{"id":20365,"date":"2018-07-31T07:14:27","date_gmt":"2018-07-31T10:14:27","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=20365"},"modified":"2018-08-01T17:58:09","modified_gmt":"2018-08-01T20:58:09","slug":"a-nossa-nacao-nao-tem-divisas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20365","title":{"rendered":"&#8220;A nossa na\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem divisas&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/lh3.googleusercontent.com\/3hAhqTO7AKO43Qy1GFNhi5I3t3p4nXiZVoVtHEwwl-eWeEOYD3GhLqNVV4kaVfB7YlWqOJbEcatgOWAOYY9c-1duZvr7QmG4bBz3yDrMJpEaCLML-Zf0Xuqa-9-TNpOl4tgG8i7UCwvBt5zA-GYvjvRKI2SO-0sJPeqeQ4x9FNtWh563-bl0OY1l9J99U6Qkf4VAc4HOOmFV45hysj720hVa3BlrmBTp9w5MCfrRFOqVIjSw9eXitm38Df6HE_WVmS8-trpJmr-oLb3FUyZIxjMCFfgx4F5Sb9pgEokhlIuHOO2bnP9s2qSNvx7inQRiRvnVQGUiDKKuVdUKVjojsCITWGLvGZKlNmC9cCk-wDDRzbVocUXtePJWbs-cltR9ASx1TXhbLIuSzxCI9HsFH79oy74xFtkN0NVWQ_UlLFM3wOlRiMlsJR0JdVcXPGvynFuHoyCDDvNz3ER6p_ng6BaqJznGn5qx1ywt11gstJjJpLX_2GBCP7y7eSSXOWhvmQZNEhGHbUBziEJNHqmImqdfO3ATKQUp3IFBsOpTx62sCBTNPgb7ui2nKOROFc2iUEhP3fCdGGTDxCQPKQU7bF-zTBtBj2rPHSxcwInm5Vrl0uwe5z_QUGr4GOUu80VEIOUVKvbDrxgwunL6b0_zbRJCSmvARytP-Q=w1569-h881-no\" \/><!--more-->ENTREVISTA COM ADALTO GUARANI-KAIOW\u00c1<\/p>\n<p>Por ocasi\u00e3o da V Jornada Universit\u00e1ria pela Defesa da Reforma Agr\u00e1ria (JURA), realizada entre os dias 16 e 19 de abril de 2018 no campus da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ-USP) em Piracicaba\/SP, o Partido Comunista Brasileiro entrevistou Adalto Guarani, destacada lideran\u00e7a Guarani Kaiow\u00e1 do territ\u00f3rio de Laranjeira \u00d1anderu (MS), participante de uma das mesas redondas do evento.<\/p>\n<p>Realiza\u00e7\u00e3o: C\u00e9lula PCB de Piracicaba e Fra\u00e7\u00e3o Nacional da Quest\u00e3o Ind\u00edgena do PCB.<br \/>\nEntrevistadores: Gabriel Colombo, Ana Paula Zagueto e Fernanda Moraes.<br \/>\nQuest\u00f5es: Vivian Costa, Gabriele Valad\u00e3o e Gustavo Velloso<br \/>\nTranscri\u00e7\u00e3o e edi\u00e7\u00e3o: Gustavo Velloso<\/p>\n<p>Partido Comunista Brasileiro<br \/>\nNo dia 5 de mar\u00e7o deste ano, o senhor publicou em sua p\u00e1gina uma den\u00fancia feita pela ONU a respeito das crian\u00e7as que estavam sendo retiradas de suas fam\u00edlias nas comunidades do Mato Grosso do Sul. Alguma provid\u00eancia foi tomada sobre isso pelas autoridades governamentais? Como voc\u00eas est\u00e3o reagindo e atuando frente a essa quest\u00e3o?<\/p>\n<p>Adalto Guarani Kaiow\u00e1<br \/>\nEssa retirada das crian\u00e7as n\u00e3o d\u00e1 retorno para n\u00f3s. Isso a\u00ed \u00e9 o maior genoc\u00eddio. Tudo isso que o Estado agora est\u00e1 fazendo, tudo \u00e9 genoc\u00eddio, porque mata a esperan\u00e7a das pessoas. Eu acho que ningu\u00e9m est\u00e1 tomando provid\u00eancia. Por causa que para ele [o Estado] \u00e9 bom, \u00e9 ruim para n\u00f3s. Porque falam para n\u00f3s, l\u00e1 em Campo Grande, que [as crian\u00e7as] v\u00e3o ficar tr\u00eas meses no abrigo e depois as doam para o internacional. Ent\u00e3o, ele faz o maior genoc\u00eddio, porque a crian\u00e7a sai da comunidade, aprende outras coisas m\u00e1s, dos outros. De l\u00e1, se voltar, ele vem com a viol\u00eancia para a aldeia. Ent\u00e3o, tira-se a crian\u00e7a para fazer a destrui\u00e7\u00e3o de um povo. Essa retirada das crian\u00e7as d\u00f3i demais. E at\u00e9 agora ningu\u00e9m tomou provid\u00eancia. E o que ser\u00e1 que eu fa\u00e7o? Quem ser\u00e1 que vai tomar provid\u00eancia aqui no Brasil? \u00c9 triste esse neg\u00f3cio, \u201ct\u00e1 louco\u201d! Quanto mais n\u00f3s fazemos divulga\u00e7\u00e3o nas papeladas&#8230;<br \/>\nN\u00f3s fizemos tr\u00eas den\u00fancias para o Minist\u00e9rio P\u00fablico em Dourados, mas n\u00e3o resolveu. Al\u00e9m disso, fomos ao Cotigua\u00e7u, nome do abrigo, esse \u00e9 o nome onde as crian\u00e7as vivem, falar: \u201cVoc\u00eas est\u00e3o fazendo genoc\u00eddio!\u201d. E ele falou: \u201cN\u00e3o, n\u00f3s estamos cumprindo o nosso papel\u201d. E a lei falando para ele&#8230; \u00c9 por isso que ainda n\u00e3o se conseguiu devolver essas crian\u00e7as para n\u00f3s. Uma m\u00e3e estava chorando, nesses dias, chorando para n\u00f3s. Tiraram do colo da m\u00e3e! Isso \u00e9 que foi chocante para n\u00f3s. Dizem que ela [a crian\u00e7a] estava no colo da m\u00e3e e chegou o Conselho Tutelar tirando&#8230; e levaram. E a\u00ed falaram que a m\u00e3e n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de tratar, que n\u00e3o tem nada de casa boa, cama boa, que n\u00e3o tem terreno para sustentar os filhos. Muitas coisas. Falando mal. \u00c9 s\u00f3 pela causa de estar passando necessidades que eles tiram as crian\u00e7as. Essa separa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito chocante para n\u00f3s, porque tirar as crian\u00e7as dos outros \u00e9 crime! Est\u00e3o fazendo igual animal, fazendo igual filhote de bicho, igual cachorro&#8230; Rapaz, \u201ct\u00e1 louco\u201d, isso \u00e9 muito genoc\u00eddio! A nossa ideia, agora, \u00e9 fazer den\u00fancia l\u00e1 fora. O que se vai pensar sobre isso, para poder devolver todas as crian\u00e7as? Porque j\u00e1 passou da lei esse pessoal. Desacataram a lei. Fizeram como se n\u00e3o fossem mais humanos, penso que como um animal. \u00c9 triste, \u00e9 triste demais. \u00c9 isso que n\u00f3s seguimos. Vai muito longe essa hist\u00f3ria.<br \/>\nDesde que tudo come\u00e7ou, eu acompanhei essa hist\u00f3ria. Parece que s\u00e3o 100 ou 200 e poucas crian\u00e7as j\u00e1, l\u00e1 no abrigo: Santa Casa, parece que esse \u00e9 o nome do lugar. Colocaram na parede a doa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, uma placa. Depois, foram l\u00e1 no Cotigua\u00e7u e tiraram essa placa. Parecia que estavam doando um cachorrinho, uma doa\u00e7\u00e3o de cachorros. Rapaz, \u201ct\u00e1 louco\u201d! \u00c9 muito triste aquilo ali, \u00e9 triste demais. Eu n\u00e3o sei como que n\u00f3s ficamos, eu n\u00e3o sei mais. N\u00f3s n\u00e3o temos mais poder para fazer isso. Algu\u00e9m tem que ver isso, se est\u00e3o fazendo certo ou n\u00e3o. Ou est\u00e3o fazendo crime, ou est\u00e3o fazendo discrimina\u00e7\u00e3o, ou alguma coisa. Porque tem muitas pessoas que t\u00eam a vis\u00e3o, que s\u00f3 de olhar j\u00e1 conhecem o que eles est\u00e3o fazendo, a criminalidade.<br \/>\nA nossa inten\u00e7\u00e3o agora \u00e9 essa. Tem que ter algu\u00e9m para achar, para ver isso, para poder dizer quem est\u00e1 no direito e quem n\u00e3o est\u00e1 na raz\u00e3o. Ou o \u00edndio \u00e9 bicho, ou alguma coisa. \u00c9 triste, \u00e9 triste demais&#8230; E tem muitas coisas sobre isso, tem muito ainda! Seguimos isso a\u00ed, \u201ct\u00e1 louco\u201d! Rapaz do c\u00e9u, quando eu falo isso, me choca muito. Os meus sobrinhos mesmo, tr\u00eas est\u00e3o l\u00e1. Agora, j\u00e1 est\u00e1 tudo grandinho. E n\u00e3o falam mais guarani, n\u00e3o comem mais o que o pai e a m\u00e3e comiam. Quando a m\u00e3e chega l\u00e1, eles n\u00e3o conhecem mais a m\u00e3e. Eles falam: \u201cAh, olha l\u00e1, os \u00edndios est\u00e3o vindo a\u00ed, \u00f3!\u201d. Come\u00e7aram a ensinar assim. \u00c9 muito triste&#8230;<\/p>\n<p>Partido Comunista Brasileiro<br \/>\nSabemos da lentid\u00e3o dos processos de demarca\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios sagrados. Um deles \u00e9 Laranjeira \u00d1anderu, comunidade tradicional Kaiow\u00e1 de Rio Brilhante. Como anda o processo de demarca\u00e7\u00e3o desse territ\u00f3rio e como os Kaiow\u00e1 est\u00e3o lidando com as estrat\u00e9gias de avan\u00e7o anti-ind\u00edgenas, envolvendo tanto os fazendeiros da regi\u00e3o quanto as for\u00e7as armadas do Estado?<\/p>\n<p>Adalto Guarani Kaiow\u00e1<br \/>\nNa Laranjeira, agora, est\u00e1 a se fazer estudo. Primeiro, falaram que eram seis teses e que j\u00e1 estava pronto. Agora, j\u00e1 s\u00e3o sete teses. \u00c9 por causa da tese que seguram as coisas. Tem sete teses para poder aprovar [a demarca\u00e7\u00e3o]. Eram seis, agora s\u00e3o sete. Completou. Agora est\u00e1 na mesa da FUNAI. Agora est\u00e1 em an\u00e1lise, eles est\u00e3o analisando. E falaram que em abril ou maio ser\u00e1 aprovado e publicado. E a\u00ed, se publicar, j\u00e1 se faz o reconhecimento da terra. A\u00ed \u00e9 que eu falo, essa inven\u00e7\u00e3o [a s\u00e9tima tese] \u00e9 s\u00f3 para atrapalhar mesmo. Sabem bem que essas terras eram dos nossos ancestrais. Nelas viviam os nossos ancestrais. Isso a\u00ed \u00e9 s\u00f3 \u201cdisfar\u00e7amento\u201d, criam essas teses s\u00f3 para qualquer coisa falar: \u201cAh, n\u00e3o foi aprovado, n\u00e3o foi aprovado aqui, aqui, aqui\u201d. Para poderem falar isso. \u00c9 desculpa deles, eles criam isso, criam essa tese. Porque, na realidade, como que eram essas teses? Ent\u00e3o, \u00e9 por isso que \u201cseguram\u201d para n\u00f3s, l\u00e1 na Laranjeira. Porque ali era a terra dos nossos ancestrais, a Laranjeira \u00d1anderu. O nome Laranjeira \u00d1anderu \u00e9 por uma causa que as pessoas n\u00e3o conseguem falar. Antes, n\u00f3s viv\u00edamos l\u00e1. Antes de chegar a pessoa, o \u201ccandi\u201d, n\u00f3s viv\u00edamos l\u00e1 tranquilamente. Al\u00e9m disso, vivia l\u00e1 a Dona Alda, que est\u00e1 conosco l\u00e1. Ela fica traumatizada com pessoas a cavalo, por causa que ela foi atacada num cavalo ali. Todos falam que, onde o povo vivia, chegaram com cavalos rodeando a oca. Os farrapos. Eles falam que tinham chap\u00e9u grande e, por baixo, camisa branca. Dona Alda \u00e9 quem contava essa hist\u00f3ria. \u00c9 por isso que ela tem trauma com cavalos. Quando viu dois ou tr\u00eas cavalos, a\u00ed ficou doida. Porque ela sente, ela foi violentada por homens de cavalo. Ela falou que, quando chegaram, j\u00e1 come\u00e7aram a tirar, por cima da cal\u00e7a, o rev\u00f3lver. E ela falou que acertaram o meu irm\u00e3o na perna. Outro [tiro], acertaram nos bra\u00e7os. E a\u00ed n\u00f3s corr\u00edamos.<br \/>\nAntes de chegar na Laranjeira esse pessoal, era mato. Mato, mato, sem fim. Hoje, voc\u00ea v\u00ea s\u00f3 cana e soja. Tudo destru\u00eddo. Ent\u00e3o, hoje a maioria faz mais monocultura: a soja e a cana. E pecu\u00e1ria. Ent\u00e3o, antes n\u00f3s viv\u00edamos ali. Ela falou para n\u00f3s que tinha bastante ca\u00e7a, pesca, bichos, antas. N\u00e3o faltava nada. Ali morava Uiracu, Japiruss\u00e9, Uiratup\u00e9, Livino, pai do Farid. Esses eram os nossos ancestrais que viviam ali. Esse Siruracu \u00e9 o nosso ancestral, \u00e9 o meu ancestral. Acho que a terceira gera\u00e7\u00e3o j\u00e1 \u00e9 a da minha m\u00e3e. Ent\u00e3o, toda a fam\u00edlia que est\u00e1 l\u00e1 vem dessas pessoas: o Japiruss\u00e9, Siruracu, Ijaripar\u00e9, Uirapup\u00e9&#8230; Toda a fam\u00edlia est\u00e1 ali agora nas redondezas. \u00c9 por isso que eu falo, \u00e9 s\u00f3 por causa dessas teses que eles \u201cseguram\u201d. Eles falam: \u201cAh, essa terra n\u00e3o \u00e9 ind\u00edgena, esses aqui n\u00e3o s\u00e3o ancestrais, esses aqui n\u00e3o s\u00e3o da terra\u201d e n\u00e3o sei o qu\u00ea. \u00c9 s\u00f3 uma desculpa. \u00c9 s\u00f3 para n\u00e3o demarcar. As teses s\u00e3o do ambiente, dos modos de viver etc. Sete teses eles criaram. S\u00e3o os laudos antropol\u00f3gicos. T\u00eam que ser bem elaboradas para se poder aprovar.<\/p>\n<p>Partido Comunista Brasileiro<br \/>\nDesde quando esses estudos est\u00e3o sendo feitos no territ\u00f3rio de Laranjeira?<\/p>\n<p>Adalto Guarani Kaiow\u00e1<br \/>\nEst\u00e1 com tr\u00eas anos agora. Agora, falta s\u00f3 o [levantamento] fundi\u00e1rio. O fundi\u00e1rio \u00e9 \u201crapid\u00e3o\u201d, v\u00e3o l\u00e1 na \u00e1rea para ver como \u00e9 que v\u00e3o fazer, os limites. N\u00e3o sei, o fundi\u00e1rio eu nunca acompanhei. O ambiental sim, eu j\u00e1 acompanhei porque n\u00f3s estamos l\u00e1. Perguntam para n\u00f3s: voc\u00eas viveram aqui? N\u00e3o vai faltar rem\u00e9dio para voc\u00eas? Essas terras \u00e9 que v\u00e3o sustentar voc\u00eas? Ser\u00e1 que n\u00e3o vai faltar nada para voc\u00eas? \u00c9 tudo assim, um monte de perguntas.<br \/>\nEu estava pensando hoje cedinho: se essas pessoas fossem as que confiam em n\u00f3s pelas nossas falas, teriam demarcado para n\u00f3s, teriam devolvido. N\u00e3o \u00e9 \u201cdemarcado\u201d. Devolveriam essas terras dos ancestrais para n\u00f3s. S\u00f3 que vai ser muito dif\u00edcil por causa da tese, porque eles confiam mais e s\u00f3 veem a tese. Cada tese eles t\u00eam que analisar todinha, para ver se est\u00e1 certo. Entra at\u00e9 a nossa l\u00edngua nessas teses. Eles t\u00eam que nos chamar, porque toda l\u00edngua tem que ser conhecimento atrav\u00e9s dessas plantas. Anotaram tudo, porque a nossa l\u00edngua \u00e9 diferente do guarani, porque parece que tem o livro guarani l\u00e1 na Funai. Eles come\u00e7am a analisar uma palavra e olham no livro. Veem que n\u00e3o \u00e9 a l\u00edngua guarani para poderem falar que somos vindos do Paraguai. Sempre fazem isso. \u00c9 a\u00ed que sempre n\u00f3s perdemos. Muitas vezes, o guarani Mbi\u00e1 fala mais na l\u00edngua do Paraguai. Agora n\u00f3s n\u00e3o. N\u00f3s, os Kaiow\u00e1, somos diferentes dos Mbi\u00e1. Ent\u00e3o, eles comparam todas. Por isso \u00e9 dif\u00edcil sair a demarca\u00e7\u00e3o para n\u00f3s. Eles comparam com o Guarani Mbi\u00e1, com o Guarani \u00d1andeva&#8230; Acham que a l\u00edngua \u00e9 uma s\u00f3, mas n\u00e3o \u00e9 n\u00e3o. Porque o Guarani Mbi\u00e1 \u00e9 diferente. O Guarani \u00d1andeva tamb\u00e9m \u00e9 diferente. S\u00f3 uma l\u00edngua eles analisam com aquela tese. \u00c9 a\u00ed que demora. \u00c9 por isso que \u00e9 dif\u00edcil para n\u00f3s fazermos. Eu n\u00e3o sei como n\u00f3s temos que fazer com aquilo, eu n\u00e3o sei mais debater com aquilo por causa da tese. Eu n\u00e3o sei quem criou essa tese, tem que descobrir. Deve ser algu\u00e9m que entende sobre tese. Porque \u00e9 dif\u00edcil fazer isso, \u00e9 dif\u00edcil demarcar para n\u00f3s. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 para n\u00f3s, \u00e9 para todos. Todos, come\u00e7ou com o Guarani Kaiow\u00e1. \u00c9 por causa dessa tese que n\u00f3s estamos sofrendo. Se fosse sem tese, estaria tudo entregue para n\u00f3s. Como Jaguapir\u00e9, Piraqu\u00e1, Panambizinho, Sucuri\u00fa. Esse n\u00e3o foi muito as teses, apenas conhecimento. Primeiro \u00e9 assim, depois criaram essas coisas. Essas teses foram criadas antes da Laranjeira. Por isso que eles usaram essas teses na Laranjeiras, de outra \u00e1rea. Ent\u00e3o fica dif\u00edcil. N\u00e3o sei, eu n\u00e3o entendo mais&#8230; Eles falaram se n\u00f3s viemos do Paraguai, ou se somos daqui mesmo. Ent\u00e3o, para provar \u00e9 com a l\u00edngua. Compara\u00e7\u00e3o. Isso aqui n\u00f3s chamamos \u201cmam\u00e3\u201d, s\u00f3 que na nossa l\u00edngua \u00e9 \u201ciaracati\u00e1\u201d, no Guarani Kaiow\u00e1 se fala assim. E a\u00ed quando falam \u201cmam\u00e3\u201d, eles pensam que no Paraguai tamb\u00e9m se fala \u201cmam\u00e3\u201d. Eles comparam a nossa l\u00edngua com o Paraguai. Dizem descobrir que viemos do Paraguai para n\u00e3o demarcar terras. Eles falam: \u201cN\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 daqui n\u00e3o, voc\u00ea \u00e9 de l\u00e1 do Paraguai\u201d. E isso come\u00e7a a dificultar a demarca\u00e7\u00e3o. \u00c9 s\u00f3 para disfar\u00e7ar mesmo. A nossa na\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem divisas, porque tem aqui no Brasil, na Argentina, no Uruguai, na Bol\u00edvia, em toda na\u00e7\u00e3o tem guarani. A l\u00edngua \u00e9 a mesma, s\u00f3 que um pouquinho diferente, mas \u00e9 a mesma. \u00c9 s\u00f3 para dificultar mesmo que eles falam isso: \u201cVoc\u00ea vem do Paraguai, vem do Paraguai, vem do Paraguai\u201d. S\u00f3 para depender daquilo. \u00c9 s\u00f3 para atrapalhar mesmo. O meu tio mora l\u00e1 no Paraguai. Quando vem para c\u00e1, eles falam que \u00e9 migrante: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o \u00e9 do Brasil, voc\u00ea \u00e9 do Paraguai\u201d. S\u00f3 falam isso. Na verdade, n\u00f3s n\u00e3o temos fronteira. Como falam, fronteiras s\u00e3o ideol\u00f3gicas da humanidade. N\u00f3s somos igual o animal, as fronteiras s\u00e3o os rios grandes que n\u00e3o tem como passar. Se \u00e9 pequenininho, ainda passa (risos). Que nem o Rio Paran\u00e1. Esse \u00e9 o nosso limite, essa \u00e9 a nossa fronteira, n\u00e3o tem como ultrapassar. Ent\u00e3o, \u00e9 esse pessoal que est\u00e1 no poder que fala que eu vim do Paraguai. \u00c9 dif\u00edcil, por isso que fica parada, ainda, a nossa demarca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Partido Comunista Brasileiro<br \/>\nDesde que a constitui\u00e7\u00e3o de 1988 foi escrita, n\u00e3o encontramos uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o dram\u00e1tica para as demandas ind\u00edgenas de demarca\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios e conquistas de novos direitos sociais como a que estamos vivenciando hoje. Como voc\u00ea avalia os novos desafios que est\u00e3o colocados para os movimentos de resist\u00eancia em geral e para a causa ind\u00edgena em particular?<\/p>\n<p>Adalto Guarani Kaiow\u00e1<br \/>\nEssa resist\u00eancia n\u00f3s temos desde o come\u00e7o. As nossas avalia\u00e7\u00f5es, eu acabei de falar. Todas as desculpas faziam para n\u00e3o demarcar mesmo. Porque na nossa Constitui\u00e7\u00e3o, tudo j\u00e1 se fala bem, \u00e9 tudo bem falado. A constitui\u00e7\u00e3o fala: \u201cquem ocupa a terra, tem tradicional cultura, tem direito a permanecer\u201d. Mas eles n\u00e3o v\u00e3o na Constitui\u00e7\u00e3o, eles v\u00e3o pela ideia. Ent\u00e3o, por isso cada vez mais criam as coisas para dificultar a nossa demarca\u00e7\u00e3o. Porque se fossem cumprir a Constitui\u00e7\u00e3o, \u201cih!\u201d, n\u00e3o demoraria para fazer a demarca\u00e7\u00e3o. E a\u00ed que, na nossa avalia\u00e7\u00e3o hoje em dia, \u00e9 s\u00f3 para levar mais tempo para eles poderem conseguir barrar tudo da demarca\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que est\u00e3o se fazendo, cada vez mais, um grupo desses pol\u00edticos. E hoje, para podermos chegar a essa conclus\u00e3o, \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o, tem que ter algu\u00e9m nos ajudando. [Dizendo] como seria para chegar l\u00e1, por onde tem que ir, por onde tem que chegar&#8230; Porque se voc\u00ea n\u00e3o souber o segredo da pessoa, voc\u00ea n\u00e3o consegue saber o que aquela pessoa est\u00e1 fazendo. \u00c9 a mesma coisa com quem est\u00e1 fazendo essa politicagem agora: a pr\u00f3pria Justi\u00e7a, o pr\u00f3prio Supremo, a pr\u00f3pria Funai e o pr\u00f3prio Governo Federal. Para n\u00f3s, com essa demora com que eles est\u00e3o avaliando isso, s\u00f3 se n\u00f3s fizermos mesmo manifesta\u00e7\u00f5es. Uma manifesta\u00e7\u00e3o geral, porque s\u00f3 um n\u00e3o consegue. Tem que ser geral. Eu acho que todas as pessoas da classe m\u00e9dia temos que nos unir para conseguir. Se n\u00e3o reunir essa classe m\u00e9dia, acho que n\u00f3s vamos nos lascar. E ningu\u00e9m vai conseguir direito. Por causa que todas as coisas t\u00eam \u201cembarramento\u201d: embarra aqui, embarra l\u00e1, embarra l\u00e1, todas. Enquadram todo mundo dentro dessa classe m\u00e9dia. Quanto mais \u201cembarramento\u201d, quem sofre s\u00e3o os \u00edndios. Ent\u00e3o, a nossa ideia hoje \u00e9 a de todos fazermos um di\u00e1logo e achar um caminho. Nossa ideia \u00e9 assim, porque s\u00f3 os \u00edndios n\u00e3o vamos conseguir. Ningu\u00e9m vai conseguir, porque tem que ser todos. Todos. Tanto o MST, tanto os \u00edndios, tanto os camponeses, tanto o que for. N\u00f3s conseguiremos o nosso direito. O nosso direito j\u00e1 foi morrido, porque quando voc\u00ea tira a Constitui\u00e7\u00e3o dos outros, voc\u00ea mata a esperan\u00e7a dos outros. Porque j\u00e1 foi morrendo, a nossa esperan\u00e7a acabou. J\u00e1 foi extinguido. J\u00e1 foi assassinado, porque tiram a nossa esperan\u00e7a que n\u00f3s t\u00ednhamos. Hoje n\u00f3s temos que nos unir para a luta. S\u00f3 isso que n\u00f3s temos que fazer. A nossa ideia \u00e9 essa. Por isso n\u00f3s temos que fazer de aliados todo mundo, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um. Porque n\u00f3s estamos sofrendo demais. Quem sofre mais n\u00f3s ajudamos, quem morre mais n\u00f3s ajudamos. \u00c9 assim. Assim n\u00f3s venceremos essa batalha, sen\u00e3o ningu\u00e9m consegue.<\/p>\n<p>Partido Comunista Brasileiro<br \/>\nO Partido Comunista Brasileiro criou recentemente uma fra\u00e7\u00e3o nacional de apoio e solidariedade aos povos ind\u00edgenas que se organizam e lutam contra a barb\u00e1rie e a explora\u00e7\u00e3o capitalista. Com que meios concretos ou tipos de contribui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica voc\u00ea diria que os povos ind\u00edgenas esperam receber de um partido como o nosso, que defende um movimento de transforma\u00e7\u00e3o radical da sociedade?<\/p>\n<p>Adalto Guarani Kaiow\u00e1<br \/>\n\u00c9 isso que n\u00f3s estamos pensando tamb\u00e9m. Porque a gente cansou de ter a esperan\u00e7a na pol\u00edtica, porque a pol\u00edtica tem nos enganado todos os anos. S\u00f3 mel na boca. Falam que v\u00e3o fazer aquilo, aquilo, aquilo, e nunca fazem [nada] por n\u00f3s. Eu acho que agora, para ajudar mesmo, para n\u00f3s sermos uma uni\u00e3o popular, \u00e9 atrav\u00e9s de algumas coisas: um pouquinho de recurso, caronas, pequenas coisas para poder ajudar no transporte, para poder correr atr\u00e1s daquilo que est\u00e1 feito. Ent\u00e3o a nossa ideia era isso, hoje em dia. Se come\u00e7arem a ajudar atrav\u00e9s de um \u00f4nibus, alguma coisa, pela viagem, isso seria legal para n\u00f3s. Porque n\u00f3s n\u00e3o temos dinheiro para poder arrumar \u00f4nibus e outras coisas. N\u00e3o temos tamb\u00e9m apoiadores, porque n\u00f3s n\u00e3o conhecemos quem vai fazer isso para n\u00f3s, com quem n\u00f3s vamos falar. Pequenas coisas, porque n\u00f3s, voc\u00ea sabe, pequenas pessoas n\u00e3o temos mais recursos. A gente vai pelo alcance da pessoa. Ent\u00e3o, se algumas coisas voc\u00eas alcan\u00e7am, de voc\u00eas tamb\u00e9m daria. Pelo menos no transporte: algum carro pequeno ou van, para a ida e volta de Bras\u00edlia, seria \u00f3timo. Porque muita coisa voc\u00eas n\u00e3o v\u00e3o conseguir tamb\u00e9m.<br \/>\nPara n\u00f3s \u00e9 dif\u00edcil divulgar, porque central n\u00f3s n\u00e3o temos. Agora, se consegue muita coisa se voc\u00ea tem o parceiro. Quem tem mais parceiro, consegue mais essa divulga\u00e7\u00e3o. \u00c9 mais essa divulga\u00e7\u00e3o. Esse esfor\u00e7o \u00e9 tranquilo tamb\u00e9m, essa parceria. Todas as coisas que acontecem n\u00f3s mandamos para esse mundo. \u00c9 importante divulgar as coisas, porque todas as coisas est\u00e3o muito escondidas hoje. Temos que divulgar, temos que mostrar tudo. E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ind\u00edgena, \u00e9 toda a pequena classe, a m\u00e9dia classe. E tem que divulgar, tem que reunir. Porque o sacrif\u00edcio n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 nosso, \u00e9 de todos. Todos somos iguais. Ent\u00e3o, pelo menos ajudar isso. Acho que vai do alcance de voc\u00eas tamb\u00e9m, do poder popular. Na divulga\u00e7\u00e3o, nas filmagens, tudo. Com os Caarap\u00f3 tem um movimento de direitos humanos. Foram tudo l\u00e1, com a c\u00e2mera, com o celular, um pouquinho de lanches, que alguns levam para o pessoal l\u00e1&#8230; Essas pessoas iam filmar e divulgar. Iam fazer isso, mas s\u00f3 que n\u00e3o aconteceu. Ent\u00e3o \u00e9 assim, qualquer coisa que acontecer a gente chama voc\u00eas para ir para l\u00e1. Assim, tamb\u00e9m d\u00e1 tranquilo, pela ajuda na divulga\u00e7\u00e3o, essas coisas. O que a gente faz \u00e9 do alcance da gente mesmo, n\u00e3o tem como. Porque o bra\u00e7o \u00e9 curto, voc\u00ea vai at\u00e9 onde o seu bra\u00e7o alcan\u00e7a.<\/p>\n<p>Partido Comunista Brasileiro<br \/>\nCada vez mais, as den\u00fancias e as cr\u00edticas que os povos ind\u00edgenas fazem da sociedade capitalista e do seu poder destrutivo contra a vida humana e a natureza se mostram compat\u00edveis com as leituras e as ideias das ideias comunistas sobre a mesma realidade. Voc\u00ea acha que h\u00e1 uma correspond\u00eancia poss\u00edvel entre as perspectivas amer\u00edndias e socialistas? H\u00e1 possibilidade de se construir um plano conjunto desses dois campos para a transforma\u00e7\u00e3o da realidade?<\/p>\n<p>Adalto Guarani Kaiow\u00e1<br \/>\nEu acho que sim, porque tem que construir outra sociedade. Uma compara\u00e7\u00e3o sobre essa ideia. Porque se um mundo desse continuar, quem vai sofrer somos n\u00f3s. Tem que mudar a nossa situa\u00e7\u00e3o, daqui em diante. Porque o planeta est\u00e1 pedindo socorro. Se n\u00f3s mudarmos esse pensamento em n\u00f3s todos, n\u00f3s socorremos de novo o nosso planeta. Porque continuando o mundo todo do agroneg\u00f3cio, vai terminar a nossa natureza. N\u00f3s mesmos vamos ter que fugir de novo. Como temos que fazer? Temos que pensar em como temos que levar isso. Porque chegou a hora j\u00e1.<br \/>\nEu antes estava pensando: aqui [no Departamento de Floresta] \u00e9 o local certo. Porque aqui tem tudo para matar a sa\u00fade da terra, para extinguir outras coisas, terminar outras coisas. Ent\u00e3o, daqui tem que ter plano para devolver a sa\u00fade da terra. Aqui se tem que ter ideia de como temos que fazer. Ou vai florestar de novo, ou fazer algumas coisas&#8230; Ent\u00e3o, aqui tem muitos estudantes para fazer isso. Tem que trabalhar bastante para poder recuperar. Se n\u00e3o recuperar, o fim do mundo est\u00e1 perto. Do jeito que eu estou vendo agora, por causa do eclipse do sol, do eclipse da lua, por causa disso. O planeta n\u00e3o est\u00e1 aguentando mais. Ent\u00e3o \u00e9 s\u00f3 mudar, porque o agroneg\u00f3cio est\u00e1 terminando com a prote\u00e7\u00e3o da terra, prote\u00e7\u00e3o dos humanos, de todos, todos, todos. Est\u00e1 terminando. \u00c9 s\u00f3 pensar em fazer outra sociedade, outro modo de viver. A nossa ideia era isso, \u00e9 s\u00f3 pensar outra forma. Tem que ter uni\u00e3o, sozinho voc\u00ea n\u00e3o consegue. Sozinho voc\u00ea s\u00f3 faz os outros sofrerem e ficarem nervosos. Com uni\u00e3o voc\u00ea consegue. Outro pensa assim, outro d\u00e1 o plano, outro d\u00e1 o plano&#8230; Voc\u00ea tira aquela ideia positiva para poder construir as coisas. S\u00f3 isso, n\u00e3o tem mais, porque o agroneg\u00f3cio est\u00e1 terminando com nossas terras. Terminam com todas, porque ele [o agroneg\u00f3cio] pensa que o ouro \u00e9 a riqueza, mas n\u00e3o. O ouro \u00e9 a terra dominante da terra. O ouro \u00e9 o alum\u00ednio, para ela [para a terra] \u00e9 precioso. Mas n\u00e3o \u00e9 nosso, \u00e9 a planta\u00e7\u00e3o da terra. O diamante (a pedra preciosa), ele parece que vibra. Ele tem vida. Ele \u00e9 a prote\u00e7\u00e3o da terra tamb\u00e9m. Tira tudo esse agroneg\u00f3cio, termina! S\u00f3 que para devolver esse ouro e esse diamante que foram tirados dessa terra \u00e9 dif\u00edcil, isso \u00e9 muito dif\u00edcil. \u00c9 s\u00f3 pensar de outra forma mesmo. Porque aqui \u00e9 o certo. Essa ideia \u00e9 a indica\u00e7\u00e3o de voc\u00eas. Como tem que fazer daqui em diante?<\/p>\n<p>Partido Comunista Brasileiro<br \/>\nEstamos entrando num per\u00edodo dram\u00e1tico para a quest\u00e3o da luta dos povos ind\u00edgenas, pois a t\u00e1tica que o Estado e as classes dominantes (atrav\u00e9s do agroneg\u00f3cio) t\u00eam utilizado \u00e9 a de isolar voc\u00eas: tanto no sentido f\u00edsico, de deixar voc\u00eas no meio das lavouras, das \u00e1reas desmatadas, sem acesso \u00e0 mata; quanto tirando a vontade e a esperan\u00e7a de voc\u00eas, atrav\u00e9s da retirada das crian\u00e7as; e ainda por cima isolando voc\u00eas dos aliados que voc\u00eas tinham para essa luta. Voc\u00ea comentou do desmonte pelo qual tem passado a FUNAI e tamb\u00e9m o CIMI com essa CPI que o CIMI tem sofrido. E ainda n\u00e3o bastasse, est\u00e3o promovendo uma s\u00e9rie de altera\u00e7\u00f5es na Constitui\u00e7\u00e3o com o objetivo de retirar o direito de voc\u00eas \u00e0 terra&#8230;<\/p>\n<p>Adalto Guarani Kaiow\u00e1<br \/>\nO nosso pensamento de hoje em dia \u00e9 sobre isso mesmo. Porque sempre eu falo pro pessoal: \u201cesses dominantes n\u00e3o gostam de ind\u00edgenas\u201d. Se voc\u00ea gostar, voc\u00ea n\u00e3o ataca um ao outro. Se voc\u00ea respeitar, voc\u00ea n\u00e3o mexe nas coisas dele. Se voc\u00ea gostar, voc\u00ea ajuda o outro. Se voc\u00ea gostar, o que ele mant\u00e9m voc\u00ea consegue para ele. Ent\u00e3o, esse dominante n\u00e3o gosta de \u00edndio por isso. Cada vez mais ele faz as coisas para terminar. Pensa em extin\u00e7\u00e3o. \u00c9 a\u00ed que sempre n\u00f3s falamos: essas pessoas que est\u00e3o fazendo isso pensam que s\u00e3o o dono do mundo, mas n\u00e3o s\u00e3o. Eles vivem ainda dominados pelo Deus, pois se o Deus castigar ele, pronto. Porque se voc\u00ea faz o bem para os outros, o Deus te aben\u00e7oa; se voc\u00ea n\u00e3o faz bem para as pessoas, o Deus te castiga. Parece que voc\u00ea \u00e9 o dono do mundo, mas n\u00e3o \u00e9. Voc\u00ea vive dominado pelo Deus. Quem faz essa terra para n\u00f3s \u00e9 Deus. Por isso n\u00f3s respeitamos mais a natureza, porque toda a natureza vem do c\u00e9u. Quem a faz para n\u00f3s \u00e9 \u00d1anderu. Todos. Tanto os bichos quanto os homens. Tanto os mares quanto os mares, quanto as terras&#8230; Ele faz para n\u00f3s para mantermos todos os rios, os animais, para poder sobreviver. N\u00e3o para se lucrar, n\u00e3o para se tirar. Por isso que ele coloca tudo em prote\u00e7\u00e3o, coloca o ouro, o diamante, tudo. Porque a terra tamb\u00e9m \u00e9 vida. Se voc\u00ea mata a vida da terra, come\u00e7a a ficar enfraquecendo, enfraquecendo, enfraquecendo. E a\u00ed para poder reformar de novo, tem que acabar o mundo. Tem que acabar o mundo para poder reformar a terra de novo. Quem vai fazer isso? Os pr\u00f3prios humanos, o pr\u00f3prio capitalismo \u00e9 quem vai fazer isso. \u00c9 isso que n\u00f3s temos que pensar, que \u00e9 de antes. Para salvar esse planeta, o planeta Terra. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 aqui, tem que fazer com qualquer um. Vamos depender [disso]. E \u00e9 essa a nossa ideia. Antes eu estava pensando: aqui d\u00e1 para pensar como \u00e9 que a gente tem que fazer, como tem que levar, se cria projeto, alguma coisa, pede ajuda&#8230; Voc\u00ea tem mais ideia do que eu, porque quem estuda \u00e9 quem mais conhece as coisas. E a\u00ed fica mais f\u00e1cil para ele. E a\u00ed, para voc\u00eas, como que v\u00e3o fazer daqui adiante para salvar o planeta daqui por diante? E atrav\u00e9s de voc\u00eas tamb\u00e9m. O agroneg\u00f3cio confia mais na fala de voc\u00eas. Ent\u00e3o voc\u00ea vai fazendo. Em compara\u00e7\u00e3o, se \u00e9 doutorado e fala \u201cn\u00e3o, o planeta \u00e9 assim, assim\u201d, eles respeitam. Se chega o advogado l\u00e1, e fala \u201cassim tem que fazer\u201d, eles respeitam. Tudo de voc\u00eas eles respeitam. Ent\u00e3o, \u00e9 por isso que eu falo: aquilo \u00e9 o certo, o centro. Porque aqui tem tudo: parece que tem advogados, tem estudantes, tem professor, ent\u00e3o, tem tudo aqui. Voc\u00eas \u00e9 que t\u00eam que pensar como \u00e9 que tem que levar para salvar esse planeta. Se n\u00e3o, se n\u00e3o conseguir convencer esse agroneg\u00f3cio, quem vai sofrer somos n\u00f3s. Ontem eu estava pensando nisso. O lugar certo \u00e9 aqui. Porque chegando essa papelada no Governo Federal mesmo, se for advogado, eles respeitam. Se fosse professor, eles respeitariam. Porque tudo atrav\u00e9s de voc\u00eas eles respeitam, por causa que a voc\u00eas [eles] respeitam mais. E se, para qualquer coisa, voc\u00eas precisarem de ajuda, n\u00f3s tamb\u00e9m estamos por a\u00ed.<\/p>\n<p>Partido Comunista Brasileiro<br \/>\nConsideramos a sua visita muito rica e proveitosa e criamos com isso um novo canal de articula\u00e7\u00e3o, para que n\u00f3s possamos compartilhar mais diretamente a den\u00fancia que voc\u00ea nos traz e pensar outras estrat\u00e9gias de apoio concreto \u00e0 luta ind\u00edgena. Esse foi apenas o nosso primeiro contato, uma articula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o pode terminar aqui, mas que deve ser apenas um pontap\u00e9 inicial.<\/p>\n<p>Adalto Guarani Kaiow\u00e1<br \/>\n\u00c9 apenas o come\u00e7o, um comecinho ainda. Antigamente n\u00f3s viv\u00edamos. Por que n\u00f3s cheg\u00e1vamos at\u00e9 uns 180 ou 190 anos? Porque a m\u00e3e n\u00e3o comia veneno. Hoje n\u00e3o se chega mais. Aos 60 ou 70 voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 com todo o corpo do\u00eddo, por causa de veneno, que pouco a pouco mata e a pessoa n\u00e3o chega mais nisso. Ent\u00e3o, para salvar essa vida, n\u00f3s temos que fazer o fim do veneno, tem que dispersar o veneno. S\u00f3 isso. Para fazer isso, voc\u00ea tem que ter ideia. Voc\u00ea tem mais ideia de por onde tem que come\u00e7ar isso. No agroecol\u00f3gico, se voc\u00ea fala isso&#8230; Antigamente n\u00f3s plant\u00e1vamos mandioca sem veneno, ab\u00f3bora sem veneno, milho sem veneno. A banha era de porco, n\u00e3o era de \u00f3leo. Feij\u00e3o era o feij\u00e3o coivara, sem veneno. Carne tamb\u00e9m sem aquilo que d\u00e1 na carne. Hoje carne \u00e9 tudo com aquilo. Carne, frango, porco&#8230; Se voc\u00ea come o pr\u00f3prio [alimento] que voc\u00ea cria, a\u00ed voc\u00ea consegue salvar a sua vida. Ent\u00e3o, \u00e9 s\u00f3 passar uma vida, \u00e9 isso. S\u00f3 n\u00f3s dispensar o veneno. Tem que ser [assim], mas vai ser dif\u00edcil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20365\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[243,163],"tags":[221],"class_list":["post-20365","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-fracao-indigena-do-pcb","category-movimento-indigena","tag-2a"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5it","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20365","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20365"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20365\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20365"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20365"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20365"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}