juntamente com maior participa\u00e7\u00e3o popular veio o virulento nacionalismo moderno, o qual alimentou a constru\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio. Ao mesmo tempo, o acesso em massa a direitos democr\u00e1ticos levou a organiza\u00e7\u00f5es de classe elevadas, as quais amea\u00e7avam ou desafiavam a classe dominante. Dentro das classes dominantes, as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas eram encaradas como uma arena para a resolu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica de conflitos entre elites sectoriais competidoras. Mas uma vez que tomassem um car\u00e1cter de massa passavam a ser percebidas como amea\u00e7as pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Partidos imperiais e partidos com base de classe competiam por eleitores entre os rec\u00e9m emancipados trabalhadores urbanos e rurais pobres. Em muitos casos, a lealdade imperial e de classe &#8220;co-existia&#8221; dentro dos mesmos indiv\u00edduos. A quest\u00e3o de qual das duas, a imperialista ou consci\u00eancia de classe, se tornaria &#8220;operacional&#8221; ou &#8220;destacada&#8221; estava em parte dependente dos \u00eaxitos ou fracasso de projectos pol\u00edticos competidores mais vastos.<\/p>\n<p>Por outras palavras, quando a expans\u00e3o imperial tinha \u00eaxito com conquistas f\u00e1ceis que resultavam em col\u00f3nias lucrativas (especialmente col\u00f3nias de povoamento) trabalhadores democr\u00e1ticos abra\u00e7avam o imp\u00e9rio. Isto era assim porque o imp\u00e9rio promovia com\u00e9rcio, nomeadamente exporta\u00e7\u00f5es lucrativas e importa\u00e7\u00f5es baratas, ao mesmo tempo que protegia mercados e manufacturas locais. Isto por sua vez expandia emprego e sal\u00e1rios para sectores substanciais da classe trabalhadora. Em consequ\u00eancia, o trabalho e partidos social-democratas e sindicatos n\u00e3o se opunham ao imperialismo, na verdade muitos apoiavam-no.<\/p>\n<p>Em contraste, quando guerras imperialistas levavam a prolongados conflitos sangrentos e custosos, a classe trabalhadora comutava do entusiasmo chauvinista inicial para o desencanto e a oposi\u00e7\u00e3o. Exig\u00eancias democr\u00e1ticas de &#8220;fim \u00e0 guerra&#8221; levavam a greves que contestavam o sacrif\u00edcio desigual. Sentimentos democr\u00e1ticos e anti-imperialistas tendiam a fundir-se.<\/p>\n<p>O conflito entre democracia e imperialismo tornava-se ainda mais aparente no caso de uma derrota imperial e de ocupa\u00e7\u00e3o militar. Tanto a derrota da Fran\u00e7a na guerra franco-germ\u00e2nica de 1870-71 como a derrota alem\u00e3 na Primeira Guerra Mundial levou a maci\u00e7os levantamentos democr\u00e1ticos socialistas (a Comuna de Paris de 1871 e a revolu\u00e7\u00e3o alem\u00e3 de 1918) atacando o militarismo, a domina\u00e7\u00e3o de classe da elite e toda a estrutura institucional imperial capitalista.<\/p>\n<p><strong>O debate imperialismo e democracia e &#8220;hist\u00f3ria a partir de baixo&#8221; <\/strong><\/p>\n<p>Historiadores, especialmente os praticantes da moderna &#8220;hist\u00f3ria a partir de baixo&#8221;, exageram os valores democr\u00e1ticos e as lutas da classe trabalhadora e minimizam o prolongado e profundamente fraco apoio entre importantes sectores para o \u00eaxito da expans\u00e3o imperial e da conquista. A no\u00e7\u00e3o de solidariedade de classe &#8220;inerente&#8221; ou &#8220;instintiva&#8221; \u00e9 desmentida pelo papel activo de trabalhadores como soldados na conquista imperial, pelos povoadores al\u00e9m-mar, pelos marinheiros mercantes e supervisores. Colaboradores imperiais e leais ao imp\u00e9rio foram numerosos entre trabalhadores ingleses e franceses e, especialmente mais tarde, dentro do movimento trabalhista dos EUA.<\/p>\n<p>O ponto te\u00f3rico \u00e9 que a proemin\u00eancia da consci\u00eancia e ac\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica sobre a imperial, entre trabalhadores, est\u00e1 dependente dos resultados pr\u00e1ticos materiais de pol\u00edticas imperiais e lutas democr\u00e1ticas.<\/p>\n<p><strong>Trabalhadores e imperialismo <\/strong><\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o do imp\u00e9rio exige dos trabalhadores que produzam mais por menos a fim de exportar e investir lucrativamente em regi\u00f5es colonizadas. Isto leva ao conflito capital-trabalho, especialmente na fase inicial da expans\u00e3o imperial. Quando dominadores imperiais consolidam seu controle sobre pa\u00edses colonizados eles intensificam a explora\u00e7\u00e3o de mercados, trabalho e recursos. As exporta\u00e7\u00f5es imperiais destru\u00edram competidores locais. Os lucros ascendem, sal\u00e1rios aumentam e trabalhadores mudam da oposi\u00e7\u00e3o inicial em rela\u00e7\u00e3o ao imperialismo \u00e0 exig\u00eancia de uma fatia do rendimento crescente dos industriais orientados para a exporta\u00e7\u00e3o. L\u00edderes trabalhistas e sindicais aprovaram pol\u00edticas de &#8220;prefer\u00eancia imperial&#8221;, as quais protegiam ind\u00fastrias locais da competi\u00e7\u00e3o e do controle monopolista privilegiado de mercados coloniais. Eles assim fizeram porque pol\u00edticas imperiais protegiam empregos e elevavam padr\u00f5es de vida.<\/p>\n<p>Trabalhadores que eram activos em lutas sociais, estavan em listas negras ou presos, mudavam-se voluntariamente ou eram exilados para pa\u00edses colonizados. Uma vez assentes al\u00e9m-mar, era-lhes dado acesso privilegiado a empregos mais bem pagos como supervisores, empregados qualificados ou eram promovidos a posi\u00e7\u00f5es de administra\u00e7\u00e3o. Trabalhadores militantes no centro do imp\u00e9rio, quando chegavam al\u00e9m-mar tornavam-se colaboradores coloniais. Muitos encorajavam antigos colegas, parentes e amigos a juntarem-se a eles como colonos bem sucedidos ou trabalhadores contratados. A &#8220;domestica\u00e7\u00e3o&#8221; de trabalhadores e a reconcilia\u00e7\u00e3o de sentimentos democr\u00e1ticos e imperialistas era uma causa e uma consequ\u00eancia do imperialismo com \u00eaxito.<\/p>\n<p><strong>Lealdade ao imp\u00e9rio: N\u00e3o s\u00f3 pelo p\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p>Se bem que o aumento de benef\u00edcios materiais para trabalhadores do &#8220;imperialismo com \u00eaxito&#8221; sejam um factor que potencia a consci\u00eancia imperial de trabalhadores, esta era refor\u00e7ada pela gratifica\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. A sensa\u00e7\u00e3o de ser membro do &#8220;pa\u00eds l\u00edder no mundo&#8221; e de que &#8220;o sol nunca se p\u00f5e no imp\u00e9rio&#8221; era igualmente importante. \u00c9 raro encontrar um pa\u00eds onde a maioria dos trabalhadores exprima &#8220;solidariedade&#8221; com os mineiros explorados, trabalhadores de planta\u00e7\u00e3o, camponeses deslocados e pequenos propriet\u00e1rios ind\u00edgenas na &#8220;col\u00f3nias&#8221;. Quanto mais forte a influ\u00eancia do poder colonial, maiores as &#8220;oportunidades coloniais&#8221;, mais amplos os la\u00e7os coloniais, mais profunda a penetra\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e mais forte a sensa\u00e7\u00e3o de superioridade imperial entre os trabalhadores dos estados imperiais. N\u00e3o \u00e9 de surpreender que os trabalhadores brit\u00e2nicos, os sindicatos e o Partido Trabalhista fizessem poucas objec\u00e7\u00f5es \u00e0 selvajaria das guerras do \u00f3pio imperiais contra a China, as fomes imperiais induzidas na Irlanda no s\u00e9culo XIX e na \u00cdndia no s\u00e9culo XX. Da mesma forma, os partidos de trabalhadores franceses \u2013 especialmente os socialistas \u2013 estavam na vanguarda das guerras coloniais p\u00f3s II Guerra Mundial contra a Indochina e a Arg\u00e9lia s\u00f3 se voltando contra elas face \u00e0 derrota iminente e a desintegra\u00e7\u00e3o interna. Tamb\u00e9m as guerras coloniais dos EUA contra Cuba e as Filipinas, suas invas\u00f5es de pa\u00edses do Caribe e da Am\u00e9rica Central foram apoiadas pela American Federation of Labor e muitos &#8220;trabalhadores comuns&#8221;, mesmo quando uma minoria de trabalhadores radicalizados se opunha a estas guerras. A &#8220;viragem parcial&#8221; do trabalho contra guerras coloniais dos EUA ocorrida durante as da Coreia, Vietname e Afeganist\u00e3o resultou das perdas prolongadas e dos altos custos econ\u00f3micos sem vit\u00f3ria \u00e0 vista. Deveria ser acrescentado que os trabalhadores estado-unidenses, em oposi\u00e7\u00e3o a guerras imperiais, n\u00e3o exprimiram solidariedade com os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nacional e os movimentos de trabalhadores dos pa\u00edses colonizados.<\/p>\n<p><strong>O imperialismo e os &#8220;verdadeiros democratas&#8221; <\/strong><\/p>\n<p>Argumentar, tal como o fazem alguns na esquerda, que imperialismo n\u00e3o coexiste com &#8220;verdadeira&#8221; democracia \u00e9 argumentar que os \u00faltimos 150 foram destitu\u00eddos de elei\u00e7\u00f5es livres, competi\u00e7\u00e3o de partidos e direitos dos cidad\u00e3os, ainda que reduzidos, especialmente ao longo da \u00faltima d\u00e9cada. A realidade \u00e9 que a interven\u00e7\u00e3o imperial e a expans\u00e3o tem sido feita precisamente \u00e0 custa do sentido de &#8220;obriga\u00e7\u00e3o&#8221; dos cidad\u00e3os de preservar as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, as quais permitiram a l\u00edderes imperiais obter legitimidade e apoio activo ou aquiesc\u00eancia da cidadania para travar guerras coloniais sangrentas e mesmo genocidas.<\/p>\n<p>Se a democracia habitualmente n\u00e3o tem sido um obst\u00e1culo para a expans\u00e3o imperial \u2013 na verdade, uma facilitadora sob certas circunst\u00e2ncias \u2013 sob que condi\u00e7\u00f5es os movimentos de trabalhadores e cidad\u00e3os voltaram-se contra guerras imperiais? Qual foi a resposta pol\u00edtica da classe dominante quando a maioria do eleitorado virou-se contra guerras imperiais? Por outras palavras: Quando as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas deixam de funcionar como ve\u00edculos para pol\u00edticas imperiais, o que acontece?<\/p>\n<p><strong>Da democracia imperial ao estado policial imperial <\/strong><\/p>\n<p>Os \u00faltimos dez anos proporcionam importantes li\u00e7\u00f5es sobre a rela\u00e7\u00e3o entre imperialismo e democracia nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>A partir das controversas circunst\u00e2ncias pol\u00edticas envolvendo terroristas que obtiveram acesso aos EUA e a seguir sequestram os avi\u00f5es do 11\/Setembro\/2001, o governo estado-unidense lan\u00e7ou duas grandes guerras coloniais e numerosos evidentes ataques &#8220;clandestinos&#8221; terrestres e a\u00e9reos na Som\u00e1lia, I\u00e9men, Paquist\u00e3o, L\u00edbia e outros pa\u00edses. A &#8220;guerra global ao terror&#8221;, lan\u00e7ada sob o regime Bush e implementada por respons\u00e1veis militaristas-sionistas n\u00e3o eleitos em coopera\u00e7\u00e3o com a NATO e Israel foi apoiada pelo Congresso eleito democraticamente. Realmente, a vasta maioria do eleitorado, influenciada por uma imensa campanha de propaganda do medo, pela manipula\u00e7\u00e3o dos media e por mentiras endossou as guerras ao terror.<\/p>\n<p>Dado o \u00e2mbito sem precedentes e a amplitude das guerras (uma guerra global ao terror), o vasto aumento das despesas militares e os enormes gastos para tudo o que se referia ao aparelho de repress\u00e3o interna (Homeland Security), foi constru\u00eddo um novo estado policial centrado no executivo o qual substituiu as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas existentes e os direitos dos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>A traject\u00f3ria da pol\u00edtica imperial passou dos primeiros \u00eaxitos militares \u00e0 problem\u00e1tica ocupa\u00e7\u00e3o prolongada. Isto levou a um escalar da resist\u00eancia, ao crescimento das despesas do estado, ao aprofundamento de crises fiscais, decad\u00eancia social e aumento da oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Tal como no passado, as guerras imperiais contempor\u00e2neas que s\u00e3o prolongadas, custosas e sem vit\u00f3ria decisiva \u00e0 vista levaram ao desencanto da cidadania, seguido pelo aumento da rejei\u00e7\u00e3o aberta. As maiorias assalariadas que votaram por decisores pol\u00edticos imperiais e apoiaram a sua legisla\u00e7\u00e3o que a permitia, incluindo leis (Patriot Act) que suspendiam direitos civis e constitucionais b\u00e1sicos, afastaram-se da agenda imperial. Hoje a maioria democr\u00e1tica d\u00e1 prioridade \u00e0 sua classe, seus interesses econ\u00f3micos, especialmente face a uma recess\u00e3o prolongada e desemprego e subemprego pr\u00f3ximo dos 20%. A partir de 2008-2011 as guerras infind\u00e1veis e as crises prolongadas puseram em movimento um conflito entre democracia e imperialismo.<\/p>\n<p>Por outras palavras, a maioria democr\u00e1tica tornou-se um obst\u00e1culo \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o e prosseguimento de guerras imperiais. A actividade militar imperial no Iraque, Afeganist\u00e3o, L\u00edbia, etc n\u00e3o levou a vit\u00f3rias r\u00e1pidas, a conquista de mercados de exporta\u00e7\u00e3o lucrativos e tomadas de recursos naturais. N\u00e3o foram criados empregos e nenhum benef\u00edcio acrescido para empregados e trabalhadores no pa\u00eds imperial. Despesas elevadas com armas prejudicam investimentos p\u00fablicos com empregos trabalho intensivo em projectos de infraestrutura criticamente atrasados. O pequeno n\u00famero de empregos perigosos em pa\u00edses ocupados n\u00e3o era atraente e demasiado arriscado para os desempregados.<\/p>\n<p>Por outras palavras, ao contr\u00e1rio da maior parte das anteriores guerras imperiais-coloniais, nada da riqueza pilhada foi utilizada para assegurar a lealdade dos trabalhadores ao imp\u00e9rio. O fardo do imp\u00e9rio progressivamente deteriora os sal\u00e1rios e os padr\u00f5es de vida dos trabalhadores assalariados. Ao longo do tempo, a tributa\u00e7\u00e3o regressiva erodiu gradualmente qualquer sentido de grandeza chauvinista ou de superioridade. Ao inv\u00e9s disso, cidad\u00e3os do imp\u00e9rio desenvolveram um complexo de inferioridade pol\u00edtica. Confrontada com oposi\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica determinada e a ascens\u00e3o do poder econ\u00f3mico da China, apoderou-se de uma minoria uma belicosidade exagerada e da maioria uma introspec\u00e7\u00e3o cr\u00edtica. A consci\u00eancia popular de &#8220;alguma coisa basicamente errada&#8221; em Washington e na Wall Street passou a prevalecer. Os anteriores cantos de guerra e o agitar de bandeiras irreflectido, quando os ex\u00e9rcitos do Imp\u00e9rio marchavam para o Afeganist\u00e3o e o Iraque, foram substitu\u00eddos pelo derrotismo furioso contra os que os enganaram. Mais de 80% do p\u00fablico agora articula uma vis\u00e3o negativa do Congresso, rejeitando ambos os partidos da guerra. Vis\u00f5es negativas semelhantes s\u00e3o mantidas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Casa Branca, ao Pent\u00e1gono e ao Minist\u00e9rio da Seguran\u00e7a Interna (Homeland Security).<\/p>\n<p>Ap\u00f3s uma d\u00e9cada de guerra e quatro anos de crise econ\u00f3mica, irrompem protestos em massa, o movimento\u00a0<a href=\"http:\/\/occupywallst.org\/\" target=\"_blank\">Occupy Wall Street<\/a> coloca novas op\u00e7\u00f5es sobre a mesa, deslocando a agenda imperial com uma den\u00fancia poderosa da elite militarista-financeira.<\/p>\n<p>Os governantes do executivo, especialmente os aparelhos judiciais, de intelig\u00eancia e de pol\u00edcia, implementam cada vez mais medidas arbitr\u00e1rias de estado policial. Dezenas de milh\u00f5es de cidad\u00e3os est\u00e3o sujeitos \u00e0 vigil\u00e2ncia por parte do Minist\u00e9rio da Seguran\u00e7a Interna. O estado policial intercepta milhares de milh\u00f5es de faxes, emails, s\u00edtios web e chamadas telef\u00f3nicas. A liga\u00e7\u00e3o entre imperialismo e democracia rompeu-se ao ponto de o imp\u00e9rio em decl\u00ednio j\u00e1 n\u00e3o poder mais assegurar o apoio ou a aquiesc\u00eancia do eleitorado.<\/p>\n<p>Cada vez mais tramas terroristas bizarras s\u00e3o fabricadas pelas ag\u00eancias de intelig\u00eancia. A trama da bomba iraniana contra o embaixador da Ar\u00e1bia Saudita em Washington foi o esfor\u00e7o mais primitivo e grosseiro para recuperar apoio p\u00fablico ao militarismo imperial na regi\u00e3o do Golfo. Aparte a politicamente influente, mas infinitamente pequena, configura\u00e7\u00e3o de poder pr\u00f3 Israel-sionista, a opini\u00e3o p\u00fablica dos EUA n\u00e3o se desvia da sua agenda interna; da sua busca por empregos internos e da oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Wall Street.<\/p>\n<p>Quando o conflito entre imperialismo e democracia se intensifica, o &#8220;consenso&#8221; anterior fractura-se. A Casa Branca e o Congresso optam pelo imperialismo apoiado num estado policial profundamente anti-democr\u00e1tico. A maioria do eleitorado pressiona por um avan\u00e7o, utilizando seus direitos democr\u00e1ticos remanescentes, a fim de mudar a agenda pol\u00edtica do imp\u00e9rio rumo a uma rep\u00fablica social.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p>Argument\u00e1mos que imp\u00e9rio e democracia t\u00eam sido complementares em tempos de imperialismo ascendente. Mostr\u00e1mos que quando guerras de conquista t\u00eam sido curtas e baratas, e quando os resultados t\u00eam sido lucrativos para o capital e criam empregos para o trabalho, as maiorias democr\u00e1ticas unem-se no apoio a elites imperiais. Institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas floresceram quando imp\u00e9rios al\u00e9m-mar proporcionavam mercados, recursos baratos e elevavam padr\u00f5es de vida. Trabalhadores votaram por partidos imperiais, mantiveram opini\u00f5es positivas de respons\u00e1veis executivos e legislativos, e aplaudiam os veteranos das guerras coloniais (nossas tropas). Alguns chegavam mesmo a voluntariar-se aderir aos militares. Com vasto apoio da cidadania ao imp\u00e9rio, o estado agia mais ou menos de acordo com as garantias constitucionais. Mas o casamento da democracia e do imperialismo n\u00e3o \u00e9 &#8220;estrutural&#8221;. Ele est\u00e1 dependente de uma s\u00e9rie de condi\u00e7\u00f5es vari\u00e1veis, as quais podem causar uma ruptura profunda entre os dois, como estamos hoje a testemunhar.<\/p>\n<p>Guerras imperiais prolongadas, ruinosas e custos que desgastam crescentemente padr\u00f5es de vida por mais de uma gera\u00e7\u00e3o minaram o consenso entre dominadores imperiais e cidad\u00e3os democr\u00e1ticos. Sinais precursores desta diverg\u00eancia potencial foram evidentes durante o \u00faltimo per\u00edodo da Guerra da Coreia, quando a opini\u00e3o p\u00fablica voltou-se contra o presidente Truman, arquitecto da Guerra-Fria e da invas\u00e3o estado-unidense da Coreia. Mais evid\u00eancia disso emergiu durante a Guerra do Vietname. Confrontados com uma guerra prolongada e perdida, a qual punha em perigo as vidas e oportunidades de dezenas de milh\u00f5es de americanos em idade de conscri\u00e7\u00e3o, milh\u00f5es na vida civil e militar optaram por acabar com a guerra e questionar interven\u00e7\u00f5es imperiais. O estado repressivo ainda n\u00e3o estava suficientemente organizado para aterrorizar e conter o levantamento democr\u00e1tico da d\u00e9cada de 1970. O fim da guerra do Vietname representou o ponto alto na tentativa da Am\u00e9rica democr\u00e1tica de conter o imperialismo e reconstruir a rep\u00fablica.<\/p>\n<p>As subsequentes pequenas, r\u00e1pidas, de baixo custo e militarmente com \u00eaxito interven\u00e7\u00f5es imperiais no Panam\u00e1, Granada, Haiti e alhures n\u00e3o provocaram qualquer conflito entre imperialismo e democracia. Nem t\u00e3o pouco as guerras imperiais clandestinas e por procura\u00e7\u00e3o na Nicar\u00e1gua, El Salvador, Guatemala, Angola, Mo\u00e7ambique, Afeganist\u00e3o e nos Balc\u00e3s provocaram qualquer oposi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica significativa uma vez que foram de baixo custo (em vidas e financiamento) e n\u00e3o foram acompanhadas por quaisquer cortes dr\u00e1sticos em despesas sociais e rendimentos.<\/p>\n<p>No princ\u00edpio as actuais guerras ofensivas globais no Afeganist\u00e3o, Iraque eram encaradas por alguns estrategas imperiais \u00e0 mesma luz. Vit\u00f3rias r\u00e1pidas, de baixo custo e com poucas despesas internos. Um oficial pr\u00f3 Israel altamente colocado no Pent\u00e1gono argumentou mesmo que a invas\u00e3o e ocupa\u00e7\u00e3o do Iraque seria &#8220;auto-financi\u00e1vel&#8221; atrav\u00e9s de um apresamento do petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>As guerras do s\u00e9culo XXI acabaram por ser de outra forma. Elas seguiram o padr\u00e3o coreano-vietnamita, n\u00e3o o padr\u00e3o centro-americano\/caribenho. Imensamente custosas, as guerras do s\u00e9culo XXI n\u00e3o t\u00eam levado a vit\u00f3rias r\u00e1pidas e, pior ainda, ocorreram em meio a uma crise econ\u00f3mica sem precedentes, sem o boom manufactureiro e de mercado das d\u00e9cadas de 1950\/1960, os quais amorteceram a retirada da Coreia e do Vietname.<\/p>\n<p>A diverg\u00eancia entre imperialismo e democracia tornou-se aguda. A dissens\u00e3o democr\u00e1tica aumentou e o estado policial tornou-se mais proeminente e directo. O imperialismo confia cada vez mais na &#8220;fabrica\u00e7\u00e3o de tramas de terror internas e externas&#8221; para aumentar os poderes da maquinaria repressiva e dominar por decreto. As exorta\u00e7\u00f5es da Casa Branca soam falsas. O p\u00fablico d\u00e1 cada vez menos cr\u00e9dito \u00e0s ac\u00e7\u00f5es dos seus governantes \u2013 deten\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rios &#8220;justific\u00e1veis&#8221;, vigil\u00e2ncia maci\u00e7a e assassinatos extra-judiciais de cidad\u00e3os estado-unidenses (e mesmo dos seus filhos).<\/p>\n<p>N\u00f3s agora enfrentamos perigos a longo prazo e em grande escala, inerentes a democracias imperiais. N\u00e3o devido a &#8220;contradi\u00e7\u00f5es internas&#8221; mas sim porque mais cedo ou mais tarde potencias imperiais encontram seu advers\u00e1rio na forma de lutas prolongadas de movimentos anti-imperialistas e de liberta\u00e7\u00e3o nacional. S\u00f3 quando guerras imperiais cobram a sua portagem \u00e0 maioria assalariada \u00e9 que a ruptura entre democracia e imperialismo se verifica. Ent\u00e3o e s\u00f3 ent\u00e3o s\u00e3o activadas for\u00e7as democr\u00e1ticas para criar uma rep\u00fablica democr\u00e1tica, com justi\u00e7a social e sem imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>O perigo actual \u00e9 que estruturas imperiais est\u00e3o profundamente incorporadas em todas as institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas chave e s\u00e3o apoiadas por um vasto e extenso aparelho de pol\u00edcia estatal sem precedentes, o Homeland Security. Talvez seja preciso um grande choque pol\u00edtico-militar externo para atear a esp\u00e9cie de levantamento democr\u00e1tico em massa necess\u00e1rio para transformar um estado imperial numa rep\u00fablica democr\u00e1tica. Um crescente sentimento de isolamento e impot\u00eancia afecta o regime dominante face a derrotas militares al\u00e9m-mar e ao implac\u00e1vel aprofundamento da crise econ\u00f3mica interna. O perigo \u00e9 que estes temores e frustra\u00e7\u00f5es possam induzir a Casa Branca a tentar recuperar apoio popular atacando o Ir\u00e3o sob um pretexto fabricado. Um assalto EUA\/Israel ao Ir\u00e3o resultar\u00e1 numa conflagra\u00e7\u00e3o \u00e0 escala mundial. O Ir\u00e3o poderia retaliar e retaliaria. Po\u00e7os de petr\u00f3leo sauditas e no Golfo ficariam em chamas. Rotas de navega\u00e7\u00e3o vitais seriam bloqueadas. Os pre\u00e7os dos combust\u00edveis disparariam enquanto economias asi\u00e1ticas, da UE e dos EUA entrariam em crash. Tropas iranianas com seus aliados iraquianos bloqueariam guarni\u00e7\u00f5es estado-unidenses em Bagdad, o Afeganist\u00e3o, Paquist\u00e3o e o resto do mundo mu\u00e7ulmano pegaria em armas. As for\u00e7as dos EUA teriam de render-se ou retirar-se. A guerra estilha\u00e7aria o Tesouro dos EUA. Os d\u00e9fices disparariam fora de controle. O desemprego duplicaria. Esta sequ\u00eancia prov\u00e1vel de acontecimentos dispararia um movimento democr\u00e1tico maci\u00e7o e uma luta decisiva entre uma rep\u00fablica emergente a lutar por nascer e um imp\u00e9rio decadente a amea\u00e7ar arrastar o mundo para o inferno da sua pr\u00f3pria morte.<\/p>\n<p>23\/Outubro\/2011<\/p>\n<p><strong>O original encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/www.globalresearch.ca\/index.php?context=va&amp;aid=27238\" target=\"_blank\">http:\/\/www.globalresearch.ca\/index.php?context=va&amp;aid=27238<\/a>. Tradu\u00e7\u00e3o de JF. <\/strong><\/p>\n<p><strong>Este artigo encontra-se em\u00a0<a href=\"http:\/\/resistir.info\/\" target=\"_blank\">http:\/\/resistir.info\/<\/a> .<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\nCr\u00e9dito: Resistir.info\n\n\n\n\n\n\n\n\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2027\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[38],"tags":[],"class_list":["post-2027","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c43-imperialismo"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-wH","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2027","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2027"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2027\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2027"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2027"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2027"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}