{"id":20519,"date":"2018-08-14T19:30:27","date_gmt":"2018-08-14T22:30:27","guid":{"rendered":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/?p=20519"},"modified":"2018-08-14T19:30:27","modified_gmt":"2018-08-14T22:30:27","slug":"falece-em-paris-o-marxista-egipcio-samir-amin","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20519","title":{"rendered":"Falece em Paris o marxista eg\u00edpcio Samir Amin"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" class=\"imagem\" title=\"imagem\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/gz.diarioliberdade.org\/media\/k2\/items\/cache\/6eb857072a1019bb666cb5b8e638a76b_L.jpg.pagespeed.ce.vq6PCwTjQZ.jpg\" alt=\"imagem\" \/><!--more-->Fonte:\u00a0Di\u00e1rio Liberdade<\/p>\n<p>Mundialmente reconhecido como um dos grandes te\u00f3ricos marxistas do nosso tempo, Samir Amin morreu este domingo em Paris.<\/p>\n<p>Nascido em 1931 no Egito, de pai eg\u00edpcio e m\u00e3e francesa, Samir Amin era doutor em Economia e\u00a0tinha forma\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancia Pol\u00edtica, tendo dedicado toda a sua vida adulta ao estudo do capitalismo. Trabalhou no Cairo no Instituto de Administra\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica na d\u00e9cada de 1950, morou em diferentes pa\u00edses at\u00e9 se converter em diretor do F\u00f3rum do Terceiro Mundo em Dacar, no ano de 1980.<\/p>\n<p>Nos anos 60, fez parte do Partido Comunista Franc\u00eas, distanciando-se para apoiar a corrente maoista quando da disputa sino-sovi\u00e9tica. Desenvolveu importantes estudos sobre a lei do valor, o eurocentrismo, as rela\u00e7\u00f5es centro-periferia, assim como sobre categorias discutidas no seio do marxismo contempor\u00e2neo, como &#8220;crise estrutural&#8221;, &#8220;capitalismo senil&#8221; ou &#8220;interc\u00e2mbio desigual&#8221;. Tamb\u00e9m defendeu a tese da entrada, nos anos 60, numa nova fase do capitalismo, que chamou &#8220;de monop\u00f3lio generalizado&#8221;, muito al\u00e9m do que havia sido descrito por Lenine em 1916, no cl\u00e1ssico &#8220;Imperialismo, fase superior do capitalismo&#8221;.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, estudou o fen\u00f4meno do desenvolvimento chin\u00eas, a crise do capitalismo como civiliza\u00e7\u00e3o e o acirramento dos confrontos imperialistas, sem deixar de analisar a depend\u00eancia como fen\u00f4meno caracter\u00edstico das rela\u00e7\u00f5es entre centro e periferia do capitalismo mundial, nomeadamente as periferias africana, asi\u00e1tica e latino-americana.<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m cr\u00edtico do islamismo, enquanto for\u00e7a colaboracionista do imperialismo norte-americano na regi\u00e3o do M\u00e9dio Oriente, definindo-o como &#8220;arma da globaliza\u00e7\u00e3o&#8221;, consequ\u00eancia da crise mundial do capitalismo.<\/p>\n<p>Samir Amin participou em duas ocasi\u00f5es na Semana Galega de Filosofia, nas edi\u00e7\u00f5es de 1989 e 2011.<\/p>\n<p>Reproduzimos abaixo artigo de Samir Amin publicado no site\u00a0resistir.info.<\/p>\n<hr \/>\n<p><b>O imperialismo americano,\u00a0a Europa e o M\u00e9dio Oriente<\/b><\/p>\n<p><b>por Samir Amin*<\/b><\/p>\n<p><b>1- O conflito permanente entre os imperialismos e o imperialismo colectivo<br \/>\n2- O projecto da classe dominante americana: globalizar a doutrina Monroe<br \/>\n3- O imperialismo colectivo da tr\u00edade e a hegemonia dos Estados Unidos: sua articula\u00e7\u00e3o e contradi\u00e7\u00f5es<br \/>\n4- O M\u00e9dio Oriente no sistema imperialista<br \/>\n5- O projecto europeu: atolado no p\u00e2ntano liberal\u00a0<\/b><\/p>\n<p>A an\u00e1lise que aqui se prop\u00f5e sobre o papel da Europa e do M\u00e9dio Oriente na estrat\u00e9gia imperialista global dos Estados Unidos baseia-se numa vis\u00e3o hist\u00f3rica geral da expans\u00e3o capitalista que j\u00e1 desenvolvi noutro local.\u00a0<b>[1]<\/b>\u00a0Dentro dessa perspectiva, considera-se que a natureza do capitalismo tem sido sempre, desde o seu in\u00edcio, um sistema polarizador, ou seja, imperialista. Esta polariza\u00e7\u00e3o \u2013 uma estrutura concorrente de centros dominantes e de periferias dominadas, e a sua multiplica\u00e7\u00e3o que se aprofunda de est\u00e1dio para est\u00e1dio \u2013 \u00e9 pr\u00f3pria do processo de acumula\u00e7\u00e3o do capital operando a uma escala global.<\/p>\n<p>De acordo com esta teoria da expans\u00e3o global do capitalismo, as mudan\u00e7as qualitativas nos sistemas de acumula\u00e7\u00e3o, duma fase da sua hist\u00f3ria para outra, configuram as sucessivas formas de polariza\u00e7\u00e3o assim\u00e9trica centros\/periferias, quer dizer, as formas do verdadeiro imperialismo. O sistema mundial contempor\u00e2neo manter-se-\u00e1 assim imperialista (polarizador) durante o pr\u00f3ximo futuro, enquanto a sua l\u00f3gica fundamental se mantiver dominada pelas rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalistas. Esta teoria associa o imperialismo ao processo de acumula\u00e7\u00e3o de capital a uma escala mundial, o que eu considero constituir uma realidade \u00fanica na qual as diversas dimens\u00f5es de facto n\u00e3o podem ser separadas. Diverge pois quer da vers\u00e3o popularizada da teoria leninista \u201co imperialismo, a fase mais alta do capitalismo\u201d (como se as fases iniciais da expans\u00e3o global do capitalismo n\u00e3o fossem polarizadoras), quer das teorias p\u00f3s-modernas contempor\u00e2neas que descrevem a nova globaliza\u00e7\u00e3o como sendo \u201cp\u00f3s-imperialista\u201d.<\/p>\n<p><b>1- O CONFLITO PERMANENTE ENTRE OS IMPERIALISMOS E O IMPERIALISMO COLECTIVO<\/b><\/p>\n<p>Na sua evolu\u00e7\u00e3o globalizada, o imperialismo foi sempre conjugado no plural, desde o seu in\u00edcio (no s\u00e9culo XVI) at\u00e9 1945. O conflito permanente e frequentemente violento dos imperialismos ocupou um espa\u00e7o decisivo na transforma\u00e7\u00e3o do mundo enquanto luta de classes, atrav\u00e9s da qual se exprimem as contradi\u00e7\u00f5es fundamentais do capitalismo. Para al\u00e9m disso, as disputas e conflitos sociais no seio dos imperialismos est\u00e3o intimamente interligadas, e \u00e9 esta interliga\u00e7\u00e3o que determina o verdadeiro curso do capitalismo existente. A an\u00e1lise que proponho quanto a esta tese \u00e9 muit\u00edssimo diferente da da \u201csucess\u00e3o de hegemonias.\u201d\u00a0<b>[2]<\/b><\/p>\n<p>A Segunda Guerra Mundial terminou com uma importante transforma\u00e7\u00e3o nas formas do imperialismo, substituindo a multiplicidade de imperialismos em permanente conflito por um imperialismo colectivo. Este imperialismo colectivo representa o conjunto dos centros do sistema capitalista mundial ou, para ser mais simples, uma tr\u00edade: os Estados Unidos e a sua prov\u00edncia externa canadiana, a Europa ocidental e central, e o Jap\u00e3o. Esta nova forma de expans\u00e3o imperialista passou por v\u00e1rias fases de desenvolvimento, mas esteve sempre presente desde 1945. O papel hegem\u00f3nico dos Estados Unidos tem que ser situado dentro desta perspectiva, e cada fase desta hegemonia tem que ser especificada nas suas rela\u00e7\u00f5es com o novo imperialismo colectivo. Estas quest\u00f5es levantam problemas, que s\u00e3o exactamente aqueles que eu queria aqui destacar.<\/p>\n<p>Os Estados Unidos beneficiaram imenso com a Segunda Guerra Mundial, que arruinou os seus principais contendores \u2013 a Europa, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a China e o Jap\u00e3o. Ficaram assim em condi\u00e7\u00f5es de exercer a sua hegemonia econ\u00f3mica, tanto mais que metade da produ\u00e7\u00e3o industrial global estava concentrada nos Estados Unidos, em especial as tecnologias que iriam dar forma ao desenvolvimento da segunda metade do s\u00e9culo. Para al\u00e9m disso, s\u00f3 eles possu\u00edam armas nucleares \u2013 a nova arma total.<\/p>\n<p>Esta dupla vantagem contudo foi-se desvanecendo num per\u00edodo relativamente curto (duas d\u00e9cadas) face a duas recupera\u00e7\u00f5es, uma econ\u00f3mica na Europa e no Jap\u00e3o capitalistas e outra militar na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. N\u00e3o podemos esquecer que este recuo relativo do poder americano provocou uma viva especula\u00e7\u00e3o sobre o decl\u00ednio americano, que chegou mesmo a p\u00f4r a hip\u00f3tese do aparecimento de poss\u00edveis hegemonias alternativas (incluindo a Europa, o Jap\u00e3o e, posteriormente, a China).<\/p>\n<p>Foi nesta \u00e9poca que surgiu o gaullismo. Charles de Gaulle considerava que, a partir de 1945, o objectivo dos Estados Unidos era controlar todo o Velho Mundo (a Eur\u00e1sia). Washington tinha-se colocado numa posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica para dividir a Europa \u2013 a qual, na perspectiva de de Gaulle, se estendia desde o Atl\u00e2ntico at\u00e9 aos Urais incluindo a \u201cR\u00fassia sovi\u00e9tica\u201d \u2013 agitando o espectro da agress\u00e3o de Moscovo, um espectro em que de Gaulle nunca acreditou. Esta an\u00e1lise era realista, mas de Gaulle encontrou-se praticamente sozinho. Contra o atlantismo promovido por Washington ele previa uma estrat\u00e9gia contr\u00e1ria baseada na reconcilia\u00e7\u00e3o franco-germ\u00e2nica e na constru\u00e7\u00e3o de uma Europa n\u00e3o americana, excluindo cautelosamente a Inglaterra que ele considerava, com toda a raz\u00e3o, ser o cavalo de Tr\u00f3ia do atlantismo. A Europa poderia depois abrir caminho \u00e0 reconcilia\u00e7\u00e3o com a \u201cR\u00fassia sovi\u00e9tica\u201d. A reconcilia\u00e7\u00e3o e coliga\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas maiores povos europeus \u2013 franceses, alem\u00e3es e russos \u2013 poria um fim definitivo ao projecto americano de domina\u00e7\u00e3o do mundo. Podemos ent\u00e3o resumir em duas alternativas o conflito interno espec\u00edfico para o projecto europeu: uma Europa atl\u00e2ntica, na qual a Europa \u00e9 um ap\u00eandice do projecto americano, ou uma Europa n\u00e3o atl\u00e2ntica (que integra a R\u00fassia). Este conflito ainda n\u00e3o est\u00e1 resolvido. Mas os desenvolvimentos posteriores \u2013 o fim do gaulismo, a entrada da Inglaterra para a Uni\u00e3o Europeia, a expans\u00e3o da Europa para leste, o colapso sovi\u00e9tico \u2013 combinaram-se para invalidar o projecto europeu dada a sua dupla dilui\u00e7\u00e3o numa globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica neo-liberal e num alinhamento pol\u00edtico-militar com Washington. Mais ainda, esta evolu\u00e7\u00e3o refor\u00e7a a intensidade do car\u00e1cter colectivo do imperialismo da tr\u00edade.<\/p>\n<p><b>2- O PROJECTO DA CLASSE DOMINANTE DOS ESTADOS UNIDOS: GLOBALIZAR A DOUTRINA MONROE<\/b><\/p>\n<p>O actual projecto americano, arrogante, demente e mesmo criminoso nas suas implica\u00e7\u00f5es, n\u00e3o saltou da cabe\u00e7a de George W. Bush para ser levado \u00e0 pr\u00e1tica por um grupo de extrema direita que se apoderou do poder atrav\u00e9s de elei\u00e7\u00f5es duvidosas. \u00c9 um projecto que a classe dominante americana alimentou sem cessar desde 1945, mesmo apesar de a sua implementa\u00e7\u00e3o ter passado por altos e baixos e nem sempre ter podido ser conseguida com a consist\u00eancia e a viol\u00eancia demonstradas desde a desintegra\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>O projecto atribuiu sempre um papel fundamental \u00e0 sua dimens\u00e3o militar. Os Estados Unidos cedo planearam uma estrat\u00e9gia militar global, dividindo o planeta em regi\u00f5es e atribuindo a responsabilidade do controlo de cada uma delas a um Comando Militar americano. O objectivo era n\u00e3o s\u00f3 cercar a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (e a China), mas tamb\u00e9m assegurar a posi\u00e7\u00e3o de Washington como administrador de \u00faltima inst\u00e2ncia em todo o mundo. Por outras palavras, alargava a doutrina Monroe a todo o planeta, o que deu de facto aos Estados Unidos o direito exclusivo de gerir todo o globo de acordo com os seus interesses nacionais, conforme definido.<\/p>\n<p>Este projecto implica que a soberania dos interesses nacionais dos Estados Unidos deve ser colocada acima de todos os outros princ\u00edpios que controlam o leg\u00edtimo comportamento pol\u00edtico, e gera uma desconfian\u00e7a sistem\u00e1tica para com todos os direitos supranacionais. \u00c9 certo que os imperialismos do passado n\u00e3o se comportaram de modo diferente, e aqueles que se esfor\u00e7am por minimizar e desculpar as responsabilidades \u2013 e o comportamento criminoso \u2013 dos actuais governantes dos Estados Unidos bem podem utilizar este argumento e encontram facilmente antecedentes hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p>Mas era isso precisamente o que gostar\u00edamos de ter visto alterar-se na hist\u00f3ria que come\u00e7a ap\u00f3s 1945. Foi por causa dos horrores da Segunda Guerra Mundial provocados pelo conflito dos imperialismos e pelo desprezo das pot\u00eancias fascistas pela lei internacional, que foram fundadas as Na\u00e7\u00f5es Unidas baseadas num princ\u00edpio novo que proclamava o car\u00e1cter ileg\u00edtimo do direito soberano de desencadear a guerra, at\u00e9 a\u00ed estabelecido. Os Estados Unidos, h\u00e1 que diz\u00ea-lo, n\u00e3o s\u00f3 se identificaram com este novo princ\u00edpio, como estiveram entre as primeiras pot\u00eancias a adopt\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Esta boa iniciativa \u2013 apoiada na altura pelos povos de todo o mundo \u2013 representava de facto um salto qualitativo e abria caminho ao progresso da civiliza\u00e7\u00e3o, mas nunca convenceu a classe dominante dos Estados Unidos. As autoridades de Washington nunca se sentiram \u00e0 vontade com o conceito da Na\u00e7\u00f5es Unidas, e hoje proclamam de forma brutal aquilo que foram for\u00e7ados a esconder at\u00e9 agora: que nem sequer aceitam o conceito de uma lei internacional acima do que eles consideram ser as exig\u00eancias da defesa do seu pr\u00f3prio interesse nacional. N\u00e3o podemos aceitar desculpas para este regresso a uma concep\u00e7\u00e3o desenvolvida pelos nazis, que levou \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da Liga das Na\u00e7\u00f5es. A defesa da lei internacional, advogada com talento e eleg\u00e2ncia pelo ministro dos Estrangeiros franc\u00eas Dominique de Villepin no Conselho de Seguran\u00e7a, n\u00e3o \u00e9 uma olhadela nost\u00e1lgica para o passado mas, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 um aviso para o que pode vir a ser o futuro. Nessa ocasi\u00e3o foram os Estados Unidos que defenderam um passado considerado definitivamente obsoleto por toda a opini\u00e3o decente. A implementa\u00e7\u00e3o do projecto americano passou necessariamente por diversas fases, modelado pelas espec\u00edficas rela\u00e7\u00f5es de poder que as definiam.<\/p>\n<p>Imediatamente ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial a lideran\u00e7a americana foi aceite e at\u00e9 mesmo solicitada pela burguesia da Europa e do Jap\u00e3o. Pois, se bem que a amea\u00e7a de uma invas\u00e3o sovi\u00e9tica apenas pudesse convencer os fracos de esp\u00edrito, a sua mera invoca\u00e7\u00e3o prestava bons servi\u00e7os tanto aos da direita como aos sociais democratas acossados pelos seus primos advers\u00e1rios comunistas. Poder-se-ia ent\u00e3o pensar que o car\u00e1cter colectivo do novo imperialismo era devido apenas a este factor pol\u00edtico e que, quando o seu atraso em rela\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos fosse ultrapassado, a Europa e o Jap\u00e3o procurariam ver-se livres da supervis\u00e3o inc\u00f3moda e doravante sup\u00e9rflua de Washington. Isso n\u00e3o aconteceu. Porqu\u00ea?<\/p>\n<p>A minha explica\u00e7\u00e3o baseia-se no recrudescimento dos movimentos de liberta\u00e7\u00e3o nacional na \u00c1sia e em \u00c1frica \u2013 durante as duas d\u00e9cadas que se seguiram \u00e0 Confer\u00eancia de Bandung de 1955 que deu origem ao movimento das na\u00e7\u00f5es n\u00e3o alinhadas \u2013 e ao apoio que tiveram da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e da China (cada um deles \u00e0 sua maneira). O imperialismo foi ent\u00e3o for\u00e7ado a conformar-se, n\u00e3o apenas aceitando a coexist\u00eancia pac\u00edfica com uma enorme \u00e1rea que escapava muito ao seu controlo (o mundo socialista) mas tamb\u00e9m negociando as condi\u00e7\u00f5es de participa\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses asi\u00e1ticos e africanos no sistema imperialista mundial. O alinhamento colectivo da tr\u00edade sob a lideran\u00e7a americana parecia \u00fatil para gerir as rela\u00e7\u00f5es Norte-Sul da \u00e9poca. Foi assim que as na\u00e7\u00f5es n\u00e3o alinhadas se confrontaram com um bloco ocidental praticamente indivis\u00edvel.<\/p>\n<p>O colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a sufoca\u00e7\u00e3o dos regimes nacionalistas populistas nascidos dos movimentos nacionais de liberta\u00e7\u00e3o permitiram que o projecto imperial dos Estados Unidos se desenvolvesse com extremo vigor no M\u00e9dio Oriente, na \u00c1frica e na Am\u00e9rica Latina. Na verdade, o projecto mant\u00e9m-se ao servi\u00e7o do imperialismo colectivo, pelo menos at\u00e9 um certo ponto (que tentarei explicitar mais tarde). A express\u00e3o desse projecto acabou por ser o governo econ\u00f3mico do mundo na base dos princ\u00edpios do neoliberalismo, implementado pelo Grupo dos 7 e pelas institui\u00e7\u00f5es ao seu servi\u00e7o (a OMC, o Banco Mundial e o FMI), e os planos de reajustamento estrutural passaram a vigorar no terceiro mundo asfixiado. Mesmo a n\u00edvel pol\u00edtico, \u00e9 evidente que inicialmente os europeus e os japoneses alinharam com o projecto americano. Aceitaram a marginaliza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas em benef\u00edcio da NATO na \u00e9poca da Guerra do Golfo em 1991 e nas guerras na Jugosl\u00e1via e na \u00c1sia Central em 2002. Esta fase ainda n\u00e3o terminou, embora a guerra em 2003 no Iraque tenha revelado algumas fendas na muralha.<\/p>\n<p>A classe dominante dos Estados Unidos proclama abertamente que n\u00e3o tolerar\u00e1 a reconstitui\u00e7\u00e3o de qualquer poder econ\u00f3mico ou militar capaz de p\u00f4r em causa o seu monop\u00f3lio de dom\u00ednio sobre o planeta e, para atingir este objectivo, arroga-se o direito de desencadear guerras preventivas. Neste contexto est\u00e3o debaixo de mira tr\u00eas principais poss\u00edveis advers\u00e1rios.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar est\u00e1 a R\u00fassia, cujo desmembramento, a seguir ao da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, constitui de agora em diante um objectivo estrat\u00e9gico principal para os Estados Unidos. A classe dominante russa parece que ainda n\u00e3o percebeu bem isto. Parece convencida de que, depois de ter perdido a guerra, poderia ganhar a paz, como aconteceu com a Alemanha e o Jap\u00e3o. Esquece-se que Washington necessitava da recupera\u00e7\u00e3o destes dois anteriores advers\u00e1rios precisamente para enfrentar a amea\u00e7a sovi\u00e9tica. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 agora diferente: os Estados Unidos j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam um competidor perigoso. A sua primeira op\u00e7\u00e3o \u00e9 portanto destruir o moribundo advers\u00e1rio russo duma forma permanente e total. Ser\u00e1 que Putin percebe isto e ir\u00e1 iniciar o processo de tirar as ilus\u00f5es \u00e0 classe dominante russa? Em segundo lugar est\u00e1 a China, cujo crescimento e sucesso econ\u00f3mico preocupa os Estados Unidos. O objectivo estrat\u00e9gico americano \u00e9 desmembrar este enorme pa\u00eds.<\/p>\n<p>A Europa vem em terceiro lugar nesta perspectiva global dos novos senhores do mundo. Mas aqui os governantes norte americanos n\u00e3o parecem t\u00e3o inquietos, pelo menos at\u00e9 agora. O incondicional atlantismo de alguns (da Inglaterra, assim como dos novos poderes servis de leste), o loda\u00e7al do projecto europeu (um assunto a que voltarei), e os interesses convergentes do capital dominante do imperialismo colectivo da tr\u00edade, tudo contribui para enfraquecer o projecto europeu. Os atlantistas constituem a ala europeia do projecto americano depois que a diplomacia de Washington conseguiu manter a Alemanha submissa. Esta alian\u00e7a parece que foi mesmo refor\u00e7ada com a reunifica\u00e7\u00e3o e conquista da Europa de Leste. A Alemanha foi encorajada a repensar a sua tradi\u00e7\u00e3o de expans\u00e3o para leste e, em resultado disso, assistimos ao papel desempenhado por Berlim no desmembramento da Jugosl\u00e1via, ao apressadamente reconhecer a independ\u00eancia dos eslovenos e dos croatas. Em troca, a Alemanha aceitou navegar na senda de Washington. H\u00e1 algumas mudan\u00e7as em curso? A classe pol\u00edtica alem\u00e3 mostra-se hesitante e pode estar dividida quanto \u00e0s suas escolhas estrat\u00e9gicas. A alternativa ao alinhamento atlantista \u00e9 um refor\u00e7o do antigo eixo Paris-Berlim-Moscovo, o qual se tornaria assim o mais s\u00f3lido pilar dum sistema europeu independente de Washington.<\/p>\n<p>Podemos agora reconsiderar a nossa principal quest\u00e3o, isto \u00e9, a natureza e a for\u00e7a potencial do imperialismo colectivo da tr\u00edade, e as contradi\u00e7\u00f5es e fraquezas da lideran\u00e7a dos Estados Unidos.<\/p>\n<p><b>3- O IMPERIALISMO COLECTIVO DA TR\u00cdADE E A HEGEMONIA DOS ESTADOS UNIDOS: SUA ARTICULA\u00c7\u00c3O E CONTRADI\u00c7\u00d5ES<\/b><\/p>\n<p>O mundo dos nossos dias \u00e9 unipolar do ponto de vista militar. No entanto, parece terem surgido algumas fissuras entre os Estados Unidos e alguns dos pa\u00edses Europeus que se identificam, pelo menos em teoria, com a gest\u00e3o pol\u00edtica de um sistema global unificado pelos princ\u00edpios do liberalismo. Ser\u00e3o estas fissuras apenas tempor\u00e1rias e limitadas, ou prenunciam algumas mudan\u00e7as duradouras? Ser\u00e1 necess\u00e1rio analisar em toda a sua complexidade a l\u00f3gica da nova fase do imperialismo colectivo (as rela\u00e7\u00f5es Norte-Sul em linguagem corrente) e os objectivos espec\u00edficos do projecto americano. Dentro deste esp\u00edrito irei abordar sucinta e sucessivamente cinco conjuntos de quest\u00f5es:<\/p>\n<p><b>Sobre a evolu\u00e7\u00e3o do novo imperialismo colectivo\u00a0<\/b><\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o do novo imperialismo colectivo tem a sua origem na transforma\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de concorr\u00eancia. H\u00e1 apenas algumas d\u00e9cadas atr\u00e1s, as grandes empresas travavam as suas batalhas competitivas essencialmente nos mercados nacionais, quer no dos Estados Unidos (o maior mercado nacional do mundo) quer nos dos estados europeus (apesar do seu tamanho reduzido que os inferiorizava em rela\u00e7\u00e3o ao dos Estados Unidos). Os vencedores das competi\u00e7\u00f5es nacionais adquiriam condi\u00e7\u00f5es para ter \u00eaxito no mercado mundial. Nos nossos dias, para se atingir a supremacia no mercado, numa primeira fase da competi\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio um mercado com uma dimens\u00e3o de 500 a 600 milh\u00f5es de potenciais compradores. Portanto, a batalha tem que ser travada directamente no mercado global e tem que ser ganha neste terreno. E aqueles que dominarem este mercado poder\u00e3o depois afirmar o seu poder nos respectivos terrenos nacionais. \u00c9 atrav\u00e9s da internacionaliza\u00e7\u00e3o que as grandes firmas estabelecem a base mais importante da sua actividade. Por outras palavras, no duo nacional\/global, os termos de causalidade est\u00e3o invertidos: anteriormente o poder nacional comandava a presen\u00e7a global e hoje passa-se o contr\u00e1rio. Por isso, as firmas multinacionais, qualquer que seja a sua nacionalidade, t\u00eam interesses comuns na gest\u00e3o do mercado mundial. Estes interesses sobrep\u00f5em-se aos diversos conflitos comerciais, que definem todas as formas da competi\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do capitalismo, independentemente de quais elas sejam.<\/p>\n<p>A solidariedade dos segmentos dominantes do capital multinacional de todos os parceiros na tr\u00edade \u00e9 real, e est\u00e1 expressa na sua ades\u00e3o ao neoliberalismo globalizado. Nesta perspectiva, os Estados Unidos s\u00e3o vistos como os defensores (se necess\u00e1rio pelas armas) destes interesses comuns. Apesar disso, Washington n\u00e3o faz ten\u00e7\u00e3o de partilhar equitativamente os benef\u00edcios da sua lideran\u00e7a. Os Estados Unidos procuram, pelo contr\u00e1rio, reduzir a vassalos os seus aliados e por isso apenas dispostos a fazer concess\u00f5es menores aos seus menores aliados na tr\u00edade. Ser\u00e1 que este conflito de interesses no seio do capital dominante levar\u00e1 \u00e0 ruptura da alian\u00e7a atl\u00e2ntica? N\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel, mas \u00e9 improv\u00e1vel.<\/p>\n<p><b>Sobre a posi\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos na economia mundial\u00a0<\/b><\/p>\n<p>\u00c9 senso comum que o poder militar americano constitui apenas a ponta do icebergue, e que a superioridade do pa\u00eds se estende tamb\u00e9m a todas as \u00e1reas, em especial \u00e0 econ\u00f3mica, mas tamb\u00e9m \u00e0 pol\u00edtica e \u00e0 cultural. Da\u00ed que seja imposs\u00edvel evitar a submiss\u00e3o \u00e0 hegemonia que pretendem.<\/p>\n<p>Eu afirmo, pelo contr\u00e1rio, que, dentro do sistema do imperialismo colectivo, os Estados Unidos n\u00e3o t\u00eam uma superioridade econ\u00f3mica decisiva. O sistema de produ\u00e7\u00e3o americano est\u00e1 longe de ser o mais eficiente do mundo. Na verdade, muito poucos dos seus sectores teriam a certeza de bater a concorr\u00eancia num mercado verdadeiramente livre como o sonhado pelos economistas liberais. O d\u00e9fice comercial americano, que aumenta de ano para ano, passou de 100 bili\u00f5es de d\u00f3lares em 1989 para 500 bili\u00f5es em 2002. Mais ainda, este d\u00e9fice atingiu praticamente todas as \u00e1reas de produ\u00e7\u00e3o. Mesmo os excedentes de que os Estados Unidos beneficiavam outrora na \u00e1rea dos artigos de alta tecnologia, os quais atingiam os 35 bili\u00f5es em 1990, transformaram-se agora em d\u00e9fice. A competi\u00e7\u00e3o entre os m\u00edsseis Ariane e os da NASA, entre os Airbus e os Boeings, comprova a vulnerabilidade da superioridade americana. Os Estados Unidos enfrentam a concorr\u00eancia europeia e japonesa nos produtos de alta tecnologia, a chinesa, a coreana e a de outros pa\u00edses industrializados da \u00c1sia e da Am\u00e9rica Latina nos produtos de fabrico comum, e a europeia e a do sul da Am\u00e9rica Latina na agricultura. Os Estados Unidos provavelmente n\u00e3o seriam capazes de ganhar se n\u00e3o fosse o seu recurso a meios extra-econ\u00f3micos, com a viola\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios do liberalismo imposto aos seus concorrentes!<\/p>\n<p>O que \u00e9 verdade, \u00e9 que os Estados Unidos beneficiam apenas de uma superioridade comparativa no sector do armamento, precisamente porque este sector opera largamente fora das regras do mercado e beneficia de apoio estatal. Esta superioridade arrasta provavelmente alguns benef\u00edcios para a esfera civil (o exemplo mais conhecido \u00e9 a Internet), mas tamb\u00e9m provoca graves distor\u00e7\u00f5es que prejudicam muitos sectores de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A economia norte americana vive duma forma parasita em detrimento dos seus parceiros no sistema mundial. \u201cOs Estados Unidos dependem em 10 por cento do consumo industrial de bens cujos custos de importa\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e3o cobertos pelas exporta\u00e7\u00f5es dos seus pr\u00f3prios produtos\u201d, como lembra Emmanuel Todd.\u00a0<b>[3]<\/b>\u00a0O mundo produz e os Estados Unidos (que praticamente n\u00e3o fazem poupan\u00e7a nacional) consomem. A superioridade dos Estados Unidos \u00e9 a de um predador cujo d\u00e9fice \u00e9 coberto por empr\u00e9stimos dos outros, quer sejam consentidos quer sejam obtidos \u00e0 for\u00e7a. Washington tem vindo a utilizar tr\u00eas formas principais de compensar esta defici\u00eancia: viola\u00e7\u00f5es unilaterais repetidas dos princ\u00edpios liberais; exporta\u00e7\u00e3o de armamento; e procura de maiores lucros a partir do petr\u00f3leo (o que pressup\u00f5e um controlo sistem\u00e1tico sobre os produtores \u2013 uma das verdadeiras raz\u00f5es para as guerras na \u00c1sia Central e no Iraque). O que \u00e9 facto \u00e9 que parte essencial do d\u00e9fice americano \u00e9 coberto pelas contribui\u00e7\u00f5es de capital da Europa, Jap\u00e3o e do Sul (dos pa\u00edses produtores de petr\u00f3leo e das classes compradoras de todos os pa\u00edses do terceiro mundo, incluindo os mais pobres), \u00e0s quais se juntam as somas adicionais que entram por conta da d\u00edvida que foi imposta em quase todos os pa\u00edses na periferia do sistema mundial.<\/p>\n<p>O crescimento nos anos Clinton, apregoado como resultado de um liberalismo a que a Europa em v\u00e3o tentava resistir, foi na verdade uma enorme mistifica\u00e7\u00e3o e, de qualquer modo, n\u00e3o pode ser generalizado, porquanto estava dependente das transfer\u00eancias de capital que levavam \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o das economias parceiras. Em todos os sectores do verdadeiro sistema de produ\u00e7\u00e3o, o crescimento americano n\u00e3o foi melhor do que o da Europa. O milagre americano foi alimentado exclusivamente por um crescimento na despesa produzido pelas crescentes desigualdades sociais (servi\u00e7os financeiros e privados, legi\u00f5es de advogados, e for\u00e7as policiais privadas). Analisando os factos, torna-se claro que o liberalismo de Clinton preparou as condi\u00e7\u00f5es para a onda reaccion\u00e1ria e posteriormente para a vit\u00f3ria de Bush Filho<\/p>\n<p>As causas do enfraquecimento do sistema de produ\u00e7\u00e3o americano s\u00e3o complexas. O que \u00e9 certo \u00e9 que n\u00e3o s\u00e3o conjunturais, e n\u00e3o podem ser corrigidas pela adop\u00e7\u00e3o de, por exemplo, uma taxa de c\u00e2mbio correcta ou a instaura\u00e7\u00e3o de um equil\u00edbrio mais positivo entre sal\u00e1rios e produtividade. Elas s\u00e3o estruturais. A mediocridade dos sistemas gerais de educa\u00e7\u00e3o e de forma\u00e7\u00e3o, e um preconceito profundamente enraizado sistematicamente em prol dos servi\u00e7os privados em detrimento dos p\u00fablicos, est\u00e3o entre as principais raz\u00f5es da profunda crise por que a sociedade americana est\u00e1 a passar.<\/p>\n<p>Dev\u00edamos, ent\u00e3o, ficar surpreendidos pelo facto de os europeus, longe de tirarem as conclus\u00f5es que se imp\u00f5em da observa\u00e7\u00e3o das defici\u00eancias das for\u00e7as econ\u00f3micas americanas, estarem a imit\u00e1-los activamente. Tamb\u00e9m aqui o v\u00edrus liberal n\u00e3o explica tudo, mesmo quando desempenha algumas fun\u00e7\u00f5es \u00fateis ao sistema tal como a de paralisar a esquerda. A privatiza\u00e7\u00e3o desenfreada e o desmantelamento dos servi\u00e7os p\u00fablicos apenas ter\u00e3o como resultado a redu\u00e7\u00e3o da superioridade comparativa de que goza ainda \u201cA Velha Europa\u201d (como Bush lhe chama). No entanto, quaisquer que sejam os danos que estas medidas venham a causar a longo prazo, elas proporcionam ao capital dominante, que vive a curto prazo, a possibilidade de obter lucros adicionais.<\/p>\n<p><b>Sobre os objectivos espec\u00edficos do projecto americano\u00a0<\/b><\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia de hegemonia dos Estados Unidos insere-se no quadro do novo imperialismo colectivo.<\/p>\n<p>Os economistas convencionais n\u00e3o t\u00eam as ferramentas anal\u00edticas necess\u00e1rias para entender a import\u00e2ncia suprema destes objectivos. Ouvimo-los repetir at\u00e9 \u00e0 exaust\u00e3o que na nova economia as mat\u00e9rias-primas vindas do terceiro mundo est\u00e3o condenadas a perder a sua import\u00e2ncia e por isso o terceiro mundo est\u00e1 a tornar-se cada vez mais marginal no sistema mundial. Em contradi\u00e7\u00e3o com este discurso ing\u00e9nuo e oco temos o\u00a0<i>Mein Kampf<\/i>da administra\u00e7\u00e3o Bush,\u00a0<b>[4]<\/b>\u00a0e temos que reconhecer que os Estados Unidos t\u00eam lutado esfor\u00e7adamente pelo direito de se apropriarem de todos os recursos naturais do planeta a fim de satisfazer as suas exig\u00eancias de consumo. A corrida pelas mat\u00e9rias-primas (primeiro que tudo o petr\u00f3leo, mas tamb\u00e9m outras \u2013 principalmente a \u00e1gua) j\u00e1 se iniciou em toda a sua virul\u00eancia. Tanto mais que estes recursos est\u00e3o em vias de se tornarem escassos n\u00e3o s\u00f3 por causa do desperd\u00edcio nocivo inerente ao consumismo ocidental, mas tamb\u00e9m por causa do desenvolvimento da nova industrializa\u00e7\u00e3o das periferias.<\/p>\n<p>Acresce que um grande n\u00famero de pa\u00edses do Sul est\u00e3o em vias de se tornar produtores industriais de import\u00e2ncia crescente tanto a n\u00edvel dos seus mercados internos como quanto ao seu papel no mercado mundial. Enquanto importadores de tecnologias, de capital, e tamb\u00e9m enquanto concorrentes na exporta\u00e7\u00e3o, est\u00e3o em vias de perturbar o equil\u00edbrio econ\u00f3mico global com um peso cada vez maior. E n\u00e3o se trata apenas de alguns pa\u00edses da \u00c1sia Ocidental (como a Coreia), mas da imensa China e, futuramente, da \u00cdndia e dos grandes pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. No entanto, longe de ser um factor de estabiliza\u00e7\u00e3o, a acelera\u00e7\u00e3o da expans\u00e3o capitalista no Sul apenas pode vir a provocar violentos conflitos \u2013 internos e internacionais. E a raz\u00e3o \u00e9 que esta expans\u00e3o n\u00e3o consegue absorver, nas actuais condi\u00e7\u00f5es, a enorme reserva de for\u00e7a de trabalho que est\u00e1 concentrada na periferia. De facto, as periferias do sistema continuam a ser uma zona de tempestades. Os centros do sistema capitalista precisam pois de exercer o seu dom\u00ednio sobre as periferias e submeter a popula\u00e7\u00e3o do mundo \u00e0 disciplina impiedosa que a satisfa\u00e7\u00e3o das suas prioridades requer.<\/p>\n<p>Dentro desta perspectiva, a elite governante americana percebeu perfeitamente que, para alcan\u00e7ar a sua hegemonia, tem tr\u00eas vantagens absolutas sobre os competidores europeus e japoneses: o controlo sobre os recursos naturais do globo, o monop\u00f3lio militar e o peso da cultura anglo-sax\u00f3nica atrav\u00e9s da qual se exprime melhor o dom\u00ednio ideol\u00f3gico do capitalismo. A manipula\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica destas tr\u00eas vantagens revela muitos aspectos da pol\u00edtica americana: os esfor\u00e7os sistem\u00e1ticos que Washington exerce pelo controlo militar do M\u00e9dio Oriente produtor de petr\u00f3leo; a sua estrat\u00e9gia ofensiva no que diz respeito \u00e0 China e \u00e0 Coreia \u2013 tirando partido da \u201ccrise financeira\u201d desta \u00faltima; e o seu jogo subtil com vista a divis\u00f5es sem fim na Europa \u2013 mobilizando o seu incondicional aliado ingl\u00eas ao mesmo tempo que evita qualquer aproxima\u00e7\u00e3o s\u00e9ria entre a Uni\u00e3o Europeia e a R\u00fassia. A n\u00edvel do controlo global sobre os recursos do planeta, os Estados Unidos t\u00eam uma superioridade absoluta sobre a Europa e o Jap\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 porque os Estados Unidos s\u00e3o a \u00fanica pot\u00eancia militar internacional e, por isso, nenhuma interven\u00e7\u00e3o forte no terceiro mundo pode ser levada a efeito sem eles, mas principalmente porque a Europa (com exclus\u00e3o da ex-URSS) e o Jap\u00e3o est\u00e3o por seu lado extremamente dependentes dos recursos essenciais para as suas economias. Por exemplo, a sua depend\u00eancia no sector da energia, em especial a sua depend\u00eancia do petr\u00f3leo em rela\u00e7\u00e3o ao Golfo P\u00e9rsico, ir\u00e1 durar um consider\u00e1vel per\u00edodo de tempo, mesmo que venha a diminuir em termos relativos. Ao assegurarem o controlo desta regi\u00e3o, pela for\u00e7a das armas, atrav\u00e9s da guerra do Iraque, os governantes dos Estados Unidos demonstraram que estavam perfeitamente conscientes da utilidade deste tipo de press\u00e3o, que utilizam para refrear os seus competidores (aliados). N\u00e3o h\u00e1 muito tempo, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica tamb\u00e9m j\u00e1 se tinha apercebido desta vulnerabilidade da Europa e do Jap\u00e3o, e algumas interven\u00e7\u00f5es sovi\u00e9ticas no terceiro mundo tiveram o objectivo de demonstrar isso mesmo, a fim de os obrigar a negociar noutras regi\u00f5es. Tornou-se evidente que as defici\u00eancias da Europa e do Jap\u00e3o podiam ser compensadas na sequ\u00eancia duma aproxima\u00e7\u00e3o s\u00e9ria entre a Europa e a R\u00fassia (a casa comum\u201d de Gorbachev). Esta \u00e9 a verdadeira raz\u00e3o para que o perigo da constru\u00e7\u00e3o da Eur\u00e1sia continue a ser o pesadelo de Washington.<\/p>\n<p><b>Sobre os conflitos entre os Estados Unidos e os seus parceiros na tr\u00edade\u00a0<\/b><\/p>\n<p>Se bem que os parceiros na tr\u00edade partilhem interesses comuns na gest\u00e3o global do imperialismo colectivo impl\u00edcito no seu relacionamento com o Sul, eles mant\u00eam no entanto um relacionamento muito grave, potencialmente conflituoso.<\/p>\n<p>A superpot\u00eancia americana mant\u00e9m-se de p\u00e9 gra\u00e7as ao fluxo de capital que alimenta o parasitismo da sua economia e da sua sociedade. Esta vulnerabilidade dos Estados Unidos constitui, assim, uma s\u00e9ria amea\u00e7a ao projecto de Washington.<\/p>\n<p>A Europa em particular e o resto do mundo em geral ter\u00e3o que escolher uma das duas seguintes op\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas: ou investem o excedente do seu capital (isto \u00e9, economias) por forma a garantir o financiamento continuado do d\u00e9fice americano (consumo, investimentos e despesas militares) ou conservam e investem estas economias internamente.<\/p>\n<p>Os economistas convencionais mant\u00eam-se alheados a este problema, e levantam a hip\u00f3tese absurda de que, como a globaliza\u00e7\u00e3o supostamente aboliu o estado-na\u00e7\u00e3o, os factores b\u00e1sicos econ\u00f3micos (poupan\u00e7a e investimento) deixaram de poder ser geridos a n\u00edvel nacional. Mas embora rid\u00edcula, a no\u00e7\u00e3o de identidade de poupan\u00e7a e investimento a n\u00edvel mundial \u00e9 na verdade \u00fatil para justificar e favorecer o financiamento do d\u00e9fice americano por terceiros. Tal absurdo \u00e9 um excelente exemplo do racioc\u00ednio tautol\u00f3gico, em que as conclus\u00f5es a que se pretende chegar est\u00e3o implicadas na pr\u00f3pria premissa.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o porque \u00e9 que se aceita um disparate destes? Sem d\u00favida porque as equipas de doutos economistas que enquadram quer as classes pol\u00edticas europeias da direita (assim como as russas e as chinesas) quer as da esquerda eleitoral s\u00e3o elas pr\u00f3prias v\u00edtimas da sua aliena\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, a que chamo o v\u00edrus liberal. Mais ainda, o racioc\u00ednio pol\u00edtico do grande capital multinacional exprime-se atrav\u00e9s desta op\u00e7\u00e3o. Este racioc\u00ednio \u00e9 de que as vantagens decorrentes da gest\u00e3o do sistema globalizado pelos Estados Unidos por conta do imperialismo colectivo s\u00e3o mais importantes do que os seus inconvenientes \u2013 \u00e9 um tributo que tem que ser pago a Washington para garantir a estabilidade. O que est\u00e1 em jogo, afinal de contas, \u00e9 um tributo e n\u00e3o um investimento com garantia de um bom retorno. H\u00e1 alguns pa\u00edses classificados de pa\u00edses pobres endividados que est\u00e3o sempre constrangidos a pagar a sua d\u00edvida a qualquer pre\u00e7o. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m um pa\u00eds fortemente endividado que tem os meios para desvalorizar a sua d\u00edvida se isso for considerado necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>A outra op\u00e7\u00e3o para a Europa (e para o resto do mundo) consistiria assim em p\u00f4r fim a esta transfus\u00e3o a favor dos Estados Unidos. As poupan\u00e7as poderiam ent\u00e3o ser utilizadas localmente (na Europa), e a economia poderia ser revitalizada. A transfus\u00e3o exige que os europeus se submetam, na linguagem equ\u00edvoca da economia convencional, a \u201cpol\u00edticas deflacion\u00e1rias\u201d a que chamo de estagna\u00e7\u00e3o \u2013 que provoquem um excedente de poupan\u00e7a para exporta\u00e7\u00e3o. Faz com que a recupera\u00e7\u00e3o na Europa \u2013 sempre med\u00edocre \u2013 fique dependente do apoio artificial dos Estados Unidos. A mobiliza\u00e7\u00e3o deste excedente para emprego local na Europa permitiria uma revitaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 do consumo (reformulando a dimens\u00e3o social da gest\u00e3o econ\u00f3mica destru\u00edda pelo v\u00edrus liberal), como do investimento (em especial nas novas tecnologias e pesquisa), e at\u00e9 mesmo das despesas militares (pondo fim \u00e0 superioridade dos Estados Unidos nesta \u00e1rea). A escolha desta resposta implicaria um reequil\u00edbrio das rela\u00e7\u00f5es sociais em prol das classes trabalhadoras. Na Europa esta op\u00e7\u00e3o mant\u00e9m-se poss\u00edvel para o capital. No fundo, o contraste entre os Estados Unidos e a Europa n\u00e3o resulta de interesses opostos dos segmentos dominantes dos seus respectivos capitais. Resulta sobretudo da diferen\u00e7a de culturas pol\u00edticas.<\/p>\n<p><b>Sobre aspectos da teoria levantada pelas reflex\u00f5es anteriores\u00a0<\/b><\/p>\n<p>A cumplicidade e a competi\u00e7\u00e3o entre os parceiros no imperialismo colectivo pelo controlo do Sul \u2013 a pilhagem dos recursos naturais e a sujei\u00e7\u00e3o dos seus povos \u2013 podem ser analisadas sob diversos pontos de vista. Quanto a isto, farei tr\u00eas observa\u00e7\u00f5es que me parecem as mais importantes.<\/p>\n<p>Primeira, o sistema mundial contempor\u00e2neo que designo por imperialismo colectivo n\u00e3o \u00e9 menos imperialista que os seus antecessores. N\u00e3o \u00e9 um \u201cImp\u00e9rio\u201d de natureza \u201cp\u00f3s-capitalista\u201d.<\/p>\n<p>Segunda, propus uma leitura da hist\u00f3ria do capitalismo, globalizado logo desde a origem, centrada na distin\u00e7\u00e3o entre as diversas fases do imperialismo (de rela\u00e7\u00f5es centro\/periferia).<\/p>\n<p>Terceira, a internacionaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sin\u00f3nimo de unifica\u00e7\u00e3o do sistema econ\u00f3mico atrav\u00e9s da abertura selvagem dos mercados. Esta \u00faltima \u2013 nas suas formas hist\u00f3ricas sucessivas (liberdade de com\u00e9rcio ontem, liberdade das empresas hoje) \u2013 constituiu sempre o projecto do capital dominante da \u00e9poca. Na realidade este projecto foi quase sempre for\u00e7ado a ajustar-se a condi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o eram do interesse da sua l\u00f3gica interna exclusiva e espec\u00edfica. Portanto, nunca p\u00f4de ser implementado a n\u00e3o ser durante alguns breves momentos da hist\u00f3ria. A \u201clivre troca\u201d proclamada pela principal pot\u00eancia industrial do tempo, a Inglaterra, s\u00f3 funcionou durante duas d\u00e9cadas (1860-1880) e foi seguida por um s\u00e9culo (1880-1980) caracterizado pelo conflito entre os pa\u00edses imperialistas e pelo afastamento vincado dos pa\u00edses socialistas e o afastamento mais moderado dos pa\u00edses nacionalistas populistas (na era de Bandung desde 1955 a 1975). O actual momento de reunifica\u00e7\u00e3o do mercado mundial, instaurado pelo neoliberalismo desde 1980, e alargado a todo o planeta com o colapso sovi\u00e9tico, n\u00e3o ter\u00e1 provavelmente um destino melhor. O caos que tem gerado comprova o seu car\u00e1cter de \u201cpermanente utopia do capital\u201d, frase com que tenho descrito este sistema desde 1990.<\/p>\n<p><b>4. O M\u00c9DIO ORIENTE NO SISTEMA IMPERIALISTA\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>O dom\u00ednio americano da regi\u00e3o depois da queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica\u00a0<\/b><\/p>\n<p>O M\u00e9dio Oriente, considerado daqui em diante em conjunto com as \u00e1reas fronteiri\u00e7as do C\u00e1ucaso e da \u00c1sia Central ex-sovi\u00e9tica, ocupa uma posi\u00e7\u00e3o de especial import\u00e2ncia na geoestrat\u00e9gia e geopol\u00edtica do imperialismo e, em especial, do projecto de hegemonia americano. Deve esta posi\u00e7\u00e3o a tr\u00eas factores: \u00e0 sua riqueza em petr\u00f3leo; \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica no cora\u00e7\u00e3o do Velho Mundo; e ao facto de que constitui o ponto vulner\u00e1vel do sistema mundial.<\/p>\n<p>O acesso ao petr\u00f3leo a um pre\u00e7o relativamente barato \u00e9 vital para a economia da tr\u00edade dominante, e os melhores meios de assegurar este acesso garantido consiste em assegurar o controle pol\u00edtico da \u00e1rea.<\/p>\n<p>Mas a regi\u00e3o tamb\u00e9m tem import\u00e2ncia devido igualmente \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, estando junto ao centro do Velho Mundo, a igual dist\u00e2ncia de Paris, Pequim, Singapura e Johannesburg. Nos velhos tempos o controle sobre esta inevit\u00e1vel encruzilhada deu ao Califado o privil\u00e9gio de retirar os principais benef\u00edcios do com\u00e9rcio a longa dist\u00e2ncia daquela \u00e9poca. Ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial a regi\u00e3o, localizada ao sul da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, era crucial para a estrat\u00e9gia militar de sitiar o poder sovi\u00e9tico. E a regi\u00e3o n\u00e3o perdeu a sua import\u00e2ncia com o colapso do advers\u00e1rio sovi\u00e9tico. A domin\u00e2ncia americana na regi\u00e3o reduz a Europa, dependente do M\u00e9dio Oriente para o seu abastecimento de energia, \u00e0 vassalagem. Uma vez subjugada a R\u00fassia, a China e a \u00cdndia estavam tamb\u00e9m sujeitas \u00e0 chantagem energ\u00e9tica permanente. O controle sobre o M\u00e9dio Oriente permitiria portanto uma extens\u00e3o da Doutrina Monroe ao Velho Mundo, o objectivo do projecto hegemonista dos Estados Unidos. Mas os cont\u00ednuos e constantes esfor\u00e7os efectuados por Washington desde 1945 para assegurar o controle sobre a regi\u00e3o, excluindo os brit\u00e2nicos e franceses ao mesmo tempo, n\u00e3o foram coroados pelo \u00eaxito. Pode-se recordar o fracasso da tentativa de anexar a regi\u00e3o \u00e0 NATO atrav\u00e9s do Pacto de Bagdad, e a queda de um dos seus mais fieis aliados, o X\u00e1 do Ir\u00e3o.<\/p>\n<p>A raz\u00e3o \u00e9 muito simplesmente porque o projecto do populismo nacionalista \u00e1rabe (e iraniano) entrou logo em conflito com os objectivos do hegemonismo americano. Este projecto \u00e1rabe tinha esperan\u00e7a de for\u00e7ar as Grandes Pot\u00eancias a reconhecer a independ\u00eancia do mundo \u00e1rabe. O movimento n\u00e3o-alinhado formado em 1955 em Bandung pelo conjunto dos movimentos de liberta\u00e7\u00e3o dos povos asi\u00e1ticos e africanos era a corrente mais forte naquele tempo. Os sovi\u00e9ticos entenderam isto rapidamente, dando o seu apoio a este projecto eles podiam conter os planos agressivos de Washington.<\/p>\n<p>Este \u00e9poca chegou a um fim, em primeira inst\u00e2ncia porque o projecto populista-nacionalista do mundo \u00e1rabe exauriu rapidamente o seu potencial para a transforma\u00e7\u00e3o, e os poderes nacionalistas afundaram em ditaduras esvaziadas tanto de esperan\u00e7a como de planos para mudan\u00e7a. O v\u00e1cuo criado por esta deriva abriu o caminho para o Isl\u00e3o pol\u00edtico e as autocracias obscurantistas do Golfo P\u00e9rsico, os aliados preferidos de Washington. A regi\u00e3o tornou-se uma das partes fracas\u00a0<i>(underbellies)\u00a0<\/i>do sistema global, vulner\u00e1vel \u00e0 interven\u00e7\u00e3o externa (inclusive militar) que os regimes em vigor, por falta de legitimidade, s\u00e3o incapazes de conter ou desencorajar. A regi\u00e3o constituiu, e continua a constituir, uma zona de alta prioridade (como a caribenha) dentro da divis\u00e3o geomilitar americana do planeta \u2014 uma zona onde aos Estados Unidos \u00e9 concedido o &#8220;direito&#8221; de interven\u00e7\u00e3o militar. A partir de 1990 eles n\u00e3o se privaram de nada!<\/p>\n<p>Os Estados Unidos operam no M\u00e9dio Oriente em estreita coopera\u00e7\u00e3o com os seus dois fieis e incondicionais aliados \u2014 Turquia e Israel. A Europa \u00e9 mantida longe da regi\u00e3o, for\u00e7ada a aceitar que os Estados Unidos est\u00e3o a defender os interesses globais vitais da tr\u00edade, ou seja, o seu abastecimento de petr\u00f3leo. Apesar dos sinais de \u00f3bvia irrita\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a guerra do Iraque, nesta regi\u00e3o os europeus de um modo geral continuam a seguir com entusiasmo o rastro de Washington.<\/p>\n<p><b>O papel de Israel e da resist\u00eancia palestina\u00a0<\/b><\/p>\n<p>O expansionismo colonial de Israel constitui um desafio real. Israel \u00e9 o \u00fanico pa\u00eds do mundo que se recusa a reconhecer as suas fronteiras como definidas (e por esta raz\u00e3o n\u00e3o tem o direito de ser membro das Na\u00e7\u00f5es Unidas). Tal como os Estados Unidos no s\u00e9culo XIX, reivindica o direito de conquistar novas \u00e1reas para a expans\u00e3o da sua coloniza\u00e7\u00e3o e de tratar o povo que ali tem vivido durante milhares de ano como &#8220;peles-vermelhas&#8221;. Israel \u00e9 o \u00fanico pa\u00eds que se declara abertamente n\u00e3o vinculado \u00e0s resolu\u00e7\u00f5es da ONU.<\/p>\n<p>A guerra de 1967, planeada em 1965 em acordo com Washington, buscava v\u00e1rios objectivos: iniciar o colapso dos regimes populistas nacionalistas; romper a sua alian\u00e7a com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica; for\u00e7\u00e1-los a reposicionarem-se nos termos americanos; e abrir novos territ\u00f3rios para a coloniza\u00e7\u00e3o sionista. Nos territ\u00f3rios conquistados em 1967 Israel montou um sistema de apartheid inspirado naquele da \u00c1frica do Sul.<\/p>\n<p>\u00c9 aqui que os interesses do capital dominante encontram-se com aqueles do sionismo. Um mundo \u00e1rabe rico, poderoso e modernizado poria em causa o direito do Ocidente de pilhar os seus recursos petrol\u00edferos, os quais s\u00e3o necess\u00e1rios para a continua\u00e7\u00e3o do desperd\u00edcio associado com a acumula\u00e7\u00e3o capitalista. Portanto, o poderes pol\u00edticos nos pa\u00edses da tr\u00edade \u2014 todos eles servidores fieis do capital transnacional dominante \u2014 n\u00e3o querem um mundo \u00e1rabe modernizado e poderoso.<\/p>\n<p>A alian\u00e7a entre as pot\u00eancias ocidentais e Israel \u00e9 funda-se portanto na base s\u00f3lida dos seus interesses comuns. Esta alian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 nem o produto dos sentimentos de culpa europeus pelo anti-semitismo e crimes nazis nem o da habilidade do &#8220;lobby judaico&#8221; em explorar tal sentimento. Se as Pot\u00eancias pensassem que o seu interesse eram prejudicado pelo expansionismo colonial sionista, elas rapidamente encontrariam o meios de ultrapassar o seu complexo de culpa de neutralizar este lobby. N\u00e3o duvido disto, nem estou entre aqueles que ingenuamente acreditam que a opini\u00e3o p\u00fablica nos pa\u00edses democr\u00e1ticos, tal como ela \u00e9, imponha as suas vis\u00f5es a estas Pot\u00eancias. Sabemos que a opini\u00e3o p\u00fablica tamb\u00e9m \u00e9 fabricada. Israel \u00e9 incapaz de resistir por mais do que uns poucos dias mesmo da moderadas medidas de um bloqueio tal como as pot\u00eancias ocidentais infligem \u00e0 Jugusl\u00e1via, Iraque e Cuba. N\u00e3o seria dif\u00edcil portanto trazer Israel ao bom senso e criar as condi\u00e7\u00f5es para uma paz verdadeira, se quisessem, o que n\u00e3o acontece.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s a derrota na guerra de 1967, o presidente do Egipto Anwar Sadat declarou que os Estados Unidos detinham &#8220;90 por certo das cartas&#8221; (express\u00e3o sua) e portanto era necess\u00e1rio romper com a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e reintegrar o campo ocidental. Ele afirmou que ao fazer isso podia conseguir que Washington exercesse suficiente press\u00e3o sobre Israel para lev\u00e1-lo ao bom senso. Al\u00e9m de tais ideias estrat\u00e9gicas peculiares a Sadat \u2014 cuja incoer\u00eancia tem sido demonstrada pelos acontecimentos \u2014 a opini\u00e3o p\u00fablica \u00e1rabe continuou em grande medida incapaz de compreender a din\u00e2mica da expans\u00e3o global do capitalismo, e menos ainda de identificar as suas verdadeiras contradi\u00e7\u00f5es e fraquezas. N\u00e3o se diz ainda que &#8220;Algum dia o ocidente entender\u00e1 que o seu interesse a longo prazo \u00e9 manter boas rela\u00e7\u00f5es com 200 milh\u00f5es de \u00e1rabes e preferir\u00e1 n\u00e3o sacrificar estas rela\u00e7\u00f5es para o apoio incondicional a Israel?&#8221; Implicitamente isto \u00e9 o mesmo que pensar que o \u201cOcidente\u201d em causa, que \u00e9 o centro imperial do capital, prefere um mundo \u00e1rabe moderno e desenvolvido em vez de querer manter o mundo \u00e1rabe subjugado, para o que \u00e9 manifestamente \u00fatil o apoio a Israel.<\/p>\n<p>A escolha feita pelos governos \u00e1rabes \u2013 \u00e0 excep\u00e7\u00e3o da S\u00edria e do L\u00edbano \u2013 que os levaram nas negocia\u00e7\u00f5es de Madrid e Oslo (1993) a subscrever o plano americano da ent\u00e3o chamada paz definitiva, n\u00e3o podia produzir resultados diferentes daqueles que j\u00e1 produzira: encorajar Israel a consolidar o seu projecto expansionista. Ao rejeitar hoje abertamente as condi\u00e7\u00f5es do contrato de Oslo, Ariel Sharon demonstra apenas o que j\u00e1 era claro na altura \u2013 que n\u00e3o se tratava de uma quest\u00e3o dum projecto para a paz definitiva, mas o come\u00e7o duma nova fase na expans\u00e3o colonial sionista.<\/p>\n<p>Israel e os poderes ocidentais que apoiaram este projecto impuseram um estado de guerra permanente na regi\u00e3o. Por seu lado, este estado de guerra permanente refor\u00e7a os regimes autocr\u00e1ticos \u00e1rabes. Este bloqueio de qualquer poss\u00edvel evolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica enfraquece as possibilidades duma revitaliza\u00e7\u00e3o do mundo \u00e1rabe, e refor\u00e7a assim a alian\u00e7a do capital dominante com a estrat\u00e9gia hegem\u00f3nica dos Estados Unidos. Fecha-se o c\u00edrculo: a alian\u00e7a israelo-americana serve perfeitamente os interesses dos dois parceiros.<\/p>\n<p>Parecia inicialmente que o sistema de apartheid instaurado ap\u00f3s 1967 seria capaz de atingir os seus objectivos \u2013 a gest\u00e3o da vida quotidiana nos territ\u00f3rios ocupados pelas tem\u00edveis elites e pela burguesia comercial, com a aceita\u00e7\u00e3o aparente do povo palestino. Do seu long\u00ednquo ex\u00edlio em Tunes, a OLP, afastada da regi\u00e3o ap\u00f3s a invas\u00e3o do L\u00edbano pelo ex\u00e9rcito israelense (1982), parecia j\u00e1 incapaz de questionar a anexa\u00e7\u00e3o sionista.<\/p>\n<p>A primeira Intifada explodiu em Dezembro de 1987. Expressou o repentino levantamento das classes populares e em especial dos seus segmentos mais pobres confinados aos campos de refugiados. A Intifada cortou o cord\u00e3o com o poder israelense ao organizar uma desobedi\u00eancia civil sistem\u00e1tica. Israel reagiu com brutalidade, mas n\u00e3o conseguiu restaurar o poder da sua pol\u00edcia nem voltar a dominar as tem\u00edveis classes m\u00e9dias palestinas. Pelo contr\u00e1rio, a Intifada exigia o regresso em massa das for\u00e7as pol\u00edticas exiladas, a constitui\u00e7\u00e3o de novas formas locais de organiza\u00e7\u00e3o, e a ades\u00e3o das classes m\u00e9dias a uma luta empenhada pela liberta\u00e7\u00e3o. A Intifada foi desencadeada por adolescentes,\u00a0<i>chebab al Intifada,\u00a0<\/i>inicialmente n\u00e3o enquadrados nas organiza\u00e7\u00f5es formais da OLP, mas nem por isso hostis a essas organiza\u00e7\u00f5es. As quatro componentes da OLP (a Fatah, fiel ao seu chefe Yasser Arafat, a Frente Democr\u00e1tica para a Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina, a Frente Popular para a Liberta\u00e7\u00e3o da Palestina e o Partido Comunista) empenharam-se na Intifada e conquistaram assim a simpatia da maior parte dos chebab. A Irmandade Mu\u00e7ulmana, com um papel secund\u00e1rio por causa da sua inactividade durante os anos precedentes, apesar de algumas ac\u00e7\u00f5es levadas a efeito pelo Jihad Isl\u00e2mico (que fez a sua apari\u00e7\u00e3o em 1980), refugiou-se numa nova express\u00e3o de luta \u2013 a Hamas, constitu\u00edda em 1988.<\/p>\n<p>Quando, ao fim de dois anos, a primeira Intifada deu sinais de esgotamento, e com uma repress\u00e3o israelense cada vez mais violenta (que incluiu o uso de armas de fogo contra crian\u00e7as e o fecho da linha verde para bloquear praticamente a \u00fanica fonte de rendimento dos trabalhadores palestinos), o cen\u00e1rio para as \u201cnegocia\u00e7\u00f5es\u201d estava montado. A iniciativa foi tomada pelos Estados Unidos, conduzindo primeiro \u00e0s conversa\u00e7\u00f5es de Madrid (1991) e depois aos assim chamados Acordos de Paz de Oslo (1993). Estes acordos permitiram o regresso da OLP aos territ\u00f3rios ocupados e a sua transforma\u00e7\u00e3o numa Autoridade palestina.<\/p>\n<p>Os acordos de Oslo idealizaram a transforma\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios ocupados em um ou mais bantust\u00f5es, integrados decisivamente na regi\u00e3o israelense. Dentro desta estrutura, a Autoridade palestina era apenas um falso estado \u2013 tal como nos bantust\u00f5es \u2013 e na realidade uma mera correia de transmiss\u00e3o da ordem sionista.<\/p>\n<p>Ao voltar para a Palestina, a OLP \u2013 agora a Autoridade palestina \u2013 conseguiu estabelecer a sua lei, mas n\u00e3o sem algumas ambiguidades. A autoridade absorveu na sua nova estrutura a maior parte dos chebab, que tinham coordenado a Intifada. Alcan\u00e7ou a legitimidade na consulta eleitoral de 1996, na qual os palestinos participaram em massa (80 por cento); uma esmagadora maioria elegeu Arafat presidente da autoridade. A autoridade manteve-se contudo numa posi\u00e7\u00e3o amb\u00edgua: aceitaria desempenhar as fun\u00e7\u00f5es que Israel, os Estados Unidos e a Europa lhe tinham destinado \u2013 a de serem governo dum bantust\u00e3o, ou alinharia com o povo palestino que recusava submeter-se?<\/p>\n<p>Como o povo palestino rejeitou o projecto bantust\u00e3o, Israel decidiu denunciar o acordo de Oslo, apesar de ter ditado o seu articulado, e substitui-lo pelo uso puro e simples da viol\u00eancia militar. A provoca\u00e7\u00e3o aos lugares santos de Jerusal\u00e9m engendrada pelo criminoso de guerra Sharon em 1998 (mas com a ajuda do governo trabalhista que forneceu os tanques), e a elei\u00e7\u00e3o triunfal desse mesmo criminoso para a chefia do governo israelense (com a colabora\u00e7\u00e3o do \u201cinocente\u201d Simon Peres com este governo), foram a causa da segunda Intifada que est\u00e1 em curso.<\/p>\n<p>Ter\u00e1 esta sucesso na liberta\u00e7\u00e3o do povo palestino do jugo ao apartheid sionista? \u00c9 demasiado cedo para o dizer. De qualquer modo, o povo palestino tem neste momento um verdadeiro movimento de liberta\u00e7\u00e3o nacional. Tem as suas especificidades pr\u00f3prias. N\u00e3o segue o modelo do estilo de homogeneidade de partido \u00fanico (embora a realidade dos estados de partido \u00fanico seja sempre mais complexa). Tem componentes que conservam a sua pr\u00f3pria personalidade, as suas perspectivas quanto ao futuro, incluindo as suas ideologias, os seus militantes e clientelas, mas que parecem saber como cooperar na lideran\u00e7a da luta.<\/p>\n<p><b>O projecto americano para o M\u00e9dio Oriente\u00a0<\/b><\/p>\n<p>O desgaste dos regimes do nacionalismo populista e o desaparecimento do apoio sovi\u00e9tico deram aos Estados Unidos a oportunidade de implementar o seu projecto para a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O controlo do M\u00e9dio Oriente \u00e9 de facto uma pedra angular do projecto de Washington para a hegemonia global. Ent\u00e3o como \u00e9 que os Estados Unidos prev\u00eaem assegurar esse controlo? J\u00e1 passou uma d\u00e9cada desde que Washington tomou a iniciativa de avan\u00e7ar com o estranho projecto dum \u201cMercado Comum do M\u00e9dio Oriente\u201d no qual alguns pa\u00edses do Golfo P\u00e9rsico forneciam o capital enquanto outros pa\u00edses \u00e1rabes forneciam m\u00e3o de obra barata, ficando reservado a Israel o controlo tecnol\u00f3gico e as fun\u00e7\u00f5es de intermedi\u00e1rio privilegiado e agradecido. Aceite pelos pa\u00edses do Golfo e pelo Egipto, o projecto foi no entanto confrontado com a recusa da S\u00edria, do Iraque e do Ir\u00e3o. Era pois necess\u00e1rio derrubar estes tr\u00eas regimes para que o projecto avan\u00e7asse. O que j\u00e1 est\u00e1 a ser feito no Iraque.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o agora \u00e9 qual o tipo de regime pol\u00edtico que deve ser instaurado por forma a dar sustenta\u00e7\u00e3o ao projecto. O discurso propagand\u00edstico de Washington fala de \u201cdemocracias.\u201d Na realidade, Washington apressa-se a simplesmente substituir as assim chamadas autocracias obscurantistas isl\u00e2micas pelas desgastadas autocracias do populismo fora de moda (mascarando a opera\u00e7\u00e3o com baboseiras acerca do seu respeito pela especificidade cultural das comunidades). A alian\u00e7a renovada com o assim chamado Isl\u00e3o politicamente moderado (um que seja capaz de controlar a situa\u00e7\u00e3o com efic\u00e1cia bastante para impedir os movimentos terroristas \u2013 definindo como \u201cterroristas\u201d as amea\u00e7as dirigidas contra, e somente contra, os Estados Unidos) constitui agora o eixo da op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Washington. \u00c9 nesta perspectiva que dever\u00e1 ser encontrada a reconcilia\u00e7\u00e3o com a antiquada autocracia do sistema social do M\u00e9dio Oriente.<\/p>\n<p>Confrontados com o desenvolvimento do projecto americano, os europeus inventaram o seu pr\u00f3prio projecto, baptizado de \u201cParceria euro-mediterr\u00e2nica.\u201d Um projecto decisivamente cobarde \u2013 atafulhado de conversa incoerente que, claro, tamb\u00e9m propunha reconciliar os pa\u00edses \u00e1rabes com Israel. A exclus\u00e3o dos pa\u00edses do Golfo do di\u00e1logo euro-mediterr\u00e2nico reconhecia que a gest\u00e3o e o controlo destes \u00faltimos pa\u00edses era da exclusiva responsabilidade de Washington.<\/p>\n<p>O agudo contraste entre a aud\u00e1cia destemida do projecto americano e a debilidade do projecto europeu \u00e9 um bom indicador de que n\u00e3o h\u00e1 lugar para um verdadeiro atlantismo com igualdade de responsabilidade e de associa\u00e7\u00e3o quanto \u00e0s decis\u00f5es que coloquem os Estados Unidos e a Europa em p\u00e9 de igualdade. Tony Blair, que se instituiu a si pr\u00f3prio advogado da constru\u00e7\u00e3o de um mundo unipolar, julga que pode justificar esta op\u00e7\u00e3o com o argumento de que o atlantismo seria fundado nessa suposta colabora\u00e7\u00e3o. A arrog\u00e2ncia de Washington revela todos os dias que esta expectativa \u00e9 ilus\u00f3ria, se \u00e9 que n\u00e3o foi desde o in\u00edcio uma tentativa de m\u00e1 f\u00e9 para enganar a opini\u00e3o europeia. O realismo da declara\u00e7\u00e3o de Estaline de que os nazis \u201cn\u00e3o sabiam quando \u00e9 que deviam parar\u201d aplica-se exactamente aos que controlam os Estados Unidos. Blair invoca expectativas que lembram as depositadas na suposta capacidade de Mussolini para deter Hitler.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 poss\u00edvel outra op\u00e7\u00e3o europeia? Ter\u00e1 j\u00e1 come\u00e7ado a ganhar forma? Ser\u00e1 que o discurso de Chirac opondo-se ao mundo \u201cAtl\u00e2ntico unipolar\u201d (que aparentemente ele considera ser de facto sin\u00f3nimo de hegemonia unilateral dos Estados Unidos) anuncia a constru\u00e7\u00e3o de um mundo multi-polar e o fim do atlantismo? Para que esta possibilidade se torne uma realidade, \u00e9 necess\u00e1rio que a Europa se liberte primeiro do p\u00e2ntano em que se debate e se afunda.<\/p>\n<p><b>5. O PROJECTO EUROPEU: ATOLADO NO P\u00c2NTANO LIBERAL<\/b><\/p>\n<p>Todos os governos dos estados europeus foram conquistados pelas teses do liberalismo. Esta arregimenta\u00e7\u00e3o dos estados europeus traduz simplesmente o desaparecimento do projecto europeu por um duplo enfraquecimento, o econ\u00f3mico (as vantagens da uni\u00e3o econ\u00f3mica europeia desfizeram-se com a globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica) e o pol\u00edtico (a autonomia pol\u00edtica e militar europeia desapareceu). Neste momento n\u00e3o existe qualquer projecto europeu. Foi substitu\u00eddo por um projecto Atl\u00e2ntico Norte (ou mesmo da tr\u00edade) sob o controlo americano.<\/p>\n<p>Depois da Segunda Guerra Mundial, a Europa ocidental conseguiu compensar o seu atraso econ\u00f3mico e tecnol\u00f3gico vis-\u00e0-vis os Estados Unidos. Depois de 1989, desapareceu a amea\u00e7a sovi\u00e9tica tal como desapareceram as desgra\u00e7as que marcaram a hist\u00f3ria da Europa durante os \u00faltimos cento e cinquenta anos: os tr\u00eas maiores pa\u00edses do continente \u2013 a Fran\u00e7a, a Alemanha e a R\u00fassia \u2013 reconciliaram-se. Todos estes acontecimentos s\u00e3o, quanto a mim, positivos e ricos de ainda maior potencial. Claro que est\u00e3o empilhados numa base econ\u00f3mica reestruturada dentro dos princ\u00edpios do liberalismo. No entanto este liberalismo foi moderado at\u00e9 \u00e0 d\u00e9cada de 80 pelo compromisso hist\u00f3rico social-democrata que for\u00e7ou o capital a ajustar-se \u00e0s exig\u00eancias da justi\u00e7a social expressas pelas classes trabalhadoras. Depois disso, o desenvolvimento continuou num novo quadro social inspirado pelo liberalismo anti-social, no estilo americano.<\/p>\n<p>Esta \u00faltima reviravolta mergulhou as sociedades europeias numa crise multidimensional. Essencialmente \u00e9 uma crise econ\u00f3mica que resulta, pura e simplesmente, da escolha liberal. A crise foi agravada pelos pa\u00edses europeus que alinharam com as exig\u00eancias econ\u00f3micas da lideran\u00e7a americana: o consentimento da Europa em continuar a financiar o d\u00e9fice americano em detrimento dos seus pr\u00f3prios interesses. Depois h\u00e1 a crise social, que \u00e9 acentuada pelo aumento das oposi\u00e7\u00f5es e lutas das classes populares contra as consequ\u00eancias fatais da op\u00e7\u00e3o liberal. Finalmente, h\u00e1 o come\u00e7o duma crise pol\u00edtica \u2013 a recusa de alinhar, pelo menos incondicionalmente, com a exig\u00eancia americana de uma guerra sem fim contra o Sul.<\/p>\n<p>As guerras made-in-USA abalaram obviamente a opini\u00e3o p\u00fablica (a \u00faltima guerra no Iraque teve esse efeito de uma forma global) e at\u00e9 mesmo alguns governos, inicialmente o da Fran\u00e7a e depois tamb\u00e9m os da Alemanha, da R\u00fassia e da China. O que \u00e9 verdade \u00e9 que esses mesmos governos n\u00e3o puseram em d\u00favida o seu fiel alinhamento com as necessidades do liberalismo. Esta importante contradi\u00e7\u00e3o ter\u00e1 que ser resolvida de uma forma ou de outra, seja pela submiss\u00e3o \u00e0s exig\u00eancias de Washington seja por uma verdadeira rotura que ponha fim ao atlantismo.<\/p>\n<p>A principal conclus\u00e3o pol\u00edtica que tiro desta an\u00e1lise \u00e9 que a Europa n\u00e3o pode ir al\u00e9m do atlantismo enquanto as alian\u00e7as pol\u00edticas que definem os blocos que det\u00eam o poder se mantiverem centradas no capital multinacional dominante. S\u00f3 se as lutas sociais e pol\u00edticas conseguirem modificar o conte\u00fado destes blocos, e impor novos compromissos hist\u00f3ricos entre o capital e o trabalho, \u00e9 que a Europa conseguir\u00e1 distanciar-se de Washington, permitindo uma poss\u00edvel revitaliza\u00e7\u00e3o dum projecto europeu. Nestas condi\u00e7\u00f5es a Europa tamb\u00e9m poderia \u2013 deveria mesmo \u2013 envolver-se a n\u00edvel internacional nas rela\u00e7\u00f5es com o leste e o sul, seguindo um caminho diferente do que o tra\u00e7ado pelas exig\u00eancias exclusivas do imperialismo colectivo. Um percurso assim seria o come\u00e7o da sua participa\u00e7\u00e3o na longa caminhada para l\u00e1 do capitalismo. Por outras palavras, a Europa ou ser\u00e1 de esquerda (a palavra esquerda deve ser levada a s\u00e9rio) ou n\u00e3o ser\u00e1 nada.<\/p>\n<p><b>Notas<\/b><br \/>\n[1] Samir Amin,\u00a0<i>Class and Nation\u00a0<\/i>(New York: NYU Press, 1981); Samir Amin,\u00a0<i>Eurocentrism,\u00a0<\/i>(New York: Monthly Review Press, 1989); Samir Amin,\u00a0<i>Obsolescent Capitalism\u00a0<\/i>(London: Zed Books, 2003); Samir Amin,\u00a0<i>The Liberal Virus\u00a0<\/i>(New York, Monthly Review Press, 2004).<br \/>\n[2] A leitura de \u201csucess\u00e3o de hegemonias\u201d \u00e9 \u201cocidente-c\u00eantrica\u201d no sentido em que considera que as transforma\u00e7\u00f5es que se desenrolam no cora\u00e7\u00e3o do sistema comandam a evolu\u00e7\u00e3o global do sistema dum modo decisivo e praticamente exclusivo. As reac\u00e7\u00f5es das popula\u00e7\u00f5es das periferias ao desenvolvimento imperialista n\u00e3o deve ser subestimado. A independ\u00eancia das Am\u00e9ricas, as grandes revolu\u00e7\u00f5es feitas em nome do socialismo (R\u00fassia e China), e a reconquista da independ\u00eancia dos pa\u00edses asi\u00e1ticos e africanos, constitu\u00edram provoca\u00e7\u00f5es ao sistema feitas pelas periferias. E n\u00e3o acredito que se possa explicar a hist\u00f3ria do capitalismo mundial sem explicar os ajustamentos que essas transforma\u00e7\u00f5es impuseram mesmo ao pr\u00f3prio capitalismo central. Tamb\u00e9m porque a hist\u00f3ria do imperialismo me parece ter sido modelada mais atrav\u00e9s do conflito de imperialismos do que pelo tipo de ordem que as sucessivas hegemonias impuseram. Os aparentes per\u00edodos de hegemonia foram sempre extremamente curtos e a dita hegemonia muito relativa.<br \/>\n[3] Emmanuel Todd,\u00a0<i>After the Empire: The Breakdown of the American Order\u00a0<\/i>(New York: Columbia University Press, 2003).<br \/>\n[4] Office of the White House,\u00a0<i>The National Security Strategy of the United States,\u00a0<\/i>Setembro 2002,\u00a0http:\/\/www.whitehouse.gov\/nsc\/<wbr \/>nss.html.<\/p>\n<p><b>[*]\u00a0Samir Amin \u00e9 director do F\u00f3rum do Terceiro Mundo em Dakar, no Senegal. Entre os seus livros mais recentes encontram-se<i>Contemporary Politics and Global Disorder\u00a0<\/i>(Zed Books, 2004) e\u00a0<i>The Liberal Virus: Permanent War and the Americanization of the World<\/i>(Monthly Review Press, 2004). Este artigo \u00e9 um resumo de \u201cThe U.S. Imperialism and the Middle East\u201d de Pratyush Chandra, Anuradha Ghosh, and Ravi Kumar, eds.,\u00a0<i>The Politics of Imperialism and Counterstrategies\u00a0<\/i>(Delhi, India: Aakar Books, 2004). U.S. Imperialism, Europe, and the Middle East\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>O original encontra-se no vol. 56, n\u00ba 6, Nov\/2004 da\u00a0Monthly Review\u00a0.<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o de Margarida Ferreira.\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>Este ensaio encontra-se em\u00a0http:\/\/resistir.info\/\u00a0.<\/b><\/p>\n<hr \/>\n<p>https:\/\/gz.diarioliberdade.org\/artigos-em-destaque\/item\/244676-faleceu-em-paris-o-marxista-egipcio-samir-amin-aos-86-anos-de-idade.html<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/20519\"> <\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[50],"tags":[222],"class_list":["post-20519","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-c61-cultura-revolucionaria","tag-2b"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p659gw-5kX","jetpack-related-posts":[],"jetpack_likes_enabled":true,"jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20519","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20519"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20519\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20519"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20519"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/pcb.org.br\/portal2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20519"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}