{"id":2046,"date":"2011-11-08T00:15:01","date_gmt":"2011-11-08T00:15:01","guid":{"rendered":"http:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=2046"},"modified":"2015-06-09T00:23:13","modified_gmt":"2015-06-09T03:23:13","slug":"a-libia-que-eu-conheci","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2046","title":{"rendered":"A L\u00cdBIA QUE EU CONHECI"},"content":{"rendered":"<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/pcb.org.br\/portal\/images\/stories\/outras-opinioes.png?w=747\" alt=\"\" align=\"right\" border=\"0\" \/>Estive na L\u00edbia em setembro de 1979, por ocasi\u00e3o do d\u00e9cimo aniversario da Revolu\u00e7\u00e3o que levou Kadafi ao poder. Me acompanharam na ocasi\u00e3o o cinegrafista Luis Manse e o operador de Nagra Nelson Belo. Est\u00e1vamos ali pelo Globo Rep\u00f3rter, do qual eu era o diretor em S\u00e3o Paulo.<!--more--><\/p>\n<p>Primeira surpresa. O hotel, para onde o governo nos enviou, estava totalmente ocupado por diplomatas. Perguntei ao embaixador do Brasil a raz\u00e3o dessa concentra\u00e7\u00e3o. A resposta me surpreendeu ainda mais.<\/p>\n<p>Na L\u00edbia de Kadafi, os alugu\u00e9is estavam proibidos. Aos l\u00edbios que n\u00e3o tivessem casa, era s\u00f3 solicitar que o governo imediatamente providenciava a constru\u00e7\u00e3o de uma. O pa\u00eds era um imenso canteiro de obras. E mais: Uma lei em vigor, A LEI DO COLCH\u00c3O, determinava que, qualquer cidad\u00e3o l\u00edbio que soubesse da exist\u00eancia de casa alugada, era s\u00f3 atirar um colch\u00e3o no quintal que a casa passava a ser sua. In\u00fameras embaixadas sofreram com essa lei j\u00e1 que foram ocupadas por l\u00edbios. O pr\u00f3prio embaixador me contou na ocasi\u00e3o que a embaixada brasileira n\u00e3o ficou imune a essa lei. Um motorista l\u00edbio que ali trabalhava informou a um amigo que ainda n\u00e3o tinha casa, que a embaixada do Brasil era alugada. Imediatamente esse amigo atirou um colch\u00e3o e reivindicou a propriedade (uma mans\u00e3o que pertencia a um italiano que retornou \u00e0 It\u00e1lia apos a subida ao poder de Kadafi). O governo l\u00edbio precisou intervir para evitar maiores dissabores. O Brasil acabou ganhando a embaixada e o l\u00edbio uma casa nova. Isto tudo aconteceu na d\u00e9cada de 70, quando a L\u00edbia era uma pot\u00eancia riqu\u00edssima, com apenas 3 milh\u00f5es de habitantes, em quase 1.800.000 quil\u00f4metros quadrados.<\/p>\n<p>Os l\u00edbios, por lei, eram proibidos de trabalhar como empregados de estrangeiros. O l\u00edbio que n\u00e3o quisesse trabalhar recebia o equivalente, valores de hoje, a cerca de 7 mil d\u00f3lares por m\u00eas. E mais: m\u00e9dico, hospital e rem\u00e9dios era tudo de gra\u00e7a. Ningu\u00e9m pagava escola e o l\u00edbio que quisesse aperfei\u00e7oar seus estudos fora do pa\u00eds ganhava uma substancial bolsa. Conheci muitos desses l\u00edbios na Fran\u00e7a, It\u00e1lia, Espanha e Alemanha, e outros pa\u00edses onde estive como jornalista.<\/p>\n<p>Estamos em Tr\u00edpoli, ano 1979. Esta noite quase n\u00e3o consegui pegar no sono. No hotel onde estava hospedado, alem dos diplomatas e alguns jornalistas, estavam tamb\u00e9m delega\u00e7\u00f5es de pa\u00edses africanos de l\u00edngua portuguesa. Angola, Mo\u00e7ambique, Guin\u00e9-Bissau e Cabo Verde. E foram eles que n\u00e3o me deixaram pegar no sono j\u00e1 que, sabendo que eu teria um encontro com Kadafi no dia seguinte, queriam que eu lhe pedisse mais explica\u00e7\u00f5es sobre o socialismo L\u00edbio. Disseram que nunca haviam visto algo igual. Nem mesmo em livros. Ficaram admirados com a Lei do Colch\u00e3o, com a assist\u00eancia m\u00e9dica, rem\u00e9dios e educa\u00e7\u00e3o, tudo gratuito. E pelo fato de ningu\u00e9m ser obrigado a trabalhar na L\u00edbia e mesmo assim receber uma remunera\u00e7\u00e3o \u201cfant\u00e1stica\u201d no dizer de um angolano. Prometi que tentaria obter uma resposta, desde que, de fato, eu conseguisse falar com Kadafi, por saber que ele era imprevis\u00edvel e n\u00e3o poucas vezes deixou jornalistas aguardando ad infinitum.<\/p>\n<p>Antes, preciso esclarecer que as portas dos apartamentos dos hot\u00e9is n\u00e3o possu\u00edam fechaduras. Por isso todos podiam entrar no apartamento de todos raz\u00e3o pela qual nossos apartamentos eram sempre \u201cvisitados\u201d. Perguntei ao gerente do hotel a raz\u00e3o da falta de fechaduras. Respondeu que na L\u00edbia n\u00e3o havia ladr\u00f5es como na \u201c\u00e9poca da coloniza\u00e7\u00e3o italiana e por isso as fechaduras eram prescind\u00edveis\u201d. Mas um diplomata me esclareceu que a falta de fechaduras era para que os \u201cfiscais\u201d do governo pudessem entrar a qualquer hora do dia ou da noite para ver se n\u00e3o havia mulheres \u201cconvidadas\u201d nos apartamentos. \u201cPorque, prosseguiu o diplomata, os l\u00edbios at\u00e9 hoje falam que durante a coloniza\u00e7\u00e3o italiana e o reinado de Idris, os hot\u00e9is serviam apenas para orgias\u201d.<\/p>\n<p>No dia seguinte me preparo para o encontro com Kadafi. Manse, com a sua c\u00e2mera e Belo com seu gravador Nagra me aguardavam ao lado do elevador. Com cara de sono, reclamaram que seus apartamentos foram \u201cpenetrados\u201d umas tr\u00eas vezes de madrugada e foi um susto s\u00f3. O carro enviado pelo governo nos esperava na entrada, mas Manse queria tomar mais um cafezinho. Entrei no carro e aguardei. Cinco minutos depois Luis Manse, com sua insepar\u00e1vel c\u00e2mera, chegava sozinho. Perguntei pelo Belo, ele disse que o imaginava comigo. Perguntei ao nosso acompanhante se ele havia visto o nosso companheiro. Imediatamente ele foi \u00e0 portaria perguntar. Um rapaz simp\u00e1tico respondeu que tinha visto Belo acompanhado por dois policiais uniformizados a caminho da pra\u00e7a que ficava a uns cinq\u00fcenta metros do hotel. Fiquei preocupado, imaginando o pior. Jornalista acompanhado por policiais no Brasil nunca era um bom aug\u00fario.<\/p>\n<p>Belo e os dois policiais est\u00e3o parados ao lado de um reluzente carro Mercedes Benz novinho em folha. Perguntei o que estava acontecendo. Um dos policiais me disse que o meu companheiro n\u00e3o parava de apontar a chave do carro na igni\u00e7\u00e3o. E que eles n\u00e3o sabiam a raz\u00e3o, pois Belo n\u00e3o falava o \u00e1rabe e nem eles o \u201cbrasileiro\u201d. Ent\u00e3o era por isso que eles sa\u00edram juntos do hotel. Nada preocupante. Belo me explicou e eu traduzi para o policial que ele, ao ver a chave na igni\u00e7\u00e3o, ficou preocupado de algu\u00e9m roubar o carro. Os dois policiais come\u00e7aram a rir e disseram tratar-se de um carro abandonado. Era um costume no pa\u00eds. Quem n\u00e3o gostasse do carro bastava abandon\u00e1-lo com a chave dentro. O interessado podia lev\u00e1-lo. Essa era a L\u00edbia da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Muita fartura, nenhuma mis\u00e9ria e a abund\u00e2ncia ao alcance de todos. Ali\u00e1s isso podia se observar nas pessoas. Os mais velhos, que viveram sob o dom\u00ednio dos colonialistas e durante a monarquia, eram pessoas alquebradas, corpo seco. As crian\u00e7as e os jovens eram saud\u00e1veis e alegres. S\u00f3 para se ter uma id\u00e9ia da L\u00edbia sob Kadafi, tudo custava mais ou menos o equivalente a 3 d\u00f3lares. Havia supermercados gigantescos, mas nada era vendido a varejo. Quem quisesse arroz, por exemplo, pagava 3 d\u00f3lares pelo saco de 50 quilos. Tudo era nessa base.<\/p>\n<p>Fomos visitar o parque industrial de Tr\u00edpoli e eu pedi para conhecer uma tecelagem. Perguntei como era a rela\u00e7\u00e3o com os clientes e um t\u00e9cnico alem\u00e3o que ali se encontrava para montar o maquin\u00e1rio, come\u00e7ou a rir. \u201cOs l\u00edbios s\u00e3o loucos\u201d, me disse. E completou: \u201celes n\u00e3o vendem nada aqui por metro, somente a pe\u00e7a inteira. E para qualquer um que entrar na f\u00e1brica e pedir\u201d. Perguntei o pre\u00e7o da pe\u00e7a: 3 d\u00f3lares a pe\u00e7a de 50 metros. Mas se voc\u00ea, por exemplo, quisesse comprar uma gravata, qualquer uma, o pre\u00e7o m\u00ednimo era o equivalente a 200 d\u00f3lares. Um cachimbo, 300 d\u00f3lares. Ou seja, todo produto que lembrasse os colonizadores e, de acordo com eles, representasse ou sugerisse consumo sup\u00e9rfluo, era altamente taxado. Bebida alco\u00f3lica, nem pensar. Dava pris\u00e3o sum\u00e1ria. E foi o que aconteceu com dois jornalistas argentinos, cuja \u201cesperteza\u201d os remeteu ao porto e ali compraram de um cargueiro uma garrafa de u\u00edsque. Um dos funcion\u00e1rios do hotel sentiu o bafo e os denunciou. \u00c9 verdade que eles n\u00e3o foram presos, porque eram convidados do governo. Mas n\u00e3o puderam entrevistar ningu\u00e9m, muito menos Kadafi. E n\u00f3s s\u00f3 soubemos disso porque o embaixador do Brasil, uma figura simpatic\u00edssima, uma noite nos convidou para a Embaixada e, ali, nos ofereceu um u\u00edsque de n\u00e3o sei quantos anos (guardado a sete chaves num cofre), que Manse e Belo acharam delicioso. Claro que eu tamb\u00e9m bebi um gole, apesar de detestar u\u00edsque. Seja de que marca for, de que ano for. Sempre me lembrou o gosto de iodo. Evidentemente n\u00e3o faria uma desfeita ao embaixador t\u00e3o sol\u00edcito. N\u00e3o estalei a l\u00edngua porque a\u00ed seria demais.<\/p>\n<p>Antes de nos despedirmos, o embaixador nos ofereceu um litro de leite para cada um, pois segundo ele o leite disfar\u00e7aria o nosso h\u00e1lito. Na porta, perguntei ao embaixador se ele poderia nos dar um depoimento. \u201cO Kadafi \u00e9 um G\u00eanio\u201d, respondeu. Surpreso, perguntei. O senhor considera o Kadafi um G\u00eanio? Sim! Um G\u00eanio! Ent\u00e3o o senhor considera Kadafi um G\u00eanio? Sim! Respondeu o embaixador. Um G\u00eanio! E amanh\u00e3 o senhor vai ter uma prova disso. N\u00e3o entendi. Amanh\u00e3 vai haver um desfile em comemora\u00e7\u00e3o ao d\u00e9cimo anivers\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o. Assista e veja se n\u00e3o tenho raz\u00e3o.<\/p>\n<p>O dia seguinte amanheceu glorioso. E eu j\u00e1 estava preocupado. Se o pa\u00eds vai parar para comemorar o d\u00e9cimo anivers\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 que Kadafi vai encontrar tempo para a entrevista? A popula\u00e7\u00e3o lotava a pra\u00e7a e as ruas onde seriam realizados os desfiles. Um fato me chamou a aten\u00e7\u00e3o. Havia milhares de meninas adolescentes com uniformes militares prontas para o desfile. Sorriam um sorriso que somente as adolescentes possuem. Impressionante a sua alegria. Foi assim que Kadafi libertou as mulheres, que antes n\u00e3o podiam atravessar a porta de casa e nem tirar as vestimentas que cobriam seu corpo de cima abaixo, me confidenciou o embaixador. \u00c9 ou n\u00e3o um g\u00eanio? Essas adolescentes saem de casa bem cedinho usando o uniforme militar e retornam para suas casas no fim do dia. Elas s\u00f3 n\u00e3o dormem no quartel. E t\u00eam autoriza\u00e7\u00e3o para n\u00e3o tirar o uniforme. Depois do servi\u00e7o militar elas jamais voltam a se vestir como anteriormente. Ent\u00e3o \u00e9 por isso que as mulheres l\u00edbias se vestem como as ocidentais? Mas vez ou outra deparamos com mulheres com roupas tradicionais.<\/p>\n<p>Terminado o desfile, um membro do governo me diz que Kadafi nos receberia n\u00e3o mais em Tr\u00edpoli, mas em Benghazi, a bela cidade mediterr\u00e2nea. E que nos buscariam de madrugada pra viajarmos os 600 quil\u00f4metros que separam as duas cidades.<\/p>\n<p>Fico sabendo nesse dia que a energia el\u00e9trica que ilumina o pa\u00eds \u00e9 de gra\u00e7a. Ningu\u00e9m recebe a conta de luz, seja em casa ou no com\u00e9rcio. E quem tiver aptid\u00e3o para empres\u00e1rio, pode buscar os recursos necess\u00e1rios no banco estatal e n\u00e3o paga nenhum centavo de juros. A divis\u00e3o da riqueza do pa\u00eds com sua popula\u00e7\u00e3o, em nome do islamismo, criou um s\u00e9rio problema para os demais pa\u00edses mu\u00e7ulmanos, principalmente Ar\u00e1bia Saudita. E desde ent\u00e3o, Kadafi nunca poupou os dirigentes sauditas que acusou de terem se apossado de um pa\u00eds que jamais lhes pertenceu e de serem \u201cinfi\u00e9is que conspurcavam o verdadeiro islamismo\u201d. \u201cTrocaram o Profeta pelo petr\u00f3leo\u201d. Pela primeira vez usava-se o Alcor\u00e3o contra aqueles que se diziam seus defensores. Os sauditas, acuados, s\u00f3 conseguiam dizer que ele era \u201ccomunista\u201d. Kadafi respondia que ele apenas seguia o Alcor\u00e3o ao p\u00e9 da letra.<\/p>\n<p>V\u00e1rias revoltas come\u00e7aram a eclodir na Ar\u00e1bia Saudita e pa\u00edses do Golfo. Os Estados Unidos e m\u00eddia associada come\u00e7aram a arrega\u00e7ar as mangas. Era preciso defender a vassala Ar\u00e1bia Saudita e transformar Kadafi num p\u00e1ria.<\/p>\n<p>Na volta ao hotel, dou de cara com revolucion\u00e1rios da \u00c1frica do Sul. Estavam na L\u00edbia em busca de fundos para lutar contra o apartheid.<\/p>\n<p>Vamos falar francamente. Eu estava me esfor\u00e7ando para realizar um programa que dificilmente seria exibido. Naquela \u00e9poca o Globo Rep\u00f3rter registrava uma audi\u00eancia enorme, entre 50 e 65 pontos, com pico de 72. Alem do mais, viv\u00edamos sob o tac\u00e3o da ditadura. Mas j\u00e1 que est\u00e1vamos l\u00e1, vamos tocar o barco e ver no que vai dar.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, no hotel, algu\u00e9m abre a porta e me pergunta se posso conversar um pouco. Era o chefe da delega\u00e7\u00e3o de Guin\u00e9-Bissau e estava empolgado. Nunca imaginara conhecer um pa\u00eds como a L\u00edbia. Perguntou como foi o meu encontro com Kadafi. Respondi que o encontro seria no dia seguinte em Benghazi. Enquanto convers\u00e1vamos, um \u201cfiscal\u201d do governo, entra no quarto e nos cumprimenta sorridente. D\u00e1 uma olhada r\u00e1pida e com aquele sorriso de comiss\u00e1ria de bordo, nos agradece e vai embora. Mal passaram 10 minutos e a porta novamente \u00e9 aberta. Um jornalista do Rio de Janeiro, meu vizinho de quarto entra desesperado.<\/p>\n<p>&#8211; Uma coca cola pelo amor de Deus. Meu reino por uma Coca-Cola. Vou descer at\u00e9 sagu\u00e3o, algu\u00e9m precisa me informar onde consigo comprar Coca Cola nesse pa\u00eds de birutas. E nem esperou o elevador. Desceu pela escada mesmo.<\/p>\n<p>&#8211; Maluco esse seu vizinho, me confidenciou o africano. Al\u00e9m do mais ainda ofendeu Shakespeare.<\/p>\n<p>Em seguida ele me revela que conheceu muitos revolucion\u00e1rios de pa\u00edses diferentes que se encontravam na L\u00edbia em busca de recursos. Inclusive sul-africanos.<\/p>\n<p>&#8211; Entregaram uma carta de Nelson Mandela para o Kadafi pedindo para ele n\u00e3o esquecer seus irm\u00e3os africanos, respondeu feliz, dando a entender que eles foram atendidos.<\/p>\n<p>Novamente o \u201cfiscal\u201d com sorriso de comiss\u00e1ria de bordo entra. Desta vez para nos convidar a assistir no sal\u00e3o do hotel a um filme sobre os \u201chorrores\u201d da heran\u00e7a colonialista. Na verdade n\u00e3o era um filme, mas um document\u00e1rio de 15 minutos e se a id\u00e9ia era para que a plat\u00e9ia se indignasse, o efeito foi o contr\u00e1rio. O document\u00e1rio mostrava a noite em Tr\u00edpoli. Garotas seminuas andando nas ruas em busca de clientes, \u201cinferninhos\u201d, cabar\u00e9s, bebidas alco\u00f3licas, muitas bebidas, e por a\u00ed vai. E o pior, terminada a exibi\u00e7\u00e3o v\u00e1rios aplausos da plat\u00e9ia, principalmente de jornalistas, pedindo a volta dos colonizadores. Isso sim \u00e9 que era \u00e9poca boa, exclamou o jornalista carioca, agora ao lado de um colega mineiro que completou: \u201ceta paizinho que nem Coca-Cola tem\u201d.<\/p>\n<p>Quatro da manh\u00e3 somos acordados. Do aeroporto de Tr\u00edpoli seguimos para Benghazi, onde finalmente vamos entrevistar Kadafi.<\/p>\n<p>Quando desembarcamos em Benghazi, a bel\u00edssima Benghazi, tamareiras enfeitavam suas praias. Estavam ali como os coqueiros nas praias do nordeste. Era colher e comer t\u00e2maras dulc\u00edssimas. Um jornalista su\u00ed\u00e7o que chegara a Benghazi uma semana antes, me confidenciou que n\u00e3o deveria perder um casamento. Qualquer um, disse. Estava realmente deslumbrado com a festa e o que o deixou mais impressionado, \u00e9 que os noivos, depois da cerim\u00f4nia, recebem um envelope do governo com o equivalente a 50 mil d\u00f3lares de presente.<\/p>\n<p>Bem, essa era a L\u00edbia que pouca gente conhecia e a m\u00eddia ocidental n\u00e3o fazia nenhuma quest\u00e3o de mostr\u00e1-la. E n\u00e3o poderia, pois como explicar a seus leitores que havia ascendido ao poder um jovem coronel que n\u00e3o utilizou a riqueza em benef\u00edcio pr\u00f3prio? Pelo contr\u00e1rio. Havia dividido a riqueza com a popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Que n\u00e3o queria ver ningu\u00e9m sem teto, sem fome, sem educa\u00e7\u00e3o e sem muitas outras coisas mais. Eu, naturalmente, iria sem d\u00favida nortear a minha entrevista a partir desses pontos. Mas antes da entrevista, fomos a tr\u00eas festas com m\u00fasicos \u00e1rabes de diversos pa\u00edses. E haja doce. E haja suco. E nem um \u201cuisquinho\u201d, lamentavam alguns jornalistas que, sinceramente, acho que estavam no pa\u00eds sem saber porque e para que. As festas corriam em tendas bedu\u00ednas, algo que Kadafi sempre prezou.<\/p>\n<p>Finalmente cara a cara com Kadafi. Em sua tenda. Aparentava cansa\u00e7o. Alguns dos assuntos discutidos: 1-Socialismo l\u00edbio; 2-Educa\u00e7\u00e3o; 3-Reforma agr\u00e1ria; 4-Moradia; 5-Alinhamento; 6-Arabismo; 7-Socialismo chin\u00eas, sovi\u00e9tico, cubano; 8-Apoio aos movimentos revolucion\u00e1rios; 9-Che Guevara; 10-Estados Unidos; 11-Brasil; 12-libera\u00e7\u00e3o feminina 13-Reencarna\u00e7\u00e3o de Omar Moukhtar.<\/p>\n<p>A entrevista, que seria de 40 minutos, durou mais de duas horas e creio que passar\u00edamos a noite conversando se ele n\u00e3o fosse a toda hora solicitado. Naturalmente a Globo achou melhor n\u00e3o colocar o programa no ar, pois poderia melindrar a ditadura. Foi feita uma proposta para que um programa de 15 minutos fosse ao ar no Fant\u00e1stico. Foi realizada a reedi\u00e7\u00e3o, mas o programa teria sido proibido pelos censores oficiais da ditadura (civil-militar-midi\u00e1tica). Tudo culpa da ditadura. Ser\u00e1? Oh, c\u00e9us! Oh, terra! Quando nos livraremos desse sistema putrefato?<\/p>\n<p>Qual foi o grande erro de Kadafi? Eu n\u00e3o tenho a menor d\u00favida. Foi acreditar nos euro-estadunidenses e desistir de sua bomba at\u00f4mica. Os pacifistas que me perdoem. Aqui n\u00e3o se trata de incentivar a produ\u00e7\u00e3o de ogivas nucleares, mas de persuas\u00e3o. O Brasil que tome jeito e comece a produzir a sua. Caso contr\u00e1rio, a pr\u00f3pria m\u00eddia brasileira, associada ao Imp\u00e9rio, far\u00e1 de tudo para que o pa\u00eds seja invadido e ocupado.<\/p>\n<p>Kadafi n\u00e3o ficou rico, como os produtores de petr\u00f3leo do Golfo. Dividiu a riqueza do pa\u00eds com a popula\u00e7\u00e3o. Apoiou todos os movimentos revolucion\u00e1rios de esquerda do mundo. Inclusive os brasileiros. Em nenhum momento esqueceu a popula\u00e7\u00e3o negra da \u00c1frica. E da \u00c1frica do Sul, onde, em agradecimento, um neto de Nelson Mandela chama-se Kadafi.<\/p>\n<p>Quando Nelson Mandela tornou-se o primeiro presidente da \u00c1frica do Sul em 1994, o ent\u00e3o presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, fez de tudo para que Mandela parasse com os agradecimentos quase di\u00e1rios a Kadafi pelo seu apoio \u00e0 luta dos revolucion\u00e1rios africanos. &#8220;Os que se irritam com nossa amizade com o presidente Kadafi podem pular na piscina&#8221;, respondeu Mandela.<\/p>\n<p>O presidente de Uganda Yoweri Museveni afirmou que &#8220;quaisquer que sejam as falhas de Kadafi, ele \u00e9 um verdadeiro nacionalista. Prefiro nacionalistas do que marionetes de interesses estrangeiros&#8221;. E disse mais: &#8221; Kadafi deu contribui\u00e7\u00f5es importantes para a L\u00edbia, para a \u00c1frica e para o Terceiro Mundo. Devemos lembrar ainda que, como parte desta forma independente de pensar, ele expulsou bases militares brit\u00e2nicas e americanas da L\u00edbia ap\u00f3s tomar o poder&#8221;.<\/p>\n<p>Alem disso, o ex-l\u00edder l\u00edbio tamb\u00e9m teve papel importante na forma\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Africana (UA). A principal coordenadora da guerra contra a L\u00edbia, Hillary Clinton, andou pela \u00c1frica pregando abertamente o assassinato de Muammar Kadafi. Como n\u00e3o teve sucesso, come\u00e7ou a recrutar mercen\u00e1rios. Ali\u00e1s foram esses mercen\u00e1rios, inclusive os esquadr\u00f5es da morte colombianos, que lutaram na L\u00edbia. E eles n\u00e3o foram dizimados gra\u00e7as \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o Terrorista do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN) e EUA. Quem puder pesquisar, quando Kadafi nacionalizou as empresas petrol\u00edferas e os bancos, a m\u00eddia Ocidental referia-se a ele como Che Guevara \u00c1rabe.<\/p>\n<p>Antes de ser deposto e linchado pelos mercen\u00e1rios a mando dos terroristas OTAN e EUA, a L\u00edbia possu\u00eda o maior \u00edndice de desenvolvimento humano da \u00c1frica, e at\u00e9 hoje maior que o do Brasil. E o que pouca gente sabe, em 2007 inaugurou o maior sistema de irriga\u00e7\u00e3o do mundo. Transformou o deserto (95% da L\u00edbia) em fazendas produtoras de alimentos. Ali\u00e1s, assim que subiu ao poder, os l\u00edbios que quiseram produzir alimentos receberam terra, equipamentos, sementes e 50 mil d\u00f3lares para sobreviver at\u00e9 a safra. Foi uma Reforma Agr\u00e1ria total e irrestrita. Ele tamb\u00e9m pressionou pela cria\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos da \u00c1frica (EUA) para rivalizar com os EUA e Uni\u00e3o Europ\u00e9ia.<\/p>\n<p>Ele lutou por uma \u00c1frica una: \u201cQueremos militares africanos para defender a \u00c1frica. Queremos uma moeda \u00fanica. Queremos um s\u00f3 passaporte africano&#8221;.<\/p>\n<p>Lamentavelmente esqueceu a Bomba At\u00f4mica. E pagou por isso. As na\u00e7\u00f5es que querem se emancipar que pensem nisso.<\/p>\n<p>* Georges Bourdoukan \u00e9 jornalista e escritor<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"\n\n\n\n\n\n\n\n\n\n\n\nGeorges Bourdoukan\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/2046\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[104],"tags":[],"class_list":["post-2046","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c117-outras-opinioes"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-x0","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2046","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2046"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2046\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2046"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2046"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2046"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}