{"id":20320,"date":"2018-07-26T00:55:15","date_gmt":"2018-07-26T03:55:15","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=20320"},"modified":"2018-07-28T16:46:07","modified_gmt":"2018-07-28T19:46:07","slug":"o-que-esta-em-jogo-em-2018","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20320","title":{"rendered":"O que est\u00e1 em jogo em 2018?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/H4Tj4ybJZcmmsAhRW62eWxq35mw8aWwN-Jar0rdWQXHiyXeFU9hCcOCc-jv9rekyDzX4Qsh66G58Mqd3C4mTgZBhDD0DXLoKwB8fFPp6kDtvsCBF4rljDSxSQSf971n5QFaQgHzfmNoaOSOOeG2VomaG0Xe3eEsXfqQpF6O_KiHICbXkokKCMcAB7_juZLojX7ZPdSfCL6zdeTWKizJvYblZ78AhdYUl4IRZmpl2XVSdqPfo16h2Z4ZWK6tNKY5BHlroGwHYmf5PbkuZA7Oo2PhS0AozmUJkm8vMHKoK7aJ6zYKT17lS3qJc6F5cR9hIpk9HyUjAQGqmoJmC8w1hwNI1V7h0X303XkhWqNlbv2NRilxf5J1aOGcjbR2t_khSf9X9i184B_V1KODpVEcN7fwRzlk4v7DaBt2Mwr5MNN_avNqKriBJOiGWyn8CbhaM1Nz0oc8fue_qmEn0g2vwev7vcjUiGV6ew4UavSpglCLnTLW7jnFNTBVUyY2PMu1a4lsen6mKsje4iDuzbJC3ITJfVjcdKftZcr24r4pq3IBno5YAnxIwdin4dnLe4ibYXT9GAxaa2Sgo1Vzpmjrk4ocde8JQwiBgLkWcU_pgqHn71GTtVVmqAjrUby6RfV9rSD-d6M8K25IU3XvmFBtPYDfLwPx8DHAaKA=w434-h341-no\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Juliano Medeiros*<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es de outubro ocorrer\u00e3o numa situa\u00e7\u00e3o in\u00e9dita. Desde o fim do regime militar o Brasil n\u00e3o vive um momento de tantas indefini\u00e7\u00f5es. Essas indefini\u00e7\u00f5es v\u00e3o do desempenho econ\u00f4mico ao resultado eleitoral, no curto prazo, at\u00e9 o futuro das institui\u00e7\u00f5es da Nova Rep\u00fablica e das contrarreformas realizadas pelo ileg\u00edtimo governo Temer, no m\u00e9dio prazo. Seja como for, as\u00a0elei\u00e7\u00f5es de 2018 est\u00e3o sob o signo da incerteza.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o se torna ainda mais dram\u00e1tica quando observamos o que est\u00e1 em jogo. H\u00e1 uma avalia\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o un\u00e2nime, amplamente majorit\u00e1ria entre a intelectualidade cr\u00edtica, de que estamos diante do fim de um ciclo na pol\u00edtica brasileira. Esse fim de ciclo seria marcado pela incapacidade das institui\u00e7\u00f5es da Nova Rep\u00fablica e dos arranjos pol\u00edtico-institucionais dela decorrentes de cumprirem as promessas de justi\u00e7a social consignadas na Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988. Com este ciclo, outros fen\u00f4menos sociais e pol\u00edticos tamb\u00e9m demonstram seu esgotamento, como a polariza\u00e7\u00e3o entre\u00a0PT\u00a0<i>versus<\/i>\u00a0PSDB, que marcou as \u00faltimas seis elei\u00e7\u00f5es presidenciais.<\/p>\n<p>O fim do ciclo aberto na Nova Rep\u00fablica estimula uma luta aberta sobre a natureza do ciclo que se inicia. E com ela, muitas d\u00favidas. O que ser\u00e1 do PT ap\u00f3s sua primeira elei\u00e7\u00e3o sem a candidatura de Lula,\u00a0possivelmente impugnado pela Justi\u00e7a Eleitoral\u00a0ap\u00f3s sua condena\u00e7\u00e3o sem provas? Poder\u00e1 a direita superar a fragmenta\u00e7\u00e3o imposta pela luta entre suas fra\u00e7\u00f5es de classe e recompor um polo politicamente hegem\u00f4nico? Quais os impactos da nova etapa da crise de acumula\u00e7\u00e3o capitalista na periferia do sistema e, particularmente, no Brasil? Como as opera\u00e7\u00f5es judiciais incidir\u00e3o sobre um poss\u00edvel novo arranjo de for\u00e7as? Pensar o que realmente est\u00e1 em jogo nas elei\u00e7\u00f5es deste ano s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel em di\u00e1logo com essas quest\u00f5es.<\/p>\n<p><b>O fim do ciclo<\/b><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal\/images\/stories\/outras-opinioes.png\" alt=\"imagem\" \/>O impeachment de\u00a0Dilma Rousseff\u00a0n\u00e3o representou apenas o fim dos governos liderado pelo PT. Ele representou, tamb\u00e9m, a interdi\u00e7\u00e3o por tempo indeterminado da estrat\u00e9gia de pacto de classes constru\u00edda a partir de chegada de Lula ao governo, em 2003. Nesse pacto, descrito por Andr\u00e9 Singer como uma esp\u00e9cie de \u201creformismo fraco\u201d (em oposi\u00e7\u00e3o ao \u201creformismo forte\u201d dos governos bolivarianos do mesmo per\u00edodo), todos poderiam acessar os benef\u00edcios de quase uma d\u00e9cada de crescimento econ\u00f4mico ininterrupto liderado pela explos\u00e3o do pre\u00e7o<i>\u00a0<\/i>das\u00a0<i>commodities\u00a0<\/i>no mercado internacional. Era o esplendor da Nova Rep\u00fablica: uma in\u00e9dita sequ\u00eancia de duas d\u00e9cadas de governos eleitos democraticamente e que representavam a ess\u00eancia dos preceitos da Constitui\u00e7\u00e3o de pleno funcionamento da economia de mercado com a gradual expans\u00e3o de pol\u00edticas sociais.<\/p>\n<p>Enquanto oito anos de governos tucanos serviram para alicer\u00e7ar as bases do neoliberalismo \u2013 com a combina\u00e7\u00e3o entre c\u00e2mbio flutuante, metas de infla\u00e7\u00e3o e superavit prim\u00e1rio \u2013 treze anos de governos petistas democratizaram direitos sociais e promoveram o acesso aos bens de consumo, sem alterar os fundamentos econ\u00f4micos de seus antecessores. Com isso, chegamos a uma curiosa combina\u00e7\u00e3o entre uma economia com tra\u00e7os neoliberais \u2013 sob forte hegemonia do capital financeiro \u2013 e ganhos assegurados pelo crescimento econ\u00f4mico e pela voca\u00e7\u00e3o redistributiva da coaliz\u00e3o que governou o pa\u00eds nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Tudo parecia perfeito, at\u00e9 que veio 2008. No in\u00edcio tratada com desd\u00e9m pela alian\u00e7a no poder, a crise desencadeada no mercado imobili\u00e1rio dos Estados Unidos levou a um rearranjo global da economia, com consequ\u00eancias dr\u00e1sticas para os chamados \u201cpa\u00edses emergentes\u201d. A contamina\u00e7\u00e3o pela crise internacional fez com que o\u00a0Produto Interno Bruto (PIB)\u00a0acumulasse queda de mais de 4% entre o \u00faltimo trimestre de 2008 e o primeiro semestre de 2009. O setor industrial, com redu\u00e7\u00e3o de 11,6% nesse mesmo intervalo de tempo, foi o principal respons\u00e1vel pela inflex\u00e3o na evolu\u00e7\u00e3o do PIB, uma vez que o setor agropecu\u00e1rio registrou leve expans\u00e3o.<\/p>\n<p>Diante desse cen\u00e1rio, foi atrav\u00e9s do mercado interno que os governos de Lula e Dilma buscaram mitigar os impactos da crise. A aposta no imenso potencial de consumo formado pela oferta abundante de cr\u00e9dito e o aumento do sal\u00e1rio-m\u00ednimo e das aposentadorias levou a um crescimento do setor terci\u00e1rio de 4,2% logo ap\u00f3s a eclos\u00e3o da crise. Gra\u00e7as a essa estrat\u00e9gia, o pacto de classes foi vitorioso nas elei\u00e7\u00f5es de 2010 e 2014.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/pcb.org.br\/portal\/images\/stories\/outras-opinioes.png\">pcb.org.br\/portal\/images\/stories\/outras-opinioes.png<\/a>Mas a crise mostraria sua face novamente. A estagna\u00e7\u00e3o do crescimento, o aumento do desemprego e as pol\u00edticas de austeridade adotadas a partir de 2014 por Dilma Rousseff e Joaquim Levy levaram a uma crescente instabilidade pol\u00edtica e econ\u00f4mica. Uma forte e prolongada recess\u00e3o atingiu em cheio o Brasil em 2015-2016, com uma taxa de crescimento do PIB m\u00e9dia negativa de -3,7%, acompanhado de uma piora em v\u00e1rios indicadores sociais.<\/p>\n<p>As\u00a0manifesta\u00e7\u00f5es de junho de 2013\u00a0foram o ato de estreia de um descontentamento difuso endere\u00e7ado \u00e0s institui\u00e7\u00f5es, aos pol\u00edticos e \u00e0s velhas formas de governar. Nesse contexto fermentou um caldo de insatisfa\u00e7\u00e3o que colocou a maioria do povo brasileiro a favor da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato e do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, como atestaram diversas pesquisas de opini\u00e3o realizadas no in\u00edcio de 2016. Acuada, a esquerda brasileira \u2013 liderada por um partido incapaz de mostrar qualquer capacidade de resist\u00eancia \u2013 se viu responsabilizada por todos os problemas do pa\u00eds. Corrup\u00e7\u00e3o, desemprego, atrasos nas obras p\u00fablicas: tudo passou a ser vinculado ao PT e, num sentido mais amplo, \u00e0 esquerda em geral. O resultado, nas elei\u00e7\u00f5es municipais de 2016, foi uma acachapante derrota eleitoral, fazendo diminuir em 60% o n\u00famero de prefeituras governadas pelo PT.<\/p>\n<p><b>A crise \u00e9 o \u201cnovo normal\u201d<\/b><\/p>\n<p>Dispostas a ir \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias para salvarem seus interesses diante da crise, as diferentes fra\u00e7\u00f5es da burguesia constitu\u00edram uma ampla frente pol\u00edtica. Sob a lideran\u00e7a de seu lugar-tenente, Eduardo Cunha, em poucos meses essa frente reunia desde partidos que vocalizaram durante treze anos os interesses do capital financeiro na oposi\u00e7\u00e3o \u2013 notadamente PSDB e DEM \u2013 at\u00e9 governistas empedernidos, como PMDB, PP ou PR. O programa dessa frente era simples: assegurar controle total sobre o fundo p\u00fablico para defender os interesses do mercado, conter os efeitos da crise pol\u00edtica provocada pela Lava Jato e levar adiante contrarreformas que pudessem assegurar uma completa reestrutura\u00e7\u00e3o do Estado brasileiro, rompendo com a natureza reformista da Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988.<\/p>\n<p>Essa frente apostava numa r\u00e1pida recupera\u00e7\u00e3o da economia em n\u00edvel mundial, que alavancaria um novo ciclo expansivo no Brasil, agora \u201crealinhado\u201d com os interesses do centro do capitalismo global. Acontece que a recupera\u00e7\u00e3o n\u00e3o veio. E com isso, as fra\u00e7\u00f5es de classe que promoveram o golpe parlamentar de abril de 2016 come\u00e7aram a dar claros sinais de desagrega\u00e7\u00e3o. A mobiliza\u00e7\u00e3o dos caminhoneiros, com suas caracter\u00edsticas h\u00edbridas de greve e locaute, revelaram profundas fissuras entre os setores claramente pr\u00f3-imperialistas, que controlam postos-chave no governo Temer, e as fra\u00e7\u00f5es vinculadas aos setores produtivos, especialmente o agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>O calend\u00e1rio eleitoral, visto como uma oportunidade de legitima\u00e7\u00e3o do programa do golpe, tornou-se um fantasma, j\u00e1 que as incertezas aprofundam a divis\u00e3o entre os generais do liberalismo e abre espa\u00e7o para sa\u00eddas extremas \u2013 \u00e0 esquerda e \u00e0 direita. E outras palavras, a situa\u00e7\u00e3o vivida hoje pelo Brasil n\u00e3o \u00e9 muito diferente daquela experimentada pelos pa\u00edses que enfrentaram processos eleitorais ap\u00f3s a crise de 2008 na Europa. De alguma forma, \u00e9 como se a crise tivesse se tornado uma nova forma de normalidade. A instabilidade \u00e9 o \u201cnovo normal\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto vigorarem as medidas impostas pelo cons\u00f3rcio golpista que tomou o Pal\u00e1cio do Planalto com o apoio dos demais poderes da Rep\u00fablica\u00a0 \u2013 com Supremo, com tudo \u2013 o Brasil viver\u00e1 constantemente sob a sombra da recess\u00e3o, da crise social e da mis\u00e9ria. As elites, no entanto, plantaram a semente de sua destrui\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que o caos abre espa\u00e7o para alternativas cada vez mais potentes. Na Fran\u00e7a p\u00f3s-crise, a extrema-direita e a esquerda radical somam hoje quase metade do eleitorado franc\u00eas. Na Espanha surgiram novos partidos de massas, como Podemos e Ciudadanos. Na Gr\u00e9cia a esquerda radical chegou ao poder e em Portugal uma coaliz\u00e3o liderada pelo Partido Socialista \u2013 com apoio parlamentar do Partido Comunista e do Bloco de Esquerda \u2013 governa contra os interesses da Troika h\u00e1 mais de dois anos. Na Inglaterra o nacionalismo xen\u00f3fobo levou \u00e0 sa\u00edda do pa\u00eds da Zona do Euro e nos Estados Unidos a desesperan\u00e7a permitiu a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump \u2013 e o surgimento de um polo \u00e0 esquerda, com Bernie Sanders. Esses fen\u00f4menos, cada um \u00e0 sua maneira, s\u00e3o tribut\u00e1rios das mudan\u00e7as promovidas pela crise econ\u00f4mica e pela incapacidade do liberalismo em produzir sa\u00eddas.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, uma onda de retrocessos marca o cen\u00e1rio pol\u00edtico. A vit\u00f3ria dos neoliberais nas elei\u00e7\u00f5es no Chile, Peru e Argentina, acompanhada dos golpes parlamentares no Brasil e Paraguai, isolaram fortemente os governos anti-imperialistas da regi\u00e3o. A instabilidade pol\u00edtica na Venezuela, mais do que qualquer outro pa\u00eds, expressa claramente a combina\u00e7\u00e3o entre crise econ\u00f4mica, provocada pela queda dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo, e isolamento pol\u00edtico regional.<\/p>\n<p><b>\u00c0 esquerda, uma esperan\u00e7a<\/b><\/p>\n<p>Mas se a crise revelou os limites da estabilidade democr\u00e1tica oferecida pelos velhos representantes do liberalismo econ\u00f4mico, ela tamb\u00e9m abriu espa\u00e7o para novos processos sociais. O surgimento de novos campos pol\u00edticos \u00e0 esquerda est\u00e1 em curso em diferentes pa\u00edses nos \u00faltimos anos, onde as tradicionais for\u00e7as da socialdemocracia \u2013 isto \u00e9, as for\u00e7as de esquerda que limitaram sua a\u00e7\u00e3o e seu programa pol\u00edtico aos limites da democracia representativa e \u00e0 tarefa de administrar a economia de mercado \u2013 cedem cada vez mais espa\u00e7o a novos partidos e movimentos que buscam representar uma agenda pol\u00edtica cr\u00edtica a esses limites, assumindo um discurso e um programa em favor de uma\u00a0<i>democracia radical<\/i>.<\/p>\n<p>Em alguns casos, como na Espanha e no Chile, esses novos atores sociais se institucionalizaram, dando origem a partidos pol\u00edticos. Em outros, como nos Estados Unidos, ap\u00f3s o\u00a0<i>Ocuppy Wall Street<\/i>, esses processos sociais incidiram sobre a arena institucional, sem, contudo, originar novas organiza\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias ou ensejar a forma\u00e7\u00e3o de novos campos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Evidentemente, os processos acima mencionados s\u00e3o muito distintos entre si. Mas \u00e9 v\u00e1lido crer que o surgimento simult\u00e2neo de novos atores pol\u00edticos identificados com a cr\u00edtica aos limites da democracia representativa e da simples \u201cadministra\u00e7\u00e3o do sistema\u201d em diferentes pa\u00edses, guarde rela\u00e7\u00e3o entre si. Isso seria explicado pela combina\u00e7\u00e3o entre os flagrantes limites dos paradigmas que orientaram as for\u00e7as hegem\u00f4nicas na esquerda desde a queda do Muro de Berlim na Europa e Am\u00e9rica Latina e sua incapacidade de responder aos efeitos da crise de valoriza\u00e7\u00e3o do capital e as transforma\u00e7\u00f5es dela decorrentes.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia da combina\u00e7\u00e3o entre crise estrutural e crise epist\u00eamica levaria, assim, a uma crise da velha reformista e ao surgimento de novos campos \u00e0 esquerda em diversos pa\u00edses do ocidente (al\u00e9m dos j\u00e1 mencionados, h\u00e1 processos semelhantes no Peru, M\u00e9xico, Fran\u00e7a, Portugal, Alemanha, Uruguai, Turquia e Gr\u00e9cia). Em muitos deles, o surgimento desses novos campos foi precedido n\u00e3o por um \u201cdescolamento\u201d dos movimentos sociais que compunham o campo antes hegem\u00f4nico, como sindicatos ou entidades estudantis, mas pela eclos\u00e3o de processos sociais cr\u00edticos aos limites da democracia representativa, dando origem a novos atores sociais coletivos.<\/p>\n<p>No Brasil, a alian\u00e7a entre PSOL, PCB e um conjunto de movimentos sociais liderados pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) \u00e9 a que melhor expressa esse processo. Dissid\u00eancia \u00e0 esquerda do PT legalizada em 2005 como partido, o PSOL foi a legenda partid\u00e1ria que mais fortemente se conectou com os processos de resist\u00eancia que ganharam f\u00f4lego na \u00faltima d\u00e9cada em todo mundo. Esses processos uniram uma agenda hist\u00f3rica da esquerda por sal\u00e1rio, soberania nacional e direitos sociais a novas demandas por democracia, reconhecimento e liberdade.<\/p>\n<p>Evidentemente, o Brasil \u00e9 muito diferente de pa\u00edses como Fran\u00e7a ou Chile, onde essa nova esquerda consolidou um espa\u00e7o institucional relevante (hoje, cerca de 20% dos eleitores). Mas \u00e9 ineg\u00e1vel que a crise do paradigma socialdemocrata se alastra por todo o mundo, colocando um novo antagonismo entre os limites do poss\u00edvel e uma\u00a0<i>democracia radical<\/i>. Referente nacional do que seria a verdadeira tradi\u00e7\u00e3o daquele paradigma, o Partido dos Trabalhadores, apesar da popularidade de Lula, sofre com a dificuldade de reinventar-se, para al\u00e9m de toda a persegui\u00e7\u00e3o jur\u00eddica e midi\u00e1tica da qual tem sido v\u00edtima.<\/p>\n<p>Por isso, o que est\u00e1 em jogo neste fim de ciclo na pol\u00edtica brasileira \u00e9 a possibilidade de semear uma nova agenda de esquerda, radicalmente cr\u00edtica aos limites da democracia das elites que institucionaliza a sub-representa\u00e7\u00e3o das maiorias sociais \u2013 como negros e mulheres \u2013 sem perder sua perspectiva abertamente anticapitalista, ant\u00edtese dos interesses das classes dominantes.<\/p>\n<p>Enquanto outras candidaturas do campo progressista seguem expressando a necessidade de recomposi\u00e7\u00e3o do pacto entre capital e trabalho, rompido pela burguesia no auge da crise pol\u00edtica de 2016, Guilherme Boulos e\u00a0S\u00f4nia Guajajara\u00a0afirmam caminho oposto: a necessidade de um programa e uma democracia dos \u201cde baixo\u201d, capaz de combater a brutal desigualdade que marca nossa forma\u00e7\u00e3o social e construir um novo ciclo de lutas sociais, cuja perspectiva estrat\u00e9gica passa por uma nova l\u00f3gica de organiza\u00e7\u00e3o da sociedade na busca por um socialismo democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>A elei\u00e7\u00e3o de Boulos e S\u00f4nia, evidentemente, n\u00e3o \u00e9 suficiente para responder a esse desafio. Mas \u00e9 parte indispens\u00e1vel dessa caminhada. Nossa alian\u00e7a apresentar\u00e1 um programa, um discurso e uma pr\u00e1tica pol\u00edtica que desafiam a imagina\u00e7\u00e3o daqueles que, na esquerda, se acostumaram com os limites do poss\u00edvel, e isso pode encantar milh\u00f5es. Reconhecendo avan\u00e7os e limites em outras experi\u00eancias, construindo pontes para enfrentar a agenda do golpe, fortalecendo a unidade democr\u00e1tica com outros partidos, buscaremos ir al\u00e9m. N\u00e3o \u00e9 pouco o que est\u00e1 em jogo. Entreguemos o melhor de n\u00f3s. O futuro do Brasil depende disso.<\/p>\n<p><em>*Juliano Medeiros<\/em>\u00a0\u00e9\u00a0<i>Historiador, cientista pol\u00edtico e Presidente Nacional do PSOL<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20320\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[104],"tags":[222],"class_list":["post-20320","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c117-outras-opinioes","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5hK","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20320","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20320"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20320\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20320"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20320"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20320"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}